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[MISTURANDO-IDEIAS] LANÇAMENTO Livros Loureiro: Cada Mulher Em Seu Lugar - Leona Blair

Cada Mulher em Seu Lugar -Leona Blair

Tradução de Maria Luiza da Silva Pinto

1988 NOVA CULTURAL

Título original:

A Woman's Place

© Copyright © 1981 by Leona Blair

© Copyright desta edição, Editora Nova Cultural Ltda., São Paulo,
1988. Av. Brig. Faria Lima, 2000 -CEP 01452 -São Paulo, SP.

Publicado sob licença de Leona Blair c/o Jane Rotrosen Agency,New
York, e de Distribuidora Record de Serviços de Imprensa S.A., Rio
de Janeiro.

Tradução publicada sob licença de Distribuidora Record de Serviços
de Imprensa S.A., Rio de Janeiro.

Capa: Keystone
Parâmetro: impressão e acabamento

Naomi ama Arnold. Na festa de noivado, reencontra Joshuo, o
futuro cunhado, por quem se apaixona. Dois caminhos se
apresentam: ficar na América e construir um império industrial
num casamento seguro ou ir para a Palestina, lutar pela criação do
Estado de Israel e viver uma grande paixão.

A SOMBRA DE UMA ESCOLHA A SEPARAR DOIS IRMÃOS.
A IDEIA DE UM DESEJO A DIVIDIR UMA MULHER.
A VERDADE GUIANDO ESSES DESTINOS.


Para Seena e Stan, que me mostraram o caminho para chegar em casa


Esta é uma obra de ficção. Os personagens, nomes, incidentes
lugares e diálogos são criados pela imaginação do autor, bem como
a Duquesa Limitada e seus produtos. Não devem ser tidos como
reais.

AGRADECIMENTOS

Gostaria de agradecer a Juval Gat, do Consulado de Israel, por me
ajudar a proporcionar aos acontecimentos ocorridos neste país a
maior autenticidade possível, dentro da estrutura da ficção.
As fontes de pesquisa que usei são numerosas demais para alistar,
mas estou em dívida com os muitos autores que recolheram e
registraram a história com tanta dedicação.

LIVRO UM
Capítulo 1


NOVA YORK — maio de 1928

Quando as portas se abriram, não havia mais retorno, porém Naomi
hesitou entre a mãe corpulenta e a frágil senhora que seria sua
sogra.

— Você está bem? — a mãe sussurrou.
— Ela está bem — respondeu a voz da dama de honra atrás delas.
— É este tapete. Lembra a passagem pelo Mar Vermelho.

Naomi estava agradecida pela espirituosidade de Sarah, mas não
estava "bem". A risadinha parou abruptamente com a pressão da
mão de sua mãe.
Ao fim da longa passagem central, podia ver o baldaquim branco de
casamento e as figuras dos homens vestidos de negro agrupados ao
redor, tais como ídolos de pedra. Por um momento paralisante,
pareceram sinistros, todo-poderosos, e ela quis mais tempo para
pensar, para certificar-se do motivo pelo qual fazia aquilo.
Pela primeira vez não queria ser o centro das atenções, por mais
bela que estivesse. Não queria ser conduzida ao altar, como no
sacrifício de uma virgem, pois as pessoas não tinham nenhuma
idéia de como ela era realmente. Ninguém sabia como era de fato.
Mas Arnold estava lá aguardando. Ele era firme, seguro, o tipo de
homem que Naomi devia desposar. A sensação de segurança era
um conforto. Ele devia estar duas vezes mais nervoso do que ela,
sem a irmã Sarah para fazê-lo rir.
Então elas a apressaram a seguir em frente, uma noiva coberta pelo
véu, entre duas mulheres: a própria mãe, Leah Held, um largo
navio de guerra em cinza levemente brilhoso, e a mãe de Arnold,
uma pequena embarcação perdida no mar de um vestido
semelhante. Leah havia concordado com uma cerimônia
estritamente ortodoxa por respeito aos pais de Arnold, mas tudo o
mais estava de acordo com seu próprio gosto. A filha de Leah teria

o casamento mais luxuoso pelo qual pudessem pagar.
Os convidados murmuravam. Sentados em pequenas cadeiras
douradas, eram para Naomi anônimas manchas de cor na sala
majestosa. Este hotel oferecia todo o luxo às noivas que pudessem
pagar por seus serviços. O mesmo vermelho profundo do tapete
cobria as paredes em veludo e as cortinas que pendiam das altas
janelas, obstruindo o crepúsculo de maio em Nova York e
transformando o salão em um santuário. As velas tremulavam nos
candelabros da parede. Flores brancas circundavam o tablado um
pouco distante.


O vestido de cetim era a armadura encantada de Naomi, um novo
eu que envergaria deste dia em diante. O feitio era como um
tabardo de cavaleiro sobre uma fina sobre-saia que ondulava em
uma cauda. Um barrete de cetim quase cobria o cabelo louro
cortado curto. Um véu estreito ocultava seu rosto — outro costume
que seguiam por causa dos pais de Arnold, muito embora ninguém,
em ambas as famílias, acreditassem nessa tolice. Fazia isso por tudo

o que sua família devia à de Arnold, uma dívida de lealdade que
nunca conseguiriam pagar, como dizia sempre o pai de Naomi.
Através do véu, Naomi viu o pai virar-se para ela. Martin Held era
o mais alto dos homens, que esperavam na outra extremidade da
longa passagem, mais alto do que os dois irmãos dela. O pai era
grande e quadrado, como a mãe. Mas Leah era formidável para
todas as suas três crianças. Martin era rigoroso com os filhos e
excessivamente indulgente com Naomi.
O pai de Arnold, Leonard Fursten, era um homem muito mais
velho. Seus olhos eram tão gentis quanto seu sorriso, quando a
fitava. Esse homem quieto, magro, não muito mais alto que a
esposa, tinha pairado nas fímbrias da infância de Naomi, perdido
em sua religião, benigno mas remoto.
O último a voltar-se foi Arnold, compacto e louro, sempre dando a
impressão de ser mais alto do que era na verdade. Os olhos tinham
o mesmo verde imutável do pai, mas com o olhar que reservava a
Naomi desde que eram crianças. Ela sorriu atrás do véu. Realmente
o amava, sério como era para um rapaz de dezenove anos, tão
ambicioso e confiável.
Então algum truque de luz através do tule branco a fez notar a
semelhança pela primeira vez.
Ele era tão parecido com Joshua!
Naomi nunca percebera como os irmãos se assemelhavam, muito
embora Arnold fosse franzino e louro, e Joshua, alto e moreno,
muito embora fossem tão diferentes sob todos os outros aspectos.



Joshua. O único membro da família que não estava lá, exceto pelo
fato marcante de sua ausência.
Naomi fechou os olhos e continuou, conduzida pelas duas
orgulhosas mães, através da longa, longa passagem até o casamento.
Dentro da armadura de cetim branco, por trás do refúgio do
véu, a única voz que ouvia era a de Joshua.

— Não posso evitar — disse Joshua. — Deus me perdoe, não devia
agir assim, mas não posso evitar. — As mãos emolduravam-lhe o
rosto, e ele a fitava na penumbra da sala de estar com o mesmo
amor e desejo que ela sentia, antes de beijá-la de novo.
— Não planejamos isso — ela sussurrou contra sua boca,
confortando a si mesma, bem como a Joshua. — Simplesmente
aconteceu.
— Naomi, ele é meu irmão. Arnold a ama tanto! E eu o amo, apesar
de discordarmos sobre a maioria das coisas.
— Eu sei — falou Naomi, tocando o rosto que queria contemplar
para sempre. — Também o amo. Mas não assim, não como nós.
Desejaria que me casasse com ele, sentindo-me desta forma a seu
respeito?
Os olhos de Joshua se fecharam.
— É isto o que o torna apenas mais outro homem para mim, não
meu irmão, a idéia de você sendo sua esposa. Então preciso ter você
para mim, não importa que saia machucado.
— Não pense nisso agora. — Os braços persuasivos o puxaram para
si sobre o sofá. Naomi podia sentir seu calor através do algodão da
camisa. Fosse qual fosse o amor existente entre um homem e uma
mulher, ela o queria, todo ele, com Joshua. Antes, a idéia a tinha
embaraçado, e até assustado um pouco. Mas não estava mais
amedrontada agora, não com ele.
Joshua se afastou.
— Não. Não até nos casarmos. Roubarei você de meu irmão, mas
não irei seduzi-la para aumentar meus pecados.

Naomi sabia que ele ficaria chocado se lhe pedisse para não parar.
Ela própria estava chocada. Nunca sentira tal necessidade antes. Ao
invés disso, observou:

— Você continua pensando como um rabino.
Joshua renunciara ao rabinado somente há poucos meses. O pai de
Naomi dissera que isso havia quebrado o coração de Leonard
Fursten.
— Não, isso acabou, por mais desapontado que meu pai esteja —
suspirou. — Agora estou fazendo minhas próprias regras, na
medida do possível.
Naomi tinha a impressão de que Joshua sempre estabelecera suas
próprias regras.
Ele abraçou-a em silêncio. Os pais dela haviam deixado os dois
sozinhos, Naomi sabia, para que confrontassem seus sentimentos.
Era constrangedor para Leah e Martin que a filha estivesse noiva de
um irmão e apaixonada pelo outro, mas o pai arranjaria as coisas
para ela. Ele sempre o fizera.
— O que seus pais dirão? — indagou Joshua.
— Já sabem.
Naomi nunca fora capaz de ocultar as coisas da mãe — não seus
sentimentos por Arnold, quando se transformaram de uma
preferência de juventude em amor, nem a reação elétrica a Joshua,
ao vê-lo pela primeira vez sem á barba e a sombria vestimenta de
rabino.
Nunca olhara para ele de verdade antes daquela noite, a noite da
festa de noivado; nunca notara que seu rosto forte era tão
maravilhoso quanto os olhos escuros, que o corpo esbelto era tão
belo de se observar quanto as mãos. Nunca havia percebido que,
embora tivesse usado o traje .convencional de rabino, ele era um
homem também, um homem excitante. As pessoas sempre
respondiam às suas crenças apaixonadas com as próprias paixões
recentemente descobertas. Poderiam discordar de Joshua — tal
como Arnold —, mas sempre eram instigadas por ele.

-Acho que mamãe percebeu até mesmo antes de mim que eu
amava você — prosseguiu Naomi. — E os dois gostam de você
tanto quanto de Arnold.
O nome criou um silêncio reprovador entre ambos. Após um
momento, Joshua falou:

— Não é isso que quero dizer. Refiro-me ao que vão pensar sobre a
Palestina.
Ela sabia exatamente o que diriam se ele até mesmo continuasse
trabalhando para os sionistas. Podia ouvir a voz do pai: "Fanáticos
perigosos, radicais, comunistas". Sionismo era um palavrão em
muitos lares judeus no mundo inteiro, uma causa perdida que
roubava os filhos de suas famílias e atraía a atenção para judeus que
almejavam apenas misturar-se na urdidura de seus países, tornar-se
um fio assimilado entre muitos.
Quanto à mãe de Naomi, Leah achava que ir para a Palestina era o
sonho louco de um homem sem responsabilidades — um sonho que
nenhum homem perseguiria se amasse uma mulher o suficiente a
ponto de tirá-la do próprio irmão. A Palestina era uma terra
abandonada, cheia de árabes rebeldes e violadores de mulheres e
perigos tão tenebrosos quanto aqueles dos quais Leah escapara ao
deixar a Rússia com os Fursten, quando criança. Não foi para
mandar a filha de volta a tal lugar que ela e Martin trabalharam
tanto, progredindo passo a passo da pobreza à segurança e ao
conforto.
Naomi respondeu a Joshua com cautela.
— Seria melhor não tocar neste assunto diante dos dois. Ele riu
suavemente.
— Isso não será fácil. . . estaremos vivendo na Palestina. — Viu o
rosto dela mudar, e o seu ensombreceu. — Naomi, você vai comigo?
Ela estava surpresa demais para responder, mas uma sensação de
frio envolveu-a."
— Naomi, você sabe que eu jamais poderia desistir da Palestina —
afirmou com firmeza, observando-a.

— Mas isso foi antes de nós.. . — Parou. Já aprendera que não
adiantava. argumentar quando Joshua ficava daquele jeito. Ele
simplesmente isolava-se dos que não conseguia converter. Suas
mãos ocultaram o rosto, e, de repente, estava chorando, dividida
entre a vontade dele e a sua.
Joshua segurou-lhe as mãos com gentileza.
— Não chore, meu amor. Não há nada a temer, verá. Não me
juntarei a uma brigada de trabalhadores. Vou ensinar ou fazer outra
coisa qualquer. Podemos viver em Jerusalém ou Tel Aviv, e você
não ficará sozinha até acostumar-se com o lugar.
Naomi balançou a cabeça.
— Não posso ir para lá, Joshua. Já pensei no assunto e não posso. —
Os olhos azuis estavam cheios de lágrimas. — É um outro mundo,
uma língua que nem consigo falar, um sistema de vida que não
compreendo. Por que não fica aqui e ensina ou levanta fundos como
mamãe? Papai ajudará até você ganhar o bastante para nos
sustentar. Joshua, por favor. — Implorou-lhe que ouvisse. — Não
ligo mesmo para todas as coisas que dizem que eu devo ter. Só
quero você. Não podemos ser igualmente felizes aqui, em nosso
próprio país, junto de nossa família?
Ele respondeu de uma grande distância.
— Não, não podemos. Eu não posso. — Os olhos estavam muito,
muito escuros. — Isto é algo que preciso fazer, a coisa que quis
realizar desde que me recordo. — Os olhos imploravam-lhe. —
Naomi, amo você. Estou pronto a trair meu próprio irmão por sua
causa, pelo amor de Deus! Porém não me peça para desistir de nada
mais.
— Uma terra selvagem e miserável...
— O que tenho de fazer é transformar em uma pátria judia esta
terra selvagem. Naomi, tive irmãos e irmãs que foram mortos por
não possuírem um país só seu! E ainda preciso lutar contra meus
pais, meus amigos, todo o mundo. Mas isso é parte da minha vida.
Levou ao rosto as mãos dela.

— Agora aí está você. Sempre acreditei que só havia uma mulher no
mundo que eu pudesse amar de verdade. Esperei até encontrá-la. —
As mãos sacudiram-lhe os ombros gentilmente. — Naomi, você é
capaz de viver muito mais do que uma existência tacanha,
convencional, insignificante. Viva comigo, venha comigo. Preciso de
você.
Ela ergueu os olhos para Joshua, prisioneira de suas mãos e de sua
voz. Estava pronta para desafiar os pais, trabalhando com ele pelos
sionistas na América. Por uma fração de segundo, sentiu-se disposta
a acompanhá-lo até a Palestina, a participar de seu sonho. Mas
havia tanto a prendê-la ali. O medo a prendia — medo do
desconhecido, da violência e do perigo dos quais os pais de ambos
fugiram. A sala a prendia — a mobília forte e sólida, impregnada
com os odores dos charutos do pai e das comidas da mãe. Até
mesmo o carpete no qual tinha engatinhado, montado blocos de
armar e passeado com o carrinho de boneca a prendia. A casa a
prendia.
A cabeça baixou, e ele soltou-lhe as mãos. Joshua afastou-se.
— Não podemos tornar a nos encontrar antes que eu parta. Não
conseguiria dizer adeus pela segunda vez. — Sua voz estava
apática, abafada.
Naomi não falou nada, envolta por um manto de sofrimento.
Quando Joshua saiu da sala de estar, susteve a respiração para não
chamá-lo, para que ele não tivesse de voltar porque a amava mais
do que a uma nação inexistente.
Ouviu os passos descendo o corredor, rumo à porta da frente do
apartamento. A porta abriu e fechou com um clique, e ele se foi. No
espaço de uma hora, experimentara uma felicidade suprema, uma
paixão empolgante, um amor sincero. Agora estava só, o corpo
doendo com o desejo frustrado, o orgulho ferido. Como pôde deixála?
Joshua pediu-lhe o impossível e a abandonou por desapontá-lo.
Era cruel exigir de uma mulher mais do que ela tinha para oferecer.

Naomi postou-se junto de Arnold sob o baldaquim e o deixou
acariciá-la com os olhos, aliviando-lhe a dor. Ele a amava o bastante
para fazer isso pelo resto da vida, se a dor persistisse por todo este
tempo — e, ainda assim, ele nunca saberia que essa dor existia.
Seu orgulho quis o casamento tanto quanto Arnold a queria.
Começou a andar em volta dele. Este era outro antigo costume que
concordara em seguir para agradar aos-pais de Arnold. Sua
irreprimível irmã, Sarah, lhes dissera que o objetivo disso era
proporcionar ao noivo uma chance de decidir se queria a noiva
escolhida para ele. Mas Arnold tinha decidido sozinho. O
casamento com Naomi era algo que resolvera quando estavam com
treze anos.
Ela sabia que Arnold se ressentia pela atenção que as pessoas
estavam dando à ausência de Joshua — tal como se ressentia pela
atenção dispensada a Joshua quando presente. Não era culpa dele,
Arnold confidenciara à noiva, que atraísse as pessoas como um ímã.
Mas não era fácil ser o irmão mais novo de um cruzado. Arnold não
possuía tais ambições heróicas: queria ser rico, bem-sucedido. Era o
que a maioria dos indivíduos desejava — os pais de Naomi, a
própria Naomi.
Caminhando lentamente, Naomi viu surgir os rostos que lhe eram
caros. O pai de Arnold, Leonard, assemelhava-se a um anjo
contente, como sempre ocorria durante a observância religiosa.
Estaria mesmo tão furioso com a partida de Joshua para a Palestina?
Era quase impossível ficar zangado com Joshua por muito tempo.
Manya, a miúda e indomável mãe de Arnold, conservou os olhos
fechados enquanto murmurava uma prece qualquer — uma oração
pela felicidade de Arnold, supunha Naomi. Ou estaria rezando pelo
retorno de Joshua? Ou pelos filhos que morreram na Rússia, há
tantos anos?
Naomi viu o rosto da mãe, feliz, mas cansado. As mãos de Leah
torciam nervosas o lenço.


Sempre fora nervosa com relação a rabinos e sinagogas. Recusara-se
a realizar a cerimônia em qualquer outro lugar que não aquele. Um
hotel era mais elegante, afirmara. Mas essa não era a razão, e a
família inteira sabia disso.
Leah ainda despertava com freqüência de noite, após sonhar com
fumaça e fogo e a vila de Savurov ardendo, ardendo, após um
ataque cossaco. No sonho, estava de volta mais uma vez a um
campo fora de Savurov, uma pequena e desprotegida menina que
observava as chamas consumirem a sinagoga e todos aqueles que os
atacantes haviam trancado ali: seus pais, o rabino, todos os judeus
da vila. Na ocasião, tentara gritar pela mãe, mas a mão de uma
mulher tapou-lhe a boca.
Era a mão de Manya Fursten — e Leah, debatendo-se, lembrava-se
dos olhos de Manya enquanto os próprios filhos morriam, e a nova
e histérica órfã em seus braços tornava-se a única filha que lhe
restara. Leonard Fursten segurava um menininho que tinham
conseguido resgatar quando os cossacos chegaram para se divertir
com os judeus em mais outro pogrom. Leah ainda gritava pela mãe
durante esses sonhos. Nestas horas de súbito despertar, procurava
Manya em busca de conforto; Manya, a mãe adotiva que raramente
sorria, mas que sempre havia amparado todos eles.
Naomi e os irmãos se assustavam ao ouvir Leah gritar desse jeito
quando eram pequenos. Quando tiveram idade bastante, Martin e
Leah contaram-lhes o motivo, mencionando rapidamente o horror,
descrevendo como Manya e Leonard os trouxeram, dois pequenos
órfãos, para a América, onde era seguro criar os filhos. Contaram a
eles como todos adoraram Joshua desde o dia de seu nascimento,
como o chamaram de "velho espírito" e juraram ver em seus olhos
todos os que morreram em Savurov. Seria um rabino, decretou
Leonard, na tradição do filho mais velho. Recordavam-se do
milagre que foi a chegada de Arnold seis anos depois, quando
Manya era velha demais para engravidar. E então Sarah —
chamavam-na de Shai, a dádiva — no ano seguinte.


Na ocasião, eram uma grande família, e foi planejado que Leah e
Martin se casariam tão logo alcançassem a idade certa. O
apartamento em Rivington Street era pequeno, e era indecente para
uma jovem solteira viver em tão estreito contato com um rapaz. Os
dois foram criados juntos, mas Martin não era irmão de Leah.
Naomi sorriu com ternura ao passar pelo pai, que tinha o rosto
molhado de lágrimas. A esposa, os filhos e a família adotiva eram
tudo para ele. Sabia o quanto ele se sentia feliz por ela estar
desposando Arnold. . . e não Joshua, o sonhador. Martin Held era
um sujeito prático. Tinha grande admiração pela cultura de Joshua,
mas o rapaz não era um homem de negócios, e o principal interesse
de Martin na vida, depois da família, era o comércio de roupas
masculinas. Quando Arnold foi trabalhar com ele, logo após acabar
a escola, há três anos, Martin havia declarado com enorme
satisfação que Arnold possuía tino comercial.
Naomi imaginava o que o pai diria quando Arnold anunciasse que
estava ingressando em outro ramo de negócios, no qual precisava
aprender pelo menos durante um ano, antes de arriscar-se por conta
própria. Naomi e Arnold haviam concordado em dar a notícia em
meio à azáfama da festa. Martin não poderia zangar-se no dia do
casamento da filha.

E Naomi sabia que Arnold seria bem-sucedido. Ele sempre
realizava tudo a que se propunha, tal como o sogro.
Naomi completou a volta e deteve-se novamente ao lado de Arnold.
Observou a barba branca e curta do rabino, repetindo palavras que
ela não compreendia, a boca pequena como dois morangos
esmagados na neve acumulada pelo vento. O resto da cerimônia foi
como um borrão indistinto. Pensava no novo e pequeno
apartamento no Bronx que os esperava após um longo fim de
semana de lua-de-mel em Atlantic City. Corou por um instante ante
a idéia da lua-de-mel, imaginando como seria realmente. A mãe
deveria explicar-lhe todas as coisas importantes, mas Leah não
falara nada.


Sarah dissera que ninguém nunca morrera por causa disso e que,
portanto, não devia ser tão ruim assim; talvez fosse até agradável!
Naomi deliberadamente pensou em outra coisa.
Estava contente por Arnold sair finalmente de Rivington Street.
Martin e Leah haviam deixado Rivington Street há anos, mas eram
leais aos pais adotivos, que continuavam sentindo-se em casa, lá.
Passavam com a família Fursten um domingo por mês e todos os
feriados. Naomi sabia que os pais desejavam em segredo que a filha
se casasse com um homem de passado diferente, mas não puderam
objetar quando ela apaixonou-se por Arnold.


Apaixonada. . .
Agora era tarde demais para pensar em Joshua.
Haviam colocado uma taça enrolada em um guardanapo branco


junto aos pés de Arnold. Ele a quebrou facilmente, lembrando-se da
alegria dos que não foram assim abençoados. O som da taça
quebrando e os vivas festivos dos convidados despertaram Naomi,
e ela virou-se para permitir que Arnold lhe erguesse o véu e o
dobrasse para trás. Era um desvendamento simbólico, a predizer o
verdadeiro que ocorreria naquela noite.
A boca de Arnold tocou a dela brevemente. Ele tomou-lhe a mão, e
voltaram juntos pela passagem, em direção à saleta nos fundos do
salão. Isto, o yihud, também era um costume ortodoxo: alguns
momentos de privacidade para os recém-casados, antes mesmo de
abraçarem os pais e os amigos.


