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[MISTURANDO-IDEIAS] Livros Loureiro: Hipnotismo Prático - Ernest Roth

HIPNOTISMO PRÁTICO
ERNEST TOTH


ÍNDICE

PREFÁCIO ......................................................................................
TEORIAS SOBRE O HIPNOTISMO.................................................
O MÉTODO DE HIPNOTISMO DE BRAID ....................................
MÉTODO DE HIPNOTISMO DO DR. LIÉBAULT ...........................
HIPNOTISMO PELO MÉTODO DE FASCINAÇÃO ........................
MÉTODO SUGESTIVO DE HIPNOTISMO ......................................
O HIPNOTISMO NAS MOLÉSTIAS ...............................................
USOS DO HIPNOTISMO ...............................................................
ILUSÕES E ALUCINAÇÕES ...........................................................
AUTOSSUGESTÃO ........................................................................
SUGESTÃO HIPNÓTICA .............................................................
SUGESTÃO TELEPÁTICA ...........................................................
SUGESTÃO PÓS-HIPNÓTICA .....................................................
OS PERIGOS DO HIPNOTISMO ..................................................
O HIPNOTISMO PELA PRÁTICA CIENTÍFICA ...........................
PRÁTICAS DIVERSAS .................................................................
COMO FAZER UMA PESSOA CAIR PARA FRENTE OU PARA
TRÁS ....
COMO FAZER UMA PESSOA JUNTAR AS MÃOS
COMO FAZER UMA PESSOA ESQUECER SEU NOME ..................
COMO TORNAR RIJA A PERNA ..........................................................
OUTROS MÉTODOS ...................................................................
MÉTODO DE HIPNOTISMO DE FLOWER ........................................
HIPNOTISMO INSTANTÂNEO .........................................................
COMO ACORDAR UM PACIENTE .............................................
COMO HIPNOTIZAR ANIMAIS .................................................



COMO HIPNOTIZAR UM POMBO ...................................................
COMO HIPNOTIZAR UM GALO DE BRIGA .......................................
COMO HIPNOTIZAR UM CANÁRIO OU OUTRAS AVES
ENGAIOLADAS
COMO HIPNOTIZAR CÃES, GATOS OU COELHOS ........................
NOTAS DO DIGITALIZADOR ................................................


PREFÁCIO

ESFORÇAMO-NOS seriamente, nas páginas seguintes, por dizer
tudo acerca do hipnotismo, o que é, o que pode conseguir e como
aprender a hipnotizar. Este livro está repleto de informações muito
valiosas, e achareis que ele realmente contém mais sobre o assunto
do que muitos volumes vendidos mais caro.

Lembrai-vos, em vossas experiências, de uma coisa — o hipnotismo
consiste apenas em colocar o indivíduo numa condição em que ele
está mais disposto a aceitar sugestões do que em sua vida normal.
Depois de o terdes colocado nessa condição, o que, na maioria dos
casos é afinal muito simples, o resto está em vossas mãos. Deveis
usar vosso próprio critério, vosso próprio bom senso, quanto às
melhores sugestões a serem feitas. Um homem será bem sucedido e
outro fracassará como hipnotizador, porque um sabe o que sugerir e
outro não o sabe.


TEORIAS SOBRE O HIPNOTISMO


Há muitas teorias antigas relativas ao hipnotismo, mas
explicaremos somente as mais importantes.
Embora muitos homens de ciência falassem de magnetismo e
compreendessem que havia um poder de uma espécie peculiar que
um homem podia exercer sobre outro, não foi senão quando Franz
Anton Mesmer, médico de Viena, apareceu em 1775, que o público
em geral deu alguma atenção especial ao assunto. Nesse ano
Mesmer enviou uma carta circular a várias sociedades científicas, ou
Academias. como são chamadas na Europa, declarando sua
convicção de que o magnetismo animal existia, e que por meio dele
um homem poderia influenciar outro. Nenhuma atenção foi
dispensada à sua carta, exceto pela Academia de Berlim, que lhe
deu uma resposta desfavorável.

Em 1778 Mesmer foi obrigado, por alguma razão desconhecida, a
deixar Viena e foi a Paris, onde teve a sorte de converter às suas
ideias o médico do Conde de Artois, d'Elson, e um dos professores
da Faculdade de Medicina. Seu sucesso foi enorme; todos estavam
ansiosos por serem magnetizados, e o afortunado médico vienense
em breve foi obrigado a solicitar assistentes. Deleuze, o bibliotecário
do Jardim das Plantas, que foi chamado o Hipócrates do
magnetismo, deixou o seguinte relato das experiências de Mesmer:

"No meio de uma grande sala achava-se uma tina de carvalho, de
quatro ou cinco pés de diâmetro1 e de um pé de profundidade2. Era
fechada por uma tampa dividida em duas partes, e encaixada em
outra tina ou cuba.
No fundo da tina algumas garrafas estavam dispostas em fileiras
convergentes, de maneira que o gargalo de cada uma delas ficava
voltado para o centro. Outras garrafas cheias de água magnetizada,


hermeticamente arrolhadas, estavam colocadas em fileiras
divergentes com os gargalos voltados para fora. Quando várias
séries de garrafas estavam assim empilhadas, o aparelho era
considerado em estado de "alta pressão". A tina estava cheia
d'água, na qual de vez em quando se adicionavam vidro em pó e
limalhas de ferro. Havia também algumas tinas secas, preparadas
da mesma maneira, mas sem que lhes pusessem água. A tampa era
perfurada para permitir a passagem de hastes curvas móveis, que
podiam ser aplicadas a diferentes partes do corpo do paciente. Uma
corda comprida estava também segura a uma argola, na tampa, a
qual os pacientes colocavam frouxamente em torno de seus
membros. Não era tratada nenhuma enfermidade repulsiva, como
chagas ou deformidades".

1 Quatro pés equivalem a 121,92 centímetros. Cinco pés equivalem a
152,4 centímetros (medida aproximada). Nota do Digitalizador SMJ.

2 Um pé equivale a 30,48 centímetros (medida aproximada). SMJ.

Os enfermos eram quase sempre tratados em grupos. Submetendo-
se a vários movimentos e exercícios, os pacientes eram considerados
como curados pelos efeitos magnéticos, ou Magnetismo Animal.
como é chamado.

Foi somente em 1779 que Mesmer publicou um panfleto referente às
descobertas do magnetismo animal e a algumas de suas teorias. Eis
como expunha suas conclusões:

"Há uma ação e reação recíprocas ente os planetas, a Terra e a
natureza, por intermédio de um constante fluido universal, sujeito a
leis mecânicas ainda desconhecidas. O corpo animal é diretamente


afetado pela insinuação deste agente na substância dos nervos. Dito
agente causa em corpos humanos propriedades análogas às do ímã,
motivo por que é chamado „Magnetismo Animal..
Este magnetismo pode ser transmitido a outros corpos, pode ser
aumentado e refletido por espelhos, comunicado, propagado, e
acumulado pelo som. Pode ser acumulado, concentrado e
transportado. As mesmas regras se aplicam à propriedade contrária.
O ímã é suscetível de magnetismo e de propriedade oposta. O ímã e
a eletricidade artificial têm, com referência à moléstia, propriedades
comuns a uma multidão de outros agentes que a natureza nos
apresenta, e se o uso destes for seguido de resultados úteis, são
devidos ao magnetismo animal.
Com o auxílio do magnetismo, então o médico esclarecido quanto
ao emprego da medicina pode tornar sua ação mais perfeita, além
de provocar e dirigir crises salutares3 de modo a tê-las
completamente sob seu controle".


3 SALUTAR: adj. Bom, conveniente para a saúde. [Minidicionário
Compacto da Língua Portuguesa Ed. Rideel]. SMJ.


4 Hoje em dia, isso é chamado de .Toque de Charcot., e é motivo de
discórdia entre os hipnotizadores. SMJ.


5 CATALEPSIA: sf. Estado em que se observa rigidez dos músculos,
permanecendo o paciente na posição em que é colocado. §
ca.ta.lép.ti.co
adj. [Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.81]. SMJ.


Esta teoria tem sido refutada de tempos em tempos.
Todavia, há ainda um enorme número de pessoas que acreditam
neste fenômeno.



A segunda teoria de importância foi enunciada por Charcot.
Conforme Charcot, o hipnotismo pode ser produzido por meios
puramente físicos, tais como pressões em certas partes do corpo4,
podendo um indivíduo ser hipnotizado sem seu conhecimento ou
permissão. Esta escola põe grande ênfase na divisão dos fenômenos
hipnóticos em três estágios: o cataléptico, o letárgico e o
sonambúlico. Charcot acreditava que o estágio cataléptico5 podia
ser produzido por um forte ruído repentino, ou ser motivado,
abrindo-se os olhos a uma pessoa que estivesse em estado letárgico,
forçando-a a olhar uma luz intensa. Um paciente neste estado
manterá todas as posições em que colocarmos seus membros, mas o
operador pode facilmente mudar a posição. Não há nenhuma
rigidez, nenhuma dureza.

O estado letárgico6 pode ser produzido primariamente pela fixação
da atenção, ou se um indivíduo estiver em estado cataléptico pode
passar a letárgico cerrando-se-lhe os olhos. Nessa condição ele está
inconsciente e não é facilmente susceptível às influências externas.
Os membros caem por seu próprio peso e ele está num estado muito
semelhante ao sono.

6 LETARGIA: sf. 1. med. Estado patológico em que há diminuição
do
nível de consciência, e caracterizado por indiferença, sonolência e
apatia.

2. Sono profundo; letargo. 3. Indiferença, apatia; letargo. §
le.tár.gi.co adj.
[Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.81]. SMJ.
7 SONAMBULISMO: sm. med. Estado de automatismo
ambulatório, que
ocorre durante o sono, e em que o indivíduo realiza atos mais ou
menos


coordenados e dos quais, quando desperta, não se recorda.
[Miniaurélio
Eletrônico versão 5.12.81]. SMJ.


O estado de sonambulismo7 pode ser produzido em algumas
pessoas por meio da atenção fixa e, afirma-se, pode ser causado
inteiramente pela fricção do alto do crânio de um indivíduo em
estado letárgico ou cataléptico. Os olhos, neste estado, estão
cerrados. Ou meio cerrados, e a pessoa agirá em muitos casos em
resposta às sugestões que lhe forem dadas.


Estes três estágios, que são descritos detalhadamente pela escola de
Salpêtrière, onde professava Charcot, aos quais se dá grande
importância, não parecem ocorrer espontaneamente nas
experiências de outras escolas.


Bernheim, que é o chefe da Escola de Nancy, crê que no hipnotismo
toda a força nervosa está concentrada em uma ideia. A atenção pode
ser mudada de um ponto para outro, de acordo com sugestões do
operador, mas embora o objetivo da atenção possa ser alterado, a
concentração existe. A escola de Nancy acredita praticamente que a
sugestão explica tudo. Afirma que a hipnose é produzida pela
sugestão somente, e que o hipnotismo se processa melhor em
pessoas fortes e de boa saúde.


Verifica-se que as três teorias acima descritas apresentam grande
variação de uma para outra. Quem estuda o hipnotismo terá que
tirar uma conclusão por si próprio, enquanto investiga os fatos.
Possivelmente descobrirá que a verdadeira teoria é uma
combinação das três que acabamos de expor. O hipnotismo é
certamente um fenômeno complexo e seria temerário explicá-lo em
uma sentença, em um parágrafo, ou mesmo em um volume inteiro.



O MÉTODO DE HIPNOTISMO DE BRAID


A um médico inglês que devemos o caráter científico do moderno
hipnotismo. De fato ele inventou o nome de hipnotismo, derivado
da palavra grega hypnos, que significa sono. Seu nome é James
Braid, e tão importantes foram os resultados de seus estudos que o
hipnotismo tem sido chamado às vezes de Braidismo.

Em novembro de 1841 Braid testemunhou uma experiência pública
realizada por Monsieur Lafontaine, um magnetizador suíço. Pensou
que tudo fosse uma comédia; uma semana depois assistiu a uma
segunda exibição, e vendo que o paciente não podia abrir os olhos,
concluiu que isto era devido a alguma causa física. A fixidez do
olhar devia, conforme ele, cansar os centros nervosos dos olhos e
suas proximidades. Fez com que um amigo olhasse firmemente
para o gargalo de uma garrafa, e que sua esposa olhasse para o
ornato da tampa de um açucareiro de porcelana; o resultado foi o
sono. Assim teve o hipnotismo sua origem e ficou positivado que o
sono podia ser produzido por agentes físicos. Isto, deve-se lembrar,
é a diferença essencial entre estas duas classes de fenômenos:
magnetismo e hipnotismo; pois o magnetismo implica uma ação direta
do magnetizador, uma ação que não existe no hipnotismo.

Braid descobrira uma nova ciência — tanto quanto se refira ao
ponto de vista teórico, é claro, pois demonstrou que o hipnotismo é
em grande parte, se não inteiramente, mecânico e físico. Notou que
numa fase do hipnotismo, conhecida como catalepsia, os membros
podiam permanecer em qualquer posição em que fossem colocados;
observou também que um sopro comumente acordava uma pessoa
e que se falando a esta, dizendo-lhe para fazer isto ou aquilo,
mesmo depois que despertasse do sono podia se levada a praticar o
que se lhe ordenasse. Braid pensou que ele pudesse afetar certa
parte do cérebro durante o sono hipnótico, e que se lhe fosse


possível descobrir a sede da tendência ao roubo, ou coisa parecida,
poderia assim curar o paciente do desejo de cometer o crime, simplesmente
por sugestão ou por uma ordem.

As conclusões de Braid foram, em resumo, que não existia nenhum
fluido ou agente externo, mas que o hipnotismo era devido a uma
condição fisiológica dos nervos. Era sua crença que o sono hipnótico
era produzido pela fadiga das pálpebras, ou por outras influências
intrínsecas ao indivíduo. Nisto era apoiado por Carpenter, o grande
fisiologista; mas nem Braid nem Carpenter lograram conseguir que
as organizações médicas dessem ao assunto qualquer atenção, ou
que mesmo procurassem investigá-lo.

Agora conduziremos o leitor, passo a passo, ao método de produção
dos fenômenos hipnóticos, segundo Braid.

Tomemos qualquer objeto brilhante, assim como uma moeda nova e
reluzente, entre os dedos polegar, indicador e médio da mão
esquerda. Seguremo-la a uma distância de doze a quinze
polegadas8 dos olhos, numa tal posição, acima da testa, que posas
exigir dos olhos e pálpebras o maior esforço possível, fazendo com
que o paciente mantenha o olhar fixo e firme no objeto.

8 Doze polegadas (12.) equivalem (aproximadamente) a 30,48 centímetros,
e, quinze polegadas (15.) equivalem (aproximadamente) a
38,1
centímetros. SMJ.

Observar-se-á que devido ao ajustamento automático dos olhos, as
pupilas a princípio se contrairão e logo depois começarão a dilatar-
se. Depois que o fizerem numa certa medida e que tiverem tomado
um movimento vacilante, se os dedos indicador e médio da mão
direita, estendidos e um pouco separados, forem levados do objeto


em direção aos olhos, muito provavelmente as pálpebras se cerrarão
com um movimento vibratório, involuntariamente. Se isto não
acontecer, ou se o paciente permitir que os olhos se movam, pedirlhe-
emos que recomece, fazendo-o compreender que deve permitir
que as pálpebras se fechem quando os dedos são levados
novamente em direção aos olhos, mas os globos oculares devem ser
mantidos fixados na mesma posição, e a mente presa
exclusivamente à ideia do objeto suspenso acima dos olhos.

Verificar-se-á geralmente que as pálpebras se fecham com um
movimento vibratório, ou se tornam espasmodicamente cerradas.
Depois de decorridos dez ou quinze segundos, levantando-lhe
brandamente os braços e as pernas, observaremos que o paciente
tenderá a manter esses membros na posição em que o colocarmos,
se ele estiver intensamente hipnotizado. Caso isto não suceda, em
um brando tom de voz peçamos-lhe para reter os membros na
posição estendida, e assim o pulso logo se tornará bastante
acelerado, ficando os membros rígidos e involuntariamente imóveis.
Notaremos também que todos os órgãos de sentido especial,
excetuando a vista, inclusive os da sensibilidade ao calor e ao frio, o
movimento e a resistência musculares e certas faculdades mentais
ficarão a princípio prodigiosamente exaltados, tal como acontece em
relação aos efeitos primários do ópio ou das drogas. Depois de certo
ponto, todavia, esta exaltação de funções é seguida de um estado de
depressão muito maior do que o torpor do sono natural. Pelo
simples repouso os sentidos rapidamente mergulharão na condição
original outra vez.

Do estado do mais profundo torpor dos órgãos dos sentidos e da
rigidez tônica dos músculos, os pacientes podem instantaneamente
passar à condição oposta de extrema mobilidade e de exaltada
sensibilidade, se dirigirmos uma corrente de ar contra o órgão ou os


órgãos que queiramos incitar à ação, ou contra os músculos que
queiramos tornar flexíveis e que se achavam em estado cataléptico.
Um golpe repentino ou pressão sobre um músculo rígido
anipnotizará (.) uma parte rígida, mas sabe-se que uma pressão
sobre o nariz não restabelecerá o olfato, a menos que seja muito
branda e continuada assim como o ato de se comprimir um lenço
contra a orelha não despertará a audição, quando a orelha estiver
entorpecida; do mesmo modo uma fricção suave sobre a pele
adormecida não restituirá a sensibilidade ou a mobilidade aos
músculos que ela cobre — a menos que seja tão suave como a titilação9
— e, entretanto, um ligeiro sopro instantaneamente despertará

o todo para uma sensitividade e mobilidade anormais, fato este
espantoso e enigmático.
(.) Anipnotizar, do grego "an hypnotizó", isto é, acordar do estado
hipnótico ou anular-lhe o efeito.

9 TITILAR: v.t.d. 1. Fazer cócegas a. 2. fig. Agradar, lisonjear. 3. Ter
estremecimentos; palpitar. [Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.81].
SMJ.

Se for permitido ao paciente fitar um objeto até que as pálpebras se
lhe cerrem involuntariamente, em muitos casos isto lhe causará dor
nos globos oculares e ligeira inflamação da membrana conjuntiva.
Para evitar este inconveniente o paciente deverá fechar as pálpebras
quando se efetuar a impressão na pupila — já referida
anteriormente — em virtude dos fenômenos benéficos que este
processo produz, desde que os globos oculares se mantenham fixos,
o que também evitará sensações desagradáveis nestes órgãos. Se o
objetivo for causar espanto à pessoa com quem se opera, por achar-
se incapaz de abrir os olhos, o primeiro método será o melhor, pois
uma vez fechados os olhos, é geralmente impossível ao paciente


abri-los, enquanto que com o outro método eles podem ser abertos
muito tempo depois de se cerrarem. Para propósitos curativos,
contudo, o processo que evita dor aos globos oculares é o preferido.

Conforme Braid, o fenômeno é devido somente a uma impressão
feita nos centros nervosos pela condição física do paciente,
independente de qualquer influência proveniente de outrem ou
posta em ação por outrem, visto que qualquer pessoa pode
hipnotizar-se, observando estritamente as simples regras estabeleci-
das. Eis um notável exemplo:

"Um eminente professor, descobrindo que alguns de seus alunos
tinham adquirido o hábito de se hipnotizarem, ordenou-lhes que
cessassem essa prática. Um dia, entretanto, ele contatou que uma
moça se hipnotizara fitando a parede, e que um colega colocara uma
caneta em sua mão, com a qual ela tinha escrito a palavra
„Capetown., segurando a caneta com muita firmeza — de fato os
dedos tinham uma rigidez cataléptica. O professor falou-lhe num
tom de voz muito brando e chamou-a.
Ela levantou-se e dirigiu-se a ele, e quando acordou ignorava que
ele a tivesse chamado ou o que se havia passado".

Um paciente pode ser hipnotizado mantendo os olhos fixados em
qualquer direção. A hipnose ocorre mais vagarosa e fracamente
quando o olhar é dirigido em linha reta, e mais rápida e
intensamente quando os olhos podem ser mantidos na posição de
estrabismo duplo, convergente e dirigidos para cima.

É muito importante notar que quanto mais os pacientes são
hipnotizados, devido à associação de ideias e ao hábito, tanto mais
susceptíveis eles se tornam — e desta maneira estão sujeitos a serem
afetados inteiramente pela imaginação. Assim, se eles consideram
ou imaginam que há alguma coisa agindo, pela qual possam ser


afetados, serão afetados, embora não saibam a causa. Ao contrário,
porém, o mais exímio hipnotizador do mundo poderá exercer os
seus esforços em vão, se o indivíduo não ceder ou não esperar ser
hipnotizado ou se não o consentir mental e corporalmente.

É em razão deste mesmo princípio de superconcentrar atenção
mantendo-a fixa em um assunto ou ideia que por si não é de
natureza excitante, do excessivo esforço de um conjunto de
músculos, da fadiga dos olhos, com a respiração reprimida e do
repouso geral que acompanha tais experiências, que o cérebro e
todo o organismo se excitam, produzindo o estado a que Braid chama
hipnotismo ou sono nervoso.

As provas mais evidentes de que esse estado é diferente do sono
comum são os extraordinários efeitos que ele produz. Na abstração
profunda do espírito, sabe-se bem que o indivíduo se torna
inconsciente aos objetos que o rodeiam e até mesmo a severos
castigos corporais, em alguns casos. Durante a hipnose ou sono
nervoso as funções em ação parecem ser tão intensamente ativas
que devem em grande parte arrebatar às demais a quantidade de
energia nervosa necessária para excitar sua sensibilidade. Isto por si
só pode ser em grande parte a causa do embotamento de sensações
comuns, durante a sensibilidade anormal, e do dilatado alcance
da ação de certas outras funções.

Indicamos aqui os sintomas de perigo e a maneira de despertar os
pacientes, de modo a evitar males que possam advir por falta dos
devidos cuidados por parte do operador. Sempre que se observa
que a respiração está muito opressa, a face muito vermelha, a
rigidez excessiva, ou a ação do coração muito rápida e tumultuosa,

o paciente deve ser instantaneamente despertado. Isto se consegue
rápida e prontamente com um bater de palmas, com um golpe
súbito no braço ou na perna, batendo-se no paciente rijamente com

a mão espalmada, por pressão e fricção nas pálpebras, ou mesmo
por uma corrente de ar soprada contra o rosto. Uma ou mais destas
ações devidamente postas em prática, geralmente conseguem
restabelecer o paciente com bastante rapidez.

O hipnotismo é um remédio não somente valioso, mas também
perfeitamente seguro contra muitos sofrimentos, se usado
criteriosamente. Não deve, entretanto, ser praticado por pessoas
com o simples propósito de satisfazer uma curiosidade ociosa. Em
todos os casos de tendência à apoplexia10, ou onde haja
aneurismas11 ou sérias moléstias orgânicas do coração, não se
deve recorrer a essa prática, exceto com a necessária precaução
quanto à maneira calculada para atenuar a força e a frequência da
ação do coração.

Passando-se ao sono natural ou comum, os objetos são percebidos
cada vez mais fracamente, as pálpebras cerram-se e ficam imóveis,
todos os outros órgãos de sentido especial se tornam gradualmente
insensíveis e cessam de comunicar ao cérebro suas habituais

10 APOPLEXIA: sf. med. Perturbação neurológica súbita, de origem
vascular,
e em que há privação de sentidos, de movimento, de fala, etc.
[Miniaurélio
Eletrônico versão 5.12.81]. SMJ.

11 ANEURISMA: sm. Dilatação, de forma variável, de parede de
artéria
ou de veia. § a.neu.ris.má.ti.co adj. [Miniaurélio Eletrônico versão
5.12.81]. SMJ.


impressões, os membros ficam flácidos devido à cessação do tônus e
da ação musculares, o pulso e a respiração tornam-se mais
vagarosos, as pupilas voltam-se para cima e para dentro e ficam
contraídas.

No estado hipnótico produzido com o objetivo de mostrar o que
Braid chama fenômenos hipnóticos, a visão fica cada vez mais
imperfeita, as pálpebras fecham-se, mas ficam bastante tempo com
um movimento vibratório — porém em alguns poucos casos
fortemente cerradas, como por espasmo dos músculos orbiculares.
Os órgãos de sentido especial, particularmente do olfato, tato,
ouvido, calor, frio e resistência tornam-se grandemente exaltados, e
depois se tornam insensíveis a um grau muito além do sono natural;
as pupilas voltam-se para cima e para dentro, mas contrariamente
ao que acontece no sono natural, ficam extremamente dilatadas e
altamente sensíveis à luz; após certo tempo estas se contraem,
enquanto os olhos estão ainda insensíveis à luz. O pulso e a
respiração ficam a princípio mais lentos do que o normalmente;
imediatamente, porém, ao se exigir ação dos músculos, manifesta-se
tendência à rigidez cataléptica, com pulso rápido e respiração
ofegante e apressada. Os membros são assim mantidos em estado
de rigidez tônica por certo espaço de tempo; é prudente, contudo,
verificar o estado de flacidez produzido pelo sono comum ou
natural. A circunstância mais notável é que parece não haver
nenhum estado correspondente de esgotamento muscular
proveniente dessa ação.

