CÍNTIA
ROMANCE INSPIRADO PELO ESPÍRITO DE
FERNANDO
ISMAEL BIAGGIO
Índice
Primeira Parte
I -Reminiscências ...............................................
II -Elucidações e aprendizado ...........................
III -Mediunidade e trabalho ................................
IV -Nova esperança ..............................................
V -Trabalho ativo em desdobramento ..............
VI -Nosso primeiro contato com Cleusa ............
VII -O resgate de Ricardo .....................................
VIII -Finalmente o reencontro ...............................
IX -Renascimento-resgate....................................
X -Prenúncio de novas revelações.....................
Segunda Parte
I -Incursão no passado.......................................
II -Corações conturbados....................................
III -Dolorosa separação ........................................
IV -A volta do Monsenhor ...................................
V -Novas revelações ...........................................
VI -Intrigas e perseguições .................................
VII -Expectativas de novas esperanças................
VIII -O automatismo da Lei..................................
IX -Novas etapas...................................................
X -Amargas recordações..................................
XI -Enfermidade incomum................................
XII -O testemunho de Ricardo ...........................
XIII -A desencarnação de Ricardo ......................
XIV -Expectativas frustradas...............................
XV -Heranças do passado...................................
XVI -Atividades no Além.....................................
XVII -Incursão no vale dos suicidas.....................
XVIII-A desilusão de Guiomar .............................
XIX -Provas e expiações.......................................
XX -A comunicação .............................................
XXI -Finalmente juntos ........................................
***
Este romance narra, em cores vivas, a emocionante trajetória de um
grupo de Espíritos envolvidos em urdidas tramas do passado, na
Espanha distante, na época da Inquisição, onde o Monsenhor
Fernandez e Cíntia, personagens centrais da história, resgatam,
através de sucessivas encarnações, a dor da separação que, embora
temporária, parece ter a duração de uma eternidade. Esta eletrizante
história chama-nos a atenção para a vivência prática dos
ensinamentos de Jesus, sem a qual ninguém poderá desfrutar a paz,
principalmente se vier a sobrepor os interesses próprios ao direito
alheio de ser feliz.
Certamente, o leitor sentir-se-á envolvido da primeira à última
página com o desenrolar dessa trama, inspirada ao médium pelo
Espírito Fernando, na verdade, o próprio Monsenhor Fernandez.
Ismael Biaggio é natural de Araras (SP), nascido em 15 de novembro
de 1938. Filho de Antonio Biaggio e Dolores de Souza Brito Biaggio,
é casado com Rose Mary Vigano Biaggio e possui quatro filhos:
Jesiel, André Luiz, Marcelo e Ângela Cristina. É funcionário
aposentado do Banespa.
Milita no Espiritismo desde a adolescência, vindo a ser Diretor-
Presidente da Soe. Esp. Fraternidade de Niterói, quando colaborou
com o Depto. Assistencial, dando reforço escolar na extinta Favela
do Gás, Tesoureiro da Soe. de Estudos Espíritas Três de Outubro,
fundador e Presidente do Núcleo Espírita de Estudos de.Assis-
Atualmente e desde 1992, como voluntário, é Presidente da Clínica
Antonio Luiz Sayão -Acompanhamento Psiquiátrico, hospital
espírita filantrópico e sem fins lucrativos que atende a mais de 700
usuários. Fundada em 21 de setembro de 1957, até hoje seu
atendimento encontra-se focado não somente em procedimentos
médicos, como também em assistência espiritual através de corpo
de voluntários (palestras, passes e fluidoterapia).
Trata-se de um trabalho que chega a ultrapassar os quesitos
exigidos pela moderna psiquiatria, haja vista os treinamentos com
comunicação alternativa através de telas sensíveis, pensões
protegidas, lares abrigados, geriatria, passeios externos, inclusive no
litoral, chácara onde são desenvolvidas atividades de eqüoterapia e
oficina profissionalizante conveniada com o Senai. além de
belíssima área de 1 alqueire para lazer. Tudo isso num trabalho de
muito amor fraternal, com cerca de 600 funcionários.
Primeira Parte
I
Reminiscências
A noite escura, carregada de nuvens pardacentas anunciando
aguaceiro próximo, era uma vez ou outra entrecortada por
relâmpagos que riscavam o céu, iluminando a imensidão do
firmamento, num espetáculo feérico de majestática beleza! Na
paisagem agreste, bem à minha frente, ao fundo, destacava-se
imponente casarão toda vez que o céu era iluminado pela fúria dos
trovões.
Ao relento, e sem saber para onde ir, acomodei-me ' como pude ao
abrigo de uma árvore próxima, esperando a tempestade amainar.
Aos poucos a natureza se aquietou e o vento forte deu lugar à brisa
refrescante.
Os trovões ecoavam agora mais distantes e algumas estrelas
despontavam no céu, quebrando a negritude da noite.
^Sem esperar o dia amanhecer, intrigado, procurei vasculhar as
cercanias em busca de informações que pudessem esclarecer os
motivos ignorados que me levaram ate ali, quando só então dei-me
conta da região onde me encontrava.
Era um lugarejo, quase uma vila, onde um casarão sobressaía-se
imponente, senhorial.
Aproximei-me furtivamente, sem ser notado, e pela janela
entreaberta observei que uma jovem senhora, de rara beleza,
trabalhava em sua roca, fiando com maestria.
Ao seu lado, seus filhos brincavam despreocupados, aguardando
talvez a refeição noturna que não deveria tardar.
Neste instante meu pensamento deu asas à imaginação. O coração
bateu mais forte e descompassadamente.
Aquela mulher, cujo fascínio remexia fundo o recôndito do meu ser,
fazia aflorar, magicamente, as reminiscências de um passado
distante, que não sabia precisar.
Desejei aproximar-me um pouco mais, estreitá-la em meus braços,
aconchegá-la de encontro ao peito que explodia de emoção, mas
uma força estranha deteve-me o ímpeto, impedindo-me de ir além.
Ela não mais me pertencia. Estava agora consorciada com outro
homem e seus filhinhos, ao que tudo parecia, eram duas promessas
de felicidade e ventura para o seu coração de mãe.
Supunha que aquele lar, construído sob as bases sólidas do amor
cristão, deveria dar-lhe a sustentação espiritual necessária para
suportar com dignidade a sua existência de provações.
Não sei por quanto tempo fiquei ali, parado, em estado de
expectação. Confuso e desconcertado, sem saber por que, resolvi,
então, voltar. Apesar das estrelas, incontáveis agora, brilharem no
céu com maior esplendor pela ausência das pesadas nuvens que
bateram em retirada, espancadas pelo sopro do vento forte, a noite
avançava célere, convidándome ao necessário repouso para os
embates do dia próximo.
Ganhei novamente a estrada onde deixara a montaria e procurei
abrigo próximo junto a uma hospedaria. Mas ao buscar substituir a
roupa encharcada, despertei e, surpreendido, dei-me conta de que
sonhara.
Uma tristeza angustiante tomou conta de minha alma, quase me
levando à loucura pela visão da mulher amada. Debalde tentei
adormecer de novo para retê-la junto a mim, não conseguindo,
todavia, conciliar o sono; em estado de vigília, adentrei a
madrugada conjeturando se aquilo teria sido um simples sonho ou
o flash de uma existência passada, que meu Espírito buscava sondar
nas telas do infinito; mas depois de muito meditar, cansado,
finalmente adormeci. Os dias passavam sem que eu encontrasse
explicação lógica para o meu sonho enigmático. Durante muitos
anos alimentei aquela visão gravada nos recônditos de meu ser e,
como o tempo não oferecia resposta às minhas indagações, procurei
olvidar o episódio memorável e buscar alguém que pudesse
preencher o vazio do meu coração sem, no entanto, lograr alcançar
o intento desejado, pois na Terra são raras as uniões felizes quando
as almas se unem por sentimentos superiores de simpatias
recíprocas. Na sua grande maioria, a reencarnação costuma
reaproximar, pelo instituto do matrimónio, as almas
comprometidas, em processos de reajustes mútuos. Mesmo assim,
purgando a dor da separação que, no fundo, acreditava temporária,
lutava contra o tempo, que escoava devagar, gozando da felicidade
relativa que a Terra sempre pode oferecer a toda criatura humana
ajustada no trabalho do bem.
Neste momento, devo esclarecer aos leitores que, hoje, habitando o
verdadeiro Plano da Vida, Espírito Eterno que sou, estou a contar
esta minha história, utilizándome da inspiração do médium
companheiro.
***
Agora, então, volto a narrar o meu passado, quando encarnado.
No meu caso pessoal, posso dizer que vivia uma provação feliz,
pois as atividades do trabalho me davam as condições necessárias
para tocar a vida, sem a monotonia das horas vazias. Todavia, para
meu suplício, às vezes a visão do sonho emergia dos porões de meu
íntimo, numa exaltação dolorosa. Nessas horas de angústia, buscava
amparar-me na religião legada pelos meus pais, mas a ortodoxia da
Igreja sufocava minhas esperanças na convicção da pluralidade das
existências, alternativa que poderia atenuar a minha dor. Mesmo
assim, pressentia que a chave do enigma jazia sepultada nos arcanos
de minha alma, numa vida anterior.
Comecei então a interessar-me pelo Espiritismo, aconselhado por
um amigo, Cláudio, a quem confidenciei o meu sonho visão; após
ouvir-me complacente, convidou-me para participar das reuniões
de estudos na Instituição, onde ele, desde há muito, atuava como
trabalhador nas obras assistenciais. Depois de algum tempo, após
superar a intolerância religiosa dos meus familiares, sem nunca,
todavia, lhes haver revelado o meu drama íntimo, resolvi aceitar o
convite do amigo espírita para freqüentar as reuniões semanais.
II
Elucidações e Aprendizado
Cláudio me apresentou a Rafael, o orientador da Casa Espírita,
deixando-me inteiramente à vontade para as confabulações
sigilosas, junto ao novo companheiro e t instrutor a partir de então.
Apesar da confiança que o novo amigo inspirava, bloqueei minhas
indagações e preferi aguardar um pouco mais. Depois de algum
tempo, após familiarizar-me com os trabalhadores da Casa e
estudar sistematicamente as Obras da Codificação, senti-me mais à
vontade e encorajado para abrir o coração.
Foi então que o procurei para falar-lhe sobre o assunto; mas, em
presença do amigo, emudeci. Procurava evasivas, evitando assim
não declinar, de imediato, aquele enigma até então, para mim, sem
explicação.
Entretanto, diante do seu sorriso afável em sinal de aquiescência,
cobrei ânimo e narrei-lhe, detalhadamente, tudo o que se passara
comigo naquele sonho inolvidável, onde as imagens vivas ficaram
indelevelmente gravadas nos registros do meu íntimo. E,
concluindo, arrematei:
A princípio, julguei tratar-se de um simples sonho ou o produto da
minha imaginação. Hoje, porém, com os
conhecimentos espíritas adquiridos no trato com os estudos
sistematizados das obras da codificação, creio que aquele
reencontro arremeteu-me de volta ao passado, onde suponho ter
vivido intensa paixão.
Rafael, que ouvia a minha narrativa emocionada, aguardou
pacientemente que eu concluísse para intervir com bondade:
Meu amigo! O passado costuma reagir no presente,-impelindo-nos
ao necessário reajuste, sem o qual não-alcançaremos a reconciliação.
A reencarnação é, pois, a porta salvadora que se abre para todos
nós, compelindo-nos ao fatalismo do progresso espiritual. A dor,
muitas vezes sem respostas aparentes, tem raízes no passado das-
existências mal vividas. Por isso, o trabalho dignificante no bem é a
solução presente, à nossa disposição, para neutralizar o mal
porventura ainda remanescente.
Acredito que o companheiro, hoje engajado nas lides espiritistas,
estará, logo mais, preparado para suportar os testemunhos que
provavelmente advirão. O tempo costuma ser o nosso melhor
conselheiro. Por isso mesmo, não se preocupe demasiadamente com
as recordações do passado. O esquecimento temporário evita a
desestabilização que uma lembrança mais forte pode provocar em
nossa alma.
E tentando dar um colorido mais vivo à sua fala, exemplificou:
Imagine os pais que reconhecessem no próprio filho um desafeto do
passado. Não é verdade que, em determinadas ocasiões, desejamos
sepultar, por inconvenientes, até mesmo as nossas lembranças mais
recentes?
As más tendências revelam o nosso caráter de antanho e trabalhálas
significa melhorar o nosso Espírito hoje, para sermos melhores
amanhã. Passado, presente e futuro, bem como viver na carne ou
fora dela, não significam distanciamento entre as duas dimensões
da vida. Para o Espírito imortal tudo se encadeia na sua grande
viagem de ascensão para Deus, nosso objetivo final!
Rafael silenciou propositadamente, dando-me tempo para que eu
pudesse digerir as informações e aproveitei-me da pequena pausa
para considerar:
-Mas por que, então, Deus permite certas revelações? Os livros
sagrados e a literatura espírita têm sido pródigos nas citações dessa
natureza.
Rafael meditou por alguns instantes e, sem se deixar perturbar pelo
inusitado da pergunta, voltou a considerar:
-Entretanto, meu amigo, é necessário levarmos em conta o caráter
providencial de tais revelações. Não é o caso das expiações
dolorosas, quando as lembranças costumam supliciar as almas
comprometidas com o passado de erros.
O sofrimento que angustiava a minha alma fez com que o amigo
interrompesse mais uma vez a sua fala, dando-me a entender que
não deveríamos avançar nessas considerações. Em verdade, eu
ainda não estava preparado,1 sequer, para suportar, com equilíbrio,
as reminiscências do que até então parecia ser um simples sonho ou
produto da minha imaginação.
III
Mediunidade e Trabalho
Os esclarecimentos de Rafael foram suficientes, pelo menos por
algum tempo, para aquietar o meu Espírito, ávido de novas
revelações. Nesse ínterim, fui me aprofundando nos estudos
doutrinários, particularmente em O Livro dos Médiuns e nas obras
subsidiárias da Codificação, que disciplinam o relacionamento do
intercâmbio entre o mundo corpóreo e o mundo espiritual. Acabei
por desenvolver a clarividência e também o fenômeno de
desdobramento que, com o passar do tempo e com a proteção dos
Benfeitores Espirituais, possibilitariam, durante o sono, no processo
de emancipação da alma, minhas incursões no mundo espiritual
onde, mais tarde, finalmente encontraria a revelação daquele sonho
estranho, agora quase apagado da minha recordação. No princípio,
quando descia às regiões de sombras, em companhia do Instrutor
Espiritual, para serviço de aprendizado e socorro, aos irmãos
necessitados, sentia-me sufocado pela pressão da psicosfera
ambiente. As aberrações da vida, nessas furnas de sofrimento, são
indescritíveis à linguagem e compreensão humanas. Mas, a
disciplina imposta a mim mesmo fez com que, aos poucos,
aprendesse a controlar as emoções quando defrontado pelas cenas
grotescas do mais além, onde só com muito esforço de imaginação a
mente humana pode conceber.
Confesso que estava na tarefa mais por dever do que por devoção.
Mas, depois de estagiar por largo tempo naqueles sítios de dor,
aprendi a gostar do trabalho e sentia imensa falta das atividades,
quando motivos justos impediam-me de participar das tarefas
assistenciais junto aos irmãos desencarnados.
Mais tarde fui convidado a participar de uma excursão de
aprendizado numa cidade do além, localizada geograficamente nas
proximidades da atmosfera espiritual da Terra, muito acima do
nosso Núcleo de Trabalho da crosta terrestre.
Com a ajuda de Anselmo, instrutor espiritual que me acompanharia
na viagem, adestrei-me durante algum tempo, submetendo-me a
complicadas operações magnéticas para ampliar o potencial da
minha percepção. A providência objetivava preparar-me para tirar o
melhor proveito da excursão que me valeria como preciosa
oportunidade para o enriquecimento do meu Espírito.
Na véspera da nossa partida, Anselmo chamou-me para os acertos
finais da nossa viagem, marcada para o dia seguinte, logo após a
meia-noite, no início da madrugada.
-Amanhã -disse-me ele -reunir-nos-emos com outros grupos de
aprendizes para a viagem até Nova Esperança, cidade espiritual
localizada a algumas centenas de quilômetros acima deste Núcleo
de Trabalho. Encontrar-nos-emos num ponto comum, previamente
estabelecido com os demais Grupos, em preparativos para a nossa
excursão.
Faz-se necessário disponibilizar toda cautela e vigilância durante as
atividades do dia, pois qualquer perturbação mais grave poderá
desarmonizar a estrutura perispiritual do amigo e inviabilizar a sua
participação na viagem; a permanência, ainda que por pouco
tempo, naquelas paragens rarefeitas, acima das camadas mais i
densas da psicosfera terrestre, exige relativo equilíbrio que, lem
hipótese alguma poderá ser dispensado.
A advertência soou como um sinal de alerta e, ato contínuo,
lembrei-me do "orai e vigiai", recomendado por Jesus.
Encerrado o diálogo, após as despedidas, retornei e, ao despertar no
corpo físico, guardava ainda nítida lembrança das recomendações
do instrutor amigo.
Devo, agora, abrir um parênteses, pois, por certo, o leitor deve estar
estranhando as lembranças que tinha de minhas incursões ao
verdadeiro plano da vida. Porém, como nada ocorre por força do
acaso, hoje, como Espírito liberto das amarras do corpo físico, tenho
conhecimento do porquê desses acontecimentos. Na verdade,
tratava-se de um planejamento anterior ao meu retorno à carne,
planejamento esse realizado com muito sacrifício e treinamento.
Devo também esclarecer, que muitos Espíritos encarnados prestam-
se a esse tipo de intercâmbio e trabalho, porém, a grande maioria
não se recorda de nada, apesar de permanecer no íntimo de cada
um os benefícios que o trabalho no bem lhes proporciona, tanto no
tocante a créditos de sua alma, quanto no que diz respeito ao
conhecimento e entendimento fácil no âmbito de suas idéias.
O dia transcorreu sem incidentes dignos de nota no desempenho
das minhas atividades normais. À noite fui, como de costume, aos
trabalhos espirituais do nosso agrupamento e, ao voltar para casa,
recolhi-me mais cedo ao leito para repousar. Após a oração
habitual, adormeci e logo me desliguei do corpo, buscando a
companhia de Anselmo, que já me aguardava do lado de fora.
Saímos demandando o local do encontro.
Reunimo-nos com os que ali já se encontravam, aguardando,
expectante, a chegada dos demais. Passava pouco mais das vinte e
três horas quando o agrupamento se compôs.
Antes da partida, alguém se apresentou para as recomendações
finais, ao que Anselmo apressou-se em explicar:
-Trata-se do instrutor Aureolino, dedicado trabalhador de Nova
Esperança. Promove, com regularidade e dedicação, o trabalho de
intercâmbio com a nossa esfera de ação desde muitos anos,
adestrando servidores novos para a tarefa do bem. Ouçamo-lo com
atenção.
-Prezados companheiros e irmãos -falou com naturalidade. -A
paz do Senhor Jesus seja conosco hoje e sempre!
Estamos iniciando a formação de mais uma equipe de cooperadores
para atuar no trabalho de resgate de almas que ainda estagiam nas
zonas de sofrimento do astral inferior, objetivando a sua transição
para as regiões intermediárias de nosso plano de ação.
-Como sabem, naquelas paragens de dor, a densidade do
perispírito, determinada pela preponderância da matéria, da qual
muitos ainda não lograram se libertar, impede-os
e ascender às regiões mais elevadas. Daí a necessidade do nosso
trabalho de cooperação e socorro junto àqueles irmãos
atormentados, cujo benefício recebido reverterá também em nosso
favor, pois é da Lei que a caridade estendida em favor do próximo é
dádiva que se volta para nós.
A excursão de estudos e aprendizado, que iniciaremos hoje, será de
grande valia para todos nós, se soubermos tirar dela o proveito para
a qual foi programada. Cada estagiário, nas horas em que lá
permanecer, será avaliado pelo seu empenho e interesse de
aprendizado. Dividiremos os grupos em número de quatro,
composto cada um de três aprendizes e um coordenador. As tarefas
serão distribuídas de forma que, antes do retorno todos já deverão
ter passado alternadamente pelos diversos setores departamentais.
Após mais algumas informações, sem registro digno de nota, o
Supervisor concluiu suas observações:
-Iniciaremos agora os preparativos finais fazendo a nossa orgçãp.
Em seguida, reunimo-nos em circulo, de mãos dadas. intercalando-
se os grupos, com os respectivos coordenadores, a cada noventa
graus, de forma a fechar a circunferência com Aureolino ao centro.
O benfeitor postou-se reverente e, de olhos fixos no céu, saudado
pelas estrelas distantes que brilhavam incontáveis no firmamento,
falou em voz pausada e mansa:
Senhor Jesus! Dignai-vos aceitar a nossa prece de gratidão pela
honra e a glória de servir-Vos, apesar de nossas faltas que
procuramos esquecer pelo trabalho dignificante no bem.
Somos um punhado de almas, frágeis ainda para os grandes vôos,
mas que Vos suplicam inspiração e roteiro para o direcionamento
de nossas lides. Outrora empunhávamos a espada para destruir,
espalhando o terror e a morte, desmoronando lares honestos e
flagelando corações. Hoje, Senhor, depois de tantas lutas conosco
mesmos, emergimos do charco de nossas misérias morais para
ascendermos às glórias do Vosso sacrossanto amor.
Sabemos a distância que ainda nos separa do vero trabalhador.
Todavia, celeste amigo, graças à Vossa Misericórdia, somos hoje os
obreiros iniciantes na tarefa do bem.
A^spjida foi substituída pelas mãos operosas, o terror, pela prática
do bem e o flagelo cedeu lugar ao amor sem condição.
Nossas almas, recém-saídas do pântano de erros, esforçam-se agora
almejando sublimação.
Até lá, Divino Amigo, concedei-nos a oportunidade de trabalho na
Vossa vinha de luz, para que não estacionemos na acomodação de
nós mesmos, retardando ainda mais nosso anseio de ascensão.
Aureolino silenciou e percebi que do seu tórax irradiava suave
claridade, absorvida por todos nós sob o efeito de forte emoção.
Ao encerrar a oração, notei que nos movimentávamos em suave
deslocamento vertical, iniciando a viagem que durou
aproximadamente um quarto de hora.
IV
Nova Esperança
Prestes a chegar, Aureolino chamou-nos a atenção para a topografia
da cidade, que já despontava no horizonte, ao alcance de nossas
vistas.
Perfeitamente bem dispostas, as construções seguiam uma linha
harmônica de irrepreensível beleza. A planta simétrica da cidade
facilitava os meios de locomoção em torno do centro.
O sistema de iluminação pública indireta intrigava, aguçando
minha curiosidade.
Percebendo a estupefação que acabou tomando conta de todos nós,
Aureolino veio em socorro de nossas mudas indagações:
-Várias baterias, para utilizar-me de uma analogia terrestre, estão
instaladas e dispostas em pontos estratégicos da cidade; recebem e
acumulam durante o dia grande quantidade de energia solar e à
noite projetam-na na abóbada da cidade, disposta como um campo
de força que, ao refratá-la é convertida em luz, descendo em suave
claridade. Reparem a ausência de sombras.
De fato, notei que nem mesmo as árvores ofereciam obstáculos à
passagem da luz.
-Na verdade, continuou, a luz difusa conhecida na Terra pode nos
dar uma pálida idéia do sistema de iluminação de Nova Esperança.
E ante a nossa admiração, concluiu:
-Entenderão, mais tarde, muitas outras técnicas já desenvolvidas
por aqui, incompreensíveis agora por falta de analogia humana.
Nesse instante chegamos ao fim da viagem.
Sem perda de tempo, Aureolino ultimou providências junto ao
irmão Genésio para que nos deslocássemos até o Centro de
Treinamento, onde as equipes receberiam incumbências específicas.
Durante o trajeto, notei, surpreendido, que os Espíritos moradores
da cidade se movimentavam com desenvoltura, quase deslizando
sobre o solo, enquanto nós, à exceção dos Coordenadores,
encontrávamos certa dificuldade para a locomoção, face ao "peso
específico" do perispírito, ainda ligado ao corpo físico da matéria
densa.
Após quinze minutos de caminhada regular, chegamos ao Centro
de Treinamento, onde um grande número de aprendizes circulavam
atarefados, parecendo ignorar a nossa presença.
Em seguida, fomos apresentados a Luciano, o Coordenador geral do
Centro, que nos acolheu afável:
-Bem-vindos a este Núcleo de Estudos, abençoado reduto de
aprendizado cristão. Recebemos sempre com
muita alegria os cooperadores novos e decididos ao trabalho tio
Senhor.
Enquanto caminhávamos em direção ao local da Conferência,
Luciano aproveitava para fazer rápidas considerações, com
aproveitamento geral.
-Iniciaremos, a partir de agora, um adestramento; diferente, de
sorte a propiciar a cada um de vocês condições mais efetivas para
cooperar nas honas de sofrimento, onde pululam as almas aflitas e
embotadas pela dor.
Até aqui, vocês cooperaram apenas no remanejamento desses
irmãos infelizes e atormentados para os Centros de Refazimento,
onde aguardam, esperançosos, novas oportunidades de
renascimento no porvir.
Doravante, porém, dilatarão suas potencialidades psíquicas,
arimliando ainda mais seus poderes mentais de auscultação. Para
isso aprenderão a ouvir com paciência, a falar com proveito e a
controlar emoções.
Alcançamos agora o auditório principal, disposto em grande
círculo, onde os coordenadores de cada grupo iam se acomodando,
aguardando a chegada dos demais; em poucos minutos a
assembléia estava composta.
Ao centro ficaria o tribuno, rodeado pelos coordenadores e
interligados por um sofisticado cisterna eletrônico de compensação
vibratória, que chegava até nós.
Aureolino tomou um dos instrumentos, espécie de capitel,
colocados à nossa disposição, e explicou como funcionaria o
complicado mecanismo de comunicação, até então desconhecido
para nós.
-Trata-se de aparelho que, acoplado à cabeça, funciona à base de
impulsos mentais, sintonizados simultaneamente com Sinésio e
conosco, os coordenadores, de sorte que as emissões mentais do
instrutor poderão ser captadas diretamente por vocês ou por nosso
intermédio, quando necessário.
Ante a surpresa geral que acabou tomando conta de todos nós, o
amigo arrematou:
-A exemplo da usina, Sinésio, o instrutor espiritual desta noite
falará expandindo toda a sua vibração. Caso necessário, os
Coordenadores funcionarão como "transformadores vivos",
ajudando-os a ^ajustar o padrão vibratório na freqüência mental do
instrutor.
Mas, e se mesmo assim não alcançarmos o objetivo? -perguntei por
minha vez. -A conferência seria prejudicada pela nossa
interferência indevida?
Sempre benevolente, Aureolino veio em meu socorro, esclarecendo
sorridente:
-Antes de mais nada, é preciso não generalizar. Aqueles que não
conseguirem compreender na sua plenitude, absorverão, com o
auxílio da nossa intercessão, o que lhes for possível assimilar. Ainda
que muitos não atinjam os padrões ideais de sintonia, o trabalho, de
um modo geral, não será prejudicado por absoluta ascendência
espiritual do instrutor que nos falará. Fique tranqüilo, Sinésio já
conquistou a láurea de trabalhador do Cristo e sozinho poderá
manter o clima harmônico da reunião.
E logo em seguida anunciou:
-O trabalho vai começar. Fiquemos atentos, em regime_de oração.
Sem rodeios, Sinésio iniciou a sua fala, mas não sem antes evocar a
proteção de Jesus em favor de todos nós:
-Meus queridos e diletos filhos. A condição de devedores das Leis
Divinas não invalida o nosso anseio de ascensão pelo trabalho
dignificante no bem, moeda corrente de amor que a Misericórdia do
Pai sempre disponibiliza aos que se dispõem de boa vontade para
emergir do amolentamento miserável da acomodação.
A busca de conhecimentos novos faz-nos hoje estudar com mais
aplicação a Ciência do Amor, virtude que alavanca o Universo num
movimento incessante para o Criador.
Entretanto, o desenvolvimento intelectual, que deveria .propiciar a
escalada vertical do progresso moral, embotou-nos o sentimento,
debilitando nossos corações.
O homem moderno, que avançou surpreendentemente no campo da
ciência e da tecnologia moderna, exacerbado pelo orgulho e
cristalizado no egoísmo vão, acabou perdendo o endereço de Deus,
priorizando amealhar riqueza fácil em detrimento dos
compromissos de solidariedade fraterna que deveriam nortear os
corações das almas esclarecidas pelo compasso da Lei de Amor.
Sem importar-se com as conseqüências do livre-arhítrio mal
conduzido, na exploracão do próximo, o homem esqueceu-se de
que não poderá ser feliz enquanto houver lágrima e sofrimento
espreitando seus passos desarticulados do prumo do sumo bem.
Para isso há que repensar sobre as existências de tantos insucessos,
vividas na reflexão, pelo distanciamento de Deus.
Mais do que constatada, a felicidade real não se circunscreve ao
conforto material dos recursos amoedados.
Sob essa ótica defrontarão, para socorro urgente, com muitos
Espíritos que transpuseram o portal da morte, completamente
despreparados para enfrentar a nova realidade, carregando em seu
psiquismo, alto teor de energias tóxicas, descompensando-se na
inconformação e na revolta do novo estado em que se encontram,
gerando "distonias mentais de grave porte", por não mais lograrem
usufruir, no além, das mesmas prerrogativas e concessões
privilegiadas que a Terra sempre podia lhes oferecer em regime de
exceção.
Tresloucados pelas lembranças, das quais não conseguem se
subtrair, e aprisionados pelas aigernas mentais. Forjadas por eles
mesmos, esses irmãos infelizes desequilibram-se no primeiro
instante, após a morte, e muitos deles por içimosia e persistência em
fixar seus interesses nos valores materiais, inacessíveis agora à sua
realidade de Espíritos desencarnados, enlouquecem, exigindo a
pronta intervenção de quantos que, como nós, se dispõem a prestarlhes
socorro urgente e pronta colaboração. Portanto, faz-se mister
adequar suas necessidades materiais ao estritamente essencial, com
o máximo de desprendimento, educando-se para não comprometer
a tarefa que lhes cumpre desempenhar. E da Lei que só podemos
ofertar os valores à nossa disposição, cxaifluistados com esforço
próprio e dedicação.
Nesse instante, num gesto mental e espontâneo, inquiri, subrepticiamente
do instrutor, se não seria mais útil e proveitoso o
trabalho direto dos benfeitores espirituais junto às almas
atormentadas, objeto das suas considerações. Sem perder o fio da
inspiração, o benfeitor amigo deu seqüência lógica à sua fala,
arrematando ao final:
-É verdade que a auscultação mental dos Espíritos dementados
guarda relação de êxito mais eficaz quando feita pelos trabalhadores
desencarnados, face à liberdade de ação em que se encontram, livres
das injunções da matéria a que vocês estão ainda submetidos, pela
vinculação ao corpo denso de carne. Entretanto, vale lembrar que,
na maioria dos casos, a ligação desses Espíritos com a matéria densa
é tão forte, que a sua identificação se presta melhor com os
trabalhadores encarnados, o que favorece a justa posição fluídica
entre ambos, facilitando sobremaneira a introspecção do Espírito
depoente e contribuindo assim , com o socorro intercessório em seu
favor.
Para eles, que crêem na morte como sinônimo de destruição e
aniquilamento, a indestrutibilidade e sobrevivência do corpo
perispiritual, após o trespasse, fá-los se acreditarem ainda vivos,
incapazes de compreenderem a sua nova situação.
O mundo espiritual não é abstrato, vaporoso ou sem forma,
segundo a conceituação de muitos.
O corpo perispiritual com o qual vocês visitam nosso plano, é
constituído de substância fluídica semimaterial, invisível aos olhos
humanos, agindo aqui, mais ou menos, como o corpo físico se
manifesta na Terra. Nossas construções são edificadas com "matéria
fluídica", substância extraída do fluido cósmico universal, um dos
elementos gerais do Universo (1), fonte do princípio material que,
(1) O Livro dos Espíritos, 156a edição IDE, pergunta 27
pelos seus mais variados graus de transição até a ponderabilidade,
dão toda a aparência e impressão das habitações terrestres, estas,
sim, uma cópia imperfeita de tudo o que existe por aqui. É assim
que os çlois mundos seunteragem, com a prevalência do mundo
espiritual, por ser ele preexistente e que sobrevive a tudo (2). Daí o
nosso empenho em readaptar ao mundo espiritual esses irmãos
necessitados, que retornam em lastimáveis condições de desajuste.
Essa é a tarefa que lhes caberá desempenhar na delicada
intervenção psíquica dessas almas atormentadas, prisioneiras de si
mesmas, pela fixação exagerada nos interesses materiais dos quais
ainda não souberam se desvencilhar.
Os instrutores de Nova Esperança oferecer-lhes-ão todas as
orientações básicas e os requisitos necessários para a nova jornada
de trabalho que os aguarda.
Despeço-me de todos, augurando junto ao Mestre e Senhor Jesus
votos de sucesso e muita paz aos novos obreiros da Sua Seara de
Amor e Luz.
Encerrada a reunião, despedimo-nos rapidamente, retornando aos
nossos respectivos domicílios, prometendo aplicação e empenho na
tarefa-desafio à nossa disposição a partir de então. Despertei,
guardando relativa lembrança das palavras do instrutor, que ainda
ecoavam em meus ouvidos, como doce convocação ao trabalho do
Senhor.
