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::C:: "Somente a área de ciência e tecnologia permite ao país dar saltos produtivos"

Gilberto Câmara, diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) desde 2005, foi reeleito em 2009 para o segundo mandato de quatro anos. Formado em Computação e Engenharia Eletrônica, envolveu-se em diversos projetos importantes conduzidos pelo Inpe, como o desenvolvimento dos sistemas PRODES e DETER, utilizados para o monitoramento e o controle do desmatamento da floresta amazônica, e a instauração de uma política de livre acesso aos dados do instituto sobre desflorestamento e às imagens captadas pelo satélite CBERS, desenvolvido em parceria com a China. 
Em entrevista exclusiva à revista valeparaibano, concedida no ano do cinquentenário do instituto, Gilberto Câmara fala de suas expectativas sobre o futuro da ciência e da tecnologia no Brasil com a chegada do governo de Dilma Rousseff, faz um balanço das atividades desenvolvidas pelo Inpe, como o monitoramento por satélite das florestas tropicais, os estudos sobre mudanças climáticas, a previsão do tempo, ou ainda o lançamento do próximo CBERS, previsto para o terceiro trimestre deste ano, faz um alerta sobre a necessidade de combater o aquecimento global, e ressalta a crescente importância da tecnologia espacial no mundo de hoje.

Como você vê a eleição de Dilma Rousseff à Presidência da República? O que você espera do novo governo? Você acredita que haverá um maior investimento nas áreas de ciência e tecnologia? 
< Dilma manifestou a intenção de elevar de 1% para 1,8% do PIB, ou seja, praticamente multiplicar por dois, o orçamento público para as áreas de ciência e tecnologia. Hoje, o PIB do Brasil é equivalente a R$ 700 bilhões, o que significa que o Ministério de Ciência e Tecnologia tem um orçamento anual de R$ 7 bilhões. A intenção de Dilma é elevar este orçamento para R$ 13 bilhões. Dilma está ciente de que a produção de um Brasil moderno depende de um investimento de longo prazo em ciência e tecnologia. Países desenvolvidos como Estados Unidos, França, Alemanha, Suécia e Japão, e nações emergentes, como a China, dedicam uma parcela importante de seu PIB ao setor. Na Suécia e na França, o orçamento público para a ciência e a tecnologia representa 3% do PIB. Nos Estados Unidos, este percentual é de 2,5%. Somente a área de ciência e tecnologia permite a um país dar saltos de produtividade no longo prazo. Os investimentos em saúde, educação ou segurança são importantes, mas não permitem estes saltos econômicos.

Em sua opinião, como vai evoluir a política brasileira sobre o meio ambiente? Você acredita que a nova presidente se empenhará em conter o desmatamento na Amazônia, mesmo que seja em detrimento do desenvolvimento econômico do país?
< Qualquer governante tem que arbitrar esta tensão entre desenvolvimento e meio ambiente. Dilma terá que administrar as pressões dos dois lados. Porém, nos últimos anos, o Brasil conseguiu estabelecer alguns consensos. Um deles é a proteção da Amazônia. Hoje, ninguém é a favor do desmatamento da Amazônia. Dilma vai seguir as metas do governo de Lula no que toca à luta contra o desmatamento. Outro consenso é sobre o fato de que o Brasil tem que ser um país movido à energia verde. A matriz energética brasileira tem que vir de fontes renováveis. Apesar destes consensos gerais, conflitos existem, principalmente no caso da produção hidrelétrica. As usinas hidrelétricas, como a de Belo Monte, são uma fonte de energia renovável, porém com sérios impactos no meio ambiente. A nova presidente terá que arbitrar estes conflitos.

Você diria que o monitoramento de florestas tropicais por satélite é hoje a atividade mais importante desempenhada pelo Inpe?
< Não, é apenas uma delas. Talvez seja a que tem maior visibilidade na mídia, mas o Inpe desempenha cinco ou seis missões de alcance nacional, todas de igual importância. Além do monitoramento do território brasileiro, temos a previsão do tempo, as pesquisas científicas espaciais, o estudo das mudanças climáticas... Espaço e meio ambiente são interligados: os satélites de observação são uma ferramenta imprescindível para a proteção do meio ambiente.

Qual é atualmente o programa mais eficiente no controle do desmatamento da Amazônia? O PRODES ou o DETER? Quais são as principais vantagens e deficiências de cada um?
< O PRODES é mais detalhado, mas seus resultados saem apenas uma vez por ano. O DETER é mais dinâmico, permite a obtenção de dados atualizados a cada 15 dias. Estes dados são transmitidos para o Ibama, que os utiliza para conduzir operações de fiscalização. Assim, o DETER é o mais eficiente dos dois sistemas no que se refere ao controle do desmatamento. O problema do DETER é que ele permite visualizar apenas grandes áreas (o sistema permite detectar apenas desmatamentos com área superior a 25 hectares), mas estamos trabalhando para torná-lo mais preciso.