Quando os pacientes passam ao sono natural, deixam cair qualquer
coisa que tenham em mãos. Durante o sono artificial ao que nos
referimos, porém, o que tiverem nas mãos ficará seguro com muito
mais firmeza do que antes de adormecerem. Isto é uma diferença
muito importante.


A capacidade que têm os sonâmbulos hipnóticos de se equilibrarem
é tão grande que não há memória de haver caído nenhum deles. O
mesmo se dá com os sonâmbulos naturais. Este é um fato notável e
parece ocorrer do seguinte modo: eles adquirem um centro de
gravidade como se fora por instinto, da maneira mais natural e,
portanto, mais graciosa, e se os deixarmos permanecer nesta
posição, logo ficarão em estado cataléptico e imóveis. Da observação
destes dois fatos, da tendência e gosto geral pela dança mostrado
pela maioria dos pacientes ao ouvirem animada música durante o
estado hipnótico, dos movimentos peculiarmente graciosos e
apropriados de muitos deles quando assim excitados, pelas posições
elegantes e variadas que se pode fazê-los tomar por meio de ligeiras
correntes de ar, e pela faculdade de manterem qualquer posição
com tanta facilidade, surgiu a suposição de que os gregos devem ao
hipnotismo a perfeição de sua escultura, e os faquires da Índia o
admirável feito que consiste em manter o corpo suspenso por uma
perna ou por um braço.

Verifica-se assim claramente que o sono hipnótico difere do sono
comum sob muitos aspectos, que há primeiro um estado de
excitação, como se dá com o vinho, com o ópio e com certas drogas,
e, posteriormente, um estado correspondente de profunda depressão
ou torpor.

A sensibilidade táctil é tão grande, que o mais leve toque é sentido.
A sensibilidade ao calor, ao frio e à pressão fica também exaltada a
tal grau que é possível ao paciente sentir qualquer coisa sem contato
positivo.
Em certos casos alguns serão capazes de sentir o sopro dos lábios de
alguém que esteja a uma distância de 17m a 29m
aproximadamente, o que os fará curvarem-se, enquanto que uma
corrente de ar em sentido contrário, produzida pelo abanar da mão
ou por um leque, os fará mover-se na direção oposta. O paciente


tem tendência para aproximar-se ou afastar-se de impressões
segundo sejam agradáveis ou desagradáveis, ou de acordo com sua
qualidade ou intensidade. Dessa maneira, ele buscará os sons, mas
fugirá dos sons altos, conquanto harmoniosos. Deixando-se passar
algum tempo e permitindo-se ao paciente ficar em estado de
quietude, ele cairá no extremo oposto de rigidez, e de torpor de
todos os sentidos, e assim não ouvirá o ruído mais alto, nem sentirá
o odor mais fragrante ou o mais acre; não sentirá o que está quente
ou frio, não só à simples aproximação, mas até mesmo em contato
direto com a pele. Poderá então ser picado com um alfinete,
beliscado ou mutilado, sem despertar o mais ligeiro sintoma de dor
ou sensibilidade e os membros permanecerão rigidamente fixos.
Nesse estado um sopro dirigido contra qualquer órgão
instantaneamente desperta-o à sensibilidade e os músculos rígidos
voltam ao estado de mobilidade. Assim o paciente pode ser
inconsciente ao mais alto ruído, mas basta uma corrente de ar ser
dirigida contra o ouvido para que um ruído moderado seja logo
percebido tão intensamente, a ponto de fazê-lo saltar e tremer
violentamente, embora o corpo todo tenha estado momentos antes
em estado de rigidez cataléptica. Poder-se-ia levar-lhe às narinas
uma rosa, valeriana ou amônia concentrada sem que nada fosse
percebido, mas um sopro no nariz instantaneamente despertará o
sentido de tal modo que, embora a rosa tenha sido afastada a
diversos metros de distância, o paciente logo sairá a persegui-la, e
mesmo com os olhos vendados alcançá-la-á tão certamente como
um cão encontra a caça; entretanto, fugirá precipitadamente dos
desagradáveis odores da valeriana e da amônia. O mesmo se passa
com o sentido do tato.


MÉTODO DE HIPNOTISMO DO DR. LIÉBAULT

BRAID, no ano de 1840, pela sua insistência na necessidade de
concentrar e fixar a atenção, fez grandes avanços na ciência do
hipnotismo; mas a Liébault, de Nancy, cabe a honra de haver dado
ao mundo uma explanação do princípio racional do hipnotismo.
Sabemos pelo próprio Liébault que a princípio ele foi atraído ao
assunto pela leitura das obras de Braid. Este cientista sempre
admitiu que o sistema de Nancy deve a Braid a sua gênese.
Referindo-nos a Nancy devemos também mencionar Bernheim, que
muito desenvolveu e sistematizou o estudo do hipnotismo.

O método que era comumente usado em Nancy é o seguinte:

O paciente assenta-se confortavelmente em uma cadeira de braços,
com as costas voltadas para a luz, e o operador fica de pé ao seu
lado, levantando dois dedos de sua mão a uma distância de 12 a 15
polegadas dos olhos do paciente. Diz-se ao paciente que fite atentamente
esses dois dedos e que tanto quanto possível mantenha sua
mente vazia de pensamentos. Logo que os olhos principiam a
mostrar sinais de fadiga, o hipnotizador começa a sugerir sono, em
um tom de voz um pouco velado e monótono. Às vezes o operador,
sem esperar que os sintomas apareçam, costuma logo ir dizendo ao
paciente. "Estais começando a sentir-vos sonolento"; "Vossa vista
está se tornando turva", etc., etc., enquanto que em outros casos
esperará até que os olhos se ponham a piscar um pouco, e então
procurará aumentar a sonolência por sugestões, que são feitas logo
que os sintomas principiam a se desenvolver.

Não se deve supor que em todos os casos seja necessário seguir
precisamente a mesma fórmula ou os mesmos detalhes de
tratamento; mas o princípio é o mesmo. Dessa forma o método de
Nancy adota o processo de Braid de cansar fisicamente os olhos e


combina com ele um sistema de sugestões verbais. Esse método é o
mais seguido, com variações em detalhes, pelos principais
hipnotizadores de todos os países.

Naturalmente, não há um sistema que seja eficaz em todos os casos;
alguns pacientes serão de todo insensíveis a um método de
tratamento, enquanto serão prontamente susceptíveis a outro. O Dr.
Moll diz que alcançou êxito, hipnotizando por meio de passes.
onde a atenção fixa e a sugestão simples ou ambas, falharam, e viceversa.


O método geralmente adotado não difere substancialmente do de
Nancy, acima descrito, mas incluiremos em nossa descrição alguns
detalhes de importância prática. A primeira condição essencial para
eficaz indução da hipnose em uma pessoa que não haja sido
previamente hipnotizada,é assegurar-se de que ela esteja em
posição perfeitamente confortável, e que possa conservar-se assim
durante o período de indução; cada pequeno detalhe neste assunto
assume um importante aspecto na determinação do grau de sucesso
ou de fracasso por parte do hipnotizador em um grande número de
casos; a espécie de cadeira na qual o paciente se senta, sua posição
em relação à luz da sala; a posição de suas pernas, dos pés, dos
braços e das mãos; não permitir que a cabeça se incline para trás,
enquanto puder ser suportada, devendo o indivíduo sentar-se tão
firmemente quanto seu conforto o permita. O ambiente deve estar
livre de quaisquer influências perturbadoras; ruídos que geralmente
não notamos causam mais dificuldades do que sons de mais
intensidade; assim, o tique-taque de um relógio, o abrir e fechar de
uma porta, o murmúrio de pessoas presentes na sala — tudo
concorre para distrair a atenção do paciente em um momento
crítico. Deve-se pedir a este que mantenha sua mente livre de
pensamentos tanto quanto possível; que não se perturbe com
quaisquer métodos empregados pelo hipnotizador; que não dê


atenção ao que ele possa dizer e, especialmente, que não
experimente ajudá-lo tentando cair em transe. Todo cuidado deve
ser tomado para se certificar que o paciente esteja perfeitamente
calmo e livre de qualquer nervosismo inconveniente. Uma vez
colocada a pessoa confortavelmente na cadeira, o ponto seguinte é
fixar sua atenção. Para isto, não é teoricamente necessário que
devemos recorrer a qualquer ajuda física, mas a atenção é fixada
muito mais facilmente quando se emprega esse auxílio. Para atrair a
atenção, a fixação da vista é o melhor meio e mais rápido, e, por
conseguinte, diremos ao indivíduo que fite firmemente qualquer
objeto, tanto quanto possível sem pestanejar.
O objeto exato pouco importa; podem ser os dedos do operador, ou
um objeto pequeno seguro na mão do paciente, mas não deve estar
mais do que uns 30 centímetros distante de seus olhos. Deve estar
colocado em uma posição tal, que para fitá-lo, os olhos estejam
completamente abertos. O paciente ficará de costas para a fonte de
luz, a qual incidirá amplamente sobre o objeto. São preferíveis as
horas após o escurecer, pois, de manhã, a irritabilidade nervosa é
geralmente maior do que à noite, por conseguinte o indivíduo se
torna passivo com maior facilidade, e sua condição geral é mais
favorável. Após a refeição da noite, muitas pessoas gostam de ficar
quietas em uma cadeira por algum tempo, enquanto que durante o
dia o constrangimento forçado pode ser mais ou menos incômodo; a
luz artificial é melhor do que a luz do dia para iluminar o objeto que

o paciente vai fitar. Não se deve supor que todos esses detalhes
tenham que ser necessariamente seguidos em todos os casos, pois
tudo depende em grande parte da susceptibilidade do indivíduo,
mas somente se obterá uma média de mais de 80% de êxitos se esses
pormenores forem observados. A primeira hipnose é sempre a mais
difícil, e após o indivíduo haver sido hipnotizado algumas vezes,
poderemos geralmente dispensar muitas dessas precauções.

Vejamos agora o paciente. Passivo, com o olhar fixado no objeto
determinado, parece estar a princípio em estado normal; depois de
um intervalo de duração variável, surge nele uma alteração. Esta
alteração não pode ser descrita em algumas palavras, mas o hipnotizador
experimentado facilmente a reconhece; as pupilas, algo
dilatadas; as pálpebras talvez trêmulas; o indivíduo está mais
absorto no objeto do que estava no princípio, o rosto perdeu sua
expressão habitual, o ritmo respiratório está ligeiramente alterado.
Neste ponto a habilidade do hipnotizador tem seu maior alcance,
pois tudo depende da percepção rápida e acurada das mudanças
que o indivíduo está sofrendo; a hipnose está começando. A reação
característica do paciente à sugestão também está começando, mas
está longe de ser completa, e temos de discernir quando ele não
pode receber a primeira sugestão, e quando ele pode receber. Se
começarmos cedo demais, o perturbaremos; se esperarmos muito
tempo, ele poderá — e isto muitas vezes acontece — voltar mais ou
menos a seu estado normal, e teremos perdido a oportunidade. Esta
volta é seguida por um gradual recomeço da hipnose, e antes que a
hipnose definitiva seja produzida, esta alteração pode ter lugar
várias vezes. As primeiras sugestões não devem ser de caráter
contrário ou objetável pela consciência do indivíduo. Assim fatos e
sugestões se entremeiam com sugestões e fatos. .As pálpebras estão
trêmulas; os olhos estão cansados; o sono está chegando. — até que
gradualmente o estado se afaste cada vez mais do normal; a hipnose
final geralmente vem de repente: os olhos cerram-se e um sintoma
pode ser quase sempre observado — uma inspiração característica,
profunda e entrecortada. Os estados indutivos podem ser assim
classificados:

1. Passividade;
2. Passividade com atenção;
3. Passividade e atenção agudas;
4. Hipnose.

A hipnose assim obtida varia para cada indivíduo, mas há certas
classificações que são importantes; alguns passam por um estágio
ligeiro; outros, por um estágio profundo; em regra o estado
hipnótico aprofunda-se com cada hipnose até mais ou menos a
quarta ou no máximo a sexta hipnose; por esta ocasião o indivíduo
terá alcançado o seu estágio mais profundo; na hipnose subsequente
a esta ele apresenta o fenômeno deste estágio. Este fenômeno é
curioso, mas constante, e possibilita-nos classificar cada indivíduo,
de acordo com seu estágio de hipnose, o que, em trabalho
experimental, é extremamente útil. Estes estágios variam desde
aquele que somente um perito pode reconhecer como hipnose, até
outro em que os fenômenos flagrantemente anormais se
apresentam. A variedade destes estágios é tão grande, que muitos
observadores fizeram tentativas de classificação; estas são úteis para
dar ao leitor uma ideia das grandes diferenças entre as hipnoses de
diferentes indivíduos.

Gurney, cujas pesquisas são valiosas, conquanto especulativas,
dividiu a hipnose em dois estágios:

1. O estágio de .alerta.;
2. O estágio .profundo.
Forel enumera três estágios, a saber:

1. Sonolência;
2. Incapacidade de abrir os olhos. Obediência à
sugestão;
3. Sonambulismo. Perda de memória.

Lloyd Tuckey dá uma classificação muito semelhante à de Forel:

1. Sono leve;
2. Sono profundo;
3. Sonambulismo.
Liébault descreveu seis estágios diferentes:

1. Sonolência;
2. Sonolência. Possível catalepsia sugerida;
3. Sono leve. Possíveis movimentos automáticos;
4. Sono profundo. O paciente cessa de estar em relação com o
mundo exterior;
5. Ligeiro sonambulismo. Memória indistinta e obscura ao
despertar;
6. Profundo sonambulismo. Completa perda de memória ao
despertar. Possíveis todos os fenômenos de sugestão pós-hipnótica.
Bernheim sugere nada menos de nove divisões:

1. Sonolência. As sugestões de calor local produzem efeito;
2. Sonolência, com incapacidade de abrir os olhos;
3. Catalepsia sugestiva ligeiramente presente;
4. Catalepsia sugestiva mais pronunciada;
5. Possibilidade de contrações sugestivas;
6. Obediência automática;
7. Perda de memória ao despertar. Impossibilidade de alucinações;
8. Perda de memória; ligeira possibilidade de se produzirem
alucinações, mas não pós-hipnoticamente;
9. Perda de memória; possíveis alucinações hipnóticas e pós-
hipnóticas.

O limite até o qual a sugestão afeta o indivíduo depende da
proporção em que ele se acha inconsciente do mundo externo, e do
grau até o qual a ação psíquica dos grupos neurônicos está inibida.

Muitas sugestões pós-hipnóticas12 produzem suas reações quase
tão bem nos estágios mais ligeiros como nos mais profundos, desde
que essas sejam de um caráter que se adapte à condição.

A anipnotização, ou despertar da hipnose, é efetuada por sugestão,
baseada no mesmo princípio pelo qual esse estado é produzido.
Podem ser empregados meios físicos, tais como sopros nos olhos,
mas em qualquer caso esses meios podem ser considerados somente
como auxiliares da sugestão, e seu valor depende inteiramente da
impressão mental que produzem.

Muitos meios para despertar o paciente são recomendados por
diversos autores: abanar, aspergir com água, chamar em voz alta,
ruídos, etc. Assim como o passe de cima para baixo pode
hipnotizar, o passe de baixo para cima — devido à sugestão mental
que provoca — servirá para acordar.

Não há dificuldade ou demora em pôr fim à hipnose. Em todos os
casos a pessoa recobra o estado normal instantaneamente. Nas mãos
de um operador inábil ou ignorante, todavia, o paciente pode passar
do estado de vigília a uma condição de letargia aparente, o mesmo
sucedendo ao que escapar ao controle de um experimentador,
incapaz de despertá-lo ou de influenciá-lo (*).

12 SUGESTÃO PÓS-HIPNÓTICA: Sugestão que é aplicada ao sujeito em
transe hipnótico, mas que deve ser levada à efeito após o transe. SMJ.

(*) Chamamos especial atenção do leitor para esse tópico, em vista dos perigos
que isto oferece.


Esses insucessos nunca podem acontecer a um hipnotizador
experimentado, contudo são conhecidos muitos casos desses e
nunca será demais insistir no perigo que representam as
experiências imprudentes em hipnotismo.

Quando se vê que o paciente não acorda em obediência ao
operador, não devem ser feitas mais tentativas; será então
necessário chamar imediatamente um hipnotizador prático; caso
não seja este encontrado, deve-se deixar o paciente dormir até
cessar o sono hipnótico.

Em um ou dois casos desta espécie, chegados ao conhecimento do
autor, o mal causado foi quase inteiramente devido às tentativas
fúteis e ignorantes para despertar o paciente.

A duração do sono hipnótico do indivíduo, se não for acordado, é
muito variável. Alguns despertam no momento preciso em que o
operador os deixa, agindo o fato de sua ausência como uma
sugestão de que eles não se acham mais sob seu controle. Outros
costumam ser despertados por um ruído alto ou repentino. Outros
voltam a si pelos esforços feitos durante o estado hipnótico; assim,
por exemplo, um paciente acordou com as altas gargalhadas, que
deu em obediência a uma sugestão hipnótica. Se o sono for leve, os
pacientes muitas vezes voltarão ao estado natural em um período
muito breve; mas se for profundo, o sono pode continuar por três a
quatro horas. Bernheim menciona um caso no qual o sono durou
dezoito horas.

As condições após a hipnose costumam ser perfeitamente normais.
Nas mãos de um hipnotizador experimentado o paciente nunca se
queixa de estar sofrendo de qualquer sonolência ou tonteira..
Quaisquer maus resultados são devidos exclusivamente à culpa do
operador.


Com referência às pessoas hipnotizadas, várias opiniões têm sido
emitidas, algumas certas e muitas mal informadas. Seria ocioso
afirmar que algum temperamento determinado se preste à hipnose,
quando sabemos que mais de oitenta por cento de todas as pessoas
experimentadas são hipnotizáveis, sendo esta a média mínima
citada por qualquer um que conheça bastante do assunto em sua
aplicação prática. Falando por experiência própria, o autor deste
livro verificou que a classe que apresenta menor dificuldade, e que
frequentemente dá resultados experimentais muito satisfatórios,
encontra-se nos moços de educação mediana e de boas qualidades
gerais.

Uma excessiva consciência de si próprio apresenta alguma
dificuldade, e, consequentemente, o neurótico mais ou menos
espirituoso e o muito estúpido e presunçoso assemelham-se um ao
outro: são pacientes difíceis. Os idiotas não são hipnotizáveis e os
loucos são excessivamente difíceis de serem hipnotizados. O sexo
não parece afetar materialmente a questão. Existe uma concepção
errônea algo vulgar e difundida que considera as manifestações
histéricas como indícios de fácil hipnotização. A histeria, entretanto,
é quase sempre a causa de muita dificuldade e nunca facilita a indução.
A nacionalidade pouco tem a ver com o assunto. Na França,
Liébault hipnotizou 985 pessoas em 1012; na Suécia, Wellenstrand
hipnotizou 701 em 718; e na Holanda, Van Reutezhen hipnotizou
169 em 178.
Bernheim e Forel concordam, com referência à aplicação médica da
hipnose, que a opinião de médicos que não são capazes de
hipnotizar pelo menos oitenta por cento de seus pacientes nada
vale.

Quem é hipnotizável? Com o intuito de responder a esta pergunta
sem experiências hipnóticas, Ochorowicz inventou um instrumento
especial — o hipnoscópio; é um ímã em forma de anel, no qual a


pessoa a ser examinada põe o dedo. Supõe-se que as pessoas
hipnotizáveis experimentem certas sensações na pele e contrações
nos músculos, enquanto que com as insuscetíveis nada disso
acontece. As pesquisas de outros investigadores não confirmaram
completamente essa teoria.

Nem a neurastenia13, nem a palidez, nem a histeria14, ou a
debilidade geral produzem uma disposição à hipnose. A histeria
não se adapta peculiarmente ao hipnotismo. A histeria comum, com
suas variáveis manifestações de dor de cabeça e a sensação de uma
bola na garganta, combinadas com o desejo histérico de ser
interessante e de exagerar os sofrimentos suportados, dá muito
pouca disposição à hipnose. O espírito de contradição, muito
fortemente desenvolvido em tais indivíduos, contribui bastante
para isto. A noção errônea de que os pacientes histéricos ou
nervosos são particularmente suscetíveis ao hipnotismo, resulta do
fato de que a maioria dos médicos têm feito experiências somente
com eles; além do que é muito fácil descobrir em todas as pessoas
algo que possa ser interpretado como um sintoma histérico, se
apenas nos dispusermos a experimentá-lo.
Contudo, se considerarmos nervoso. todo aquele que se submete a
uma experiência hipnótica — Morand — então naturalmente,

13 NEURASTENIA: sf. 1. psicol. Afecção mental caracterizada por astenia física
ou psíquica, grande irritabilidade, cefaleia, e alterações do sono. 2. pop. Mau
humor. [Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.81]. SMJ.

14 HISTERIA: sf. psiq. Neurose que se caracteriza pela presença de sinais diversos
(paralisias, distúrbios visuais, etc.), e que podem ser reproduzidos por sugestão
ou por autossugestão. [Sin.: histerismo.]. [Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.81].
SMJ.


somente pessoas nervosas podem ser postas em estado hipnótico;
mas este critério não pode ser tomado em consideração seriamente.
Na realidade, se tomarmos uma condição patológica do organismo
como condição
necessária à hipnose, seremos obrigados a concluir que quase todos
nós não somos completamente bons da cabeça. Aliás, os antigos
mesmeristas, em parte, sustentavam que a histeria somente
produzia uma disposição para o sono hipnótico.

Além disso, se a fraqueza geral for considerada como fator de
predisposição, devemos salientar o fato de haverem sido
hipnotizadas muitas pessoas bastante robustas. Sabe-se bem que
Hansen, cuja experiência prática é de bastante valor, sempre
preferiu indivíduos musculosos para suas experiências. É notável a
suscetibilidade dos pacientes tuberculosos.

No que se refere à inteligência, as pessoas inteligentes são mais
facilmente hipnotizáveis do que as obtusas e estúpidas. Entre as
classes mais baixas, os mentalmente superiores são
indubitavelmente mais fáceis de hipnotizar do que outros. A
excitação mental impede muito a hipnose. As numerosas
observações feitas por Wetterstrand, Ringier e outros, de que certos
indivíduos são ocasionalmente refratários à hipnose, podem estar
relacionadas com este fato. Poder-se-ia confirmar esta aversão
ocasional à hipnose por toda uma série de casos. Considera-se um
engano completo dizer que a disposição à hipnose seja um sinal de
fraqueza de vontade. Sem dúvida a capacidade de manter um
estado passivo tem efeito favorável. Eis por que os soldados são
geralmente fáceis de serem hipnotizados. Também é muito
favorável o poder de dirigir os próprios pensamentos em uma
determinada direção.
Como habitualmente consideramos este poder um sinal de força de
vontade, a disposição à hipnose seria mais um indício de força do


que de fraqueza de vontade. Esta capacidade de dar aos
pensamentos certa direção prescrita é em parte natural, em parte
uma questão de hábito e, muitas vezes, uma questão de vontade. Ao
contrário, aqueles que não têm possibilidade de fixar sua atenção,
que sofrem de contínua distração de espírito, dificilmente podem
ser hipnotizados. É especialmente entre os nervosos que se encontra
um número notavelmente grande de indivíduos desta última classe,
nos quais predomina uma constante divagação de espírito. A
disposição à hipnose também não é especialmente comum entre
pessoas que a outros respeitos são muito impressionáveis. Sabe-se
bem que há algumas que podem ser facilmente influenciadas na
vida, que creem em tudo que se lhes diz e que se deixam
impressionar pelas coisas mais insignificantes. Entretanto, quando
se faz um esforço para hipnotizá-las, oferecem viva resistência e não
se produzem nelas os sintomas típicos da hipnose.

No que se refere à idade, as crianças menores de três anos não
podem absolutamente ser hipnotizadas, e mesmo até mais ou
menos oito anos só o podem ser com dificuldade. Se bem que as
crianças sejam a outros respeitos facilmente influenciáveis, seus
pensamentos divagam com tanta facilidade que não podem fixar
suas mentes em uma determinada figura, como no caso da hipnose.
A idade avançada não é de modo algum refratária15 à hipnose. De
acordo com a experiência da escola de Nancy, após a hipnose, as
pessoas mais idosas muitas vezes se lembram mais de tudo que
aconteceu do que as mais jovens. O sexo não tem nenhuma
influência particular; é um engano supor que as mulheres sejam
mais hipnotizáveis do que os homens. A frequência com que se
fazem tentativas com uma mesma pessoa é da maior importância.
Enquanto de acordo com Hanhule somente uma pessoa em dez
prova ser suscetível na primeira tentativa, a proporção aumenta
enormemente com a frequência das sessões. Isto não é de se
estranhar, devido à excitação mental manifestada por muitas


pessoas no princípio. E sendo de muita importância para a hipnose
que a atenção não deva ser distraída, muitas pessoas são antes de
tudo obrigadas a aprender a concentrar seus pensamentos. Existem
mesmo experimentadores que afirmam serem todos os indivíduos
hipnotizáveis, desde que as tentativas continuem pelo tempo. Sem
declarar ser falsa esta opinião., diz o Dr. Moll:

"Posso fazer notar que fiz quarenta tentativas com algumas pessoas
sem obter a hipnose. Talvez, por esforços mais continuados se
pudesse obter um resultado, como de fato aconteceu muitas vezes
após as quarenta tentativas frustradas. Em outros casos sucede
exatamente o oposto, e quanto mais se experimenta, menos proveito
se consegue: por um processo de autossugestão, o indivíduo
persuade a si próprio que não é hipnotizável".