(2.)O Livro dos Espíritos, 156a edição IDE, perguntas 84/87
V
Trabalho ativo em desdobramento
Durante os dias que se seguiram, ajustei-me o quanto pude no
prumo da vigilância. Passei a estudar com mais assiduidade e
aplicação as Obras Básicas da Codificação.
Debrucei-me sobre os clássicos da literatura espírita,
particularmente nas Obras de Denis, Delanne, Lombroso,
Flammarion e principalmente de William Crookes, dentre outros.
As leituras das obras contemporâneas de Yvonne do Amaral
Pereira, Emmanuel, André Luiz, Manoel Philomeno de Miranda e
outras, foram de relevante importância para a formação do meu
novo perfil de médium, em trabalho de desdobramento. Comecei,
então, durante o sono físico, com a ajuda do meu guia espiritual, as
incursões nas regiões de sombras do astral, iniciando o trabalho
programado para a minha própria regeneração. Foi assim que, certa
feita, socorri, com o amparo e a ajuda prestativa de Padre Francisco,
uma pobre criatura, que se debatia num quadro horrível de
sofrimento indescritível, como que procurando unir as partes do
corpo esfacelado, num desespero vão. Aproximei-me respeitoso do
infeliz irmão e tentei o diálogo na esperança de propiciar-lhe
socorro e alívio imediatos. Mas seu desequilíbrio era tamanho, que
ele parecia não registrar minhas palavras por melhor que fosse a
minha boa intenção. Percebendo-me o desapontamento, o instrutor
veio em meu socorro, esclarecendo com bondade.
-O Espírito à nossa disposição, vive, no presente, o passado do qual
ainda não se libertou. É um pobre e infeliz irmão que praticou
duplo delito; após cometer homicídio ignominioso, suicidou-se
covardemente, projetando-se de um viaduto sobre uma estrada
férrea, sendo violentamente colhido e retalhado pela composição
que por ali trafegava no instante fatídico da tresloucada decisão.
Neste momento, nosso socorro deverá limitar-se tão somente à
oração evitando avivar-lhe ainda mais a memória calcinada,
propiciando-lhe paz e tréguas temporárias ao seu coração.
Dizendo isso, conclamou-me a impor as mãos sobre a cabeça
daquela alma atormentada, ao tempo em que pronunciava sentida
prece em seu favor. Percebi que, em instantes, o ex-suicida reagia
positivamente, apresentando calma relativa e relaxamento
promissor.
Aproveitei, ao final da operação, para inquirir quanto às
providências complementares, que seriam adotadas a partir de
então.
-Não seria melhor -perguntei -removê-lo para tratamento em
lugar mais adequado, subtraindo-o do assédio das entidades
vampirizadoras que pululam neste reduto de dor?
-Nem sempre -esclareceu-me o nobre instrutor -a remoção
imediata do assistido é a melhor solução. Com a ajuda de Espíritos
amigos que intercederam em seu favor, nosso irmão, apesar de já ter
emergido das profundezas do vale da sombra e da morte, ainda
requer tratamento temporário no próprio local onde
presentemente se encontra. O assédio das entidades malfazejas faz
parte, por enquanto, do seu quadro de dor, provocado pela
consciência culpada do homicídio doloso, seguido da
autodestruição. Logo mais, depurado das camadas fluídicas mais
densas que ainda envolvem o seu perispírito, será providenciada a
sua transferência definitiva para 0 Posto de Socorro próximo, onde
receberá tratamento adequado e compatível com a sua necessidade
de reabilitação.
E concluindo, elucidou:
-Da próxima vez providenciaremos socorro mais efetivo,
auscultando também o seu psiquismo em desalinho, para
compreendermos melhor a extensão da sua dor.
De fato, ao cabo de alguns dias, notamos sensível melhora do
assistido, o que me levou a supor na possibilidade da sua franca
recuperação. O instrutor sugeriu então que eu me concentrasse mais
demoradamente na região do córtex cerebral, acrescentando:
-Vejamos como se encontra o nosso irmão, na intimidade da sua
vida consciencial.
À medida que me fixava na região indicada, fui mergulhando
paulatinamente no seu psiquismo em conturbação. Aos poucos,
assenhoreava-me das imagens' vivas que irradiavam da sua mente,
quando o Benfeitor, tocando-me de leve, sussurrou aos meus
ouvidos:
Estimule as suas reminiscências, perguntando mentalmente os
motivos da sua dor.
Experiência notável pela qual jamais havia passado antes, notei que
a minha pergunta mental desencadeou a movimentação das
imagens arquivadas noseu inconsciente, que vinham à tona,
favorecidas pela minha indução.
Aos poucos, as cenas foram se ampliando sob as minhas vistas
espirituais e, de repente, vi-me numa cidade grande, onde supus
vivera aquele pobre homem. Instado pelo benfeitor, fui além,
imprimindo mais força à minha vontade. Ordenei-lhe que recuasse
ainda mais, estimulando as suas reminiscências para que de tudo se
recordasse com detalhe. Ricardo, saído da adolescência, conheceu
jovem moça pela qual cedo se apaixonou. Aparentemente
correspondido, delineou projetos futuros de união esponsalicia.
Cleusa parecia reunir as condições ideais para cumprir o sagrado
dever de esposa e mãe. O casamento não tardou e tudo
prognosticava a construção de um lar feliz. O tempo corria célere
até que o marido começou a perceber, nas relações mais íntimas, o
distanciamento da sua mulher. A princípio, atribuiu o fato às
indisposições naturais da companheira, provocadas pelo cansaço
físico do seu trabalho fora do lar. O aumento considerável das
vendas de final de ano, no seguimento das confecções, exigia serões
continuados. Mas, com o passar do tempo, percebeu que sua
esposa, pretextando comemorações banais junto aos amigos de
trabalho, retornava cada vez mais tarde para
Io reduto do lar. Quando interrogada, esquivava-se do diálogo
esclarecedor, suscitando fortes suspeitas sobre sua conduta moral
que, no fundo, ele não desejava acreditar.
Irritado com a mudança comportamental da esposa, Ricardo, certa
noite, ingeriu, além do habitual, grandes quantidades dcalcoólicos e
aguardou a companheira com pensamentos envenenados,
francamente assistido por entidades obsessoras, vinculadas a ambos
pelos laços do passado.
A ação dos inimigos desencarnados, aproveitando-se do clima
ambiente, fez instalar ríspido diálogo, pondo a perder o respeito
mútuo do casal:
-Espero que desta vez arranjes melhor desculpa para justificar o seu
atraso; não me consta que privaste o convívio dos amigos até esta
hora da noite -alfinetou o marido despeitado.
Cleusa abaixou a cabeça sem nada responder, o que fez aumentar
ainda mais a sua indignação. Assediado pelos obsessores cruéis,
Ricardo tomou-a pelos braços e, num gesto violento, atirou-a de
encontro à parede. Sem esboçar reação, Cleusa recompôs-se, para
defender-se à distância,. escudada pela mesa grande da sala de
jantar e vociferou, insuflada pnrnm dos obsessores que alimentava
a contenda:
-Maldito sejas, homem infeliz, dominado pela dependência da
bebida, que me provoca repugnância. Tem procedência, sim, a tua
desconfiança a meu respeito quanto à ligação afetiva com outro
homem. Então queria que eu te suportasse diariamente, encharcado
de bebida a exalar o odor fétido e repugnante do álcool? Ao te
aproximares de mim, sentia asco e indiferença, que não podia
disfarçar. Daí o meu distanciamento gradativo de ti, por não
conseguir mais suportar-te.
-Cortejada por outro homem, que despertou em mim interesse
singular, não resisti. Cedi aos seus encantos e desde algum tempo
estou ligada a ele, do qual não desejo, mais me apartar.
Antes que ela continuasse, o homem, enrubescido de cólera,
vociferou estentórico:
-Mulher adúltera e desditosa! Pagarás com a própria vida a atitude
leviana e criminosa.
E enceguecido pelo ódio, que não conseguia sopitar, avançou
contra a esposa com o castiçal subtraído da mesa, golpeando a
indefesa mulher, várias vezes, na altura da cabeça, abrindo enorme
fratura no crânio, provocando morte instantânea, que ali mesmo ele
pôde constatar. Apavorado, procurou em desespero ganhar a via
pública, seguido de perto pelos algozes desencarnados que, na sua
sede de vingança, desejavam consumar a tragédia, induzindo o
desditoso homicida agora a dar fim à própria vida.
Nesse ponto, interrompi as minhas observações e desconcentrei-me,
aguardando ansioso a orientação do nobre benfeitor. Não sabia
como socorrer aquela alma infeliz, já de si mesma tão padecente,
pelos anos de sofrimento dos quais não conseguia se libertar. O
querido amigo esperou que eu me recompusesse da demorada
incursão nos labirintos daquela alma sofrida, para logo mais
asseverar:
-Destarte, por impositivo da própria consciência, as cenas trágicas
vêm-se repetindo, sem tréguas, durante todos esses anos, fixando-se
mais demoradamente no último ato que culminou também no
rompimento da sua existência. Por hoje, basta! Você já se
assenhoreou do drama íntimo vivido pelos protagonistas sob nossa
observação. O socorro vira para ambos no momento oportuno. Na
maioria das vezes, o auxílio eficiente demanda conhecimento de
causa.
Se o marido errou, sacrificando a própria companheira e matando-
se em seguida, ela também se equivocou no descumprimento dos
sagrados deveres do lar. Todavia, não estamos aqui para julgá-los,
mas sim para prestar-lhes socorro e colaboração efetiva, a fim de
que se redimam no palco da vida, em preparativos para futura
reaproximação.
Ainda sob o efeito de forte emoção, despertei no corpo físico e
aguardei pressuroso a continuidade dos trabalhos sob a tutela do
querido Benfeitor.
Na semana seguinte, novamente amparado pelo clima da nossa
reunião, retornei ao lar, orei e recolhi-me ao leito para o trabalho de
desdobramento. Meu instrutor já me aguardava e, tomando-me
pelas mãos, seguimos adiante, sem perda de tempo, enquanto me
orientava a respeito da tarefa de logo mais.
-Buscaremos hoje o contato com Cleusa que, segundo fui
informado, encontra-se recolhida em local relativamente próximo
ao sítio onde se debate seu desditoso companheiro.
Ao nos aproximarmos, notei que a paisagem em torno do Abrigo
parecia mais amena e acolhedora. As sombras eram menos densas e
já não se ouviam os lamentos que partiam do vale tenebroso, onde
se agrupavam as almas proscritas, marcadas pelo ferrete da dor.
Mesmo assim, a vegetação mirrada e a parca claridade denotavam
tristeza à nossa volta, pois a atmosfera, ainda pesada, sufocava pela
ausência de ar fresco. Ao nos aproximarmos do Abrigo, fomos
agradavelmente surpreendidos pelo chefe dos vigilantes que nos
dirigiu a palavra em tom acolhedor:
-Bondosos emissários! Irmã Erotildes já vos aguarda no salão
principal. Entremos sem demora.
Internamente, a atmosfera ambiente diferia surpreendentemente da
paisagem exterior. A iluminação feérica das dependências
deslumbrava pelo contraste com o mundo lá de fora, envolvido
constantemente em sombras. Depois de percorrermos os corredores
que ligavam os pavilhões dos assistidos, chegamos finalmente na
Ala Central, onde já nos aguardava, sorridente, a abnegada irmã.
-Bem-vindos, em nome de Jesus, à nossa singela oficina de trabalho.
Pelo que noto, Padre Francisco traz companhia nova para o
aprendizado. Aliás -continuou humilde -todos nós estamos sempre
aprendendo no trabalho do Senhor.
E dirigindo-se especialmente a mim, concluiu afável:
-Esteja à vontade em nossa Casa que, a partir de agora, também lhe
pertence, pois os tutelados de Padre Francisco são igualmente
nossos amigos.
Descontraí-me e aproveitei para agradecer:
-Estou muito sensibilizado pela acolhida fraterna e espero também
poder corresponder à expectativa de trabalho.
Após alguns minutos de diálogo informal, irmã Erotildes mudou o
rumo da conversação, perguntando, interessada:
propósito, como está passando o nosso pobre Ricardo? Cleusa, por
sua vez, vem apresentando melhoras consideráveis. Conseguiu
dominar a revolta e já não mais alimenta ódio no coração. Admite a
sua parcela de culpa na tragédia que lhe roubou a vida e trabalha
agora com a possibilidade do perdão.
-Nosso assistido -respondeu meu instrutor -vem recebendo ajuda
diária dos trabalhadores de nosso plano e semanalmente contamos
também com a preciosa cooperação dos amigos encarnados que
participam ativamente do programa de sua recuperação.
Gostaríamos, agora, com a sua permissão, de visitar Cleusa,
levando-lhe notícias de Ricardo. Elas poderão contribuir
sobremaneira para o trabalho de reaproximação que desejamos
iniciar, pois acreditamos que dentro de poucos dias Ricardo estará
em condições de remanejamento para este abrigo de recuperação.
Erotildes anuiu e, sorrindo, deixou-nos inteiramente à vontade para
os primeiros contatos com a ex-esposa de Ricardo.
VI
Nosso primeiro contato com Cleusa
Embora sabendo da nossa procedência, quanto à vinculação àquele
Posto de Socorro, dirigido pela nobre benfeitora, a esposa de
Ricardo recebeu-nos com certa estranheza e ceticismo, perguntando
secamente:
-O que desejam de mim?
-Apenas ajudá-la, minha filha -respondeu nosso benfeitor, em tom
paternal -Fomos informados por irmã Erotildes sobre a sua
disposição em reaproximar-se de Ricardo, e por isso, desde algum
tempo, estamos trabalhando com a possibilidade de recolhê-lo junto
a este Abrigo de socorro. Todavia, para alcançarmos nosso objetivo,
não prescindimos também da sua ajuda para beneficiar o nosso
irmão.
Sensibilizada pelas palavras de carinho do querido benfeitor e
provavelmente recordando-se do drama doloroso, cuja ferida
moral ainda não cicatrizara totalmente, ela desarmou-se e, abrindo
o seu coração, prorrompeu em choro convulsivo, deixando
extravasar toda a mágoa represada na sua alma dorida.
Como podem verificar -falou, em seguida, com a voz entrecortada
de soluços -se o meu estado não é bom, o de Ricardo deve ser ainda
pior.
Imaginem o que significa sofrer anos a fio o constrangimento e a
humilhação de conviver com o esposo ébrio, sem receber qualquer
carinho ou atenção. A princípio, procurei refúgio no trabalho, fora
de casa, como forma de atenuar minhas agruras, pois as suas
agressividades, provocadas pelos efeitos degradantes do alcool, não
me davam tréguas. Minhas resistências morais foram se
enfraquecendo, carcomidas pelo assédio dos nossos inimigos
desencarnados, que somente depois pude perceber, rjesafprnq
esses do passado, que não vale a pena agora recordar. Assim, cedo
esqueci das recomendações luminosas do Evangelho de Jesus,
caindo na armadilha da minha própria irt vigilância, descurando
da oração que deveria forrar-me dos perigos a que estão sujeitas as
almas comprometidas, em trânsito pela Terra.
Aquela senhora inspirava-me piedade pelo depoimento sincero que
brotava espontâneo do seu coração.
É bem verdade -continuou -que não pretendo apresentar
justificativas para atenuar a minha falta. Hoje compreendo melhor
as fragilidades de Ricardo, a quem deveria ajudar, não traindo a sua
confiança enquanto durasse nossa união.
A esta altura do depoimento, Padre Francisco interveio bondoso:
-A, compreensão rio problema, embora tardia, é atenuante em seu
favor. O seu matrimônio com Ricardo era um compromisso-resgate
do passado, com todas as possibilidades de êxito. Ninguém, minha
cara, renasce sob signo do fracasso; a existência finda era um
programa de uma vida feliz, pela possibilidade de vitória, ante a
ligação provacional de ambos, conforme estabelecido pelos
Benfeitores, que avalizaram-na, consoante suas necessidades de
ascensão espiritual.
Decerto Ricardo fraquejou primeiro, impondo-lhe
flagelaçõg^jiiacais, que você deveria suportar com dignidade até o
limite da tolerância, quando então proporia separação amigável,
que poderia evitar a consumação da tragédia. Entretanto, você
preferiu o caminho aparentemente mais fácil, por acreditar na
felicidade enganosa da satisfação dos sentidos, descurando-se dos
sagrados compromissos de fidelidade ao companheiro, já de si
mesmo tão desventurado.
Por essa razão, conforta-nos saber quanto à sua disposição de ajudálo,
oferecendo-lhe agora a concessão dadivosa do perdão. Em
verdade, ambos erraram, mas Ricardo, além do homicídio
ignominioso que roubou a sua vida, evadiu-se covardemente da
existência terrena, sem coragem para enfrentar os tribunais terrenos
que lhe imporiam os necessários corretivos à sua conduta nefanda.
Cleusa aproveitou-se da pequena pausa para perguntar:
Bondoso padre, que posso fazer agora em benefício do excompanheiro?
Espere até que possamos trazê-lo para este Abrigo, o que
provavelmente acontecerá já na próxima semana; enquanto isso,
aguarde confiante nosso novo contato, que ocorrerá oportunamente.
O diálogo foi encerrado; Cleusa demonstrava agora, no semblante
sorridente, mais confiança nas possibilidades ae ajuda do nobre
benfeitor.
VII
O resgate de Ricardo
No dia aprazado, retornamos ao local onde se encontrava nosso
infeliz irmão que, por apresentar melhora relativa, não foi difícil
resgatá-lo dali, em demanda ao Abrigo, a fim de receber os
primeiros socorros longe daquele sítio de dor. Ao chegarmos na
Instituição, fomos recebidos por irmã Erotildes que, notando o
estado convalescente do assistido, perguntou-lhe:
-Como está passando o prezado amigo?
-Acredito que um pouco melhor -respondeu, agradecido pela
inflexão de carinho da notável benfeitora. -As crises vêm se
espaçando, graças a Deus. Nesses momentos de tréguas
temporárias, tenho pensado muito, na minha ex-companheira a
quem devo reparações.
Nesse instante da sua narrativa, talvez premido pelas recordações
dolorosas que não conseguia demover da sua memória, Ricardo
empalideceu, entrando em crise, sendo necessária a sua imediata
transferência para a enfermaria, do hospital. Aproveitando-se do
momento, irmã Erotildes considerou:
-É sempre assim. Os que chegam até aqui nessas circunstâncias, via
de regra, sofrem ataques violentos, provocados pelo despertar mais
vivo da consciência, que fá-los xomitar as energias envenenadas,
acumuladas nos arcanos da própria alma, afloradas pelas
reminiscências comprometedoras das quais ainda não se liberaram.
Interrompendo suas explicações, fez um ligeiro aceno convidando-
nos para acompanhá-la à enfermaria, para onde fora transferido
nosso desventurado irmão. De olhos esbugalhados, estampando na
máscara facial todo o.horror. que inundava sua alma confrangida,
Ricardo gritava estentórico:
-Acudam-me, acudam-me, estou caindo, caindo, o trem, socorro,
por amor a Deus!
Logo mais o silêncio, precedido de nova crise, que se repetiu até à
completa exaustão, quando então, empapado pela sudorese, o pobre
companheiro desfaleceu.
Iniciou-se, a partir daí, pelos dias que se seguiram, socorros
continuados, favorecidos pelos recursos da fluidoterapia, que
acompanhamos com desvelado interesse e carinho fraternal. A
rotina dos trabalhos continuava sem novidades, até que certo dia,
após a aplicação dos recursos magnéticos, e concluída, com êxito, a,
sessão de tratamento. Ricardo, um pouco mais sereno, pôde
conversar conosco animadamente e, dirigindo-nos a palavra,
considerou:
-Há tempos desejava agradecer aos benfeitores que me auxiliaram
no resgate das zonas purgatoriais. Já tive a oportunidade de falar
com Irmã Erotildes a respeito do assunto e agora desejo penhorar
também os meus agradecimentos a vocês, que vêm intercedendo há
tanto tempo em meu favor. Já que se dispõem a me ajudar, talvez
pudesse contar com a benevolência dos amigos, para a
possibilidade de rever Cleusa. Pelas circunstâncias que nos levaram
à tragédia, acredito que ela esteja em situação bem melhor que a
minha, razão pela qual ouso acreditar na dádiva do seu perdão, e
quem sabe, um dia...
O benfeitor, que até então ouvia calado, resolveu interromper o
raciocínio daquela alma aflita, falando com benevolência:
-Sim, meu filho, quem sabe um dia poderá aspirar também uma
reaproximacão! Entretanto, até lá reserve os seus agradecimentos a
Jesus, Tutor Maior de nossas almas na grande jornada luminosa de
ascensão para Deus, pois que a misericórdia do Pai é pródiga em
benefícios a nosso favor. Cleusa estagia desde algum tempo nesta
Colônia, num anexo próximo a este Abrigo e já fala na possibilidade
de ajudá-lo quando surgir ocasião.
Conforme o benfeitor falava, a expressão facial de Ricardo ia se
descontraindo e os seus olhos passaram a registrar um brilho de
ventura diferente pela expectativa de novas esperanças no porvir.
As conversações se prolongaram por mais algum tempo,
culminando com as instruções para que Ricardo se preparasse, a fim
de receber a visita da companheira, marcada para os próximos dias.
***
Naquela noite, as estrelas pareciam brilhar de forma diferente, com
maior esplendor. Dir-se-ia que daquelas moradas distantes os anjos
enviavam saudações em forma de doce claridade, renovando a fé e
iluminando o roteiro""' "^"das almas esperançosas no porvir.
Ricardo apresentava-se mais calmo e equilibrado, o que motivou
Padre Francisco a convidá-lo a orar conosco ao ar livre, em contato
direto com a natureza.
-A prce (1), elucidou o benfeitor, feita çojnjeryor e sem a extensão
das palavras vazias, é a forma mais eficaz de nossa aproximação
com Deus. Acostumados a pedir, raramente agradecemos e quase
nunca lou^ajnos a Grandeza do Criador. As belezas prodigalizadas
pela Mãe Natureza passam quase despercebidas pela maioria dos
homens, insensíveis ainda para registrar a exuberância
incomensurável das Obras do Criador. Somos seus filhos diletos e
bem-amados, tendo o I Iniverso por herança, à nossa disposição.
A essa altura, e enquanto caminhávamos, ouvindo com acentuado
interesse as elucidações do bondoso amigo e instrutor, atingimos o
átrio frontal ao edifício, onde até há pouco Ricardo jazia internado
para tratamento e recuperação.
(1)0 Livro dos Espíritos, 156a. edição, IDE, perguntas 658 e seguintes.
Ali mesmo, tendo por altar a natureza, iluminado pelo brilho
fulgurante das estrelas, Padre Francisco, num gesto convencional
que me comoveu, talvez desejando homenagear também a Igreja a
quem servira, ajoelhou-se respeitoso na relva verdejante e iniciou
aoracão:
-Deus, Pai de Amor e Bondade, assiste-nos nesse instante, como já o
fazes desde os primórdios da criação, para que mais uma vez não
sejamos traídos pelas fragilidades de nossas convicções, muitas
vezes enganosas! Bem sabemos, o quanto ainda nos falta para nos
arvorarmos à condição de Espíritos eleitos, que um dia, entretanto,
lograremos alcançar pela graça do teu incomensurável amor.
Até lá, Senhor da Vida, digna-Te receber nosso louvor de
penhorada gratidão por tudo o que nos deste, pela beleza
exuberante que nos cerca em todos os quadrantes do teu Reino de
Infinito Amor.
Rogamos-Te nesta noite, Pai amado, em favor de Ricardo e Cleusa,
nossos companheiros e irmãos de jornada redentora, necessitados
tanto quanto nós, do Teu desvelado amor. Permite possam, logo
mais, reiniciarem as experiências interrompidas, assim que se
adestrarem para as lutas redentoras no palco da vida, para a
ascensão e a glória de suas almas sofridas. Abençoa-os, ó Pai da
Vida, a fim de que jamais lhes faltem a coragem e o bom ânimo, a fé
e sobretudo a esperança, para a execução prática do seu projeto
redentor. Fortalece-os na convicção de suas possibilidades
realizadoras sem, entretanto, descurarem da acacão e da vigilância,
para que não percam mais esta jornada de promissora esperança.
Agradecidos pela hora presente de comunhão Contigo, Sê Louvado,
Senhor da Vida, Sê Louvado para sempre!
Vários dias se passaram e, sempre que me era permitido,
acompanhava o querido Benfeitor, visitando e colaborando na
recuperação do nosso assistido, que reagia positivamente ao
tratamento dispensado. Visitávamos Cleusa esporadicamente, pois
ela não necessitava tanto de nossos cuidados, quanto Ricardo.
Numa dessas ocasiões, ficou estabelecida a forma do encontro,
quando seriam colocados frente a frente os protagonistas daquele
doloroso drama do passado.
-Precisamos prepará-los convenientemente, fortalecendo suas
disposições íntimas, particularmente! Ricardo, uma vez que o amigo
ainda se encontra] espiritualmente bastante fragilizado. Quanto a
você, minha cara -disse Padre Francisco a Cleusa -abstenha-se
tanto quanto possível de recordações acusatórias.
Cabe ao mais forte, por dever, amparar e socorrer o mais frágil. Em
princípio, a sua presença causará enorme mal-estar ao companheiro
que, automaticamente, pelo impositivo da consciência culpada, se
recordará, mais vivamente, dos acontecimentos infelizes do
passado. Será nessa hora que precisaremos contar com a sua valiosa
colaboração, atenuando-lhe as dores morais e concedendo-lhe, se
possível, de viva voz, a dádiva do perdão.
Temerosa e talvez se acreditando impotente para tal mister, Cleusa
retrucou com a voz pausada e trêmula:
-Mas padre...
-Já sei, já sei -interrompeu bondoso -dirá que não tem forças
suficientes para suportar o reencontro senão na condição de vítima
do infeliz companheiro, todavia, o nerdão, para ser sincero, precisa
escudar-se na renuncia, sem a qual é letra morta no Dicionário do
Amor. Tranqüilize-se, minha filha, estaremos com você no
momento oportuno, insuflando-lhe pensamentos de coragem e bom
ânimo. Além do mais, você já possui relativo equilíbrio e, com a
confiança em Jesus, superará o primeiro testemunho, que lhe
propiciará futuramente a conquista definitiva da^verdadeira
libertação.
Vencida pelas ponderações amorosas do bondoso padre, Cleusa
aquietou-se e, mais confiante, aguardou, pressurosa, novas e
oportunas instruções.
***
Na véspera do cometimento, conversamos longamente com
Ricardo, preparando-o também para o reencontro programado.
Demonstrava apreensão, talvez pela expectativa de conseqüências
que, pudessem frustrar ou comprometer suas esperanças de
reaproximação com a ex-companheira. Percebendo isso, Padre
Francisco ponderou com bondade:
-Acalme-se, não há motivos para preocupação, afinal, Cleusa
alimenta, desde algum tempo, o desejo de reencontrá-lo. E bem
verdade que as circunstâncias que motivaram a separação foram
traumáticas e dolorosas sendo, portanto, natural de sua parte, o
constrangimento que a presença da ex-companheira poderá lhe
causar. Entretanto, vale o esforço para superar essa importante fase
da nova vida, que se lhe descortina promissora, sem ceder ao
desânimo ou entregar-se ao remorso destruidor.
Ante aquelas ponderações de encorajamento, Ricardo acalmou-se e,
mais esperançoso, falou emocionado:
-Agradeço, mais uma vez, aos amigos que nos assistem com
desvelado interesse paternal. Jesus saberá recompensá-los pela
demonstração de carinho e apreço em nosso favor. De minha parte,
ser-lhes-ei eternamente grato e tudo farei para merecer a confiança
dos que avalizam a minha reabilitação espiritual.
-Reserve os seus agradecimentos a Deus_7 considerou padre
Francisco -Com a permissão de Jesus, retornaremos amanhã, em
companhia de Cleusa; até lá, permaneçamos na Sua paz e que Ele
continue nos abençoando hoje e sempre.
VIII
Finalmente o reencontro
Na noite do dia seguinte, Cleusa aportou ao Abrigo, acompanhada
de uma enfermeira, que retornou logo em seguida à Unidade de
Atendimento após deixá-la sob nossos cuidados, levando algumas
instruções de Padre Francisco, que à distância não pude
compreender.
Assim, demandamos o gabinete da Irmã Erotildes, para
alinhavarmos as providências finais do reencontro.
Recebidos afavelmente pela dedicada irmã, fomos, em sua
companhia, encaminhados a uma sala de forma ovalada, onde
alguns cooperadores já se dispunham, justapostos e intercalados à
sua volta, com uma espécie de maca ao meio, onde Ricardo se
encontrava deitado confortavelmente.
-Nosso amigo -explicou a dedicada servidora -receberá, por breves
instantes, a imantação de energias combinadas com os fluidos
magnéticos e espirituais fornecidos pelos trabalhadores em questão.
Curiosamente notei a participação de cooperadores encarnados que,
em desdobramento, tal como eu, trabalhariam também no serviço
ativo em favor do nosso irmão.
Observei que, bem acima, no teto, um espelho convexo emitia suave
claridade sobre todo o corpo de Ricardo, particularmente na altura
da sua cabeça, Desejando dar maior clareza às suas elucidações,
irmã Erotildes completou:
-As energias combinadas, dos dois planos de ação, jorrarão, como
se fora um "chuveiro de luz", em especial, sobre o centro coronário
do nosso irmão, espraiando-se em seguida na direção dos demais
centros de forças do seu corpo astral, objetivando harmonizar
fluidificamente o perispírito, traumatizado pelo retalhamento que a
ação deliberada do suicídio provocou; esse tratamento se
prolongará até que, juntamente com o seu esforço e o desejo de
quitar-se com o débito contraído, possa ser submetido a qma nova
reencarnação.
Durante o trajeto que nos distanciava do local do encontro, Padre
Francisco aproveitou para elucidar-me um pouco mais,
demonstrando humildade ao incluir também, na sua abordagem, a
minha modesta cooperação no contexto do trabalho de logo mais.
-Precisamos colaborar com nossos irmãos no momento do diálogo,
dando-lhes a sustentação fluídica. necessária, uma vez que as
conversações, ao nível esperado, face ao drama vivenciado pelos
protagonistas, poderão provocar relativo desgaste psicológico em
prejuízo principalmente de Ricardo, por guardar maior parcela de
culpa na tragédia que os acometeu.
Finalmente chegamos no recinto onde Cleusa já nos aguardava,
demonstrando calma aparente.
Ao defrontar-se com a ex-mulher, Ricardo empalideceu, ao passo
que Cleusa evidenciava maior controle emocional, estando quase
serena.
No entanto, sentindo a tranqüilidade relativa da companheira, ele
recompôs-se e, encorajado, falou primeiro:
-Perdoe-me, querida Cleusa. A loucura de que fui acometido
respaldou-se no ciúme doentio e no ojgulho ferido, exacerbados
pelos efeitos degradantes do.ilcool. dando ensejo a que nossos
inimigos do passado aj^iassem sohre nós, particularmente sobre
mim, que pela invigilância cultivada, possibilitei a ligação
indesejável da tomada mental com os obsessores cruéis. Em
verdade, eu não lhe dei a atenção devida, enveredando pelo
caminho da dependência etílica, esquecendo-me do compromisso
sagrado do lar.
-Não fale mais nesse assunto -aparteou a esposa, desejando
romper o ciclo doloroso das recordações -Afinal, já faz tanto tempo
e não vale a pena fixarmo-nos nas lembranças infelizes do passado
inditoso. Também eu falhei quando, apesar de tudo, devia manter
minha dignidade de mulher e o respeito ao lar. Falemos agora do
nosso projeto futuro que reacenderá a chama da esperança para os
nossos corações.
Nesse instante da alocução, talvez tocado pela compaixão da
companheira e, ao mesmo tempo, estimulado pela lembrança do
crime, que a sua consciência ainda mantinha viva na memória,
Ricardo estremeceu; a partir-daí não foi mais possível manter o
nível da conversação -Ele parecia completamente alienado,
desequilibrando-se em seguida, sendo necessária a intervenção
direta do querido mentor Para que a crise não se agravasse
-Retiremo-lo. Apesar de tudo, o reencontro foi proveitoso; dessa
primeira vez a crise já era esperada, mas, doravante, as
reminiscências dolorosas provocadas quando em presença da excompanheira
diminuirão sensivelmente em face do seu perdão.
Ricardo, com o olhar esgazeado e distante; aparentando total
alienação, foi reconduzido à Unidade pela dedicada enfermeira, não
sem antes prestar contas das instruções anteriormente recebidas do
amorável benfeitor que, somente agora, pude compreender.
-Todas as providências, conforme determinou, já foram tomadas.
A Câmara fluídica já se encontra devidamente ativada, de
conformidade com as necessidades espirituais do nosso irmão.
-As providências a que ela se refere -apressou-se em elucidar-me
o querido Benfeitor -estão na combinação dos fluidos magnéticos e
.espirituais fornecidos pelos trabalhadores dos dois planos de ação
que colaboram conosco na tarefa socorrista em favor de Ricardo,
que carece da absorção dessas energias combinadas para a sua
recuperação. Cleusa, por sua vez, mantém-se mais equilibrada,
dispensando de nossa parte cuidados especiais. A nossa tarefa, por
ora, está concluída porque, após esse primeiro contato, nossos
irmãos ficarão a cargo dos trabalhadores deste Abrigo, que darão
continuidade ao í tratamento dos nossos tutelados até à
proximidade do seu retorno às lides terrestres quando, então,
entraremos novamente em ação no preparo do renascimentoresgate,
decisivo para a felicidade futura de ambos, na busca da
almejada redenção.