— Esta é a parte da cerimônia ortodoxa de que gosto — comentou
Arnold, fechando a porta. — Simplesmente deixe-me olhar para
você por um minuto. — Pegou as mãos de Naomi e segurou-as
junto ao peito. — Nunca vi você tão bonita! Deve estar feliz, se
parece assim tão deslumbrante.
Ela manteve o sorriso no rosto.
— É lógico que estou feliz, Arnold. É o dia do meu casamento. —
Pôs os braços ao seu redor, ocultando o rosto junto ao dele.

— Amo tanto você — sussurrou Arnold. — Não sei como lhe dizer.
. . não sou tão bom assim com as palavras. Mas amo você.
— Eu sei, Arnold — Naomi retrucou suavemente. — Eu sei.
Ele aguardou que a noiva falasse alguma coisa — porém, na
verdade, não esperava por isso. Nunca fora capaz de expressar o
que sentia. Isto era para Joshua, e Arnold tomara conhecimento do
que estava acontecendo entre Joshua e Naomi tão logo o irmão tirou
as roupas negras de rabino e deixou que as pessoas vissem que sua
aparência transmitia tanta autoridade quanto sua voz. Mas não
bastava dar a Joshua dinheiro suficiente para partir. Arnold
precisava arrancar o irmão da cabeça de Naomi.
Abraçou-a bem apertado, afastando com o corpo a presença de
Joshua que pairava entre os dois.
— Não creio que você saiba como me sinto. Ninguém no mundo a
ama tanto quanto eu. Tem de acreditar nisso.
— Acredito, sim — disse Naomi, de olhos fechados. Enquanto
tivesse Arnold para se apoiar, poderia esquecer que queria alguém
que não a quis. Com Arnold, a vida seria o que os pais planejaram
para ela. Seria segura. Seria o bastante.
Ele precisava ouvir mais.
— Naomi — tornou a murmurar. — Diga que me ama, pelo amor
de Deus, diga!
Ela teve vontade de chorar.
Claro que sim! — Ela o apertou mais forte. — Sempre. Desde que
éramos crianças. Você sabe disso.
Talvez mais tarde, pensou Arnold, talvez mais tarde, quando ela lhe
pertencesse de verdade, pudesse dizer que o amava. Beijou-a. A
boca de Naomi era cálida, receptiva — mas não havia nenhuma
paixão. Contudo, ela era tão jovem quanto ele e totalmente inocente.
O que podia saber sobre paixão? Iria lhe mostrar. Só ele tinha esse
direito. Chegou o corpo de Naomi mais perto do seu. Ela se afastou.
— Acho que é hora de sairmos para a recepção.
— Sim, claro. — Soltou-ar desapontado.

— Olhe, deixe que eu ajeite seu cabelo — falou ternamente. — Não
posso ter um marido despenteado.
Naomi se assemelhava a Sarah; parecia uma irmã, não uma noiva.
Sentiu-se ludibriado, roubado em seus direitos, em seu amor — e
nunca seria capaz de acusar o ladrão. Dirigiu-se à porta, a figura
esbelta, rígida pela determinação, os olhos tempestuosos.
— Vou dar a você tudo com que sonhou. . . e até mais. Farei com
que me ame mais.
— Arnold — redarguiu Naomi, aproximando-se para enlaçar o
braço no dele. — Nunca poderia amá-lo mais do que já o amo agora.
Ele conservou o rosto tão calmo quanto o dela, e ambos saíram
juntos da sala.
Capítulo 2

PALESTINA — abril de 1929

Joshua resmungou, meio cego pela poeira e pelo suor, os músculos
ainda protestando após meses de trabalho constante.
Podia sentir o próprio odor enquanto labutava no penedo com
outros três homens, todos eles ofegantes. Sentia também o odor de
Kramer ali perto, ruivo, bronzeado, de músculos retesados como os
demais. Porém nada importava, exceto deslocar aquele gigante de
granito, de três metros de altura, que bloqueava a estrada.

A turma de Joshua trabalhava a meio caminho entre a costa
mediterrânea, a oeste, e o Rio Jordão, a leste, uma distância de
cinqüenta e seis quilômetros de um lugar a outro. Mas o solo sem
vegetação era tão crestado, e o sol, tão intenso, que poderiam estar a
milhares de quilômetros de qualquer grande extensão de água.

— Empurrem! — gritou Lazar. — Está soltando!

De repente a rocha subiu, como se por levitação, impelida pelos
gritos. Segundos mais tarde, houve um brado selvagem quando a
pedra despencou como um cometa pelo declive que formava o
acostamento da estrada e sobre um dos homens que trabalhavam no
sopé da colina.

— Bendito Deus — exclamou alguém, e os quatro agarraram
picaretas e pés-de-cabra e desceram a colina a correr. O homem
jazia de costas, oculto da cintura para baixo pela pedra maciça.
Gritos desumanos irrompiam-lhe da boca. O sangue escorria sob a
rocha, embebendo a terra árida.
— Bendito Deus — repetiu Lazar. — Façam alguma coisa! —
Agarrou o pé-de-cabra de Joshua e começou a golpear a pedra,
como se pudesse movê-la sozinho. Joshua olhou de relance para
Isaac Levy, que balançou a cabeça. Joshua sabia que Levy tinha
abandonado a prática da medicina ao deixar Viena, mas ele decerto
não podia se recusar a aliviar a agonia do homem.
— Um pouco de morfina até que morra? — sussurrou Joshua para o
doutor. Levy continuava ofegante, devido à luta com a rocha
gigantesca.
— Ele morrerá do choque e da dor antes que eu consiga voltar da
tenda com o remédio... — explicou o médico. — Lazar, pare com
este pé-de-cabra, não adianta. . . — Depois falou com o quarto
homem que removera a pedra com eles, um sujeito poderoso, baixo
e atarracado, com o pescoço e os ombros de um Minotauro. — Bata
nele, Natan. Faça com que desmaie.
Natan Markevitsch assentiu, ajoelhou-se e silenciou os gritos com
uma pancada rápida na cabeça da vítima. Permaneceu ajoelhado ao
lado, dando palmadinhas na cabeça que acabara de golpear. Os
outros três ficaram de pé, juntos, observando. Outros homens que
trabalhavam ali perto juntaram-se a eles em silêncio.
— Quanto tempo ficará inconsciente? — Joshua perguntou ao
doutor.

— Não o bastante para morrer, creio. A dor o despertará. — Os
lábios de Isaac estavam brancos. As hábeis mãos de cirurgião
moveram-se, sabendo o que fazer, incapazes de fazê-lo.
— Então teremos de matá-lo antes que acorde — afirmou Lazar.
— Não podemos. . . — começou Joshua. Mas o homem estava
virtualmente morto. Achavam-se a quilômetros de distância de um
hospital, mesmo que qualquer hospital pudesse salvar o que restou
dele. Olhou para os companheiros. — Qual de nós? — indagou.
O sujeito que esteve trabalhando perto da vítima balançou a cabeça,
chorando.
— É o irmão dele — falou Lazar. — Sou o encarregado. Farei isso.
— Deu um passo para trás, as mãos e o corpo trêmulos.
Natan Markevitsch, ainda agachado junto ao corpo que acabara de
silenciar compassivamente, ergueu os olhos para Lazar. Então
golpeou outra vez a cabeça da figura inerte. Antes que qualquer um
deles pudesse se mover, havia lhe quebrado o pescoço com rapidez
e habilidade.
Joshua ficou sem fôlego, sentindo-se mal. Alguns dos outros

viraram a cabeça.
Natan encostou o ouvido no peito do homem e escutou pelo que
pareciam horas. Em seguida, tornou a acariciar a cabeça morta e
repetiu o shema, a oração que todo judeu diz ao morrer, se lhe for
possível. Joshua juntou-se a ele com alguns dos outros. Lazar
Kramer e o médico ficaram em silêncio.
Um grito soou do alto da colina, e todos se voltaram, quase
agradecidos.
Um homem magro com chapéu de abas largas estava sentado em
uma carroça desengonçada puxada por um cavalo. A carroça era
larga, as rodas pesadas para atravessar a areia.
Lazar começou a subir em direção à carroça.
— Não gaste suas energias neste calor — aconselhou o homem. —
A não ser por uma grande catástrofe.



— Uma morte — retrucou Lazar com violência, ainda caminhando.
— Isto é grande o bastante para você? — A raiva era permissível,
não o sofrimento declarado.
O homem — ele era responsável por outra divisão das brigadas de
trabalhadores, tal como Lazar Kramer era por esta — parou de
mastigar o charuto na boca e concordou com a cabeça. Ficou à
espera, a silhueta destacando-se contra o cintilante céu azul,
enquanto Lazar galgava o declive com dificuldade, a fim de alcançálo.
Como dissera, exceto em caso de trabalho e de catástrofes,
quanto menos energia despendesse sob o sol, melhor seria.
Os homens observaram tudo sem falar, até Lazar regressar com o
recém-chegado. De perto, ele parecia muito mais novo. Sua pele era
áspera e trigueira. Após cumprimentar os demais com um simples
gesto de cabeça, baixou os olhos para o corpo semi-oculto e o
homem ainda ajoelhado ao lado.
— Sorte ter aparecido mais cedo — comentou com voz suave. —
Ponham o cadáver na carroça. Podemos enterrá-lo lá embaixo. — A
cabeça indicou a pequena colônia judaica a mais ou menos meio
quilômetro de distância.
Conseguiram rolar a rocha colina abaixo, expondo o corpo
miseravelmente esmagado, coberto por uma camada de poeira
misturada ao sangue. Trouxeram um pedaço de lona, e nele o
enrolaram. Depois o carregaram até a carroça e caminharam em
silêncio atrás, até a pequena colônia; alguns colonos vieram ajudálos
a cavar um buraco junto de dois outros túmulos, um grande, um
pequeno.
— Droga, não há nenhum pedaço de madeira para fazer um
maldito caixão — falou Lazar, intercalando com uma maldição cada
punhado de terra arenosa que recolhia com a pá. — Aqueles turcos
desgraçados cortaram todas as árvores para fabricar seus trens
miseráveis. —-O sol cintilava sobre seu cabelo louro. O corpo alto e
muito musculoso era fúria em movimento.

Costumava haver mexericos e notícias de progressos — ou falta
deles — ao longo do caminho, quando o condutor e sua carroça
vinham para a inspeção diária. Hoje não houve nenhuma conversa
até que o buraco estivesse profundo o bastante na terra que
deslizava, escorregava.

— Ortodoxo? — indagou o condutor ao irmão da vítima. Tirou da
mochila um pacote embrulhado com cuidado e entregou ao homem
enlutado um talete, chocante na sua alvura luminosa. Olhou para
Joshua, em um pedido silencioso para conduzir a cerimônia.
Joshua respirou fundo e começou. Conhecia as palavras, era um
rabino. Mas havia deixado o rabinado para trás. Este era o primeiro
funeral que já conduzira. Contudo, aqui, ao norte da Samaria, para
o conforto do irmão do morto e de seus companheiros — e para o
seu? —, pronunciou as antigas palavras.
Depois o condutor da carroça guardou o talete e os deixou, a fim de
prosseguir pela estrada poeirenta.
— O cavalo parece melhor do que ele — comentou Isaac com
irreverência, enquanto voltavam às tendas perto de onde
trabalhavam. Não haveria mais trabalho naquele dia. O único som
que ouviam ao caminhar eram os soluços do irmão do morto. Isso já
acontecera antes. Todos sabiam que aconteceria de novo. Homens
morriam neste país por inúmeras causas. Era melhor não se
entregar à dor.
— Ouça — disse Lazar ao homem em prantos, ao se aproximarem
do agrupamento de tendas. — Isso é melhor do que ser assassinado
em um pogrom por um bando de cossacos. E ele está enterrado junto
de sua própria gente. Pense um pouco nisso. Doutor, dê a ele uma
garrafa de conhaque, certo?
Deixaram o homem na sua tenda com Natan Markevitsch.
— Matei seu irmão — falou Natan. — Posso sentar-me com ele para
o shivah.
Lazar passou o braço ao redor dos ombros fortes.

— A pedra o matou, não você.
Natan assentiu com a cabeça, e os três homens seguiram para a
próxima tenda. Lavaram-se com o pequeno balde d'água concedido
para o banho diário de cada um, depois sentaram-se para fumar,
enquanto o sol se punha sobre as colinas da Samaria em uma
explosão de cores. Quando a noite fria os envolveu, acenderam uma
fogueira, deixando as chamas consumirem o choque da tarde.
Joshua solidarizava-se com eles, em silêncio, tão bem os conhecia
agora, após quase um ano de trabalho em comum e noites dormidas
lado a lado. Isaac Levy mais uma vez se resignava com as limitações
da habilidade cirúrgica humana. Suas mãos maravilhosas foram tão
incapazes de salvar sua jovem esposa em Viena quanto hoje. Viera
para a Palestina com a intenção de usá-las na pedra — "porque
rochas não morrem", explicou, "porque minhas mãos podem
construir aqui algo que nada conseguirá matar". Sua prática médica
limitava-se a primeiros socorros. Era mais seguro.
Natan, o Minotauro, sentado fora da tenda com o irmão do morto,
refletia sobre o problema de sua grande força. Uma coisa era vingar
os pais, estrangulando os dois soldados russos que os mataram por
divertimento, e outra era escapar para a Palestina com o objetivo de
construir algo com seu corpo poderoso, só para tornar a matar,
mesmo que fosse para poupar um companheiro de uma morte
agoniante. Natan era uma alma bondosa. Só tinha a aparência de
um touro furioso.
E Lazar Kramer, o primeiro e mais íntimo amigo de Joshua aqui,
amaldiçoava o acidente absurdo e jurava evitar outro. Para Lazar,
órfão aos sete anos, toda a comunidade judia da Palestina era sua
família, e o futuro Estado, sua mãe. Qualquer morte representava
uma perda pessoal, assim como cada novo colono era um parente
há muito desaparecido que regressava ao lar. Joshua era o irmão
que nunca teve, tão imediata e absoluta fora a harmonia entre
ambos.

Para Joshua, Lazar era a família que abandonara. Lazar o havia
salvado de ensinar hebreu aos novos imigrantes, vários meses após
a chegada de Joshua à Palestina. Logo depois ele se unia ao grupo
de Lazar, fazendo o que viera fazer, afinal. Não podia sentir
saudades de casa, porque se sentia em casa. As brutais realidades
da vida nesta região não o desiludiram. Não tinha as lembranças
tenebrosas que assombravam seus companheiros, e, se seu coração
às vezes ficava vazio, era porque o rosto de Naomi sumia de sua
mente quando trabalhava sem descanso na terra rochosa da
Palestina.

O trabalho chegou até a apagar os .derradeiros vestígios do remorso
que sentia pelo desapontamento causado aos pais quando
abandonou o rabinado. Consciente de que estavam por demais
mergulhados na tradição para compreendê-lo, tomou a decisão por
suas próprias convicções. Apesar do quanto isso os afetasse, sabia
que estava certo. Se o pai pudesse ver o que estavam realizando,
saberia que isso era tão importante para a perpetuação do judaísmo
quanto a vida religiosa.
Esta estrada ligaria as colônias do norte da Samaria àquelas situadas
na extremidade sul do Mar da Galileia. Quanto mais acessíveis
estivessem as colônias judaicas — o Yishuv — mais protegidas
estariam dos árabes saqueadores, que se aproveitavam da pobreza e
do isolamento do Yishuv para atormentá-los, roubá-los, e
ocasionalmente matá-los.
Nesta região central da Terra Santa, havia minúsculas colônias que
tentaram sobreviver, falharam e tornaram a tentar. Outra série de
kihutzim — fazendas coletivas — e mo-shavim — cooperativas —
contornava a costa mediterrânea. E o resto do Yishuv, afora as
colônias na própria Jerusalém, ia do norte da Galiléia para o sul, ao
longo da margem ocidental daquele lago de muitos nomes: Galiléia

— Tiberíades
— Kinneret. A estrada possibilitaria aos novos colonos alcançarem o
sucesso onde outros fracassaram.

Os homens contemplavam as chamas, que se agitavam como dedos
brincalhões. O céu era uma pelúcia negra, antes que qualquer um
deles falasse.

— Não podiam construir a estrada em torno do penedo?— indagou
o Dr. Levy nessa noite.
— Nesse terreno, a gente constrói uma estrada em uma elevação,
quando se é afortunado o bastante para ter uma.
O médico encolheu os ombros.
— Aceito sua palavra, não sou engenheiro. E nem um médico muito
bom. Nada pude fazer por aquele infeliz.
— Não havia nada que alguém pudesse fazer — retrucou Joshua.
— Supõe-se que médicos salvem vidas, não que ajudem em
assassinatos.
— Pare com isso, Isaac — falou Lazar. — Aquilo não foi assassinato.
— Lazar, meu caro amigo — redarguiu Levy. — Não me diga que
ele morreu fazendo o que queria fazer. Sei disso. Ainda assim, está
morto. Pela pedra. Isso é melhor do que o pogrom, mas não muito.
— Ele morreu em seu próprio país — argumentou Lazar.
— Para mim, isso é muito.
O doutor olhou para Joshua com tristeza.
— Você transforma tudo em uma causa nobre. Joshua assentiu com
a cabeça.
— As coisas são mais fáceis de aceitar assim. De qualquer modo, o
homem é um poeta.
Ficaram em silêncio outra vez, observando as estrelas coruscarem
no firmamento escuro que cobria o deserto.
— Deus, é lindo. Tão lindo!— exclamou Lazar. Virou-se para os
outros dois. — Vocês não estão aqui há tempo bastante para
apreciar a beleza desta terra. Daqui a uns meses, o farão. Vão querer
envolvê-la nos braços, protegê-la com o corpo, mantê-la segura, a
despeito do quanto isso vá lhes custar.

— Você fala como se estivesse se referindo a uma mulher —
comentou Joshua. Pensava no rosto adorável de Naomi, seu corpo
morno. Queria tornar a tocá-la.

— Nenhuma mulher jamais conseguiu me fazer sentir dessa
maneira — explicou Lazar, balançando a cabeça. — Isto "ultrapassa
o amor de uma mulher". — Ergueu-se. — Vou arranjar algo para
comermos. — Entrou na tenda.
— Ele acha isso mesmo — disse Isaac Levy. — Se ao menos as
mulheres que se apaixonam por Lazar soubessem disso, talvez ele
não se saísse tão bem, apesar de sua boa aparência. — Suspirou. —
Ainda assim, provavelmente é mais seguro para um homem amar o
que é eterno.
— Lógico que é — concordou Lazar, voltando com o pão de pita e
queijo de cabra em um pano, que estendeu no chão, junto ao fogo.
Bebeu um gole de uma garrafa de vinho tinto misturado com água e
passou a Joshua. — Olhem.
— Tirou algo do bolso. — Laranjas.
— Onde as arranjou? — Frutas e vegetais eram como água, ali, tão
preciosos e tão escassos.
— Algum dia haverá laranjas neste país, até onde a vista alcançar.
Mas consegui essas com uma das garotas, naquela colônia de ontem
à noite.
— Então era lá que você estava — disse o médico. — Não é de
espantar. É onde costuma estar. — Sorriu com afeição para o
homem mais novo. Melhor falar em amor do que se preocupar com
a morte. — Diga-me, Lazar, ao menos lembra-se do nome delas?
Lazar descascava uma laranja.

— Algumas. Certamente algumas delas não se recordam do meu.
Olhem, não há razão para transformar isso em um acontecimento
cósmico. Não creio que haja uma única mulher destinada a mim
neste mundo, a bashert.
Joshua balançou a cabeça.

— O que acontecerá, se chegar a se apaixonar?
— Mas ele está apaixonado — respondeu o médico.
— Por isso. — Fez um gesto com a mão, indicando a escuridão para
além do fogo.
— Não é a mesma coisa — insistiu Joshua.
— Não — concordou Lazar. — É melhor. Possui algumas das
mesmas qualidades. Posso vê-la, senti-la, tocá-la com as mãos. —
Deixou a areia escorrer por entre os dedos. — Posso lhe dar amor,
observar a terra germinar, florescer diante de meus olhos. Vê-la
tornar-se fértil, se preferir. Sua beleza não é só duradoura, o tempo
a acentua, não a destrói. — Estendeu-se de bruços, contemplando o
fogo, os olhos azuis intensos, as mãos apoiando o rosto sob a grenha
dos cabelos louros.
— Espere até os campos estarem verdes e dourados. Espere até o
Kinneret estar cercado de mais colônias com buganvílias púrpuras
sobre os muros brancos, naquela atmosfera azul e suave que não se
encontra em parte alguma. Espere até haver mais estradas de Haifa
ao Jordão, até se poder sair com facilidade de qualquer canto do
país, a fim de descansar na luz de Jerusalém.
Os homens estavam presos a essa visão, seduzidos por sua voz,
enfeitiçados. Nesse momento, concordariam que nenhum homem,
nenhuma mulher no mundo possuía o encantamento desta terra,
nem a mesma promessa de realização.
— Vou para a cama — disse Lazar, levantando-se com um
movimento fácil. — Ben regressará de manhã cedo com o caminhão,
e poderemos seguir para Giora. Apagaram o fogo com areia e
entraram na tenda que partilhavam com Natan e Ben Horowitz, o
quinto membro desse grupo especial de amigos, uma fraternidade
de indivíduos oriundos de cinco países, ligados pela solidão e por
um único propósito. Os cinco estavam sempre juntos, com
codinomes que lhes foram dados por outros homens: Joshua, o

Rabino; Lazar, o Poeta; Isaac, o Doutor; Natan, o Minotauro; e Ben,

o Janota.
Ben Horowitz deixara uma casa luxuosa e de alta classe na
Inglaterra tão logo atingira os vinte e um anos. Sua aparência
atraente e impecável o tornava inestimável para o crescente exército
clandestino do Yishuv. Munido de documentos do exército britânico
e assemelhando-se em cada detalhe a um correto oficial subalterno
no uniforme roubado, Ben infiltrava-se facilmente nos escritórios
administrativos do governo, colhia informações sobre os planos
para restringir as defesas do Yishuv a uma força policial composta
de trabalhadores e fugia de novo para juntar-se à brigada. Como
todos eles, preferia estar com a força da equipe de trabalhadores.
Como todos eles, estava preparado para ir aonde fosse mais
necessário.
Joshua estendeu-se sobre a esteira que era sua cama. Após tantos
meses, estava acostumado com aquilo, e os ossos não mais doíam a
cada manhã. Nada doía enquanto trabalhava.
Era quando estava sozinho com seus pensamentos, antes de o sono
chegar, que Joshua ansiava por Naomi. Seus olhos queriam ver os
dela. Não era ignorante em termos de sexo, só inexperiente — e por
escolha própria. O que não desejava com uma paixão da mente e do
coração, bem como do corpo, não queria, não importava quantas
mulheres o fitassem com olhos convidativos.
Era realmente mais romântico do que o amigo Lazar. Sempre tinha
acreditado que existia uma companheira perfeita para cada homem
e que tivera sorte bastante para achar a sua. Desejava Naomi. O
desejo expunha toda a sensualidade de sua natureza, desviada,
acalmada até agora pela música, poesia e devoção absoluta a um
novo Sion. As suas foram alegrias estéticas, e suas frustrações
concentraram-se no desejo de atingir a Palestina.
Agora sentia outro tipo de desejo. O trabalho físico exaustivo que
realizava o fazia querer uma libertação física. Seria possível que, na
vida que escolhera para si mesmo, amores saudáveis, jubilosos

como os de Lazar, fossem preferíveis à saudade solitária da mulher
que seu irmão amava? Uma mulher que preferia segurança e
conforto a ele?
Então por que pensava nela, por que ansiava por Naomi, por que a
queria? Por que sentia falta da visão de seu rosto, do som de sua
voz, da curiosidade ávida e vivaz, da doçura, dos risos dela? Porque
a amava. Sempre a amaria.
Para Lazar, o amor era um divertimento, não uma solenidade. Em
uma terra diferente, Joshua estava começando a pensar de forma
diferente. Admirava tanto Lazar que parecia natural o fato de viver
com ele.
Certamente Joshua nunca fizera antes uma amizade duradoura em
questão de segundos. Mas então nunca tinha conhecido antes
homens como aqueles.