Além dessas condições subjetivas há algumas outras objetivas.
Assim, por exemplo, ruídos perturbadores na primeira experiência
têm o poder de impedir a hipnose; atraem a atenção, e assim
interferem no estado mental necessário para produzi-la. Mais tarde,
quando o paciente já aprendeu a concentrar seus pensamentos, os
ruídos perturbam menos. Mas em experiências hipnóticas é
necessária a mais absoluta abstração de qualquer sinal de
desconfiança por parte dos presentes. A menor palavra, um gesto,
pode frustrar a tentativa de hipnotizar. Como a disposição de
espírito de um grande grupo é muitas vezes de desconfiança, assim
como toda uma geração é algumas vezes cética, as grandes
variações de suscetibilidade à hipnose, que se manifestam em
diferentes tempos e lugares, são explicáveis. Não é surpreendente
que em uma ocasião dez pessoas, uma após outra, sejam

15 REFRATÁRIO: adj. 1. Que resiste a certas influências químicas ou físicas.
[Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.81]. SMJ.


hipnotizadas, enquanto que em outra ocasião dez outras pessoas se
mostrem todas refratárias.

A experiência e um conhecimento da condição mental da
humanidade são indispensáveis ao hipnotizador. A primeira é
absolutamente necessária; é mais importante do que o
conhecimento da anatomia e da fisiologia. Pela experiência
aprende-se a discernir e a entrar no caráter íntimo do indivíduo. A
prática e o dom de observação possibilitam acentuar o esforço
preciso no momento exato, ou ao fixar a atenção ou ao cerrar dos
olhos. O operador experimentado sabe julgar se em certos casos será
melhor falar para atingir seu objetivo, ou se — como às vezes
acontece — as palavras seriam um estorvo, e nesse caso seria mais
conveniente exercer o principal esforço no fixar da atenção. Uma
pessoa que seja facilmente hipnotizável pode ser hipnotizada por
qualquer um; mas quem o for com grande dificuldade, somente
poderá ser posto em hipnose por um bom e experimentado
operador.
Não constitui nenhuma contradição a isto dizer-se que a impressão
pessoal causada pelo operador pode ser muito importante e ter
grande influência. Consequentemente acontece que certa pessoa A,
pode ser hipnotizada por B, enquanto permanece refratária aos
esforços de C. Por outro lado pode acontecer que D seja hipnotizado
por C, mas não por B. Isto mostra que a influência de uma pessoa
sobre outra depende da individualidade de ambas. Encontramos a
mesma coisa na vida, na relação do professor para o aluno e deste
para o professor, ou nas relações recíprocas entre amigos e entre os
que se amam. A influência de uma pessoa sobre outra sempre
depende da individualidade de ambas.

Que existe uma aptidão individual para hipnotização e para fazer
sugestões é bastante certo. É verdade que não devemos considerar


esta faculdade como o faziam os antigos mesmeristas, os quais
supunham que certas pessoas exerciam uma força física sobre outras.
Devemos considerá-la como tantas outras, quando se trata de
alguma aptidão mental especial. A calma, a presença de espírito e a
paciência são essenciais, e nem todos podem exercer estas
qualidades. Ocupar-se em hipnotizar uma pessoa diariamente,
durante horas de cada vez, demanda uma perseverança que nem
todos possuem. É necessário muito mais paciência para isto do que
para escrever receitas, por exemplo, centenas das quais poderiam
ser feitas no mesmo espaço de tempo.

HIPNOTISMO PELO MÉTODO DE FASCINAÇÃO

O MÉTODO de fascinação, pela grande parte que nele
desempenha o elemento pessoal, é o favorito dos professores
mesméricos. Manda-se o paciente fitar com firmeza os olhos do
operador. Frequentemente acontece que em breve espaço de tempo

o paciente passa a imitar todos os movimentos do operador, sempre
mantendo os olhos fitos nos seus. Este método é algo arriscado, pois
que, se o paciente for refratário, o próprio operador pode
involuntariamente tornar-se hipnotizado. Lloyd Tuckey menciona
um caso, no qual, ao usar este método certa ocasião, começou a
sentir que se desenvolviam nele os primeiros sintomas de hipnose.
O Dr. Bremaud, um médico da marinha, obteve em homens tidos
como perfeitamente sadios, um estado a que ele chama fascinação,
considerando-o como hipnotismo na sua forma mais branda, que
após repetidas experiências se transforma em catalepsia.


Bremaud produzia a fascinação pela contemplação de um ponto
brilhante.


O paciente, em tal caso, cai num estado de estupor.
Ele segue os movimentos do operador e a excitação dos nervos
produz contrações, mas a flexibilidade cataléptica não existe.


Durante muito tempo, Bremaud — um magnetizador de palco,
como o mundo científico o chamava — pensou que ele houvesse
descoberto esta .fascinação., a ponto mesmo de dar-lhe um nome,
segundo seu critério. Eis como ele operava. No início de seus
espetáculos — que na época atraíam não somente toda Paris, mas
também pessoas de todas as partes do mundo — após haver
trabalhado com seus próprios pacientes e assim impressionando a
imaginação da assistência, perguntava se alguns dos espectadores
desejavam submeter-se a uma experiência. Apareciam diversos.
Ele escolhia um e mandava-o que se apoiasse sobre as mãos, de
modo a enfraquecer sua força muscular. O hipnotizador e o
paciente ficavam no palco, diante da assistência, agora
completamente interessada entre um que se esforçava por dominar
e o outro que não queria se submeter. A enervação do paciente sob a
influência dos inúmeros olhos voltados para ele logo atingia seu
clímax. O fascinador gritava então subitamente .Olhe para mim!., ao
que o candidato-paciente se erguia e fitava atentamente os seus
olhos. Com o olhar fulgurante cravado na infeliz vítima, na maioria
dos casos conseguia fasciná-la. Sem dúvida, alguns indivíduos
costumavam fingir-se subjugados, enganando deste modo o
operador, e quando saíam da sessão não deixavam de acusá-lo de
charlatão. No conjunto, porém, o espetáculo era bem dirigido e seria
injusto tomar como regra geral o que apenas eram exceções
particulares.



A fascinação assim progrediu. A atenção dos homens de ciência foi
despertada pelos enormes anúncios que apareciam frequentemente.
Foram assistir ao espetáculo, a princípio incrédulos, depois em
dúvida e, finalmente, resolveram estudar o assunto, esforçando-se
por torná-lo científico e útil como meio curativo. Agora já não é
mais objeto de curiosidade mórbida, mas sim um processo
terapêutico de que os médicos se servem para aliviar sofrimentos.

De todos os diferentes métodos empregados, talvez nenhum tenha a
seu favor tantos sectários quanto o simples método da fascinação.

Os hipnotizadores profissionais se têm mostrado muito inclinados a
esse método particular que é chamado, dentre outros nomes, de
.imitação.,fascinação. e .donatismo. — este último derivado de
Donato, que o empregou em grande escala. Neste sistema, o
operador fixa os olhos nos do paciente e após um breve tempo, este
segue cada movimento feito pelo hipnotizador. Se levanta um
braço, o paciente faz o mesmo; se ajoelha, o paciente se ajoelha, e
assim por diante, indefinidamente. Neste caso a fascinação foi a
forma de hipnose induzida. O mesmo estado pode ser obtido,
abrindo-se os olhos de uma pessoa hipnotizada, quando então o
hipnotizador, fitando atentamente os olhos do paciente, será capaz
de obter estes movimentos imitativos.
Se o dedo ou o castão16 de uma bengala for colocado diante dos
olhos do paciente, este seguirá o dedo ou a bengala, conforme o
caso. Em tudo isto a base do Fenômeno é claramente a sugestão. O
indivíduo não praticará nenhuma ação imitativa, nem será
fascinado pela bengala se não compreender completamente que isto
se espera dele. De muitas maneiras, por um olhar ou por um
movimento, o hipnotizador poderá levar uma sugestão ao seu
paciente, a qual será tão potente como se fora feita por meio de
palavras. Esta extrema suscetibilidade à sugestão ou não é
conhecida, ou não é notada pelo público em geral, e os


hipnotizadores profissionais muitas vezes se valem dessa
ignorância comum para entreterem os que assistem suas exibições.

Esta última forma de fascinação foi usada pela primeira vez por
Donato; depois foi descrita por Bremaud, e foi também aplicada por
Hansen. Donato, que operava especialmente com jovens, procedia
do seguinte modo:

O operador pede ao paciente que coloque as palmas das mãos sobre
as suas, estendidas horizontalmente, comprimindo-as para baixo
com toda sua força. Toda atenção e toda a força física do paciente
são absorvidas nesta manobra. Toda sua energia nervosa está
concentrada neste esforço muscular, sendo assim evitada a distração
de seus pensamentos. O hipnotizador fita-o de perto, penetrante e
rapidamente, levando-o por gestos — e pela palavra se necessário
for — a olhá-lo tão fixamente quanto seja capaz. Depois, o operador
se afasta ou anda em torno do paciente, mantendo seus olhos sobre
ele e atraindo seu olhar, enquanto que este o segue como se
fascinado, de olhos abertos e incapaz de tirá-los do rosto do
operador. Uma vez dominado na primeira experiência, a simples
fixação do olhar basta para fazer o indivíduo segui-lo, não sendo
mais necessário fazer com que coloque suas mãos sobre as do
operador.

16 CASTÃO: sm. Remate superior das bengalas. [Pl.: –tões.]. [Miniaurélio
Eletrônico versão 5.12.81]. SMJ.


Quando se trata de simples sugestão por gestos, e o hipnotizador
fixa seus olhos sobre os do paciente, este compreende que deve
manter o olhar fixo e que deve seguir o operador por toda a parte. O
paciente crê que está sendo atraído para ele. É uma fascinação
psíquica sugestiva e de modo algum física. Foram bem sucedidas as
experiências com os melhores sonâmbulos, quando estes não
compreendiam o significado dos gestos do operador. Em tais casos
a experiência pode ter tido êxito pela imitação, se o paciente a viu
bem executada com outra pessoa. Isto será, por conseguinte,
sugestão por imitação.

Entre indivíduos assim fascinados, alguns se submetem à influência
sem sono hipnótico, do mesmo modo como fazem os que são
hipnotizados por outro método. São suscetíveis à sugestão em
condição ativa.
Após a experiência se lembram do que fizeram; não sabem por que
se sentiam incapazes de deixar de seguir e de fitar o hipnotizador.
Outros de nada se lembram, após serem despertados com um sopro
nos olhos ou por uma simples palavra. Não sabem o que aconteceu;
estiveram em um estado de sonambulismo com os olhos abertos.
Nesta fascinação sonambúlica é possível produzir-se a catalepsia e a
alucinação. Nestes mesmos indivíduos a catalepsia e a alucinação
podem ser induzidas por um gesto ou por uma simples palavra; ou
uma posição lhes poderá ser imposta, sem prévia fascinação.

O despertar pode ser espontâneo. Os pacientes que dormem
ligeiramente na primeira experiência, às vezes têm tendência para
despertar rapidamente. É preciso manter cerradas suas pálpebras,
ou dizer de vez em quando .durma., para tê-los constantemente sob
influência. O hábito de dormir é logo adquirido pelo organismo. O
paciente então não acordará mais enquanto o operador permanecer
a seu lado, podendo, porém, despertar logo que se retire a
influência deste.


A maioria das pessoas deixadas a sós continuam dormindo por
vários minutos, por meia hora, ou mesmo por uma e até mais horas.
Um indivíduo dormiu 15 horas, outro, 18 horas.

O Abade Faria em 1814, aproximadamente, começou a estudar o
hipnotismo, e deve-se admitir que este desenvolvimento é muito
interessante e contém mais do que os germens de toda a teoria de
Braid e de todas as teorias referentes ao poder da imaginação ou da
sugestão em consequência do mesmo.

Os fenômenos observados pelo Abade Faria em seus pacientes não
diferem nos seus principais pontos de Puysegur e de outros
operadores em seus pacientes sonambúlicos, principalmente no que
concerne à completa perda de memória a respeito de tudo, ao
despertar.

Conforme o Abade Faria, durante o sono sonambúlico, os olhos
estão em regra fechados. Há, contudo, sonâmbulos que dormem de
olhos abertos, e a experiência tem demonstrado que estes são
sonâmbulos por natureza. Seus olhos abertos permanecem fixos e
imóveis e parecem ser completamente privados de visão.
Há alguns que movem os olhos e veem o que se passa a seu redor,
sem que, contudo tenham qualquer lembrança quando são
despertados.

O método do Abade Faria era muito simples. Após colocar seu
paciente em uma posição confortável, a uma luz, não muito intensa,
concentrava a atenção deste tanto quanto possível, fazendo-o olhar
para algum objeto na parede, colocado acima de sua cabeça.
Depois de alguns minutos do mais perfeito silêncio, ele gritava de
repente, em alto tom de mando, a palavra .durma.. Na maioria dos
casos isto era o bastante para conseguir o resultado desejado.


Como partidário da identidade entre o sonambulismo e o sono
normal, Faria fez um estudo da letargia, e foi um dos primeiros que
em poucas linhas descreveu esse interessante estado, também
investigado por Azam. É um estado no qual quase sempre encontramos
certa individualidade dupla da pessoa. Deve-se lembrar que
Faria sustentava positivamente que não havia a recear quaisquer
perigos quando se usavam seus métodos, e que os indivíduos assim
postos a dormir e submetidos à influência do hipnotizador não
sofrerão de modo algum quaisquer efeitos desagradáveis.

Diversas autoridades no assunto asseveram que o ímã tem em
certos casos o poder de hipnotizar. Isto pode ser verdadeiro, mas
muitos dos mais conhecidos hipnotizadores foram incapazes de
descobrir qualquer traço de tal influência. É possível, contudo, que
em certos casos anormais o ímã possa ter esta virtude, mas parece
uma hipótese mais natural atribuir essas poucas hipnoses à
sugestão, esse elemento que faz parte de todos os métodos, e que é
tão sutil em sua ação, que se torna impossível ao operador, nesses
casos, afirmar positivamente que ele foi de todo evitado.

Braid deixou registrada uma de suas experiências sobre a suposta
influência do ímã. Disse-lhe uma senhora que ela não podia
suportar a proximidade de um ímã, e que este tinha sempre a mais
profunda influência sobre ela, o que acontecia quando ela sabia de
sua proximidade. Braid, porém, para provar a natureza desta
influência, sentou-se perto dela em uma ocasião, durante meia hora,
com um poderoso ímã oculto em seu bolso, e como esperava,
nenhum efeito produziu. Todavia, muitos hipnotizadores ainda
creem nesse poder.

De fato a crença na ação do ímã sobre os seres humanos é muito
antiga. Os Magos do Oriente usavam-no para curar moléstias e os


chineses e hindus usaram-no há muito tempo. Alberto Magno, no
século XIII, e mais tarde, Paracelso, Don Helmart e Kercher também

o empregaram, assim como o astrônomo e ex-jesuíta Hell, de Viena,
no fim do século XVIII. Vimos que Mesmer também o usou a
princípio, bem como muitos médicos, posteriormente. Reil, médico
bastante conhecido, empregou o ímã terapeuticamente; em 1845
Reichenbach afirmou que algumas pessoas sensíveis tinham
sensações peculiares quando em contato com um ímã. Disse
também que muitas viam luz — a chamada Estranha Luz.
MÉTODO SUGESTIVO DE HIPNOTISMO

UM dos mais recentes métodos de hipnotismo é a terapêutica
sugestiva, ou hipnotismo sugestivo. É produzido falando-se ao
paciente do benefício que pode provir do uso da terapêutica
sugestiva, que é possível curá-lo ou pelo menos aliviá-lo pelo
hipnotismo, que nada há de estranho ou nocivo nisto, que é um
sono comum ou torpor que pode ser produzido em todos, e que este
tranquilo e benéfico estado restaura o equilíbrio do sistema nervoso.
Se for necessário, um ou dois indivíduos poderão ser hipnotizados
em sua presença, para mostrar-lhe que nada há de doloroso, e que o
fenômeno não é acompanhado de nenhuma sensação fora do
comum. Quando a ideia de magnetismo é assim banida de sua
mente e desaparece o medo algo misterioso que se relaciona com
este estado desconhecido, sobretudo quando o paciente presenciou
outros serem curados ou beneficiados pelos meios em questão, ele já
não desconfia mais e se entrega; então se diz: .Olhai para mim, não
penseis em nada senão em dormir; vossas pálpebras começam a


ficar pesadas; vossos olhos estão fatigados e começam a piscar;
estão ficando úmidos, não podeis ver distintamente, estão
fechados.. Alguns pacientes cerram os olhos e adormecem
imediatamente. Com outros é preciso repetir várias vezes, pondo-se
mais ênfase no que se diz, acompanhado até mesmo de gestos.
Pouca diferença faz a espécie dos gestos. Levam-se dois dedos da
mão direita diante dos olhos do paciente e pede-se que olhe para
eles, ou passam-se ambas as mãos diversas vezes diante de seus
olhos, ou convence-se o paciente a fixar os olhos nos nossos, ao
mesmo tempo para concentrar sua atenção na ideia de sono. Vai-se
dizendo:

"Vossas pálpebras estão se fechando, não podeis abri-las de novo;
vossos braços estão pesados e também vossas pernas; não podeis
sentir coisa alguma; vossas mãos estão imóveis; não vedes nada;
ides dormir".

Acrescenta-se então em tom de mando .dormi!..
Esta palavra quase sempre rompe o equilíbrio. Os olhos se cerram e


o paciente dorme ou pelo menos é influenciado.
Usa-se a palavra .dormi!. de modo a obter tanto quanto possível
sobre o paciente uma influência sugestiva que trará quase o sono ou
um estado que muito se aproxima dele, pois o sono propriamente
dito nem sempre ocorre. Se o paciente não tiver tendência para
dormir e não mostrar nenhuma sonolência, se tomará o cuidado de
dizer que o sono não é essencial; que a influência hipnótica, donde
vem o benefício, pode existir sem o sono; que muitos pacientes são
hipnotizados sem que o saibam.


Se o paciente não fechar os olhos ou não os mantiver fechados, não
exija que eles se fixem nos vossos ou nos dedos, por algum espaço
de tempo, pois às vezes acontece que ficam completamente abertos
indefinidamente, e em vez de ser concebida a ideia de sono,
somente resulta uma rígida fixidez dos olhos. Neste caso será mais
conveniente que o operador lhe cerre os olhos. Depois de mantê-los
fixos por um ou dois minutos, puxam-se as pálpebras para baixo ou
distendemse estas lentamente sobre os olhos, gradualmente
fechando-os cada vez mais e assim imitando o processo do sono
natural. Finalmente, conservam-se os olhos do paciente fechados,
repetindo a sugestão: .Vossas pálpebras estão coladas, não podeis
abri-las. A necessidade de sono torna-se cada vez maior; não podeis
resistir mais.. Baixa-se a voz gradualmente, repetindo a ordem:
Dormi!., e é muito raro que se passem mais de três minutos sem que
se obtenha o sono ou algum grau de influência hipnótica. É o sono
por sugestão — um tipo de sono que é insinuado no cérebro.

Fazer passes ou fitar os olhos ou os dedos do operador é útil apenas
para concentrar a atenção. Não são ações absolutamente essenciais.

Com alguns pacientes se consegue mais resultado agindo-se
tranquilamente; com outros, a sugestão calma não produz efeito.
Com estes é melhor ser abrupto, restringir com voz autoritária a
inclinação para rir, ou a fraca e involuntária resistência que esta
operação possa provocar.

Muitas pessoas são influenciadas na primeira sessão, outras o são
na segunda vez ou na terceira. Depois de serem hipnotizadas uma
ou duas vezes, são rapidamente influenciadas. Muitas vezes é
bastante olhar para um paciente desses, abrir os dedos diante de
seus olhos, dizer .durma. e com um ou dois segundos, às vezes
instantaneamente, os olhos se cerram e todos os fenômenos do sono
se apresentam. É somente após certo número de hipnotizações,


geralmente um pequeno número, que os pacientes adquirem
aptidão para dormir rapidamente.

Ocasionalmente acontece que sete ou oito pessoas podem ser
hipnotizadas, sucessivamente, de fato quase instantaneamente. Há
outras, entretanto, que são refratárias ou mais difíceis de
influenciar. Uma segunda ou terceira tentativa muitas vezes produz
a hipnose que não foi conseguida a princípio.

O HIPNOTISMO NAS MOLÉSTIAS

É CADA vez mais evidente que o atual interesse no hipnotismo
depende principalmente de sua utilidade na cura de vários males
dos quais a humanidade é a infeliz herdeira. A despeito de todas as
diferenças e da obstinada oposição dos profissionais da velha
escola, os círculos médicos estão cada vez mais convencidos de que
não podem desdenhosamente pôr de lado um minucioso exame da
matéria.

Já vimos que a escola de Nancy, representada por Bernheim e
Liébault, pensa que hipnotismo significa sugestão e que realmente a
sugestão é seu principal agente. Bernheim crê que a hipnose é um
estado mental peculiar, no qual a suscetibilidade à sugestão é
exaltada. Disto conclui-se que a sugestibilidade existe
independentemente da hipnose e que, por conseguinte, não há
contradição entre as possibilidades da sugestão, seja dentro ou fora
da hipnose; uma é o complemento natural da outra. Foi a escola de
Nancy que mostrou existirem muitas sugestões sem hipnose, e a
primeira de todas a reconhecer o valor curativo da sugestão pura.


Diversas moléstias podem ser curadas ou aliviadas, simplesmente,
fazendo-se crer ao paciente que ele em breve estará melhor, e
implantando-se firmemente esta convicção em seu espírito. Esta
influência mental tem sido usada desde os tempos mais remotos. O
sono no templo dos antigos gregos e egípcios era um meio de
facilitar o efeito da sugestão. Os doentes eram postos a dormir no
templo, e em sonhos o deus dizia-lhes o que deveria curá-los. Em
época mais próxima podemos mencionar o famoso Greatrakes, cujas
curas causaram espanto a toda a Inglaterra no século XVII, e
Gassner, o exorcista, no fim do século XVIII.

Entre outros realizadores de prodígios podemos recordar Prince
Hohenohe, no começo do século passado, um padre católico que
despertou muita atenção por suas curas, na Bavária, depois de 1821.
Os mesmeristas supunham que ele fosse uma dessas pessoas que
possuem um poder peculiar, enquanto por outro lado a fé religiosa
era dada como explicação. Uma escola de mesmeristas, a de M.
Barbarin, de Ostende, sustentava que a influência era de natureza
puramente espiritual, e que o meio certo de produzir o sono era orar
à beira da cama do paciente. Esta foi a primeira forma do que
agora é tão popular nos Estados Unidos sob o nome de Ciência
Cristã.. (*)

(*) NOTA DO TRADUTOR: A Ciência Cristã consiste em um sistema religioso
fundado em 1866 por Mary Baker Eddy, baseado nas Sagradas Escrituras, o qual
afirma que todas as causas e efeitos são mentais, e que o pecado, a doença e a
morte serão destruídos por uma completa compreensão do Princípio Divino dos
ensinamentos e das curas praticadas por Jesus.


Não nos importa citar um grande número de exemplos das
chamadas curas por sugestão, exceto para mencionar as curas
autênticas ocorridas recentemente em Londres e em outros lugares
santos. Quando vemos que são exatamente as mesmas pessoas que
empregam a sugestão as que conseguem maior êxito, ficamos
justificados ao situá-la em lugar de destaque na Medicina. Pois
ninguém que leia os relatos com espírito imparcial pode duvidar
que Gassner e diversos outros tiveram mais êxito do que muitos
médicos cientistas, apesar de terem sido justamente chamados de
charlatães. É possível que algumas das moléstias fossem de
natureza histérica, mas houve muitas outras.
Pelo menos é certo que em quase todas elas o tratamento médico
usual fracassara em curá-las. Como dissemos, porém, para que a
sugestão seja eficaz o paciente deve crer firmemente que ele será
curado. Esta crença deve ser incutida nele, e a questão é saber como
fazê-lo mais seguramente. Qualquer enfermo que vá a Lourdes com
a crença certa de que será curado, e cuja expectativa haja sido
redobrada pelos relatos de outros e por sua própria fé como
católico, conseguirá um resultado inteiramente diferente do
indivíduo que vai sem fé. Este é exatamente o caso de pessoas
tratadas por qualquer forma da Ciência Cristã.