As minhas atividades em serviço de desdobramento continuavam
sem solução de continuidade, ao mesmo tempo em que se
ampliavam as experiências em favor da minha ascensão espiritual
pelo trabalho prático no campo do bem. Talvez por isso, passei a
conviver melhor com as recordações do passado, na esperança de
um dia, quem sabe, poder desvendar os mistérios daquelesonho
enigmático.
IX
Renascimento -resgate
Algum tempo se passou antes dos preparativos finais para o retorno
dos nossos companheiros à nova experiência terrestre, quando
retomamos novamente contato com o processo que entrava agora
na fase mais crítica da operação. Renasceriam no mesmo lar, dando
seqüência à reconciliação pactuada, com o aval de queridos
Benfeitores da Vida Maior, sob a coordenação do venerável padre,
com quem tinha a honra e o privilégio de, humildemente, poder
servir.
Viriam à luz como gêmeos xifópagos. ligados na altura do tórax,
sendo que o êxito do desligamento necessário seria relativo, porque
Ricardo deveria ceder a sua vida para a sohrevivência da irmã.
-Este é o impositivo da Lei -comentou nosso instrutor. -Ricardo
precisa liberar parcialmente a sua consciência culpada oferecendo-
se em holocausto à ex-esposa, agora sua irmã que, por sua vez, o
aguardará para recebê-lo mais tarde na condição de mãe, como filho
querido do seu coração.
Comovido com as elucidações que me proporcionavam uma nova
visão de entendimento e compreensão maior dos mecanismos da
Lei de Deus, reverenciei a grandeza da Justiça Divina que, no caso
em tela, ensejava aos protagonistas do passado a oportunidade do
recomeçar ajustada agora no verdadeiro amor que precisavam
aprender na vida prática, pela oportunidade sublime da
reencarnação. Durante os meses que se seguiram, trabalhamos
arduamente nos cuidados específicos da delicada operação.
Participava como simples coadjuvante, mas determinado a
colaborar com as possibilidades ao meu alcance. Esforçava-me para
não decepcionar meu instrutor, que se desdobrava à frente do
trabalho dignificante. Depois de algum tempo de preparativos do
caso, o benfeitor finalmente anunciou:
-Hoje, providenciaremos a ligação ambos a partir do momento da
concepção com o surgimento da célula ovo paia o desenvolvimento
do embrião. É o momento mais crítico dessa fase aguda de
preparação, pois qualquer recuo de última hora de um dos
reencarnantes provocará a perda irreversível de todo o trabalho
desenvolvido até aqui. Vale ainda lembrar -continuou -que já
estamos há vários meses em preparativos para a adequação
fluidica e psíquica entre pais e filhos, objetivando o êxito dessa
reencarnação-resgate.
-E de onde provém o vínculo dos pais, dispostos a acolher criaturas
tão comprometidas? Considero a paternidade, nessas
circunstâncias, altamente sacrificial.
Ante a minha indagação, o bondoso padre atalhou:
-Sem dúvida, a dupla que os receberá tem na mãe um Espírito
Missionário, comprometido no soerguimento do companheiro, que
não guarda as mesmas condições espirituais, por estagiar nas zonas
mais baixas do pensamento, distante ainda das grandes realizações
insufladas pelo ideal cristão. Senhor de grandes posses, Carlindo
precisa amolecer seu coração no cadinho do sofrimento, para
aprender a exercer a caridade em favor dos desvalidos, tal qual a
própria esposa, que aceitou a maternidade-sacrifício. dando o
exemplo de renúncia, e acendrado amor cristão. Assim, colabora
com as Leis de Deus oferecendo-se para a redenção desses Espíritos
comprometidos que, nessas circunstâncias, dificilmente
encontrariam amparo dessa natureza em outro coração.
-Mas como conciliar...
-Já sei, já sei -interrompeu-me delicadamente. -Refere-se você à
inexistência de laços afetivos ou mesmo de provação, tão comuns
nos processos ordinários de reencarnação.
Todavia, as almas que se dispõem a cooperar com Deus nas
condições de Matilde são raríssimas. Somente os Espíritos nobres,
que já atingiram certo grau de elevação, podem receber com êxito a
Divina concessão; mais tarde, os homens poderão compreender
melhor o valor da renúncia cristã.
Calei-me resignado sem, contudo, alcançar, naquele instante, a
extensão de suas judiciosas observações.
Depois do tempo previsto para uma gestação difícil,^ com a
assistência quase diária dos Espíritos especializados nessa técnica
de reencarnação, vieram à luz duas crianças gêmeas xifópagas,
ligadas na altura do tórax, causando
natural constrangimento aos familiares, particularmente no pai, que
considerava tudo aquilo uma conspiração da-natureza em seu
desfavor.
Carlindo caminhava de um lado para outro, desassossegado, sem
saber o que fazer; desesperado, aconselhou-se com o médico, que
recomendou jcjrurgia urgente.
O menino inspirava cuidados especiais face às peculiaridades da
simbiose indesejada, pois dificilmente sobreviveria. Enquanto isso,
Matilde procurava acalmar o companheiro apavorado, mais pelo
doloroso acontecimento, segundo sua ótica materialista, do que
propriamente pelo risco da delicada intervenção.
-Carlindo, acalme-se! Confiemos na Providência Divina; nada
acontece por acaso.
E tentando atenuar a decepção do companheiro, falou com ternura:
-Ainda outro dia, no consultório do ginecologista, enquanto
aguardava a minha vez para ser atendida, ouvi com interesse o
diálogo entre duas senhoras, que agora me vem à lembrança pelas
circunstâncias do momento. Dizia uma delas, depois de alguns
minutos de animada conversação:
-Estou ansiosa com a expectativa do nascimento do meu primeiro
filho, previsto para a semana próxima. Não me importo com o sexo,
somente peço a Deus que seja uma criança saudável e perfeita.
A outra, demonstrando serenidade, ponderou:
-Eu já não penso assim. Trabalho com a hipótese de receber meu
filho das mãos de Deus de conformidade com os seus desígnios.
Uma vez gerada, a criança passa a fazer parte integrante da nossa
vida e seja em que circunstância for, nada deve comprometer nossa
sensibilidade de mãe. É claro -emendou em seguida -que todas
desejamos saúde perfeita para os nossos rebentos e ninguém, em
princípio, conta com a possibilidade de uma situação adversa.
-Infelizmente -retomou a primeira -sinto dificuldades em pensar
dessa maneira, apesar de crer em Deus e na sua bondade
magnânima; mas, a propósito, de onde provém tamanha fé? Afinal
de contas, a desgraça é sempre um flagelo que ninguém pode
aceitar facilmente.
-As últimas observações pairaram no ar e por alguns instantes
imaginei que ficariam sem respostas. Mas aquela nobre senhora,
que parecia inspirada nas bases sólidas da boa argumentação,
voltou a esclarecer:
-Primeiramente precisamos considerar que a desgraça nãoencontra
respaldo no Vocabulário Divino; como espírita cristã, creio na
rnjjrahdade das vidas, sucessivas que, a meu ver, compatibiliza as
aparentes anomalias com a Justiça e a Magnânima Bondade do
Criador.
Dessa forma -concluiu judiciosa -não podemos imputar à Divina
Providência o resultado infrutuoso de nossas ações, semeadas há
pouco ou no passado distante da nossa irreflexão.
-Infelizmente não pude acompanhar a conclusão do interessante
diálogo porque fui chamada para o atendimento. Ficou a lembrança
que agora me vem à mente, estimulada pelo testemunho que ora
vivenciamos.
Impressionado pelo que acabara de ouvir, aliado à disposição de fé
da nobre companheira, Carlindo quedou-se finalmente, aguardando
mais resignado o desfecho dos acontecimentos. A partir desse
ponto, a minha participação e humilde colaboração neste caso
estava encerrada; ficava, agora, a cargo dos benfeitores espirituais
ligados a eles pelos laços afetivos do passado, o .compromisso de
ampará-los na sua traietória-resgate desse processo de redenção.
X
Prenúncio de novas revelações
Nossos trabalhos de assistência aos Espíritos dementados, nas
furnas de sofrimento, continuaram ininterruptos, durante mais
alguns anos, até que, finalmente, um dia, meu instrutor chamou-me
em particular para fazer-me uma emocionante revelação.
-Meu filho! Você concluiu com relativo êxito a primeira etapa do
seu trabalho.
Ganhou pelo seu esforço e dedicação na tarefa do bem, considerável
equilíbrio que possibilitará sua incursão ao passado, a fim de
desvendar o sonho enigmático que
durante tantos anos apoquentou o seu coração.
Todavia, é preciso considerar que a sua reaproximação junto à
mulher amada, nas condições intentadas na presente existência, está
definitivamente fora de cogitação:
Encontra-se ela agora reencarnada e consorciada com outro homem,
também ligado a vocês por compromissos do passado.
Providenciaremos, proximamente, acesso aos arquivos da sua alma,
despertando as reminiscências adormecidas, para que possa melhor
compreender os motivos que os
levaram ao distanciamento temporário. Durante mais algunsjrjeses,
paralelamente às atividades mediúnicas de desdobramentos em
serviço, estaremos providenciando desenvolvimento rjaais acurado
das suas faculdades medianímicas, a fim de facilitar o
despertamento das lembranças regJstradag_no cadinho da sua alma
imortal.
-Bondoso padre -ponderei respeitoso -estimaria rogar, durante as
experiências novas que virão, a sua assistência em meu favor, pois
já pressinto testemunhos de— vulto, que o mergulho no passado,
por certo, exigirá de— minha alma comprometida. Hoje
compreendo melhor a necessidade do ajustamento equilibrado
entre as atividades dos dois planos da vida, compatibilizando assim
as obrigações do Espírito encarnado, com os compromissos^
assumidos no mundo espiritual, conforme recomendou Jesus:
"Viver no mundo sem ser do mundo". Dessa forma, desejo
ardentemente recuperar o tempo perdido, malbaratado pelas ações
equivocadas do passado, que me levaram à bancarrota espiritual,
afastando-me de quem poderia me fazer feliz.
-Sem dúvida -atalhou o benfeitor -necessitará ainda de muito
trabalho de intercessão em prol dos desvalidos, para adquirir
créditos espirituais, que possibilitarão sua reabilitação definitiva e o
retorno ao convívio da amulher amada. Na próxima semana
iniciaremos as primeiras sessões regressivas sobre a existência
terrestre que marcou a sua experiência como sacerdote católico.
A revelacão bombástica, dando conta das minhas atividades como
antigo missionário do Clero Romano, causou-me estupefação.
Embora nascido num berço católico, jamais tivera qualquer
inclinação para os estudos teológicos.
Ante o meu olhar indagador, o benfeitor amigo apressou-se em
esclarecer:
-As experiências reencarnatórias nem sempre sé repetem nas
mesmas circunstâncias daquelas vividas anteriormente. Todavia, a
tendência religiosa, obedecendo às experiências do seu passado,
ainda ecoa muito forte era seu coração. Daí a facilidade com que
tem assjmjlado os conceitos doutrinários do Espiritismo Cristão.
E por que não o Catolicismo? Não seria mais coerente que as
minhas inclinações religiosas se voltassem para a Igreja Católica, de
onde suponho ter emergido não faz muito tempo?
Com a serenidade de sempre, e considerando os meus parcos
conhecimentos sobre assuntos de vida eterna, o bondoso padre
voltou a considerar:
-A Misericórdia Divina sempre propicia o esquecimento
temporário das nossas existências infrutuosas, até que ganhemos
condições para o ressarcimento das faltas, seja na área de atuação
onde fracassamos ou em atividades correlatas na construção do
bem. Além do mais, o seu in con sei ente desenvolveu um
mecanismo de autocensura, motivado pelo complexo de culpa, que
o manteve^fastado até hoje das lides clericais. Todavia, como o
sentimento religioso é uma conquista inalienável do seu Espírito
imortal, não foi difícil bandear-se para o Espiritismo, embora no
início tenha relutado bastante face à tradição católica dos seus
familiares.
Finalmente compreendi o porquê dos meus pendores religiosos na
presente existência e, mais animado, aguardei em prece as novas
etapas que adviriam proximamente para o descortinamento das
minhas experiências transatas.
Segunda Parte
I
Incursão no passado
Corriam os anos na ampulheta do tempo, com o calendário
registrando a data de 1480. Uma brisa suave, agradável e
refrescante, deixava-se impregnar pelo suave aroma exalado das
flores que desabrochavam incontáveis, multicolorindo o campo
verdejante, qual mensagem de esperança anunciando a chegada da
estação primaveril. Quem chegasse ao lugarejo vindo pela estrada
das encostas logo avistava, com destaque, a casa paroquial como
que abençoando a cidade, encravada entre as montanhas, de onde
se divisava vasta planície a perder-se de vista no horizonte distante.
Monsenhor Fernandez, o pároco da Igreja local, era um jovem alto,
moreno, testa larga, olhos negros, sobrancelhas espessas,
magnetismo forte e arrebatador.
E, ao me defrontar comigo mesmo, senti um pavor
que me infundiu terrível mal-estar: não fosse a assistência
amiga do querido benfeitor, teria fugido espavorido ao abrigo
do corpo físico em repouso; mas, depois de refazer-me,
argumentei:
-Como pode dar-se o fato de ver-me...
Antes, porém, de concluir o meu questionamento de admiração e
espanto, ele aparteou elucidativo:
-Fernando, meu filho, aprenda a controlar as emoções; estamos
apenas iniciando uma incursão no seu passado distante quando, em
existência pregressa, na condição de sacerdote católico, assumiu o
sagrado compromisso de reconduzir as ovelhas tresmalhadas ao
aprisco do Divino Pastor.
As imagens "vivas" dos quadros que doravante desfilarão sob sua
ótica espiritual, têm suas nascentes na própria alma, levantadas dos
arquivos da sua consciência culpada, até então adormecida,
aguardando o ensejo de elevação; assistirá ao desenrolar de
pungente drama, cujo protagonista foi você mesmo na
indumentária física do então sacerdote espanhol Fernandez, o
temido Monsenhor.
A inquisição grassava em toda parte do mundo cristão,
principalmente na Europa, onde a Espanha se destacava pela
intolerância religiosa, nas perseguições implacáveis que movia
contra todos aqueles que não professavam a fé católica, cujo
estandarte de luta, paradoxalmente, era o próprio Cristo em nome
de quem se mandava expropriar, prender e até mesmo matar.
A Igreja detinha um poder muito grande e o Monsenhor era, ao
mesmo tempo, respeitado e temjdo naquelas paragens, onde as
casas desciam salpicadas, montanha abaixo, espraiando-se para
além do vale em direção à vasta planície, a se perder de vista.
Era um domingo de muito sol.
Fernandez descansava ao largo da Casa Paroquial que se defrontava
com a praça bem cuidada, circundada por esmerados jardins, onde
a natureza em flor parecia formular silencioso convite à reflexão.
Apenas a família dos González parecia indiferente à_autoridade
religiosa do Monsenhor. E que o velho Qoni_Roa^igo desfrutava de
grande prestígio e sólida amizade junto ao Bispo de Barcelona, face
às polpudas doações ofertadas pelo próspero fazendeiro aos cofres
da Igreja que, em contrapartida, disponibilizava a sua influência
junto às comunidades regionais, para que ele pudesse expandir suas
transações comerciais relacionadas com os seus olivais; por tudo
isso, o sacerdote respeitava o velho Dom Rodrigo, além do que
nutriajor sua filha uma intensa paixão. Cíntia era uma jovem
donzela, esmeradamente educada e dotada de beleza arrebatadora.
Comparecia com regularidade às missas domingueiras e não
disfarçava sua admiração por Fernández, que dominava com
maestria a arte do galanteio conquistador. Aos poucos foi nascendo
entre ambos mais do que uma simples relação de amizade religiosa,
evoluindo para um amor desenfreado e extrapolando os limites do
pudor. Com o tempo, a moça imprevidente foi cedendo aos seus
encantos, até que não mais resistiu, e o desfecho foi uma gravidez
indesejada, que agora precisavam ocultar. O tempo corria célere,
angustiando a ambos por um amor que não podiam fruir em
condições legais de união esponsalicia. Cíntia sofria duplamente:
pela paixão nutrida por Fernández e pelo filho bastardo que
carregava no seu ventre de mãe. A ansiedade aumentava com o
avanço da gravidez, entretanto, o vestuario, à moda, facilitava a
camuflagem dos três meses de gestação. Temerosa, Cíntia procurou
Fernández, a fim deliberarem o que fazer.
Meu querido! Não há mais como esconder o fruto do nosso amor
proibido. Ando apreensiva pelas repercussões negativas, não só
junto à comunidade, caso sejamos descobertos, mas também pelo
meu pobre pai ao ter que se explicar com o Bispo Argeu.
Quanto à minha mãe, embora sempre submissa à autoridade do
meu pai, creio que saberá melhor compreender o nosso drama.
Sugiro, portanto, conversarmos primeiro com ela a respeito do
assunto e aguardar sugestões. Que acha disso?
Fernandez coçou a cabeça em sinal de nervosismo, meditou por
alguns instantes, enquanto fixava o seu olhar na imagem do Cristo
crucificado, pendurado na parede amarelada pela ação tempo,
como a rogar inspiração è finalmente considerou:
Tem razão, não havia pensado nisso. A idéia me parece boa. Nesse
momento, ouvir a opinião de Dona Margarida, creio, nos fará
enorme bem e trará consolo ao nosso coração. Providencie o
encontro para amanhã aqui mesmo na Igreja, para não despertar a
desconfiança dos fiéis.
Naquela tarde eles se despediram mais aliviados. Cíntia guardava a
certeza de encontrar abrigo e compreensão junto ao coração sensível
de sua querida mãe.
II
Corações conturbados
No dia seguinte, Fernández levantou-se e, como de costume,
dirigiu-se ao oratório para a prece matinal. Sozinho, meditava em
postura genuflexa sobre o seu futuro como sacerdote católico e no
amor proibido alimentado por Cíntia. Como conciliar as duas coisas
sem trair os sagrados princípios da Igreja e a própria consciência? A
sua ordenação como padre implicava no voto de castidade de uma
vida celibatária, o que anulava a mais remota esperança de uma
união esponsalicia.
Conflitado, em dado momento pensou em abandonar a batina.
Proporia a fuga para um centro populoso, distante daquelas
paragens, onde pudessem viver no anonimato, e assim, quem sabe,
fruir também a felicidade na construção de um lar cristão, como
tantos outros que ele próprio, como representante do Cristo na
Terra, abençoara. Mas, o poder que a Igreja detinha e lhe conferia,
como seu legítimo representante, falava alto ao seu coração
ambicioso, ávido, de mando e influências junto à comunidade cristã;
esses pensamentos ambíguos confundiam o seu raciocínio e a
delicada decisão a ser tomada.
Naquela manhã, definitivamente, ele não conseguia orar. Seu rosto
contristado denotava profunda amargura, prenunciando
testemunhos difíceis. De qualquer forma, as reflexões demoradas
proporcionaram-lhe alívio relativo ao seu coração.
Por isso mesmo aguardou Cíntia e sua mãe, esperançoso, mas com
indisfarçável apreensão. Não conseguia imaginar a reação de Dona
Margarida, quando o fato lhe fosse revelado. As batidas na porta da
Casa Paroquial, anunciando a sua chegada, soaram como um
terremoto, fazendo estremecer o prepotente e temido Monsenhor.
Os cumprimentos não se fizeram esperar e foi Dona Margarida
quem respeitosamente tomou a iniciativa de solicitar-lhe a bênção,
osculando a sua mão.
Constrangido, o Monsenhor balbuciou um quase imperceptível
"Deus te abençoe".
Em seguida, dirigiram-se, a convite do padre, para o interior da
Paróquia, a fim de confabularem. Acomodados confortavelmente na
biblioteca, pesado silêncio abateu-se sobre a tríade que pareceu, ao
casal de infortunados, ter a duração de uma eternidade.
De confessor, o Monsenhor tinha agora na mãe de Cíntia a sua
confidente e, cobrando ânimo, falou com voz pausada, quase
sumida, como a rogar comiseração:
-Dona Margarida, a vida exige de nós, muitas vezes, testemunhos
de vulto, insuportáveis até mesmo para um sacerdote a serviço de
Deus na Terra. Pessoalmente, tenho lutado muito contra isso, para
não trair os sagrados compromissos assumidos com a nossa Santa
Igreja, à qual me encontro ligado por princípio de devoção;
entretanto, um grande amor, puro e sincero, despertou o meu
interesse por Cíntia que, gradativamente, transformou-se em
intensa paixão. No princípio, porém, não era muito correspondido,
mas a minha insistência, assediando a sua personalidade sensível de
mulher fê-la, com o passar do tempo, cair nas minhas graças, não sei
se para ventura ou desdita de minha alma sofrida. Depois disso não
foi difícil mantermos um relacionamento mais íntimo, resultando
agora no fruto de um amor proibido...
Enquanto o Monsenhor discorria cabisbaixo, sem coragem de
encarar a pobre mulher, Cíntia soluçava baixinho; Dona Margarida
estava lívida, prestes a desfalecer.
Não sei por quanto tempo ainda durou aquela arenga na tentativa
de se explicar, mas logo depois foi a vez de Dona Margarida
considerar:
Quando tudo isso aconteceu? Não vejo sinais evidentes de gravidez.
Ao que Cíntia interrompeu chorosa, respondendo com voz trêmula:
Há aproximadamente três meses, mamãe.
Dona Margarida respirou fundo, readquiriu novo ânimo e
considerou:
Então precisamos ultimar providências sobre o que fazer, para o
que espero sugestões.
E endereçando o olhar indagador para os dois, aguardou, em
silêncio, esperando resposta. Encorajado, foi Monsenhor quem falou
primeiro.
-Como a senhora sabe, eu não posso abandonar a nessas
circunstâncias e viver, como gostaria, em companhia de Cíntia na
condição de marido e mulher, sob pena de excomunhão. Talvez
fosse melhor afastá-la temporariamente deste lugarejo, em demanda
a um grande centro sob pretexto de cuidados médicos, até o
nascimento da criança.
A moça, que até então ouvia silenciosa, chorando baixinho,
prorrompeu em pranto convulsivo. Distanciar-se de Fernández, e
ainda afastar-se definitivamente do filho, após o seu nascimento, era
demasiado sacrifício para o seu coração de mãe.
Não há outra solução menos dolorosa? -argumentou Cíntia,
desesperada.
Dona Margarida meditou sobre a gravidade do fato caso ele viesse à
público; a sociedade não saberia perdoar uma desonra dessa
natureza e a família González seria maculada pelo pecado da filha,
envolvida num escândalo amoroso com o pároco da cidade. O caso
se alastraria ganhando dimensões assustadoras, pois Dom Rodrigo
mantinha estreita relação de amizade com o Bispo Argeu, clérigo
muito respeitado em toda a região, onde os negócios dajamília
floresciam sob sua influência protetora.
Considerando tudo isso, Dona Margarida optou pela sugestão do
Monsenhor e decidiu expor o caso ao marido para juntos, em
família, deliberarem sobre a melhor decisão a ser tomada.
Dom Rodrigo encontrava-se ausente, em viagem de negócios, e o
seu retorno previsto para a semana próxima dava ensejo a que mãe
e filha estudassem a melhor maneira para abordá-lo sobre o
delicado assunto.
Naquela noite, o Monsenhor recolheu-se mais cedo para meditar e,
dirigindo-se até à biblioteca, acomodou-se no banco rústico
encostado junto à parede, deixando que o seu pensamento vagasse
numa retrospectiva viagem interior. Recordou-se das experiências
da juventude sem que, entretanto, se lembrasse de um amor mais
puro que lhe tivesse despertado o seu ímpeto de homem
apaixonado.
Optou então por servir à causa de Jesus, numa tarefa missionária,
buscando, dessa forma, preencher o vazio do seu coração. Todavia,
logo após a ordenação, quando surgiram os primeiros testemunhos
no terreno da afetividade, os comprometimentos levianos foram
facilitados pela sua condição de confessor.
Utilizava-se da autoridade religiosa para melhor iludir as moçoilas
desprevenidas que caíam na sua lábia sedutora, ameaçando as suas
vítimas que intentavam denunciá-lo, com a pena da excomunhão.
O terror imposto pela Inquisição acobertava os seus desmandos sem
impor-lhe nenhuma restrição; mas com Cíntia a coisa era diferente;
sua meiguice e docilidade conseguiram arrebatar-lhe o coração e a
expectativa de apartar-se definitivamente da mulher amada quase o
levava a loucura. Todavia, o rjodej eclesiástico de que gozava na
pequenina cidade, obnubilava o seu raciocínio, pois a possibilidade
de abandonar tudo e partir definitivamente em sua companhia
conflitava com o seu Espírito ambicioso.
Confuso, recolheu-se ao leito e tentou conciliar o sono. Pois de
muito tempo, vencido pelo cansaço da noite que avançava célere
pela madrugada a dentro, conseguiu finalmente adormecer.
A semana transcorreu sob expectativa angustiante.
Dom Rodrigo voltara de viagem, ansioso por notícias da cidade e
dos negócios da fazenda.
Após as inspeções de costume em companhia do capataz, reuniu-se
com a esposa e a filha para confabular.
Como andam as coisas por aqui? -inquiriu o patriarca com um
sorriso de satisfação. -Gostaria de saber notícias do velho Garcia,
nosso bom vizinho, homem abastado e influente, cujo filho desde
algum tempo pretende a mão da nossa querida Cíntia.
E sem dar tempo para obter resposta, concluiu a sua fala,
endereçando o olhar para a moça assustada, perguntando:
E aí, minha boa filha, já tomou a decisão quanto ao honroso convite
da família dos Garcia para unir-se a Roselito?
Mãe e filha entreolharam-se quase petrificadas pelo medo, sem
nada responderem. Percebendo algo estranho no ar, Dom Rodrigo
pigarreou contrafeito e falou irritadiço:
-Mas que diabos está acontecendo por aqui? Desde que cheguei
percebo algo diferente no comportamento de vocês. Vamos,
Margarida, desembuche! Exijo explicações!
-Neste instante, Cíntia desatou a chorar. O velho confirmou sua
apreensão e, suspirando fundo, voltou a falar, dirigindo-se à esposa
com mais complacência:
-Muito bem, muito bem, Margarida, conte-me tudo o que se passou
nesta casa durante a minha ausência.
-Talvez, sustentada por forças intangíveis, a esposa, quase serena,
relatou tudo em detalhes, inclusive sobre o diálogo que tivera com o
Monsenhor.
Dom Rodrigo, petrificado, parecia não ouvir com lucidez a
narrativa da esposa, tal o estado de alienação em que se encontrava
face à cruel revelação.
Depois disso, pesado silêncio pairou no ar sem que ninguém
ousasse falar; Cíntia, aproveitando-se da ocasião, pediu licença e
refugiou-se em seu quarto, próximo à sala de estar; Margarida
sugeriu então ao marido viabilizar o plano arquitetado pelo
Monsenhor, ao que Dom Rodrigo reagiu colérico, retrucando com a
explosão de ódio que emergia do seu coração e vomitando
impropérios:
-Aquele maldito padreco pagará muito caro o preço da sua
ousadia; macular a honra dos Gonzalez significa jdecretar a própria
desdita.
-Acalme-se, meu bem -interveio a esposa com ponderação,
procurando pacificar o marido completamente transtornado. -A
nossa Cíntia não é somente vítima, tem igualmente a sua parcela de
culpa no infaustuoso acontecimento; além do mais, precisamos,
agora, mais do que nunca, providenciar para que tal estado de coisa
não venha a público, evitando contenda aberta com o Monsenhor. A
repercussão na comunidade nos seria desfavorável, com
desdobramentos negativos junto aos poderosos Garcia, de quem
pretendemos aproximação.
-Mas, e agora? -respondeu, contrafeito. -Nossa filha terá que
ausentar-se por um bom tempo e isto poderia esfriar o interesse de
Roselito em desposá-la, conforme tudo ja estava planejado.
-Qual nada -tornou a esposa, sagaz. -O rapaz está apaixonado e
penso mesmo que o afastamento temporário de Cíntia incendiará
ainda mais o seu coração.
Pela primeira vez Dom Rodrigo atinou pela argúciada mulher
e.xespondeu com um sorriso disfarçado:
-Tem razão, minha querida, concordo com a providência, desde
que nos desfaçamos da criança logo após o seu nascimento. Não me
será difícil pedir a ajuda do Bispo Argeu, que facilitará o seu
sumiço, entregando-a aos cuidados de alguma devota da sua
confiança.
-Quanto ao Monsenhor, prometo que não ficará impune, para
escárnio de nossa honra. Usarei da minha, influência junto ao
Bispado para propor a sua transferência para Portugal, sem levantar
suspeitas na comunidade.
-Amanhã mesmo espalharemos a notícia sobre o adoecimento
repentino de Cíntia, que necessitará viajar com urgência para
Barcelona a fim de receber cuidados médicos especiais. Quanto a
você, minha cara Margarida, ficará ao lado dela até o desfecho final.
Ultimarei providências para a continuidade administrativa da
fazenda sob as ordens de Manoelito, capataz da nossa confiança,
que cuidará também da criadagem da Casa Grande até o seu
retorno.
Um pouco mais aliviado, Dom Rodrigo maquinava agora a
montagem do seu plano diabólico para vingar-se do Monsenhor.
III
Dolorosa separação
Os dias que se seguiram foram angustiosos. Antes de partir, Cíntia
precisava buscar o apoio do seu amado, para aplacar a dor do seu
coração sensível e apaixonado; todavia, agora com a vigilância
implacável do seu pai, cujo ódio por Fernandez não tinha limites,
reconhecia que o desejo de revê-lo, ainda que pela derradeira vez,
era quase impossível. Mesmo assim, procurou a sua mãe e expôs o
desejo de rever o seu amado.
-Mamãe, perdoe a minha ousadia; eu não posso partir sem antes
lhe dizer adeus; pressinto que jamais tornarei a vê-lo; por isso, rogo-
lhe que atenda ao meu pedido.
Não pôde mais continuar. A voz embargada saía entrecortada da
garganta, dificultada pelos soluços abafados que brotavam do seu
peito arquejante, qual vulcão explodindo em lágrimas de dor.
Ante o desespero de Cíntia, Dona Margarida, tocada sua
sensibilidade de mãe, cedeu na tentativa de aliviar o emento da
filha angustiada.
Vamos minha filha, anime-se; aproveitaremos a ausência de seu pai
para um breve encontro com Fernández, que providenciarei para
logo após o sermão dominical.
Mais aliviada, a moça aguardou esperançosa a tarde de domingo.
Na manhã daquele dia, logo cedinho, Dom Rodrigo partiu em
demanda à cidade grande, não sem antes reafirmar à sua esposa o
ódio que devotava ao desprezível Monsenhor.
Desejaria desmascará-lo na própria Igreja, bem à frente dos fiéis,
mas também estava em jogo a reputação da família, e isso era o
suficiente para demovê-lo do intento desejável.
À tardinha, mãe e filha dirigiram-se à Igreja. O povo já se
aglomerava em torno da praça principal, observando a revoada
alegre dos pássaros que pousavam nas folhagens acolhedoras das
árvores próximas, esperando o anoitecer. Aos poucos, os fiéis foram
se acomodando nos bancos rústicos da Igreja aguardando, com
expectativa, o sermão da noite. Depois de algum tempo,
demonstrando cansaço e abatimento, o Monsenhor deu entrada no
recinto, esgueirando-se pela porta lateral nas proximidades do altar;
após os rituais de praxe, deu início ao sermão.
-A mensagem de hoje, meus filhos, arremete-nos às reflexões sobre
o Cap. XI, w. 28 a 30 do Evangelho de Mateus -e, tomando fôlego,
como a buscar energias .fora do âmbito da própria alma, continuou
de certa forma inspirado. -A bem-aventurança dos aflitos, para os
que nos encontramos envoltos no manto da atribulação, significa o
despertamento da indiferença no "orai e vigiai" para não cairmos
em tentação.
E parecendo conduzir o discurso na sua própria direção, continuou:
-Quantos de nós precipitamo-nos em quedas espetaculares pelo
esquecimento dessas luminosas recomendações para, logo mais,
acicatados pela dor do arrependimento tardio, despertarmos
ansiosos pela reparação. Todavia, à frente do sofrimento que se
deita sobre nós, qual tempestade avassaladora, ressurge Jesus, o
bom Pastor de nossas almas, para dulcificar nossas superlativas
aflições.
Monsenhor Fernández discursava emocionado, como se falasse à
própria alma, buscando consolo íntimo, enquanto Cíntia ouvia
extasiada, sem disfarçar sua emoção.
-Aqueles de nós -continuou -porventura incursos no erro,
precisamos cobrar novo ânimo e prosseguir na luta do
soerguimento interior. O trabalho em favor do próximo é sempre a
carta de alforria que nos subtrai das algemas dos próprios erros
perpetrados quando sinceramente desejamos a renovação. O Pai
não deseja "a morte do pecador, mas a extinção do pecado".
Destarte, precisamos arregimentar a nossa fé, no bom combate
contra o desânimo, iniciando sem detença o trabalho de renovação
interior.
Durante prolongados minutos ele discorreu, ainda inspirado, sobre
o tema em questão.
Ao encerramento do sermão, todos estavam emocionados,
comentando-se, à boca pequena, que o Monsenhor jamais estivera
tão sintonizado no trato com as coisas de Deus.
Formara-se extensa fila para a comunhão dos fiéis e, aos poucos, a
Igreja ficou deserta, propiciando aos dois a confissão recíproca dos
problemas que os afligiam.