— Um país é como uma mulher — falou Natan aos outros homens
no caminhão. — É preciso estar dentro dela para apreciá-la.
O caminhão bateu em um buraco profundo na estrada,
desequilibrando-os.
— É nisso que dá ser indecente na Terra Santa, onde Deus está
ouvindo — advertiu Isaac Levy. Recolocou o boné, após sacudi-lo
contra a madeira da parte lateral do veículo, a fim de retirar os
pedacinhos de palha e estrume.
Os outros homens riram.
— O que há assim de tão terrível? — protestou Natan. — O amor é
belo — abriu os braços para a paisagem que passava. — Este
maldito país é belo.
Os olhos dos demais acompanharam os dele pela paisagem
desnuda, com seus afloramentos rochosos, a vegetação rala. A terra
se suavizava à medida que viajavam de Samaria rumo ao Vale de
Jezreel — Emek Yizre'el —, mas continuava desolada. Os homens
viram as aldeias e ruas ordeiras e asseadas que construiriam aqui,
os campos verdes e maduros onde agora existiam apenas plantas do

deserto. Esta parte do país era atravessada por estreitas trilhas de
terra batida, onde apenas carroções puxados por cavalos, muito
semelhantes a diligências, conseguiam passar. Construiriam auto-
estradas. Um trecho da terra próximo ao Mar da Galiléia continuava
coberto de pântanos, espalhando malária e tifo entre os colonos.
Iriam drená-lo.
Esta terra seria o lar dos judeus. Há doze anos, a Declaração de
Balfour tinha prometido isso, e os britânicos eram homens
honrados, que mantinham sua palavra.
Isaac Levy não estava muito convencido disso.

— Em 1917, os ingleses necessitavam de uma presença mais estável
do que beduínos nesta área estratégica, de modo que prepararam a
Declaração de Balfour para obter o apoio dos judeus. Se desejarem o
apoio dos árabes, irão fazer outra declaração.
Porém uma terra natal não bastava para esses homens. Eles
almejavam nada menos do que um Estado judaico e estavam
prontos a lutar por isso, quando chegasse a hora. Eram sionistas
neste sentido, mas preferiam não rotular a si mesmos. Para o
mundo, o sionismo significava comunismo, socialismo, amor livre
— todos os vícios políticos e sociais. Esses homens não se
preocupavam com nenhuma dessas coisas.
As idades iam de dezesseis a cinqüenta anos, porque a mais
absoluta resistência física era o requisito principal das brigadas de
trabalhadores de elite, junto com disciplina e devoção. O passado
variava tanto quanto as nacionalidades originais: haviam sido filhos
de comerciantes, alfaiates, rabinos, médicos ou encanadores,
químicos ou carpinteiros, engenheiros ou agiotas, dependendo de
quais profissões estivessem franqueadas aos judeus em seus países
de origem. Neste momento, eram trabalhadores. No transcorrer do
tempo, se tornariam tudo o que fosse preciso.
O caminhão prosseguia roncando. Um agrupamento ocasional de
cabanas de barro era o único sinal de vida. Roupas de cama
esfarrapadas e kaffiyehs brancos balançavam nos varais das aldeias

árabes. Bodes mordiscavam qualquer bocado de vegetação rasteira
que conseguiam achar, e, de vez eni quando, um pequeno pastor
acenava e sorria para o veículo sacolejante.
O homem à direita de Joshua, com roupas de safari e um chapéu de
fibra, murmurou com um sotaque britânico de classe alta:

— Liberto de preocupações sórdidas, em paz no Sion. Joshua sorriu
para Ben Horowitz.
— Você nunca teve uma preocupação sórdida em sua vida?
— Não — retrucou Ben. — Acontece que nunca tive nenhum tipo
de preocupação, sórdida ou não, exceto a de contar à minha família
que viria para cá.
— Vocês dois tiveram esse problema — refletiu Isaac.
— Espero que um dia eles compreendam.
Joshua concordou com o Doutor, movendo a cabeça. O rosto de Ben
permanecia impassível. Tinha muito pouca esperança de
reconciliação com a família, exceto se voltasse para herdar a fortuna
do pai e dirigir os negócios da família.
Lazar riu.
— Todos eles acham que somos selvagens aqui.
— Parecemos mesmo um bando de selvagens, podem crer—
assegurou um dos homens.
— Exceto o Janota aqui — falou Natan. — Como você consegue
ficar tão arrumado neste lugar? — Baixou os olhos para as próprias
roupas de trabalho, remendadas e empoeiradas.
— Não é de admirar que se faça passar por inglês.
— Os britânicos podem conservar os judeus fora da Palestina.. .
oficialmente — respondeu Lazar. — Mas são incapazes de manter o
pequeno Benjy Horowitz longe do seu próprio quartel-general
porque tem a mesma aparência deles. Tomara que continue a
enganá-los.
Era importante que Ben o fizesse — e todos sabiam que Ben estava
espionando os britânicos, sempre que se ausentava. A Grã-Bretanha

queria domínio estratégico total na área. Estava ouvindo as
exigências árabes para que a imigração de judeus fosse reprimida.
Ao mesmo tempo, a presença judia na Palestina era considerada
conveniente por ser mais confiável. O que a Grã-Bretanha pretendia
era a influência territorial através do Yishuv, porém com o menor
número possível de judeus no território.
A fim de atingir esse objetivo, era preciso manter os colonos sob
rígido controle, restritos a uma força policial desarmada, como
defesa simbólica contra os ataques árabes cada vez mais freqüentes.
Isso não era aceitável para o Yishuv. Um exército clandestino, o
Haganah, surgira. Como braço militar da Agência Judaica, era uma
ramificação da organização dos Senti-las da época dos pioneiros.
Não havia uma só colônia na Palestina que não estivesse
começando a acumular armas ilegais. Cada uma delas, pequena ou
grande, era um elo na cadeia de proteção comum. Hoje o destino do
grupo era um dos elos mais fortes na rede — Giora.
A colônia ficava na extremidade sul do Mar da Galileia, um enclave
bem protegido e economicamente independente, que era o ponto de
encontro perfeito para a força policial de trabalhadores e o exército
secreto. Em Giora, Ben entregaria quaisquer informações obtidas ao
coordenador do Haganah. Lá seriam informados de qualquer
reunião estratégica a que precisassem comparecer antes de
retornarem ao trabalho de construção de estradas.
Joshua nunca havia estado em Giora. Ansiava por vê-la. Giora não
era simplesmente mais outro lugar; era uma descoberta. Ele ia se
sacudindo no caminhão desengonçado, completamente satisfeito
por estar com estes homens. Cada um deles transformara em
cruzada pessoal a meta de chegar a esta região seca da terra.
A de Lazar Kramer não fora nada fácil. Como teria sido, imaginou
Joshua, a viagem da Polônia até a Palestina para um assustado órfão
de sete anos? Mas Lazar fora aqui adotado por muitos pais —
alguns rudes fazendeiros e operários, alguns raros intelectuais,
alguns violentos agitadores políticos — e por apenas uma única


mãe: o sonho de um Estado judeu. O país em si era para ele tudo o
que uma mãe podia ser para um filho amado.
Examinando o corpo alto e poderoso de Lazar, os olhos azuis
encovados sob sobrancelhas pontudas, espessas e descoradas pelo
sol, o lábio superior bem definido, e o inferior, cheio e sensual,
Joshua pensou que Lazar fora bem nutrido fisicamente nesta terra
dura, exigente.
Quanto ao caráter, Joshua nunca havia encontrado outro igual
antes. O homem era uma combinação de intensidade e indolência.
Sua mente era bem afiada: lembrava-se de tudo o que via ou ouvia
sem parecer perturbar a cabeça atraente, preguiçosa. E essa cabeça
estava repleta do conhecimento, da literatura, do folclore, das
línguas de todos os que o criaram. Podia escrever um artigo e um
poema tão bem quanto construir uma represa ou consertar um
motor. Podia discutir política e filosofia ou as melhores técnicas
para a remoção dos dejetos. Comandava os homens sem um gesto
de comando. Era terno e intrépido.
Joshua ficara surpreso e orgulhoso ao ouvir Isaac compará-lo a
Lazar.

— Você é o negativo dele. Um é louro, o outro é moreno. Um é
alegre, o outro, sério. Mas ambos são talhados na mesma pedra. É
bom ter um amigo que sabe o que a gente está pensando.
— Olhem! — A voz de Lazar interrompeu os pensamentos de
Joshua. — Lá está Giora.
As casas de pedra branca — dormitórios, celeiros, uma sala
comunal, supôs joshua — tinham um ar desgastado, como uma
pessoa distante da primeira juventude. Contudo, Giora havia sido
fundada há menos de vinte anos.
Os campos pareciam mais bem cuidados do que os prédios, e havia
filas de laranjeiras nos pomares. Joshua sabia que Giora não era nem
uma fazenda coletiva, nem uma cooperativa, mas uma colônia mais
ou menos intermediária entre ambas. O fruto do trabalho dos
colonos era reunido, e o lucro, dividido. As crianças moravam em

uma casa separada tão logo atingiam os nove meses de idade. Por
enquanto, os recém-casados tinham um quarto — pequeno, tosco e
parcamente mobiliado, mas todo seu. Os homens e mulheres
casados dormiam em dormitórios.
Algum dia, esperavam os colonos, cada família teria para si um
bangalô de dois cômodos. Mas a vida ainda era dura, desde a época
em que os fundadores haviam drenado e ocupado os pântanos
junto ao lago. Se deviam sobreviver, precisaria ser através de um
esforço comum. Haviam percorrido um longo caminho e tinham
outro ainda mais longo pela frente.
A neblina matinal há muito se dissipara sobre o lago. Sob o sol
quente, a água azul cintilava, o céu estava límpido, os campos
verdes.
Joshua olhou para Lazar.

— É lindo — falou, diante do sorriso de Lazar. E o caminhão ia aos
sacolejos em direção a Giora e às margens do lago que era chamado
pelo nome que descrevia seu formato: a harpa — Kinneret.
O burburinho das conversas enchia a sala de jantar comunal em
Giora. Agrupados com os colonos em torno da mesa de madeira, os
operários trocavam notícias e mexericos com seus anfitriões ou
discutiam política.
-Eles não conseguem ficar longe da política — resmungou Natan
para Isaac Levy, ao entrarem na sala com Lazar e Joshua. — Até as
moças falam de política. — Os olhos de Natan vagaram pela
multidão, buscando alguém em particular.
As mulheres em Giora eram uma mistura de tipos físicos, embora a
maioria dos fundadores da colônia viesse da Rússia. Algumas
tinham a mesma figura arredondada e o cabelo escuro da irmã de
Joshua, Sarah. Outras eram tão altas quanto Sarah, porém muito
mais magras, com aquela pele azeitonada que bronzeava tão
depressa ao sol. E algumas, como a delicada jovem que os olhos de
Natan finalmente localizaram, eram tão louras quanto Ben e Lazar.
— Lá está Aviva — disse Natan aos amigos. — Vamos por aqui.

Joshua sorriu ante a ansiedade de Natan.

— Ela é adorável -— comentou com Lazar. — Alva como uma
Vênus de Botticelli.
— Provavelmente o resultado do estupro de um cossaco — sugeriu
Lazar.
— Você nunca nos deixa esquecer, não é? — falou Isaac.
— Nem eles.
Seguiram Natan até a mesa onde Ben estava sentado, esperando
pelo vinho de Giora. Joshua e o Doutor eram desconhecidos ali. Esta
era sua primeira visita a Giora.
Duas jovens, uma morena e a loura Aviva de Natan, juntaram-se a

eles na mesa. Ambas usavam camisas e shorts simples de trabalho e
carregavam jarras de vinho e copos. Uma terceira mulher, na casa
dos quarenta anos e vestida com uma calça de trabalho masculina e
um suéter de lã, carregava uma bandeja com figos e queijo. Todas
sentaram-se com os cinco amigos.


— Mais comida! — exclamou Natan. — Vocês nos oferecem um
banquete no jantar. — Pegou os copos trazidos pela garota morena
com todo o cuidado, como se sua força incontrolada pudesse
machucá-la.
A jovem morena sorriu.
— Isto é para compensar o pão da adversidade e a água da aflição
que vocês têm no deserto.
— Se não falam em política, citam a Bíblia! — queixou-se Natan. —
Que país!
A moça morena serviu vinho a Joshua e ao Doutor.
— Eu sou Rachel, e esta é Aviva. — Fez um gesto com a cabeça na
direção da loura, agora sentada perto de Natan. — E esta é Shula.
Todos ergueram os copos.
— Bruchim ha-ba'im — saudou Shula em hebreu. — Bem-vindos. —
Virou-se quando um homem troncudo e grisalho juntou-se a eles. —
Ah, Reuven, sente-se conosco. Você queria conversar com Lazar.

Reuven pegou o vinho que ela lhe entregou.

— Isso pode esperar. Enquanto isso, divirtam-se. Já tiveram
problemas bastantes nesta viagem.
Eles já sabiam, maravilhou-se Joshua. A comunidade judaica era
como uma vila, e qualquer triunfo ou tragédia chegava ao
conhecimento de todo o Yishuv em questão de dias. Beberam em
silêncio, em homenagem ao homem que havia morrido.
— Fizeram um bom trabalho — prosseguiu Reuven. — Quantos
homens têm agora?
— Vinte e cinco — respondeu Lazar. — Mas eles trabalham por
cinqüenta. Pelo que vi, Reuven, você também não perdeu tempo.
Shula assentiu com a cabeça.

— Toda a cerca foi reconstruída e duas novas casas. Estamos
fazendo a colheita, e parece que será quase o dobro do ano passado.
— Limpamos mais um pedaço do pântano — acrescentou Rachel.
— Talvez o Dr. Levy tenha tempo de atender a alguns doentes de
malária.
Isaac assegurou-lhe que o faria, sorrindo para a jovem ansiosa.
Aviva passou um prato de queijo a Natan.
— Temos uma nova fábrica de laticínios. Experimente isso. Verá
que diferença fazem aquelas máquinas no sabor e também na
quantidade. Sorriu para o Minotauro, que a fitava com adoração.
— Com a venda dos laticínios, vamos ter lucro bastante para
triplicar o estoque de aves — acrescentou Rachel.
— Algum problema ultimamente? — indagou Ben, os olhos
ansiosos pousados em Rachel. O novo Grande Mufti de Jerusalém
era um fanático religioso que instigava os camponeses árabes com
histórias de planos judeus para reconstruir o templo sobre a sagrada
mesquita de Omar, dos árabes. Tinham ocorrido casos isolados de
ataques árabes a judeus em cidades e fazendas, brigas entre antes
pacíficos vizinhos de ambas as religiões.
— Nada que não possamos controlar — afirmou Rachel. — E não
houve tiroteio desde a última vez em que Lazar apareceu aqui,

meses atrás. -Estava respondendo a Ben, mas continuava
observando Joshua com olhos tão negros quanto os dele. Todos
estavam curiosos com relação ao americano. Quem viria da Terra
Dourada para trabalhar em uma turma de construção de estradas?
O som de um violino e de uma flauta interrompeu as conversas.

— Oh, ótimo — disse Shula. — Alguém chamou Herzl e Avram
para tocar. — Segurou a mão de Joshua. — Venha dançar, vai lhe
fazer bem.
Ele olhou para trás, em direção a Rachel, enquanto acompanhava
Shula até onde outros casais dançavam.

— Nossa vitrola quebrou — explicou Shula, ajeitando-se em seus
braços. — Estamos esperando por uma peça de reposição há meses.
Então precisamos nos contentar com um violino e uma flauta. Mas
eles tocam todos os mais novos sucessos musicais da América.
Eu nem conheço os mais recentes sucessos musicais da América —
contou-lhe Joshua. — E devo prevenir você de que não sou um bom
dançarino.
— Não pensei que fosse. — Shula ergueu para ele os risonhos olhos
castanhos. — Você é o Rabino. Não se incomode. Com música
popular, tudo o que precisa fazer é ficar, em pé ali e se sacudir.
Seu corpo, forte e sólido exceto pela suavidade dos seios, movia-se
contra o dele. Ela tinha o aroma de feno recém-cortado. Sobre o
ombro de Shula, Joshua viu Rachel dançando com Ben, e Natan
abraçando a delicada Aviva, como se ela fosse se quebrar. Era tão
miúda quanto Naomi, porém muito mais esbelta.
Lazar e Isaac continuavam conversando com outros homens e
mulheres na mesa. Os trinados finos do violino pareciam ótimos aos
ouvidos de Joshua. Estar nesta saía, neste lugar fundado por
homens e mulheres com a mesma visão de mundo que a sua, diante
dos amigos que amava e em quem confiava, era uma alegria para o
espírito. E a mulher em seus braços, queimada de sol e
transbordando vitalidade, era uma alegria para os sentidos. Mas os
olhos de Joshua seguiam a morena Rachel durante a dança.

Ela era exatamente o que ele achava que uma mulher nascida na
Palestina deveria ser. Aquele longo e luzidio cabelo negro, os olhos
escuros amendoados sob sobrancelhas semelhantes a asas negras
que se destacavam contra a pele dourada pelo sol, um corpo
arredondado, porém compacto, que parecia mais à vontade de
shorts e blusa de trabalho do que jamais estaria em um vestido.
Como Naomi seria bela na Palestina!

— Você está a quilômetros daqui — disse Shula. — Pensando em
uma mulher, aposto.
Ele concordou com a cabeça.

— Fale-me dela. Talvez ajude.
Por alguma razão, as palavras saíram ainda mais facilmente com
essa mulher do que com Lazar. Ela dava a impressão de saber o que
significava o amor total entre um homem e uma mulher, enquanto
Lazar não tinha nenhuma idéia do amor, além do agradável ato de
fazê-lo.
— O nome dela é Naomi. É pequena e muito bonita, como uma
porcelana perfeita. Eu a conheci a vida inteira, mas nunca soube que
a amava até um ano atrás.
— E tudo em que você sempre pensou foi vir para cá — acrescentou
Shula por ele. — Por que ela não o acompanhou, se o amava?
— Tinha medo de viver aqui. Shula assentiu com
a cabeça.
— Isso não é um piquenique para uma garota da cidade,
especialmente da América. Ela é uma sionista?
— Não.
— Bem, acabou-se, então. É preciso um tipo de mulher muito
especial para viver assim.
— Ela é especial. Não sabe disso, mas é. Se ficar lá, levando aquele
tipo de vida, talvez nunca saiba.
— O que quer dizer com esse "se"? Há alguma chance de que ela
mude de idéia? — A voz de Shula era compreensiva, mas cheia de
dúvida.

— Não sei. Não tive mais notícias dela e só recebi umas poucas
linhas sobre minha família enviadas por minha irmã Sarah. A
correspondência demora muito a chegar até aqui. — Baixou os
olhos para Shula. — Não acha que ela mudará, não é?
Shula encolheu os ombros.
— Ela teria que desistir de muitas coisas. — Examinou-lhe o rosto.
— Para você, ela é a bashert, é a mulher que lhe é destinada, não é?
— Encarou-o fixamente. — Sei como é isso. Mas você está aqui
agora, neste momento. Por que não aproveitá-lo?
Seus olhos lhe faziam um franco convite. Não havia nenhuma
insinuação neles, nem mesmo o mais leve flerte. Simplesmente
comunicavam que ele era um homem solitário, e ela, uma mulher
solitária, e que poderiam confortar-se mutuamente. Quando Joshua
moveu a cabeça de leve, em um gesto afirmativo, isso não tinha
nenhuma relação com seus sentimentos para com Naomi, a não ser
o vazio que o desejo deixava dentro de si. Era mais a certeza do
trabalho duro, das realizações, a concretização de um sonho e a
sensação de bem-estar que o faziam querer aquilo, não só como conforto,
mas como um compromisso com este novo modo de vida e o
rompimento com o antigo.
— Venha — disse Shula, tomando-lhe a mão. Atravessaram uma
das portas. A noite estava excepcionalmente amena. Uma brisa
vadia deslizava sobre os campos fora da paliçada, trazendo a
fragrância das flores de laranjeira. O perfume do jasmim
desabrochando na noite tornava-se mais intenso à medida que se
aproximavam de uma pequena casa anexa ao longo dormitório dos
adultos solteiros.
— Esta casa é minha — explicou Shula. — Permitiram que eu
permanecesse aqui, após a morte de meu marido, porque faço a
contabilidade da fazenda de gado leiteiro e necessito de um lugar
tranqüilo para trabalhar. Mas isto aqui fica muito solitário às vezes.

Dentro do pequeno aposento havia apenas uma cadeira e uma mesa
de madeira tosca, uma cômoda sem pintura e uma cama. Livros e
papéis estava empilhados por todos os cantos.
Joshua mal notou o quarto. Os lençóis da cama eram ásperos contra
seu corpo nu, mas a pele dela era macia. Nunca abraçara uma
mulher nua antes, porém uma sutil sensibilidade ao que deliciaria
um corpo feminino, uma sensualidade profundamente arraigada
guiavam-lhe a boca e as mãos, e ela respondeu com um abandono
que se igualava ao seu.
Não estava preparado para o maravilhoso calor que sentiu ao estar
dentro de uma mulher, a deliciosa acolhida que o corpo dela lhe
ofereceu, uma absorção que excitava e confortava de imediato. E
não tinha a menor idéia de que o clímax de toda essa maravilha
fosse tão liberador, tão sublime, tão plenamente realizador.
Os dois nada mais disseram. Dormiram e amaram-se e tornaram a
dormir, e, se a lembrança casual de Naomi ameaçava lançar uma
sombra de dor nessa paz, de alma leve como se sentia, foi no corpo
dessa mulher desconhecida, generosa, em que buscou conforto à
noite.
Juntou-se novamente aos homens adormecidos bem antes do
amanhecer, com a sensação de que havia conquistado mais um
amigo querido nesta terra amistosa. Às primeiras luzes da alvorada,
a brigada estava se preparando para seguir viagem e Giora para
iniciar o trabalho e vê-los partir com adeuses, recomendações e
sacos de tomates, pepinos e ovos cozidos.
Joshua olhou para Shula em silenciosa gratidão, e ela acenou com o
chapéu de palha em resposta, sorrindo. Os olhos de Joshua
detiveram-se outra vez no rosto de Rachel, e ele lhe disse adeus.
Depois, o motor do caminhão roncou, pegou e os levou para longe
de Giora, rumo a Safed, ao norte dali. Reuven avisara Lazar para
que comparecesse primeiro a um encontro com o Haganah, a fim de
receber instruções, antes de mandar a brigada de volta ao projeto na
Samaria.