Nem sempre é possível a um médico implantar a crença de seu
poder pessoal, conquanto seja grande a fé que seu paciente nele
deposite. O hipnotismo é um meio de atingir este fim, a despeito da
oposição. Devemos agradecer a Liébault, de Nancy, por haver sido

o primeiro a empregar a sugestão metodicamente no tratamento das
moléstias. É verdade que a sugestão verbal foi usada
ocasionalmente pelos antigos mesmeristas. Por outro lado, Braid
não a reconheceu. Supunha antes que certos métodos de produzir
catalepsia, etc., influenciavam a distribuição do sangue, e que
provavelmente se passavam alterações nervosas.

Muitas pessoas, desconhecidas para Liébault, compreenderam que,
sob um ponto de vista médico, um estado no qual as contrações e a
paralisia, a dor e a insensibilidade à dor etc., podiam ser produzidas
e removidas, devia ser de enorme importância: mas devemos
realmente considerar Liébault como o verdadeiro fundador da
sugestão sistemática aplicada ao tratamento médico.

Naturalmente, a dificuldade de julgar o valor curativo da hipnose
torna-se ainda maior devido à vaga definição do que seja .sugestão
hipnótica.. Assim, alguns se opõem ao tratamento sugestivo, alguns
ao tratamento hipnótico sugestivo, enquanto outros objetam às
vezes à sugestão em geral, com ou sem hipnotismo; estes últimos
têm razão, a despeito de seu falso ponto de vista, porquanto é
impossível traçar uma linha definida entre a sugestão e o
hipnotismo. É difícil haver dúvida de que o hipnotismo e a sugestão
venham a ser gradualmente fundidos num assunto único, porque as
hipnoses espontâneas e passageiras parecem suceder muitas vezes
na vida comum.

Consideremos agora simplesmente as principais objeções
apresentadas contra o hipnotismo como agente terapêutico.

Uma importante objeção foi levantada por Ewald, de Berlim, que
protestou enfaticamente contra a expressão .tratamento médico pelo
hipnotismo.. Dizia ele que tratamento médico significava a arte
médica e o reconhecimento da Medicina, e que qualquer pastor,
alfaiate ou remendão podiam hipnotizar, bastando para isso apenas
a confiança própria. Mas a Medicina não tirou um incontável
número de seus remédios do mais rude empirismo17, das tradições
dos pastores?
Não pode qualquer remendão injetar morfina, aplicar ventosa e
ministrar laxativos, se dispuser do material?


Entretanto, não desprezamos esses remédios, nem banhos, nem
massagens, etc. Por outro lado, seria um grave engano crer que um
delicado agente como a hipnose, que afeta e modifica as mais altas
atividades de nossas mentes, pudesse ser manipulado por um
pastor, ou cujo uso lhe pudesse ser confiado. A ciência médica e o
conhecimento psicológico, a capacidade de diagnosticar e de
praticar, tudo é necessário para seu uso. Desde longa data a Ciência
vem deixando o importante fenômeno da hipnose entregue a
irresponsáveis e ignorantes operadores de palco; já é tempo de
buscar uma compensação pela demora, e de conscienciosos
pesquisadores da verdade devotarem-se a um minucioso exame de
uma série de fenômenos que podem completar nossos
conhecimentos sobre psicologia e sobre a fisiologia do cérebro.

Uma segunda objeção que muitas vezes se apresenta é a do perigo
da hipnose. Este ponto deve ser seriamente ponderado. Ora, pode-
se afirmar com certeza que na Medicina há poucos remédios que
não causariam mal, se ministrados ignorante e descuidadosamente.
Existem até mesmo medicamentos que podem fazer mal, ainda
que cautelosamente empregados, porque não sabemos exatamente
sob que condições eles se tornam nocivos. Não precisamos falar
sobre a morfina, a estricnina e a beladona, que às vezes têm causado
danos, mesmo quando a dose máxima não foi ultrapassada, nem
sobre as mortes por clorofórmio, cuja razão ainda não foi
devidamente explicada. Muitas mortes resultaram do uso do cloreto
de potássio. Sérios colapsos se verificaram após o emprego da antipi

17 EMPIRISMO: sm. Doutrina que admite que o conhecimento provenha
unicamente da experiência. § em.pi.ris.ta s2g. [Miniaurélio Eletrônico versão
5.12.81]. SMJ.


rina. Acrescentamos a estes o nome de um soporativo recente — o
sulfonal — que se supõe ser uma droga hipnótica perfeitamente
inofensiva. Citemos também o tratamento que consiste na
suspensão temporária pelo pescoço, que esteve recentemente muito
em moda, como cura da ataxia locomotora18. Sabe-se agora com
certeza que pode causar grande dano, ou mesmo a morte. Billroth
recentemente apontou os grandes perigos oferecidos pelo ácido
carbólico — fenol ou ácido fênico — largamente usado. E se
deixarmos de prescrever esses medicamentos, podemos desistir
completamente da Medicina, pois tudo que se emprega pode fazer
mal.

Certamente a questão não é saber se há ou não perigo no uso de
drogas. Devemos antes perguntar:

1. Sabemos sob que condições aparece o perigo supostamente oculto
na hipnose?
2. Podemos remover estas condições e o consequente perigo?
3. E se não pudermos, a vantagem resultante para o paciente
compensa o perigo que ele corre?
18 ATAXIA: Incoordenação motora. Perturbação da coordenação muscular em
que o movimento é controlado apenas parcialmente. Exemplos:
Doença de São Vito, mal de Parkinson, paralisia cerebral. A ataxia é mais um
sintoma do que uma doença. ATAXIA LOCOMOTORA PROGRESSIVA: A
infecção da medula por sífilis é a causa da grave afecção progressiva do sistema
nervoso. Pode aparecer a qualquer mo mento, dos cinco aos quinze anos, depois
da infecção inicial. É chamada "Tabes dorsalis" a inflamação da medula vertebral,
de natureza sifilítica. [Dicionário de Termos Médicos]. SMJ.


A resposta a estas perguntas é decididamente a favor do
hipnotismo. Sabemos perfeitamente bem sob que condições ele é
perigoso, o que não sabemos acerca de algumas drogas. Em certos
casos somos capazes de excluir essas condições, empregando
determinados métodos inofensivos, diminuindo assim, se não que
evitando inteiramente, o perigo. Naturalmente os pequenos
desconfortos aos quais o paciente se expõe — uma breve dor de
cabeça, olhos lacrimejantes e depressão — nada significam, se
comparados às vantagens que podem resultar da hipnose.

Contudo, não queremos negar de modo algum que haja certos
perigos no uso impróprio do hipnotismo.
Quem já viu a diferença entre um indivíduo que recebeu uma
sugestão excitante e um que recebeu uma sugestão calmante,
concordará que tanto se pode fazer bem de um modo, quanto mal
de outro. Uma pessoa que faça absurdas sugestões para se divertir e
satisfazer sua curiosidade, sem objetivo científico, não deve
admirar-se de produzir sofrimentos. Nunca será demasiado
prevenirmos nossos leitores contra tais diversões. Podemos nos
espantar, se uma pessoa despertada subitamente de uma hipnose,
durante um incêndio imaginário, se sinta mal após isso? Tais
sugestões não devem absolutamente ser feitas, salvo com a máxima
precaução, tomando-se o cuidado de desfazê-las e de acalmar o
paciente, antes de acordá-lo. Este é o ponto mais importante, pois
mesmo que estes erros sejam cometidos, são de poucas
consequências, desde que o indivíduo seja completa e
convenientemente despertado. Muitos operadores ignoram por
completo que devem desfazer inteiramente as sugestões. Pensam
ser bastante soprar no rosto do paciente e se admiram que este não
se sinta bem ao acordar. É surpreendente que não seja causado
maior dano em consequência de insuficiente conhecimento técnico.
Isto é que é perigoso, não o hipnotismo.


Para mostrar como se deve destruir uma sugestão, suponhamos que
uma sugestão excitante haja sido feita a um indivíduo, que esteja
perturbado, em consequência disso. Deve-se dizer mais ou menos
isso: .O que vos excitava já se acabou, foi apenas um sonho e vós
vos enganastes em acreditá-lo. Agora ficai tranquilo. Vós vos sentis
descansado e à vontade. É fácil ver que estais perfeitamente à
vontade.. Somente depois disso o paciente deve ser despertado, o
que também não pode ser feito repentinamente; é muito
melhorprepará-lo para acordar; os melhores operadores geralmente

o fazem, dizendo: .Vou contar até três. Despertai quando eu disser
três.. Ou, .Contai até três e depois despertai.. Muitas vezes — e isto
também é importante — acrescentam: .Estareis muito à vontade,
feliz e contente quando despertardes.
Falamos no nervosismo que se supõe ser produzido pelo
hipnotismo, e tentamos mostrar que não é o hipnotismo que o
causa, mas seu uso impróprio. As seguintes regras devem ser
especialmente seguidas:

1. Evitar o contínuo estímulo dos sentidos tanto quanto possível.
2. Evitar todas as sugestões mentalmente excitantes tanto quanto
possível.
3. Desfazer a sugestão cuidadosamente antes de despertar.
O método conveniente não causará nervosismo.

Os perigos reais do hipnotismo são: a crescente tendência à hipnose,
e a exaltada suscetibilidade à sugestão em estado de vigília. Pode
haver possibilidade de uma nova hipnose contra a vontade do


indivíduo, talvez sem que ele o suspeite, ou o perigo de que ele
aceite sugestões externas, mesmo sem hipnose.

O perigo que mencionamos por último pode ser evitado fazendo-se
repetidamente a seguinte sugestão ao paciente, antes de despertá-lo:
.Ninguém jamais será capaz de hipnotizar-vos sem vosso
consentimento; ninguém será capaz de sugerir-vos qualquer coisa
quando estiverdes desperto; nunca necessitais temer ilusões dos
sentidos, etc., como vos acontece em hipnose, sois perfeitamente
capaz de impedi-las.. É maneira prudente, mas não infalível, de
evitar o perigo.

Tais são os perigos do hipnotismo e os métodos de preveni-los.
Todas as escolas concordam em um ponto: que seu antídoto é a
sugestão, e que eles não constituem um obstáculo ao tratamento
hipnótico.

Pode-se, porém, objetar que, conquanto um breve emprego do
hipnotismo não seja nocivo, uma aplicação em larga escala,
envolvendo uma repetida produção do estado de hipnose, pode ser
perniciosa. Isto também poderia ser argumentado contra o uso de
várias drogas, pois que ainda não sabemos se seu uso continuado
não virá causar um envenenamento crônico sério. A experiência é o
único meio de decidir estas questões. Liébault, que usou o
hipnotismo como agente terapêutico por quase quarenta nos,
observou casos de longa duração, sem notar quaisquer más
consequências. Pelo contrário, a hipnose tornou-se mais profunda e
a sugestão, consequentemente, mais fácil.


Pondera-se mais que os aspectos misteriosos e algo estranhos do
hipnotismo devem impedir sua aplicação. Ora, de certo deve ser
perfeitamente indiferente a um médico que uma droga tire seu
efeito da misteriosa impressão que ela produz, ou pela sugestão, ou
pela influência físico-química. A questão é que ela aja, e não sua
maneira de agir.

Entre as restantes objeções aos métodos sugestivos de curar
moléstias, pode-se mencionar a asserção de que tais processos não
produzem qualquer melhora ou cura duradouras. Não é assim,
entretanto. Ao contrário, um grande número de curas duradouras
foi observado e publicado. Mesmo que assim fosse, deveríamos
rejubilarmo-nos por havermos encontrado um meio de alcançarmos
um alívio temporário. De qualquer forma a ciência médica não está
ainda tão avançada para dar-nos o direito de rejeitarmos um
remédio só porque este tem provado ser muitas vezes de valor
transitório. Além disso, de alguns métodos de tratamento não se
espera senão uma melhora temporária, e, entretanto considera-se
provado o mérito do médico.
Quantas vezes acontece que um paciente beneficiado por uma
estada em uma estação de águas é aconselhado por seu médico a
voltar lá, quando sua enfermidade retorna, porque sua saúde
melhorou da primeira vez.

Outro argumento é que o hipnotismo não pode ser aplicado de um
modo geral, porque nem todos são hipnotizáveis, e, também, que
em muitos casos, mesmo quando ocorre a hipnose, não é bastante
profunda para ser usada terapeuticamente. Mas não se dá o mesmo
com outros remédios? Por exemplo, sob algumas circunstâncias
uma viagem a distantes lugares é tida como excelente remédio. São
em muito maior número as pessoas que podem ser hipnotizadas do
que as que possam ser enviadas a longínquas regiões.


Vejamos agora que distúrbios são particularmente submetidos ao
tratamento hipnótico e por ele beneficiados.

Tanto quanto temos podido julgar até agora, as moléstias nervosas
não provenientes de anomalias anatômicas são os distúrbios mais
frequentes influenciados pela hipnose. São particularmente
sensíveis: dores de cabeça, dores de estômago, dores dos ovários,
dores reumáticas e nevrálgicas, insônia, perturbações histéricas,
principalmente paralisias das extremidades e afonia — perda da
voz; distúrbios da menstruação, sonambulismo espontâneo, sonhos
aflitos, perda de apetite, alcoolismo e morfinismo, gagueira,
perturbações nervosas da vista, zumbido nos ouvidos, casos prolongados
de coréia19, dança de São Vito20, agorafobia — temor
nervoso de atravessar espaços abertos — cãibra dos escritores, etc.

A histeria não é facilmente curável, conquanto se possa obter
melhora dos sintomas pelo hipnotismo e sugestão, assim como por
qualquer outro método. Acima de tudo, porém, é necessário um
cérebro sadio para a hipnose; quanto mais sadio for, mais rápidos
serão os resultados. Em pacientes histéricos muitas vezes o cérebro
nunca é normal. Pela mesma razão é difícil tratar pessoas dementes
pelo hipnotismo. Todavia, conseguiram-se melhoras nas formas
mais brandas de doenças mentais, como melancolia e manias.

19 CORÉIA: Popularmente conhecida como .dança-de-são-vito.. Atualmente ela é
rara em muitos países. Pode ocorrer em crianças e adolescentes, acompanhando
uma infecção na garganta. Os movimentos descontrolados ocorrem devido a um
distúrbio temporário do cérebro. O tratamento consiste em ficar de repouso
absoluto durante o estágio agudo e tomar uma série prolongada de antibióticos.
[Dicionário de Termos Médicos]. SMJ.

20 Veja nota anterior. SMJ.


Com referência às moléstias orgânicas, oriundas de alterações
anatômicas dos órgãos, no que diferem das desordens funcionais,
temos diante de nós um bom número de observações verídicas, das
quais se conclui que as consequências das doenças podem ser
parcialmente removidas pela hipnose. Mesmo que a sugestão não
consiga senão minorar a dor, já se terá assegurado uma acentuada
melhora em uma moléstia orgânica; isto tem sucedido
frequentemente em casos de reumatismo articular.

Entre outras enfermidades acompanhadas de lesão orgânica, em
uma criança de oito anos, um eczema21 muito doloroso do ouvido
tornou-se indolor pela sugestão pós-hipnótica. Esta criança não
podia suportar o mais ligeiro toque. Uma ordem que lhe foi dada
em sua primeira hipnose produziu tal efeito, que lhe foi possível,
depois, aguentar uma forte pressão naquele local.

Quais são as contraindicações do tratamento hipnótico, isto é, que
condições proíbem o uso do hipnotismo? Os mais destacados
hipnotizadores na profissão médica dizem não conhecerem
nenhuma. É possível, entretanto, que quando certos fenômenos
produzidos pela autossugestão não possam ser evitados, o emprego
do hipnotismo seja contraindicado. Todavia, o efeito curativo
desejado é tão mais importante do que um eventual ataque de
histeria, etc., que, em geral, um operador cuidadoso e esclarecido
não deve permitir-se deter-se ante aquele inconveniente. De
qualquer modo não existem mais contraindicações contra este tratamento
do que contra qualquer outro.

21 ECZEMA: sm. Dermatose inflamatória, com formação de vesículas e crostas.
[Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.81]. SMJ.


A sugestão metódica é a chave do hipnotismo curativo. Quando o
hipnotizado recusa a sugestão, o que algumas vezes acontece, por
grande que seja a impressão misteriosa, não produzirá nenhum
resultado terapêutico. Por outro lado, certas pessoas foram influenciadas
hipnótica e sugestivamente, apesar de não acreditarem que
fossem hipnotizáveis; contudo não opuseram qualquer resistência, e
ao acordarem muito se espantaram quando souberam que haviam
sido hipnotizadas e beneficiadas pela hipnose. Informações falsas
despertaram tanta desconfiança no tratamento hipnótico que em
certos casos não se lhe dá crédito algum. Mas o imenso poder da
sugestão hipnótica é demonstrado pelo fato de ser eficaz em um
grande número de casos, a despeito da desconfiança; pois a
desconfiança é uma poderosa autossugestão, e esta é o maior
adversário da sugestão externa. O sucesso da sugestão hipnótica
será tanto maior quanto mais desaparecer a desconfiança do público
em geral, e quando se houver reconhecido que o hipnotismo,
propriamente usado, é tão inofensivo quanto a eletricidade convenientemente
aplicada. O hipnotismo e a sugestão sobreviverão a
muitos remédios cujos louvores enchem as colunas das revistas de
Medicina atualmente.

Tem-se perguntado se o hipnotismo e a sugestão são de valor real
para a arte de curar. Para responder a isto, devemos considerar se
um maior número de pacientes são curados ou melhorados por este
meio do que exclusivamente por tratamento físico e químico. É
difícil decidir. Se supusermos que 50 por cento são curados ou
melhorados pelo tratamento comum — o que de maneira alguma
representa a verdade — e que 2 por cento são curados ou
melhorados pela sugestão, estes algarismos não significariam muito,
pois que a percentagem se elevaria apenas de 50 para 52. Mas se
supusermos que pelos métodos ordinários22 somente um por cento
das neuroses funcionais são curadas ou melhoradas — o que é mais
próximo da verdade — e que 2 por cento são curadas ou


melhoradas pela sugestão, isto representaria um grande progresso,
visto que a percentagem subiria de 1 para 3, isto é, o número de
doentes eficazmente tratados seria triplicado. E com tais
possibilidades não vale a pena dar ao hipnotismo uma
oportunidade de eliminar ou aliviar a moléstia?

Na maioria dos casos são necessárias experiências preparatórias. As
primeiras tentativas devem ser prolongadas apenas por alguns
minutos. Se forem mal sucedidas, é necessário aplicar métodos mais
fortes, especialmente a atenção fixa. Como uma dor violenta muitas
vezes impede a hipnose, é melhor escolher um momento em que o
doente não a esteja sentindo para se proceder à primeira tentativa.
Assim a hipnose será produzida também mais tarde, mesmo no
meio de violenta dor. É geralmente necessária a sugestão
ocasionalmente, mesmo depois de obtidas melhoras ou a cura, para
impedir a volta dos sintomas.

O hipnotismo não dará necessariamente resultados imediatos. Se a
hipnose for profunda, pode-se conseguir um efeito muito
rapidamente; em outros casos são precisos método e paciência,
devendo ser tomado em consideração o tempo que a enfermidade já
durou.
Quanto mais a ideia de dor estiver arraigada, tanto mais difícil será
vencê-la. Nesse caso uma forte autossugestão tem que ser
substituída e conquistada por uma sugestão externa mais forte.

22 ORDINÁRIO: adj. 1. Que está na ordem usual das coisas; habitual, comum. 2.
Regular, frequente. [Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.81].
SMJ.



O hipnotismo não deve ser considerado como uma espécie de
última esperança no tratamento das moléstias. É dever de todo
aquele que crê ser o hipnotismo inofensivo quando bem aplicado,
usá-lo quando julgar que pode ser útil e antes que seja tarde demais.
Muitos males se tornam incuráveis apenas porque não são
prontamente tratados a princípio.

Naturalmente, é preciso tomar cuidado ao se examinarem as
características peculiares de cada paciente.
Os indivíduos não são mais semelhantes mentalmente do que o são
fisicamente, e suas diferenças mentais são mesmo maiores do que as
corporais. Portanto é simplesmente natural que os operadores que
têm conhecimentos psicológicos sejam bem sucedidos, enquanto
outros que seguem regras fixas e inflexíveis fracassam.
As investigações de muitos autores mostram quais os resultados
que podem ser obtidos por um hábil uso da sugestão, pois que
tiveram êxito em muitos casos pouco animadores. É
incompreensível que algumas pessoas neguem o valor terapêutico
do hipnotismo simplesmente porque suas poucas experiências
próprias falharam. O mesmo acontece com todos os instrumentos;
um operador prático consegue êxito onde um sem prática fracassa.
Desse modo um hipnotizador experimentado e consciencioso
eliminará sofrimentos pela sugestão, enquanto um inábil pode
produzi-los por falta de experiência. É certo que as pessoas que são
sugestionáveis e fáceis de serem hipnotizadas podem ser
influenciadas por qualquer um. Mas em casos mais difíceis, um
médico que tenha experiência e conhecimento psicológico obterá
êxito onde outros nada conseguirão. Certamente, não é necessário
deixar de usar outros meios, enquanto estiver sendo empregado o
hipnotismo; ao contrário, em cada caso as indicações devem ser
seguidas. A sugestão não suplanta outros métodos de curar, mas
completa-os.


Como é natural, tudo que possa tornar ineficaz a sugestão, precisa
ser evitado; e, antes de tudo, o medo da hipnose. Não há dúvida
que isto pode causar mais danos e produzir efeitos mais
desfavoráveis do que a própria hipnose. Por conseguinte, é
aconselhável não empregá-la quando o paciente estiver excitado e
atemorizado por isso; de fato qualquer espécie de superexcitação
pode tornar ineficaz a sugestão.

Torna-se agora evidente que o estudo do hipnotismo aumentará
muito nosso ponto de vista sob vários aspectos; seremos capazes de
solucionar muitos enigmas que nos têm intrigado. Como se tem
provado que até mesmo alterações orgânicas podem ser causadas
por sugestão, seremos obrigados a atribuir uma importância muito
maior às influências mentais do que até agora atribuímos. Dessa
forma as moléstias geralmente chamadas imaginárias, mas que
realmente não o são, tornar-se-ão curáveis. Ambientes impróprios
causam ou aumentam muitas doenças. Poucas são as pessoas que
não se impressionam quando de todos os lados lhes dizem que
parecem estar muito doentes, e muitas têm sofrido tanto por este
processo mental cumulativo como se tivessem sido envenenadas.
Assim como a sugestão pode afastar a dor, também pode criá-la e
fortalecê-la. Pouco consolo é chamar tais dores de imaginárias, pois
mesmo que sejam .apenas imaginárias. perturbam tanto o paciente
como se fosse real.

Na realidade, esta expressão dor imaginária, que é usada por
médicos e também por leigos, é cientificamente falsa. Um autor
comparou muito bem dores imaginárias. com alucinações. Ora,
podemos dizer que o objeto da alucinação seja imaginário, mas é
falso dizer-se que a percepção seja imaginária; esta permanece a
mesma, quer seja o objeto imaginário ou não.


Assim se passa quando a dor é sentida, seja o médico capaz ou não
de descobrir sua causa física. Podemos dar a tal dor, sem sintomas
objetivos, o nome que nos aprouver, mas podemos estar certos de
que ela é uma consequência necessária de algum distúrbio positivo.
Certas ideias subjetivas causam tanta dor quanto um espinho
penetrante. Eliminá-las é tanto o dever de um médico, quanto o de
tirar um espinho do pé.

USOS DO HIPNOTISMO

DE todas as circunstâncias relacionadas com o sono hipnótico nada
marca tão fortemente a diferença entre esse e o sono natural quanto

o maravilhoso poder que aquele apresenta de curar tantas moléstias
de longa duração, que resistiram ao sono natural e a todos os
recursos conhecidos durante anos.
Surdos-mudos de nascença, de idades que variavam até trinta e dois
anos, estiveram privados da faculdade de ouvir até serem
hipnotizados, entretanto lhes foi possível ouvir, quando mantidos
em estado hipnótico por tempo correspondente a oito, dez ou doze
meses, e sua audição melhorou ainda mais pela repetição do mesmo
tratamento. Suponho, pois, que esses pacientes tenham passado
dormindo seis horas em cada vinte e quatro, muitos deles tiveram
cinco, seis ou oito anos de sono contínuo e, contudo, despertavam
como tinham se deitado, isto é, incapazes de ouvir. Apesar disso,
alguma percepção de som lhes foi comunicada por alguns poucos
minutos de hipnotismo. Será possível exigir-se ou apresentar-se
uma prova mais forte do que esta, de que o hipnotismo é muito
diferente do sono comum? Uma senhora de cinquenta e quatro a

nos de idade estivera sofrendo, durante dezesseis anos, de
amaurose (*).