Dona Margarida aguardava à distância, brando baixinho e torcendo
para um epílogo feliz. A presença do Monsenhor fez o coração de
Cíntia bater mais fortemente. Por sua vez, em presença da mulher
amada, o pároco sentiu um frêmito percorrer-lhe o corpo,
modificando o ritmo da sua respiração, mas animando-se, falou
com a voz pausada e rouca, quase imperceptível:
-Cíntia, perdoe-me a ousadia de amá-la. Não sei como poderei
ajudá-la uma vez que, também eu, sofro muito com a expectativa da
nossa separação.
-Não diga isso -interrompeu a moça, chorosa. -Nosso amor
transcende a tudo; de minha parte, jamais o esquecerei, onde quer
que esteja.
-Mas, Cíntia -voltou a considerar -não percebe que doravante um
abismo vai nos separar?
-Como assim? -respondeu a moça, emocionada.
-Nosso filho bastardo -retrucou o Monsenhor, visivelmente
transtornado -será sempre uma barreira intransponível entre nós.
Além do mais, a Igreja da qual não poderei abdicar impede, como já
sabe, a nossa possibilidade de união como marido e mulher.
-Chega! -interveio ela com a voz entrecortada de dor. -Isso agora
pouco me importa; desejo apenas saber se o seu amor por mim
ainda não feneceu.
-Como poderei esquecê-la? Não fosse a intransigência do seu pai,
talvez eu tivesse forças para abandonar a Igreja e iniciar vida nova
ao seu lado. Mesmo assim, se consentir, poderemos partir para bem
longe daqui, pois teremos uma semana pela frente, tempo suficiente
para a preparação de nossos pertences.
-Que diz? -retrucou a moça, entre admirada e feliz pela disposição
de Fernandez em arrebatá-la para o convívio do seu amor.
convite era tentador, quase irrecusável. Todavia, ponderando sobre
o anátema da Igreja e do próprio pai em defesa da honra da família,
ela optou por declinar. Assim, por longo tempo ainda falaram sobre
a possibilidade de uma reaproximação futura, após o que
despediram-se respeitosos. Cíntia retornou para casa um pouco
mais confortada, quase feliz.
-Na manhã da terça-feira, mãe e filha partiam em direção ao grande
centro, angustiadas ante a possibilidade de expectativas novas.
Cumprindo as suas ameaças e, apesar do clamor da própria filha,
Dom Rodrigo solicitou audiência com o Bispo Argeu; atendido nas
suas pretensões, foi recebido solicitamente pelo clérigo que, após
ouvir a sua narrativa, emprestou ao amigo, e fiel devoto,
solidariedade no caso, prometendo providências urgentes em torno
do delicado assunto. De fato, três meses depois. Monsenhor
Fernandez era substituído na sua Paróquia e transferido para um
distante lugarejo de Portugal. Os motivos da sua transferência
jamais lhe foram revelados pela cúpula da Igreja e nem precisava.
Sabedor da amizade que Dom Rodrigo desfrutava junto ao influente
e poderoso Bispo, não foi difícil para o Monsenhor concluir as
razões que Provocaram a sua transferência.
Angustiado e sem notícias de Cíntia, Fernandez deixava-se abater
cada vez mais e os seus sermões já não tinham o mesmo brilho de
outrora. Devagarinho, uma ""-transformação perigosa tomava conta
do seu ser. O ódio incendiava o seu coração ressentido e despeitado.
O degredo imposto impiedosamente por seus superiores, sob a
influência perversa de Dom Rodrigo, despertava-lhe sentimentos
sinistros de vingança. Seu filho já havia nascido e, segundo seus
cálculos, deveria contar agora, aproximadamente, com um ano e
meio de idade. Cíntia teria assumido a maternidade? Imaginava que
não, por conhecer o temperamento irascível do seu pai; além do
mais, o orgulho da família não permitiria ao velho Dom Rodrigo
ceder aos rogos de sua filha.
O tempo passou e, um dia, quando o tormento da saudade premiu
mais forte o seu coração angustiado, ele decidiu voltar.
Abandonaria a batina se preciso fosse, caso Cíntia consentisse em
consorciar-se; tampouco se importava agora com o anátema da
Igreja ou a maldição do seu pai que não sabia perdoar. Decidido,
solicitou autorização junto à Diocese local para licenciar-se
temporariamente das suas funções, alegando motivo de saúde
ocasionado pelo clima local. Tratou de preparar-se para a viagem
enquanto aguardava resposta positiva, pois tinha a certeza de que
ela não lhe seria negada, pelos motivos justos da sua petição, o que
de fato acabou ocorrendo com o seu desfecho favorável. Sobre as
apreensões de Fernandez quanto ao destino da criança, ejas se
consumaram. Dom Rodrigo haviaí persuadido Cíntia a desfazer-se
do filho sob o pretexto de prejudicar a reputação da família, que
gozava de excelente conceito na sociedade local. Além do mais,
alinhavou a reaproximação da filha junto a Roselito; a moça, após
resistir heroicamente, finalmente cedeu à chantagem emocional do
velho pai, que se dizia infeliz por não vê-la desposada com o rapaz.
Nessas circunstâncias, Fernandez chegou ao vilarejo, irreconhecível
pela barba crescida, um pouco mais gordo e os cabelos já grisalhos
pela ação inexorável do tempo. A ausência da batina facilitava-lhe o
anonimato. O tempo havia passado e quase quatro anos o
separavam daquele instante, desde quando fora designado para
servir em Portugal.
A noite caía chuvosa e, ao vê-lo aproximar-se do casarão, recordei-
me do sonho enigmático, em espetacular volta ao passado; as razões
que me levaram ao distanciamento daquela mulher começavam
agora a fazer sentido. Continuei, em desdobramento,
acompanhando a trajetória do Monsenhor e notei, como no sonho,
que ao vê-la casada e cercada dos filhinhos que não lhe pertenciam,
ficou aturdido, buscando, encharcado pelo aguaceiro, abrigo numa
velha hospedaria; sem ser reconhecido, deu entrada na estalagem
registrando-se com o nome falso de Rafael Pilar. À noite, mal
conciliou o sono, planejando vingar-se; maquinou um ardiloso
plano, pois tomara conhecimento de que o velho Gonzalez adoecera
gravemente desde algum tempo, recolhendo-se definitivamente ao
leito para-tratamento no próprio lar. Provavelmente, a sua
influência, agora, junto ao Bispado já não era a mesma, aliado ao
fato de que o Bispo Argeu, acometido de enfermidade grave, havia
falecido há cerca de um ano; dessa forma, trabalharia para o seu
retorno, o que não lhe seria difícil intentar, pois na ocasião da sua
transferência por motivos óbvios, não foi aberto processo sobre as
causas que originaram o seu remanejamento para Portugal. Na
manhã seguinte, bem cedinho, Monsenhor Fernandez, de coração
envenenado, vjajava de volta, arquitetando planos sinistros de
vindita.
IV
A volta do Monsenhor
Tão logo reassumiu as suas funções, Fernández deu entrada no seu
pedido de transferência, justificando-se pela saúde debilitada, pois o
clima montanhoso da cidade pretendida favoreceria a sua
recuperação. Assim, não foi difícil obter o deferimento do pedido e,
seis meses depois, ei-lo de volta, após quatro anos de ausência, à
cidade onde Cíntia, agora casada e mãe de dois filhinhos, vivia
supostamente feliz. A notícia do seu retorno espalhou-se
rapidamente, causando grande alvoroço junto à comunidade local,
pois o Monsenhor, apesar de Cernido. sempre fora benquisto e
muito respeitado pela maioria da população da cidade e região.
Entretanto, para os Qonzález, não poderia ter acontecido coisa pior.
Apenas Cíntia, por razões óbvias, experimentava um misto de
alegria e apreensão, embalada pelo seu coração sensível de mulher.
Embora fiel ao dedicado esposo, o seu coração batia com disritmia,
sempre que ouvia referências a respeito de Fernández, a quem
definitivamente não conseguia esquecer, A primeira vez, depois da
sua volta, que Cíntia compareceu à Igreja, foi na missa dominical,
quando se recusou à confissão prevendo situação embaraçosa.
Notava, embora à distância, algo de enigmático no olhar do
Monsenhor e evitava o quanto podia aproximar-se dele, temerosa
por desdobramentos desagradáveis.
Certo dia, porém, o sermão foi diferente; quase jrascíyel, ele atacou
os fiéis e_m débito com a freqüência ao confessionário. A
advertência tinha endereçamento certo; Cíntia entendeu o recado e
resolveu enfrentar a situação, pois numa época de intolerância
religiosa, a prudência recomendava convivência pacífica com a
Igreja, que reinava soberana, e a heresia facilitava abrir caminho
fácil para os temidos processos inquisitoriais. Ao aproximar-se do
confessionário sentiu um nervosismo quase incontrolável e, com a
voz entrecortada de emoção, dirigiu-se formalmente ao Monsenhor,
na esperança de obter compreensão e respeito pela sua condição de
mulher e mãe.
-Padre, perdoe-me pela ausência ao confessionário durante todos
esses dias. Os filhos e as atribuições do lar impedem-me a
freqüência regular às missas domingueiras, como seria de se
desejar. Entretanto, doravante, esforçar-me-ei para cumprir os
sagrados » compromissos da nossa Santa Igreja e por isso suplico-
lhe a indulgência deste meu pecado, rogando interceda junto a Deus
pelo meu perdão.
Calou-se, aguardando resposta. Alheio às suas colocações e
transtornado com a presença da mulher amada a quem não pudera
desposar e nem esquecer, o padre, despeitado, falou sem rodeios:
-Cíntia, antes de mais nada, devo dizer-lhe que durante todos esses
anos lutei para esquecê-la e, como nao consegui, resolvi procurá-la,
decidido a abandonar a
Igreja, solicitando licença temporária, na esperança da sua
aquiescência para a nossa união. Mas, para maior desdita e agravo
dos meus padecimentos, encontrei-a casada e mãe de dois filhos que
não me pertencem. Por isso, optei por reassumir as funções
eclesiásticas para facilitar a minha aproximação de você e perguntar
se ainda me ama.
O Monsenhor jogou capciosamente a pergunta no ar e aguardou a
resposta em silêncio. Cíntia empalideceu. Seus lábios tremeram e,
quase desfalecida, respondeu timidamente:
-Sim.
Era tudo o que o padre arguto desejava saber; esboçou um
sionisojnujrfal e, ali mesmo, profanando o local sagrado, propôs-lhe
um encontro. Desejaria, como outrora, tomá-la em seus braços e
dizer-lhe o quanto ainda a amava. Mas a resposta veio rápida e
incisiva:
-Não, não posso aceitar a sua proposta. O meu amor por você
transcende a atração puramente carnal; além do mais, os sagrados
compromissos de esposa e mãe impedem-me de prevaricar.
Para o Monsenhor, que já tivera Cíntia em seus braços e dela
recebera inclusive um filho cujo destino era ignorado, a resposta foi
desalentadora, acabando por despertar nele um ciúme doentio que
ensejaria, com o passar do tempo, na capitulação de Cíntia diante
do assédio obsessivo do padre apaixonado. Supondo tê-lo
dissuadido dos seus propósitos inconfessáveis, ela passou a
freqüentar a Igreja com mais assiduidade, pois no fundo também
havia de sua parte uma ponta de interesse para ficar mais perto da
pessoa a quem amava e ainda não conseguira esquecer. O padre
estrategicamente recuou, o que levou Cíntia a acreditar no
encerramento do desagradável episódio.
Tão logo ganhou a sua confiança, o Monsenhor convidou Roselito
para fazer parte da comissão organizadora dos eventos religiosos da
cidade. Com isso, procurou aproximar-se mais do casal, passando a
freqüentar a sua casa, sem despertar a desconfiança do marido e da
sua ingênua mulher.
A presença do padre na casa dos Garcia tornou-se corriqueira e
raros eram os fins de semana em que ele não privava do almoço em
companhia do casal. No dia consagrado aos festejos da padroeira da
cidade, o evento tinha sempre um colorido diferente, mas o
Monsenhor pretendia fazer das festividades daquele ano uma
comemoração sem igual. Sob esse pretexto despachou Roselito e
seus ajudantes festeiros em busca de informações e adereços na
cidade de Barcelona; na hipótese de viagem favorável, o seu retorno
estaria previsto para dentro de sete dias aproximadamente. E tão
logo a comitiva se ausentou, o Monsenhor buscou a casa dos Garcia
em companhia do sacristão para não despertar desconfiança,
alegando necessidade de recomendações para os preparativos dos
festejos; enquanto conversava com Cíntia, instruiu o seu auxiliar
para que retornasse.
-Volte à Igreja e deixe tudo preparado para a missa de logo mais,
enquanto alinhavo os detalhes finais para quando a comitiva voltar.
Cíntia e o seu marido, que preside a comissão geral, discutirão
depois o assunto para submetê-lo, posteriormente, à apreciação dos
demais.
Imediatamente ela percebeu o ardil habilmente montado pelo astuto
Monsenhor e, traída pelo nervosismo que não conseguiu
dissimular, deixou transparecer ao ardiloso padre que perdera o
controle de si mesma, tornando-se assim, presa fácil para a
subjugação dos seus encantos. Logo depois, sem oferecer-lhe a
mínima resistência foi, aos poucos, envolvida pelos braços fortes do
obcecado Monsenhor que, em volúpias de beijos apaixonados, fez
despertar, em ambos, o vulcão adormecido de uma paixão
desvairada. Neste instante alguém entra na biblioteca e se depara
com a cena constrangedora.' Era a serviçal que, assustada, deixa cair
os apetrechos de limpeza, ¡chamando a atenção do casal.
Flagrados, a patroa tenta esboçar explicações, enquanto o padre,
envergonhado, se retira cabisbaixo, praguejando baixinho contra a
sorte malfadada. Temerosa por testemunhar a traição conjugal da
sua ama, a humilde servidora evadiu-se espavorida, com a intenção
de nunca mais voltar. Á situação agravou-se; como explicar ao seu
marido o sumiço repentino da criada?
Desesperada, lembrou-se da missa; arrumou-se apressadamente e
buscou refugiar-se na Igreja até a hora aprazada. Após o término do
culto religioso, quando todos já haviam saído, certificando-se de
que, realmente, não havia mais ninguém, aproximou-se do
Monsenhor e, notando-o muito abatido, dirigiu-se a ele sem as
formalidades habituais, falando descontraída:
Meu querido, que Deus se compadeça de nós e conceda a graça do
Seu perdão pelos nossos pecados. De minha parte estou perdida,
porque Loreta não saberá guardar segredo sobre os motivos que a
levaram a se desligar do meu lar, pois neste vilarejo ser-lhe-á muito
difícil ocultar
'.a verdade; fujamos daqui amanhã mesmo, antes do retorno da
comitiva.
-Enlouqueceu? E como ficarão os nossos compromissos?
-Como assim? -retrucou a senhora, visivelmente desapontada. O
padre franziu a testa, levou a mão direita na altura do queixo e
respondeu aparentemente sem perder a serenidade:
Ora, a minha responsabilidade com a Igreja e a sua para com os
deveres do lar.
Mas até então você não pensava assim; pois agora nada mais me
importa, a não ser desaparecer daqui o mais rápido possível;
quando formos descobertos, estaremos irremediavelmente
perdidos, pois, além do mais, como conter, doravante, o ímpeto do
nosso amor reacendido nessa louca paixão?
Pela primeira vez o Monsenhor não soube responder de pronto;
deteve-se por alguns instantes, levou as mãos à cabeça e concluiu
desesperado.
-Já sei, já sei, usarei da minha autoridade religiosaj para silenciar
Loreta.
-Não haverá mais tempo para isso -rebateu a senhora, esfregando
as mãos, nervosamente. -Por Deus, vamos embora daqui antes que
seja tarde demais, até porque, a esta altura, não sabemos onde
Loreta possa estar.
-Sim, sim -reconsiderou mais realista -concordo em partirmos
amanhã à noite; antes, porém, mobilizarei o sacristão, meu auxiliar
de confiança, com quem estive em sua casa. Provavelmente já
desconfia de tudo, pois naquela ocasião, quando o despachei
pretextando providências quanto à arrumação da Igreja, olhou-me
com um sorriso-" "^de aprovação consentida. Por ser servidor dos
ofícios religiosos da minha estrita confiança, há tempos venho lhe
segredando a minha simpatia por você. Ele será o portador do meu
convite para uma conversa com Loreta em particular.
-Está bem -concordou -mas somente até amanhã à noite, quando o
prazo para partirmos estará esgotado.
-Estamos de acordo -reforçou mais aliviado.
Despediram-se ambos, aguardando o dia seguinte com expectativa
angustiante.
V
Novas revelações
Por força de suas funções, o sacristão detinha um círculo de
amizades e informações bastante amplo entre os moradores da
cidade e periferia. Dessa forma, não foi difícil localizar Loreta, ainda
pela manhã, na casa de uma devota, sua conhecida, que ajudava na
decoração da Igreja.
Carmem era pessoa muito ligada à famíba dos Garcia e também dos
Gonzalez, a quem Cíntia, desde a mocidade, confidenciava os seus
segredos e por isso Loreta deveria estar lá.
sacristão arriscou o palpite e acertou, mas não chegou a tempo de
evitar a confidência do episódio, constrangedor. JQagrada, ela
tentou evadir-se, mas foi contida pela amiga que a tranqüilizou
quanto à visita do Sacristão; ele pediu licença para conversar com
Loreta, pois vinha da parte do Monsenhor e trazia recado urgente.
Concedida a permissão, foi direto ao assunto e, dirigindo-se à
serviçal assustada, falou imperativo:
-Acompanhe-me até à casa Paroquial, pois o Monsenhor Fernandez
deseja falar-lhe sobre assunto de grande importância com a
urgência possível.
Loreta empalideceu. Lançou-se nos braços de Carmem, esboçou
resistência e retrucou quase desesperada:
Não, não irei. Carmem já está a par de tudo; irá em meu lugar, pois
é também testemunha de outras informações não menos sigilosas
que o Monsenhor precisa saber.
Diante da recusa e não tendo outra alternativa, o sacristão
aquiesceu, retornando em companhia de Carmem à Casa Paroquial.
Desde algum tempo o Monsenhor aguardava impaciente,
rodopiando desassossegado junto à sala de estar. Entraram ambos e,
ao notar a ausência de Loreta, o padre pressentiu que alguma coisa
não havia saído conforme planejara e, imobilizado pela surpresa
dolorosa, aguardou a fala do sacristão.
-Senhor -disse o auxiliar em tom respeitoso -não foi possível
convencer Loreta a vir ter com o senhor. Recusou-se sob a
justificativa de já haver confidenciado tudo à sua fiel amiga e
servidora da nossa Santa Igreja. Não sei do que se trata, mas insistiu
para que Carmem viesse em seu lugar, alegando que ela poderia
prestar-lhe valiosas informações a respeito de outros assuntos
também ligados à sua pessoa em particular.
O padre estremeceu; o que mais poderia saber aquela senhora a seu
respeito de ordem tão especial? Por via das dúvidas, agradeceu ao
sacristão e ordenou discretamente com um aceno de cabeça, para
que ele se retirasse.
Fernández procurou deixar a mulher mais à vontade, oferecendo-
lhe uma taça de vinho, o que ela recusou delicadamente e,
enchendo-se de coragem, falou com desenvoltura:
Freqüento a casa dos Gonzalez desde a infância de Cíntia, a quem vi
crescer; elegeu-me como sua confidente para os momentos difíceis
que, aliás, não têm sido poucos. Sabe o senhor o que significa para
uma mulher abdicar do próprio filho para consorciar-se com
alguém que não lhe\ dizia respeito ao coração?
Desde o princípio, eu já sabia da sua ligação com ela, . embora tenha
guardado segredo, sem jamais confidenciá-lo a ninguém. Apenas
Loreta mais tarde soube do fato, ' quando uma discussão acalorada
entre Dona Margarida e Dom Rodrigo, sobre o assunto, extrapolou
o limite da prudência. Cíntia, por essa e outras razões, não desejava
desposar Roselito, o que contrariava os interesses dos pais, . que
viam fugir a possibilidade de união das duas famílias mais
poderosas e tradicionais dessa região. Comove, Loreta, que já estava
a par dos acontecimentos anteriores, agora está muito apavorada,
pois a sua transferência para a casa dos Garcia, logo após os
esponsais, fê-la testemunhar o que de certa forma já sabia sobre o
escândalo da sua ligação com Cíntia. Dessa forma, acredito ser
muito difícil para ela dissimular a verdade quando tiver que se
explicar sobre as razões que a levaram a distanciar-se da casa dos
Garcia para onde não pretende mais voltar. Sua ausência,
injustificada e repentina, depois de tantos anos de fidelidade e
trabalho junto às duas famílias tradicionais, levantará muitas
suspeitas, pois....
-Basta, basta! -interrompeu ameaçador o autoritário Monsenhor. -
Ambas deverão permanecer caladas sob pena de excomunhão.
Quem acreditaria em vocês contra a palavra da Igreja, à qual
represento como Sacerdote a serviço de Deus na Terra?
Apesar do tom agressivo de suas palavras, Carmem não se
intimidou e, visivelmente inspirada, falou com serenidade:
-Infelizmente não posso mais continuar traindo a minha
consciência de mulher, pois Cíntia agora é casada e mãe de dois
filhinhos que precisam dos seus cuidados; além do que Roselito é
esposo e pai extremado e não merece a traição covarde que lhe está
sendo imposta pela sua ousadia, escudada sob o manto protetor da
Santa Igreja, à qual profanou.
O Monsenhor estava quase petrificado ante a coragem daquela
indómita mulher; mas antes que ela prosseguisse nas suas
admoestações, enrubescido de cólera, o padre interrompeu a sua
fala, vociferando:
-Cale-se, maldita herege! Como ousa desafiar a minha autoridade
clerical? Você não tem provas contra mim e ainda que se
mancomunasse com a infeliz Loreta, para acusar-me, de nada
valeriam os seus testemunhos para incriminar um representante da
Igreja.
E concluiu ameaçador:
-Caso intente em persistir nessa loucura, levá-las-ei às barras do
Tribunal do Santo Ofício por calúnia, perjúrio e difamação.
Mas a valorosa senhora, respirando fundo e mantendo, mais uma
vez, a calma, retrucou quase serena:
-Engana-se quanto à ausência de provas. O Bispo Argeu impôs
condições para a entrega da criança aos pais adotivos. Exigiu
documento autorizando a sua adoção, firmado pela sua verdadeira
mãe e pelos avós, dando conta da procedência da criança, arrolando
como pais, Cíntia Gonzalez e Fernando de Oliva, ao que me consta,
o seu verdadeiro nome. A providência objetivava, na eventualidade
de constatação futura, salvaguardar a legitimidade intercessora do
Bispo Argeu, que temia complicações posteriores quanto ao destino
da criança e a sua transferência desta Paróquia para Portugal.
Acometido de uma crise violenta, e em franco desvario, o padre
mordeu os lábios, cerrou os punhos e ameaçou esmurrá-la.
Entretanto, conteve o ímpeto, recuando ante à serenidade daquela
nobre mulher.
-É mentira! É mentira! -gritou estentórico, enlouquecido de fúria. Como
saber se não blefa? Se o documento fosse verdadeiro, teriam
aberto processo contra mim por ocasião da minha transferência para
Portugal.
-Não era conveniente -atalhou a mulher inteligentemente. -O
assunto, por mais sigiloso fosse, poderia extrapolar e assim
contrariar os interesses da própria Igreja, preocupada em preservar,
junto aos fiéis, a castidade do seu representante clerical.
-E o que a leva a supor que recuarei diante das suas ameaças?
-O seu bom senso -rebateu prontamente. -Qualquer represália de
sua parte desencadeará nossa imediata reação; as provas
concludentes, à disposição nos arquivos sacros da Igreja, serão as
testemunhas em nosso favor.
Respaldada em provas documentais, só restou ao !vo Monsenhor o
recuo estratégico, concluindo com sagacidade e afetação:
-Volte em paz para casa e tudo ficará bem. Nada lhe acontecerá,
desde que fiquem caladas, pois de minha parte prometo não mais
molestar Cíntia, está bem assim?
-De acordo -respondeu satisfeita com o desfecho do diálogo. Saberei
convencer Loreta a permanecer calada. Quanto ao seu
retorno, verificarei o que posso fazer, pois ela fala em transferir-se
para Barcelona para a casa de parentes; acredito que esta
providência seria mais recomendável, ficando distante daqui e ao
abrigo dos mexericos locais.
Finalmente despediram-se, com a intimidade de velhos amigos,
selando um acordo que não poderia fracassar.
***
À tardinha, algumas horas antes da missa, Cíntia foi até a Casa
Paroquial, pois desejava informar-se sobre o que ele havia decidido;
entretanto, ao saber dos detalhes sobre o acordo pactuado,
perguntou aflita:
-Quem poderá garantir o silêncio de Loreta? E que justificativa
darei ao meu marido sobre o seu repentino abandono do emprego?
Além do mais, mesmo que tudo se acomode, não sei como poderei
doravante viver distante de ivocê, pois seremos constantemente
vigiados e qualquer Ireaproximação será motivo de desconfiança e
traição.
Acalme-se, mulher! Tenho algo em mente, que por agora não lhe
posso revelar. Nosso afastamento será temporário; garanto-lhe que
nada prevalecerá sobre os nossos interesses apaixonados; na
hipótese de Loreta recusar-se a voltar, Carmem saberá dissuadi-la
de denunciar-me, pois estaria também em jogo a reputação dos
Gonzalez, família por quem ela nutre reconhecida gratidão. Quanto
à sua saída, não será difícil justificar;
Loreta, pela sua idade avançada, vem apresentando problemas de
saúde, o que já é do conhecimento geral. Sob esse pretexto,
instruiremos Carmem para orientá-la a decidir-se pela sua mudança
para Barcelona, onde residem alguns de seus familiares.
Confiante nas providências de Fernandez, Cíntia deixou a Casa
Paroquial mais aliviada. Guardava a esperança de ainda poder fruir
aquele amor proibido, cuja paixão ia eclipsando devagarinho a sua
consciência, quanto ao dever, a responsabilidade e os
compromissos do lar.
VI
Intrigas e perseguições
Finalmente Roselito e a sua comitiva retornaram e a programação
dos festejos seguiu o seu curso normal, com a rotina de trabalho
restabelecida; à medida que o tempo passava, aumentava a
expectativa para a grande comemoração, em homenagem à Santa
Eulália, a padroeira de Barcelona, que jurisdicionava a Diocese
local.
Alguns dias antes do grande evento, a comissão se reuniu para
tratar dos assuntos pendentes e Roselito, como seu presidente,
discordou em rediscutir alguns pontos de ordem organizacional.
Estabeleceu-se, então, acalorada discussão que ganhou corpo, do
que se aproveitou o ardiloso Monsenhor para, capciosamente,
alimentar a contenda. Carmelo Ortega, figura carismática do
Movimento Religioso da cidade, ganhou o aval do astucioso padre,
fazendo prevalecer o seu ponto de vista. Irritado, Roselito perdeu o
controle emocional e se exasperou, insurgindo-se com palavras
acres contra Carmelo, que, por extensão, atingiram também ao
Monsenhor; era o que este, no fundo, desejava havia, finalmente,
alcançado o seu intento e, aproveitando-se da ocasião, falou com
aspereza:
-Chegamos num impasse, onde a intransigência de Roselito não
permite avanço nas discussões. Assim, opto pelas mudanças
propostas por Carmelo Ortega e dou por encerrada a reunião.
A decisão tinha um objetivo muito claro. Desautorizar Roselito e
esvaziar o seu poder de decisão no evento religioso mais importante
da cidade. Humilhado, ele retirou-se cabisbaixo, nascendo, a partir
daí, perigosa rusga no seu relacionamento com o Monsenhor.
Logo em seguida foram tomadas as providências relacionadas com
as sugestões de Ortega.
A decoração da Igreja seria redimensionada com a mescla de
adereços regionais e os trazidos de Barcelona, cabendo agora às
subcomissões o privilégio da escolha dos paramentos e da
ornamentação dos andores. O trajeto do cortejo sofreria alterações
na sua programação inicial, sendo . este, aliás, o ponto mais
delicado da acirrada discussão, que acabou por levar Roselito ao
afastamento definitivo da Igreja pastoreada pelo Monsenhor.
Cíntia aguardava, apreensiva, o retorno do esposo; embora a
reunião fosse apenas para tratar de assuntos administrativos da
Igreja, estava preocupada. O padre sabia como ninguém criar
situações embaraçosas para fazer prevalecer seus interesses
pessoais. A chegada do marido, ela percebeu, na sua expressão de
desagrado, que alguma coisa havia saído errada, por isso aguardou
respeitosa que ele se pronunciasse; mas depois de alguns minutos
de angustiante expectativa, e sucumbida pela impaciência da
curiosidade, quebrou o silêncio que anuviava o ambiente carregado
de pesadas vibrações e perguntou:
-Meu bem, o que aconteceu na reunião que o faz tão acabrunhado?
Acaso se indispôs com Carmelo Ortega sobre aquelas modificações
de caráter organizacional que conversamos antes da sua saída?
-Sim -respondeu secamente, guardando evidentes sinais de mágoa
na expressão mortificada.
-Mas, afinal, qual foi o desfecho da reunião e a posição do
Monsenhor? Ao que me consta, ele era favorável à programação
inicial.
-Sim, é verdade -considerou contristado -mas agora,
inexplicavelmente, ele cedeu aos argumentos de Carmelo para
modificações de última hora, quando eu já havia até promulgado a
programação oficial. Critiquei e rebati veementemente o seu apoio
às sugestões de Carmelo, o que foi interpretado à conta de
desrespeito à sua autoridade religiosa, optando pelo encerramento
do assunto sem maiores explicações. Pelas humilhações sofridas,pedirei
o meu afastamento da comissão de festejos e aos poucos
abandonarei também a Igreja da nossa cidade enquanto estiver à
sua frente o Monsenhor.
-Não, não faça isso -aparteou a esposa temerosa, prevendo
desdobramentos funestos com a atitude precipitada do marido.
-A minha decisão já está tomada -retrucou contrafeito. -Fui
humilhado e desconsiderado depois de tantos ano_s dedicados aos
serviços da Igreja, a quem também tenho ofertado polpudos
donativos.
E dando a entender que o assunto estava encerrado quanto à
decisão tomada, Roselito recolheu-se no quarto, visivelmente
contristado. Nesse clima de revolta íntima, as festividades chegaram
sem que ele comparecesse uma só vez à Igreja para a costumeira
comunhão. Logo depois dos festejos, o padre rumou
apressadamente para Barcelona, a fim de prestar contas junto ao
Bispo da sua Diocese sobre o êxito das comemorações. Aí, valendo-
se de velhas amizades, conseguiu acesso aos arquivos confidenciais,
localizando, nos registros sacros, Q documento comprometedor.
Todavia, mais de cinco anos já haviam se passado e, além do que,
com a morte do Bispo Argeu, aproya__documental já não tinha
mais valor.
Após explicar-se com o seu Superior sobre os motivos da sua
inquietação, não foi difícil convencê-lo a entregar-lhe o documento
para destruição, até porque ele só interessava ao Bispo, agora
falecido, para a salvaguarda da sua intermediação no processo da
adoção.
O plano maquiavélico, arquitetado pelo sinistro Monsenhor,
ganhava agora cores vivas, em pinceladas diabólicas, prenunciando
episódios de dor,
***
Tão logo ele retornou à cidade, Carmem foi convidada a comparecer
às dependências da Casa Paroquial; sem desconfiar de nada, ela
atendeu prontamente ao seu chamado, sendo recebida pelo padre
em presença do sacristão; sem dizer palavra, o Monsenhor sacou o
documento comprometedor, destruindo-o bem à sua frente e, com
um sorriso sarcástico, falou com ironia triunfal:
Da última vez que conversamos, o sacristão foi testemunha das suas
acusações; ele estava próximo à sala, na biblioteca ao lado e pôde
ouvir tudo com detalhes.
E dirigindo o olhar interrogativo ao submisso auxiliar, Perguntou-
lhe:
-Não é mesmo?
Com um meneio de cabeça, o sacristão consentiu, exclamando:
-Sim, é verdade, meu Senhor, é verdade!
-Pois então -voltou a considerar, irritadiço -com a destruição deste
documento, a sua acusação não terá mais sustentação e converter-
se-á em grave delito, passível de excomunhão por perjúrio, calúnia
e difamação.
Ao tempo em que a senhora ouvia tudo, lívida e petrificada, ele
concluiu em tom ameaçador.
Recomendo-lhe que deixe a cidade o mais breve possível, pois não
suportarei mais a sua indesejável presença nesta comunidade.
E arrematando, concluiu com arrogância:
-Aproveite para penitenciar-se e evadir-se daqui enquanto dura a
minha complacência.
Levantou-se, tomou as mãos trêmulas de Carmem e falou com
jronia;
-Deus a abençoe, mulher infeliz, e que Ele acompanhe os seus
passos desditosos.
Chocada pelas revelações dos fatos novos, Carmem retirou-se sem
nada dizer, desaparecendo do povoado dias depois, com a intenção
de nunca mais voltar. A.gora, o obcecado Monsenhor poderia
continuar investindo livremente sobre Cíntia, embora o afastamento
de Roselito das atividades da Igreja dificultasse a sua
reaproximação ida casa dos Garcia como fazia anteriormente.
Como, então, Ireatar o amor proibido do qual não conseguia se
libertar?