Lazar Kramer era mais do que um chefe de brigada: era uma
ligação-chave entre o Yishuv e sua força de defesa e entre o Yishuv e

o mundo lá fora. O Fundo Nacional Judaico, o Fundo para
Formação na Palestina e uma Agência Judaica ampliada na Europa
trabalhavam para estimular e financiar a imigração de judeus para a
Palestina. Mas primeiro era necessário reconciliar os sionistas, que
queriam um lar nacional judaico, com os não-sionistas, que
ajudavam os judeus pobres de todas as partes do mundo, mas
recuavam ante os discursos inflamados sobre um novo Estado. O
auxílio de ambas as facções era vital para a sobrevivência do Yishuv,
e Lazar Kramer era o tipo de homem que encantava a todos.
Charmoso e eloqüente, um produto atraente e apolítico da
comunidade judaica na Palestina, viajava por toda a Europa,
arranjando dinheiro para financiar novos colonos. Na Palestina,
ajudava o Haganah a contrabandeá-los para dentro do país,
desafiando as tentativas britânicas de mantê-los longe dali.
— Por que estão todos tão quietos? — Lazar indagou agora.
— Estão apaixonados — respondeu Levy. — Exceto você. É imune.
Lazar riu.
— Acontece sempre que passamos uma noite em algum lugar com
casas. Eles acham que estão apaixonados, mas é apenas civilização.
Natan suspirou.

— Pode chamar do que quiser. Eu chamo de amor.
— Aviva? — arriscou Lazar, e Natan assentiu com a cabeça,
melancólico.
— Bem, alegre-se. Ela também parece gostar de você. E verá a
garota de novo daqui a algumas semanas. Lazar olhou para os
outros homens. — O Janota aqui também está com um olhar
desolado. Tem de ser aquela de olhos escuros, Rachel.
Ben moveu a cabeça, afirmativamente.


— Mas parece que a morena Rachel não parou de olhar para o
moreno Joshua — retrucou em tom de brincadeira, mas os olhos
azuis observavam o Rabino com expressão cautelosa.
— Não se preocupe, Ben — Lazar o consolou, diver-tindo-se com a
confusão de Joshua. — O Rabino estará tão distante dos olhos de
Rachel que ela se voltará para você, à procura de consolo.
— O que quer dizer com isso? — Joshua o inquiriu. Lazar tornou a
reclinar-se na parte lateral do caminhão
sacolejante, as mãos entrelaçadas atrás da cabeça.
— Quero dizer que você e eu vamos para a América.
— Lazar, não! Por quê? Lazar abriu os olhos.
— Por dinheiro. — A atitude indolente permaneceu a mesma,
porém a voz assumiu um tom enérgico. — Olhe, tivemos uma
recessão, mais judeus partindo do que chegando. E precisamos do
maior número possível de gente nossa aqui. Weizmann necessita do
apoio financeiro dos judeus apolíticos, os não-sionistas, e é na
América que vamos obtê-lo.
Precisamos de dinheiro para a compra de novas terras e novos
colonos para cultivá-las, para suprimentos, máquinas. Mas
principalmente para adquirir armas. Você e eu temos de ir lá e
conseguir isso.
Ben concordou com a cabeça, mas Natan protestou,


— Armas para lutar contra o quê? Os árabes? Certo, surgem
problemas de vez em quando, mas podemos cuidar disso com umas
poucas facas.
O Doutor discordou.
— Os colonos têm que se proteger e trabalhar a terra também.
Aquele maluco em Jerusalém não vai se contentar com alguns
assassinatos; o mufti quer uma revolução. O Ha-ganah precisa de
armas, munição. Lazar está certo.
— Mas por que eu? — insistiu Joshua. — Depois de todos os anos
que levei para chegar até aqui! Por que eu? Não conheço ninguém
com dinheiro, Lazar.

— Temos os contatos financeiros. O que necessito realmente é de
alguém que seja uma combinação de guia e aprendiz. Você precisa
aprender o que estamos fazendo na Europa há anos para levantar
dinheiro e comprar munições. A Agência Judaica acha que você é o
homem certo para me ajudar a executar esta tarefa. — Mostrava-se
compreensivo, mas firme. — Tem de ser feito, Josh. Cada um de nós
precisa dar o melhor de si. Não podemos estar indefesos quandp a
confusão começar. E não arranjamos um copeque no fundo de
defesa que os britânicos finalmente nos permitiram ter. Acha que
eles irão nos proteger no caso de um levante árabe? Agora estão
fazendo o possível para bajular os árabes.
A sensação de bem-estar de Joshua foi substituída por um misto de
remorso e antecipação. Iria tornar a vê-la. Após um ano,
reencontraria Naomi e talvez a persuadisse a vir com ele dessa vez.
Contudo, nunca antes havia encontrado um lugar que fosse um "lar"
e não estava nem um pouco ansioso para deixar a Palestina.
— Quando soube disso? — perguntou a Lazar.
— Reuven contou-me ontem à noite. Nossa gente quer me mandar à
América com outro homem que possa aprender. Você é o homem.
— Obrigado, amigo — falou Joshua, ligeiramente mordaz. — Sua
adulação só é superada pela chutzpah em pressupor que eu desejava
ir com você.
— Mas vai? — A pergunta de Lazar continha mais dúvida do que
era normal para ele. Era impossível negar-lhe alguma coisa quando
perguntava daquele jeito, ou prejudicar a amizade dos dois com
ressentimentos infantis. A missão tinha de ser cumprida, a fim de
proteger o que o Yishuv construíra aqui, pedra por pedra.
— Sim, é lógico — respondeu Joshua, sorrindo. Olhou para Isaac,
Ben e Natan. — Onde eles vão estar durante nossa ausência?
— Não se preocupe conosco, companheiro — disse Ben. — Vamos
prosseguir com o trabalho de engenharia. — Agora parecia
completamente relaxado.
— Uma definição bonita para trabalho braçal — comentou Isaac.

O apaixonado Natan só resmungou.
O caminhão mourejava rumo a Safed, construída em uma colina,
cada uma de suas casas brancas cintilando ao sol da manhã já alto,
enfeitadas de azul para evitar o mau-olhado. Flavius Josephus, um
historiador e soldado judeu, erigira suas fortificações. Os cruzados
construíram um castelo sobre suas ruínas no século XII. Sábios
judeus, expulsos da Espanha em 1492, transformaram a cidadezinha
de sonho em um centro de estudos rabínicos e místicos, convivendo
pacificamente com os vizinhos árabes.
Para Joshua, aqui estavam suas origens. Desde a mais tenra
infância, tinha se embebido da história da Palestina — estar aqui,
caminhar nas ruas que haviam sido apenas nomes de sonho para
ele, era algo absolutamente comovente.
Mas nem tudo era devoção religiosa em Safed, tal como um
visitante casual — ou uma patrulha britânica — poderia pensar, ao
observar os piedosos judeus e os árabes devotadamente religiosos
que habitavam o lugar. Existiam quatro "cidades santas" para os
judeus: Hebron, Tiberíades, Jerusalém e Safed. De todas elas, Safed,
no norte da Galiléia, era uma pequena jóia de antigüidade para os
turistas. . . e um local mais seguro do que as colônias
freqüentemente patrulhadas para o encontro ao qual Joshua estava
prestes a comparecer.
Enquanto a brigada almoçava, ele e Lazar, junto com Ben, Natan e
três outros homens, reuniam-se com membros do exército
clandestino do Yishuv, o Haganah.
As apresentações foram rápidas, os comentários, sucintos. Quando
menino, Ari, o chefe ali, se alistara na Legião Judia de Josef
Trumpeldor do exército britânico, na Grande Guerra. Mas não havia
nenhuma simpatia entre Ari e os britânicos. "Acha que devíamos
ficar honrados por nos encarregarem de cuidar das mulas?",
esbravejava.


Ele era baixo, com porte militar. Era difícil dizer sua idade. Mas,
obviamente, seu único interesse na vida era a defesa do Yishuv.
Falava aos arrancos, como uma metralhadora.

— Vai haver problemas — avisou Ari, sentado perto de uma mesa,
onde se achava aberto um mapa da Palestina. O sol da primavera se
infiltrava pela janela da casinha branca, atingindo o mapa.
— Aqui. — Ari apontou. — E aqui. E quase certamente em Hebron.
Não podemos evitar. O Grande Mufti está fomentando mais ódio
do que podemos enfrentar com palavras. Precisamos enfrentar com
armas. — Fitou Lazar. — Está pronto para partir?
— Tão logo nos substituam na brigada e nos coloquem em um
navio. — Seu olhar incluiu Joshua.
— O diabo é que precisamos de todo homem disponível para a luta.
Então mandamos vocês dois para fazer conferências e participar de
chás de caridade, a fim de arrancar dinheiro dos judeus americanos!
O que eles têm contra os sionistas, pelo amor de Deus?
— Não querem parecer desleais à América — sugeriu Joshua.
— Mas, se dão dinheiro à Cruz Vermelha para abrigar vítimas de
terremoto, isso não é desleal?
— Ah! — um dos homens riu com desdém. — Eles receiam que, se
atraírem muita atenção para si mesmos, as pessoas comecem a
matá-los.
Ari jogou o ponteiro sobre a mesa.
-Bem, tudo o que quero por enquanto são armas suficientes para
impedir que sejamos mortos. — Enrolou o ponteiro junto com o
mapa. — Tenho de ir andando, e vocês também. Boa sorte e boa
caçada. Traga tudo o que puder, Lazar. E que os demais estejam
preparados para tudo.
Apertou a mão de cada um deles, enquanto seus próprios homens
recolhiam os cantis e as mochilas. Pareciam aliviados por
abandonarem os confinamentos de uma casa. Todos haviam sido do
Hashomer — membros da patrulha civil de Sentinelas — antes que
os britânicos permitissem a formação do Haganah, o primeiro



reconhecimento oficial da tensão entre os árabes e judeus quanto à
imigração judia. "É sempre possível identificar um homem do
Haganah pela maneira como não pára de olhar para trás", observara
Natan certa vez.
Supunha-se ainda que o Haganah não fosse um exército, mas
apenas um grupo de trabalhadores difusamente organizados, sem
hierarquia militar e armas dignas de menção.
"Então vamos esconder as armas", tinha ordenado Ari, "e esqueçam
de chamar-me de general. Os ingleses julgam tudo pelas aparências.
Parecemos fazendeiros. Então, para eles, seremos fazendeiros. . .
com mulas se é o que os sacanas querem."
Ari dirigiu-se a Ben por um instante.


— Descubra tudo o que puder sobre as praias que planejam
patrulhar. Temos muita gente para contrabandear. E muitas armas.
— Olhou para trás, na direção de Lazar e Joshua. — Shalom — disse
com um sorriso sardônico, ao partir. "Paz." Esse estava longe de ser
o voto de despedida adequado para homens em busca de armas.
Lazar e seu grupo voltaram para o caminhão.
— Você entendeu a idéia — disse Lazar a Joshua. — Não é nenhum
mar de rosas.
— Entendi, sim — respondeu-lhe Joshua.
— Então comece a explicar a um selvagem que nem eu como deve
se comportar nas ricas salas de estar dos americanos. Sabe que
nunca morei em uma casa com tapete e aquecimento central?
Joshua riu, mas era um riso superficial. Um riso que ocultava uma
onda de sentimento — esperança ou desesperança? — ante o
pensamento de que veria Naomi de novo. Esta era sua terra agora.
De fato, bem como de espírito. Até mesmo o ato de amor com outra
mulher marcara o rompimento com Naomi, a despeito de quão livre
de obrigações Shula tornasse aquilo. Ele e Naomi pertenciam a
mundos diferentes, no sentido literal e agora também


metaforicamente, cada um deles vivendo segundo preceitos
diferentes.
E ainda assim a amava, como jamais conseguira amar alguém, nem
mesmo uma jovem de olhos negros como Rachel. Tinha a impressão
de que Rachel era tão virginal quanto Naomi, que também poderia
estar guardando-se para o casamento, mas por opção, não por
restrição social. Para uma jovem como Rachel, o casamento tinha
significado diferente que para Naomi. As Shula e Rachel deste
mundo — o mundo de Joshua agora — estavam enraizadas no solo
rochoso da realidade.
Ele imaginava agora se seu próprio idealismo tinha raízes plantadas
na dura realidade mais do que nos sonhos do Sion que o embalaram
durante a vida inteira. Era hora de parar de sonhar.

Lazar interrompeu-lhe os pensamentos.

— Havia cartas para nós em Safed. Algumas muito antigas.
— Quem recebe correspondência? — indagou Isaac. — Somos uma
desgraça para nossas famílias.
— Bem, publicaram outro poema meu em Varsóvia. — Lazar parou
para receber os cumprimentos dos homens. — Aqui, Isaac, a
faculdade de medicina em Viena deve estar lhe pedindo para
regressar. E há uma bem gorda para o Rabino. — Fitou Joshua com
uma preocupação amistosa, enquanto lhe entregava a carta.
Conhecia toda a sua história, assim como Joshua também conhecia a
dele.
Joshua começou a abrir a carta, mas o volume incomum o deteve.
Sarah não costumava ter paciência para escrever cartas tão longas.
Aquela carta devia trazer notícias que era melhor ler a sós.

Capítulo 3

NOVA YORK — abril de 1929

Arnold passou os olhos com orgulho e satisfação pelo depósito
onde havia instalado a pequena fábrica, perto da Union Square.
Tudo estava pronto, e entrariam em plena atividade na próxima
semana. Ele merecia isso: desafiara o pai d Naomi no ano passado,
no dia do casamento, insistindo que sustentaria a esposa à sua
maneira. E então tinha ido tra balhar como vendedor da Elizabeth
Arden, de olhos e ou vidos atentos a tudo, aprendendo mais ainda
do que espe rara nos dez meses em que estivera lá.
Enquanto isso, ele e Sarah, com a colaboração de Naomi, dirigiam
um pequeno negócio nas horas vagas. As noites que passaram
juntos, pregando rótulos, preparando as embalagens para
transporte, anotando as listas de lojas para Sarah contactar — noites
maravilhosas em que os três compartilharam risos, esperanças e
planos. Aquilo o ajudara a ganhar uma parte do dinheiro necessário
para se estabelecer por conta própria. Nunca tinha esperado fazer
isso tão depressa.
Franziu o cenho. O restante do dinheiro veio do sogro. Arnold havia
jurado não pedir um centavo, mas acabou cedendo ao oferecimento
de Martin, principalmente porque isso dera a Naomi outra coisa em
que pensar, quando perdera o primeiro filho. Martin Held estava
tão decidido a distrair Naomi que virtualmente insistira em fazer o
empréstimo. Foi Arnold quem teimou em pagar juros. Porém
Martin não estava arriscando seu dinheiro, Arnold lhe provaria isso
muito em breve.
Agora Naomi estava grávida de novo, e isso era um bom presságio,
muito embora Arnold não acreditasse realmente em presságios.
Olhou em torno e sorriu outra vez. Já podia fazer os produtos na
sua própria fábrica, sem pagar uma quantia astronômica para que o


deixassem utilizar o equipamento, sempre que fosse conveniente.
Ficou de pé no meio do grande recinto, dominando com sua
intensidade os tanques maciços, as enormes pás misturadoras, os
imensos tambores de óleo, cera, essências e emulsificadores.
Havia prateleiras repletas de potes e frascos prontos para serem
enchidos, rotulados e remetidos. Também havia pedidos suficientes
para mantê-los trabalhando por seis meses. E todos os dias
chegavam mais, graças a Sarah. Ele não perdera seu tempo,
trabalhando para a Arden. Tinha aprendido o negócio com uma
mulher astuta. Também sabia quem eram os clientes, e agora eles o
conheciam — o bastante para certificarem-se de que Arnold Fursten
forneceria um produto equivalente por um preço muito mais
acessível. Não seria um produto de salão no início, mas essa fase
não duraria muito tempo.
O telefone tocou, e Arnold deixou o centro do amplo depósito para
atendê-lo.

— Alô, magnata — soou a voz de Sarah, e ele sorriu ante a excitação
da irmã, que igualava-se à dele. — Como estão as coisas?
— Ótimas! Espere até ver o resto do equipamento. — Sentou-se
atrás de uma mesa elegante, dentro de um cubículo com uma
divisória de vidro.
— Mal posso esperar para ver. Telefonei para desejar boa sorte.
— Os operários acabaram nesse minuto. Quem, além de minha
sócia, saberia exatamente quando ligar? Como vão os negócios aí na
Filadélfia?
— Você não acreditaria. Acho que devíamos alugar um armazém
aqui, Arnold. Assim conseguiremos estocar e despachar mais
rápido do que de Nova York.
— E quem dirigiria tudo? — objetou Arnold.
— Maresh Skowalski. — Sara tinha sempre à disposição o nome de
algum velho conhecido do bairro, todas as vezes em que
precisavam de ajuda. Quando começou a viajar para fora da cidade,
levava consigo uma das garotas da vizinhança. Arnold e os pais

insistiram nisso. Manya e Leonard podiam até ter se recusado a
deixá-la ir, mas acabavam de perder Joshua porque ele tinha outros
planos para sua vida. Não podiam arriscar-se a perder outro filho
neste país moderno — ainda um mistério para eles, após um quarto
de século — onde as moças usavam shorts curtos, dançavam o
charleston e, pelo que já tinham ouvido falar, até fumavam cigarros.
Entretanto, nos últimos tempos Sarah estava viajando sozinha. Ela
sempre parecera muito mais velha do que real mente era e insistia
que era capaz de cuidar de si mesma Arnold confiava nos conselhos
da irmã, sempre estudando suas sugestões com toda a atenção.

— Maresh? É um dos alunos de Joshua, não é? — Joshua tinha
organizado uma turma de alunos, a fim de en sinar os imigrantes de
Rivington Street a ler e escrever in glês. A maioria deles era
devotada ao ex-professor e acom panhava suas aventuras na
Palestina tão atentamente quanto o faziam com Os Perigos de Pauline
no cinema. — Acha que o grande polaco é bastante esperto?
Sarah encrespou-se toda.
— Lógico que acho! E ele não vai nos roubar até o último tostão;
todos nós começamos juntos do nada. Além disso, Maresh não irá
desmaiar se eu xingar "merda", e, para mim, isso é uma
consideração.
Arnold ignorou a última observação.
— Primeiro vamos ver se o volume de vendas que obti vermos é o
suficiente para cobrir as duas linhas.
Era por esse motivo que havia dois tipos de potes e frascos — um
branco e outro dourado — e dois tipos de rótulos: Aurora, para a
linha mais barata, e Duquesa, para a dourada. Ambas continham
exatamente o mesmo produto mas o Duquesa custaria o dobro do
preço. O Decreto Federa de Medicamentos e Alimentos de 1906 não
regulamentava os cosméticos, e não existiam quaisquer exigências
quanto ao conteúdo dos rótulos. Ninguém saberia que os dois preço
compravam o mesmo produto, e, se isso incomodou Amole a

princípio, ele teve de aceitar o fato como prática estabele cida nessa
indústria ou então perder dinheiro.

— Você está ficando conservador — comentou Sarah — Também
vamos precisar logo de uma equipe de vende dores.
— Eu sei — concordou Arnold. — Mas primeiro tenho de pagar ao
pai de Naomi e lançar a linha de perfumes
— Continuo dizendo que devia dar a Martin uma participação na
companhia — falou Sarah, suspirando. — Deus, você é teimoso!
— Não. — A voz de Arnold era tão determinada quanto o rosto. Ele
ainda se lembrava de Martin chamando-o de irresponsável por
abandonar um negócio estabelecido para trabalhar com um
estranho, afirmando que Arnold havia se casado com Naomi sob
falso pretexto. E recordava-se de ter sido respeitoso com executivos
da Arden, que não possuíam nem a metade de seus conhecimentos
porque eles não tinham começado preparando cremes no fogão da
cozinha e vendendo-os de porta em porta, — Ninguém ficará com
qualquer participação na companhia, além de você e eu. Nunca
mais vou me matar de trabalhar para qualquer outra pessoa.
— Está certo, está certo — Sarah o acalmou. Sabia que não fora fácil
para Arnold trabalhar na Arden. Sarah continuou conversando: —
Estou me concentrando na Aurora por enquanto, já que é o nosso
ganha-pão. Estive em cada drogaria e mercado de esquina na
Filadélfia e vou me encontrar com os rapazes que compram para a
Penney, Woolworth e algumas das cadeias do Meio-Oeste, antes de
regressar a Nova York. Quer mesmo que eu deixe os distribuidores
da Duquesa para outra viagem?
— Sim. Mantenha as duas linhas separadas até na venda. Se há uma
coisa que aprendi na Arden é conservar a maior distância possível
entre a clientela de elite e as lojas scholock.
Sarah riu.
— Você aprendeu mais do que isso com Lizzie Arden. Mas ainda
assim preciso de Maresh. Sou apenas uma mulher, não um
departamento.

Na opinião de Arnold, Sarah era uma mulher colossal.
Possuía uma vitalidade esfuziante, contagiosa, tão irresistível
quanto a figura alta e forte, o rosto adorável, o brilhante
cabelo escuro e os olhos risonhos. Uma mulher com a tez e a
personalidade de Sarah conseguiria vender produtos de beleza
a qualquer pessoa. '
Então contrate Maresh, se é o que deseja. Mas você e a melhor
equipe de vendas que já vi. Quando voltará?

— Depois de amanhã.
— Por que tão depressa? Sarah parou por um momento.
— Acabei de falar com papai. Josh está vindo para casa.
Arnold engoliu em seco.
— Isso é fantástico — disse, mostrando o maior entusiasmo que
podia. — Para ficar?
— Não. Está viajando com um amigo, arrecadando fundos, foi-o
que contou papai. Ficará em Nova York apenas por um ou dois
dias, e quero alcançá-lo.
O queixo de Arnold relaxou ligeiramente.
— É lógico. Tomara que tenhamos uma chance de vê-lo. Não posso
arrastar Naomi até Rivington Street.
— Como ela está passando? — indagou Sarah com cautela. O
aborto de Naomi deixara todos um pouco nervosos com relação à
segunda gravidez.
— Bem. Nenhum sinal de problema desta vez.
— Graças a Deus — Sarah parecia aliviada. — Necessitamos de um
herdeiro para o império dos cosméticos Fursten.
— Não brinque, vai ser um império — garantiu Arnold. Sua voz
estava calma e confiante outra vez.
— Quem está brincando? Estou contando com isso. Aparecerei aí
para visitar Naomi, assim que encontrar Josh. Escute, irmão
querido, preciso ir andando. Só dei uma paradinha no hotel para
trocar a marcha, checar o óleo e ligar para você. Tenho mais

algumas lojas para procurar. — Fez um som de beijo estalado e
interrompeu a ligação. Esta era Sarah: impulsiva, amorosa. . . é tão
cabeça-dura quanto ele.
Mas ela não estava mais sob o controle de Arnold, nem dos pais.
Pouco a pouco, havia deixado para trás a educação familiar e
penetrado em um mundo de homens. Usava linguagem grosseira,
dirigia as operações de venda com pouco ou nenhum conselho de
Arnold e nunca fazia um acordo que não proporcionasse uma clara
vantagem a seus interesses, de uma forma ou de outra. Imaginava
que tipo de homem ia querer casar com uma mulher como Sarah.

Arnold desejava que ela se mudasse de Rivington Street. "Não
adianta vestir-se como Lady Astor, se vive em um bairro pobre",
argumentou com a irmã. Mas os pais não sairiam, e Sarah não
desejava viver com Arnold e Naomi. Queria seu próprio
apartamento! Ela anunciou o fato logo depois que começou a ir
sozinha à Filadélfia.