Quando visitou Braid mal podia ler duas palavras das de maior
tipo em um cabeçalho de jornal. Após somente oito minutos de sono
hipnótico, todavia, pôde ler outras palavras e em três minutos mais
todos os tipos menores, e na mesma tarde, com auxílio de seus
óculos, ela leu o Salmo 118, 29 versos em tipo miúdo, em sua Bíblia
Poliglota, que durante muitos anos fora um livro interditado para
ela. Houve também uma melhora muito acentuada em seu estado
de saúde geral, desde que foi hipnotizada. Há alguém que possa
deixar de ver neste caso algo diferente do sono comum? Sentimonos
seguros, pela experiência pessoal e pelo testemunho de amigos
profissionais, em cujo critério e imparcialidade podemos
implicitamente confiar, de que adquirimos assim um importante
agente terapêutico para certa classe de moléstias. Acreditase que
pode prestar grande benefício, se judiciosamente aplicado. As
doenças manifestam condições patológicas totalmente diferentes, de
acordo com as quais deve o tratamento variar. Não temos, portanto,
nenhum direito de esperar encontrar um remédio universal neste
ou em qualquer outro método de tratamento.

Laurent cita casos de pessoas que deixaram o fumo, não por uma
ordem dada diretamente, mas sugerindo-se que o cheiro do fumo é
muito desagradável, que este as envenenava lenta e seguramente, e
que se o paciente não deixasse de usá-lo morreria. O resultado é
geralmente eficaz.

(*) Perda parcial ou total da vista, sem lesão ou outra causa fisiológica
identificada. (N. do T.).


No tratamento de pacientes com o objetivo de fazê-los deixar o
hábito do tabaco descobriu-se ser um excelente sistema, quando em
estado sonambúlico, fazer voltar o indivíduo hipnótico aos
primeiros períodos de sua vida, ao tempo em que este hábito lhe era
ainda desconhecido, dizendo-se que nunca mais deverá novamente
tocar no fumo, que não deverá fumar nem mascar tabaco, ou fazer
qualquer dessas coisas que ele não fazia quando era menino. Pode-
se sugerir-lhe que o tabaco é nocivo em alto grau; que se o usar
nunca se sentirá bem. Se pudermos conseguir que o paciente
prometa que nunca mais o usará, ele assim o fará. As promessas
feitas em estado hipnótico raramente são quebradas. Muitas vezes é
difícil conseguir que o indivíduo prometa alguma coisa, mas
quando se tem êxito, a cura é garantida.


Em muitos casos é necessário hipnotizar o paciente muitas vezes
antes que ele fique realmente curado do hábito do tabaco. O sucesso
muitas vezes depende do próprio desejo do indivíduo. Se este
estiver determinado a fumar quando se achar em seu estado
normal, é quase impossível curá-lo pelo tratamento hipnótico.
Por outro lado, se ele deseja ser curado e tem fé na operação, a cura
é certa.


A imaginação é um fator potente na formação como na cura de
muitas práticas condenáveis. Citam-se alguns de sofrimentos muito
sérios em consequência do repentino abandono do tabaco, mas, se o
paciente for hipnotizado outra vez, pela sugestão, o sofrimento
pode ser e quase sempre é aliviado, senão curado. O operador
deverá estar firme, quando o paciente estiver no estado
sonambúlico, e repetir duas ou três vezes:


Certamente estareis livre de dor quando acordardes.
Não precisareis fumar; o cheiro do fumo vos fará doente outra vez;
não gostais de fumo; é muito desagradável; estareis bem quando



despertardes e não ficareis de novo doente pela falta de fumo; só
ficareis doente se o usardes.. É bom fitar firmemente o indivíduo enquanto
se fala, e, ou segurar sua mão na nossa, ou colocar a mão em
sua cabeça. Raramente é preciso ter que hipnotizar um paciente
mais de duas ou três vezes para curá-lo do hábito de fumar.

O hipnotismo parece prometer muito aos que sofrem de hábitos
condenáveis. Oedmann diz ter conseguido bons resultados com a
sugestão, na cura do alcoolismo. O sonambulismo sugestivo tem
curado quando todos os outros remédios conhecidos já falharam.

Em casos de embriaguez, a cura depende muito da duração de cada
.bebedeira. e do número de anos que o hábito está radicado na
mente ou no cérebro do paciente, assim como na condição física
deste na ocasião em que se tentar o sono hipnótico. Quanto melhor
estiver a saúde, mais rápida será a cura na maioria dos casos.

O hipnotismo não produz, necessariamente, resultados imediatos.
Se a hipnose for profunda e resultar em estado sonambúlico, bons
efeitos podem ser obtidos muito prontamente; em outros casos são
precisos paciência e método, devendo ser todas as dificuldades
tomadas em consideração. Quanto mais a ideia de beber estiver
arraigada, mais difícil é vencê-la. O Dr. Liébault e o Dr. Liegeoir
foram somente capazes de curar um paciente, depois de sessenta
sessões de hipnotismo, cada uma das quais durava mais de meia
hora.
Por que o hipnotismo deva ser medido por um padrão diferente do
de outros métodos de tratamento é inexplicável. Um médico muitas
vezes se satisfaz em obter um resultado depois de semanas ou
meses de tratamento eletroterapêutico, e quantas vezes, depois de
meses de perseverança, esse resultado não aparece?


Por que, então, devemos esperar que a terapêutica sugestiva tenha
êxito em um dia? Muitas vezes é necessária a paciência tanto de
parte do médico quanto do doente, em todos os tratamentos.

Muitos autores, especialmente Kroepelin, têm nos últimos anos
advogado o emprego da hipnose no alcoolismo. Corval diz que no
alcoolismo qualquer mau efeito resultante da abstinência pode ser
evitado, simplesmente sugerindo-se que todo desejo e gosto pela
bebida desaparecerão. Quando o operador se dirigir ao paciente
deve estar certo de falar firmemente, e dizer mais ou menos isto:
.Prestai-me muita atenção. Lembrai-vos, quando acordardes, que
não bebereis nem provareis qualquer vinho ou bebida, durante três
dias e três noites — lembrai-vos — e depois voltai.. A sugestão pós-
hipnótica é um maravilhoso auxílio em tais casos, e após duas ou
três hipnoses se pode dizer ao paciente para não voltar durante três
semanas, depois três meses, e finalmente para não vir nunca mais.

Berillon, Tanzistrand e outros são favoráveis a este método gradual
de curar. Berillon e Jennings sustentam que a autossugestão é um
grande fator que dificulta o tratamento tanto do alcoolismo quanto
do morfinismo. O paciente é levado a desistir do tratamento
pela autossugestão de que ele não pode passar sem beber ou tomar
morfina. O caso seguinte é muito interessante.

O paciente era um mecânico, fisicamente bem desenvolvido, de
quarenta e três anos de idade, casado, e tinha três filhos sadios. Não
se achava nele nenhuma moléstia orgânica. Cada três meses,
regularmente, tomava uma bebedeira que durava duas semanas.
Explicava ele que não sentia nenhum desejo físico por bebidas, mas
tinha um impulso mental para beber que se tornava uma ideia fixa,
à qual lhe era impossível resistir.


Ficava possuído desta ideia geralmente cerca de quatro dias antes
de ceder ao seu impulso. Puseram-no em estado sonambúlico e
disseram-lhe de modo positivo que a ideia se desvaneceria. Mas não
se desvaneceu. Na noite seguinte em que fora hipnotizado ele disse
sentir que o impulso estava aumentando e que temia ter que ceder-
lhe. Hipnotizado novamente, caiu em profundíssimo sono. De
maneira firme e severa disseram-lhe que lembrasse que era um
homem, com uma vontade firme, e que devia resistir ao desejo. Que
não devia beber! Que o uísque o tornaria doente e que quando
despertasse, a primeira coisa que deveria fazer era passar seis vezes,
para baixo e para cima, diante de um botequim e não entrar! E que
pensar no uísque lhe faria mal! Logo que acordou do sono
hipnótico, fez o que lhe fora dito. Foi vigiado por seu irmão, e não
bebeu. No dia seguinte o desejo por bebida havia desaparecido
completamente.
No fim dos três meses seguintes ele confessou que a ideia o
perseguia novamente, mas não tanto quanto antes. Uma sessão
hipnótica foi suficiente para dissipá-la. Ao cabo de mais nove
meses, ele informou que tinha tomado um copo de uísque com um
amigo e que a antiga ideia retornara. Foi hipnotizado, e desde então,
em um período de três anos, não teve mais desejo de beber.

É sempre conveniente, quando se fazem sugestões a indivíduos em
estado de sonambulismo, em assuntos importantes, como deixar de
beber, de fumar, etc., colocarmos as mãos no dorso das suas e fitálos
firmemente, enquanto damos as ordens ou fazemos sugestões. É
sempre necessário haver um sono para que se manifeste uma ação
rápida; uma simples inércia é suficiente em certos casos; mas
raramente podem a moléstia ou o hábito serem minorados, a menos
que o paciente se torne sonambúlico, sem se lembrar de coisa


alguma ao despertar, salvo o que lhe dissermos para lembrar. Ele se
tornará altamente sugestionável. Por exemplo, um homem vem a
ser curado de morfinomania. O paciente é posto a dormir por meio
de sugestão, isto é, fazendo-se a ideia de sono em sua mente. É tratado
por meio de sugestão, isto é, fazendo-se a ideia de cura
penetrar em seu cérebro e ali ficar. Afirmai num tom de voz firme e
baixo: .Estais dormindo e deveis dormir profundamente; deveis
pensar bem no que eu disser. Quando despertardes, haveis de
lembrar-vos de tudo que eu disser. Lembrar-vos-eis?. Afinal o
paciente pode prometer. Se o fizer, teremos conseguido muito no
sentido de curá-lo. Se ele não falar, colocamos a mão em sua testa e
continuamos: .Quando acordardes, não precisareis de morfina; não
gostareis dela, ela vos fará doente.. Fechamos suas pálpebras, em
silêncio, por alguns instantes, depois, em pouco mais que um
sussurro continuamos: .Lembrai-vos de tudo quanto digo quando
acordardes. Não precisareis de nenhum ópio, de modo algum; não
sentireis dor. O desejo não voltará mais.. No intuito de aumentar a
força da sugestão, corporificando-a, por assim dizer, num sentido
material, conforme o exemplo do Dr. Liébault, sugerimos uma
sensação de calor no lugar doente. Mais ou menos em vinte
minutos, acorda-se o paciente. Em alguns casos o paciente é
hipnotizado duas vezes, em outros, são necessárias muitas vezes
antes que o desejo desapareça inteiramente.

É no sonambulismo que a sugestão atinge sua máxima eficiência, e
as curas são muitas vezes instantâneas, chegando a parecer
miraculosas. Certos indivíduos resistem a muitas tentativas de
hipnotizá-los; apenas caem em sonolência; o efeito obtido é ligeiro
ou duvidoso.
Perseverando-se por algum tempo, vários dias ou mesmo várias
semanas, com hipnotizações de pouco resultado, algumas pessoas
podem, afinal, ser postas em sono mais profundo, e então a ação
terapêutica da sugestão pode ser rápida e duradoura.


A forma de sugestão deve também ser variada e adaptada à
sugestibilidade especial do paciente. Uma simples palavra nem
sempre basta para incutir a ideia na mente. Algumas vezes é
necessário raciocinar, provar, convencer e, em certos casos, afirmar
decididamente; em outros, insinuar brandamente, pois, no estado
de hipnose, como no de vigília, a individualidade moral de cada
pessoa persiste de acordo com seu caráter, sua inclinação, sua
impressionabilidade, etc. O hipnotismo não plasma23 todos os
indivíduos em um molde uniforme, nem faz deles autômatos puros
e simples, movidos somente pela vontade do operador. O hipnotismo
aumenta a docilidade cerebral, faz a atividade automática
preponderar sobre a vontade. Esta, porém, persiste num certo grau,

o indivíduo pensa, raciocina, discute, aceita mais prontamente do
que no estado de vigília, mas nem sempre aceita, especialmente nos
graus mais leves do sono. Nestes casos precisamos conhecer o
caráter do paciente, sua condição psíquica particular, para que
possamos produzir nele uma impressão.
Muitas pessoas têm medo do hipnotismo, mas sem razão. Mesmo
que a hipnose possa não ser absolutamente segura, contudo, não é
de nenhum modo perigosa. Os perigos do hipnotismo são algo
exagerados.
Nas mãos de um operador completo, seja médico ou não, não há
mal. De fato, com o hipnotismo, ninguém poderia causar mal a um
paciente, como o faria com drogas. Muito mais conhecimento é
preciso para manejar a Medicina do que para manejar o hipnotismo.

23 PLASMAR: v.t.d. 1. Modelar em gesso, em barro, etc. 2. Dar forma a; modelar.
(Plasma é o verbo PLASMAR no Presente do Indicativo: .ele plasma.).
[Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.81]. SMJ.


Nunca se pergunta se um remédio não será perigoso. Somente
perguntamos se não podemos evitar o perigo, usando-o
cuidadosamente e cientificamente. A melhor asserção que se possa
fazer a respeito de um remédio ou de um método de cura, é que ele
possa também causar dano, pois o que nunca pode fazer um mal
positivo nunca poderá também fazer um bem positivo. Esta
asserção é até certo ponto justificável, conquanto talvez exagerada,
visto existirem na Medicina poucos remédios que sejam inócuos se
forem empregados sem cuidado e ignorantemente. Há até mesmo
medicamentos que podem ser nocivos, embora cautelosamente
usados, porque não sabemos exatamente sob que condições eles se
tornam prejudiciais. Não precisamos falar da morfina, da estricnina,
que às vezes fazem mal, mesmo quando não ultrapassada a dose
máxima, nem das mortes pelo clorofórmio, cuja razão não foi
explicada. Thiem e P. Fischer, com louvável franqueza científica,
muito recentemente publicaram um caso de pós-efeito fatal do
clorofórmio: a morte verificou-se no quarto dia. Esses autores dizem
que há pelo menos uma morte em cada mil aplicações de
clorofórmio. Nem precisamos falar do perigo das operações
cirúrgicas. Queremos apenas mostrar que um medicamento
aparentemente inofensivo pode, muito provavelmente, ter
produzido mais dano do que o hipnotismo. Muitas mortes
resultaram do uso do cloreto de potássio. Sério colapso foi
observado após o uso de antipirina — sulfonal — que se supõe ser
uma droga hipnótica perfeitamente inofensiva. Tristes consequências
resultam às vezes de seu emprego, e há pacientes que não
podem tomá-la pelo receio de que esta inofensiva droga possa
produzir grande mal. O mesmo aconteceu com o tratamento de
Mendel, por suspensão, que em alguns anos se tornou quase moda,
e do qual alguns entusiastas esperavam realmente a cura da ataxia
locomotora. Agora é certo que pode causar grande dano, ou mesmo
a morte. Muitas informações publicadas mostram que mesmo a
presença de um médico não impede más consequências. Billroth


apontou os grandes perigos do ácido carbólico — ácido fênico —
que é frequentemente usado. Se desistirmos do uso destes remédios,
podemos desistir completamente da Medicina, pois tudo que se
emprega pode fazer mal.


O que acabamos de dizer é a favor do hipnotismo.
O futuro decidirá o seu destino, mas quase todos os homens que
pintam o mal ou os perigos do hipnotismo — Gilles de La Tourette,
Ewald, Mendel, Rieger, Binswagor — e são em geral contra ele, de
modo algum deixam de empregar o sono hipnótico. Assim fazendo,
admitem que não seja o hipnotismo em si, mas seu mau uso é que é
prejudicial.


ILUSÕES E ALUCINAÇÕES

DEPOIS que o paciente é posto a dormir muitas coisas se podem
fazer com ele. O hipnotismo, com o qual quase todos nós estamos
familiarizados, é o da espécie apresentada pelo experimentador
ambulante, que vem ao palco com alguns indivíduos e depois de
fazê-los dormir, sugere toda a sorte de coisas inverossímeis, para
que os outros vejam, e pede-lhes que pratiquem atos que eles
recusariam fazer em estado normal. Consideremos esta fase do
hipnotismo e vejamos como essas ilusões e alucinações são produzidas.


Talvez sejam necessárias algumas palavras em explicação do
significado dos termos ilusão e alucinação.
Por ilusão os psicólogos querem significar a interpretação falsa de
uma percepção. Por exemplo, o indivíduo olha um objeto e por


alguma razão crê que esse objeto seja alguma outra coisa. Pode estar
olhando um tabuleiro de xadrez feito à imitação, e diz: .Isto é um
livro.. A razão de seu engano é que ele tem visto mais livros
parecidos com aquele objeto do que tabuleiros de xadrez. Ou sua
mente pode estar tão ocupada com uma ideia a ponto de pensar que
o objeto que vê é a coisa em que ele está pensando. Uma ilusão,
portanto, é uma falsa percepção. Por alucinação queremos dizer:
ver, ouvir ou sentir um objeto que não está presente.
Na ilusão o objeto está presente e é mal interpretado; na alucinação
o objeto não está presente, mas pensamos que está.

É mais fácil criar uma ilusão do que uma alucinação, isto é, é mais
fácil dar a uma pessoa uma bengala ou um guarda-chuva e dizer-
lhe que é uma vara de pescar, fazendo-a crer nisso, do que
convencê-la de que ela segura uma vara de pescar quando
realmente nada existe.

Ilusão do sentido é a definição para a alucinação, quando usada
com referência ao hipnotismo. É a percepção de um objeto quando
em realidade nada existe.

Observamos numerosas alucinações na hipnose. As alucinações da
vista são causadas mais facilmente quando os olhos estão fechados,
os pacientes veem então objetos e pessoas com os olhos fechados,
como em sonhos. Ao mesmo tempo pensam que seus olhos estão
abertos, exatamente como sabemos em sonhos que nossos olhos
estão fechados.

Se quisermos produzir uma ilusão no sentido da vista no momento
de abrir os olhos, é necessário fazermos a sugestão rapidamente, do
contrário o ato de abrir os olhos acordaria o paciente. O uso da
atenção fixa é aconselhável enquanto a sugestão está sendo feita, de
modo que o paciente não possa despertar olhando ao seu redor. Os


demais órgãos dos sentidos podem também ser iludidos. Batemos
em uma mesa e sugerimos a ideia de que um canhão está
disparando.

Sopramos com o fole24 e fazemos a sugestão do resfolegar de uma
locomotiva. A alucinação de ouvir alguma coisa, por exemplo, um
piano, é produzida sem o auxílio de qualquer estímulo externo. Do
mesmo modo podem ser enganados os sentidos do olfato, do gosto
e do tato. Sabe-se bem que os hipnotizados beberão água, ou
mesmo tinta, pensando que é vinho, comerão cebolas por peras,
cheirarão amônia pensando ser água-de-colônia. Nesses casos, a
expressão do rosto produzida pela percepção sugerida corresponde
tão perfeitamente a ela que um efeito melhor seria dificilmente
conseguido, se fosse empregada a verdadeira substância. Digamos
ao paciente que ele tomou rapé25 e ele espirrará. Todas as
variedades do sentido do tato, da pressão, da temperatura, de dor,
podem ser influenciadas. Digamos a uma pessoa que ela está de pé
sobre o gelo, ela sentirá frio imediatamente; tremerá, baterá os
dentes e se envolverá em seu casaco. Pareceria que os sentidos do
tato e do gosto são influenciados com mais facilidade e frequência.
Por exemplo, a sugestão de um sabor amargo produz efeito muito
mais depressa do que a sugestão de uma ilusão da vista ou do
ouvido. É verdade que muitas vezes os indivíduos se julgam
responsáveis pela ilusão; sentem o amargo, mas dizem ao mesmo
tempo que deve ser uma sensação subjetiva, visto não terem nada
de amargo em suas bocas.

24 FOLE: sm. Utensílio que produz vento, para ativar combustão, limpar
cavidades, etc. [Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.81]. SMJ.

25 RAPÉ: sm. Tabaco em pó para cheirar. [Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.81].
SMJ.


As ilusões dos sentidos podem ser sugeridas de qualquer modo.
Podemos dizer ao paciente que ele vê um pássaro. Podemos sugerir
a mesma coisa por um gesto, por exemplo, fingindo segurar um
pássaro na mão, principalmente depois que ele recebeu algum
treino hipnótico. O ponto principal é que o paciente compreenda o
que se pretende significar pelo gesto.

Naturalmente, diversos órgãos dos sentidos podem ser
influenciados pela sugestão ao mesmo tempo. Digamos a alguém,
.eis aqui uma rosa.; a pessoa não só vê, como cheira e sente a rosa.
Finjamos dar a alguma pessoa uma dúzia de ostras; ela as come
logo, sem mais sugestões. No caso, a sugestão afeta a vista, a
sensação e o paladar, simultaneamente. Muitas vezes uma sugestão
influencia o sentido muscular de maneira notável. Simulemos
entregar ao paciente um copo de vinho para que ele beba. Veremos
que ele levará o suposto copo aos lábios, deixando um espaço entre
a mão e a boca, como se de fato segurasse um copo existente. Não é
necessário definir a ilusão para cada sentido em separado, o
indivíduo faz isso por si próprio, espontaneamente. Desse modo ele
completa a maioria das sugestões por um processo semelhante à
sugestão indireta.

Toda a sorte de impressões alucinatórias podem ser produzidas
sobre o sentido do ouvido, do mesmo modo que sobre o sentido da
vista e do paladar. A audição do paciente pode-se tornar
anormalmente aguda, ou ele pode ser levado a ouvir coisas que não
existem.
Este estado característico subconsciente, quando não sofre
interferência de sugestão, torna o sentido da audição não só
peculiarmente, mas, também, patologicamente agudo.

Um indivíduo hipnotizado é muito mais sensível à música. Esta tem
para ele um significado mais profundo do que para a mente normal.


Em verdade existe ainda inexplorado um vasto campo para
experiência nesse sentido. O efeito peculiar da música sobre os
hipnotizados ainda não está explicado.


O fato de poder a música produzir efeitos notáveis em pessoas
hipnotizadas dá à consciência subjetiva uma importância
psicológica que ela jamais teve antes, e indubitavelmente o futuro
provará que este campo é rico em tesouros ainda não descobertos.


Muitas sensações, muitas lembranças vagas e esquecidas serão
trazidas das profundezas e dos recessos deste maravilhoso país dos
sonhos, serão estudadas e enriquecerão o frio pensamento como
gemas brilhantes e poéticas.


As alucinações e ilusões do paladar e do olfato podem também ser
produzidas por sugestões, mas não encerram nenhum interesse
especial. A faculdade de falar pode ser inteiramente abolida ou
parcialmente inibida, e certas palavras serão esquecidas, à uma ordem
dada, enquanto perdurar o estado hipnótico.


Também podem ser esquecidas a lembrança de uma página
impressa ou de certas letras.
As alucinações podem agir sobre os cinco sentidos do corpo, assim
como sobre as emoções, quando um paciente está hipnotizado.



AUTOSSUGESTÃO


TALVEZ a melhor definição de autossugestão ou auto-hipnose seja
a de que o EU predomina sobre tudo o mais. Nenhuma sugestão
pode livrar inteiramente o corpo do EU predominante, nem tirar do
cérebro as ideias que nele persistem, a não ser sob a influência da
hipnose. Por conseguinte, em quase todos os casos em que a
hipnose falha em dar pelo menos alívio, o mal é causado pelas
autossugestões, como veremos pelo que se segue, citado pelas mais
famosas autoridades do mundo, neste assunto.

A autossugestão é agora reconhecida como um fator em hipnotismo
por todos os seguidores da escola de Nancy. O professor Bernheim
menciona-a como um obstáculo no caminho da cura de alguns de
seus doentes. Um dos casos citados foi o de uma jovem que sofria
de um destroncamento tíbio-társico. O operador tentou hipnotizála,
ela, porém, desistiu com desagrado, dizendo que isto nada
adiantaria. Contudo, conseguiu fazê-la cair em sono bastante
profundo duas ou três vezes. Mas a contração dolorosa persistia; a
jovem parecia sentir um prazer perverso em provar aos demais
pacientes da clínica que o tratamento não surtia efeito, que ela se
sentia sempre pior. A ideia arraigada, a autossugestão inconsciente
era tal que nada poderia arrancá-la. Quando o tratamento foi
iniciado, ela parecia estar convencida de que o hipnotismo não
poderia curá-la. Estava esta ideia, tão profundamente arraigada em
seu cérebro, que neutralizava todos os esforços e seu próprio desejo
de ser curada.

Recentemente uma jovem que era hipocondríaca precisava de
tratamento. Entre outros males ela sentia uma violenta dor no
epigástrio26, que ela acreditava relacionar-se com um câncer
uterino, apesar de lhe haverem dito repetidamente que não existia
nenhuma lesão naquele órgão. Foi hipnotizada muitas vezes,


conseguindo-se produzir em algumas ocasiões um sono profundo,
durando este tratamento dez dias. Por enérgica sugestão a dor foi
acalmada. Ao despertar ela foi obrigada a confessar que não sentia
mais a mínima dor, mas apressou-se em acrescentar que a dor certamente
voltaria. De fato voltou, involuntariamente evocada por sua
imaginação doentia.

Com esta classe de paciente, a autossugestão é mais forte do que
uma sugestão partida de qualquer outra pessoa. Eles dão ouvidos
aos seus sentimentos íntimos e evocam-nos; estão em afinidade
somente consigo mesmos; são autossugestionadores.