Influente com o novo Bispo, buscou o aconselhamento do Superior,
dizendo-se vítima de boicotes do próspero fazendeiro, que agora se
negava a contribuir com os cofres-— da Igreja. Sugeriu, em
represália, a retirada do apoio das demais paróquias subordinadas
àquela Diocese, dificultando-lhe, assim, o tráfico de influências nas
suas transações comerciais. Infelizmente, a realidade dos fatos não
era do total conhecimento do novo Bispo, que poderia ter evitado a
precisão odiosa proposta pelo ardiloso Monsenhor. A providência,
determinada por Velasquez, foi tomada com rapidez e, sem o apoio
da Igreja, os negócios da família, para seu desespero, começaram a
fenecer. Para suprir essa lacuna, Roselito agora era obrigado a
ausentarse da cidade, em viagens de períodos prolongados.
Atingido o seu objetivo, o padre aproveitou-se da ocasião e da
fragilidade moral de Cíntia, agora carcomida peja paixão
desenfreada, para propor-lhe o concubinato. Embora resistisse
poralgum tempo, ela acabou sucumbindo, justificando, à sua
consciência culpada, as ausências prolongadas do marido
indiferente. Durante alguns meses eles conseguiram dissimular o
romance proibido, mas as bisbilhotices, próprias daquele pequeno
povoado, não permitiram escondê-lo por muito tempo;
rapidamente o escândalo instalou-se na cidade e, ao tomar
conhecimento do fato, seu velho pai, que já estava muito doente,
não resistiu; vitimado por um ataque do coração, morreu
amaldiçoando a memória do Monsenhor. Sua mãe enlouqueceu,
sendo recolhida por almas piedosas para tratamento confinatório
especializado; seus sogros romperam relações com a nora
desalmada, abominando-lhe a existência; e, finalmente, seu marido,
premido pelas I dificuldades financeiras e agora abandonado pela
própria mulher, suicidou-se, deixando os filhos órfãos, aos cuidados
de seus pais.
Denunciado pela comunidade religiosa da cidade, o padre infiel foi
transferido de volta para Portugal, onde permaneceu no ostracismo
até os seus dias finais. Cíntia, arrependida, internou-se num
mosteiro, dedicando-se às atividades religiosas do convento e ali
permaneceu até a sua morte. Isso foi, em resumo, tudo quanto pude
observar da minha existência pregressa.
***
Talvez poupado pelo nobre benfeitor, que me assistia de perto nas
reminiscências do passado, não me tenha sido dado acompanhar os
pormenores finais daquela existência infrutuosa. Após as
elucidações do sonho enigmático, os motivos da nossa separação
começavam a fazer sentido. O tempo ainda me propiciaria
testemunhos de vulto que somente a continuidade do trabalho, na
ação do bem, seria capaz de libertar-me do passado desditoso para,
finalmente, almejar a verdadeira libertação.
Enquanto meditava, fui chamado delicadamente de volta ao
presente pela voz suave do querido benfeitor.
-Fernando, meu filho! A Divina Misericórdia vem propiciando, em
sucessivas existências, o resgate gradativo dos seus pesados débitos.
Se lograr êxito nessa etapa decisiva da sua vida presente, alcançará
finalmente o galardão da vitória final, mas para isso, ainda terá que
enfrentar ríspida. prova, a fim de aprender a valorizar o direito
alheio de ser feliz.
Somente depois poderá fruir o amor anelado, que você converteu
em fel envenenado para si mesmo, vitimando
^ aqueles a quem deveria ter conduzido para o aprisco do Senhor.
Dessa forma, não desista do trabalho que vem encetando gm favor
do próximo, pois ele é o único.antídoto capaz de converter os
pecados em virtudes luminosas para o sucesso do porvir.
Aquelas palavras, ditas com tamanha inflexão de bondade,
impressionaram-me de tal forma que não resisti e, sensibilizado,
chorei de emoção.
Despertei no corpo denso sem registrar, com muita clareza, as
recomendações do amorável benfeitor. Todavia, estava agora mais
confiante e aliviado para dar continuidade ao trabalho inadiável na
vinha do Senhor.
VII
Expectativas de novas esperanças
As minhas atividades no terreno do intercâmbio mediúnico
continuaram ininterruptas, a par dos trabalhos na Instituição, onde
atuava junto aos companheiros de ideal. Os desdobramentos em
serviço jamais sofreram solução de continuidade. Assistido de perto
pelo benfeitor amigo, sempre encontrava tempo para buscar
solucionar também os meus problemas do passado. Agora, mais
tranqüilo, trabalhava coni afinco para a redenção do meu pobre,
Espírito devedor. Objetivava, esperançoso, quem sabe um dia,
reencontrar a mulher amada. Entretanto, pelas informações colhidas
junto ao nobre benfeitor, a nossa união ainda não se daria na
presente encarnação; todavia, o suplício do distanciamento
temporário era atenuado pela certeza consoladora de um futuro
feliz. Nessa expectativa, continuava com os afazeres do meu
modesto trabalho no terreno das atividades mediúnicas e
assistenciais na Instituição a que me filiara até que, certa feita, fui
convidado a excursionar, em companhia de irmãos de outros
núcleos espiritistas a uma colônia de hansenianos, a fim de levar
àqueles irmãos infortunados, além de recursos materiais, a
solidariedade fraterna do amor cristão. As equipes se reuniam nas
dependências da própria colônia, quando então era feita uma prece
preparatória para as atividades assistenciais. Antes, porém, sempre
ocorriam as apresentações entre os integrantes novos das várias
equipes, num clima favorável de verdadeira confraternização cristã.
Foi nessa ocasião que tive a oportunidade de conhecer uma jovem
senhora, que fez bater mais forte o meu coração.
-Fernando -disse-me o coordenador do grupo ao qual eu pertencia
-quero apresentar-lhe Priscila, colaboradora assídua e valorosa
deste trabalho, que vem prestando a sua cooperação em favor das
nossas atividades assistenciais nesta colônia. Faz parte de um
agrupamento irmão, integrante da equipe geral, que desde há muito
colabora na realização desse trabalho socorrista em prol dos
necessitados desta colônia de purgação.
A jovem senhora corou meio encabulada ante as referências
elogiosas do coordenador e, estendendo a sua mão na minha
direção, considerou:
-Muito prazer em conhecê-lo. E dirigindo o olhar para ele, falou em
tom respeitoso: -Quanto às considerações elogiosas a meu respeito,
devo mais à sua benevolência, do que a méritos que reconheço
ainda não possuir. Cumpro tão somente com o meu dever cristão e
agradeço a Jesus Pela divina concessão deste trabalho, que me ajuda
no resgate das próprias faltas.
Ao tocá-la, no gesto simples de um aperto de mão, senti um suave
frêmito de encantamento que me desconcertou diante daquela
mulher singular.
Muito prazer -respondi, por minha vez, deveras encabulado. -Eu
também desejo que esta oportunidade de trabalho_ seja favorável à
própria regeneração. Assim, espero corresponder à expectativa
daqueles que avalizaram a minha tarefa no campo da assistência
fraternal.
Desejava prolongar a conversação, mas fomos chamados ao
trabalho pelo nosso coordenador. Reunidos os grupos, o irmão
Luquini chamou para si a feitura da prece e, com simplicidade, deu
início à oração:
-Senhor Jesus! Digna-Te atender a nossa súplica, pelo ensejo do
trabalho, em favor dos que sofrem, fustigados pela dor. Agraciados
pela prodigalidade do Teu desvelado amor, ajuda-nos a superar os
obstáculos das nossas próprias limitações, aquietando-nos as
agitações íntimas, para que possamos socorrer e amparar, com mais
proficiência, os nossos infortunados irmãos. Dilata-nos, Celeste
Amigo, os horizontes das nossas percepções, a fim de aprendermos
a cooperar Contigo, seniexigências, em prol dessas almas sofridas,
que purgam a dor de dolorosa expiação. Sejamos nós, os irmãos
consoladores, a insuflar-lhes, na acústica das suas almas doridas, a
mensagem branda da esperança na expectativa de um novo e feliz
porvir. Que as Tuas bênçãos, como chuva dadivosa, desçam sobre
todos nós hoje e sempre. Muito obrigado, Senhor!
A resposta Celeste não se fez esperar. Uma onda vigorosa de alegria
explodiu em nosso peito; o esforço sincero de servir a Jesus
compensava-nos sobejamente, pelas carícias da paz que preenchiam
agora os nossos corações. Silenciosos e meditativos, pusemo-nos a
caminho do trabalho, demandando as enfermarias, sob a
coordenação ido servidor e dedicado irmão.
Durante os meses que se seguiram, as visitas de trabalho socorrista
continuaram ininterruptas, sem que eu deixasse de comparecer uma
só vez àquele reduto de dor.
Entrementes, percebia que Priscila despertava-me singular interesse
afetivo, no que também parecia correspondido. Entretanto, com o
passar do tempo, um sentimento mais forte foi ganhando
proporções assustadoras, pois sendo ela casada e com família
constituída, o fato passou a exigir de nós constante vigilância para
manter nossa amizade e o respeito mútuo, sem prevaricarmos. O
tempo passava, fazendo-me supor que essa relação de amizade
tinha alguma ligação com o sonho do passado. Foram momentos
difíceis para o meu testemunho, conforme mais tarde pude avaliar.
Continuar a tarefa sem me deixar arrastar pelo torvelinho da paixão
era agora o meu grande desafio. Censurado pela própria
consciência, distanciava-me cada vez mais de Priscila, esperando o
tempo passar e depositando nas mãos de Deus minha irrestrita
confiança no futuro, certo de que, qualquer invigilância de minha
parte poria a perder a experiência presente e a possibilidade da
minha regeneração. Dessa maneira, procurava ater-me às tarefas
assistenciais e mergulhava fundo nos estudos da Doutrina Espírita,
o que de certa forma propiciava alívio e alento temporários ^ojrieu
Espírito devedor. Auxiliado de perto pelos benfeitores espirituais
que avalizaram a minha presente encarnação, consegui superar os
ímpetos das primeiras horas, estabelecendo entre nós uma sólida e
fraternal amizade, que foi ganhando corpo à medida que nos
engajávamos nas tarefas assistenciais de socorro aos nossos irmãos
necessitados.
VIII
O automatismo da Lei
As atividades no Núcleo Espírita onde laborávamos, expandiam-se
gradativamente e, talvez, alavancadas pelos esforços que
imprimíamos ao trabalho sob a nossa responsabilidade, os demais
companheiros do grupo desdobravam-se igualmente na tarefa do
bem, fazendo uma vez ou outra, referências elogiosas a nosso
respeito, que sabíamos não merecer. Quando as forças me traíam,
buscava refúgio na oração, onde sempre encontrava guarida e
consolo para as horas mais difíceis da minha presente encarnação.
Às vezes, as reminiscências daquele passado distante remexiam
fundo na minh'alma dorida.
Passado algum tempo, Priscila engravidou e, embora acompanhada
de perto pelo médico que a assistia, deu à luz um bebê
estigmatizado por deficiências múltiplas, o que a todos constrangeu,
apesar das nossas convicções espiritistas na Lei de Causa e Efeito
estatuída pelo Criador. Sem saber o porquê, aos poucos minha alma
foi recuando no tempo, dando-me ensejo a desagradáveis
apreensões, pois tinha um pressentimento de estar vinculado àquela
criança pelos elos do passado. Priscila, embora constrangida,
desdobrava-se nos cuidados com o filho, inspirada nos
moldes do nosso hospital, que abrigava crianças órfãs, acometidas
da mesma problemática, em regime de internação. Apesar de
inspirar cuidados especiais, o pequeno Ricardo recebia tratamento
no próprio lar pelo carinho desvelado da extremada mãe.
08,31108 escoavam devagar na ampulheta do tempo, sem que eu
encontrasse explicação lógica para a minha suposta vinculação com
aquela desventurada criança, quando, certa noite, depois dos
labores mediúnicos da nossa Casa espírita, recolhi-me mais cedo ao
leito e, após longa meditação, orei; senti-me desprender do corpo
físico em repouso e, já "no limiar do etéreo", fui recebido pelo
querido padre, que me convidou a segui-lo até a Colônia espiritual
de onde procedia meu Espírito endividado, agora comprometido
com as tarefas do bem. Após as atividades costumeiras dó serviço
em desdobramento, levou-me até o seu gabinete e, diante da minha
natural curiosidade, esclareceu com bondade:
-Meu filho, a Misericórdia Divina cuida sempre de preservar
nossos interesses espirituais, quando merecemojs tal concessão.
Como a maioria dos encarnados, você não vê, no caso em tela, senão
uma pequenina nesga da trajetória desse Espírito que, pelo
automatismo da Lei, busca a reconciliação com a própria
consciência; acolhido pelos braços amorosos de Priscila e assentado
como Ricardo Dantas, ele nada mais é do que o próprio Roselito, o
marido, traído por Cíntia, com a sua infeliz participação; retornou
ao palco da vida na Terra para resgatar pesado débito, como
conseqüência do suicídio tresloucado, motivado pela traição.
A pausa foi proposital, dando azo a que eu pudesse meditar sobre o
porquê do meu afastamento temporário dePriscila e a necessidade
do nosso reajuste no soerguimento daquele Espírito inditoso.
Notando o meu natural constrangimento, o benfeitor esclareceu
com bondade:
-Não se apoquente, meu filho, pois a Misericórdia do Pai é infinita
nas possibilidades de nossa recuperação; tenho certeza de que
encontrará fjorças novas para superar, mais uma vez, o obstáculo
que ora se antepõe ao seu anseio de ser feliz, uma vez que as
reencarnações intermediárias à presente existência possibibtaram
lhes o resgateparcial, das suas faltas, preparando-os, no presente,
para o coroamento da redenção. Logo mais,você defrontará
também com a mãe de Cíntia que, infelizmente, morreu,
enlouquecida em tratamento confinatório.
Fiquei estupefato! As informações colhidas no gabinete do instrutor
atingiram-me qual um raio devastador e, percebendo a dor íntima
que calcinava a minha alma, deu conotação diferente à sua fala e
arrematou com um acento de ternura paternal:
-O esclarecimento, meu filho, quando desprovido da esperança,
pode provocar dor irreparável em nossa alma e por isso mesmo, o
ensejo de soerguimento desses Espíritos comprometidos, como você
mesmo, no passado distante, não lhes faltará. E dessa forma que a
pluralidade das existências, mais conhecida como reencarnação,
propicia sempre abençoada oportunidade de recomeço às almas
sinceramente arrependidas e desejosas de se redimirem. Mesmo
para as que ajam acomodadas no distanciamento de Deus, a Lei
fatalista do Progresso Universal fá-las, um dia, despertarem para o
Criador, purificando-se. através dos renascimentos sucessivos,
ainda que impelidas pelo estímulo da dor.
As advertências, consubstanciadas nos esclarecimentos à luz da
Doutrina Espírita, mas relembrados com tamanha inflexão de
bondade, faziam-me enorme bem ao coração, caindo sobre mim
qual bálsamo consolador, abastecendo-me com energias novas para
o enfrentamento das pelejas porvindouras. E dando seqüência à sua
fala, o querido amigo concluiu com a lucidez costumeira:
_Como compatibilizar a Justiça Divina comparando os que gozam
saúde perfeita na Terra com os que vivem num corpo-prisão?
As considerações finais do amorável instrutor levavam-me a refletir,
com maior profundidade, na Sabedoria Divina ao estatuir a
pluralidade das existências, como forma de fazer cumprir a Lei do
Progresso e do Amor. Embora sem guardar nítida lembrança do
desdobramento em questão, despertei ao corpo físico mais aliviado
e aproveitei para agradecer a Deus a oportunidade de servir na
Terra como forma abençoada de alcançar, um dia, a tão sonhada
redenção.
IX
Novas Etapas
O tempo corria célere e nossos trabalhos, fundamentados na boa
vontade de servir, começavam a dar os primeiros frutos, cujo êxito
atribuíamos sempre a Jesus sem o qual todo trabalho se definha na
personificação do eu.
Certa feita chegou-nos, para atendimento, uma criança de
aproximadamente três anos de idade, cujos pais, depois de alguns
meses, desapareceram sem deixar vestígios, abandonando a
pequena sob os cuidados da nossa Instituição. A garota exercia
sobre mim um fascínio inexplicável; embora ela não alimentasse
sentimento idêntico para comigo, o fato é que, com o passar do
tempo, inspirado pelos benfeitores espirituais, eu acabei por adotá
la. Enquanto isso, Priscila labutava igualmente com seu filho no
reduto do próprio lar, sem prejuízo das atividades que exercia na
Instituição, onde laborávamos como voluntários. Talvez, por essa
razão, nossos sentimentos de solidariedade recíproca estreitavam-se
cada vez mais, propiciando-nos haurir as forças necessárias para
levarmos avante nosso projeto de redenção. Entretanto, mais uma
vez, a adversidade pareceu bater à sua porta delineando-se, então,
um quadro inquietante quanto à saúde do marido, pois Aníbal fora
acometido de enfermidade grave, cuja doença avançava pertinaz,
sem perspectiva de cura. Priscila procurou-me, externando sua
preocupação com a possibilidade de uma viuvez precoce, face aos
encargos com os filhos que ficariam sob sua custódia, para
completar-lhes a educação.
-Sabe -falou de certa forma resignada -o Espiritismo tem sido a luz
que projeta claridade em meu caminho, sem o qual, o testemunho
que tenho vivenciado, cedo teria se convertido em revolta e aflição.
Compreendendo o drama daquela nobre mulher, dedicada
servidora da Causa Espírita, aparteei presto:
-Minha cara Priscila, tenha coragem! A fé resignada saberá
converter o doloroso episódio em precioso testemunho de
fidelidade aos desígnios do Criador. Pressinto— que o êxito desta
existência é muito importante para nossas— almas proscritas, face
aos erros que suponho termos praticado no pretérito insondável,
pois é chegado o momento do grande testemunho e não podemos
perder de vista a confiança na Bondade Magnânima do Senhor.
Notei que ela se acalmou, talvez acalentada pela vibração de
esperança que fruía fácil da minha palavra inspirada; eu não falava
simplesmente como um companheiro de Doutrina, mas como
alguém que a amava intensamente, embora respeitando a sua dor e
o lar que vinha edificando com tanto sacrifício. Os prognósticos se
confirmaram porque, passados três meses. Aníbal veio a
desencarnar numa tarde de domingo, constrangendo a todos nós da
comunidade espírita cristã. Depois desse episódio desagradável,
Priscila voltou à sua rotina habitual, esforçando -se para adaptar-se
à nova vida, no comando
administrativo do lar. Por minha vez, sempre que podia, colaborava
com a companheira nas atenções a Ricardo, que aos doze anos de
idade, pelas características da sua enfermidade, passou a exigir
cuidados especiais. Também eu enfrentava dificuldades de monta
para desempenhar as atividades na Instituição onde militava,
cuidando também da pequena Suzana e das obrigações cotidianas
do lar. Talvez por essa razão, aproximava-me cada vez mais de
Priscila, embora a vigilância imposta sobre mim mesmo se
constituísse, agora, no antídoto para evitar idêntica derrocada como
a acontecida no passado distante.
***
A vida prosseguiu, com a rotina dos trabalhos inalterada. Na
verdade, já por vários meses, eu aguardava ansioso alguma
orientação do querido instrutor quanto à minha ligação afetiva com
aquela família, particularmente com Priscila, que exercia sobre mim
um fascínio-inexplicável; depois de algum tempo de ansiosa
expectativa, sem que eu ousasse levantar a questão, o benfeitor veio
até mim, anunciando com bondade:
Meu filho! Finalmente fui autorizado a revelar mais alguns lances
da sua vida pregressa. Sugiro-lhe buscar, na prece, o equilíbrio
necessário para suportar as fortes emoções que, por certo, advirão
da sua incursão no passado-De fato, depois de algum tempo,
pesquisando as informações sobre o meu passado, firmadas nos
registros do astral em caracteres luminosos, deparei-me,
surpreendido, com uma anotação inusitada. Resgate parcial, 30 de
abril de 1895. Intrigado, dirigi o meu olhar de indagação ao querido
instrutor, ao que ele se apressou em explicar.
-Essa existência, que precedeu a atual, foi muito significativa para
suas almas, sendo o marco inicial de abençoado resgate junto aos
Espíritos com os quais se comprometeram em época ainda mais
recuada. O desmoronamento de. um lar, nela prevaricação, e a
traição aos sagrados princípios da Igreja, resultaram em degredo
temporário para suas almas, impedindo-os, até hoje, de fruir o amor
que tanto anelavam.
-Mas -interrompi de certa forma gpntrafeito -por que, então,
ainda estamos separados?
Calma, calma -contrapôs bondoso -logo você adentrará, em
detalhes, nos meandros dessa existência quase apagada da sua
memória. Oportunamente reiniciaremos a experiência, para que
retire dela as preciosas lições que forrá-lo-ão contra os perigos das
tentações presentes.
O tempo passava, e os trabalhos em desdobramento continuavam
em ritmo acelerado, o que me dava guarida, para suportar os
momentos mais difíceis da minha provação.-Apesar da curiosidade
incitar a minha alma, eu não me atrevia a questionar o querido
benfeitor, aguardando, apreensivo, o desenrolar dos
acontecimentos. A medida que minha ansiedade aumentava,
alguma coisa trabalhava-me a intimidade para ir-me acostumando à
renúncia sobre o amor de Enscjla, muito embora, em estado de
vigília, eu não tivesse exata consciência de nossa ligação passada,
nos moldes pgsquisados em desdobramentos.
X
Amargas recordações
Certa noite, depois das orações habituais, adormeci, com a
impressão de ser aguardado, em desdobramento, o que de fato
aconteceu, pois o benfeitor já me esperava para dar início às
experiências que há tanto tempo eu acalentava.
-Meu filho -falou em tom de austeridade conforme prometido,
reiniciaremos hoje a sua incursão no passado, lembrando que o
aproveitamento das experiências transatas dependerá, sobretudo,
do seu esforço equilibrado no controle das emoções. Buscará, então,
nos refolhos da própria alma, as reminiscências adormecidas,
trabalhando o presente, em preparativos para o roteiro futuro.
Emocionado, não me atrevi a formular questionamentos, embora
mil interrogações aflorassem à minha mente; aguardei em silêncio
respeitoso as providências finais, que começavam a ser
diligenciadas em meu favor. Chegando à Colônia, dirigimo-nos,
incontinenti, ao Departamento de Recursos Magnéticos, para ser
providenciada a ampliação da minha visão e percepção espirituais.
Todos os trabalhadores dos dois planos de ação, interessados na
tarefa do intercâmbio, tinham acesso aos benefícios propiciados por
esse inusitado Departamento. Após ligeiras intervenções,
ministradas por especialistas no assunto, percebi que dos meus
olhos caíam como que escamas, desobstruindo parte da minha visão
espiritual embaciada pela influência da matéria, à qual ainda me
encontrava ligado pelos elos impositivos da encarnação. Depois, fui
encaminhado a uma sala ao lado, aparelhada com sofisticados
equipamentos, ainda desconhecidos para mim. Acomodado numa
poltrona confortável, foi colocado sobre minha cabeça um capacete,
ligado a delicados e tenuíssimos fios conectados num aparelho de
painéis luminosos, que facilitavam o controle da operação.
A providência -explicou o benfeitor -também é — utilizada para
despertar a consciência adormecida dos Espíritos culpados,
cristalizados no mal pelo sentimento de vingança: tem por objetivo
recordar-lhes o passado de erros e submetê-los ao arrependimento e
ao perdão.
-Enquanto ouvia atento as preciosas considerações do amigo
instrutor, seus auxiliares providenciavam os reparos finais para a
minha friagem interior. Antes, porém, aventurei-me a perguntar:
Querido padre, por que preciso agora deste intrincado
equipamento, quando da vez primeira bastaram apenas os recursos
da sua bondade magnânima?
Percebendo-me o desapontamento embutido na interrogação, a
explicação não se fez esperar e veio clara e objetiva:
Na experiência anterior você apenas abservou, mas agora
participará também dos episódios emocionais que marcaram
aquela existência conturbada, cujas chagas— morais ainda não
foram totalmente cicatrizadas. Leve-se também em consideração,
que a proximidade dos— acontecimentos ali vividos com a atual
encarnação, poderão provocar turbulências insuportáveis para a sua
alma, ainda inexperiente para o confronto com as grandes emoções.
Logo em seguida, utilizando-se dos sofisticados equipamentos, o
benfeitor deu início à regressão. Fui acometido por uma espécie de
vertigem, e a impressão que tive era a de ter sido tragado por
poderoso remoinho. Perdi a noção de espaço e de tempo e, ao
ganhar lucidez, vi-me localizado numa cidade de médio porte, com
os meus vinte e cinco anos de idade, aproximadamente. Estava
enamorado de bela jovem, e por ela era correspondido. O
casamento constava de nossos planos, mas para desencanto das
nossas pretensões, o preconceito social impossibilitava a nossa
união, pois ela pertencia à linhagem de nobre e tradicional família,
enquanto eu trabalhava como balconista de uma loja comercial
vendendo quinquilharias, sem profissão definida para garantir um
futuro brilhante às pretensões de uma jovem sonhadora. Seus
genitores, favorecidos pela fortuna, gozavam de excelente conceito
na sociedade local e por isso mesmo repudiavam o namoro de sua
filha com quem, no seu conceito materialista, nada de concreto lhe
poderia ofertar. Mesmo assim, Celeste buscava, inutilmente, dobrar
a intolerância preconceituosa dos seus pais, embora essa
intransigência, paradoxalmente, pela necessidade de apoio mútuo,
fortalecesse nossa aproximação. Sem a expectativa de anuência para
os nossos interesses afetivos, resolvi dialogar; pedi a Celeste que
intermediasse esse encontro e, no dia combinado, compareci à sua
casa, sendo recebido com certa indiferença pelos seus pais que,
embora a contragosto, concordaram em ouvir-me. Tomando a
iniciativa do diálogo, dirigi-me diretamente ao pai da moça e falei
encorajado:
-Senhor Romualdo! Não deve ser do seu total desconhecimento
que eu e Celeste estamos enamorados e desejamos oficializar o
nosso noivado tão logo nos conceda a sua honrosa permissão.
Embora há muito desejasse falar
-sobre este assunto, somente agora, tomado de coragem, resolvi
procurá-lo para rogar a sua indispensável concessão.
Animado, ia continuar a minha fala, mas vi na sua expressão de
desagrado a contrariedade indisfarçada, que inibia o avanço das
minhas considerações. Percebendo-me o constrangimento, o pai da
moça aproveitou-se da pequena pausa para interromper-me
grotescamente:
-Não! Não cederei a mão de minha filha a um homem que nada de
concreto lhe possa oferecer.
Y-Ele falava de modo a entender que a posição social, favorecida
pela abastança dos recursos amoedados, fosse imprescindível à
felicidade de sua filha. Percebendo isso, aproveitei para atalhar,
quase desesperado diante da sua negativa, contrapondo:
-Mas senhor, tenho um trabalho digno e honrado e posso, sim,
oferecer a Celeste um padrão de vida razoável até conseguir melhor
colocação.
-O pai da moça parecia não me ouvir, tal o estado de alienaQão em
que se encontrava e, perdendo a compostura, retrucou colérico:
-Não insista! Basta! Jamais permitirei a união da minha filha com
um medíocre -e retirando-se bruscamente da minha presença, deu
a entender que o assunto estava definitivamente encerrado.
Aquelas palavras ofensivas tocaram fundo a minha dignidade
humana; embora pobre, eu era pessoa honrada e aumentava
propósitos sinceros a respeito de Celeste, a quem amava e por ela
também era correspondido. Com o amor prórprio ferido, despedi-
me, sem disfarçar a contrariedade que fustigava a minha alma.
Retirei-me extremamente magoado pela insensatez preconceituosa
daquele homem desalmado, que trabalhava em desfavor dos nossos
mais puros ideais. Alimentado pela revolta e com a mente em
desalinho, propus-lhe um plano de fuga,— imaginando poder
contar de pronto com a decidida concordância de Celeste, mas, para
aumento do meu desencanto, ela cpntrapôs-me, questionando:
-Mas como viveremos? Aqui não poderíamos mais ficar e, no caso
de partirmos, quais seriam as nossas chances de sobrevivência para
a construção de um lar feliz?
-Aquela pergunta desconcertou-me; teria ela também se deixado
contaminar pelo preconceito do pai quanto às possibilidades de
nossa legítima união? Magoado, retruquei intempestjyx):
Ora, será crível que agora você, também...? É verdade que, de
imediato, não posso lhe oferecer o conforto material a que está
habituada, mas creio que juntos encontraremos forças para superar
tudo isso, a fim de não adiar por mais tempo a nossa possibilidade
de união.
-Tem razão, querido -concordou a moça, emocionada -entretanto,
gostaria de pensar um pouco mais sobre o assunto e quem sabe se
ainda não poderemos reverter a situação quebrando, com a nossa
insistência, a intolerância do meu velho pai?
Ao que pude depreender, Celeste tentaria, como último recurso,
dobrar a intransigência do orgulhoso genitor, na expectativa de
amolecer o seu endurecido coração.. Movida pelo sentimento de
respeito filial, ela hesitava entre ficar comigo e seus pais. Disposto a
poupar o conflito daquela alma sensível, resolvi por esperar.
Entretanto, o tempo passava sem que nada pudesse sensibilizar os
seus genitores, particularmente o Sr. Romualdo, que detinha um
orgulhíLexacerbado quanto à tradição familiar.
XI
Enfermidade incomum
Depois daquele episódio desagradável, senti que Celeste,
supostamente por influência de seus pais, pedia-me sempre para
esperar, pois tinha receio de que uma deliberação precipitada
pudesse comprometer o seu relacionamento familiar; talvez por
isso, a filha, assediada, passou a distanciar-se do meu convívio cada
vez mais. Para completar os meus superlativos padecimentos, fui
acometido de enfermidade estranha e cruel, sem diagnose definida.
Desesperado, busquei todos os recursos possíveis e imagináveis,
perambulando por consultórios e clínicas especializadas no
tratamento dos transtornos mentais sem, contudo, lograr alcançar
resultado prático para a solução do meu intrincado problema, que
se agravava aceleradamente para surpresa geral. Sentia algo
estranho embaralhar a minha mente; era como se tivesse uma
segunda personalidade fora do controle de mim mesmo,
insuflando-me pensamentos condenatórios, sem que deles pudesse
me desvencilhar.
Por não lograr êxito no tratamento convencional, busquei,
desesperado, o aconselhamento de amigos na ânsia de resolver
rapidamente o meu enigmático problema. Foi
quando me sugeriram procurar o velho Tadeu, conhecido pelos
seus dotes de bondade por desenvolver relevante trabalho
assistencial junto à comunidade carente; era dirigente de um
conceituado Centro Espírita da cidade, onde atuava como seu
presidente. Enquanto isso, o pai de Celeste, baseado na enfermidade
persistente, que gradativamente tomava de assalto as minhas
faculdades mentais, encontrou motivos de sobra para dissuadir a
sua filha quanto às pretensões de um louco em desposá-la. A dor do
distanciamento, provocada agora pela quase indiferença da moça,
agravou ainda mais o meu quadro mental já bastante
comprometido; gradualmente, sentia-me presa fácil das vozes que
infernizavam a minha mente, quais severos juízes, impondo-me à
consciência pesadas acusações.
Psiquicamente destrambelhado, busquei o amparo do bondoso
velho, rogando socorro urgente para minha alma atribulada.
Segundo laudo médico, o estágio da doença era desalentador;
bastante avançado, os sintomas davam conta da sua ação
degenerativa, impondo sérios cuidados no controle da minha
conduta motor. Surgiram as primeiras crises epilépticas em
intervalos regulares, que foram se amiudando numa constância
assustadora. No meu caso,' os métodos tradicionais de tratamento
foram insuficientes para bloquear o ritmo da doença. O benevolente
velhinho, de fala mansa e olhar perscrutador, após ouvir-me com
paciente atenção, falou sem rodeios:
Precisamos conjugar esforços, contribuindo com os cuidados
médicos que vem recebendo regularmente, oferecendo-lhe também
o concurso do tratainejitc^esrjMtuj]-alternativo da fluidoterapia à
nossa disposição. Ainda não podemos dimensionar a extensão da
sua problemática espiritual que, por certo, está vinculada a uma
possível expiação na purgação de débitos do passado.
O bom velhinho fez propositadamente uma pausa da qual me
aproveitei para questionar:
-Gostaria que o senhor explicasse melhor a minha situação.
E ele pareceu meditar um pouco mais para, em seguida, esclarecer:
-A rigor, a maioria das enfermidades tem as suas raízes no
desequilíbrio espiritual, face ao impositivo da Lei de Causa e Efeito
que rege o nosso presente pelas circunstâncias do passado. Assim,
meu filho, parece-me que, esgotados os recursos da medicina
convencional, tudo leva a crer que o seu problema tem implicações
de ordem espiritual: mesmo assim, recomendo-lhe a continuidade
do-tratamento médico, pois o desequilíbrio espiritual, quando, não
cuidado a tempo, pode gerar distonias mentais de grave-porte, com
reflexos desagradáveis no corpo físico, que também precisa ser
tratado. O binômio Espírito – matéria deverá merecer estudos mais
aprofundados na medicina, do futuro, com o objetivo de aprimorar
diagnósticos , levando, também, em conta a realidade do Espírito
Imortal.