— Deus! — dissera à família aflita — Filadélfia não é Sodoma e
Gomorra! É uma cidadezinha insignificante! E também não vou
perder minha virtude, se morar sozinha. É nisso que estão
pensando, posso perceber. — E sorrira para os parentes ruborizados
com um ar malicioso.
Era surpreendente que já não tivesse "perdido sua virtude", com a
aparência que possuía. Mas ela costumava dizer que nenhum
homem a fizera ver fagulhas cintilando. Arnold tornou a imaginar
que tipo de homem Sarah escolheria — muito embora a idéia de sua
irmã caçula em uma situação sexual lhe causasse uma sensação de
desconforto.
Ele permaneceu junto do telefone, desejando poder expressar amor
tal como Sarah — mas as palavras nunca ultrapassavam a barreira
que as prendia ao peito. Às vezes achava que ia explodir de
adoração por Naomi, mas ainda assim só conseguia tentar mostrálo.
Estava além de sua capacidade expressar tal sentimento, exceto
em algumas ocasiões, quando estavam na cama. Ela era sempre

receptiva, gentil e afetuosa. Mas, em certas ocasiões, parecia que não
estava ali com ele, que se achava longe, em um lugar distante, só lhe
permitindo ter seu corpo. Era nesses momentos que precisava trazêla
de volta, que lhe implorava: "Diga que me ama, Naomi, por favor,
só uma vez, diga que me ama".
Ela dizia, mas o fato de precisar pedir tornava tudo inútil, como se
estivesse dizendo isso não a ele, mas ao fantasma que dormia na
cama com os dois.
Então as palavras de amor engasgavam na garganta, e tudo o que
ele queria fazer era amaldiçoar o irmão por estar sempre lá, entre
ambos.
Não podia arriscar-se a transformar o fantasma em realidade,
dando-lhe um nome. Não tinha nenhuma prova. Naomi nunca o
recusava, nunca parecia detestar o ato. Seria mais fácil se detestasse.
Havia mulheres assim, e ela era tão inocente! Porém existia paixão
em Naomi, Arnold podia jurar. Era-lhe insuportável que a esposa
não lhe desse isso. Era intolerável imaginar o corpo pequeno e
voluptuoso respondendo ao de Joshua do modo como ele achava
que podia responder. Contudo, não tinha nenhuma prova. Nunca
teria, a não ser que perguntasse — e jamais se arriscaria a tal coisa.
E agora Joshua estava voltando. Não desejava que Nao mi se
perturbasse. A perda do primeiro bebê fora bastante ruim para os
dois.
Ela o ajudara tanto, sua pequena e adorável esposa. O potes e
frascos de ambas as linhas eram desenho de Naomi Ela tinha talento
para escolher cores e rótulos — uma queda para nomes. E isso havia
desviado seus pensamentos da criança perdida — especialmente a
nova linha de perfumes que planejavam. Estava atraída pela
atmosfera de romance existente naquilo.

Arnold tinha uma estratégia mais prática para o mercado de
perfumes. Se era possível persuadir as mulheres que um creme as
manteria jovens ou que iria rejuvenescê-las, então também seria
possível convencê-las de que uma fragrância as tornaria


irresistíveis. Quanto a Arnold, podia sentir o cheiro da fortuna
naquilo. "Meu genro", Martin Held gostava de comentar com ironia,
"julga-se capaz de farejar fortuna como um sabujo." Martin Held
não demoraria a mudar de tom.
O apoio financeiro de Martin tornara possível tudo isso, e Arnold
era agradecido ao sogro. Mas foi o trabalho exaustivo dele e de
Sarah que construiu o negócio, e ele estava determinado a conservar
a exclusividade da posse para os dois.
Novamente olhou ao redor de si, as mãos entrelaçadas atrás das
costas. Isto ganharia vida para ele. Isto responderia a cada
derradeira gota de devoção que lhe desse. Ao menos aqui não
pairavam dúvidas e fantasmas.
Eram quatro horas da tarde. Decidiu ir para casa mais cedo, levar
umas flores para Naomi, a fim de celebrar o novo negócio. Algum
dia chegaria em casa com diamantes para ela.

Trancou a porta atrás de si e desceu as escadas. Ainda não tinha

muita certeza se contava a Naomi que Joshua viria para casa.
Naomi apoiou-se na janela da sala de jantar e viu o crepúsculo
baixando sobre o Hudson, a mão descansando na barriga. Adorava
essa hora do dia, não importava qual fosse a estação — e adorava
principalmente agora que estava a salvo, no quarto mês de gestação.
Desejava de verdade que começasse a aparecer logo.
Atrás dela, tudo estava pronto para celebrar a inauguração da nova
fábrica. A mesa na sala de jantar tinha uma toalha recém-passada e
um jarro de centáureas entre duas velas brancas. A mobília da sala
de visitas era toda de cerejeira clara, estofada em um tom chamado
de azul-copenhague

— muito diferente das peças pesadas e práticas que a mãe preferia.
Mas até mesmo Leah foi obrigada a concordar que o novo
apartamento era bonito. A mudança do Bronx para Riverside Drive
ajudara Arnold e Naomi a superar o aborto

— e este apartamento tinha um quarto e um banheiro para o novo
bebê, graças ao auxílio do pai.
Puxou as cortinas brancas transparentes, que tornavam o aposento
mais acolhedor sem bloquear a vista, e acomodou-se em sua
poltrona preferida. As coisas estavam indo tão bem que logo não
precisariam da ajuda do pai. Isso deixaria Arnold menos nervoso,
menos mal-humorado. Ele odiava aceitar dinheiro de qualquer
pessoa. Nem mesmo os pais dela conheciam as idéias de seu marido
sobre a linha dos perfumes — e isso seria o maior sucesso de todos.
Ela, Sarah e Arnold podiam pressentir tal coisa.
Suspirou com satisfação, acendeu uma lâmpada de leitura e pegou
um novo livro sobre a história das essências. Como era exótico!
Gravuras de sacerdotisas queimando incenso perfumado no templo
dançavam diante de seus olhos. Admirou a Rainha de Sabá,
seduzindo Salomão, não por sua sabedoria, mas para assegurar as
rotas de comércio através do país para os produtos de seu reino —
canela, cravo e nar-do-da-índia. Imaginou como seria o aroma da
mirra e do olí-no e como as famosas beldades de Tebas, os cabelos
pintados com hena e os olhos contornados com kohl, podiam banhar
os cabelos e o corpo todos os dias com unguentos é óleos de
perfume intenso sob o calor do Oriente Médio.
O livro caiu do colo, e Naomi fechou os olhos. Não devia permitir
que Joshua se intrometesse neste dia especial; este era o dia dela e
de Arnold. Na maior parte do tempo, não pensava nele, exceto
quando apareciam no rádio e nas páginas dos jornais notícias sobre
desordens e rebeliões árabes na Terra Santa. Sua vida era
exatamente como sempre esperou que fosse — a não ser pela perda
do primeiro filho. Tinha tudo que uma mulher podia desejar: um lar
adorável, um marido bem-sucedido, bonito e apaixonado... . às
vezes apaixonado demais, mas uma mulher aprende a suportar isso,
pensando em outras coisas enquanto aquilo está acontecendo.
Arnold nunca era brutal, indecente. Havia ocasiões em que a força
do desejo por Joshua na noite em que a abandonara parecia incrível,

como se outra pessoa o tivesse sentido. Não era o tipo de mulher
que desejava ser possuída por um homem de todas as formas
possíveis, que queria desnudar-se de todos os farrapos da modéstia,
mergulhar na sensualidade, tal como ansiou que acontecesse com
ela e Joshua naquela noite.
Mas havia ainda aqueles momentos assustadores quando não era
Arnold o homem que lhe acariciava o corpo, abrindo-o, enchendo-o,
e sim Joshua que a abraçava e nela despertava desejos que a
distanciavam dos braços do marido. Isso só acontecia de vez em
quando e, quando ocorria, a ira por Joshua abandoná-la era
reavivada. Então ficava ainda mais decidida a parar de pensar nele
de uma vez por todas. Isso estava cada vez mais fácil — ele se
achava ausente há um ano e agora ela tinha o bebê em que pensar.
Ouviu a chave de Arnold na porta e afastou esses pensamentos,
indo ao seu encontro.

— Você está bem? — perguntou Arnold, beijando-a.
— Estou maravilhosa! — Naomi retribuiu com outro beijo,
abraçando-se a ele por mais tempo do que de costume. — A questão
principal é como você está, como Aurora e Duquesa estão. —
Ergueu para o marido o rosto sorridente.
A linha Duquesa desenvolvera uma identidade própria para eles:
Duquesa era seu sonho.

— Você precisa ver para acreditar — contou Arnold.
Agora que os operários saíram de lá, pode ir dar uma
olhada, sem se machucar. — Entregou-lhe um ramalhete de rosas e
cravos-do-campo. —. É para você.
Ela imaginou por que era sempre embaraçoso para Arnold se
mostrar sentimental, mas os olhos azuis de Naomi cintilavam
quando pegou as flores e foi para a cozinha, a fim de arranjar algo
onde pudesse colocá-las.

— Preparei um jantar especial para você.

Ele a observou, o desejo rugindo dentro de si ante o ondular de seus
quadris. Mas não haveria sexo até o bebê nascer. Até mesmo Leah o
prevenira sobre isso.

— Vou me lavar — avisou.
Ela o seguiu através da sala de visitas com um pequeno vaso para
as flores, arrumando-as no quarto, ouvindo o marido descrever a
fábrica em Union Square, enquanto lavava as mãos e o rosto no
banheiro de azulejos azuis.
— E você tem tanto a ver com isto quanto todas as outras pessoas;
os potes e os rótulos estão fantásticos. — Fechou a torneira. — Sarah
telefonou de Filadélfia.
— Como ela está? Sinto falta dela.
— Regressa dentro de alguns dias. — A voz saía abafada pela
toalha. — Joshua está de volta, e Sarah quer encontrá-lo. — Ele não
tinha nenhuma idéia de que fosse deixar escapar a notícia dessa
maneira.
Houve silêncio no quarto. Arnold veio para a porta do banheiro,
mas Naomi estava arranjando as flores, e ele não conseguiu ver-lhe
o rosto.
— Joshua vem com outro sujeito, para arrecadar fundos em todo o
país. Só permanecerá em Nova York por alguns dias.
— Sarah deve estar excitada — comentou Naomi. — E surpresa. —
Dirigiu-se à cozinha, e ele acompanhou-a até a sala de jantar.
— Também estou surpreso — falou Arnold, sentando-se à mesa. —
E você, não?
— Achei que ele nunca mais voltaria, depois que esti vesse lá. — A
caçarola que tirou do forno quase escorregou de suas mãos. Então
ela se controlou e a levou para a mesa.
— Bem — riu —, também temos algumas surpresas para ele, não?
Arnold pegou a travessa que ela lhe entregava.
— Temos, sim. Aurora e Duquesa — concordou.

— E o bebê — Naomi acrescentou com orgulho. —, Você terá muito
o que contar.
— Se houver uma chance. — Naomi baixou os olhos para o prato,
enquanto ele prosseguia. — Os rapazes ao Fundo não perdem
tempo. Viajam à noite e encontram-se com os arrecadadores do
dinheiro durante o dia. Talvez nem o vejamos dessa vez.
Naomi não disse nada. Arnold sentiu-se pouco à vontade com o
silêncio.
— Talvez fosse uma boa idéia iniciar a linha de per fumes — falou
abruptamente. — Para Aurora.
— Mas vai esperar e fazer algo especial para a Duquesa —ela
retrucou com mais animação.
— Entretanto, seria uma boa experiência. E, gota por gota, há mais
lucro nos perfumes do que nos cosméticos. — Esqueceu-se de
Joshua. — Posso ganhar mais vendendo menos, e isso significa
menos dinheiro empatado em matéria-prima. — Engoliu outro
bocado de comida, e ela esperou que ele continuasse. — Sarah quer
contratar logo mais vendedores, e eles podem vender tudo para nós
pelo mesmo salário e comissão. Mas ainda assim vou esperar por
algo especial, antes de colocar o rótulo Duquesa.
Não tornaram a falar sobre a visita de Joshua durante ou depois da
refeição, enquanto Arnold a ajudava a empilhar os pratos para a
empregada arrumar na manhã seguinte. Mas Naomi foi para a cama
cedo, e, embora Arnold tentasse fazer planos para o próximo dia, o
retorno do irmão estava em seus pensamentos.
Como podia agir naturalmente com Joshua, após todo o
ressentimento que acumulara contra ele? Como isso afetaria
Naomi? Contudo, ela tinha se comportado como sempre: costumava
se recolher cedo, a conselho do médico.
Naomi estava adormecida quando ele se deitou o mais
silenciosamente que pôde, imaginando se precisaria ver Joshua.
Então, agora os sionistas vinham levantar dinheiro na América! De
negociantes como Arnold. No final das contas, todos precisavam de



dinheiro, até mesmo idealistas como seu irmão pioneiro. E vinham
obtê-lo com capitalistas sujos como ele próprio! Virou-se para
dormir com esse pensamento na cabeça.


Naomi ficou acordada durante a maior parte da noite, desejando
não ter de revê-lo nunca mais. Se o encontrasse, iria sentir-se
humilhada novamente. Abandonada. E os sonhos reiniciariam,
sonhos perturbadores que a deixavam excitada e insatisfeita.
Ainda o queria. Não conseguia perdoá-lo por isso.
E Joshua sabia que ela se casara com Arnold sem amá-lo como
amava o irmão. Não podia perdoá-lo por isso também.


Capítulo 4

Era uma noite amena, e a platéia ansiosa estava lá presente em peso,
quando Joshua e Lazar chegaram a Rivington Street, vindos do cais.
Joshua parou para conversar com dezenas de conhecidos,
apresentando o amigo, e, rapidamente, espalhou-se a notícia de que

o filho dos Fursten estava de volta com um palestino louro que não
se parecia com um judeu, que falava diversas línguas e conhecia
Jerusalém e o sagrado muro ocidental do templo.
— É como uma expedição real — disse Lazar em hebreu. — Não
sabia que você era tão popular.
— Não era quando parti. Talvez eles pensem que abandonei o
sionismo. E é melhor você falar inglês.
Lazar assentiu com a cabeça e seguiu Joshua pelos dois lances de
escada até o apartamento dos Fursten, em cima da lojinha de doces
que era o seu sustento. Leonard e Manya aguardavam na porta,
parecendo muito mais velhos do que Joshua se recordava, dando-
lhe uma impressão de fraqueza fragilidade, quando os abraçou.

Lazar ficou silencioso, não querendo imiscuir-se no reen contro, mas
havia uma mulher na sala atrás deles e, quando seus olhos
encontraram os de Sarah, não se contentou sim plesmente em fitá-la.
Sabia quem ela era e estava impaciente por falar-lhe.
Lazar a encarava de um jeito que fazia Sarah querer ar rumar o
cabelo, alisar o vestido. Mas, quando Lazar sorriu lhe, soube que
aparência tinha para ele.
Lazar era alto e muito bronzeado, tal como seu irmão mas os olhos
eram de um azul luminoso, e o cabelo desco rado pelo sol tinha um
tom avermelhado.
Então Joshua aproximou-se para abraçá-la, e ela riu d felicidade.

— Você está tão queimado e forte! Seus ombros estão no mínimo
um metro mais largos. Está maravilhoso!
— Espere um minuto, furacão. Deixe-me olhar para você. Mudou
mesmo. Não é de espantar que seja uma vende dora irresistível.
Ainda gosta disso?
— Adoro. E vou ficar podre de rica. Mas não se preo cupe comigo.
Fale-me de você. — Olhou para Lazar, parado junto dos pais.
— Este é Lazar Kramer — apresentou Joshua. — O amigo a respeito
de quem lhe escrevi. E esta é minha irmãzinha Sarah.
— Você me falou dela também, mas a descrição não faz jus à
realidade.
Ele tinha um sotaque musical, difícil de identificar. A voz não era
tão profunda quanto a de Joshua, mas ambos pareciam ter mais ou
menos a mesma idade, vinte e sete anos.
— Ele lembra o Rei Salomão — disse Sarah, sem pensar.
— O Rei David tinha cabelo ruivo — observou Joshua.
— Bem, seja lá quem for, seja bem-vindo à América. — Sarah
apertou a mão de Lazar. — Vamos sentar. Podem deixar as valises
aí. Tomara que estejam com fome, porque há um banquete lá
dentro, e esperamos que devorem tudo.
Foram para a sala de jantar, os móveis encerados reluzindo. As
especialidades de Manya Fursten estavam dispostas sobre a toalha

branca engomada: sopa de repolho temperada com açúcar e suco de
limão, galinha e bolinhos de massa fritos, pimentões fervidos com
cogumelos e cebolas, uma fôrma de pão branco recém-saído do
forno, um pão-de-ló feito em casa. Abriram o vinho que Sarah havia
trazido e deliciaram-se com a refeição, trocando notícias, ouvindo os
dois jovens falarem sobre a viagem que faziam para levantar
fundos.

— Ouvimos coisas terríveis sobre a Terra Santa — contou Leonard
ao filho. — Por que há tanta confusão por lá?
Lazar respondeu-lhe:

— Os britânicos fizeram as mesmas promessas a ambos os lados:
proteger o nacionalismo árabe e estabelecer uma pátria para os
judeus. Isso significa que os judeus tiveram permissão para comprar
terra, principalmente terra que os ricos proprietários ausentes não
queriam, terra que simplesmente estava lá abandonada, sem
cultivo. Mas os árabes não querem mais nenhuma imigração judia;
desejam um sistema "democrático" de governo na Palestina, ao
invés do domínio absoluto da Grã-Bretanha sob o Mandato. —
Lazar encolheu os ombros. — O problema é que, para os árabes, um
sistema democrático significa nenhum judeu no governo, e nada
mais de imigração. Não podemos aceitar tal coisa.
— Haverá mais problemas? — indagou Sarah, os olhos escuros
ansiosos.
Joshua concordou com a cabeça.


— O Grande Mufti, como ele se chama, é um fanático anti-semita
até a medula. Não tem paciência com soluções legais. Prefere
instigar os camponeses com histórias de horror sobre planos judeus
para profanar seus lugares sagrados. Acha que, se deixá-los
bastante exaltados, vão massacrar cada judeu na Palestina e isto
porá um fim ao caso.
Manya murmurou algo em iídiche.


— Sim — Lazar concordou com ela em seu inglês com leve sotaque.
É muito semelhante à Rússia, mas há uma diferença fundamental.
Os judeus na Palestina vão se defender, e estamos aqui para
garantir que tenham os meios de consegui-lo.
Leonard estava perplexo.
— Então isto é o sionismo? Impedir aquela gente matar os judeus?
Quem pode ser contra isso?
Joshua segurou a mão do pai.
— Digamos que isso é o sionismo para nós, papai. Isso
e a reconstrução do Estado de Israel. |
— Os hasidim e os ortodoxos dizem que não pode haver
um novo Estado de Israel até a vinda do Messias — contrapôs
Manya.
— Estão errados — afirmou Lazar em tom categórico pegando
outra fatia de pão.
— E a nossa Lei? — insistiu Manya.
Joshua e Sarah queriam ouvir o que Lazar responderia Tinham
ocorrido muitas discussões acaloradas nesta mesma mesa sobre o
modo como os sionistas contrariavam a Lei Judaica — antes de
Joshua desafiar os pais e ir para a Palestina. Depois sentiram
saudades do filho e o queriam de volta, não importava em que
acreditasse.
Lazar não parecia consciente de qualquer tensão.


— A Lei estará lá para que todo judeu a obedeça como julgar mais
conveniente, assim como vocês a seguem de forma diferente dos
hasidim. A única razão pela qual os judeus foram perseguidos é que
não possuem uma pátria. E não têm um país porque estavam
amedrontados demais para construir um.
— Você não parece assustado — disse Sarah, observando a mão
bronzeada e forte sobre a toalha branca. Quando menino, fiquei
assustado o bastante po uma vida inteira. Nunca mais tornarei a

sentir medo — asse gurou Lazar, fitando cada um deles, os olhos
parando em Sarah.
Todos permaneceram quietos por um momento e, ao fim do jantar,
Lazar foi responder a mais algumas perguntas de Leonard na sala
de estar, enquanto Sarah e Joshua continuavam conversando na
mesa.
Manya sorriu.


— Fiquem conversando, crianças, exatamente como quando eram
pequenos. — E foi ocupar-se na cozinha.
Irmão e irmã trocaram-se as mãos rapidamente outra vez.
-Você está bem? — Sarah indagou com gentileza.
Ele respirou fundo.
A carta que você mandou, aquela comprida sobre o
aborto, foi a primeira que recebi. As outras se perderam. Não sabia
até então que os dois estavam casados. E não tinha a menor idéia de
que você sabia como me sentia.
—Esperei tempo demais para lhe contar como estavam as coisas.
Lamento ter sido um choque tão grande. Ela está grávida de novo.
Joshua olhou para a irmã por uns instantes, depois para longe.


— Estou contente por ela, pelos dois. Espero que ela seja feliz.
— E você?
— Estou fazendo o que desejo. Isso é tudo o que um homem pode
pedir da vida. E você?
— Exceto quanto a ir para lá com você, sim. Estamos enriquecendo
mais e mais a cada minuto, e o dinheiro me assenta bem.
— Eu diria que sim. É indecente para uma garota de dezenove anos
possuir uma aparência como a sua.
Sarah riu.
— Tomara que seu amigo Rei David ache o mesmo.
— Tenho certeza que sim. Porém ele tem uma queda pelas
mulheres, então não acredite em uma só palavra do que disser.

Intimamente, Sarah estava resolvida a acreditar em cada sílaba que

o homem louro na sala ao lado pronunciasse, mas apenas sugeriu
que se juntassem a Lazar e seu pai.
— Daqui a um minuto. Há algo que preciso saber. — Novamente os
olhos de Joshua não encontraram os da irmã. — Se você percebeu o
que houve entre mim e Naomi, Arnold também descobriu?
Sarah estava contente por Joshua não estar olhando para ela, caso
contrário não conseguiria mentir. Não era uma mentira; de fato
Arnold nunca tinha dito uma palavra para justificar sua intuição,
mas ela conhecia os irmãos bem demais Para se enganar.
— Não, não descobriu. Os dois são felizes juntos, e ele a adora. E
agora, com os negócios se expandindo e um bebe a caminho...
— Graças a Deus por isso. Arnold e eu temos nossa diferenças, mas
preocupo-me com ele. Não poderia encará-lo se ele soubesse. —
Virou-se para Sarah. — Simplesmente não pude evitar, Shai.
Nenhum de nós pôde.
— Eu sei. Algumas coisas apenas acontecem. Alguma coisas apenas
são. — Não contou que sempre haveria na mente de Arnold uma
suspeita que ele não conseguiria enfrentar. . ou que acabara de
ocorrer entre ela mesma e Lazar Kramer algo que também não
podia ser evitado. Estava pronta para ir aonde quer que o
sentimento a levasse. Esperava que fosse direto para seus braços.
— Não há ninguém em casa, além de nós — Lazar avisou a Sarah
no final do dia seguinte. Estava sentado no sofá com Maresh
Skowalski, um homem tão alto e louro quanto Lazar, porém duas
vezes mais musculoso. — Nós dois nascemos em Varsóvia, e
estamos relembrando o passado.
Maresh levantou-se, sorrindo. Concentrava toda a atenção em suas
maneiras. Lazar, notou Sarah, comportava-se exatamente do mesmo
jeito tanto com as mulheres quanto com os homens. Os palestinos
ligavam muito pouco para a etiqueta social. Mas, com ou sem
etiqueta, uma mulher ficava muito consciente da própria
feminilidade na presença dele.