As autossugestões não são incomuns como incidentes patológicos.
O medo de logradouros públicos nada é senão uma autossugestão.
O paciente neste caso é possuído da ideia de que ele não pode
atravessar uma praça ou rua; os argumentos não adiantam aqui. O
paciente reconhece sua justeza, sem permitir que o influenciem,
porque sua autossugestão é por demais poderosa. Em regra, a lógica
na maioria das vezes é impotente contra essas autossugestões.
Muitas paralisias histéricas são igualmente sugestões; assim, um
doente não pode mover a perna porque está convencido de que o
movimento lhe é impossível. Se esta convicção puder ser alijada27,

o movimento tornar-se-á logo praticável.
26 EPIGÁSTRIO: Porção média e superior do abdome. [Dicionário de Termos
Médicos]. SMJ.

27 ALIJAR: v.t.d. 1. Lançar fora de embarcação; aliviar (a carga). 2. Desembaraçar-
se de, livrar-se de. Verbo pronominal. 3. Apartar de si; isentar-se. [Miniaurélio
Eletrônico versão 5.12.81]. SMJ.


Alguma causa externa que afete uma pessoa pode produzir o
despertar de uma autossugestão. Charcot atribuiu a origem de
algumas paralisias traumáticas isoladas a esse mecanismo. De
acordo com esta opinião, um violento golpe no braço, seguido de
certas perturbações da sensibilidade, pode produzir na pessoa
afetada a convicção de que não é capaz de mover o braço. Como
esta convicção foi despertada por um golpe no braço, este caso
situa-se entre a sugestão externa e a autossugestão. Costumamos
chamar todos os casos em que a autossugestão não surgiu
espontaneamente, mas foi o resultado secundário de alguma outra
coisa, tal como um golpe, sugestão indireta, em oposição à sugestão
direta, que desperta certa ideia imediatamente, de que já demos um
exemplo. Além disso, nem sempre é necessário que exista um ato
mental consciente em sugestão; a individualidade e o hábito às
vezes substituem isto e desempenham importante parte na
formação do indivíduo, como já mostramos acima. Por outro
exemplo, se alguma causa externa, como uma pancada no braço,
por intermédio de um ato mental consciente, diversas vezes
produziu a autossugestão, poderá repetir-se mecanicamente mais
tarde, com todos os golpes, sem qualquer pensamento consciente
que se relacione com os efeitos desses golpes.

É possível a uma pessoa produzir o estado hipnótico em si próprio,
pelo exercício das mesmas faculdades que o produzem, quando
originado da sugestão de outrem.

Alguns indivíduos costumam cair em transe profundo e assim
ficam por um período de tempo que regula de cinco minutos até
duas horas, se olharem para um objeto brilhante, ou um monte de
brasas, ou para água corrente límpida. Eles têm a faculdade de
resistir a este estado ou de produzi-lo à vontade. Estamos
inteiramente seguros de que este poder de autohipnotismo é
exercido por quase todas as pessoas. Existirá alguém que ao olhar


uma miniatura não veja refletida num diminuto rosto a fisionomia
radiosa de um ente querido em tamanho natural? Na realidade, é
possível que alguns estados de sono, que são geralmente
considerados patológicos, pertençam à autohipnose.

SUGESTÃO HIPNÓTICA

A SUGESTÃO — que ainda não definimos de modo claro e
absoluto — é a imposição temporária da vontade de uma pessoa no
cérebro de outrem por um processo puramente mental. O criado,
executando uma ordem, está agindo sob sugestão; ele obedece ao
desejo de ganhar seu salário. O namorado, acedendo28 aos desejos
de sua amada, submete-se a uma vontade estranha à sua própria. O
professor, ensinando e repetindo todos os dias os mesmos preceitos
aos seus alunos, impõe-lhes suas opiniões. O pai que censura o filho
por algum erro, esforça-se por inculcar seus próprios princípios
para obter melhor conduta; a mãe que acaricia o filho, tenta, por
meio de suas carícias, conseguir o mesmo resultado; a esposa, que
por sua doçura e por seus inúmeros meios de persuasão dirige o
marido, impõe-lhe sua vontade. O orador, que cativa o auditório,
age do mesmo modo. Tudo neste mundo, portanto, não é senão
sugestão; pelo menos, na antiga acepção da palavra. Nenhum sono
é necessário para esta espécie de sugestão, e sob este ponto de vista
podemos concordar com Liébault, Bernheim e a escola de Nancy.

28 ACEDER: v.t.d. 1. Concordar; assentir, aquiescer. Verbo intransitivo.

2. Aquiescer em algo. [Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.81]. SMJ.

Mas externamente, agentes físicos também produzem efeitos
sugestivos sobre nós; dessa forma um livro, a vista de um acidente,
ou de algum incidente cômico, uma explosão de aplausos ou os
acordes de uma música, enchem-nos de sensações de alegria ou
de melancolia.

Certos círculos dão o tom do que se considera talentoso e indicam o
que é bom em literatura ou em arte.
Uma mulher bela lança uma moda que será seguida, se ela souber
exibi-la. As roupas e a escolha de mobílias e de flores estão mesmo
sujeitas a leis que não sabemos como são feitas. Aqui achamos o
mesmo incentivo latente29, cegamente seguido, iniciado por uma
vontade autoritária que arbitrariamente dita seus decretos, e é
obedecida por todos os que nasceram para serem seus humildes
servos. Um homem superior é realmente um hipnotizador social,
destinado a tornar-se o chefe de um grupo de sectários30, a quem
ele dá a palavra de ordem, ou o líder de assembleias que ele fascina
por sua eloquência. E todos esses seres inconscientemente
fascinados o aclamam, vivem por suas palavras e encontram
satisfação em serem assim conduzidos.

É certo que nós somos naturalmente inclinados a obedecer; a luta e
a resistência são as características de alguns indivíduos raros; mas
entre o admitir isto e dizer que somos condenados a obedecer —

29 LATENTE: adj.2g. 1. Não manifesto; oculto. 2. Dissimulado, disfarçado.
[Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.81]. SMJ.

30 SECTÁRIO: adj. 1. Relativo ou pertencente a seita. 2. fig. Que revela
parcialidade, intolerância, intransigência. sm. 3. Indivíduo sectário (1 e 2).

4. Partidário ferrenho de doutrina religiosa, política, etc. [Miniaurélio Eletrônico
versão 5.12.81]. SMJ.

mesmo o mais insignificante dentre nós — há um abismo. Mesmo

no estado hipnótico, que, em certos indivíduos parece quase abolir
a capacidade de resistência ao poder da vontade dos outros, a
sugestão não é todo poderosa; ela tem suas limitações positivas, e
podemos dar graças aos céus por isto.

Se exagerarmos o significado de uma palavra, podemos fazê-la
exprimir qualquer coisa que desejemos, destruindo completamente
dessa maneira seu sentido original. Assim têm procedido diversos
hipnotizadores com respeito ao assunto que ora tratamos. Tiraram
tais conclusões das várias influências que a atmosfera ambiente
exerce sobre nós, seja por nossa educação, seja pelos preconceitos
que esse ambiente nos incute, a ponto de chegarem a crer que uma
ordem verbal pode transformar radicalmente um indivíduo, para o
bem ou para o mal. Em nossa opinião, a sugestão hipnótica é uma
ordem obedecida por uma pessoa em estado de sono induzido, por
alguns segundos; no máximo por alguns minutos. Não pode ser
comparada, a não ser muito vagamente, às sugestões em estado de
vigília, comunicadas a indivíduos que nunca estiveram sob
influência hipnótica. A sugestão hipnótica pode ser repetida, mas é
absolutamente impotente para transformar — como já se afirmou —
um criminoso em um homem honesto, ou vice-versa.

SUGESTÃO TELEPÁTICA


U MA das formas de sugestão é a sugestão telepática. A telepatia é
primariamente a comunhão da mente subjetiva, ou melhor, é o meio
normal de comunicação entre mentes subjetivas. A razão da


aparente raridade de suas manifestações é que ela requer
excepcionais condições para manifestar seus efeitos acima do limiar
da consciência. Há todas as razões para se acreditar que os espíritos,
ou mentes subjetivas dos seres humanos, podem manter, e
habitualmente mantêm, comunhão umas com as outras, quando
nem mesmo a mais remota percepção do fato é transmitida à
inteligência objetiva. É possível que tal comunhão não seja geral
entre os homens; é certo, porém, que ela é mantida entre aqueles
que, devido a qualquer causa, estão em afinidade. Os fatos
registrados pela Sociedade de Pesquisas Psíquicas demonstram esta
proposição.
Dessa forma, muitas vezes acontece parentes íntimos se acharem em
comunhão, como se vê pela relativa frequência de comunicações
telepáticas entre uns e outros, dando aviso de moléstia ou de morte.
São também muito frequentes as comunicações entre amigos
íntimos. Essa espécie de comunicações entre pessoas relativamente
estranhas é aparentemente rara. Naturalmente, o único meio que
temos para ajuizar estas coisas é o registro dos casos nos quais as
comunicações foram trazidas à consciência objetiva das pessoas. Parece
lícito concluir desses fatos que as mentes subjetivas das pessoas
profundamente interessadas umas nas outras estão frequentemente
em comunhão, especialmente quando o interesse pessoal ou o bem-
estar do agente ou do paciente estão em jogo. Seja como for, é certo
que a comunicação telepática pode ser estabelecida à vontade pelo
esforço consciente de uma ou de ambas as partes, mesmo entre
estranhos. As experiências da Sociedade acima mencionada
demonstraram este fato. Admitir-se-á, portanto, para o propósito
deste argumento, que a comunhão telepática pode ser estabelecida
entre duas mentes subjetivas, à vontade de cada um. O fato pode
não ser percebido pelo indivíduo, pois é possível que não se eleve
acima do limiar de sua consciência subjetiva. Mas, para fins
terapêuticos, não é necessário que o paciente saiba, objetivamente,


que alguma coisa está sendo feita por ele. Na verdade, muitas vezes
é melhor que não o saiba.

Na prática comum usam-se dois métodos; o primeiro é pela
passividade por parte do paciente, com sugestão mental por parte
de quem cura. O segundo é pela passividade por parte do paciente,
com sugestão verbal por parte de quem cura. Isto é, quem faz a sugestão
verbal muitas vezes transmite, inconscientemente, uma
sugestão mental à mente subjetiva do paciente. Se aquele crê
inteiramente na verdade de sua própria sugestão, o efeito telepático
será certamente imediato, e sempre com evidente vantagem do
paciente. Eis por que em todos os trabalhos de hipnotismo e de
mesmerismo se insiste tenazmente sobre o valor e a importância da
confiança própria por parte do operador, ou por outras palavras, da
crença em sua própria sugestão. A prática e a experiência
demonstraram o fato, mas nenhum autor nesse assunto tenta
explicá-lo cientificamente. Mas quando se sabe que a telepatia é o
método normal de comunicação entre mentes subjetivas, e que na
cura por processos mentais ela é constantemente empregada,
consciente ou inconscientemente para as pessoas, a explicação é
óbvia.

Dificilmente se encontrará uma família, da qual um dos membros
não tenha tido uma experiência da espécie que vamos narrar.

Estas impressões telepáticas podem ocorrer em estado de vigília a
qualquer hora do dia. Passam-se como sonhos durante o sono.
Frequentemente ocorrem no mesmo momento, ou depois que
alguém se recolhe, antes de adormecer.

Registrou-se a seguinte experiência:


A Sra. E, uma irlandesa protestante, de sessenta anos, de boa
reputação, conhecida como digna de crédito, era bem educada e
extraordinariamente inteligente.

Certa manhã, ao almoço, ela disse que sua tia, a Sra. B, falecera na
noite passada, na cidade de Cork, Irlanda.
Afirmou que vira sua tia, descreveu a cena de sua morte, e que
ouvira quando esta a chamara pelo nome.


Viu o velho relógio no quarto de sua tia, cujos ponteiros marcavam
uma e quinze da madrugada. Às três horas dessa tarde, a senhora
recebeu um cabograma31 informando-a da morte de sua tia,
confirmando a hora da morte, exatamente como vira.

Pouco depois, uma carta recebida pela mesma senhora dizia que em
seus últimos momentos a tia a chamara repetidas vezes.

A referida senhora experimentara em ocasiões anteriores fenômenos
telepáticos idênticos.

Telepatia é uma palavra relativamente nova — pelo menos no
sentido em que agora é frequentemente empregada. Por telepatia
compreende-se a influência que uma pessoa, por sua vontade ou
por suas sugestões mentais, sem quaisquer meios materiais de
comunicação, pode exercer sobre outra à distância. Quando uma
pessoa consegue por uma vez produzir em outra o que se conhece
por sono hipnótico, nem sempre necessitará recorrer a passes ou ao

31 CABOGRAMA: sm. Telegrama expedido por cabo submarino. [Miniaurélio
Eletrônico versão 5.12.81]. SMJ.


contato pessoal para hipnotizar o paciente novamente. O olhar do
operador, até mesmo sua vontade, sem o olhar, pode exercer a
mesma influência sobre o indivíduo. Esta influência é também às
vezes, efetiva, quando o paciente ignora inteiramente a vontade do
operador, mesmo que estejam separados por considerável distância,
em salas diferentes, de portas fechadas entre eles.

A absoluta verdade desta afirmativa foi fartamente verificada em
diversas ocasiões, por vários operadores, dos mais cuidadosos e
dignos de confiança. É bastante dizer aqui, que ninguém que tenha
sinceramente examinado o assunto tem qualquer dúvida acerca da
verdade do relato acima, feito há mais de um século à Academia
Francesa de Medicina. Deve-se notar, entretanto, que os operadores
não são todos igualmente eficazes e nem sempre são bem sucedidos.
O mesmo é verdade a respeito dos indivíduos. O simples fato, todavia,
é que alguns operadores podem influenciar e influenciam
certos indivíduos à distância, sem que isto tenha explicação por
quaisquer dos meios sensoriais conhecidos. Logo que isto seja
admitido, então a questão de distância — um metro ou dez, cem
metros ou mil, um quilômetro ou milhares — não é uma questão
de teoria, mas de fato.

Também é fato que pessoas que não são nem operadores nem
pacientes — em nenhum dos sentidos em que esses termos são
empregados em hipnotismo — podem comunicar-se e comunicam-
se umas com as outras, à vontade e compreensivelmente, pela
telepatia. Isto não quer dizer que possam a qualquer momento, e
sob todas as circunstâncias, se comunicarem, nem que suas
comunicações sejam completas e inteiramente satisfatórias. Todavia,
em momentos previamente combinados, elas transmitem e recebem
conscientemente comunicações úteis, bem definidas e
compreensíveis. Há também certas pessoas — não muitas,
entretanto — que podem, quando desejam, chamar a atenção de


outras determinadas pessoas, telepaticamente, e isto
frequentemente sucede.

O assunto da telepatia, que abrange propriamente todos os métodos
de transmissão de pensamento, que não se valem dos meios
mecânicos usuais nem dos habituais apelos aos sentidos, é um
estudo comparativamente novo, promissor de grandes recompensas
ao estudioso paciente e bem sucedido.

(Veja o livro COMO LER OS PENSAMENTOS, desta mesma
editora. )

SUGESTÃO PÓS-HIPNÓTICA

A SUGESTÃO pós-hipnótica significa que um paciente cumprirá
quaisquer instruções que lhe forem dadas durante o sono hipnótico

— pelo operador — depois que acordar; praticará o ato
aparentemente inconsciente de haver recebido qualquer sugestão
do operador. Talvez a melhor explicação disto seja citando casos em
que o operador e o paciente estejam ambos acostumados às
sugestões pós-hipnóticas.
Com este objetivo escolheremos uma ação praticada por sugestão
pós-hipnótica e suporemos ser um caso de hipnose sem
subsequente perda de memória.


Eis um caso destes, passado em estado de vigília.
Entregamos uma carta a X e pedimos-lhe pô-la no correio, quando a
caminho de casa, se passar por alguma agência postal.


Damos agora exatamente a mesma incumbência a Y, que está em
estado hipnótico, sem subsequente perda de memória.


Em ambos os casos a incumbência é cumprida. Agora, a pergunta é:
qual é a diferença entre os dois casos? No caso de Y logo se destaca
uma circunstância, isto é, que ele praticou o ato sem vontade ou
talvez contra sua vontade.


O fato de Y haver posto a carta no correio sem que o quisesse fazer
não distingue seu caso do de X. X foi para casa com Z, com quem
conversou por todo o caminho. Passou por uma caixa postal e, se
bem que continuasse a falar e aparentemente não reparasse a caixa,
mecanicamente ali pôs a carta. Mais tarde se lembrou de que tinha
uma carta para mandar pelo correio; lembrava-se vagamente de o
haver feito. Contudo, pôde convencer-se do fato, verificando que ela
não estava mais em seu bolso. Concluímos, então, que ele se
desobrigou do encargo sem vontade consciente.


Seria mais notável se X praticasse alguma ação contra sua vontade.
No exemplo acima descrito não foi este o caso. Ele não teria feito o
que lhe mandaram, sem o consentimento de sua vontade. Por outro
lado, ele se lembraria da ação, se sua vontade se opusesse a ela. É
sempre necessário que haja consciência quando se exerce a vontade
para impedir alguma coisa. É preciso haver uma ideia da ação a ser
praticada. O importante na sugestão pós-hipnótica é exatamente o
fato de que ela é posta em prática contra a vontade, caso em que,
naturalmente, o indivíduo sabe o que tem a fazer e disso tem uma
ideia. Precisamente esta ideia é que faz com que uma ação pós-
hipnótica seja executada a despeito da vontade.



A pergunta agora é se podemos encontrar uma analogia para isto na
vida em vigília: se uma ideia pode neste caso produzir um efeito
morto ou qualquer outro, contra a vontade. A resposta deve ser,
muito comumente..

Vimos, quando falamos da sugestão em estado de vigília, que uma
ideia, às vezes, basta para dar causa a uma ação ou a um estado
particular a despeito da vontade. Isto é um fato comum. Suporemos
que A perdeu um amigo ou um parente querido e que por isto se
acha deprimido e triste, não podendo conter as lágrimas. Passam-se
os meses e ele se torna calmo, mas quando chega o aniversário do
falecimento cai novamente no mesmo estado de excitação mental e
de lágrimas, que ele não pode vencer. A ideia vivida foi o bastante
para lançá-lo, contra sua vontade, em um determinado estado.

Uma pessoa que gagueja está no mesmo caso. Sozinha em casa, ela
pode falar perfeitamente bem, mas diante de estranhos logo começa
a gaguejar. Ela assim o faz porque pensa que deve gaguejar, e sua
vontade é importante tanto contra o pensamento, como contra a
gagueira. Vemos coisas semelhantes, constantemente.
Certos estados de moléstias são causados simplesmente por serem
intensamente esperados, os quais, então, sobrevêm contra a
vontade. Por conseguinte, não é de admirar que uma sugestão pós-
hipnótica possa sobrepujar a vontade de um indivíduo.

Os movimentos e ações pós-hipnóticos executados a despeito da
vontade — ou para falar mais exatamente, a despeito do desejo —
têm uma grande semelhança com os movimentos instintivos bem
conhecidos em psicologia, que muitas vezes são feitos para darem o
prazer que decorre do ato. Tais movimentos instintivos são
inteiramente independentes da vontade; eles ocorrem não obstante

o desejo.

Todas as sugestões pós-hipnóticas são aparentemente esquecidas
entre o despertar e sua execução, como veremos nos seguintes
casos.


Sugerimos a D — durante o sono hipnótico, que ao despertar ele
deveria friccionar sua coxa e perna doloridas, que se levantasse da
cama, fosse até a janela e voltasse para a cama. Este indivíduo
executou todos estes atos sem suspeitar que lhe houvessem dado
uma ordem enquanto dormia.


Sugerimos a S — em uma ocasião, que ao acordar ele deveria pôr o
chapéu, trazê-lo até nós na sala contígua, tirá-lo da cabeça e colocálo
na de outra pessoa.
Tudo isso ele fez sem saber por quê.


De outra vez, achando-se presente um colega nosso, M.
Charpentier, sugerimos a S, quando adormeceu pela primeira vez,
que logo ao despertar tirasse o guarda-chuva daquele colega,
colocado sobre a mesa, abrisse-o e desse duas voltas na varanda
para a qual dava a sala. Passou-se algum tempo antes que ele despertasse.
Antes de abrir os olhos, saiu rapidamente da sala, para que
a sugestão não pudesse ser reevocada por nossa presença. Pouco
depois o vimos com o guarda-chuva na mão, mas não aberto —
apesar da sugestão. Andou pelo corredor duas vezes de um lado
para outro. Dissemos-lhe, .Que estais fazendo?. Respondeu, .Estou
tomando ar., .Por quê? Estais com calor?.. .Não, apenas tive esta
ideia; às vezes ando aqui de um lado para outro.. .Para que é o
guarda-chuva?.. .Pertence a M. Charpentier.. .Como! pensei que
fosse meu; parece-se um pouco com o meu; tornarei a pô-lo no lugar
de onde o tirei..



Certa manhã, às onze horas, sugerimos a C — que à uma hora da
tarde ele seria tomado por uma ideia à qual não poderia resistir, ou
seja, subir e descer a rua Estanislau por duas vezes. À uma hora
vimo-lo chegando a essa rua, ir de uma extremidade à outra, voltar
e parar, como um vagabundo, sob as janelas. Mas não o fez por
duas vezes, talvez por não ter entendido a segunda parte da ordem
sugerida, talvez por haver resistido a esta parte.

Noutra ocasião, durante o sono hipnótico de X — sugerimos o
seguinte: .Quando acordardes, ireis ao meu escritório e escrevereis
numa folha de papel =Dormi muito bem'; =Fareis uma cruz ao lado
de vosso
nome'..

Despertou em um quarto de hora. Foi ao escritório, escreveu a frase
que lhe inculcáramos na mente, assinou-a e fez uma cruz ao lado do
nome .O que significa esta cruz?., perguntamos. .Como!. respondeu,
Palavra de honra que não sei; eu a fiz sem pensar. No dia seguinte
fizemo-lo escrever outra sentença, com duas cruzes após seu nome;
no outro dia, seu nome com uma estrela. Na sessão seguinte,
sugerimos-lhe enquanto dormia: .Quando acordardes, escrevereis,
=irei ter com M. Liébault quando chegar de fora', e vós o assinareis,
mas cometendo um engano. Em vez de assinardes vosso nome X —
assinareis =Bernheim', então dareis pelo engano, raspareis aquele
nome e em seu lugar poreis o vosso.. Tudo isso essa pessoa fez
quando acordou e pareceu muito intrigado com seu erro. Pediu
desculpas, mas não suspeitou que a responsabilidade do engano
não cabia a ele.

O efeito da sugestão de atos pós-hipnóticos não é absolutamente
inevitável. Alguns pacientes lhes resistem. Sem dúvida o desejo de


executar o ato é mais ou menos imperativo, mas eles resistem-lhe
até certa medida.

O caso seguinte mostra a luta e a hesitação manifestadas no paciente
antes de obedecer à ideia, até que finalmente a sugestão dominou.

Uma jovem histérica foi trazida à Sociedade Médica, em Nancy, por

M. Dumont. Foi hipnotizada e mandaram que, ao despertar,
tomasse a manga do vidro do bico de gás, sobre a mesa, pusesse-a
no bolso e a levasse ao sair. Quando acordou, voltou-se
timidamente para a mesa, parecendo confusa por ver que todos a
olhavam. Após alguma hesitação, então, subiu na mesa, de joelhos,
e assim permaneceu ali cerca de dois minutos, aparentemente
envergonhada de sua posição. Olhando alternadamente para as
pessoas em volta dela e para o objeto que ela deveria levar,
estendeu a mão e depois a retirou. Então, subitamente apanhou a
manga de vidro, pô-la no bolso e fugiu. Ela não consentiu em
entregá-la enquanto não deixou a sala.
É estranho que ações sugeridas possam ser executadas não somente
durante o tempo imediatamente seguinte ao sono, mas também
após um intervalo mais ou menos grande. Se fizermos a um
sonâmbulo prometer, durante o sono, que voltará no dia e na hora
marcados, posto que não se lembre de sua promessa quando
despertar, ele o fará.

O professor Bernheim cita um caso em que fez seu paciente dizer
que voltaria a encontrar-se com ele dentro de treze dias, às dez
horas da manhã. O indivíduo de nada se lembrou ao acordar. No
décimo terceiro dia, às dez horas da manhã, ele apareceu, tendo
caminhado três milhas de sua casa ao hospital. Trabalhara nas
fundições durante toda a noite, fora para a cama às seis horas da


manhã, e acordara com a ideia de ter de ir ao hospital para ver o
professor. Disse ao Dr. Bernheim que não tivera tal ideia nos dias
precedentes e que não sabia que tinha de vir para vê-lo. A ideia
viera à sua mente no momento preciso em que devia realizá-la.