A explicação parecia lógica, embora naquela oportunidade eu não
conseguisse atinar, em plenitude, sobre as implicações espirituais
que me arrastavam paulatinamente para a total alienação. Voltei a
insistir no esclarecimento do assunto deixando o velho quase
desconcertado, entretanto, nem mesmo a minha impertinência
subtraiu a paciência do tolerante amigo, que voltou a considerar
com benevolência:
O conhecimento do passado só em circunstâncias muito especiais
tem utilidade prática para uma melhor vivência na presente
existência carnal. A Misericórida Divina poupa-nos das
reminiscências desagradáveis, que poderiam desequilibrar o nosso
Espírito, pelo confronto com as experiências atuais. Dessa forma,
bom seria se buscássemos no trabalho edificante do bem em favor
do próximo, Os créditos necessários para a nossa remissão,
espiritual, conforme asseverou Pedro: só o amor cobre a multidão
de pecados".
Convencido com os seus argumentos, dei-me por satisfeito ante as
elucidativas explicações e nada mais perguntei, submetendo-me, a
partir de então, ao tratamento regular e ininterrupto da
fluidoterapia; apesar dos benefícios da oração, do passe e da água
magnetizada propiciarem algum alívio ao meu Espírito
atormentado, o fato é que tudo isso não conseguia impedir o avanço
acelerado da estranha e cruel enfermidade, pois ao que
posteriormente pude saber, o bondoso velhinho fez de tudo para
dissuadir o Espírita gbsessor dos seus propósitos de vindita. As
implicações expiatórias a que eu estava incurso, por infringir o
Nono Mandamento da Lei de Deus, facilitaram-lhe a ação
devastadora, levando-me finalmente à loucura sem remissão. E,
para maior tormento da minha alma sofrida, como era de se esperar,
Celeste afastou-se definitivamente do meu convívio, sem expectativa
de retorno. A internação num hospício, para tratamento de
alienados mentais, foi a solução encontrada para conter a fúria
descontrolada de que agora estava possuído. Submetido a
indescritíveis padecimentos, ali terminei os meus dias como
farrapu. humano, em confrangimento doloroso sem, ao menos,
merecer a comiseração da piedade alheia.
Assim, após transpor a aduana da morte, passei por um período
relativamente prolongado de perturbação nas zonas purgatoriais do
astral, quando finalmente fui amparado por mãos piedosas e
recolhido na Colônia Espiritual onde estagio desde então. Mais
tarde pude melhor compreender as razões dos meus padecimentos
naquela existência infeliz, o drama da Espanha distante, vivido por
dona Margarida, mãe de Cíntia, assomava-me agora à mente em
grandes proporções. Nem mesmo a esponja do tempo conseguiu
apagar da minha consciência o mal que indiretamente lhe causei, ao
destruir o lar da sua filha, levando também o genro ao suicídio
ignominioso, como conseqüência da urdida traição. Por isso
mesmo, precisava, agora, reconciliar-me com os desafetos do
passado, para aspirar a tão sonhada redenção. Nesse ponto das
observações, senti-me envolvido por uma força poderosa, sendo
atraído de volta ao gabinete do benfeitor, onde teve início a
inusitada experiência; logo mais despertei, de certa forma aliviado,
assistido de perto pelo querido amigo que me acompanhou durante
todo o tempo em que durou a bem sucedida operação. Antes,
porém, de retornar, ele falou-me em tom de suave advertência:
A experiência ora revivida contribuirá decisivamente para alertá-lo
quanto à necessidade da vigilância, para não r£iricidir nos mesmos
erros que provocaram a sua perda com o ato da prevaricação.
Após ouvi-lo com respeitoso interesse, despedi-me e retornei ao
corpo físico em repouso , a noite, aos poucos, dava lugar à
madrugada anunciada pelos primeiros reflexos solares; despertei,
abri a janela do quarto e deixei-me bafejar Pelas lufadas de ar fresco
advindos da natureza em flor, endereçando sentida prece de
agradecimento a Deus, enquanto meditava na Sua Infinita
Misericórdia ao anunciar um novo dia de trabalho promissor.
XII
O testemunho de Ricardo
Naquela manhã, mais confiante nas possibilidades de servir à causa
do Senhor, retomei as atividades assistenciais com nova disposição;
passei a analisar cuidadosamente cada interno que ali aportava,
trazido pela "força do destino", para cumprir crucial e dolorosa
expiação; o sofrimento daquelas almas proscritas, de certa forma,
confrangia os visitantes que ali eram levados pelos sentimentos de
piedade e solidariedade cristã. Priscila e eu engajávamo-nos com
afinco nas tarefas a nosso cargo, além dos cuidados dispensados a
Ricardo e Carolina, respectivamente sob nossa responsabilidade,
face ao impositivo da Lei da Reencarnação. Ricardo era Roselito,
que voltava agora aos braços amorosos de Priscila, a infeliz Cíntia
que, pela infidelidade conjugal, levara o companheiro traído a
cometer o suicídio. Por sua vez, Carolina era, também, Margarida
que voltava daquela existência onde terminou os seus derradeiros
dias enclausurada na masmorra de odioso hospício, em total
alienação que, por não conceder-me, naquela oportunidade, a
dádiva do perdão, tão logo despertou no além, converteu-se em
terrível obsessora, levando-me também à loucura pela desventura
que lhe imprimi em seu coração de mãe. O homem imprudente
paga alto preço quando busca nos prazeres da carne a destruição do
lar alheio. A semeadura mal— conduzida, em desrespeito às Leis de
Deus, arremete-nos— ao impositivo da colheita, exigindo reparação.
Após essas incursões nos labirintos da minha própria alma, estava
agora absolutamente convicto da infalibilidade da Justiça Divina da
qual, por vezes, cheguei a duvidar ao deparar-me com a sorte de
muitos criminosos confesso que partiram da Terra aparentemente
impunes; tinha agora, a meu favor, o conhecimento sobre a
reencarnação sem a qual, a maioria dos sofrimentos na Terra não
tem explicação.— A partir daí, aproveitava o tempo para aprimorar
os meus esforços nos trabalhos das atividades assistenciais e nos
desdobramentos em serviço mediúnico, sempre com a assistência
do amorável benfeitor.
Ultimamente andava acabrunhado com a excessiva rebeldia de
Carolina: menina dócil no trato com as demais pessoas, mas adversa
para comigo quando tentava aproximação. O passado retratava-se
no presente, pois nem mesmo o seu desforço desencadeado contra
mim, na implacável perseguição, foi capaz de eliminar totalmente
os ressentimentos que ainda remanesciam em sua alma ressentida.
Apesar de sofrer natural constrangimento pela atitude adversa da
filha adotiva, os conhecimentos hauridos na Dontrina Espírita
propiciavam-me novo alento para transpor as barreiras do passado
comprometedor. Priscila também andava extremamente
preocupada com Ricardo, ao notar que a saúde física dele vinha se
agravando com os aquentes ataques de dispnéia, razão pela qual,
além da continuidade dos cuidados médicos a que vinha sendo
submetido com regularidade, foi-lhe recomendada também a
aplicação da fluidoterapia espírita, recurso energético à nossa
disposição. Depois disso, no meu primeiro encontro em
desdobramento, roguei ao querido padre que me elucidasse um
pouco mais sobre tudo aquilo, que ainda apoquentava meu coração.
Sempre demonstrando superior bondade, elucidou-me solícito:
-A enfermidade de Ricardo está ligada à existência em que, como
Roseli to. abandonado pela mulher e assolado pelo desespero cruel,
deu cabo à própria vida, projetando se nas águas de caudaloso rio,
perecendo por afogamento. Renasceu como Ricardo, com
problemas cardio-respiratórios, para ressarcir-se dos pesados
débitoscontraídos pela ação deliberada da autodestruição.
Mas, se o suicídio não prejudicou senão a si mesmo, como entender
o comprometimento da sua vida atual?
Antes, porém, que eu avançasse em considerações, o benfeitor
atalhou presto, elucidando:
-Lembra-se da resposta dada a Kardec, na questão 621 de O Livro
dos Espíritos: "Onde está escrita a Lei de Deus"?
-Sim, "Na consciência", completei eufórico, por já deter um bom
conhecimento da Codificação.
-Pois bem -concluiu satisfeito -a morte do corpo físico, por asfixia,
impôs-lhe doloroso trauma psicológico, alcançando também a
região perispiritual correspondente. Dessa forma, ao renascer, era
natural que o Espírito transferisse para o corpo físico em formação,
as anomalias do aparelho cárdio-respiratório, registradas no
perispírito desde o término fatídico da existência anterior.
As elucidações do querido benfeitor clarificavam o meu
entendimento quanto à amarga herança do passado e a necessidade
de reconstrução no presente. Comparada a mim, Priscila lutava com
maiores dificuldades, pois viúva já há algum tempo, seus recursos
materiais escasseavam— consumidos em grande parte com os
cuidados médicos— dispensados com o pobre Ricardo. Mas,
consolava-nos a— —certeza da transitoriedade do sofrimento que
fazia parte da— nossa existência de expiação. Sobre tudo isso
conversávamos animadamente durante as atividades assistenciais,
buscando no trabalho em favor do próximo a sustentação necessária
para o enfrentamento dos percalços— da existência atual. O tempo
corria célere impondo-nos, sem tréguas, pesados e constantes
testemunhos. Numa dessas ocasiões, Priscila acercou-se de mim e,
com a voz embargada pelos soluços abafados, falou sem rodeios:
Ultimamente ando muito preocupada com o estado de saúde de
Ricardo e temo pela proximidade da sua desencarnação.
Solidarizo-me com o seu sofrimento -atalhei, com o intuito de
consolar -Enquanto Deus permitir, estarei sempre ao seu lado...
-Sim, sim -interrompeu-me sensibilizada -entendo a sua
preocupação e agradeço o seu interesse por nós. Todavia, preciso
dizer-lhe que Ricardo vem piorando a cada dia e os prognósticos
médicos têm sido os mais sombrios. Ainda outro dia o Dr. Cámaro
disse-me que os comprometimentos respiratórios evoluirão
rapidamente para a total paralisação. O músculo diafragma
encontra-se bastante relaxado, dificultando-lhe a respiração e
provocando a dispnéia que não lhe tem dado tréguas, fazendo-nos a
todos sofrer. Por isso, peço a cooperação dos nossos confrades na
continuidade e intensificação dos passes diários, como forma de
propiciar-lhe alívio relativo às suas dores e consolo ao seu coração.
-Sem dúvida -respondi, sensibilizado com o sofrimento resignado
da nossa irmã -nos revezaremos em equipes para o atendimento,
com os trabalhadores das segundas-feiras, dia coincidente com o da
nossa reunião de intercâmbio mediúnico. Assim, enquanto repousa
no, corpo físico durante o sono reparador, prepararemos nosso
companheiro para ser atendido, em estado de desdobramento, pelos
nossos benfeitores espirituais. Iniciaremos o tratamento já na
próxima semana, depois da anuência de Cecília, dedicada servidora
da causa espírita, que tenho certeza aceitará a incumbência com
alegria cristã.
Mais animada com a perspectiva do novo atendimento, Priscila
deixou transparecer, no brilho do seu olhar, um sentimento de
reconhecida gratidão. Despediu-se mais confortada e aguardou
pressurosa o início das atividades em favor do nosso irmão, que
resgatava pesado débito com resignação cristã.
XIII
A desencarnação de Ricardo
Na segunda-feira, logo à tardinha, demandamos a casa de Priscila,
em companhia da nossa irmã Cecília, sempre disposta a colaborar
nas atividades intercessoras programadas pela nossa Instituição.
Dotada da faculdade de clarividência, a companheira, pelos seus
dotes de equilíbrio e disciplina a serviço da mp.djunidade com
Jesus, facilitava n trahalhn fim conjunto, dando à nossa equipe
confiança e segurança na tarefa programada; logo após a leitura e
breve comentário de um trecho do Evangelho, iniciamos a aplicação
do passe nos moldes tradicionais, com a movimentação das mãos
no sentido longitudinal. Terminada a operação, despedimo-nos,
aguardando a chegada da noite para as breves considerações. Por
volta das dezenove horas, já nos encontrávamos na sede da
Instituição conversando animadamente e tomando providências
sobre os problemas doutrinários da Casa, quando a nossa irmã
ponderou com humildade:
-Durante o nosso trabalho socorrista de hoje à tarde, registrei a
presença de nobre Entidade que, aproveitando-se da liberação dos
fluidos exteriorizados, direcionava-os na região comprometida do
nosso irmão; ao que pude, perceber, a operação em favor do nosso
Ricardo propiciava-lhe grande alívio e paz relativa ao seu Espírito
atribulado.
O assunto em torno do irmão assistido prosseguiu até quase o início
da reunião. Naquela mesma noite, o Instrutor Espiritual informou
que Ricardo passaria, em glesdobramento, a receber assistência
continuada e, sempre que possível, seria trazido para
esclarecimentos e orientações a respeito do testemunho que
confrangia a sua alma. Receberia, também, tratamento direto nas
regiões piais lesionadas do perispírito, preparando-se, tanto quanto
possível, para um despertar feliz ante o seu retorno inevitável.
Ao término de cada reunião, abria-se espaço para a avaliação dos
trabalhos, quando a situação de Ricardo sempre vinha à baila sob a
óptica espiritual de Cecília. Das primeiras vezes, ele vinha
amparado pelas Entidades Benfeitoras, completamente alheio ao
tratamejito a que era submetido, mas com o passar do tempo foi
ganhandoJjacidez e çnjjtrole sobre si mesmo, adaptando-se
surpreendentemente à nova situação. Alguns meses decorreram e,
antes do seu retorno, valendo-se .da mediunidade equilibrada de
Cecília, Ricardo, embora com dificuldade, pôde dirigir-nos algumas
palavras, facilitado pelo influxo magnético do instrutor que o
assistia desde algum tempo:
-Venho, meus queridos companheiros e irmãos, com a permissão
de Jesus, agradecer-lhes pelo favorecimento da prece, que muito
tem fortalecido o meu pobre Espírito devedor. Vocês não podem
avaliar os benefícios que resultam desses trabalhos abençoados, em
prol das almas sofridas, mas esperançosas, tal como eu, em processo
de penoso
Reajuste perante as Leis do Criador. Todavia, no começo não foi
assim. Vaguei por longos anos pelo Vale da Sombra e da Morte,
amaldiçoando e jurando vingança contra a memória do homem
desalmado que destruiu o meu lar, seduzindo a minha esposa. A
revolta e o desespero que me levaram ao suicídio contribuíram,
ainda mais, para aumentar a minha dor. Só bem mais tarde
apercebi-me do equívoco cometido, pois se tivesse compreendido a
fragilidade da infeliz companheira, buscando forças para continuar
a viver, mesmo depois da ignominiosa traição, talvez o desfecho
pudesse ter sido outro, menos trágico, pelo menos para mim.
Embora religioso, não fui capaz de sustentar-me nas luminosas
lições do Evangelho de Jesus; por isso mesmo, após o ato infeliz e
deliberado, que pôs termo à minha vida, perambulei por muito
tempo embotado, aspirando fazer justiça com as próprias mãos.
Aliei-me a Margarida, pois o ódio que extravasava dos nossos
corações sintonizou-se com o remorao do malfadado Monsenhor,
possibilitando-nos, assim, a simbiose corna sua mente em desalinho
e o favorecimento da implacável perseguição. Mesmo depois de
reencarnado, continuamos gbsediando-o até sua total alienação. E
quando ele desencarnou, prossegui atormentando-o. porém, agora,
sem o conluio de Margarida, que já aventava, em seu favor, com a
possibilidade do perdão. Embora eu ainda o odiasse, o meu
domínio sobre ele já não era o mesmo, face ao resgate parcial das
suas faltas e o seu desejo sincero de renovação.
Assim, depois de auxiliado pelo buril do sofrimento, capitulei,
porque o sentimento odiento consome as energias, positivas da
alma, levando-a à exaustão. Assistido de perto Pe os Benfeitores
Espirituais que nunca me desampararam, finalemnte resolvi
também perdoar, pois compreendi que somente assim o meu
Espírito poderia encontrar finalmente a paz, que não lograva
alcançar enquanto desejasse fazer "-justiça com as próprias mãos. A
idéia falsa de que "a justiça divina tarda, mas não falta" levava-me a
compreender, ainda mais, a Misericórdia Divina, pois Deus aguarda
sempre as condições ideais para o ressarcimento dos nossos débitos.
Renasceria como filho da ex-esposa para o reajuste necessário, junto
aos nossos antigos desafetos; e hoje, graças à enfermidade corretiva,
que me propicia quitar o débito contraído deliberadamente com a
prática do suicídio, preparo-me para o retorno ao mundo espiritual,
de consciência liberada face à oportunidade bendita da
reencarnação.
Depois de mais algumas considerações, nosso amigo despediu-se
agradecido. Surpreendido pelo acontecimento inusitado, até então
desconhecido para mim, busquei explicações junto ao instrutor que,
não se fazendo de rogado, foi logo esclarecendo:
-O fenômeno de comunicação de um Espírito aindaí encarnado é
muito raro, bem o sei, entretanto, favorecid,o pela assistência
continuada que tem recebido, aliadO_aos seus méritos pessoais,
adquiridos no trato com o sofrimento resignado, nosso irmão
conseguiu comunicar-se conosco; todavia, não houvesse a
intercessão do benfeitor, ajustando-o aos padrões vibratórios de
Cecília, o fenômeno dificilmente ocorreria, por absoluta falta de
sintonia do Espírito comunicante com a trabalhadora em questão.
- Depois desse dia não tivemos mais notícias suas em nossa reunião.
Concluímos, pelo avanço da enfermidade, que ele se encontrava em
preparativos finais para a desencarnação. De fato, Padre Francisco
confirmou-me posteriormente nossa suposição, aproveitando para
convidar-me a colaborar na assistência ao nosso irmão, cujo retorno
estava previsto para os próximosdias.
Às vésperas da desencarnação, compareci, em desdobramento,
junto à cabeceira de Ricardo, internado em estado grave, para
socorro urgente. Sob a custódia do benfeitor, acompanhamo-lo
durante toda a noite, em preparativos para o desligamento
definitivo, programado para a noite do dia imediato. Chegado o
momento, o trabalho foi iniciado com a minha modesta colaboração;
com a ajuda dos amigos espirituais, especializados na. técnica da
desencarnação, Ricardo fazia também a sua parte, esforçando-se
para desvencilhar-se definitivamente doxorpo carnal. Aos nossos
olhos espirituais, com a retirada-— e dispersão dos fluidos vitais
remanescentes, o corpo físico—¦ de Ricardo já começava a
apresentar sinais visíveis de-— cadaverização. Enquanto colaborava
modestamente no processo liberatório de Ricardo, fluíam-me
indagações que aproveitei para fazer, em tom respeitoso, com o
intuito de aprendizado:
^£ Querido benfeitor, a desencarnação, sob nossas vistas, recebe
sempre assistência espiritual desse teor?
O instrutor compreendeu a extensão da minha pergunta e,
parecendo meditar um pouco mais do que o habitual, esclareceu
com bondade:
-Nem sempre, nos moldes observados. Temos aqui uma existência
que, no entanto, soube tirar proveito da existencia-expiatoria que
ora se finda, sofrendo seu— testemunho com paciência e
resignação. A assistência que prestamos tem a ver com os seus
méritos pessoais, sem as quais não lograria beneficiar-se desse tipo
de ajuda em seu favor. Nosso amigo encontra-se hoje praticamenteressarcido
com a própria consciência e deverá-oportunamente
entabular programa de trabalho-regenerativo que propicie o seu
avanço espiritual mais-acelerado. Colaborará, de maneira mais
efetiva, no soerguimento definitivo de si mesmo e do grupo
espiritual. a que se encontra ligado pelos elos do passado.
Os esclarecimentos prosseguiam, enquanto a equipe. técnica dava
por concluído o trabalho de djssjigamento. Ricardo, Espírito, foi
retirado da câmara mortuária e levado sob os cuidados de
dedicados enfermeiros espirituais para uma região de refazimento
do astçal. A sua libertação-pareceu-me relativamente tranqüila, se
considerado o sofrimento experimentado durante os dias que
antecederam a sua desencarnação, não se me configurando
qualquer-indício de sofrimento físico acentuado durantg a fase mais
aguda da transição; ao contrário, à medida que as providências
avançavam, notei que ele parecia mais aliviado, e, ao final, relaxou-
se em sono profundo e reparador, Analisando o processo de
djsiuiciação Espírito-corpo, sob as minhas vistas, aproveitei para
perguntar:
-Gostaria de saber se, nos estertores da morte, o moribundo registra
algum tipo de angústia, dor ou tribulação.
-Geralmente -apressou-se em esclarecer-me o I instrutor -os que
partem nas condições de Ricardo, aceitando as provas sem
murmuração, vêem a proximidade da morte como verdadeira
libertação. Anseiam pelo desligamento definitivo do corpo, já que
este não pode mais lhes oferecer condições de continuar na vida. O
sono temporário, após o desenlace, é calmo e reparador, o que não
ocorre com as almas culpadas, que são acometidas de tormentos e
pesadelos cruéis. Despertos, os primeiros gozam da felicidade dos
justos, enquanto os outros purgam as conseqüências naturais da
semeadura mal conduzida.
Sempre na expectativa de novos aprendizados, voltei a considerar:
-Como ficará a situação de Ricardo após o seu despertar?
Continuará, porventura, sofrendo os ataques de dispnéia que o
acometeram com mais freqüência nos seus dias finais?
Ao que ele considerou:
-Apesar do comprometimento passado, trazendo em' si mesmo as
matrizes do sofrimento, nosso companheiro, que soube tirar
proveito desta profícua existência, despertará sem sobressaltos,
quase refeito, ganhando, aos poucos, o equilíbrio pleno para a sua
definitiva recuperação,.
Desejava continuar recebendo as preciosas informações que me
chegavam fartamente, enriquecendo os meus parcos conhecimentos
espirituais em assunto desta natureza, todavia o tempo se esgotara e
eu tinha que retornar às atividades do dia-a-dia nos compromissos
do mundo corporal.
XIV
Expectativas frustradas
Com a desencarnação de Ricardo, Priscila agora disponibilizava
maior quota de tempo para dedicar-se às atividades da nossa
Instituição. Quando alentava a possibilidade de trabalharmos juntos
nas tarefas espirituais, mais uma vez o destino pareceu conspirar
contra os meus. projetos de ventura, pois que, acometido de
enfermidade-degenerativa, aos poucos fiquei impossibilitado de
andar; depois foi a vez das mãos, dos braços e, finalmente, a
paralisação total. Passei a depender exclusivamente da bondade
alheia para suprir as mínimas necessidades de sobrevivência.
Paradoxalmente, Qarjolina agora se desdobrava nos cuidados em
meu favor, dando-me a impressão de que a minha enfermidade
tivera o condão de transformar sua aversão em sentimento de
piedade filial.. De qualquer forma, era gratificante notar que nessa
hora de difícil testemunho, minha filha adotiva, sensibilizada,
dedicava grande parte de seu tempo cuidando de mim.
Sem poder trabalhar, como outrora, nas atividades da Instituição,
raramente podia falar com Priscila, cujo amor não conseguia
esquecer. Desejoso de continuar na tarefa ao seu lado e, sobretudo,
de sentir-me útil na atividade do bem, roguei a colaboração da
querida filha para que providenciasse condições de levar-me
semanalmente à Instituição, onde poderia, mesmo deitado, atender
as pessoas necessitadas do diálogo cristão. Trabalhávamos em
duplas e o testemunho experimentado por minha alma sofrida
credenciava-me a oferecer, junto com Priscila, consolação às almas
aflitas que buscavam o concurso fraterno da nossa Casa.
Nesse diapasão, as atividades prosseguiam no seu curso natural até
que, certo dia, apresentou-se-nos uma jovem senhora para o
atendimento de rotina; após as saudações habituais, deixamo-la à
vontade para que extravasasse todo o sofrimento represado na sua
alma angustiada. Depois de notar nosso sincero desejo de ajudar,
sem questioná-la quanto à sua problemática, ela sentiu-se mais
confiante, relaxou-se, e começou a chorar. A cena comovia,
provocando-nos constrangimento e piedade; mas logo que se
acalmou, respirou fundo, cobrou novo ânimo e contou-nos
resumidamente a sua história:
A viuvez deixou-me só, com meu único filho de dezessete anos;
com a falta de meus pais e irmãos, desde há muito falecidos, ele era
meu arrimo e a única esperança de amparo na velhice; mas agora,
diante da possibilidade de perdê-lo, estou a ponto de enlouquecer,
pois não sei se resistirei a tamanha desventura! Já pensei até em me
matar na esperança de reunir-me à sua alma, caso ele venha mesmo
a falecer, conforme os prognósticos médicos estabelecidos.
Entretanto, aconselhada por amigos, busquei o reduto desta Casa na
esperança de consolo para as minhas agruras de mãe.
-Aquela mulher sofrida, continuou desfiando o seu rosário de
lamentações, até certo ponto compreensíveis, pela falta de uma
formação espiritualista que pudesse melhor sedimentar a sua fé nos
princípios dos ensinamentos cristãos. Em respeito à sua dor,
aguardei um pouco mais, antes de interromper a sua fala
desesperada; desejava tranqüilizá-la, fazendo o possível para
desviar o seu pensamento, fixado na revolta inconseqüente.
Aproveitei-me, então, de pequena pausa para intervir com energia
branda junto àquela pobre alma desventurada; imaginava que,
talvez, o móvel do seu desespero e inconformidade, fosse o
resultado da sua pouca fé.
-Mantenhamos a calma, minha boa irmã! Conte com mais vagar o
problema do seu filho, para que possamos ajudá-la; lembre-se de
que todos nós estamos a serviço de Deus na Terra para a prestação
do auxílio mútuo, uma vez que, perante Ele, somos todos irmãos.
Suas informações serão de grande valia para que possamos melhor
dimensionar o problema que aturde a sua alma e assim ampará-la
com os recursos à nossa disposição. Recordémonos de Jesus, o
amigo incondicional de nossas vidas: "Vinde a mim, todos vós que
sofreis e que estais sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai meu
jugo sobre vós, e aprendei de mim que sou brando e humilde de
coração, e encontrareis o repouso de vossas almas; porque meu
jugo é suave e meu / fardo é leve." São Mateus, cap. XI, w.28 a 30. (1)
Tocada pela magia da sublime lição do Evangelho de Jesus, ela
aquietou-se um pouco mais e, quase serena, deu curso à sua
narração:
-Desde muito cedo, meu filho vem apresentando comportamento
estranho na sua vida de relação; embora criança dócil e benquista
por todos os amiguinhos que compartilhavam dos seus folguedos
nas traquinagens do dia-a-dia, vezes sem conta surpreendia-o
isolado e pensativo deixando transparecer, no seu olhar vago, algo
de ejiigmático. Embora essa postura, para uma criançada sua idade,
me surpreendesse, causando-me certa estranheza, o certo é que, de
início, não dei muita importância ao fato, atribuindo ao fenômeno
uma situação passageira; mas, infelizmente os meus prognósticos
não se confirmaram e a situação constrangedora foi ganhando
proporções, assustadoras até que, alguns anos mais tarde,
pressionado pela minha insistência sobre o que se passava com ele,
confessou-me meio encabulado:
-Sabe, mamãe, eu não queria aborrecê-la sobre esse assunto, que
acredito ser um tanto estranho para a senhora, mas o certo é que
desde há muito tempo venho ligando certos fatos dncotidiano com
a possibilidade de já ter vivido anteriormente no continente
Europeu, particularmente na Espanha, que parece exercer sobre
mim um fascínio. inexplicável, fazendo-me despertar
reminiscências adormecidas!
Nesse ponto da sua intrigante narrativa, a mulher empalideceu e,
fazendo um intervalo mais longo, que não ousei interromper,
respirou a longos haustos e continuou:
-O tempo passava e eu acreditava que aquela história fosse produto
da sua imaginação; porém, o caso era mais sério do que eu pensava,
pois ao continuar acompanhando a trajetória das suas narrativas,
1. O Evangelho Segundo o Espiritismo, 309". edição IDE, página 96.
sempre sintonizadas com o fator de ordem comportamental, notei
que certa noite, quando conversávamos após as orações, meu filho
repentinamente emudeceu. Seu rosto empalideceu e seu olhar ficou
vago e distante, como se divisasse alguma coisa fora das órbitas
visuais; confesso que fiquei amedrontada aguardando a sua
manifestação. Com voz pausada, quase em sussurro, ele balbuciou:
"Vejo-me na Espanha do século dezoito, junto a modesta casa de
uma grande metrópole; o garoto, a quem suponho ser eu mesmo,
com os meus nove anos de idade, entabula ríspido diálogo com um
velho casal; indaga, intrigado, quanto à sua origem e o paradeiro
dos seus verdadeiros pais. Ante a meia resposta que lhe causa certa
irritação, volta a insistir nervosamente sobre os esclarecimentos que
possam desvendar o seu enigma. Vencidos pelo cansaço da sua
impertinência, eles finalmente capitulam e concordam em revelar
tudo sobre o seu passado obscuro, arrematando:
"Assim que recebemos a incumbência de adotá-lo, foi-nos
recomendado que declinássemos quanto às exigências de
identificação das pessoas envolvidas no processo de adoção.
Somente bem mais tarde, quando você já estava com três anos de
idade, é que fomos procurados por uma senhora, que desvendou-
nos todo o mistério em torno da sua origem. Foi então que eu e seu
pai resolvemos ir colocando você a par de tudo, com medo de
desdobramentos desagradáveis, caso viesse a tomar conhecimento
dos fatos por intermédio de outras pessoas, mas sem revelar-lhe, até
aqui, os detalhes da sua adoção."
A mulher fez ligeira pausa no seu relato emocionado, para logo
mais prosseguir:
-A expressão fisionômica do meu filho assustava; parecia
acometido de um transe profundo descrevendo, com
sofreguidão, aquela cena do passado. Assim, continuou ele dando
seqüência à sua narrativa:
"Apesar do carinho dispensado pelos seus pais adotivos, um
sentimento de revolta apossou-se da sua alma proscrita, pois se
julgava preterido e abandonado pelos seus verdadeiros pais. A
partir desse ponto nada mais consigo divisar; dá-me a impressão de
que algo bloqueia a minha mente, prejudicando-me a visão
espiritual."
Após descrever o depoimento do filho, a mulher retomou a sua fala
para concluir algo assustada:
-Como vê, pelo relato do meu filho, a situação não parece nada boa;
acrescente-se a esse mistério todo, os prognósticos sombrios da sua
doença que tanto tem me preocupado; os médicos acreditam tratar-
se de enfermidade rara, motivo pelo qual estou buscando o
tratamento espiritual alternativo; alguns amigos vêm procurando
dissuadir-me desse intento, justificando não ser esse o principal
objetivo do Espiritismo cristão; mas então, o que fazer, quando está
em jogo a vida do meu filho? Hipólito e eu precisamos do seu
amparo e por isso vim ter aqui na esperança de sermos ajudados.
Calou-se e aguardou, silenciosa, nossas considerações. Após
assimilar todo o conteúdo da sua narrativa, considerei cauteloso:
-Entendemos perfeitamente os motivos da sua preocupação,
entretanto, compete a você mesma optar pela decisão que julgar
mais acertada; apenas desejamos lembrá-la de que Deus coloca
sempre à nossa disposição os recursos da Sua Bondade Magnânima,
quer sejam diretamente pelas mãos dos homens, ou por intermédio
dos nossos imortais; de nossa parte, e com a proteção dos amigos
espirituais que temos a certeza não nos faltará, faremos tudo para
ajudá-los; todavia, a irmã não deverá descurar-se dos cuidados
médicos a que vem sendo submetido o nosso irmão, pois a despeito
da aparente ineficácia do tratamento, para impedir o avanço
acelerado da doença, a medicina também está a serviço de Deus na
Terra, para atenuar-lhe as dores, amenizando a sua aflição.
-Depois de mais algum tempo de conversação amena, a mulher
despediu-se mais animada, decidindo-se concomitantemente pela
continuidade do tratamento médico e dos recursos da fluidoterapia.
Muito embora, o problema físico me impossibilitasse de colaborar
mais diretamente na aplicação do passe, sempre que podia, eu
conversava com Hipólito como se fora filho do meu coração. Priscila
também não escondia a sua afinidade para com o rapaz,
dispensando-lhe afeição filial e ajudando-o na convivência
resignada com a enfermidade cruel. A par do tratamento médico,
indispensável, pelo menos, para o retardamento do avanço
acelerado da doença, prosseguíamos trabalhando; apesar da
perspectiva remota de cura, com o passar do tempo, Hipólito
apresentou sensível melhora, parecendo que a doença estabilizara,
dando-lhe tréguas temporárias, para a alegria de todos nós e de sua
querida mãe. O tratamento dispensado àquela família continuava
inalterado, sem quebrar a rotina dos demais trabalhos a nosso cargo
na Instituição quando, certo dia, um mensageiro aflito aportou à
nossa Casa clamando em desespero:
-Senhor Fernando... Senhor Fernando, um acidente,
um acidente horrível! A carruagem... a carruagem despencou na
ribanceira e dona Izidora... como explicar, como explicar?
-Acalme-se, meu filho -atalhei presto -fale com mais vagar; o que
houve com dona Izidora?
O rapaz gaguejava transtornado e, depois de algum tempo,
tomando fôlego, respondeu com dificuldade:
-Ah! meu Senhor, dona Izidora morreu no acidente e o seu filho
ficou muito ferido; foi socorrido e levado às pressas para o hospital,
mas felizmente não corre risco de vida.