— Ainda não tive chance de conversar com Josh — falou Maresh. —
Mas Lazar esteve me contando tudo sobre a Palestina.

— Maresh tem muito em comum com os sionistas, para um católico
— comentou Lazar.
— Escute, durante anos a Polônia tem sido empurrada da Rússia
para a Alemanha e vice-versa — replicou Maresh. — Qualquer um
que deseje ver o seu país unido em um único lugar — bateu com o
polegar no peito — pode contar com a minha amizade.
— Por favor, não leve Maresh para a Palestina — falou Sarah. — Ele
foi o melhor aluno de Joshua e tem um grande futuro na América.
— Decidiu aguardar uma hora melhor para contar a Maresh que o
queria para trabalhar na Duquesa. Se ele fosse embora agora, ficaria
a sós com Lazar. Maresh sorriu, constrangido com o elogio.
— Se não fosse por Josh e sua mãe, eu não teria nada. Mas preciso ir
andando. Anna vai se zangar se eu me atrasar. — Apertou a mão de
Lazar. — Tornarei a vê-lo antes que parta. — Para Sarah, disse: —
Agradeça à sua mãe pelo cobertor do bebê, sim?
— Decerto que agradeço — prometeu Sarah. Virou-se para Lazar
quando a porta se fechou atrás de Maresh. — A esposa dele tem a
metade do seu tamanho e fala sempre sussurrando, mas Maresh a
adora.
Pousou a maleta e tirou o casaco largo e comprido até os quadris. O
vestido sem mangas debaixo dele era da mesma seda vermelha
escura, simples e reto, mas lhe moldava o corpo, e Sarah sentiu-se
satisfeita por havê-lo escolhido. O rosto estava afogueado pela
incrível excitação provocada pelo fato de estar sozinha com ele.
Lazar estava sentado no sofá, tendo perto de si um maço de papéis
sobre uma mesinha e, no colo, o que Sarah reconheceu como o
álbum de fotografias da família. Havia escolhido a peça de mobília
mais larga de todas na sala, mas que ainda era pequena demais para
ele. Os paninhos de crochê da mãe, espalhados em desordem nas
costas do sofá, lembravam a Sarah teias de aranha tentando agarrar
Golias. As paredes pareciam aprisionadoras, o teto mais baixo.

— Aonde foi todo o mundo? — ela conseguiu perguntar.
— Seus pais desejavam ficar um pouco a sós com Joshua. E também
queriam ir à sinagoga. — Sorriu. — Não entro em uma sinagoga
desde os treze anos. Não saberia como me comportar.
— Não creio que Josh também estivesse muito ansioso em ir, mas
foi para agradá-los.
— De qualquer modo, estamos convertendo seu pai à causa
sionista. E precisamos de toda a colaboração que possamos obter.
Ela sentou-se na bergère puída do pai, em frente ao sofá.
— O que descobriu na sede do Fundo? Lazar fez um gesto,
indicando a pilha de papéis.
— Tudo isto. Cada maldita página é uma cidade, com nomes de
possíveis contribuintes e uma estimativa das contribuições.
Precisamos fazer com que ajudem. — A expressão de seu rosto
mudou.
— Você odeia arrecadar fundos, não é?
— Sim, odeio. Detesto ter de persuadir judeus de que não é crime
querer formar nossa própria pátria, que um povo sem país não tem
quaisquer direitos e que doar dinheiro para construir nosso Estado
não constitui traição para o deles. Os ombros moviam-se inquietos.
— E não me sinto muito bem em recintos fechados, estou
acostumado ao deserto e às colinas.
— Gostaria de poder ir lá — disse Sarah. Queria ir aonde quer que
ele fosse.
Lazar a fitava, as pernas longas e graciosas cobertas com diáfanas
meias de seda, o vestido e os sapatos obviamente da última moda, o
cabelo escuro cortado curto. E podia ver o corpo cheio e forte de
calças compridas e camisas de trabalho, com aquele sorriso que
aquecia a alma de um homem, aqueles olhos escuros que o
excitavam, a boca generosa que quis beijar desde que a viu pela
primeira vez. Imaginava seu corpo nu. Mas era um desejo
desesperançado — ela era irmã de Joshua e pertencia a este lugar.

— Vai demorar um pouco até que eu volte — explicou Lazar. —
Josh e eu temos de ir a lugares de que nunca ouvimos falar.

— Qual é a primeira parada? — indagou Sarah. Por que precisavam
ir tão depressa? Queria ficar mais tempo com ele.
Lazar olhou para a pilha de papéis.
— Baltimore — respondeu, acentuando a segunda sílaba. O rosto de
Sarah se iluminou.
— Também preciso ir até lá! Talvez possamos pegar o mesmo trem.
Estou fazendo uma viagem de vendas.
— Eu sei, Josh contou-me sobre os negócios. Parece que você e seu
irmão transformaram tudo em um enorme sucesso.
Sarah apoiou a cabeça nas costas da cadeira.
— Ainda não. Temos muito trabalho pela frente. Mas estamos a
caminho. Sabe, não é difícil vender o produto, ele quase se vende
sozinho. Nosso problema é a quantidade de capital que precisamos
empatar no estoque, a fim de garantir que poderemos atender aos
pedidos. Arnold odeia pedir dinheiro emprestado, mas todo o
mundo no ramo faz isso. Tornou a erguer a cabeça, o rosto
entusiasmado.
—Fui ver a nova fábrica. É realmente magnífica!
-Sei como é construir algo e querer vê-lo terminado.
-É melhor construir um país do que urna fábrica de cosméticos —
ponderou Sarah.


— Não há nada de errado com as fábricas. Podíamos, montar
algumas na Palestina. Precisamos modernizar o país, se algum dia
desejarmos torná-lo independente. E os árabes não o querem
modernizado. Receiam que os camponeses fiquem com idéias.
Sarah ouvia de longe. Queria sentar-se perto de Lazar. Queria tocálo.
Joshua escrevera muito a seu respeito, de onde vinha, como fora
criado, o tipo de homem que era. Um poeta que construía estradas,
contrabandeava judeus para a Palestina em desafio às cotas
britânicas, e era incansável na arrecadação de fundos dos judeus
espalhados pela Europa.

Lazar era o primeiro verdadeiro amigo de Joshua. Ela devia ter
previsto que Josh escolheria um homem desses.

— Que tal um pouco de café? — Sarah lhe perguntou. Não podia
sentar-se tão perto dele sem tocá-lo.
— Café é ótimo. Posso ajudar?
— Há sempre uma cafeteira no fogão. Volto logo. — Tinha de
afastar-se dele por um momento, tão elétrico era o sentimento entre
os dois, até mesmo quando falavam de coisas que significavam
tanto para ambos. O instinto lhe dizia que a natureza de Lazar era
mais voluptuosa do que a do irmão. Podia jurar que Joshua
finalmente havia encontrado uma mulher; tinha certeza de que
Lazar Kramer tivera muitas. Era estranho estar tão certa sobre um
homem que acabava de conhecer. Mas ela o conhecia. De alguma
forma, Sarah o conhecia.
Retornou com o café em uma pequena bandeja e sentou-se junto de
Lazar no sofá.
Quem lhe mostrou os arquivos da família? — indagou, apontando
para o álbum ainda em seu colo.
— Josh. Ele me contou, tantas coisas sobre todos vocês. Senti
necessidade de verificar pessoalmente como vocês eram quando
estavam crescendo. — Virou algumas páginas até chegar a um
retrato de Arnold e Naomi no dia do casamento. — Um casal
simpático. Mas Arnold não se parece com vocês dois. Lembra mais
o tio-avô Abraham. Ela é muito bonita — comentou, olhando para
Sarah. — Muito bonita.
Sarah mal conseguia falar, quando ele a fitava daquele jeito.
— Ninguém jamais demonstrou antes tanto interesse por nosso
álbum de fotografias.
— Nunca tive um. . . nem uma família. Não assim. Não percebi o
quanto me fazia falta ter uma. — Lazar parecia perturbado com essa
descoberta sobre os próprios sentimentos.

Ela não conseguia suportar sua solidão. Inclinou-se para a frente e
tocou-lhe o rosto, o seu expressando suavidade e um imenso
carinho. Quando ele a beijou, Sarah fez um pequeno som de prazer
ávido, ardente, o desejo envolvendo-a como um banho quente.
Lazar virou-lhe o corpo, de modo que ficasse atravessado em seu
peito, a cabeça repousando no braço. A mão buscou o seio de Sarah
tão naturalmente quanto a boca procurou a dela, mas ele recuou.

— Oh, por favor — ela sussurrou —, não pare.
— Você é a irmã de Joshua, Sarah. Não passa de uma menina. Não
posso.
— Não pode o quê? Tratar-me como uma mulher? Oh, sim, você
pode, você deve. Quero que o faça. — Lazar tornou a inclinar-se
sobre ela. — Não me importo se eu não devia dizer isso. Amo você.
Amo desde que nasci.
Ele a apertou mais contra si, enquanto replicava:
— Não, Sarah, isto não é possível, o amor não acontece assim.
— Não mesmo?
Ela o beijou de novo, devagar e docemente, com uma habilidade
instintiva, mais irresistível do que se a tivesse adquirido beijando
homens na maior parte de sua vida. O inocente erotismo daquilo o
dominou. Sarah puxou-lhe a mão para o seio e teve a impressão de
que estava desmaiando ao sentir-lhe o toque em seu corpo.
Lazar, é isto, mas é também muito mais do que isto. Quero ser parte
de você, parte de seu sonho. Quero ajudá-lo, compartilhar o que
tem de fazer. Sempre quis. Oh, deixe, deixe. Sabe que é o que deseja
também. Você soube desde o primeiro minuto. Não é verdade que o
amor não pode ocorrer assim.
As mãos de Sarah seguraram-lhe o rosto, os olhos prenderam os
dele, em um apelo silencioso, uma doação total que mexeu com as
emoções de Lazar, bem como lhe despertou os sentidos.
Ânsias há muito enterradas o invadiram, ecos da criança órfã
fundindo-se às exigências do macho sensual e os anseios de um
pioneiro para que Eretz Israel era a única religião.

Em um dócil ardor que se assemelhava à embriaguez, soube que
Sarah era seu sonho de Israel encarnado, a pele sendo as macias
areias douradas do Hertzria; sua paixão, o sol tórrido da Judéia; seu
amor, o cálido fulgor de Jerusalém. E soube de imediato que queria
possuir essa jovem não só com a luxúria do sexo, mas também com

o mesmo desejo que tinha de ver sua pátria renascida, como se ela
fosse sua terra natal, como se ela e sua pátria fossem uma coisa só.
Ao enlaçá-la, ao beijar-lhe a pele macia, a boca adorável, percebeu
que não a possuiria sem desposá-la. E percebeu que precisava tê-la
— e a Israel também. Sem os dois, sentia-se vazio. E queria a ambos
pelo resto da vida, por lei e por direito.
-Ainda não consigo acreditar que ela está fazendo isso — falou
Arnold quando a limusine alugada dobrava a esquina da rua onde o
casamento seria celebrado. — Ela conheceu o rapaz há apenas um
mês.
— Cinco semanas — especificou Naomi. — É todo o tempo
necessário. . . para Sarah. E a coisa já está feita. A cerimônia religiosa
é só para agradar aos pais. — Estava nervosa, mas este era o
casamento de Sarah. Ninguém notaria Naomi.
— Como pode se casar com um homem que a deixará trabalhar? —
prosseguiu Arnold, furioso. — Mesmo que eu não queira perder
minha sócia! O sujeito nem tem um emprego que signifique alguma
coisa. Para que diabo serve um arrecadador de fundos?


— Sarah diz que ele também é escritor.
— Que não é bom o bastante para sustentar uma esposa. Ela é que
irá sustentá-lo!
-Espero que você não tenha lhe dito isto.


— Pois disse, uma vez. E ela quase me matou — admitiu Arnold,
com um breve sorriso. — Sarah tem um gênio terrível!
— O carro estacionou. — Espere um minuto. Vou dar a volta e
ajudá-la a descer.

Naomi ficou lá sentada, sentindo-se como uma pequena baleia.
Agora estava quase no sexto mês de gestação e feliz porque a
barriga já aparecia realmente. Uma mulher grávida devia ficar
exultante e orgulhosa por mostrar ao mundo que era amada. Estava
prestes a rever Joshua — e contente por ele não ter permanecido em
Nova York tempo suficiente para encontrá-los quando voltou para
casa da primeira vez. Sentia muita curiosidade com relação a Lazar
Kramer, o homem que Sarah havia desposado há duas semanas em
uma cerimônia civil, enquanto viajava com ele e o irmão.
"Todos nós somos vendedores", Sarah dissera alegremente ao
telefone, quando ligara para dar a notícia. "Só que os dois vendem
Israel e eu vendo Aurora e Duquesa." Parecia feliz — mas Sarah
sempre parecia feliz. Para Naomi, havia nela outra coisa mais, algo
mais profundo, mais sereno. Sarah parecia gloriosa, completa e
absolutamente segura do que queria. Naomi nunca se sentira assim.
Arnold ajudou-a a sair do carro. Era um ensolarado dia de maio e, a
despeito do corpo avantajado, Naomi tinha uma aparência cheia de
viço e elegância no vestido largo de fina lã azul-marinho e no casaco
com gola e punhos de fustão branco. O chapeuzinho trazia uma aba
branca virada em um dos lados. As luvas brancas eram imaculadas.
A longa fileira de pérolas cremosas que usava era o último presente
do marido.

Arnold a conduziu pela entrada lateral do prédio. Um cartaz vulgar
e escrito a mio dizia: Restaurante Moskowitz: — Casamentos — Bar
Mitzvahs.

— E que lugar para um casamento! A mulher tem tanto dinheiro
quanto eu! — esbravejou Arnold. — Por que não em uma parte
melhor da cidade?
— Você sabe como Sarah se sente sobre as pessoas com as quais
cresceu.
— Também sei como eles se sentem sobre ela — concedeu Arnold,
deixando Naomi descansar no meio do curto lance de escadas. —
Aquele Maresh Skowalski está fazendo um excelente trabalho na

Filadélfia. Quem ia imaginar que um açougueiro polonês pudesse
dirigir uma operação de armazenagem desse modo?

— Contou a Sarah?
— Contei. Tenho de lhe contar tudo, até mesmo quando está certa.
— Arnold riu. — Aqui estamos. Vá ver Sarah, mas não se canse. —
Beijou-a e desceu as escadas, a fim de juntar-se aos convidados na
entrada dianteira.
Sarah precipitou-se para beijar a cunhada, assim que Naomi abriu a
porta da sala de vestir da noiva.
— Oi, coisinha linda! Você lembra um anúncio de moda, até mesmo
com a barriga. E as pérolas são magníficas! Agora sente-se aqui.
Preparei um lugar para você logo aqui nos fundos, de modo que
não precisará dar um passo.
— Você nunca esteve tão bonita — afirmou Naomi, admirando a
figura alta de Sarah no vestido de seda branca de corte simples,
curto na frente, comprido atrás e com um drapeado no decote das
costas. A tez rosada e o cabelo preto luzidio criavam um contraste
notável com o barrete branco e o véu que acabara de colocar.
— Nunca estive tão feliz na vida — falou Sarah, de repente muito
calma. — Talvez seja este o motivo.
Houve uma batida na porta, e o homenzinho de fraque e calça
listrada apareceu rapidamente, para perguntar se a noiva estaria
pronta em cinco minutos.
Sarah concordou com a cabeça e riu quando ele tornou a sumir.
— Ele parece tão pouco à vontade. Mas a noiva está pronta desde
que conheceu o noivo. Naomi, ele é lindo, o homem mais bonito que
já vi, até mesmo quando está vestido que nem uma cama
desarrumada. Bem, eu me sinto como uma cama desarrumada —
exultou. Naomi enrubesceu. — Você está chocada, não é?
— Estou aprendendo a não ficar chocada com nada do que diz ou
faz.
Sarah ajeitou o véu diante do espelho.

— Bem, não acho que seja chocante sentir uma paixão insaciável
pelo marido. E é óbvio que você também não.
Naomi estava feliz pelo fato de o homenzinho de fraque apertado
reaparecer, desta vez com a mãe de Sarah para levar a noiva pela
passagem central, e Leah para supervisionar, como sempre. Manya
estava calada e afetuosa, acariciando suavemente o rosto de Naomi.
Leah beijou a filha.
— Parece que foi ontem que foi você a casar — sussurrou para
Naomi. — Está passando bem?
— Estou ótima, mamãe, não se preocupe. Vou sair agora para
acompanhar a cerimônia. — Abraçou Sarah, e uma sorriu para a
outra. Depois Naomi deixou o quarto e sentou-se na última cadeira
da última fila. Seus olhos subiram lentos pelas filas de vizinhos e
amigos de Sarah, velhos e jovens, a gente barulhenta de Rivington
Street. Eles podiam ter sido transplantados diretamente de Tel Aviv
sem que ninguém notasse, Lazar havia assegurado a Sarah.
Então Naomi o viu. A sala era pequena, e tinha a impressão de que
Joshua estava muito perto dela. Parecia diferente. Mais forte, mais
encorpado, mais resistente — porém tão irresistível quanto em suas
recordações, tão familiar quanto nos sonhos que tinha com ele.
Estava segurando um canto do baldaquim nupcial, de pé junto a
Arnold, e não existia a menor semelhança entre os sentimentos de
Naomi para com cada um deles.
Inútil, era inútil fingir que não o amava, como jamais seria capaz de
amar Arnold, que o elo existente entre os dois não duraria pelo
resto de suas vidas, um sentimento que os unia por um fio rígido,
tão forte quanto o aço, um sentimento proibido, impraticável,
impossível, mas presente.
Ele a viu, e o sorriso em seus olhos sumiu, antes que os desviasse.
Naomi sentia vergonha do corpo volumoso. Não queria que Joshua
a visse assim, gorda, redonda e caseira. Queria estar bela para ele,
sedutora e desejável. Queria que Joshua a quisesse, mesmo se nunca
pudesse tê-la.


Uma "paixão insaciável", como Sarah definira. Mas Sarah podia
satisfazer a paixão. Sarah podia admiti-la.
Arnold nunca saberia. Os olhos de Naomi baixaram para as mãos,
agora repousando no ventre intumescido que abrigava o filho de
Arnold. As pérolas que lhe dera também descansavam lá, cremosas
e brilhantes. Havia muitas pérolas, ela não sabia quantas — mas
certamente não uma para cada vez que aceitara as invasões de
Arnold em seu corpo, quando era Joshua que desejava. Imaginava
se haveria pérolas suficientes no mundo para preencher o vazio que
sentia, a despeito da criança dentro de si.
Mas Arnold não precisava saber. Isso arruinaria a vida dos dois,
caso descobrisse. Sempre houve tensão bastante entre os irmãos
sobre tudo o que importava na vida. Naomi julgava saber o que
importava agora. Ergueu a cabeça, as faces úmidas, e viu Sarah
casar-se com Lazar Kramer através de um véu de lágrimas
silenciosas e vãs.
Estaria tudo bem se Arnold a visse chorando agora. Mulheres
casadas sempre choravam nos casamentos, e ninguém jamais
perguntava o motivo.

Capítulo 5

NOVA YORK — agosto de 1929

— Creio que isto merece um brinde, no mínimo — disse Sarah,
sentada no braço de uma poltrona azul e reclinada contra Lazar. —
Talvez até cheguemos a obter um lucro de meio milhão de dólares
em nosso primeiro ano. Depois podemos dar uma festa.

Olhou para os dois irmãos e Naomi, em busca de confirmação. Suas
prolongadas viagens desde o retorno de Joshua em abril deram
frutos surpreendentes: as vendas dos produtos Duquesa, apoiadas
pela linha mais barata, a Aurora, tinham ultrapassado todas as
previsões de Arnold. Se calculassem o lucro bruto das vendas com
base nos últimos cinco meses, era bem possível que atingissem a
marca mágica do meio milhão de dólares, tendo ainda sete
lucrativos meses pela frente. Porém, Arnold não estava satisfeito.

— A Arden lucrará quatro milhões com a divisão de vendas por
atacado este ano. Não há razão para celebrarmos até que
consigamos superar isso.
— Não estamos no mercado tanto tempo quanto a Arden — Naomi
o lembrou. — Espere, até o próximo ano.
Serviu café de uma bandeja diante dela. Estava se sentindo
desconfortavelmente gorda. Arnold não aceitara jantar, fora com
Sarah, Lazar e Joshua, de volta de uma viagem que combinou as
vendas de Sarah com a arrecadação de fundos dos dois homens.
Tudo que podia permitir era receber os três para um café.
— Gostaria que o Fundo estivesse tão perto do meio milhão de
dólares quanto vocês parecem estar — observou Lazar, segurando a
mão da esposa. Eles viajavam juntos o tempo inteiro, mas Naomi
notou que sempre se tocavam quando estavam no mesmo aposento.
Arnold balançou a cabeça.
— Se a Arden dobrou os lucros nos últimos cinco anos, devemos
triplicar, do jeito como este país está crescendo. Mas agora há
rumores de que vão tornar ilegais as gratificações. Por um preço, as
vendedoras promoveriam outro produto, ao invés daquele que
foram contratadas para vender.
Joshua inclinou-se para a frente.
— Se cumpríssemos todas as leis que os britânicos criam, não
teríamos uma única arma na Palestina e muito menos judeus para
dispará-las.
Lazar concordou...

— Pague a elas gratificações maiores do que as das linhas
estabelecidas. Não vão recusar o dinheiro simplesmente porque é
ilegal.
Os olhos de Arnold foram do irmão para Lazar com uma expressão
de tamanho assombro que Sarah riu.