Dessa forma, uma sugestão dada durante o sono pode ficar
adormecida no cérebro, e pode não vir ao consciente senão no
momento previamente fixado para sua manifestação. Serão
necessárias mais pesquisas para explicar este curioso fato
psicológico, e para determinar por quanto tempo pode assim ficar
latente uma sugestão hipnótica. É evidente que nem todos os
sonâmbulos são suscetíveis a sugestões que se efetuam após longo
espaço de tempo.

OS PERIGOS DO HIPNOTISMO

O HIPNOTISMO em si é perigoso aos que se submetem a ele? Não
hesitamos em dizer que, quando bem aplicado, não produz o mais
ligeiro dano.
Não interfere nas funções da vida orgânica; vimos que a respiração
e a circulação não são influenciadas em pessoas cujas mentes estão
em repouso. Se, nas primeiras sessões, alguns indivíduos
manifestam fenômenos nervosos, como contrações musculares,
respiração curta, aflição, aceleração do pulso, e se alguns pacientes
histéricos têm paroxismos convulsivos durante a operação, estes
sintomas, autossugestivos por assim dizer, são devidos a emoções
morais, a um sentimento de medo, e sempre desaparecem no
tratamento seguinte, graças a uma sugestão tranquilizadora, que


restabelece a confiança. Quando o hábito estiver formado, os
pacientes cairão no sono calmo e naturalmente despertam do
mesmo modo, sem a mais leve inquietação, se o operador tiver o
cuidado de sugerir que não haverá aflição ao despertar.

Nunca verificamos nenhum mal produzido pelo sono hipnótico,
pois a sugestão está sempre presente como um corretivo contra
quaisquer sintomas desagradáveis que possam surgir.

Existe um perigo, contudo, que é importante reconhecer. Após
haverem sido hipnotizados certo número de vezes, alguns pacientes
têm disposição para se entregarem ao sono espontaneamente.
Alguns, mal são despertados já caem por si mesmos, novamente, no
mesmo sono hipnótico. Outros adormecem assim durante o dia.
Esta tendência para a auto-hipnotização pode ser reprimida pela
sugestão. É bastante afirmar ao indivíduo, durante o sono, que uma
vez despertado, ele acordará completamente e não poderá entregar-
se de novo ao sono espontaneamente, durante o dia.

Outros são por demais facilmente suscetíveis à hipnotização,
quando são postos muitas vezes em sonambulismo. Qualquer um
pode às vezes colocá-los neste estado, por surpresa, simplesmente
cerrando-lhes os olhos. Tal suscetibilidade ao hipnotismo é um
perigo real. Entregues à mercê de qualquer um, privados de
resistência psíquica e moral, certos sonâmbulos se tornam dessa
forma fracos, e são plasmados pela vontade dos sugestionadores.

Os moralistas zelosos da dignidade humana, e que se preocupam
em pensar em tão grandes possibilidades de perigo, têm razão. É
justo que condenem uma prática que pode privar o homem de seu
livre-arbítrio sem a possibilidade de resistência de sua parte; eles
estariam milhares de vezes certos, se o remédio não estivesse lado a
lado com o mal. Quando prevemos tal tendência em nossos casos de


sonambulismo, tomamos o cuidado de dizer durante o sono — e
isto é uma boa regra a seguir:
Ninguém será capaz de hipnotizar-vos para vos dar alívio, exceto
vosso médico!. E o paciente, obediente à ordem, é refratário a
qualquer sugestão estranha. Um dia, fizemos uma tentativa para
hipnotizar uma excelente sonâmbula que já fora hipnotizada várias
vezes; nada se conseguiu. Chamaram o Dr. Liébault; hipnotizou-a
em poucos segundos.
Perguntamos-lhe por que falháramos. Disse ela que alguns meses
antes o Dr. Beaunis tinha sugerido durante o sono que o Dr.
Liébault e ele próprio eram os únicos que poderiam hipnotizá-la.
Esta ideia, gravada em sua mente e da qual não tinha consciência
em estado de vigília, prevenira-a contra a sugestão estranha.
Assim o perigo de uma excessiva suscetibilidade pode ser evitado
pela própria sugestão.

Mas outra espécie de perigos pode resultar de alucinações
provocadas. Sem dúvida, alucinações inofensivas, provocadas a
longos intervalos, hipnóticas ou pós-hipnóticas, perturbam a mente
por alguns momentos, do mesmo modo que os sonhos, mas o
equilíbrio é prontamente restabelecido logo que o sonho
alucinatório desapareça.

Dar-se-á o mesmo com as alucinações frequentemente sugeridas à
imaginação? No decorrer do tempo não pode alguma perturbação
permanecer na mente?
Não é de se temer que um distúrbio mais ou menos pronunciado
das faculdades intelectuais possa sobrevir? Não gostaríamos de
afirmar que certos cérebros delicados, predispostos à alienação
mental, não pudessem sofrer sérios danos por experiências
inoportunas e inábeis dessa espécie, sabido que toda emoção, toda
perturbação violenta, pode dar eclosão à loucura, cujo gérmen
dietético, muitas vezes hereditário, é inerente ao organismo?


Simplesmente devemos dizer que das muitas experiências
realizadas, nunca nos constou que resultasse algum distúrbio
psíquico.

Outro perigo real é o seguinte: depois de muitas hipnotizações,
depois de muitas alucinações provocadas durante o sono, certos
indivíduos se tornam suscetíveis à sugestão e a alucinações no
estado de vigília.

Suas mentes realizam com extrema facilidade toda concepção
insinuada; cada ideia se torna um ato, cada imagem evocada, uma
realidade; eles já não mais distinguem o mundo real do mundo
imaginário que lhes sugerem. É certo que a maioria só é assim
suscetível à alucinação através da única pessoa que está acostumada
a hipnotizá-los.

Entre esses indivíduos, porém, alguns podem ser suscetíveis à
alucinação e à sugestão, nas mãos de qualquer um que saiba forçálos
a isso, especialmente se o médico não tomar a precaução de
atribuir a si próprio o monopólio da capacidade de dar sugestões.

Uma vez produzida esta extrema suscetibilidade à alucinação, uma
vez criada esta moléstia nervosa, nem sempre é fácil curá-la ou
melhorá-la por uma nova interferência sugestiva. Mas não é
necessário submeter a mente humana a influência desta espécie.
Sem dúvida, algumas experiências de alucinação realizadas de
tempos em tempos são inofensivas, se forem executadas com
reservas; repetidas frequentemente e com o mesmo indivíduo
podem tornar-se perigosas.

Devemos proscrever uma coisa que pode ser eficaz, porque seu
abuso é nocivo? Ninguém proscreve o vinho, o álcool, o ópio, a
quinina, porque o uso imoderado ou intemperado dessas


substâncias pode ocasionar acidentes. É certo que a sugestão
aplicada por pessoas desonestas ou inescrupulosas é uma prática
perigosa. A lei pode e deve intervir para reprimir seu abuso.

A sugestão somente é benéfica quando usada, inteligentemente,
para um fim terapêutico. Cabe ao médico separar o efeito útil do
nocivo, e aplicá-la para alívio de seus pacientes.

O perigo do hipnotismo tem sido grandemente exagerado. Certa
vez os habitantes de uma pequena cidade deixaram de tomar sopa
de batatas porque uma mulher rolou pela escada e partiu o pescoço
meia hora depois de ingerir esse alimento. Aqui se tiraram
conclusões do mesmo modo, e esta espécie de raciocínio não é
incomum. Se uma pessoa fosse hipnotizada e mais tarde sentisse
qualquer mal, esse seria imediatamente atribuído ao hipnotismo. Se
raciocinarmos dessa forma teremos que dizer que as águas de
Carlsbad causam apoplexia, porque o senhor X sofreu um ataque de
apoplexia duas semanas depois de voltar daquela cidade, etc.
Muitas coisas poderiam ser provadas desse modo.

Dificilmente podemos admitir que tal lógica seja usada em círculos
científicos. É certo que ouvimos dizer muitas vezes, que quando os
pacientes voltam de uma estação de águas sem estarem curados —

o que deve acontecer frequentemente — são despedidos com a
garantia confortante de que sentirão os efeitos mais tarde. Até
agora, se pensava que isto fosse uma pilhéria de mau gosto, ou pelo
menos, um esforço para consolar o doente; nunca se acreditou que
este princípio fosse realmente aceito pelo mundo médico. Se um doente
melhorasse ou piorasse seis meses depois de sua volta de uma
estação de águas não se deveria atribuir o efeito aos banhos, porque
neste intervalo outras coisas talvez o tivessem afetado. Assim
considerando, devemos, como Pauly, rejeitar a relação encontrada

por Binswanger e Ziemssen, entre a hipnose e os males que lhe são
subsequentes após longo tempo. Além disso, se aceitarmos seus
sofismas32, será fácil provar do mesmo modo que a medicina
moderna tornou doente a humanidade, pois que remédio não
poderá produzir importantes resultados seis meses após seu uso?
Que médico já argumentou dessa forma? Friedrich, um ex-assistente
de Ziemssen, escreveu longamente sobre os perigos do hipnotismo;
foi, contudo, refutado por Forel, Schrenck-Notzing e Bernheim, que
mostraram os casos nos quais se supõe que a hipnose produziu resultados
perigosos, publicados com cuidadosos detalhes. Torna-se
claro — como nos casos de Seglas, Lwoff, etc. — ou que importantes
precauções foram negligenciadas, ou que uma conexão entre a
hipnose e a moléstia foi admitida de acordo com o princípio,
POST HOC ERGO PROPTER HOC (depois disso, logo, por causa
disso).

Todavia, de modo algum negamos que existem certos perigos no
uso impróprio do hipnotismo.

Mendel afirma que produz nervosismo; que as pessoas nervosas
ficam piores e que as sãs se tornam nervosas pelo seu uso; mas Forel
e Schrenck-Notzing pensam que isto seja um engano de Mendel,
devido a ter ele aplicado o método de Braid, em vez de sugerir a
hipnose verbalmente. O Dr. Moll admite que a atenção fixa
continuamente por tempo excessivo pode ter efeitos desagradáveis.
Pode resultar em debilidade nervosa ou excitação nervosa. Mas

32 SOFISMA: sm. Argumento aparente (não conclusivo) que serve ao propósito
seja de induzir outrem a erro, seja de ganhar a qualquer preço uma contenda ou
discussão. [Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.81].
SMJ


quem foi hipnotizado verbalmente e não recebeu nenhuma sugestão
excitante jamais se tornou "nervoso". Isto é importante de se
lembrar.
Quem quer que haja visto a diferença entre um indivíduo que
recebeu uma sugestão e um que recebeu uma sugestão calmante,
concordará que tanto se pode fazer bem por um modo quanto mal
pelo outro. Um homem que faça sugestões absurdas para divertir-se
e para satisfazer sua curiosidade, sem objetivo científico, não deve
espantar-se, se produzir sofrimentos. Sawolshskaja tem razão em
advertir contra tais diversões. Tem-se observado que muitas vezes
os pacientes ficam piores nos dias seguintes aos sonhos maus.
Podemos admirar-nos de que uma pessoa despertada da hipnose
durante um incêndio imaginário possa sentir-se mal depois disso?
Tais sugestões não devem ser feitas de modo algum, pois a maior
parte do perigo está nas sugestões desagradáveis, e nunca há
nenhuma necessidade de fazê-las. Nunca será demais falar contra o
uso do hipnotismo para tais propósitos. Deve-se tomar cuidado.
Empregar só palavras agradáveis ao indivíduo, fazer apenas boas
sugestões, e sempre se assegurar que ele esteja tranquilo e em feliz
disposição de espírito antes de despertar. Este é o ponto mais
importante. Os enganos podem ser de pequena consequência, desde
que o paciente esteja completa e convenientemente despertado,
segundo a maneira usada em Nancy e por todos os que seguem as
prescrições dessa escola. O Dr. Moll pergunta, aos que falam dos
perigos do hipnotismo, se tomaram precauções para que o
despertar fosse completo? Sabemos que a maioria das pessoas
ignoram de todo que devem eliminar a sugestão inteiramente.
Pensam ser bastante soprar no rosto do indivíduo, e é espantoso
que não sejam causados mais danos em consequência de
insuficiente conhecimento técnico. Isto é que é perigoso, não o
hipnotismo.


Não admira que haja às vezes consequências desagradáveis. É tão
necessário saber a maneira correta de agir neste caso como para
usar um cateter33.

Para mostrar como uma sugestão deve ser eliminada, suponhamos
que um indivíduo esteja perturbado em consequência de uma
sugestão excitante que lhe fizeram. Deve-se dizer mais ou menos
isso: .O que vos excitou acabou-se agora completamente; foi apenas
um sonho, e estáveis enganado em acreditá-lo. Agora ficai
tranquilo. Vós vos sentis calmo e à vontade. É fácil ver que estais
perfeitamente à vontade. Somente depois disso deve o paciente ser
despertado; e isto não pode ser feito repentinamente; há razões para
julgar ser melhor prepará-lo para esse momento. Geralmente se faz
isto dizendo: .Vou contar até três. Acordai quando eu disser três.,
ou .Contai até três e depois acordai.

Estas três regras devem sempre ser observadas:

1. Evitar o constante estímulo dos sentidos tanto quanto possível.
2. Evitar todas as sugestões mentalmente excitantes, tanto quanto
possível.
3. Anular cuidadosa e seguramente toda sugestão, antes de
despertar.
Este método não pode produzir nervosismo, e, se as regras acima
forem convenientemente seguidas, não pode haver nenhum perigo
na hipnose.

33 CATETER (tér): sm. med. Instrumento tubular que é inserido no corpo para
retirar líquidos, introduzir sangue, soros, medicamentos, efetuar investigações
diagnósticas, etc. [Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.81].
SMJ.



Forel menciona ligeiros distúrbios que às vezes surgem após a
hipnose, conquanto não possam ser considerados um perigo real,
sendo muitas vezes o resultado de uma autossugestão, ou de um
mau método. Podem ser: fadiga, langor34, peso dos membros, etc.,
após o despertar. É fácil preveni-los pela sugestão nas hipnoses
profundas. É diferente nas hipnoses ligeiras, se bem que um hábil
operador possa fazê-lo por uma sugestão pós-hipnótica, mesmo
neste caso. Em outros casos é melhor evitar-se a fadiga pela
sugestão antes de despertar; de qualquer modo um bom sistema é
livrar-se disso logo na primeira sessão, do contrário aumenta pela
autossugestão a cada tratamento e finalmente pode tornar-se difícil
de vencer. Esta sensação de fadiga na hipnose ligeira é a mesma que
às vezes temos depois de um sono passageiro. Todos estes
inconvenientes são pequenos e podem ser evitados em sua maior
parte.

Os principais perigos do hipnotismo não são os que acabamos de
citar, que aparecem raramente, mesmo quando são empregados
métodos impróprios. Os perigos reais mostram-se mais facilmente.
São a crescente tendência à hipnose e a exaltada suscetibilidade à
sugestão em estado de vigília. Esta exagerada suscetibilidade à
hipnose mostra-nos quão cautelosos devemos ser com o método de
Braid, o qual é a mais frequente causa disso, pois apenas o fixar
acidental dos olhos em algum objeto pode produzir uma hipnose
repentina, simplesmente porque a ideia de uma hipnose anterior é
por esse meio vivamente reevocada.

34 LANGOR: sm. Languidez. LANGUIDEZ: sf. Estado de lânguido; langor.
LÂNGUIDO: adj. 1. Sem forças; fraco, debilitado, langoroso. 2. Mórbido, doentio.

3. Voluptuoso, sensual, langoroso. [Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.81]. SMJ.

O perigo que mencionamos por último pode ser evitado fazendo-se
a seguinte sugestão ao paciente antes de acordá-lo: .Ninguém jamais
poderá hipnotizar-vos sem vosso consentimento; jamais caireis em
hipnose, contra vosso desejo; ninguém será capaz de sugerir-vos
nada quando estiverdes em vigília; nunca precisais ter medo de ter
ilusões dos sentidos, etc., como tendes na hipnose; sois
perfeitamente capaz de evitá-las.. Este é o meio mais seguro de
impedir o perigo. Tais são os perigos do hipnotismo e tais são os
métodos de combatê-los. Seu antídoto é a sugestão, e não constituem
obstáculo ao tratamento hipnótico. Esses riscos podem ser
evitados pelo uso conveniente do hipnotismo.

O HIPNOTISMO PELA PRÁTICA CIENTÍFICA

NÃO há dúvida que o hipnotismo é um estado complexo que não
pode ser explicado prontamente em uma ou duas frases. Há,
todavia, certos aspectos do hipnotismo que podemos supor
suficientemente explicados por alguns autores científicos,
especializados no assunto.

Primeiro, qual é o caráter das ilusões aparentemente criadas na
mente de uma pessoa em estado hipnótico, por uma simples
palavra proferida verbalmente, como quando um médico diz:
Agora, vou amputar vossa perna, mas não sentireis a mínima dor., e

o paciente nada sofre?

Em resposta a esta pergunta, o antigo professor William James, do
Harvard College, uma das destacadas autoridades nos aspectos dos
fenômenos psíquicos, nos Estados Unidos, relata as seguintes
experiências:

Fazei um traço num papel ou num quadro negro, dizei à pessoa que
ele não está ali e ela nada verá, senão o papel limpo ou o quadro. A
seguir, sem que ela veja, cercai o traço original de outros traços
exatamente iguais e perguntai-lhe o que vê. Ela apontará um por
um os novos traços e omitirá o original todas as vezes, não importa
quão numerosos sejam aqueles, ou em que ordem estejam
dispostos. Similarmente, se a simples linha original, para a qual a
pessoa está cega, for dobrada por um prisma de dezesseis graus,
colocado diante de um de seus olhos — sendo os dois mantidos
abertos — ela dirá que agora vê um traço, e apontará a direção na
qual está a imagem vista através do prisma.

Outra experiência prova que o indivíduo precisa ver a imagem a
fim de recusar-se tomar conhecimento dela.
Traçai uma cruz vermelha, invisível ao hipnotizado, numa folha de
papel branco, fazendo, porém, com que ele olhe fixamente para um
ponto no papel, ou perto da cruz vermelha. Ao dirigir sua vista para
a folha branca ele verá uma pós-imagem verde-azulada da cruz. Isto
prova que ela impressionou sua sensibilidade. Ele sentiu, mas não a
percebeu. Realmente a ignorou; recusouse a reconhecê-la, por assim
dizer.

O Dr. Ernest Hart, um autor inglês, num artigo publicado na famosa
Revista de Medicina Britânica, dá uma explicação geral dos
fenômenos do hipnotismo que podemos aceitar como verdadeiro no
seu todo, mas que é evidentemente incompleta. O autor parece


reduzir demais a influência pessoal que todos exercemos em várias
ocasiões, da qual ele se recusa a tomar conhecimento, não porque
pretenda negá-la, mas porque teme dar apoio ao fluido magnético e
similares.

Diz ele:

"Chegamos ao ponto em que se torna claro que o estado produzido
nesses casos, é conhecido sob um variado calão inventado, seja para
ocultar a ignorância, ou para exprimir hipóteses, ou para mascarar o
objetivo de impressionar a imaginação, e possivelmente de assaltar
os bolsos de um público crédulo e ávido de prodígios — termos tais
como: condição mesmérica, sono magnético, clarividência,
eletrobiologia, magnetismo animal, transe de fé e muitos outros
nomes. Este estado, digo, é sempre subjetivo. É independente de
passes ou de gestos, não tem nenhuma relação com qualquer fluido
emanado do operador; não tem nenhuma relação com sua vontade,
ou com qualquer influência que ele exerça sobre objetos
inanimados; a distância não o afeta, nem a proximidade, nem a
intervenção de quaisquer condutores ou não condutores, seja seda,
vidro, pedra, ou mesmo uma parede de tijolos. Podemos transmitir
a ordem de dormir pelo telefone ou pelo telégrafo. Podemos
praticamente conseguir os mesmos resultados até eliminando o
operador, se pudermos obter o meio de influenciar a imaginação ou
de afetar a condição do indivíduo por intermédio de qualquer uma
de tantas invenções.

Que significa tudo isto? Farei referência a um ou dois fatos em
relação à estrutura e à função do cérebro e mostrarei uma ou duas
simples experiências de muito antiga data, as quais suponho que
concorram para uma explicação. Recordamos algo do que sabemos
da anatomia e da localização das funções do cérebro, e da natureza
do sono comum. O cérebro, como sabemos, é um complicado órgão,


constituído internamente de massas de nervos, ou gânglios, sendo
que as centrais e fundamentais estão relacionadas com as funções
automáticas e ações involuntárias do corpo — tais como a ação do
coração, dos pulmões, do estômago, intestinos, etc. — enquanto a
superfície envolvente mostra um sistema de complexas convulsões
ricas em matéria cinzenta, espessamente disseminada de células
microscópicas, nas quais terminam as extremidades dos nervos. Na
base do cérebro acha-se um completo círculo de artérias, do qual
brota um grande número de pequenos vasos arteriais que levam um
profuso suprimento de sangue através de toda a massa e capazes de
contração em pequenos espaços, de modo que reduzidas áreas do
cérebro podem, em dado momento, ficar privados de sangue,
enquanto outras partes podem simultaneamente tornar-se
altamente congestionadas. Ora, se o cérebro ou qualquer uma de
suas partes ficarem privados da circulação do sangue, total ou
parcialmente, ou se tornarem excessivamente congestionados e
sobrecarregados de sangue, ou se submetidos a pressão local, a
parte do cérebro assim afetada ficará incapaz de exercer suas
funções. A regularidade da ação do cérebro, a sanidade e a
integridade do pensamento, que é uma das funções de sua
atividade, dependem da boa regularidade da quantidade de sangue
que passa através de todas suas partes e da qualidade do sangue
circulante. Se comprimirmos as artérias carótidas que passam pelo
pescoço para formar o círculo arterial de Willis, na base do cérebro,
no interior do crânio — do qual já falei e que supre o cérebro de
sangue — logo se produzirá a insensibilidade, como todos sabem.
O pensamento é suprimido e a consciência cessa. E se continuarmos
a pressão, todas as ações automáticas do corpo, como o bater do
coração, os movimentos dos pulmões, que mantêm a vida e são
controlados pelos núcleos de gânglios da parte inferior do cérebro,
cessam imediatamente e segue-se a morte. Sabemos pela observação
de casos em que porções do crânio foram removidas, ou em homem
ou em animais, que durante o sono natural a parte superior do


cérebro — as convulções de sua superfície, que com saúde e no
estado de vigília são levemente rosadas, como uma face corada,
devido à cor do sangue que circula através da rede de vasos
capilares, torna-se branca e quase sem sangue. É nessas
convoluções, como também sabemos, que residem a vontade e o
poder de direção; de modo que no sono a vontade é abolida e a
consciência desaparece gradualmente, quando o sangue é repelido
pela contração das artérias. Assim, também, a consciência e o poder
de direção podem ser abolidos se alterarmos a qualidade de sangue
que corre pelas convoluções do cérebro. Podemos introduzir uma
substância volátil, como clorofórmio, e seu primeiro efeito será
suprimir a consciência, produzir um profundo sono e uma
abençoada insensibilidade à dor. Efeitos semelhantes podem ser
conseguidos mais lentamente pela absorção de uma droga, como o
ópio; ou podemos produzir alucinações, introduzindo no sangue
outras substâncias tóxicas, como o cânhamo indiano ou o
estramônio. Não temos consciência do mecanismo que produz a
contração arterial e a falta de sangue das convulções relacionadas
com o sono natural. Mas não ficamos completamente sem controle
sobre elas. Como se sabe, podemos nos ajudar a acomodar-nos para
dormir, como dizemos em linguagem comum. Retiramo-nos para
um quarto escuro, aliviamo-nos do estímulo dos sentidos especiais,
livramo-nos da influência de ruídos, de luz forte, de cores vivas ou
de impressões tácteis. Deitamo-nos e esforçamo-nos para acalmar a
atividade cerebral, afastando pensamentos inquietantes, ou, como
às vezes o povo diz, "tentamos pensar em nada". E, felizmente,
quase sempre o conseguimos mais ou menos bem. Algumas pessoas
possuem até mesmo um controle mais pronunciado sobre este
mecanismo do sono. Geralmente consigo pôr-me a dormir a
qualquer hora do dia, ou na poltrona da biblioteca ou na carruagem.
Isto é, por assim dizer, um processo de auto-hipnotização, e muitas
vezes o ponho em prática, quando vou de casa em casa, em ocasiões
de grande ocupação. Às vezes distraio meus amigos e minha família


exercendo esta faculdade, que penso não ser muito difícil de
adquirir.
Também sabemos que muitas pessoas podem acordar a uma
determinada hora da manhã, fixando-a em sua mente pouco antes
de dormir. Ora, eis aí algo que merece um exame um pouco mais
amplo, mas que tomaria agora muito tempo para desenvolver-se de
um modo completo. Quase todos sabem alguma coisa do que se
entende por ação reflexa. Os nervos que vão dos vários órgãos ao
cérebro levam mensagens às suas diversas partes com grande
rapidez, as quais são respondidas por ondas reflexas de impulsos.
Se fizermos cócegas nas solas dos pés, excitaremos a contração dos
artelhos ou o riso involuntário, ou talvez apenas um tremor e uma
contração da pele, conhecida como pele de galinha ou arrepio. A
irritação da extremidade do nervo na pele levou uma mensagem
aos gânglios voluntários ou involuntários do cérebro, que
responderam refletindo outra vez de volta os impulsos nervosos
que contraíram os músculos dos pés ou da pele, ou deram causa ao
despertar de ideias associadas e à explosão de riso. Do mesmo
modo, se durante o sono aplicarmos calor na sola dos pés, o
indivíduo poderá sonhar que está andando sobre superfícies
quentes — sobre o Vesúvio ou o Fujiama, ou lugares ainda mais
quentes — ou sonhará com aventuras sobre superfícies geladas ou
em regiões árticas, se lhe pusermos gelo na sola dos pés.