O Brasil é o único país do mundo a monitorar sistematicamente suas florestas por satélite. Hoje, o Inpe quer exportar esta tecnologia para outros países. Alguns já manifestaram interesse? Quais?
< O INPE fez um acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) para transferir a tecnologia brasileira a países da África e da América Latina que têm florestas tropicais, como Camarões, Gabão, Angola e República Democrática do Congo (RDC), Colômbia, Peru, Venezuela e Guiana. O objetivo é ensinar estes países a desenvolverem seus próprios PRODES e DETER.

A Embrapa quer desenvolver uma tecnologia semelhante à do Inpe para monitorar do espaço a expansão e a produtividade da agropecuária. O que você acha deste projeto?
< É um projeto muito importante. A Embrapa é um órgão de alto nível, e é imprescindível que utilize a tecnologia espacial. Na verdade, todos os órgãos deveriam usá-la. É um elemento de informação fundamental. Nosso objetivo é que a tecnologia espacial faça parte do dia a dia do maior número possível de órgãos e pessoas. A popularização dos GPS e de ferramentas como o Google Earth está contribuindo muito para a disseminação desta tecnologia. Há quatro anos, ninguém sabia o que era um GPS. Hoje, todos os carros têm.

Para quando está previsto o lançamento do CBERS-3? Quais são as grandes diferenças entre este novo satélite e os anteriores?
< O lançamento do CBERS-3 está previsto para outubro de 2011. Metade dele é fabricada no Brasil. Nos anteriores, esta proporção era de apenas um terço. O CBERS-3 tem quatro câmeras digitais, duas brasileiras e duas chinesas. Os outros CBERS tinham apenas três, sendo duas chinesas e uma brasileira. E no CBERS-3, a câmera principal é de fabricação brasileira.

Como está indo a colaboração com a China? Você diria que o gigante asiático é hoje o principal parceiro estratégico do Inpe no exterior?
< A China é um parceiro importante, mas não é o único. Hoje, o Inpe procura dar ênfase à cooperação com dois países: os Estados Unidos e a Argentina. Os americanos têm o maior programa espacial do mundo, e o país está mais aberto à colaboração internacional desde a chegada de Barack Obama ao poder. Já a Argentina é nosso maior parceiro regional. 
O programa espacial deles é pequeno, mas de boa qualidade. O programa espacial da China, que era muito reduzido no início de nossa cooperação, em 1988, é hoje sete ou oito vezes maior que o do Brasil. Nosso programa tem ambições civis e científicas, enquanto os chineses também têm ambições militares. A China é uma potência militar. O Brasil não é, e nem quer ser.

O Inpe defende que todos os países do mundo divulguem gratuitamente as imagens por satélite de seus territórios respectivos. Isso não poderia representar uma ameaça para a segurança de países em guerra, como, por exemplo, os Estados Unidos?
< É claro que as considerações relativas à segurança têm de ser levadas em conta e, se for o caso, prevalecer sobre o compartilhamento de dados. No entanto, a distribuição gratuita de imagens gera benefícios imensos. Aliás, o volume de informações que os Estados Unidos seguram é infinitamente menor que o das informações que eles disponibilizam. A liberdade de informação é um parâmetro fundamental da democracia. Países como a China e a Rússia são muito mais restritivos que os Estados Unidos.

O Inpe também trabalha sobre o impacto das mudanças climáticas. Como este impacto será sentido pela população mundial?
< Já passamos do ponto em que poderíamos ter limitado a 2º C o aumento da temperatura do planeta em 2100. De qualquer maneira, independentemente das providências tomadas pelos governos, este aumento será superior. Porém, se nada for feito em relação às emissões de gases de efeito estufa, a temperatura do planeta poderá até registrar um aumento de 6º C em 2100, o que provocará uma catástrofe global. Os ecossistemas tropicais e boreais serão os mais atingidos. Assistiremos à morte parcial da floresta amazônica, ao desaparecimento total do gelo no Ártico durante o verão, ao crescimento da área desértica no Saara e ao derretimento de geleiras na Groenlândia que poderá modificar profundamente o clima na Europa, tornando os invernos muito mais rigorosos. Os Estados Unidos e a China são os principais responsáveis por esta situação. As eleições legislativas organizadas recentemente nos Estados Unidos não foram favoráveis a uma mudança de comportamento. Muitos democratas da Câmara dos Representantes e do Senado foram substituídos por conservadores que negam os efeitos do aquecimento global.

Quais são os principais projetos do Inpe para 2011, ano do cinquentenário do instituto? 
< Esperamos grandes avanços para o ano que vem. Definimos diversas metas em nossas principais áreas de atuação. No início do ano, nosso supercomputador para a previsão do tempo (o Tupã, considerado o sistema computacional mais poderoso do hemisfério sul), instalado em Cachoeira Paulista, começará a operar. Em outubro, haverá o lançamento do CBERS-3. Também temos como objetivos ampliar nossa capacidade de monitoramento ambiental na Amazônia e no cerrado, bem como a cooperação internacional no monitoramento das florestas tropicais. 

http://www.valeparaibano.com.br/jornal_vp_revista/f?p=189:101:2870209655528371::NO:101:P101_ID_NOTICIA:14907
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Henrique dos Santos

SJCampos / SP

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