— Sim, Arnold, eles são tão perversos quanto você. Joshua
confirmou isso.
— Contrabando de armas e cosméticos são atividades implacáveis.
A gente faz o que deve fazer.
— Fazemos o que todos fazem para sobreviver — acrescentou
Lazar. — Só que melhor.
Arnold sentiu o primeiro lampejo de afinidade com estes homens.
Sempre supôs que eles desprezassem seu trabalho. Joshua sempre o
chamou de materialista — e Arnold presumia que isso fosse uma
crítica, que Joshua considerava as próprias idéias superiores demais
às de Arnold para admitir qualquer similaridade entre seus
métodos e objetivos.
Contudo, estavam sendo úteis, aconselhando-o a pôr em prática as
idéias dos dois em um ramo totalmente diferente. Estavam certos —
ele simplesmente pagaria maiores gratificações do que os outros,
apesar do que estabelecia a lei. Os lucros eram mais do que
suficientes para cobrir as despesas. Às vezes, os potes custavam
mais do que os ingredientes em si! O creme Duquesa, que valia
cinco centavos, era revendido ao consumidor por dois dólares e
cinqüenta centavos. Ninguém conhecia o conteúdo do produto ou
questionava os resultados prometidos pelo fabricante.
"É o mistério que cativa as mulheres", Sarah explicava aos clientes e
às vendedoras que treinava. "Nomes como Rosa Orvalhada e Flor
de Laranja, ao invés de claro, escuro e médio, venderão batons por
vocês. E não se esqueçam de que são coordenados de modo a
acompanhar as últimas novidades da moda", encerrava em tom

triunfal, recorrendo a outra página do engenhoso livro de truques
da Arden.
"Este creme", dizia Sarah às mulheres ansiosas, reunidas em torno
de um balcão, durante uma demonstração de vendas, "evitará
rugas, se as moças começarem a usá-lo desde já. E vão tirar as linhas
das peles amadurecidas." Sarah nunca usava a palavra envelhecidas.
"Olhando para mim, achariam que tenho quase trinta anos?" Era
impossível dizer a idade de Sarah, desde o dia em que atingiu a
puberdade. Sempre seria. Ao contemplarem a mulher alta e de seios
fartos com uma cútis maravilhosamente rosada, os fregueses
juravam que ela não parecia ter mais de dezoito anos — e
compravam.
Os varejistas ouviam, aplicavam as mesmas técnicas e vendiam com
surpreendente facilidade. Depois renovavam os pedidos em
quantidades cada vez maiores e a preços por atacado mais baixos
do que os da Arden. Além disso, a Duquesa vendia onde a Arden
não o fazia: fora da Quinta Avenida e em locais onde os judeus
tinham acesso, aqueles grandes hotéis de veraneio que a Srta. Arden
evitava. Mas ainda assim a Duquesa era uma linha de prestígio.
Drogarias, salões de beleza, pequenas e grandes lojas adquiriam a
Aurora — o mesmo produto por uma fração de preço, quer
soubessem disso ou não.
A indústria estava crescendo junto com a economia americana. À
medida que a sociedade desaprovava cada vez menos os
cosméticos, mais dinheiro as mulheres gastavam em pro-produtos
de beleza. Não havia restrições às qualidades que os fabricantes
atribuíam a seus produtos para um público crédulo e infinitamente
confiante. "Simplesmente não há limites", Arnold sempre afirmava,
"para o que uma mulher acreditará. Elas juram que notam uma
mudança na pele."
Ao ouvi-los, era incrível para Naomi que pudesse ficar lá sentada,
servindo café na sala de visitas azul e branca lindamente decorada
como se Joshua representasse para ela tão-somente o que um


cunhado devia representar. O bebê ajudou. Quanto a Joshua,
parecia completamente relaxado, mas quase não olhava para ela de
frente. E nunca para o corpo inchado.
Quando seus olhos se encontravam, os segredos clamavam dentro
dos dois. Como haviam clamado no casamento de Sarah, quando
ela postou-se entre os irmãos, pertencendo a um e querendo o
outro. Foram polidos, então um cunhado e uma cunhada trocando
gentilezas, como as pessoas educadas foram ensinadas a fazer.
Pessoas educadas eram ensinadas a ocultar seus sentimentos mais
íntimos, jamais constrangeriam os outros ou se arriscariam a
enfrentar a desaprovação alheia.
E, portanto, Naomi tinha permanecido lá entre os dois, uma parte
dela invejando o amor franco e tempestuoso de

Sarah por seu Lazar Kramer de olhos azuis, e a outra parte oculta
pelo círculo do braço do marido como a lua em eclipse.
Arnold estava proclamando que ela era sua esposa, compreendeu
Naomi. Estava orgulhoso por aquele ventre carregar o seu filho.
Ele estivera excepcionalmente loquaz naquele dia, e Joshua
excepcionalmente silencioso. Foi um alívio para Naomi concordar
com Arnold que ela estava cansada e precisavam sair do casamento
mais cedo.
Não havia razão para ficar. Tudo já fora dito no primeiro momento
em que Joshua a fitara e depois desviara os olhos.
Mas o bebê, agora quieto em seu ventre, ajudou.

— Quando vocês lançarão o perfume Duquesa? — ela indagou
agora, os olhos indo de Arnold para Sarah. — Perfume é ainda mais
romântico do que maquilagem.
Arnold estava decidido.
— Não até que seja o perfume certo, o perfume perfeito. E não até
que o mercado americano esteja pronto para pagar por um perfume
nacional o mesmo preço de um francês importado.

— A propaganda poderia convencer os consumidores a fazerem
isso — Sarah sugeriu.
— Eu sei — concordou Arnold, levantando-se da poltrona. — O
produto tem de ser perfeito, absolutamente perfeito. Se errarmos
logo na primeira jogada, deixaremos uma impressão que será difícil
mudar.
Naomi tinha a impressão de que a voz de Arnold vinha de muito
longe. A primeira pontada de dor começou na base do estômago,
depois expandiu-se para baixo, em direção às coxas e ao redor das
costas. Tentou ignorá-la, tentou evitar que o pânico tomasse conta
dela e do bebê. Se doía tanto nela, será que também doeria nele?
Pobre criança, nada deveria machucá-la, nunca. Vá embora,
ordenou à dor. Deixe-me em paz. Tentou ouvir o que Arnold dizia
com voz quase indistinta, algo sobre preços e o apelo da
sofisticação.
A voz de Joshua interrompeu Arnold.
— Naomi, você está bem?
Ela estava muito pálida, agarrando com força o braço da poltrona
forrada de brocado. Não conseguiu responder de imediato, e
Arnold aproximou-se. Naomi o encarou, visivelmente assustada.


— Acho que está acontecendo alguma coisa — sussurrou.
— Mas é cedo demais — protestou Sarah. Lazar foi até o
telefone.
— Qual é o número do médico?
— Está logo ali, perto do telefone — respondeu Arnold. — Avise
que a estou levando direto para o hospital. Venha comigo, Sarah. E
alguém chame um táxi.
Joshua pegou o interfone e falou com o porteiro.
-Quer que o acompanhemos? — perguntou a Arnold.
— Não, ligue para Leah e Martin primeiro, está bem? Talvez não
passe de um alarma falso, mas eles gostariam de saber. Encontre-me
no hospital.

Joshua e Lazar os seguiram até o elevador. Naomi estava quieta,
mas resoluta entre Sarah e Arnold.

— Estou realmente bem — assegurou a Joshua. Depois retesou o
corpo, quando outra onda de dor a dominou, e as portas do
elevador se fecharam. Seus lábios moveram-se, mas Sarah e Arnold,
que corriam para o táxi e mandavam o motorista ir o mais depressa
possível, não a ouviram.
Naomi estava conversando com o bebê. O primeiro fora um
estranho para ela, mal se tornando um fato concreto antes de perdêlo.
Mas este lhe fazia companhia há oito meses. Acordava e se
mexia, dormia e se aquietava. Costumava conversar com o bebê
quando estavam a sós, contando histórias, fazendo planos. Ficara
tão feliz quando a barriga começou a aparecer. Foi só quando
Joshua regressou que sentiu vergonha de seu corpo.
— Mas não de você — disse ao bebê, enquanto a conduziam para
uma sala branca em uma cadeira de rodas. — Neném querido, não
me refiro a você.
— Não, querida, é lógico que não — falou a enfermeira, aplicando
uma injeção com habilidade. — Agora relaxe e deixe o remédio agir.
Naomi lutou contra o efeito do sedativo.

— Não, não quero dormir. Quero lhe dizer. . . .
Ela sentiu-se desfalecer e soube, de algum modo, que, ao acordar,
não haveria mais nenhum bebê a quem dizer qualquer coisa.
Joshua e Lazar achavam-se sentados na sala de espera, ambos
nervosos e inquietos. Não estavam habituados com a sensação de
impotência.
Lazar observava o amigo com simpatia. Antes de Sarah, teria sido
incapaz de compreender. Agora conhecia o desejo intenso que
podia impregnar um homem, até mesmo quando possuía a mulher
amada. Com Sarah, nunca atingia a saciedade definitiva. Não havia
palavras sábias que pudesse dizer a Joshua nesse momento,
sabedoria nada tinha a ver com paixão. Só quem nunca tinha
experimentado a paixão julgava poder eliminá-la racionalmente.

Era de manhã cedo quando puderam deixar o hospital, após Sarah
aparecer para avisá-los de que o bebê nascera morto, e Naomi
estava adormecida. Depois, ela voltara ao consultório do médico,
para esperar com Arnold que Naomi acordasse.
Os dois homens retornaram à sala de visitas da suíte que dividiam
em um hotel residencial quando estavam em Nova York. Ficaram
em silêncio, fumando e bebendo café. Uma das melhores coisas em
Lazar, refletiu Joshua com gratidão, era que nunca conversava
quando não havia nada a dizer.
Mais ou menos às nove horas, Lazar se mexeu.

— Eu devia me comunicar com o Fundo — lembrou, indo para
o telefone. Embora a Agência Judaica fosse agora a representante
oficial de todos os judeus, sionistas e não-sionistas, que apoiavam a
formação de novas colônias judias na Palestina, estava sempre
pronta a aceitar ajuda financeira para os judeus necessitados vinda
de outras organizações.
Quando Lazar desligou o telefone, os olhos azuis chamejavam.
— O que foi? — murmurou Joshua. Já tinham recebido más notícias
suficientes da sede há uma semana, quando árabes rebeldes
massacraram judeus em Jerusalém e Hebron.
— É incrível. Depois do levante em Hebron, os britânicos, aqueles
malditos miseráveis, não fizeram absolutamente nada e não
permitiram que o Haganah interferisse para proteger nossa gente
nas outras cidades. — A boca estava lívida de tanta raiva.
— Conte tudo! — exigiu Joshua.
— Atacaram Safed.
— Meu Deus! — exclamou Joshua. — Quantos?
— Há mais de cento e trinta mortos agora. Acima de trezentos
feridos.
— Safed. — Joshua estava assombrado. — Eles vivem juntos há
décadas, vizinhos pacíficos.
Lazar sentou-se pesadamente e apoiou a cabeça nas mãos.
— Bendito Deus, o que estamos fazendo aqui?

— Mandando armas e dinheiro — lembrou-o Joshua.
— Armas que os safados não nos deixam usar para defendermos
nossa gente — vociferou Lazar. — Ao diabo com esse negócio de
arrumar dinheiro. Eu devia estar lá! — O punho socou o joelho em
um gesto de frustração.
Joshua assentiu com a cabeça, o queixo tenso. O que teria
acontecido com a brigada, com Natan, Ben e Isaac? Será que foram
assassinados no deserto, como os habitantes daquela cidadezinha
onde Ari previra exatamente esse tipo de violência há uns poucos
meses? E quanto a Giora? E Shula, Reuven, Aviva e Rachel? Estava
o kibbutz banhado de sangue, tal como as vetustas pedras de Safed?
— O que decidiram sobre nós?
— Nenhuma mudança de planos para mim. — Lazar praguejou
baixinho. — Preciso ficar. Estou causando uma grande impressão
nos judeus americanos porque sou palestino. Quanto a você, vai
para a Europa. Há mais dinheiro aqui, mas podem-se comprar
armas com mais facilidade lá.
— Al Capone consegue obter armas na América, e nós não! Existe
uma conspiração para bloquear a venda de armas aos judeus.
— Existe mesmo. Pode acreditar nisso. Mas não temos problema na
Europa. Portanto, é para lá que você vai.
— Não faz mal. Não pertenço a isto aqui. — Era impossível ficar
perto de Naomi agora. Que tipo de conforto poderia lhe trazer, por
mais que a amasse? Ela era a esposa de Arnold. Precisava aceitar
esse fato, a despeito do que podia ler em seus olhos, sempre que a
fitava.
— E acha que eu pertenço? — explodiu Lazar. — Eu me sinto como
um maldito peixe fora d'água, uma espécie de espectador passivo.
Um filho da puta me contou que impressiono mais com esse
bronzeado de pioneiro! Chegou até a se oferecer para me comprar
uma lâmpada solar. — Lazar andava de um lado para o outro,
incapaz de conter a fúria. — E onde está Sarah, droga?

Ela apareceu logo depois. Naomi estava bem, o médico lhe
garantira, mas Sarah não estava tão certa se Naomi se incomodava
com isso.

— É horrível! — ela comentou quando tomou conhecimento das
outras más notícias. — É como uma má estrela. O que está
ocorrendo na Palestina, e o bebê morrendo, tudo ao mesmo tempo.
Parece o fim do mundo.
— Bem, se for — replicou Lazar —, não ficaremos de braços
cruzados. Vamos cair lutando.
Joshua olhou para o amigo, compartilhando de sua frustração e
imensamente grato pelo seu bom senso. As pessoas é que fazem a
própria estrela, afirmava Lazar.
— "O erro, caro Brutus, está em nós mesmos, não nas estrelas" —
insistiu Lazar —, ou seja lá o que for. — Estava disposto a lutar. Este
era um modo melhor de viver, ou morrer, do que o desespero.
Ficaram silenciosos agora, imersos em ira. Joshua estava feliz por
Sarah e Lazar terem um ao outro e até mais aliviado, na solidão que
não conseguia deixar de sentir ao vê-los, pelo fato de que voltava ao
lugar a que pertencia.
Era irônico: o homem apaixonado por Israel possuía uma esposa. O
homem apaixonado pela esposa do irmão possuía Israel.
Precisava libertar-se dela, de uma vez por todas. Tinha de libertar-
se.
Capítulo 6

NOVA YORK — outubro de 1929


Sarah enfiou a mão no bolso de Lazar, quando deixavam o cais.
Tinham visto o navio de Joshua sumir no horizonte, antes de se
afastarem. Sabiam que aquela partida era um prelúdio da própria
separação. À medida que as tensões aumentavam na Palestina,
Lazar ia se rebelando mais e mais contra seu trabalho nos Estados
Unidos. Retornaria logo que possível.
Sarah suspirou.


— Quanto tempo vai demorar até juntar-se a ele? Lazar passou o
braço por seus ombros.
— Vários meses.
— Quero ir com você — ela disse, mantendo a voz calma. Lazar não
era o tipo de homem que reagia à histeria. Fazia o que precisava ser
feito e esperava que os outros agissem da mesma forma. Será que as
mulheres que ele conhecera eram todas corajosas e controladas?
Lazar estava balançando a cabeça.
— Não desta vez. Estaremos viajando a cada minuto. — Até mesmo
quem se opunha à idéia de um Estado judeu estava indignado com
os massacres de agosto. Apoiavam o direito inerente da autodefesa.
Lazar voltaria para organizar rigorosas medidas de defesa, para as
quais as armas seriam remetidas da Europa, caso Joshua obtivesse
sucesso.
— Sei disso — replicou Sarah, exasperada. — Mas por que eu iria
atrapalhar?
— Não iria. Mas não há hotel para onde ir ao fim do dia, só uma
tenda, se tivermos sorte. O Haganah é um exército clandestino, não
um grupo de caixeiros-viajantes. — Seu braço apertou-a mais
estreitamente. — Serão somente alguns meses. Precisaremos de
dinheiro.
— Bem, não vou criar confusão por causa disso. Prometi que não o
faria. — Internamente, estava resolvida a não deixá-lo ficar muito
tempo sem ela, apesar do que havia prometido. — Vou me ocupar
transformando potes de creme em potes de dinheiro e enviar tudo
para você. — Saíram do cais e cruzaram a rua. Sarah se esticou para

beijar-lhe o rosto e despentear seu cabelo. — Bem, criatura gloriosa,
vamos achar um táxi e retornar ao hotel. Quero fazer amor.
Lazar a beijou assim que entraram no táxi, ignorando o interesse do
motorista e as ruas cheias de gente lá fora.
O presságio da noite que se avizinhava estava presente, tal como o
friozinho do outono pairando no ar. Mas havia algo mais, uma
corrente que passava de um nova-iorquino a outro, quando o táxi
cruzava a Herald Square. Mulheres elegantes em chemisier,
aconchegadas em abrigos semelhantes a casulos, com meias de seda
e chapeuzinhos em forma de campânula, faziam compras
despreocupadamente entre a Macy's e a Saks da Rua 34, tão alheias
quanto Sarah e Lazar a um pânico crescente nas ruas.
O táxi rumou para o norte na Quinta Avenida, passando por Arnold
Constable e De Pinna, mas o casal no carro nem se apercebia do
espetáculo sonoro e visual da bela avenida.
Foi quando chegaram a Sherry Netherland, onde agora Sarah
insistia em se hospedar com Lazar, que ouviram jornaleiros
gritando algo sobre uma quebra. Deram apenas atenção passageira
ao que tinha ocorrido na Bolsa de Valores naquele dia.
Atravessaram o vestíbulo em direção ao elevador, e caíram nos
braços um do outro assim que Lazar trancou a porta da suíte atrás
deles.

— Faça devagar — sussurrou Sarah. — Dispa-me lentamente.
Lazar beijou-lhe o corpo enquanto o desnudava, suas mãos
movendo-se lentas ao longo das coxas, levantando-as, abrindo-as,
acariciando-as devagar. Inclinou-se para beijá-la, beijos leves,
rápidos. Ergueu-se para beijar o pescoço, os seios, os mamilos,
enquanto as mãos a acarinhavam.
— Oh, sim — disse Sarah, enlaçando Lazar. — Mas venha agora,
deixe-me sentir você dentro de mim, onde pertence. Amo tanto você
— murmurou quando o corpo dele penetrou no dela. — Amo isto,
sim. — Apertou-o com força. — Mas amo você muito mais. Gostaria
de poder virar do avesso para senti-lo ainda mais dentro de mim.

A boca se mexeu contra a dela.

— Sei disso, meu amor. — Lazar movia-se lentamente,
murmurando seu nome vezes sem conta. — Quero ficar dentro de
você, me perder em você.
O corpo de Sarah ergueu-se para encontrar o dele, as I mãos o
puxando para baixo, para aprofundar-se nela. As palavras
morreram e por alguns segundos fundiram-se um no outro. Depois
ficaram imóveis, ainda unidos.
Continuaram juntos por um longo tempo, antes que Lazar se
erguesse para deitar-se ao lado dela, aninhando-a nos braços,
puxando as cobertas para cobrir a ambos.
Após um tempo, Sarah perguntou:
— O que será de Joshua? Ele precisa tanto de alguém!
— Eu sei. — Franziu o cenho, esperando que Rachel não tivesse se
casado com Ben Horowitz. Lazar esteve certo desse casamento até a
visita de Joshua a Giora. Mas decerto Ben teria tirado vantagem da
ausência de Joshua para desposar Rachel, antes que aquela atração
evoluísse em algo mais. E havia Shula também. Uma mulher mais
velha talvez fosse melhor para Joshua, que se casaria mais por
companheirismo do que por amor. Beijou a testa de Sarah.
— Houve uma ou duas antes de partirmos. Mas algo o deteve.
— Naomi o detinha. Ele ainda a ama. . .
— E ela a Joshua — concordou. — Arnold sabe?
— Tenho certeza que sim. Mas finge não saber, para si mesmo e
para ela. — Sarah acariciou-lhe o cabelo. — Eu nunca conseguiria
fingir sobre um sentimento como esse. — Os olhos encheram-se de
lágrimas. — Foi uma desgraça que o bebê morresse também. Eles
estão tão. . . desamparados. Como dois náufragos perdidos na
mesma ilha que precisam um do outro e não conseguem se alcançar.
Não de fato. Não como nós.
— Joshua diz que os sábios consideravam um bom casamento como
um dos milagres de Deus, como a passagem pelo Mar Vermelho,
por exemplo.

— Os velhos sábios deviam saber das coisas — ela concordou. —
Apenas gostaria que Joshua encontrasse alguém, mas mesmo que
isso aconteça nunca será como Naomi para ele. Somos semelhantes
neste aspecto, Josh e eu. Há uma única pessoa no mundo inteiro,
apenas uma, capaz de nos atingir assim tão fundo, tão
intensamente.

— Isso é tolice, querida. Em um mundo cheio de homens e
mulheres... — Parou, reconsiderando. — Acho que está certa.
Quando a gente se sente assim, ninguém mais pode fazer com que
nos sintamos da mesma maneira.
Sarah cobriu o corpo de Lazar com o seu, a cabeça nos ombros dele,
a boca encostando no pescoço.
— Sim, meu amor, é a isso que me refiro. Ninguém mais consegue
nos fazer sentir desse jeito. Vamos levar uma vida estranha, Lazar,
pressinto isso. Às vezes mais afastados do que juntos. Talvez
aconteçam muitas coisas. . . — Beijou-o quando ele fez menção de
falar. — Não, não diga que é impossível. Tudo é possível. Mas, seja
lá o que for, não será exatamente assim. Dessa maneira, seremos
fiéis. É a única maneira que interessa de verdade.
Ficaram juntos, deleitando-se em silêncio um com o outro,
enquanto, no ar frio de outubro de 1929, os Estados Unidos
mergulhavam na Grande Depressão, e o navio de Joshua avançava
célere para a Palestina.
Capítulo 7

PALESTINA — novembro de 1929


A primeira parada de Joshua foi um encontro com Ari em Tel Aviv.
Depois viajaria à Europa com dinheiro suficiente para comprar
armamentos para o pequeno, mas crescente, exército clandestino —
e cada arma teria de ser contrabandeada para a Palestina e
escondida assim que chegasse lá.

— Isso se conseguir me controlar para não usar logo as armas
contra aqueles britânicos miseráveis — Ari contou a Joshua. —
Agora eles têm um novo argumento. Estão nos dizendo que
precisam reduzir a imigração porque só cinco por cento da terra é
arável e não pode sustentar mais judeus do que já temos.
— Isso é ridículo! De onde estão tirando estas estatísticas. . . dos
árabes?
— Suponho que sim. De acordo com nossos cálculos, é possível
cultivar sessenta por cento da terra. Isso se as pessoas trabalharem
nela, ao invés de treparem com as cabras, como nossos primos
árabes.
Os homens de Ari, taciturnos como sempre nesses encontros, riram.
Pelo que Joshua se lembrava, pareciam ainda mais selvagens agora
do que em Safed, há sete meses, e eram mais numerosos também.
— Que não engravidem as cabras — disse um deles. Ari continuou
dando instruções.
— Enquanto estiver na Europa, procure descobrir o que está
havendo na Alemanha. Ouvimos rumores.
— A Alemanha está em má situação — concordou Joshua. —
Quando um país está doente e arruinado, tudo pode acontecer.
— E vai acontecer. Seu próprio país está sofrendo. Se isto durar, irá
afetar o mundo inteiro. Sorte nossa que a maioria de nossa gente
possa viver de pedras e mijo de mosquito, caso contrário estaríamos
acabados. De qualquer jeito, você precisa arranjar armas baratas,
especialmente dos tche-cos, e sentir a situação política ao mesmo
tempo. — Ele examinou Joshua com olhos penetrantes. — Como foi
tudo, a volta para casa?
Joshua balançou a cabeça.

— Você inverteu as coisas. Estou em casa agora. — Recebeu os
cumprimentos apreciativos dos homens. — Onde está a antiga
brigada de Lazar?
— Um bocado espalhada por aí, agora. É impossível construir
estradas com as pessoas sendo chacinadas. Todos carregam pás nos
ombros e armas nos sacos de dormir. Agora servem mais ao
Haganah do que à brigada de trabalho.
— E Giora? Alguém se machucou?
— Lá não, mas ali por perto. Giora recebeu os feridos. Eles nos
contaram que não era uma visão muito bonita de se ver.
— Alguma objeção a que eu vá a Giora por um dia, antes da
partida?
Ari balançou a cabeça.