Vê-se, portanto, que temos um mecanismo no corpo, conhecido
pelos fisiologistas como sistema nervoso ideomotor ou sensório-
motor, que pode produzir, sem consciência do indivíduo e
automaticamente, uma série de contrações musculares. E
lembremo-nos que os envoltórios das artérias são musculares e
contrácteis sob a influência de estímulos externos, agindo
independentemente da consciência ou quando a consciência está
suspensa. Darei outro destes exemplos para completar a cadeia de
fenômenos naturais do cérebro e do corpo, e que desejo trazer à


observação para explicação dos verdadeiros fenômenos, distintos
dos fenômenos falsos ou falsamente interpretados de hipnotismo,
mesmerismo e eletrobiologia. Tomarei a excelente ilustração citada
pelo Dr. B. W. Carpenter no seu antigo, mas valioso livro "A
Fisiologia do Cérebro". Quando um homem faminto vê alimento,
ou quando, digamos, um menino faminto olha o interior de uma
casa de pasto, ele sente água na boca e tem a sensação de algo a
roer-lhe o estômago.
Que significa isto? Significa que a impressão mental produzida nele
pelo agradável e apetitoso espetáculo causou uma secreção de
saliva e de suco gástrico, isto é, o cérebro, através do sistema
nervoso ideomotor, mandou uma mensagem que dilatou os vasos
em torno das glândulas salivares e gástricas, aumentou o fluxo de
sangue através delas e apressou sua secreção. Temos aqui, então,
uma atividade mental puramente subjetiva, agindo por intermédio
de um mecanismo, completamente ignorado pelo menino, o qual ele
não pode controlar, e que produz a dilatação ou contração dos
vasos, ação esta que, como vimos, é a condição essencial da atividade
cerebral e da evolução do pensamento, e está relacionada com
a atividade ou com a abolição da consciência, e com a atividade ou
com a suspensão da função nos centros da vontade e nas
convoluções superiores do cérebro, como em outros centros de
localização.

Assim, temos algo como uma chave para os fenômenos, que, como
indiquei, são semelhantes ao sono mesmérico, ao hipnotismo e à
eletrobiologia, com os quais muito têm em comum. Espero que já
tenhamos conseguido eliminar de nossas mentes a falsa teoria —
isto é, a teoria que se provou experimentalmente ser falsa — de que
a vontade, ou os gestos, ou o fluido magnético ou vital do operador
são necessários para a abolição da consciência e da suspensão da
vontade do indivíduo.


Vemos agora que as ideias que surgem da mente são suficientes
para influenciar a circulação no cérebro da pessoa com quem se
opera, e tais variações no suprimento de sangue do cérebro também
são adequadas para produzir sono em estado natural, ou sono
artificial, seja pela privação, ou pelo excessivo aumento, ou ainda
por uma anormalidade local na quantidade ou na qualidade do
sangue. De maneira idêntica é possível produzir o coma e uma
prolongada insensibilidade pela pressão dos polegares na carótida,
ou alucinações, sonhos e visões, por meio de drogas, ou por um
estímulo externo dos nervos. Também neste caso a consciência pode
ser afetada apenas marcialmente, e a pessoa em quem se produziu o
sono, seja por meios físicos, ou pela influência da sugestão, pode
ficar sujeita à vontade dos outros e incapaz de exercer sua própria
volição"35.

Em suma, a teoria do Dr. Hart é que o hipnotismo provém do
controle do suprimento de sangue ao cérebro, ou suprimindo-o de
alguma parte, ou aumentando-o em outras partes. Esta teoria é
apoiada pelo fato bastante conhecido de poderem certas pessoas
enrubescer ou empalidecer à vontade, e de algumas outras corarem
à menção de certas coisas, ou à lembrança de determinadas ideias.
Certas outras ideias as tornarão pálidas. Ora, se fizer com que
algumas partes do cérebro enrubesçam ou fiquem pálidas, não há
dúvida de que resultará o hipnotismo, pois que esses efeitos são
devidos ao abrir e ao fechar dos vasos sanguíneos. Podemos dizer
que o indivíduo é impelido por alguns meios a impedir o fluxo de
sangue para certas partes do cérebro e a assim mantê-lo até que se
lhe mande deixá-lo afluir novamente.

35 VOLIÇÃO: sf. Ato em que há determinação de vontade. [Antôn.: na lição. Pl.:
–ções.]. [Miniaurélio Eletrônico versão 5.12.81]. SMJ.


PRÁTICAS DIVERSAS


COMO FAZER UMA PESSOA CAIR PARA FRENTE
OU PARA TRÁS


A PÓS havermos conseguido a confiança e o assentimento da
pessoa com quem vamos operar, peçamos-lhe que fique de pé
diante de nós, de olhos fechados e com os pés juntos. Digamos-lhe
para tentar pensar o que sentiria se estivesse caindo para trás.
Tentemos encher toda sua mente com a sensação de queda,
peçamos-lhe que não tente cair nem resista à queda.

Quando estivermos certos de que a pessoa compreendeu
exatamente o que queremos, coloquemo-nos por detrás dela e
passemos-lhe brandamente as mãos pela testa, do centro para os
lados de três, assim continuando por alguns momentos e sugerindo
num tom baixo e monótono. .Agora, estais começando a cair; sentis
que estais caindo para trás, para trás, para trás. Corramos o dedo
pela parte posterior da cabeça até encontrarmos a depressão do
pescoço; aí comprimimos um pouco e gradualmente continuamos a
correr o dedo para baixo.

Nesse ponto muitos pacientes sentirão uma tendência a cair para
trás. Alguns caem de repente, outros, apenas se inclinam e resistem.
Não desistamos. Repitamos a experiência diversas vezes e
descobriremos que muitos tendem a cair.

Se quando caírem mantiverem fechados os olhos, parecendo
estarem adormecidos, como às vezes acontece, bastará batermos
palmas ou estalarmos os dedos, dizendo num decidido tom de
voz.Muito bem. Todavia, muito poucos pacientes dormirão nesta
experiência. Não estão hipnotizados no sentido em que às vezes


esta palavra é usada; apenas estão agindo inconscientemente sob
uma sugestão que lhes foi feita.

Na experiência seguinte peçamos ao paciente que fique de pé, com
os olhos abertos e de pés juntos, de frente para nós. Façamos-lhe
fitar diretamente nossos olhos, ou um objeto pequeno e brilhante
que seguramos em frente aos seus olhos. Peçamos-lhe para pensar o
que sentiria se caísse para frente. Fitemo-lo firmemente por alguns
momentos e então movamo-nos gradualmente para diante e para
trás, mas não muito rapidamente, devendo parar se nós não virmos
nenhuma tendência de sua parte para seguir-nos.

Se nos movermos para trás bem vagarosamente e observarmos
cuidadosamente os movimentos do paciente, veremos que muitas
vezes ele nos segue e cai para frente. Neste caso há mesmo menos
probabilidade de que o paciente durma, do que no caso precedente.
Se assim suceder, podemos aplicar-lhe o mesmo método de
despertar, já indicado na experiência anterior.

COMO FAZER UMA PESSOA JUNTAR AS MÃOS

Coloquemos o paciente em uma cadeira, assentado em posição
confortável. Façamos com que junte as mãos, com os dedos
entrelaçados e os braços estendidos. Coloquemo-nos em frente a ele
e peçamos-lhe que fite nossos olhos.

Enquanto nos fita batemos lentamente em seus braços, impelindo-os
para baixo e dizendo-lhe, .Ides sentir que vossos braços estão


ficando rijos. Os músculos estão ficando cada vez mais rígidos. O
cotovelo já está assim e não podeis dobrá-lo; vossos dedos estão se
prendendo uns aos outros. Vossos dedos estão se prendendo uns
aos outros. Vossos braços estão rijos, não podeis dobrá-los. Vossas
mãos estão se prendendo uma à outra, cada vez mais apertadas..
Continuemos a fitá-lo, repetindo num tom convincente e decidido
algumas palavras como essas.

Desde que tenhamos convencido o paciente de nossa seriedade e
capacidade, chegará um momento em que a expressão de seus olhos
mudará e suas mãos ficarão seguras uma na outra.

Quando acharmos que ele atingiu este ponto — e é possível falar-
lhe até que ele atinja e ultrapasse esse ponto — dizemos-lhe, .Agora
vossas mãos estão presas… presas… presas; é impossível para vós
separá-las; estão presas uma à outra. Tentai separá-las. Não
podeis fazê-lo. Tentai de novo. Tentai..

Em muitos casos o paciente ficará completamente incapaz de
desprender as mãos. Em outros, ficarão um pouco presas, mas ele
será capaz de abri-las e, possivelmente, em alguns poucos casos
nada sentirá. Não devemos permitir que as mãos fiquem presas por
muito tempo, mas quando nos convencermos de que o paciente não
pode separá-las, batemos palmas ou estalamos os dedos e dizemos-
lhe: .Está bem, está bem. E, veremos que ele pode desprendê-las
sem qualquer dificuldade.

Devemos ter cautela para não perdermos nosso próprio controle.
Não nos esqueçamos de que o paciente age conforme sugerimos. Se
por qualquer possibilidade o operador se tornar histérico, no caso
de o paciente não separar as mãos da primeira vez que lhe
mandarem, é provável que ele também se torne histérico por


imitação. É preciso dizer-lhe decididamente que tudo está bem, que
agora pode desprender as mãos, e não haverá nenhuma dificuldade.

COMO FAZER UMA PESSOA ESQUECER SEU NOME

Façamos com que um rapaz fique de pé diante de nós, fitando-nos
diretamente os olhos. Fixemos o olhar nele, firmemente, por alguns
minutos, e quando notarmos uma alteração na aparência de suas
pupilas comecemos a passar e passar a mão em seu rosto, de cima
para baixo e em torno da boca, lenta e cuidadosamente, sem muita
pressão.

Digamos-lhe: .Os músculos em volta de vossa boca estão se
tornando rígidos. Vossos lábios estão ficando presos um ao outro.
Os músculos estão tão rígidos que não podeis abrir a boca, ela está
presa… presa. Não podeis abrir a boca. É impossível para vós abrila.
Não podeis dizer-me qual é o vosso nome. Dizei-me, se sois
capaz. Não podeis fazê-lo… mas tentai..

Se continuarmos a olhá-lo firmemente e tivermos cuidado para que
não desvie a atenção de nós, nem por um momento, continuando a
falar-lhe em um tom assim, em muitos casos ele achará impossível
abrir a boca, e em outros casos esquecerá absolutamente seu nome.
Se lhe dissermos enfaticamente que seu nome é Smith, e o
repetirmos algumas vezes, podemos convencê-lo do fato de tal
maneira, que ele assentirá com a cabeça se lhe perguntarmos se não
é verdade. Poderemos despertá-lo pelo mesmo processo já descrito


antes. Subitamente deixamos de fitar seus olhos e estalamos os
dedos ou batemos palmas, dizendo .Está bem!..

COMO TORNAR RIJA A PERNA

Algumas vezes podemos divertir-nos muito com a seguinte
experiência. Coloca-se um rapaz de pé, diante de nós, fitando-nos os
olhos, como no caso precedente.
Corremos as mãos pelo lado de uma de suas pernas, deixando-as
parar um momento na junta do joelho.

Digamos-lhe enquanto fazemos esses passes: .Vossa perna está
ficando rija. Já não podeis dobrar a junta do joelho. Podeis sentir
que vossos músculos estão sempre cada vez mais rígidos. É
impossível para vós dobrar a perna; está rija… rija… rija. Tentai
dobrá-la.
Não podeis fazê-lo. Tentai… tentai… com força..

Quando nos convencermos de que a perna está perfeitamente rija,
dizemos-lhe: Agora vejamos como andais.. Movemo-nos para trás,
diante dele, sempre fitando seus olhos. Seus esforços para caminhar
com uma perna rija e com outra que não o está, provavelmente
muito divertirão.

Não haverá nenhuma dificuldade em despertá-lo se empregarmos o
mesmo método recomendado anteriormente.


Deve-se notar que em nenhuma das experiências precedentes o
paciente foi posto a dormir. É possível produzir essas contrações
musculares, sem sono. As experiências que acabamos de descrever
podem, naturalmente, ser variadas de muitos modos.

Antes de começarmos devemos, também aqui, tomar muita cautela
em convencer o indivíduo de que sabemos o que falamos. É preciso
dissuadi-lo da crença de que temos alguma influência estranha
sobre ele.
Tentemos explicar-lhe que não são as pessoas de mente fraca os
melhores pacientes hipnóticos, e que o ser hipnotizado não depende
de modo algum da força de vontade.

OUTROS MÉTODOS

MÉTODO DE HIPNOTISMO DE FLOWER

OUTRO método que pode ser usado com grande vantagem, em
muitos casos, para fazer dormir o paciente é o recomendado por
Sydney Flower, o editor da .Terapêutica Sugestiva., outrora
conhecida como .Revista de Hipnotismo..

O ponto essencial no método de Flower é que enquanto o operador
conta, o paciente abre e fecha os olhos, mantendo o ritmo da
contagem. Coloca-se o paciente numa posição tão confortável
quanto possível e fica-se de pé, diante dele, fitando-lhe os olhos e fa



zendo com que fite os nossos. Digamos-lhe que vamos contar
lentamente, e a cada número que dissermos queremos que ele feche
os olhos, depois os abra, e que se prepare para fechá-los de novo
quando dissermos o próximo número. Por exemplo, contamos
vagarosamente 1… 2… 3… 4. A cada número o paciente deve fechar
os olhos, abrindo-os no intervalo de um para outro. Notaremos,
enquanto continuarmos a contagem, que o período durante o qual
os olhos permanecem abertos torna-se cada vez mais curto, e,
finalmente, em vez de os olhos se abrirem, haverá provavelmente
apenas um movimento das pálpebras.

Com este método, muitos pacientes dormirão até contarmos quinze
ou vinte, sendo raramente necessário contarmos mais de cem.
Quando virmos que os olhos estão cerrados e que o paciente não
parece capaz de abri-los, em vez de continuarmos contando, comecemos
a dizer — tendo o cuidado em não mudar o ritmo do tom
anterior: .Estais com sono… estais com sono… ides dormir
profundamente… dormir profundamente… dormir… dormir.. Com
a maioria dos pacientes achei isto muito mais rápido do que o
processo de fitar um objeto ou o de simplesmente falar de dormir. O
método de despertar, neste caso, é o mesmo de que já falamos antes.

HIPNOTISMO INSTANTÂNEO


Afirma o Dr. Sage ser inteiramente possível hipnotizar quase
instantaneamente pessoas que tenham sido influenciadas antes, e
algumas vezes até mesmo as que se submetem pela primeira vez.
Façamos o indivíduo assentar-se numa cadeira e comecemos a


andar junto dele. Ao chegarmos perto, fitemos rapidamente seus
olhos, batendo-lhe de leve no queixo com os dois primeiros dedos
da mão direita, dizendo-lhe muito decididamente que ele sente dor
de dentes. Os dedos não devem ficar imóveis e sim continuar
batendo no queixo firmemente, sem que, contudo, se afastem.
Continuemos a dizer-lhe que tem dor de dentes e que o faz sofrer
muito, sempre o olhando diretamente nos olhos.
A probabilidade é que pouco depois ele salte com um urro de dor.
Dizemos-lhe então para olhar-nos diretamente e sugerimos-lhe que
a dor de dentes passou, mas que se cerrar os olhos dormirá. Depois,
algumas poucas sugestões como: .estais com sono… estais com
sono… ides dormir., é todo o necessário para pô-lo em profundo
sono hipnótico.

COMO ACORDAR UM PACIENTE

NOS capítulos anteriores dissemos resumidamente como acordar
um paciente que haja sido hipnotizado. Naturalmente, o essencial é
convencê-lo de que compreendemos o que estamos fazendo, e para
isto devemos manter nosso próprio controle. Em quase todos os
casos um ligeiro choque, como o estalar dos dedos, ou o bater de
palmas, repetidos algumas vezes, com a afirmativa, .Estais bem!
Estais bem… acordai!. bastarão para despertá-lo.

Se o paciente não despertar imediatamente com essa sugestão,
deve-se lembrar de que não há nenhum perigo no sono hipnótico. O
indivíduo acordará por si se for deixado só, ou melhor, passará do


sono hipnótico ao sono natural, e despertará deste no tempo
conveniente.

É prudente, antes de despertar o indivíduo, sugerir-lhe: .Agora vou
acordar-vos e vos sentireis bem. Vossa cabeça ficará lúcida e vos
sentireis exatamente como se houvésseis dormido.. Uma sugestão
desta espécie frequentemente evita uma ligeira dor de cabeça, a que
estão sujeitas certas pessoas, especialmente quando a hipnose foi
produzida pelo fitar dos olhos.

Às vezes encontramos uma pessoa que não acorda à simples ordem
de despertar e com o estalar dos dedos.
Nesse caso o abanar com um leque às vezes auxilia, e o sopro nos
olhos costuma frequentemente despertar o paciente, quando uma
simples ordem não consegue.

Outras vezes, conquanto raramente, o paciente não acorda nem
mesmo com o abanar ou com o sopro nos olhos. A dificuldade
parece ser que ele está tão profundamente adormecido, que não lhe
é possível despertar tão rapidamente. Neste caso será prudente di-
zer-lhe: .Agora, quero que acordeis e vou contar até cinco.
Prometeis despertar quando eu chegar a este número?. Após obter
sua promessa, contam-se os números vagarosamente, e ao dizermos
cinco, batemos palmas de repente e dizemos vivamente: Agora
estais bem, acordai.. Repetindo-se isto duas ou três vezes, o paciente
provavelmente acordará. Talvez seja necessário observá-lo alguns
momentos após, para que não caia novamente em sono hipnótico.

Pode ser preciso dar ao paciente até mesmo mais tempo do que isto.
Se ele não acordar após havermos contado, digamos-lhe que ele
precisa acordar, que não permitimos que durma por mais tempo,
que está fazendo papel de tolo e que ele precisa acordar. Digamos-
lhe que vamos dar-lhe mais cinco minutos e que ele deve acordar.


Deixamo-lo e voltamos no fim de cinco minutos, dizendo-lhe:
.Agora estais bem e desta vez ides despertar. Compreendeis?..
Façamos-lhe responder se for possível, e depois digamos-lhe:
Agora, quando contar cinco, estareis completamente acordado,
sentindo-vos perfeitamente bem.. Contamos cinco e batemos palmas
como antes.

Não apressemos demais o paciente. Ele se sente muito sonolento e
parece-lhe impossível despertar tão rapidamente. Não percamos
confiança em nossa própria capacidade. O nosso nervosismo
impressionará o indivíduo e fará com que se torne histérico. Às
vezes o paciente costuma acordar e depois se põe a dormir de novo.
Nesse caso é aconselhável sugerir-lhe, antes de acordá-lo, que
quando despertar ele estará bem e não ficará sonolento, mas
permanecerá acordado. Após incutir-lhe isto, despertemo-lo.

Lembremo-nos, porém, do seguinte — não há perigo para o
indivíduo se ele não acordar imediatamente.
Simplesmente passará ao sono ordinário e natural.


COMO HIPNOTIZAR ANIMAIS

É ESTRANHO, mas verdadeiro, que algumas pessoas possam
hipnotizar animais, mas não seres humanos, enquanto que outras
conseguem mais resultado com seres humanos do que com animais.
É necessário muita prática e perseverança para dizer se uma pessoa
tem uma aptidão natural ou uma influência sobre animais.


COMO HIPNOTIZAR UM POMBO


Coloque-se um pedacinho de massa branca na extremidade do bico,
segurando-o firmemente por um minuto, até que sua atenção se fixe
nesse objeto. Os olhos convergirão, como num ser humano e o
pombo será hipnotizado. Ele dorme, ou fica rígido, mas nada pode
ser levado a fazer neste estado. Para acordá-lo, basta soprá-lo ou
agitar um lenço diante dele e fazer um ruído.

COMO HIPNOTIZAR UM GALO DE BRIGA

Apanha-se o galo em disposição de briga, e após colocá-lo sobre
uma mesa, fazemos alguns passes com o dedo indicador sobre sua
cabeça e pelo bico abaixo.
Amarramos-lhe uma perna à outra, com um pedaço de barbante, e
colocamo-lo no chão diante de uma linha traçada com giz. Em
poucos minutos ele deve tornar-se inteiramente passivo.
Desamarramos-lhe as pernas, empurrando-o um pouco, e ele ficará
inteiramente indiferente. Pomos sua cabeça debaixo da asa e ele a
manterá ali.

Deixamo-lo no chão em qualquer posição e não fará nenhuma
tentativa para mover-se. Acorda-se do mesmo modo como ao
pombo.


COMO HIPNOTIZAR UM CANÁRIO OU OUTRAS


AVES ENGAIOLADAS


Chegamos em frente à gaiola e atraímos a atenção do pássaro.
Movemos a mão da direita para a esquerda brandamente, ao
mesmo nível de sua cabeça e de seus olhos, a uma distância de doze
polegadas da gaiola. Façamos isto por alguns minutos, movendo-
nos gradualmente cada vez mais para perto, com passes curtos, até
a distância de 27 ou 54 milímetros aproximadamente, do pássaro,
quando ele fechará os olhos, pondo-se a dormir até cair do poleiro.
Acorda-se do mesmo modo como ao pombo, mas sempre
desmesmerizando-o com passes de baixo para cima e soprando-o.

COMO HIPNOTIZAR CÃES, GATOS OU COELHOS

Fazem-se passes firmemente sobre os olhos, pelo nariz abaixo,
assim se continuando por uns poucos minutos. Se o animal treme
ou torna-se agitado é um bom sinal. Operemos com intenção, como
se o fizéssemos a um ser humano. É melhor não fechar os olhos do
animal com os dedos, mas continuar com breves passes locais até
que os olhos se cerrem por si ou que as pupilas se tornem dilatadas.

Algumas vezes um cão resistirá a todos os esforços para mesmerizálo
por passes, mas é vencido pelo olhar, sendo o olho um poderoso
agente para mesmerizar todos os animais.


Dizem que as serpentes podem ser hipnotizadas e que podem ser
fascinadas por meio de música, sendo até mesmo possível, algumas
vezes, fazê-las imitarem de certo modo os movimentos do
encantador. Supõe-se também que os animais podem ser
hipnotizados na razão direta de sua capacidade para concentrar a
atenção, e como regra isto é mais pronunciado nos animais
domésticos do que nos selvagens. O estado cataléptico nos animais
pode ser produzido por uma pressão constante ou pela excitação de
certos nervos. É muito difícil em muitos casos, e com animais
maiores é quase impossível devido à resistência que mostram a
princípio. Diz-se que por meio de inibições é possível tornar
catalépticos gatos, cães, pombos, canários, frangos, estorninhos,
lagostas, rãs, serpentes, sapos e lagartos.
O hipnotismo de animais, se pode a rigor ser chamado hipnotismo,
é de muito pouco valor científico. As experiências são interessantes,
pois que mostram o efeito que pode ser conseguido nos animais
inferiores pela fadiga dos nervos, mas quase todo seu valor se
resume nisto.

FIM




 Livros Loureiro
  Hipnotismo Prático - Ernest Roth
 
(links no final da pág.)



   Digitalização:  M. Loureiro
(livro de Jean Pierre)


Sinopse:

Segure a imagem da capa do livro um pouco acima dos olhos da pessoa e a uns 15cm de distãncia.

Roda a imagem (rotação) lentamente enquanto fala pausadamente sugerindo que os olhos estão ficando pesados...pesados...cada vez mais pesados. Vá sugerindo que os olhos estão ficando pesados, cansados, cansados.

Com um pouco de habilidade, a pessoa não custa a cair em sono profundo.


Links:

Ziddu:

(.pdf):
http://www.ziddu.com/download/17799747/HipnotismoPrtico-ErnestRoth.pdf.html

(.doc)


Este e-book representa uma contribuição do grupo Livros Loureiro para aqueles que necessitam de obras digitais,
como é o caso dos Deficientes Visuais e como forma de acesso e divulgação para todos.
É vedado o uso deste arquivo para auferir direta ou indiretamente benefícios financeiros.
 Lembre-se de valorizar e reconhecer o trabalho do autor adquirindo suas obras.



"Tudo aquilo que não podemos incluir dentro da moldura estreita de nossa compreensão, nós rejeitamos."

(Henry Miller)





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