Ante aquela situação constrangedora, e impossibilitado de
prestar-lhes socorro direto e imediato, solicitei a Priscila que
movimentasse os amigos da nossa Instituição em favor dos
acidentados, enquanto acompanhava à distância, em oração, o
desfecho da tragédia. Nessa expectativa angustiante, esperei o
tempo passar e, dias depois, Hipólito recebeu alta médica; sem ter
para onde ir, a solução foi recolher o garoto órfão em nossa
Instituição. Face às peculiaridades da sua enfermidade, o rapaz
passou a receber tratamento médico e cuidados especializados em
regime de internação; talvez por isso, os laços afetivos se
estreitavam cada vez mais entre nós. Nos momentos de diálogo
particularizado, Priscila e eu referíamo-nos ao rapaz com tamanha
intimidade, como se lembranças do passado, emergidas dos porões
de nossas almas, nos despertassem para os compromissos do
presente.
XV
Heranças do passado
"Os desígnios de Deus são insondáveis"; de fato, como explicar a
morte acidental de sua mãe, quando tudo levava a crer que, pela
gravidade da sua enfermidade, Hipólito partiria primeiro? Vale
aqui lembrar, mais uma vez, as recomendações luminosas de Jesus:
"Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de
amanhã se preocupará consigo mesmo. A cada dia basta o seu
mal"
Mateus Cap. 6. 34. O rapaz, decerto, necessitaria resgatar pesado
débito contraído contra a própria consciência, sem o que jamais
poderia ser feliz. O prolongamento da enfermidade libera o Espírito
culpado quando este aceita o sofrimento com resignação,
exteriorizando no corpo físico as energias descompensadas que este
as absorve qual efeito mata-borrão.
Enquanto eu divagava com os meus pensamentos inarticulados
aguardando resposta, pela via da inspiração. que melhor pudesse
esclarecer-me sobre o caso em questão, Priscila surpreendeu-me
para tecer comentários sobre as visões de Hipólito, conforme o
relato de sua mãe:
-Não sei explicar por que -falou Priscila admirada -mas as visões
do rapaz, narradas por sua mãe, que já me
haviam causado um certo desconforto emocional, intrigaram-me
ainda mais depois de ligar os fatos da maneira como ele chegou até
nossa Instituição.
-Engraçado -exclamei espontâneo, sem deixar que ela completasse
sua observação -eu também sinto.... não, não pode ser; será crível a
possibilidade de nossa vinculação passada, como sugerem suas
visões?
Priscila levou as mãos à cabeça como se buscasse inspiracão, refletiu
um pouco mais e respondeu ensimesmada:
-De qualquer maneira, Fernando, são muito evidentes nossas
afinidades recíprocas, mormente depois do acidente que roubou a
vida da sua mãe; curiosamente, tenho percebido que ele vem
demonstrando excessivo apego aos nossos cuidados. Seria oportuno
observarmos?— doravante, com mais acuidade, as raízes dessa
dependência quanto à nossa eventual vinculação no passado.
O tempo corria ligeiro e, a despeito da enfermidade que me
impossibilitava cada vez mais a movimentação, o meu raciocínio
permanecia lúcido e a mediunidade -inalterada; continuávamos
socorrendo o rapaz e a quantos necessitassem do nosso concurso
amoroso, apurando para nós mesmos, para o atendimento desse
mister, a disciplina da tolerância, da paciência e, sobretudo, da
compreensão. A essa altura, já com a saúde bastante comprometida,
pressentia o meu retorno ao mundo espiritual, embora com a
consciência serena e pacificada pelo cumprimento de boa parte da
minha existência de provações. Certa noite, subtraído pelas
resistências físicas, desfaleci; vi-me, então, transportado a uma
belíssima região do astral, onde-— sensações novas revigoravam-
me por inteiro. Notei que alguém se aproximava e, com o tom de
voz inconfundível, falou-me à alma esperançosa:
-Fernando, meu filho! A sua experiência terrestre aproxima-se do
fim, tudo levando a crer que concluirá com pleno êxito essa
proveitosa encarnação. Divisará agora, numa prodigiosa incursão
ao passado, um pequeno flash da existência do filho bastardo,
concebido pela irresponsabilidade de um romance proibido.
Pelas vinculações afetivas que ligavam nossas almas já desde há
algum tempo, acreditei tratar-se de Hipólito., cuja aproximação
recíproca só nos foi possível graças à ação dador regeneradora.
Lendo os meus pensamentos na lousa de minha alma, o querido
instrutor meneou a cabeça em tom afirmativo, acrescentando:
-Sim, meu amigo, trata-se de Hipólito, o filho rejeitado por vocês
naquela existência fatídica quando, premidos pela família e pela
autoridade da Igreja, concordaram em desfazer-se da criança,
deixando-a aos cuidados do Bispo Argeu; a pedido dos avós
maternos do recém-nascido, encarregou-se, ele mesmo, de
providenciar a adoção do menino por uma honrada família de
abnegados cristãos. Embora criado nos moldes tradicionais da
educação religiosa, o garoto, tão logo soube da sua verdadeira
origem, revoltou-se guardando mágoas e ressentimentos que
foram— envenenando, aos poucos, a seu coração. Para agravar
ainda mais os seus superlativos padecimentos, a temível lepra
manifestou-se sutil, apresentando as primeiras manchas violáceas
na sua epiderme sensível de jovem sonhador; era o sintoma
inequívoco da enfermidade cruel, que avançava impiedosamente,
facilitada pela desestruturação psicológica do seu estado emocional:
apesar do carinho dispensado pelos seus nobres pais adotivos, o
rapaz não se conformava com a situação e, acicatado pelo
sofrimento, no auge do desespero, deu cabo à própria vida,
atirando-se do alto de um penhasco em queda livre espetacular.
Esperava encontrar na própria
morte a libertação das suas dores e dos conflitos emocionais que
inviabilizavam a esperança de uma juventude feliz; todavia, para
seu desapontamento, qual ocorre a todos os suicidas, despertou no
Além, mais vivo do que nunca, pois a morte do corpo físico não
conseguiu finar também os seus padecimentos vinculados à
realidade do Espírito imortal. Somente bem mais tarde, quando o
buril da dor desbastou a sua revolta irrefletida, é que foi finalmente
socorrido e preparado para nova experiência na indumentária
carnal. O instrutor fez um ligeiro intervalo nas suas considerações
para logo continuar em tom mais solene e grave:
-O suicídio, embora muitas vezes atenuado pelas circunstâncias do
momento, não encontra amparo nas Divinas Leis, devendo o
Espírito rebelde arcar com as consequências do seu ato insano e
tresloucado: e, por imposição da consciência culpada, cedo ou
tarde, acaba estimulado à necessária reparação; depois de se
demorar em preparativos em nossa Colônia Espiritual, onde foi
recolhido por almas piedosas que intercederam em seu favor,
submeteu-se a uma nova encarnação que, embora dolorosa, teve
curta duração. Agora, concluindo com êxito a experiência presente,
estará finalmente lihpradodo pesado çarma que mortificava a sua
alma até então.
O instrutor silenciou dando a entender que havia concluído sua
reveladora narrativa. Durante os minutos que me restaram no
estado de desdobramento, fiquei a meditar, na bondade magnânima
do Criador, que propicia ao Espírito arrependido, pela
oportunidade dos renascimentos sucessivos, Qjessarcimento de suas
faltas, seja em que circunstância for. A madrugada já ia alta e,
embora desejasse continuar usufruindo da sua agradável
companhia, eu precisava retornar para dar continuidade aos meus
afazeres cotidianos. Despertei guardando relativa lembrança
daquele episódio inolvidável.
XVI
Atividades no Além
Sem revelar a Priscila os detalhes do desdobramento que acabava
de vivenciar, falei com convicção:
-Acredito mesmo que estou revertendo gradativamente o saldo
negativo das minhas ações comprometidas do passado; na
eventualidade de partir primeiro, conforme suponho, a minha
desencarnação não deverá ser empecilho para a continuidade do
seu trabalho em favor do próximo; lute sem esmorecimento na seara
do bem, contando sempre com a inestimável proteção de Jesus.
-Priscila ouviu calada, talvez pressentindo o acerto das minhas
palavras vazadas no sentimento da mais pura inspiração. Nos
meses que se seguiram, a saúde física debilitou-me ainda mais e,
nessas horas de difícil testemunho, em que a degenerescência física
avançava impiedosa, lá estava ela se desdobrando na aplicação do
passe, em meu favor. Aos poucos, pressenti que a minha
consciência fragmentada já não mais registrava, com lucidez e
regularidade, as sensações do corpo físico, porque depois de um
longo sono reparador despertei, já no mundo, espiritual, assistido
de perto pelo querido amigo e benfeitor.
A minha tarefa terrena estava concluída e, pelo que pude
depreender, iniciava-se, a partir daí, uma nova trajetória de
ascensão para o meu Espírito imortal.
Após a grande transição, que me impôs adaptações à "nova vida no
além, passei a dedicar-me mais acuradamente aos estudos do
intercâmbio, agora como Espírito desencarnado, percebendo, desde
cedo, que a disciplina é talvez um dos requisitos mais importantes
para o êxito de qualquer trabalhador comprometido com a tarefa da
mediunidade. A programação dos trabalhos, de nossa parte, era
irrepreensível, o que nos permitia, quase sempre, preencher as
lacunas deixadas pelos companheiros encarnados. Padre Francisco,
sempre atencioso e paciente, acompanhava-me na iniciação dos
primeiros passos, adestrando-me nessa nova modalidade de
trabalho do lado de cá.
Minha primeira experiência deu-se com uma jovem senhora,
detentora de invejável equilíbrio, que me cedeu, solícita, precioso
espaço psíquico para o início das minhas tarefas no exercício da
mediunidade; aos poucos, ia me amoldando ao ajustamento da
sintonia mental daquela nobre mulher. Os exercícios ininterruptos,
propiciavam-me apreciável enriquecimento espiritual, pois que me
era exigida disciplina férrea, perseverança continuada e indómita
coragem na tarefa a realizar. Dessa forma, aprendi muito com
Marilda, dedicada seareira de Jesus que, apesar de relativamente
jovem, desempenhava com maturidade e desenvoltura a tarefa sob
sua responsabilidade.
Enquanto isso, Padre Francisco instruía-me com desvelado carinho,
recomendando sempre a necessidade da vigilância, requisito
também indispensável para o êxito de todo e qualquer trabalho a
serviço do Senhor. Sempre sob sua prestimosa orientação, fui me
aprimorando, cada vez mais, na transmissão das mensagens e agora
já não precisava tanto dos cuidados e da "censura" de Marilda
quanto à minha fala aos irmãos da experiência carnal. Mesmo
assim, fui advertido para não alimentar pretensões nesse novo
campo de atividade, pois muitos irmãos, ainda presos às
superficialidades da vida terrena, costumam fazer exigências
e.comprovações descabidas, impondo-nos. vezes sem conta,
esforços sacrificiais. Nesse diapasão, ia tocando a minha tarefa
iniciante enriquecendo, cada vez mais, o meu patrimônio espiritual.
***
Enquanto aguardava a oportunidade para iniciar a minha tarefa,
propriamente dita, agora já na condição de h,iirmldp benfeitor junto
aos irmãos encarnados, fui convidado a participar de algumas
experiências socorristas em favor dos nossos irmãos suicidas nas
regiões abismais. O objetivo, além de propiciar o aprofundamento
dos meus conhecimentos práticos nessa área de atuação, era
também e, principalmente, çsclarecer e alertar os irmãos
encarnados. que alimentam idéias fixas de autodestruição. Antes,
porém, de iniciarmos a descida para o "vale da sombra e da morte",
o querido padre alertou-me sobre a necessidade de rigorosa
preparação em regime de oração: a recomendação do nobre
benfeitor justificava-se porque eu ainda não havia adquirido
suficiente equilíbrio mental para sondar, sem desconforto, aquelas
paragens de sofrimento desesperador.
Preparei-me, o quanto pude, nos intervalos das minhas atribuições
normais na Colônia, durante vinte e um dias aproximadamente. Na
véspera da nossa primeira incursão naqueles labirintos de dor, fui
chamado pelo benfeitor para as explicações finais. Entrei no seu
gabinete sendo recebido sem nenhuma formalidade; acomodado
confortavelmente numa poltrona ao seu lado, senti uma sensação de
indefinível bem-estar. Deixando transparecer uma paz contagiante,
que eu registrava na acústica da minha alma, foram essas as suas
primeiras palavras de incentivo:
-Meu filho! Louvemos o Senhor, que nos concede a dádiva do
trabalho em prol dos nossos semelhantes. Amanhã mesmo
desceremos até as regiões de sombras para socorrer aqueles irmãos
desesperados, que se propõem, pelo sincero arrependimento, a
romper os grilhões da revolta, para reiniciarem uma nova etapa de
reconstrução da vida que deliberadamente interromperam,
quando, então, serão levados para o abrigo da nossa Colônia para
socorro urgente. Aos primeiros clarões da madrugada, portanto,
iniciaremos o trabalho, contando também com outros cooperadores
que nos ajudarão nessa difícil empreitada.
Depois dessas considerações, despedi-me do benfeitor amigo,
encorajado para encetar a nobre tarefa que logo mais
principiaríamos.
XVII
Incursão no vale dos suicidas
Conforme combinado, encontramo-nos, bem cedinho, próximo ao
espaço que delimitava a fronteira da nossa Colônia com as
regiões sombrias, mais adensadas. Ali, reunimo-nos em círculo para
fazer a nossa oração em preparativos para a descida, junto àquela
província de indescritíveis padecimentos. Padre Francisco tomou a
iniciativa da palavra e convidou-nos a acompanhá-lo na .oração.
Depois de alguns minutos de concentração, falou com emotividade:
-Maria, Mãe Santíssima! Ajuda-nos no trabalho socorrista em favor
dos nossos irmãos suicidas que se "contorcem na dor", purgando
agora as conseqüências do ato insano e tresloucado que pôs fim à
própria vida contrariando os desígnios do Criador. Apesar das
limitações do nosso Espírito endividado, por não lograrmos
alcançar ainda a láurea definitiva do vero trabalhador, desejamos,
mesmo assim, socorrer e amparar com mais proficiência esses
irmãos necessitados de amor e carentes de compaixão. Fortificamonos
na fé, dilatando-nos a disposição de ânimo para que,
encorajados, possamos prosseguir na tarefa do bem, sem
esmorecimento, com o intuito único de servir.
Saturados por blandícias de paz que a todos contagiavam, o
benfeitor fez uma pequena pausa, para em seguida prosseguir:
-Mãe Santíssima, protetora dos aflitos, desce conosco, através dos
teus prepostos, às furnas do vale tenebroso, para buscarmos
resgatar das regiões de sofrimento nossos irmãos desesperados e
atoleimados pela dor. Muitos deles, cristalizaram-se na revolta
irrefletida. imputando a sorte malfadada aos desígnios do Criador.
Entretanto, a bondade incomensurável do Pai oferece a todos os que
se dispõem ao arrependimento sincero, a dádiva do recomeço. Até
lá, Mãe querida, cobre-os de bênçãos com o Teu manto protetor,
rogando também por nós junto ao Teu filho querido, nosso Mestre e
Senhor.
Ao concluir a sua rogativa, fomos envolvidos por uma onda de paz
indescritível, pois que, emergindo das regiões sombrias, entidades
venerandas saudavam-nos à distância, como que dando as boas-
vindas de Maria ao nosso trabalho iniciante em prol daquelas almas
proscritas. Compúnhamos um grupo de cinco trabalhadores sob a
coordenação do querido padre que, após esboçar algumas
recomendações de ordem prática, preparou-nos para partir. Dentre
os apetrechos que trazia consigo, acondicionados numa espécie de
mochila, ele retirou um joio de cordão, discretamente luminoso,
dando-me a impressão de estar imantado de energia fosforescente,
falando em seguida:
Iniciaremos a descida, em fila indiana, comigo à frente; os demais
também segurarão na borda do cordão em espaços não superiores a
dois metros de distância do companheiro à sua frente; o último
deverá ter a ponta do cordão enrolado sobre a cintura, de modo a
não se desgarrar da equipe. Os lamentos e gritos de revolta serão
ouvidos com maior intensidade à medida que formos descendo,
próximos às cavernas, onde se agrupam, em maior número, nossos
irmãos desafortunados. Será nessa hora que, movidos pelo
sentimento de piedade, precisaremos de muito equilíbrio para
conter o ímpeto de querer ajudá-los precipitadamente. O socorro
efetivo virá na ocasião oportuna, quando detectarmos aqueles que
sinceramente desejarem ser ajudados e voltando-se para nós,
perguntou:
-Todos a postos?
E ante a resposta afirmativa do grupo, o instrutor determinou:
Iniciaremos agora a descida pela trilha das encostas, já preparada
pelas entidades que há pouco nos saudaram.
O caminho parecia pavimentado de suave energia-claridade,
facilitando o nosso deslocamento e, não fosse a providência
adotada, à exceção do nosso benfeitor, nossa movimentação
dificilmente se daria em condições normais, face à densidade
específica do nosso perispírito, jaara, sobrepor-se àquela região de
psicosfera adensada. A medida que avançávamos em direção às
regiões mais baixas, a atmosfera .sufocava-nos, causando terrível
mal-estar; uma espessa camada de neblina impedia a penetração
dos raios solares, mantendo o vale constantemente em sombras; os
primeiros lamentos, seguidos de impropérios, se faziam ouvir não
muito distantes de nós, o que dava a impressão de distarmos a
apenas alguns metros daqueles infelizes irmãos.
Depois de mais algum tempo de caminhada silenciosa, chegamos a
um local, espécie de clareira encravada naquela região cavernosa. O
instrutor recomendou-nos para que permanecêssemos em oração,
ao tempo em que retirava da mochila uma lanterna especial e alguns
pedaços dexordas. luminosas, da mesma substância do cordão que
utilizávamos para o deslocamento. Em seguida, orientou-nos para
que juntássemos a ponta de cada um dos pedaços, à nossa
disposição, ao cordão mestre; curiosamente eles se fundiam com o
cabo principal, dando a impressão de ter sido soldado por uma
poderosa liga magnética de surpreendente resistência e, sem perda
de tempo, acendeu a lanterna e projetou a sua luz na direção de
onde provinham as lamentações.
O quadro à nossa vista era estarrecedor; lembrava as cenas horríveis
descritas por Dante no "inferno" da sua Divina Comédia. Um
pântano se alongava sob as nossas vistas assustadas, até aonde a luz
projetada pela lanterna conseguia iluminar. Entidades
desgrenhadas lutavam freneticamente na tentativa de se
desembaraçarem da massa pegajosa.
A um sinal do instrutor, lançamos os cordões na direção daquelas
almas sofridas que, imediatamente, se projetaram
desesperadamente sobre as suas bordas, na tentativa de saírem do
lodaçal. Durante quase um quarto de hora, aproximadamente,
tempo em que durou a operação, apenas cinco entidades, sendo
quatro homens e uma senhora, foram resgatadas, pois os demais
sofredoresy ao se aproximarem, na tentativa de agarrar os cordões,
estes pareciam diluir-se ao contato das suas mãos. As que se
encontravam mais atrás, "protegidas" pela pouca iluminação,
vociferavam impropérios, tentando impedir o resgate das demais.
Depois dos primeiros socorros de assepsia fluídica para se
desvencilharem do odor fétido da lama pegajosa,.— iniciamos o
caminho de volta, incorporando à nossa caravana as cinco entidades
resgatadas. O processo de subida, embora penoso, foi de certa
forma facilitado pela pavimentação magnética do caminho,
preparado pelos Espíritos venerandos, conforme já mencionado
anteriormente. Ao cabo da viagem, finalmente, nossos irmãos foram
recolhidos com êxito em nossa Colônia, junto [ao pavilhão dos
necessitados.
XVIII
A desilusão de Guiomar
Na manhã do dia seguinte, apresentamo-nos ao instrutor para
darmos a continuidade da tarefa; ao receber-nos, solícito,
demonstrando satisfação pelo sucesso da véspera, considerou:
Doravante, vocês acompanharão o tratamento desses irmãos,
dispensando cuidados especiais na recuperação da sua lucidez e
preparativos para futura reencarnação.
E distribuindo as tarefas para cada um de nós, coube a mim a
responsabilidade de cooperar com ele no soerguimento de uma
jovem senhora levada ao suicídio por sentimentos passionais. Passei
a visitar a pobre Guiomar quase que diariamente, ministrando-lhe
passes e palavras de consolo que aparentemente parecia não
registrar: mas com o passar do tempo, notei que o tratamento
começava a surtir o efeito desejado, pois, aos poucos, ela foi
apresentando melhora promissora, dando os primeiros sinais
visíveis de lucidez, até que, certo dia, dirigindo-se a mim,
perguntou, como, aliás, costumam fazer os que são auxiliados por
desconhecidos:
Onde estou? Quem é você? O que aconteceu comigo?
As enxurradas de indagações e o olhar perscrutador, examinando
meio desconfiada tudo à sua volta, davam conta do estado de
confusão em que ainda se encontrava. Mas, depois de responder aos
seus questionamentos, Guiomar ganhou maior confiança e,
desabafando-se, resolveu contar a suaixislória:
O meu drama se resume no de tantas outras mulheres que se
deixaram levar pelo torvelinho da paixão. Consorciei-me com
Custódio, construindo um lar aparentemente feliz. Os filhos vieram
na seqüência de dois meninos e uma menina, tomando-me todo o
tempo disponível nos cuidados com as obrigações do lar. Geraldo, o
primogênito, contava dezessete anos e preparava-se para ingressar
na Faculdade; Armando, um pouco mais jovem, com quatorze,
cursava o colegial, enquanto Lavínia, a extemporânea, de apenas
nove, estava concluindo o primário. Meu marido trabalhava numa
distribuidora de autopeças e viajava com freqüência para atender a
clientela da nossa comunidade e cidades circunvizinhas. Quando
raramente permanecia em casa, era indiferente para comigo,
limitando-se, quase sempre, à feitura dos seus relatórios semanais.
A falta do seu apoio decidido sobrecarregava-me com a educação
dos filhos, extenuándome, cada vez mais, e colocando em risco a
nossa harmonia conjugal.
Todavia, enquanto acreditava na fidelidade do meu marido,
conseguia, de certa forma, equacionar os problemas afugentes que
rondavam nosso lar. Certo dia, porém, talvez premido pela angústia
que carcomia a sua consciência-culpada, Custódio não pôde mais
suportar e acabou confessando a sua ligação afetiva com outra
mulher. Disse que não mais me amava e propôs a separação; tentei
desesperada, dissuadi-lo da idéia perturbadora, evocando a nossa
co-responsabilidade na educação dos filhos e nas obrigações do lar.
Entretanto, movido pelo fascínio da outra mulher, de nada lhe
valeram as minhas súplicas e as lágrimas derramadas, pois com
quarenta e dois anos de idade, meu marido se apaixonara por uma
jovem de vinte e seis, dizendo fruir ao lado dela a felicidade que
não lograra alcançar comigo, durante os dezoito anos de nossa
união conjugal.
A humilhação e o desprezo sofridos minaram as minhas resistências
morais e, desesperada, num ato de loucura, pus termo à minha
vida, ingerindo alta dose de corrosivo, supondo subtrair-me da
dolorosa provação a que estava sendo submetida. Depois do ato
insano, passei por um longo período de indescritíveis
padecimentos, por estagiar nas zonas mais baixas do sofrimento:
acreditando-me ainda viva, tinha a sensação de estar sendo corroída
por vermes vorazes, sem tréguas, sem fim, ora levando as mãos na
garganta, ora gritando desesperadamente por socorro, em estado de
franca alienação. Somente depois de muito tempo, não sei precisar
quanto, fui finalmente socorrida e amparada por mãos piedosas que
me subtraíram da região infernal. Agora, ciente da
indestrutibilidade do Espírito imortal, imploro ao Pai a
oportunidade de reconstruir a vida deliberadamente malbaratada
para, se possível, ainda poder ajudar os filhos que ficaram na
retaguarda da indumentária carnal.
Calou-se, dando a impressão de estar mais aliviada após a
confissão.
A par das atividades normais na Colônia espiritual a que me filiara,
eu procurava dar o máximo da minha atenção aos cuidados de
Guiomar,, quando passado quase um ano desde a sua chegada à
nossa Colônia, o meu instrutor propôs-me uma nova tarefa, a fim de
poder dar continuidade ao atendimento da nossa irmã. Prepararia
Guiomar para dar o seu "depoimento vivo", em forma de
advertência, aos irmãos reencarnados na crosta terrestre. sohre a sua
experiência fracassada. O lar ficaria para depois quando, mais
equilibrada, reunisse condições emocionais para visitar os seus
familiares. Foi, então, submetida a operações magnéticas por
técnicos competentes no assunto, após o que passei a acompanhá-la
semanalmente até a Instituição de onde procedi quando
encarnado. Aos poucos, com a assistência do Espírito benfeitor que
dirigia os trabalhos da desobsessão, Guiomar foi se ajustando ao
psiquismo do médium para futura comunicação. Intrigado,
perguntei ao mentor por que a comunicação não poderia>-dar-se de
imediato uma vez que o médium estava com-disposição de
trabalhar e Guiomar com o desejo de se-comunicar. Percebendo o
meu sincero desejo de novas aprendizagens, Alfredo apressou-se
em explicar:
-Nem sempre esse intercâmbio pode se dar nas condições
desejadas. O ex suicida precisa, antes de tudo, libertar-se das
energias tóxicas que impregnaram o seu perjspírito logo após o ato
impensado, pois a sua justaposição com o perispírito do médium
pode causar a este um terrível mal estar por majs equilibrado que
seja.
E concluindo o seu raciocínio, arrematou:
-O suicida é um sofredor atormentado por si mesmos exigindo alta
dose de renúncia do trabalhador em serviço mediúnico, para que o
socorro seja eficaz.
O tempo passava ligeiro, enquanto envidávamos os melhores
esforços no preparo de Guiomar para que ela pudesse dar a sua
primeira comunicação; quando isso finalmente aconteceu, a sua fala
não foi somente um sinal de alerta, foi o testemunho vivo de um
Espírito arrependido que, agora, descrevia em cores vivas os seus
tormentos purgados no vale da sombra e da morte.
Depois disso, entramos na fase de preparação psicológica da nossa
tutelada para fazer a sua primeira visita, em minha companhia, ao
antigo lar terrestre. A tarde caía, prenunciando a chegada da noite;
as atribulações inquietantes do dia-a-dia davam, agora, tréguas
temporárias ao Espírito encarnado. Aquela hora do crepúsculo, o
céu já oferecia aos nossos olhos um espetáculo de deslumbrante
beleza, pois as claridades das primeiras estrelas já começavam
disputar o espaço de sombras deixado pela ausência luminosa do
astro rei. Extasiada pela beleza daquela hora crepuscular, Guiomar
pediu permissão para orar e, inspirada, discursou emocionada:
-Maria, Mãe Santíssima de todos nós! Como agradecer pelo júbilo
do momento? Recém-saída do atoleiro das misérias morais, a que
me chafurdei deliberadamente,— violando o sagrado dever de
preservar a própria vida, rogo— ao teu sentimento de mãe que
intercedas por mim junto ao Teu filho bem-amado, nosso Mestre e
Senhor Jesus, bem como por todas aquelas almas proscritas que
ainda estagiam no vale da dor. Se permitido for, gostaria de volver
ao lar terrestre, de onde evadiu covardemente, deixando na
retaguarda de lutas, três filhos que o Pai me havia confiado à
guarda para edificá-los, consoante os preceitos da moral— cristã.
Ciente das limitações que ainda me cerceiam o anseio de ajudar, em
conseqüência do ato tresloucado, permite-me, mesmo assim, a
oportunidade de trabalhar em prol dos que ficaram na Terra sem o
meu amparo de mãe. Não sei como os encontrarei, mas seja em que
circunstância for, rogo a tua amorável assistência para conceder-me
a força e a coragem necessárias para enfrentar os novos desafios
que, sem dúvida, advirão.
Notei, embevecido, que uma doce claridade— derramada do Alto
espraiava-se sobre a cabeça da nossa— irmã. Guiomar chorava
discretamente, e as lágrimas deslizavam sobre sua face, agora
iluminada de acalentadas esperanças no porvir; e enquanto
formulava os agradecimentos finais da sua comovedora oração,
aproveitei para meditar na preciosidade da experiência terrena que
a misericórdia do Pai a todos concede, como valioso instrumento de
evolução.
A noite agora já ia alta e, mais adensada, contrastava com o brilho
fulgurante das estrelas que "salpicavam o céu em tonalidades mil".
Revitalizados pela absorção das energias, provenientes dos e, feitos
da prece, iniciamos a operação de descida em direção à crosta
terrestre.
Depois da hecatombe moral imposta a si mesma, era a primeira vez
que Guiomar voltava ao lar para visitar os seus familiares.
Aproximamo-nos da pequena cidade, ganhamos a rua com pouca
movimentação e, finalmente; chegamos à casa onde, outrora, nossa
irmã vivia na companhia do marido e dos seus três filhos.
O ambiente, embora acolhedor, causou profundo mal estar à exresidente:
afinal, onze anos já haviam se passado desde a sua
partida e a arrumação da casa, evidentemente, não poderia ser mais
a mesma. O quarto onde dormiam os garotos foi transformado em
escritório, disposto com escrivaninha e máquina de escrever; o da
menina, em saleta de som com direito a barzinho, decorado com
bebidas sofisticadas; a câmara do casal parecia inalterada, até que
um pequeno detalhe chamou-lhe a atenção. Discreto porta-retratos,
descansando sobre um móvel ao lado da cama, dava conta de que
algo havia alterado a composição do álbum familiar. Guiomar
estava assustada e parecia desfalecer. Decidimos, então, voltar mais
à noite e esperar a chegada dos familiares.
Movimentamo-nos em conversação amena até a praça pública,
embelezada com flores variadas e árvores frondosas; delicada placa,
bem disposta, colocada ao lado de pequeno arbusto, chamou-nos a
atenção pelos seus dizeres inusitados: "ampara-me hoje, para que
amanhã eu possa ofertar-te a dádiva da sombra nos dias quentes
de verão." Guiomar silenciou por alguns instantes, parecendo
meditar no enunciado daquelas palavras e, desviando o olhar na
minha direção, falou entre constrangida e emocionada:
-É interessante notar como o significado dessa mensagem tem
muito a ver comigo.
-Como assim?
-Meus filhos -respondeu, de certa forma desapontada -eram quais
delicadas plantas colocadas por— Deus sob os meus cuidados. O
testemunho difícil da— separação talvez me fosse suavizado se eu
mantivesse aumente sempre ocupada na edificação dos filhos
consoante-— os princípios da educação cristã.
Calou-se meditativa, cujo silêncio não ousei interromper. Logo
mais, Custódio chegava, acompanhado da mulher em animada
conversação. Guiomar parecia impacientar-se ante a falta de
informações que pudessem esclarecê-la quanto à atual situação
vivida pelo ex-marido e a sua suposta nova mulher. Logo após o
jantar, talvez, carptando as vibrações de Guiomar, Custódio falou
em tom de desagravo:
Sabe, Cleonice, ultimamente tenho pensado muito sobre o triste
episódio protagonizado pela minha ex-mulher. Eu sei que você não
gosta de tocar nesse assunto, mas...
Ante a reticência que impedia a conclusão do raciocínio, Cleonice
interveio contrapondo:
-Ora, meu bem, você sabe que a lembrança de Guiomar causa-me
profundo mal-estar, até porque se ela decidiu-se pela eliminação da
própria vida, o que fazer? Você não lhe propôs separação amigável?
Além do mais -continuou, com uma pitada de maldade -o seu ato
impensado fez com que assumíssemos os encargos dos filhos,
quando eles mais necessitavam da sua assistência de mãe. Talvez
por isso, Geraldo e Armando tenham-se enveredado pelo caminho
das drogas, sendo ambos brutalmente assassinados por
desconhecidos, restando apenas Lavínia, que se consorciou, já
engravidada, sem a mínima possibilidade de concluir seus estudos.
A conversa continuou fluindo nessa direção até que, percebendo o
descontrole emocional de Guiomar, tomei-a pelo braço e sugeri que
saíssemos. A notícia de que Geraldo e Armando haviam
desencarnado em circunstâncias trágicas desestruturara-a quase que
por completo. Sobrava apenas Lavínia para consolo do seu coração
de mãe. Guiomar, então, manifestou o desejo de visitá-la, para o
que, movimentei a atenção dos Espíritos amigos, responsáveis por
aquele círculo de proteção espiritual. Assim, não foi difícil localizála
e já na noite do dia seguinte demandamos o local onde residia
nossa irmã.
Lavínia morava num bairro muito pobre da periferia, em uma casa
mal acabada, mas apesar das circunstâncias locais, a ambiência
interna do lar irradiava uma paz acolhedora. Tornara-se espírita,
levada pelo seu marido, que colaborava na direção de uma
Instituição, fundada sob as diretrizes dos princípios básicos da
Doutrina Kardecista. A noite, aguardamos a chegada do casal; eram
pouco mais de vinte e duas horas quando ela, em companhia do
marido, deu entrada em sua casa. Retornavam de uma reunião-—
Nespírita, conversando animadamente sobre o tema da palestra,
versado no exercício prático da caridade cristã. Em dado momento,
Lavínia pareceu registrar a presença de Guiomar porque, dirigindo-
se ao esposo, falou quase chorosa, em tom de desalento:
-Ah! Que falta ainda me faz a minha saudosa mãe! Depois da sua
morte, em circunstâncias trágicas, fui tomada por um vazio imenso,
seguido de medo irreprimível, sem explicação.
^Apesar de consolada pelo marido, Lavínia não pôde mais conter as
lágrimas de saudade há tanto tempo represadas no coração. Talvez
percebendo que a sua permanência por mais tempo naquele reduto
doméstico—^-poderia, ao invés de ajudar, prejudicar a própria
filha, Guiomar pediu para sairmos. Lamentava agora, embora
tardiamente, não poder continuar na vida para dar guarida à
própria filha, necessitada da sua assistência maternal.
Na manhã do dia seguinte, retornamos à Colônia para prestar
contas da tarefa que me fora confiada pelo padre benfeitor.
XIX
Provas e espiações
De volta à presença do bondoso padre, fui surpreendido pela
informação de que o trabalho em prol da nossa irmã continuaria
contando com a minha cooperação até o seu renascimento, em
circunstâncias constrangedoras. A reencarnação de Guiomar se
fazia necessária para liberar sua consciência culpada do ato nefando
que resultara na sua desencarnação. A Misericórdia Divina é
sempre pródiga em favor dos que se dispõem ao. acerto de contas
com a própria consciência e conseqüentemente com as Leis do
Criador; era o caso de Guiomar, que se dispunha voltar à Terra
pelos braços do ex-marido e de sua antiga rival.
Cleonice, dezesseis anos mais jovem em relação a Custódio,
precisaria ser trabalhada para acolher no seu ventre de mãe o
retorno de Guiomar, que renasceria com problemas
gastroduodenais, originados pela ingestão do corrosivo que
provocou a sua perda existencial. Padre Francisco ultimou
providências para o encontro de ambas em estado de
desdobramento, oportunidade em que mediaria, com a minha
modesta colaboração, o diálogo memorável. Orientou-me para que
inspirasse os atuais pais.
de Lavínia a buscarem aproximação mais estreita junto à filha
financeiramente necessitada. Valendo-se desse pretexto, Custódio e
Cleonice, sensibilizados, passaram a freqüentar mais regularmente a
sua casa. Entretanto, o Espírito resignado de Lavínia, ante as
dificuldades materiais vivenciadas em companhia do marido,
acabou por fazê-la exercer preponderante ascendência moral sobre
os pais. A partir daí não foi difícil convencê-los a freqüentar as
reuniões, em família, do Culto do Evangelho no lar.
Para júbilo de todos nós, depois de algumas semanas, Custódio e
Cleonice aportavam à Instituição, levados pelas mãos de Lavínia, a
freqüentar as reuniões semanais de palestras e passes. Concluída
com êxito a primeira parte da estratégia arquitetada pelo padre
benfeitor, providenciamos o desdobramento de Cleonice, a fim de
prepará-la para o encontro com Guiomar.
***
O relógio marcava pouco mais da meia-noite quando chegamos na
residência do casal. Cleonice ressonava, demonstrando certa
dificuldade para sair do corpo; com a ajuda do benfeitor na
aplicação de passgs, ela desprendeu-se meio confusa, sem precisar o
que estava acontecendo à sua volta. Entretanto, aos poucos, foi se
assenhoreando do seu estado de relativa independência, quando,
então, passou a registrar a nossa presença. Tomando-nos à conta de
entidades veneráveis, reverenciou-nos entre respeitosa e assustada:
-Por quem são, ó emissários celestes? O que desejam de mim?
-Precisamos da sua colaboração para socorrer uma alma
necessitada.
-Como assim? -retrucou meio desconfiada.
-Trata-se de Guiomar que precisa, por seu intermédio, renascer na
Terra para resgatar pesado débito— contraído, como você já sabe,
pela ação deliberada da autodestruição.
Cleonice estremeceu: ensaiou retornar ao corpo, mas foi contida
delicadamente pelo padre, que voltou a considerar em tom mais
grave:
-Minha filha! Considere que Guiomar fraquejou por não suportar a
proposta da separação, motivada pelo seu concubinato com
Custódio; muito embora não tenha participado diretamente da
tragédia que a acometeu, a sua ligação com Custódio resultou em
ato de prevaricação que agora precisa ser reparado.
Aflita, Cleonice levou as mãos à cabeça e retrucou desesperada:
-Não, não posso, não posso; não estou preparada para emprestar o
meu corpo físico para lhe servir de mãe.
-Não se agaste com isso -tranqüilizou-a o benfeitor-
A dor imposta pelo estágio
sofrimento do vale tenebroso
compulsório
fê-la refletir
nas
na
regiões
necessidade
de
de buscar a sua ajuda, objetivando a reconciliação.
-Mas e quanto a Custódio? -retrucou temerosa.
Quase sexagenário, ele curtirá o nascimento da filhinha como
verdadeira bênção dos céus, que virá para suavizar o seu coração
aturdido pelo remorso destruidor.
As palavras do venerável padre, impregnadas de suave
magnetismo, pareceram surtir o efeito desejado porque, mais segura
e tranqüila, Cleonice finalmente resolveu aceitar o desafio. Alguns
dias depois, acertamos os detalhes do encontro para acontecer nas
proximidades da Colônia, onde a psicosfera mais amena facilitaria o
diálogo para o entendimento. Os conhecimentos doutrinários,
hauridos na freqüência regular ao Centro Espírita, acabaram
favorecendo a disposição de Cleonice em se converter na futura
mãe. Finalmente chegou o grande dia do inolvidável encontro.
Frente a frente, Guiomar e Cleonice se olhavarm assustadas.
Incentivada a falar primeiro, Guiomar tomou a iniciativa do diálogo
em tom suplicante:
-Perdoe-me o ato tresloucado, imputando a você e ao meu exmarido
a culpa do suicídio que_deliberadamente pratiquei. É bem
verdade que ele se apartou de nosso convívio, no momento em que
mais necessitava da sua companhia para a educação de nossos
filhos; mas hoje me questiono se, a despeito de tudo, eu também
não tive uma parcela de culpa no infaustuoso acontecimento. O
momento, entretanto, não comporta lamentações, pois necessito
muito da sua ajuda para renascer na Terra, a fim de reparar o mal
causado a mim mesma, quando impus a morte prejnatura dn meu
corpo físico, sem a coragem necessária para suportar a terrível
provação.
Guiomar concluiu a sua fala banhada em lágrimas de sincero
arrependimento. Talvez por isso, encorajada, Cleonice interveio de
forma surpreendente:
Minha irmã! Também eu devo reparações e por isso não posso mais
me furtar de atender ao seu pedido, para recebê-la na Terra nos
meus braços de mãe.
Na seqüência do diálogo foi interrompida por uma cena apoteótica
que a todos comoveu, pois que ambas se abraçaram, chorando de
emoção; a poção mágica do perdão recíproco começava a amolecer
os corações ressentidos^-dando lugar a uma nova era que se
iniciava, para todos, a partir de então.
Mais de um ano já havia se passado quando, finalmente, cumpriu-
se o fatalismo da Lei. Cleonice dava à luz uma linda menina,
estigmatizada por problemas congênitos na região do aparelho
fonador e gástrico. A partir daí a minha tarefa, neste caso, estava
concluída, sendo convidado a retomar as atividades normais do
intercâmbio. Com nossos irmãos encarnados sob a tutela do querido
benfeitor.
XX
A comunicação
Apesar dos meus afazeres cotidianos na Colônia, jamais perdi o
vínculo com a Instituição, onde atuava como trabalhador, quando
encarnado; participava, sempre que podia, das atividades
mediúnicas daquela Casa; depois de um período relativamente
curto de adaptação no exercício da psicofonia. já que colaborava
com outros trabalhos correlatos do gênero, estava apto a iniciar-me
na tarefa do intercâmbio, agora na condição de modesto benfeitor.
Utilizar-me-ia de valorosa cooperadora, que se dispunha a oferecer-
me suas faculdades mediúnicas a serviço de Jesus.
Agradecido ao Senhor pelo ensejo do trabalho edificante na tarefa
do bem, compareci, naquela noite inolvidável, em companhia do
querido instrutor e de outros irmãos desencarnados, à reunião que
marcaria para mim o início de dignificante trabalho. Ao sintonizar-
me com Marilda, dando início às atividades mediúnicas, senti-me
engolfado por um oceano de paz. Naquela oportunidade, por
sugestão do querido instrutor, eu enfeixaria os trabalhos da noite,
com breve mensagem sobre as conseqüências do suicídio
endereçada aos irmãos encarnados e desencarnados presentes à
reunião. Notei que muitos Espíritos, amargurados pelo
arrependimento tardio deixavam transparecer no semblante traços
indeléveis de superlativa dor. Alguns já haviam sido atendidos em
nossa esfera de ação, outros, porém, necessitavam experimentar.
O_çhoque anímico no contato com os médiuns, enquanto que
muitos, embotados pela carga negativa de vibrações envenenadas,
ainda não reuniam as condições ideais para a "incorporação". Após
o depoimento dos Espíritos sofredores que me antecederam na
comunicação, justapus-me ao psiquismo de Marilda e dei início à
mensagem que finalizaria os trabalhos da noite.
-Meus queridos irmãos, Jesus seja conosco hoje e sempre.
-A Terra há sido, desde há milênios, o abençoado reduto de
progresso para o nosso Espírito imortal. Nos dias atuais, entretanto,
vimos atravessando um período prolongado de sofrimento coletivo,
fruto do nosso distanciamento dos sagrados princípios da Lei do
Amor. E porque os tempos são chegados, conforme asseverou-nos o
Mestre Jesus, a dor campeia em toda parte face à nossa acomodação
na indiferença dos seus doces chamamentos, preferindo assim, pelo
mau uso do livre-arbítrio, o caminho equivocado das nossas
preferências pessoais. Por isso mesmo, generalizam-se os conflitos
de toda ordem, levando muitas almas invigilantes na onda
avassaladora da autodestruição. E ao despertarem no mais além,
estimulados pelos problemas e conflitos íntimos que as acometiam e
dos quais nem o fenômeno da morte conseguiu suavizá-las,
desesperam-se e, revoltadas pelo orgulho que ainda remanesce na
sua intimidade espiritual, imputam ao_ Criador a sua sorte
malfadada.
Ainda assim, quando levadas pela dor ao arrependimento sincero,
sempre encontram guarida e amparo junto à Misericórdia Divina
que, valendo-se de almas piedosas, possibilita-lhes o seu
recambiamento às zonas de tratamento adequado, onde aguardam
esperançosas, nova oportunidade para a reencarnação.-— Muitos
dos que estagiam conosco nesta noite, também cortaram o fio da
própria vida, em conseqüência do livre arbítrio mal conduzido,
quando deveriam, como artífices dos seus próprios destinos,
trabalhar na edificação do seu projeto redentor. E porque Deus é pai
de amor e misericórdia, faz com que as oportunidades se renovem
para todos aqueles que, sinceramente, desejam reiniciar a tarefa
interrompida.
Envolvido na onda mental de Marilda, que me cedia o seu
iristrumental mediúnico para a mensagem da noite, aliado às doces
emanações de paz que provinham de mais alto, confesso que estava
emocionado e, comovido, falei exultante:
-Assim, meus queridos irmãos, Jesus nos conclama ao trabalho
ativo e incessante na prática do bem sem descoroçoamento,
porquanto as lamentações improdutivas, sobre o tempo
malbaratado, prostram-nos à retaguarda de sombras, inabilitando-
nos ao esforço de renovação. O tempo urge, meus queridos, e não
podemos adiar a oportunidade de trabalho.à nossa disposição: o
socorro dispensado em prol dos semelhantes tem sido, em todos os
tempos, o lenitivo para asjiossas próprias dores. E da Lei que todo
aquele que dá, recebe, também, nas mesmas proporções das dádivas
ofertadas. As almas enlouquecidas pela dor, que estagiam
temporariamente nas furnas de sofrimento do mais além, reclamam
o socorro incondicional e urgente de todos os que se dispõem a
servir, com Jesus, seja em que circunstância for. Destarte,
busquemos socorrer os que sofrem ainda mais do que nós, de vez
que quem ajuda não dispõe de tempo parareclamar das próprias
aflições.
Ao encerramento da mensagem, notei que muitos irmãos de nosso
plano, trazidos para os esclarecimentos da noite, tinham o
semblante nimbado por suave claridade de tênue esperança; após
pequena pausa, enderecei ao Senhor uma prece de sentida gratidão:
-Jesus, amigo divino de nossas almas! Digna-Te atender as nossas
súplicas, a fim de rompermos definitivamente com os erros do
passado: ao dar cabo do corpo fisíco supúnhamos finar também os
problemas afugentes que angustiavam nossas almas, mas para
nosso maior desencanto, eis que despertamos no além mais
desesperados ainda, carentes de comiseração. Os sofrimentos
morais, após a aduana da morte, misturaram-se com a dor atávica
do corpo físico, proveniente da desestruturação psicológica,
provocada pelo ato de loucura da autodestruição.
Agora, Senhor nosso, após o sofrimento corretivo, fruto da nossa
irreflexão, recorremos, uma vez mais, à Tua Magnânima Bondade
para que Te apiedes de todos nós, os que aqui nos encontramos,
acenando-nos com a esperança promissora de um novo porvir em
futura reencarnação. Danos, Jesus querido, às nossas almas
empobrecidas, o escudo da coragem, a fortaleza da fé e a claridade
da esperança na vitória de nossas possibilidades reabilitadoras para,
quem sabe um dia, alcançarmos também a Tua morada de luz.
Ao concluir, com o fecho da oração, identifiquei-me como o antigo
trabalhador da nossa Casa, não há muito
tempo desvencilhado das indumentárias carnais; notei, entre
surpreendido e emocionado, que suave claridade,-vinda do Alto,
espraiava-se sobre todos nós, absorvida em maiores proporções
pelos irmãos sofredores desencarnados-.— Encerrada a reunião, os
companheiros assistidos de nosso plano foram encaminhados para a
continuidade do atendimento espiritual, enquanto os irmãos
encarnados usufruíam da paz que ainda remanescia no salão;
mesmo assim, para minha desagradável surpresa, alguns
comentários desconsiderados, vazados na mais pura leviandade,
espocavam aqui e acolá, causando-me natural desapontamento.
Dentre eles, observei um jovem casal, cujo diálogo chamou-me a
atenção:
A reunião -considerou o rapaz com ceticismo sem dúvida nenhuma
foi confortadora, mas atribuir a autoria da mensagem ao nosso
ausente Fernando, francamente...
Antes, porém, que o marido desse curso às suas falações, a esposa
interrompeu-o, replicando judiciosa:
Creio ser descaridoso duvidarmos da autenticidade da
comunicação, cujo teor em nada se contrapõe com o caráter de
Fernando.
-Mas como saber -retrucou o companheiro, intempestivo -se não
se trata de animismo ou mesmo uma mistificação? O Evangelho continuou
o rapaz irreverente -não nos adverte quanto aos
cuidados com os falsos profetas?
-Sim -devolveu-lhe sabiamente a mulher -naturalmente você está
se referindo à Ia epístola de João em Atos dos Apóstolos, Capítulo 4
"não creiais em qualquer Espírito, mas antes provai se os Espíritos
são de Deus"; ora; a mensagem que chegou até nós traz consolo, dá
alívio e esperança aos nossos corações e, principalmente, dos que se
equivocaram na prática desastrosa do suicídio. Por isso mesmo, não
pode ser apócrifa, levando-se, ainda, em consideração, que a árvore
má não pode produzir bons frutos e nem a árvore boa produzir
maus frutos, conforme nos asseverou o próprio Mestre Jesus; além
do mais, há que se levar em conta também o caráter ilibado de
Marilda,. que há longos anos vem se dedicando ao serviço da
Causa-Espírita com desvelado amor.
Ante a argumentação lógica e irretorquível da mulher, o moço
capitulou e assim a discussão foi encerrada. Desapontado e
constrangido, voltei-me ao instrutor que me antecipou ao
questionamento e, sorrindo espontaneamente, falou com bondade:
-Fernando, meu filho, não se apoquente ante as desconsiderações
dos que ainda não podem compreender o esforço alheio de
iluminação. Jesus também foi incompreendido; apupado pela
multidão enlouquecida, foi preterido por Barrabás e levado à cruz
do sacrifício por um crime que não cometeu. Ainda assim, confiou
no Pai,, "deixando-se arrastar pelas mãos da injustiça para o grande
testemunho que viera oferecer à humanidade
Envergonhado, baixei a cabeça e refleti na extensão do trabalho à
minha frente, que apenas começava, aguardando venturoso a
continuidade das tarefas que me possibilitariam o ensejo de
ascensão.
XXI
Finalmente juntos
A partir de então, e sempre que podia, acompanhava os passos de Priscila
e Hipólito, cuja saúde física periclitava a olhos vistos, tornando-se
iminente a sua desencarnação. Priscila desdobrava-se nos cuidados
com o rapaz e, ultimamente, as seguidas noites de vigília acabaram
também por enfraquecê-la, provocando-lhe enorme desgaste e
abatimento físico. Hipólito, por sua vez, definhava_ cada vez mais,
até que certa noite não mais resistiu, vindo a desencarnar,
amparado nos braços de Priscila, cuja cabeça pendeu-lhe junto ao
peito nos derradeiros momentos da respiração. As lágrimas da mãe
que outrora o abandonara orvalhavam a face mortuária do filho
órfão adotado pelo seu coração. Nesse clímax de perene amor,
resgatavam pesado débito, favorecidos pela oportunidade da
reencarnação. A linguagem humana ainda é muito pobre para
descrever em cores vivas os momentos derradeiros da alma
redimida, que parte da Terra em direção ao Céu, na busca da
perfeição. Priscila aconchegava junto ao seu coração nosso filho
bastardo do passado, enquanto eu agradecia a Deus pela bênção do
reencontro inolvidável.
Ela, agora, registrava-me a presença como a do trabalhador
humilde, sincero e renovado que emergia do pântano de
mim mesmo em busca de libertação. Foi aí que retrocedi-no tempo
e, recordando-me do sacerdote infiel e desalmado-de outrora,
instintivamente dobrei-me de joelhos para evocar, agora de forma
diferente, o nome do Senhor:
-Mestre querido, como agradecer-Te pelas dádivas do momento ao
ensejo da minha tão-anelada redenção? A loucura qúe tomou conta
de minh'alma no passado distante, como protagonista da tragédia
que a todos nos acometeu, converte-se hoje, depois de muitos
avatares, em bênçãos luminosas para meu Espírito arrependido
perante aqueles a. quem vitimei. Os poderes outorgados pela Igreja
com a finalidade de servir-Te, pela falta de vigilância, encegueceram
minha alma, estonteando-me com a vertigem do or^u]ho e do
egoísmo exacerbados. Sorvi o cálice do licor envenenado da
prepotência, abusando da autoridade clerical que o poder temporal
me conferia, não para prevaricar com os Teus Santos Ensinamentos,
mas para bem orientar e conduzir as ovelhas tresmalhadas que
haviam perdido o rumo de Deus. Mesmo assim, Divino Amigo,
ouso suplicar-Te a dádiva do perdão, para continuar ao lado dessas
almas que, apesar de causar-lhes tantos danos morais, também
souberam perdoar-me,, ensejando-nos a todos, por isso mesmo, a
oportunidade da tão anelada redenção: entretanto, se preciso for,
saberei remmçiar, por agora, a esse convívio amoroso para
continuar servindo-Te seja aonde for. Confiante na Tua Bondade
Magnânima, aspiro, quem sabe um dia, a vivermos todos juntos
novamente, mas de forma diferente, num mundo de regeneração.
Durante um longo tempo ainda, permaneci ali postado ao lado
deles, em atitude genuflexa e respeitosa, até que, convidado a partir,
acompanhei Padre Francisco, deixando a cargo dos irmãos do nosso
plano, o desligamento.
definitivo dos derradeiros elos que ainda prendiam Hipólito ao
corpo carnal.
***
Depois disso, as minhas atividades continuaram ininterruptas,
sempre com a tutela abençoada do querido padre, que se
desdobrava nos cuidados e ensinamentos em meu favor. Com a
desencarnação de Hipólito, Priscila, que já tinha a saúde bastante
cjanprorrietida, debilitou-se ainda mais, contraindo a temível
tuberculose, irreversível para os recursos médicos da época,
delineando-se então a sua prováveldesencarnação. Inquieto com o
sofrimento da denodada companheira de trabalhos espirituais, que
se prolongava além das minhas expectativas, consultei o instrutor
quanto à possibilidade dó seu desligamento definitivo, já que não
havia mais as condições ideais para a sua permanência na
indumentária carnal. Relevando-me a ignorância no trato com
assuntos daquela natureza, ele aprofundou suas considerações,
elucidando-me com a sua costumeira bondade paternal:
-Observe, filho meu, as reflexões que partem das telas mentais da
nossa querida irmã, no mergulho — introspectivo do passado. São
possibilidades raras, quase sempre alcançáveis pelas criaturas
enfermas que se— encontram nas condições atuais de Priscila, sob a
nossa ótica espiritual. E por essa razão que a eutanásia. condenável
sob todos os aspectos. não_encontra respaldo na doutrina cristã,
devendo, por isso mesmo, ser combatida à lirz_dos esclarecimentos
espíritas, por incompatível comos preceitos da Lei do Criador.
Depois de mais acurada atenção, notei que Priscila exteriorizava
imagens vivas desde a época em que vivera, na Espanha distante,
quando juntos falhamos ante os sagrados compromissos da Igreja e
do lar, o que nos custou, por longo tempo, a dololorosa separação-
Como numa tela mágica, o filme da vida rodava célere, reavivandolhe
a necessidade da conquista definitiva dos valores espirituais,
que começavam a ser amealhados nas experiências da encarnação
que ora se findava. Percebi também, com imenso júbilo, que as
recordações já não mais atormentavam seu Espírito redimido, cujas
lembranças serviam apenas para valorizar os esforços
empreendidos até ali, na busca da sua tão anelada ascensão. Mesmo
assim, intrigado quanto ao aproveitamento real dessas recordações,
questionei à guisa de aprendizado.
Qual o sentido prático dessas reminiscências, uma vez que o seu
desligamento definitivo poderia avivar-lhe ainda mais a memória,
sem tanto empecilho, no terreno, das meditações?
-Enquanto no corpo -explicou-me benevolente o Espírito guarda
sensações diferentes, quando busca nos arquivos da própria alma
as experiências transatas que o infelicitaram, ou que contribuíram
para o enriquecimento do seu patrimônio espiritual. No caso em
tela, Priscila imprime, inconscientemente, nos registros
perispirituais de sua alma, um misto de vivências passadas, com as
experiências presentes, que vem de completar, preparando se assim,
desde_agora, para o porvir de futuras e felizes realizações. E da Lei
que a liberdade de ação tenha a contrapartida da colheita, no
terreno das compensações. Dessa forma, acossado pela realidade
do seu inevitável-retorno, o homem arrependido faz o seu balanço
existencial e já que não pode mais continuar na vida, medita sobre
as experiências perdidas criando, a partir daí, expectativa futura de
reabilitação espiritual.
-Mas, e como ficam os materialistas, que viveram exclusivamente
para a satisfação de seus interesses pessoais?
Antes que eu avançasse nas indagações, o instrutor veio em meu
socorro, esclarecendo:
-Ainda assim, a perspectiva da morte poderá mudar, no último
instante, essa postura negativista da descrença absoluta. Facilitado
pela debilidade, do corpo físico, em função do afrouxamento
doslaçosperispirituais, o Espírito, que não pode se furtar da sua
origem divina, mergulha, favorecido pela acústica da própria alma,
numa reflexão introspectiva do universo de si mesmo, aumentando
a capacidade de discernimento, numa visão ampla dos seus reais
interesses espirituais, alcançando o arrependimento sincero que
poderá indulgenciá-lo, até certo ponto, quanto às futuras
experiências de dor.
Nesse ponto da curiosa narrativa, interrompi a sua fala e retruquei
intempestivo:
Então, o arrependimento, embora tardio, consubstanciado na
entrega do Espírito ao Senhor é a chave que nos faculta abrir a porta
da salvação?
Sem deixar-se perturbar pela impertinência do meu
questionamento, o bondoso padre considerou:
-Não, meu filho, não falo aqui das fórmulas milagrosas, tão a gosto
das criaturas que se acostumaram com os privilégios e as felicidades
do mundo, para interpretarem à sua conveniência as promessas do
Senhor O arrependimento, sem dúvida alguma, é o primeiro e
importante passo, mas deve também ser seguido da reparação,
conforme ficou demonstrado nas palavras do próprio Mestre "a
cada um segundo as suas obras". Veja os exemplos de Maria de
Magdala,e Saulo de Tarso que, após a transformação pelo
arrependimento sincero, se dispuseram a trabalhar, indo às raias do
sacrifício, no suerguimento de si próprios, para melhor poderem
servir à Causa do Senhor.
-Por isso -prosseguiu bem humorado -o trabalho embasado no
vero amor, converte-se em bênçãos dadivosas, capaz de cobrir a
multidão de pecados, conforme asseverou Pedro, de sorte que nem
sempre precisamos purgar o sofrimento nas mesmas condições dos
erros praticados, qual condenados à pena de talião.
O benfeitor fez um ligeiro intervalo e, concluindo sua resposta à
minha indagação sobre o desligamento antecipado da moribunda,
arrematou:
-Ao materialista, alimentado pela filosofia niilista na convicção do
nada, o mais lógico é mesmo cortar o fio da vida, evitando o
sofrimento prolongado. Entretanto, ele ignora que o Espírito
eterno, emboscado no corpo de carne do qual se despede, retira,
desses derradeiros instantes, preciosas conclusões, que a
retrospectiva da vida sempre lhe pode oferecer. E dessa forma que
até mesmo as recordações mais dolorosas contribuem como lições
de momento para a elaboração de seu futuro programaexistencial.
As considerações do querido amigo deixavam-me de
certa forma envergonhado por refletir, agora com maior
profundidade, na importância de cada minuto a ser
vivenciado na Terra onde, a maioria de nós outros, desperdiçamos
tempo considerável numa vida de ócio improdutivo. Não é por
outra razão, refletia agora com maior lucidez, que muitos
despertam no Além, de consciência-— algemada aos próprios erros,
fruto do desprezo no cultivo dos valores espirituais. A minha
consciência de principiante nessa área de aprendizado, ensejava-me
agora reflexões mais aprofundadas sobre o assunto que precisava
melhor escudar.
O tempo passava sem que o quadro clínico de Priscila se alterasse,
até que finalmente Padre Francisco anunciou o seu desenlace para a
noitinha do próximo dia. Face à minha vinculação afetiva com ela,
abster-me-ia de interferir diretamente na parte técnica do processo
da desencarnação. Retornei às minhas atividades habituais e
aguardei pressuroso o momento oportuno.
Conforme estabelecido, retornamos na noite do dia
seguinte encontrando-a já sob os cuidados de dedicados
enfermeiros espirituais, que cumpriam rigorosamente as
instruções prévias do instrutor, nos preparativos para o
desfecho de logo mais. O trabalho iniciou-se por volta das
vinte horas, com a minha postura reverente à sua cabeceira,
em silenciosa oração. Finalmente estaria ao lado dela sem—
o constrangimento da interdição.Senhor
Jesus -balbuciava baixinho de mim para comigo mesmíi aceita
a minha prece reverente de penhorada gratidão em favor de
Priscila que, vencida a refrega da vida, retorna para junto de nós,
para ganhar sua definitiva libertação.
O trabalho no bem, dádiva misericordiosa do Teu Sacrossanto
Amor, vem apagando, qual esponja milagrosa, o nosso passado de
erros. Acreditávamos, enganosamente, poder fruir a felicidade dos
justos, infringindo o Nona
Mandamento da Divina Lei. E depois de flagelar corações
enobrecidos, forçando nossa união proscrita, o destino encarregou-
se de redirecionar as nossas vidas, algemando-nos ao passado de
desterro. Somente o tempo, aliado à nossa disposição de acerto,
poderia facultar-nos encontrar a chave da verdadeira libertação. Os
cruciantes padecimentos a que estivemos submetidos no curso
incessante do tempo, enquanto durou a nossa rebeldia, evidenciou-
nos, à saciedade, que não vale a pena infringir a Lei, em
desobediência aos Teus Santos Ensinamentos. Agora, Senhor nosso,
a um passo de conquistarmos a paz há tanto tempo anelada, não
nos deixes resvalar novamente na invigilância, fortalecendo-nos nos
testemunhos novos quevirão, selando, assim, para sempre, nossa
definitiva e perene união.
A essa altura da minha oração íntima, o nobre instrutor acercou-se
um pouco mais de mim e, descansando as suas mãos em meu
ombro, falou com acento de ternura:
-O trabalho está concluído! Priscila liberta, será conduzida em
aposento próprio, para sua rápida recuperação. Tenho autorização
para permitir-lhe a companhia até o seu despertar, que deverá
ocorrer dentro de oito dias aproximadamente.
Agradeci, exultante de alegria, ante a expectativa de revê-la fora dos
liames carnais, que ultimamente tanto fizeram-na sofrer. Nos dias
que se seguiram, colaborei como pude nos serviços da enfermagem
espiritual, com a aplicação do passe, até que, no nono dia, ela
finalmente despertou. Radiante e incrivelmente rejuvenescida, sem
denotar os sinais de cansaço e abatimento que tanto a flagelaram
nos_dias que antecederam o seu retorno, foi para Padre Francisco o
seu primeiro gesto de gratidão. Porém, ap registrar também a
minha presença, os seus olhos adquiriram um brilho diferente;
lembrei-me, então, da mulher enamorada sem, todavia, denotar-lhe
os indícios da paixão desvairada que outrora tanto nos fizera
sofrer,dando lugar agora a um amor diferente, que plenificava
nossos corações. Respeitosamente, inclinei-me sobre ela e, ao beijar-
lhe a face rósea com ternura fraternal, senti que estávamos
finalmente liberados dos comprometimentos do passado e, de mãos
entrelaçadas, instintivamente nossos olhos se voltaram para o céu.
A tarde, na Colônia espiritual que nos acolhera, caía suavemente
anunciando a chegada da noite, com as primeiras estrelas já
despontando no firmamento, iluminando o espaço de sombras
deixado pela despedida do Astro Rei. A janela entreaberta permitia-
nos divisar os últimos reflexos solares, multicolorindo o horizonte
de intraduzível beleza; nesse crepúsculo inolvidável, bafejado pela
brisa perfumada e refrescante que vinha do jardim em flor,
inspirando-me à oração, saudei a Onipotência do Criador e
enderecei a Jesus a minha prece sentida de louvor e gratidão:
-Jesus, Divino Amigo! Como expressar tamanha alegria pela dádiva
do momento? Apesar de muito claudicar no passado distante, pois
que o meu Espírito enceguecido não conseguia divisar além dos
horizontes mesquinhos dos meus interesses pessoais, gozando
irresponsavelmente das prerrogativas clericais, nem aí Tu me
abandonaste, distendendo mãos dadivosas para o soerguimento do
meu, Espírito devedor. A oportunidade de trabalho, prodigalizada.
pela Tua Magnânima Misericórdia, ao longo desta profícua
existência que se findou, possibilitou-me, depois da dor
regenerativa, a minha emersão dos escombros morais a que, me
arrojara para ascender, hoje redimido, à glória da Tua luz. Mercê do
Teu Desvelado Amor e dos inauditos esforços, que empreendi para
minha recuperação, fruo hoje uma sublime felicidade de difícil
compreensão para aqueles que, como eu outrora, permanecem
ainda de corações endurecidos e algemados na indiferença do
cumprimento dos Teus doces ensinamentos. Propicia-me o ensejo
do trabalho continuado, de sorte a não reter o pouco de luz que o
meu Espírito haja acumulado, ao longo das experiências de dor que
se sucederam desde então.
Desejava continuar, mas fui vencido pela emoção, incapaz de conter
as lágrimas que prorrompiam em catadupas do meu pobre coração.
Embalado por uma onda de prodigiosa leveza que balsamizava
minha alma transbordante de alegria, só então me dei conta, entre
surpreendido e extasiado, que protagonizava um espetáculo,— até
então, singular para mim. Do alto, suave luz descia sobre minha
cabeça, espraiando-se em meu derredor, envolvendo também
Priscila, que parecia absorvê-la em maiores proporções. Padre
Francisco, transfigurado, abençoou nossa união. Suas mãos
distendidas sobre nossas cabeças se assemelhavam a duas_hastes
luminosas, coroando nosso esforço de regeneração.
O silêncio foi a prece muda, endereçada a Jesus pelo nobre
benfeitor, pois que se despedia de nós, após cumprida dignificante
tarefa, rumando em direção às esferas do mais além. Ao vê-lo partir,
não pudemos conter as lágrimas de agradecimento por tudo quanto
nos prodigalizara, ensejando-nos, pela sua ajuda continuada, a
encontrarmos definitivamente o caminho da verdadeira libertação.
FIM
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Cíntia - Ismael Biaggio
(livro de Victor Marinho)
Este romance narra, em cores vivas, a emocionante trajetória de um grupo de Espíritos envolvidos em urdidas tramas do passado, na Espanha distante, na época da Inquisição, onde o Monsenhor Fernandez e Cíntia, personagens centrais da história, resgatam, através de sucessivas encarnações, a dor da separação que, embora temporária, parece ter a duração de uma eternidade. Esta eletrizante história chama-nos a atenção para a vivência prática dos ensinamentos de Jesus, sem a qual ninguém poderá desfrutar a paz, principalmente se vier a sobrepor os interesses próprios ao direito alheio de ser feliz.
Certamente, o leitor sentir-se-á envolvido da primeira à última página com o desenrolar dessa trama, inspirada ao médium pelo Espírito Fernando, na verdade, o próprio Monsenhor Fernandez.
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(Henry Miller)
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