— Vá em frente. Eles bem que precisam de alguém para levantar o
moral. — Pousou a mão quadrada no ombro de Joshua. — Divirta-
se, mas volte a tempo de sentar a bunda aqui e encontrar seu
contato. — Estendeu a outra mão.
— Certo. — Joshua apertou-lhe a mão. Ari era um homem por
quem tinha uma tremenda admiração, quer concordasse ou não
com sua posição violentamente antibritânica. Joshua achava que os
britânicos estavam enfrentando um problema totalmente insolúvel:
por mais que fizessem, ou os árabes ou os judeus sairiam feridos.
Pegou o trem em Haifa, atravessando a Planície de Esdralão, o
coração do Vale de Emek Yizre'el, uma região rica em cereais e
agora dividida organizadamente em vilas e kibut-zim. Que opiniões
contraditórias existiam sobre esta Terra Santa! Para os britânicos, a
Palestina significava pastores e rebanhos, uma terra bíblica e bela,
mas primitiva, parte do fardo do homem branco e, desde que a Liga
das Nações aprovara o Mandato, em 1922, parte do Império. Mais
beduínos para governar com benevolência.
Para os sionistas, esta era uma terra devastada por anos de
desinteresse, terra a ser redimida com seu trabalho. Afora os que a
consideravam sua pátria religiosa, a maioria das centenas de

milhares de judeus que emigraram para cá durante a década de
vinte a via como uma herança que precisava ser reclamada através
do trabalho árduo deles próprios.
Para os judeus não-sionistas dispersados pelo mundo inteiro há
milhares de anos, a Terra Santa era um problema. Estavam
divididos entre o apoio aos companheiros judeus e a objeção a
alguns dos pontos de vista políticos e sociais dos colonos. A criação
de um Estado judeu era tida como um sonho impossível e até
perigoso, porque chamaria mais atenção para um povo já isolado,
alienado, segregado. Um povo que era "diferente". Não achavam
que um povo sem uma nação fosse uma vítima.
Para os árabes, aquele era um paraíso, mesmo em meio à pobreza
excruciante. Não conheciam outra vida além dessa, uma vida que
era familiar, metódica e imperturbável há séculos, onde cada
homem conhecia seu lugar e sentia-se bem nele, onde nada mudava.
O grande número de judeus que entrava no país constituía uma
ameaça a essa ordem, a essa existência idílica, indolente, antiquada

— e serena. Acima de tudo, os ricos efêndis árabes queriam manter
serenos os camponeses.
Joshua compreendia todos os lados do problema, mas estava
consciente de que só podia lutar por um deles. Fizera sua escolha
anos atrás.
Foi uma longa viagem, mesmo através daquela estreita faixa de
terra ao norte da Palestina, uma região descuidadamente destinada
aos judeus por meio de uma divisão arbitrária no Rio Jordão; na
margem oriental do rio ficava o Reino da Transjordânia, criado do
nada pelos britânicos, Sempre buscando um relacionamento cordial
com os árabes, enquanto aprovavam em teoria a criação de uma
pátria para os judeus.
Joshua pegou uma carona em Bet She'an, onde terminava a estrada
de ferro. No último trecho da jornada, deliciou-se com os cenários e
odores daquele início de manhã na paz do campo aberto, tão
distante do burburinho da civilização e, ainda assim, guardando a

civilização no passado e nas mentes dos colonos — uma civilização
à espera de um Estado. Não encontrou ninguém que lhe pudesse
indicar o paradeiro da brigada. Como localizar homens cujo
endereço era um marcador de quilômetros em alguma estrada
ainda por construir?
Anoitecia quando chegou em Giora. A sentinela da torre de
observação estava suficientemente nervosa para deixá-lo de pé ao
lado de fora da paliçada, sob a mira de uma arma, até Reuven
aparecer para verificar quem era o maluco que perambulava no
campo àquela hora.

— É o Rabino! — Reuven avisou ao guarda. — Um dos maníacos de
Lazar. — Agarrou a mão de Joshua. — Bem-vindo, Rabino. Chegou
tarde demais para a bênção, mas bem na hora do jantar. Ninguém o
preveniu de que um homem pode levar um tiro ao caminhar pelos
campos? — Desde os massacres no final de agosto, havia muito
menos liberdade de movimentos de uma a outra colônia. Qualquer
um que não pudesse se identificar de imediato tornava-se suspeito
para todas as sentinelas. Elas trabalhavam em turnos ininterruptos,
a fim de evitar ataques de surpresa. Depois do escurecer, pares de
homens patrulhavam a paliçada, e um piquete se posicionava nos
campos e nos pomares.
— Mas houve algum ferido aqui? — Joshua seguia o grande
homem grisalho em direção ao refeitório.
— Não, aqui não. Tivemos alguns de colônias mais afastadas. —
Reuven estacou. — Nunca nos esqueceremos disso. Rachel ouviu os
gritos, antes de vê-los. — Balançou a cabeça com tristeza. —
Cobertos de sangue, um com o braço esmigalhado, outros
arrastando um homem sem pernas. Rachel deu o primeiro alarma.
— Tornou a balançar a cabeça.
— Fizemos o possível por eles, mas o sujeito sem as pernas
morreu. Provavelmente foi melhor para ele. Ignorávamos se
seríamos os próximos. Nem mesmo sabíamos sobre Safed, pois os
árabes cortaram os fios. Só descobrimos quando Ben apareceu com

uma patrulha do Haganah. E quase disparamos neles, tal como
agora. — Reuven encolheu os ombros, conformado em relembrar o
pânico daquela noite. Depois continuou a caminhar.

— É verdade que os britânicos não tomaram nenhuma providência
depois de Hebron, que não deixaram o Haganah interferir para
evitar outro ataque contra Safed?
A grande cabeça respondeu que sim.
— Também não nos esqueceremos disso. — Reuven estava sombrio,
mas a expressão de seu rosto se modificou quando entraram no
salão. — Ei, todos vocês, vejam quem está aqui! O Rabino, de volta
da América. Quanto tempo ficará conosco? Por uma noite?
Houve uma acolhida calorosa por parte das pessoas que faziam a
refeição noturna. A longa mesa tinha lugares vazios — alguns
homens estavam de guarda lá fora. Alguém pôs um lugar para
Joshua, que disse alô a todos, procurando rostos familiares.
Viu Rachel primeiro e sorriu para ela. Era como se Rachel tivesse
amadurecido desde a sua última visita. O rosto perdera para
sempre os ares de menina, após o massacre. Ben estava sentado ao
seu lado. Ele ergueu uma das mãos para acenar a Joshua, dizendo
"mais tarde" com os lábios. A outra descansou por um momento no
ombro de Rachel.
Virando-se, Joshua localizou Shula e a loura Aviva e acenou para as
duas. Depois jantou. Outras pessoas substituiriam os guardas lá
fora, assim que o turno deles terminasse. Não sobrava tempo para
conversar agora.
Foi só depois da troca da guarda que viu o Dr. Levy.


— Isaac! — gritou, correndo a abraçar o homenzinho vigoroso.
Isaac devolveu o abraço.
— Onde está Lazar?
— Na América. E Natan?
— Com o Haganah, fingindo construir estradas. Deus, é bom vê-lo!
— Isaac sorriu.

— Quase não o reconheci com essa barba — comentou Joshua. Isaac
deixara crescer uma barba impressionante, quadrada e tão castanha
quanto o cabelo, exceto pela orla branca na raiz.
— Era para ter alguma coisa que fazer — respondeu Isaac com uma
risada. — Dizem que lembra a barba do profeta.
Sentaram-se lá fora enquanto conversavam, reunindo-se com os
amigos, exceto Ben, que estava de vigia e só teve tempo para um
aperto de mão, antes de sair rumo à paliçada. Reuven contou a
Joshua que os judeus haviam abandonado os lares há muito
estabelecidos em comunidades mistas, a fim de juntarem-se às
colônias judaicas, onde se sentiam mais seguros. O Doutor falou
sobre a nova comissão de inquérito britânica a ser enviada, após os
massacres.
— Eles vão publicar outro relatório — disse com cinismo. — E você
sabe para que servem esses papéis!
Shula e as duas mulheres mais jovens concordaram.
— Vão afirmar que os massacres foram um protesto contra a
imigração judia. Mas foi um ato político, e os camponeses não
entendem de política. Procuraram dar a impressão de ataques
religiosos. O Mufti incitou aquela gente a matar os próprios
vizinhos.
Reuven interrompeu.
— Chega de falar de morte. Conte-nos sobre Lazar na América.
Conquistou muitos corações, tal como faz aqui?
Joshua sorriu.
— Não, ele é que foi conquistado. — Parou para tornar a
comunicação mais dramática. — Lazar se casou!
A princípio, ninguém acreditou. Olhando ao redor do círculo de
amigos, ocorreu a Joshua que qualquer uma das mulheres aqui
presentes poderia ter sido uma das amantes de Lazar — e pressentia
que muito provavelmente uma delas fora Shula. Estava convencido
de que Rachel e Aviva eram virgens, e Lazar sempre evitara as
virgens.



— Como ela é? — Aviva quis saber. — É uma rica debutante
americana?
— Não — Rachel garantiu. — Lazar não escolheria alguém assim.
Shula sorriu.
— Lazar faria quase tudo pelo Yishuv. Talvez seja uma ruiva rica.
— Então, nu? — perguntou Isaac. — Fale sobre a garota. Já haverá
muitos corações partidos por aqui do jeito que a coisa está. Não
desejo que morram de curiosidade.
Joshua estava muito sério.
— Ela tem vinte anos, é muito bonita e está a caminho de ficar
muito rica, embora não ligue para o dinheiro. É uma sionista, mas
no momento é também uma vendedora, de modo que pode viajar
sempre com Lazar.
— Qual é a aparência dela? — indagou Aviva.
— Tem cabelo muito escuro e olhos quase negros. É bastante alta
para uma mulher, muito atraente. Tem uma boca sensível e ri um
bocado.
— Exceto quanto ao dinheiro e ao riso, se parece demais com você
— observou Rachel.
Ele sorriu para a jovem de cabelo escuro.
— E parece mesmo. Ela é a minha irmã Sarah.
Todos se alegraram então, dando palmadinhas nas costas de Joshua
por tê-los mantido em suspense, congratulando-o, exigindo mais
detalhes sobre o casamento relâmpago de Lazar. Joshua
condescendeu, feliz por afastar suas mentes do terror que
testemunharam. Shula e Isaac notaram que ele estava muito mais
animado, bem menos retraído do que antes.
Rachel pressentia que algo mais, além da sua personalidade, havia
mudado. Parecia-lhe que ele passara de uma fase da vida para
outra, e o examinava com um olhar penetrante, tentando descobrir
mais. Quando Ben aproximou-se, após o turno de duas horas, seus
olhos azuis captaram tudo no círculo em torno da fogueira. A

animação de Joshua, a atenção embevecida que Rachel lhe
dispensava.
Ben deteve-se por alguns minutos, antes de juntar-se ao grupo.
Joshua era seu amigo, mas teria feito qualquer coisa para conserválo
na América por mais algumas semanas. Rachel talvez estivesse
"certa" então. Ela era jovem demais para tomar uma decisão quando
a conheceu e se apaixonou por ela. Agora tinha dezoito anos, e o
motivo de sua hesitação estava lá, sentado ao seu lado.
Mas Joshua era o homem errado para Rachel. Ela merecia um tipo
de amor que não buscava outro porto e não encontrava nenhum
além do dela. Nenhuma outra garota interessara nem remotamente
a Ben Horowitz e jamais interessaria. A felicidade de Ben estava
ameaçada por um homem a quem apreciava e admirava, mas que
desejava nunca ter conhecido.
Sabia que Joshua amava outra mulher, mas nunca lhe passou pela
cabeça revelar isso a Rachel. Um homem honrado guardava os
segredos de um amigo.
Ben respirou fundo, antes de penetrar na roda de pessoas excitadas
que o fogo iluminava, gente que fez Joshua repetir para ele toda a
história do casamento.
Ben sorriu ao pensar em Lazar como marido.

— E quanto a você, alguém em perspectiva? — indagou a Joshua.
— Estarei viajando demais para me acomodar — respondeu Joshua.
Começou a contar sobre a missão na Europa. Passaria os próximos
anos indo e voltando de lá. — Algum dia talvez faça o que sempre
quis — concluiu com tristeza.
— E o que é? — perguntou Rachel.
— Simplesmente ficar na Palestina. Viver aqui.
— Há muita coisa a se fazer, antes que qualquer um de nós possa
viver aqui em paz — replicou Isaac, e os colonos concordaram em
silêncio. Os sonhos de um Estado estavam longe, no futuro. Neste
momento, o problema era a própria sobrevivência.

Quando o grupo se dispersou para a noite, Joshua foi com Ben e
Isaac para o dormitório dos homens. Parecia falta de tato ir
diretamente ao pequeno quarto de Shula, embora fosse evidente
que ela o aguardava; Shula lhe comunicara isso naquele seu jeito
que dispensava as palavras, tão típico das mulheres. Joshua estava
começando a compreender a linguagem feminina — mas Shula fora
a primeira, e ele lhe dedicava uma afeição especial. Esgueirou-se
para fora do dormitório quando os homens se aquietaram,
ignorando que o insone Ben o vira sair e continuara acordado.
Joshua passou a noite deliciando-se novamente no corpo quente e
convidativo de Shula. Dessa vez, as lembranças de Naomi não o
desviaram das sensações que o dominavam. Deixara o romance
para trás de uma vez por todas. Entre Joshua e as mulheres que
conheceria no futuro, haveria respeito, amizade, compreensão,
luxúria — às vezes tudo isso junto —, mas nunca a paixão pela
posse absoluta que se chama amor.
Quando partiu para Haifa e a Europa no dia seguinte, abraçou a
todos, esta sua nova família. Só a Rachel, esguia e morena, as
tranças negras brilhando ao sol, disse adeus sem permitir que
aquele corpo gracioso tocasse no seu. E foi em Rachel que pensou
mais e mais nos próximos meses.
Assim como ela pensava nele. Parecia a Ben que, mesmo se as
visitas de Joshua fossem esporádicas, ele estaria sempre presente
em Giora — nos pensamentos de Rachel. Ela afastou-se ainda mais
de Ben, à medida que os meses transformavam-se em um ano e
depois em mais outro, enquanto a esperança apagava-se no coração
de Ben. Então uma nova chama de esperança se reavivou: poderia
ser apenas uma atração física. Uma vez satisfeita, Rachel talvez
recuperasse o bom senso e se casasse com um homem para o qual
ela fosse mais importante do que qualquer outra coisa, até mesmo
um país. Por Rachel, Ben retornaria à Inglaterra, à família. Sua vida
seria cheia de tranqüilidade e luxo, não de perigo e privações.


Não estava preparado para o ciúme que o corroeu quando,
finalmente, Rachel e Joshua tornaram-se amantes. Achou que não
conseguiria suportar quando Rachel foi para Haifa certo dia, a fim
de ver Joshua partir, e não voltou naquela noite. Ben esperou por
ela até o amanhecer, a imaginação alimentada por profundezas
selvagens e desconhecidas, pintando cenas no céu de veludo negro
que lhe davam ganas de matar Joshua.
Altas horas da manhã, ela surgiu na estrada, alheia ao olhar
perscrutador de Ben, um leve sorriso no rosto bonito e, no andar,
um ritmo que, na mente de Ben, era diferente do modo como
caminhava antes daquela noite.
Rachel parou, ao vê-lo esperando no portão como um anjo furioso.

— Ben, há algo errado?
— O que aconteceu na noite passada é que está errado — ele
respondeu com frieza, num tom de proprietário que surpreendeu
até a si mesmo, com a sensação de que Rachel lhe pertencia, que ela
não tinha direitos senão os que Ben estivesse disposto a lhe
conceder.
Ela enrubesceu de fúria e quase lhe deu uma resposta malcriada.
Depois as mãos tocaram-lhe o ombro com gentileza.
— Não, Ben, por favor, não. Eu o amo.
Ele virou a cabeça, para esconder as lágrimas.
— E eu amo você. Se o amor fosse tudo. . . mas não é.
— Voltou-se de novo para implorar-lhe: — Rachel, Joshua nunca se
casará com você. Mesmo que o faça, nunca se fixará em um único
lugar por muito tempo. Não é o que ele quer.
Rachel balançou a cabeça.
— Eu nem estava pensando em casamento. Pensava apenas em...
amá-lo.
— Mas você merece mais do que. . . — Era difícil para Ben dizer
isso, mas precisava fazê-lo. — Você merece mais do que dormir com
Joshua, sempre que ele aparecer.

— Oh, Ben. — Seus olhos transmitiam sofrimento não por si, Ben
compreendeu de repente, mas por ele. — Não me importa o que
mereço. Só me interessa o que quero.
— E você o quer.
Rachel concordou com a cabeça, desejando segurar sua mão,
receando tocá-lo.
Ben tornou a virar a cabeça. Quase lhe contou sobre Naomi, mas
isso só iria enfurecê-la ainda mais.
— Talvez mude de idéia após alguns anos nessa situação.
— Acho que não — replicou suavemente.
Ele foi saindo em direção ao lago.
— Estarei aqui, se mudar.
— Sim, Ben, eu sei. — Rachel o viu afastar-se com um sentimento
tão próximo do amor que era quase um reflexo dele. Depois
prosseguiu ao longo da trilha que levava a Giora, a fim de esperar
pelo regresso de Joshua.
Capítulo 8
NOVA YORK — janeiro de 1933


"Adolf Hitler é o novo chanceler alemão!"
Um jornaleiro que gritava na esquina da Sexta Avenida fez afrouxar


o passo lépido de Naomi rumo ao apartamento da mãe, em Central
Park West.
Ela sabia muito sobre Hitler, mais do que a maioria dos americanos,
por causa de Sarah e Lazar. Esse era um nome que significava
problemas para os judeus, afirmava Lazar, "e guerra para o mundo
inteiro". Mas Naomi achava que o mundo já tinha problemas

bastantes sem contar com uma guerra. Que mal podia fazer um
sujeitinho nojento e anti-semita na Alemanha?
Naomi continuou caminhando, feliz por estar novamente no ar
revigorante das ruas. Desta vez, como uma exceção, não havia
nenhum sinal dos homens maltrapilhos e esfarrapados, com olhos
reprovadores, que assombravam a cidade desde a quebra da Bolsa
de Valores, há quatro anos. Hoje Naomi estava animada e não
queria sentir-se culpada por a família não ter sofrido nenhuma das
dificuldades financeiras que assolaram o país desde 1929. Ao
contrário, os lucros de Arnold tinham disparado ano após ano. Ele
trouxera o pai e os irmãos de Naomi para trabalhar na Duquesa
com ele, fez com que a família da esposa e os próprios pais se
mudassem para Central Park West e proporcionava conforto e até
luxo a todos com seu fenomenal sucesso.
O sucesso de Arnold era e ao mesmo tempo não era uma bênção
para o pai de Naomi. O negócio de Martin Held não era forte o
bastante para competir com os grandes fabricantes, pois ele confiava
mais na qualidade do que na quantidade. E artesanato era um artigo
supérfluo quando uma economia cambaleava. Martin ficou
envergonhado quando se viu forçado a buscar o auxílio do genro.
Tudo piorou quando Arnold se mostrou primeiro generoso e,
depois, quando ficou óbvio que nada salvaria o negócio da falência,
magnânimo ao oferecer altos cargos para o sogro e os filhos.

Naomi achava que compreendia os sentimentos do pai. Gratidão
não era o mais saboroso dos pratos. Ela própria tinha motivos
suficientes para ser grata a Arnold. O marido era bom para ela, até
mesmo quando as explosões de nervo sismo a faziam ser áspera
com ele e a enclausuravam em mesma à noite. Farejando o
problema como um perdigueiro, a mãe de Naomi estaria lá no dia
seguinte, para consolar a filha e aconselhar prudência.
"Nós lhe devemos tanto", era a advertência constante de Leah. Isso
aborrecia Naomi tanto quanto a Martin.


— Que o diabo me carregue se algum dia conseguirei entender por
que uma indústria de pinturas e pó-de-arroz ganha tanto dinheiro
— dizia Martin. — As pessoas não precisam de batom e creme facial.
Precisam de um lugar para dormir, de comida para lhes encher a
barriga e alguma coisa que as mantenha aquecidas.
— É porque vendo sonhos — Arnold sempre insistia. — E, nas
épocas difíceis, as pessoas necessitam de sonhos mais do que nunca.
Ele estava certo. O país embebedava-se de sonhos, muitos deles aos
pedaços, a maioria remendados ou fabricados em cinemas escuros,
quietos e seguros, onde a fuga da amarga realidade era completa. O
romance na tela era tão mais agradável do que a vida que a própria
vida tinha como modelo os romances de celulóide.
Especialmente as mulheres, oprimidas e aflitas ou ociosas e
entediadas, todas queriam ser arrastadas pela paixão, assim como
Valentino arrebatava suas heroínas, conduzidas a êxtases mais
selvagens na imaginação do que qualquer retrato explícito poderia
ser.
"É simples", explicou Sarah certa vez. "O Dr. Freud revela às
mulheres o que elas realmente querem, o cinema mostra a
importância da coisa — e nós ensinamos como conseguir!"
Este creme, esta fragrância, este vestido, esta tonalidade para os
lábios, este feitio para o corpo. Sim, era verdade, sonhos fazem
dinheiro. Agora que Roosevelt fora eleito, e haveria nova era de
prosperidade, garantia Arnold, eles ganhariam mais dinheiro ainda.
Às vezes, Naomi sentia-se culpada por causa de todo esse dinheiro,
mas hoje não. Se havia algum tipo de conta a saldar na vida, Naomi
achava que ela e Arnold já tinham pago a dívida com sua cota de
sofrimento, quatro filhos perdidos em quase cinco anos de
casamento, o último aborto há apenas um mês.
De vez em quando pensava que seria melhor se pudessem discutir o
assunto, ao invés de fingir que nada acontecia. Mas era difícil
conversar com Arnold sobre seus sentimentos, sobre o casamento
deles. Ambos pareciam receosos de começar algo que, de um fio

d'água, poderia se transformar em uma inundação. Tudo o que ele
lhe pedia era para ser bela e corajosa, como cabia à esposa de um
jovem milionário. Arnold a cobria de presentes que ela nem sabia
que desejava, a instalava em apartamentos cada vez mais luxuosos,
os mais novos da Quinta Avenida, no lado oposto do parque ao que
a mãe morava.
Essa era a sua maneira de demonstrar amor, o único jeito que
Arnold conhecia — afora o sexo, e ela podia muito bem passar sem
isso. Mais e mais lhe dava vontade de gritar quando ele a tocava, e
mais errada se achava por sentir-se assim. Arnold era seu marido, e
ela o amava. Simplesmente não gostava de sexo. Talvez houvesse
algo errado com ela, mas qual mulher gostaria disso, após perder
quatro filhos? Todas as vezes que ele a procurava na cama, ficava
meio receosa, meio esperançosa de engravidar. Mas, com tão pouca
esperança de levar uma gestação a termo, por que devia se
submeter a toda aquela encenação? E ao que acontecia em seguida,
no sono.
Balançou a cabeça. Hoje não queria pensar nisso. Hoje ia ver os
filhos de Sarah, Rebekah, de dois anos, e Seth, de um. Ambos
estavam aos cuidados da mãe de Naomi, enquanto Sarah e Lazar se
encontravam na Europa.
O que Lazar dissera algumas semanas atrás? "Se aquele bastardo
assumir o poder na Alemanha, vamos arriscar tudo para tirar nossa
gente de lá bem depressa."
Vamos. Isso incluía todas as organizações judaicas no mundo — e
também incluía Joshua, arriscando a vida para salvar judeus.

De repente, sentiu-se fraca demais para caminhar. As mãos estavam
úmidas e recomeçaram a tremer, o nó na garganta era sufocante.
Não podia chegar ao apartamento da mãe nesse estado. A família já
se preocupava demais com o mau humor de Naomi, com seus
freqüentes acessos de choro. Por que não a deixavam em paz?


Cruzou a rua e sentou-se em um banco na calçada em frente ao
Central Park, alheia ao vento frio. Onde ele estaria? O que fazia?
Será que alguma vez pensava nela? Joshua estava sempre em seus
pensamentos, em momentos fugazes como o de agora — e sempre
em seus sonhos. Não conseguia evitar. Era errado, era injusto para
com Arnold. Antes de mais nada, era injusto tê-lo desposado. Ao
menos Joshua não tinha se casado com alguém deslealmente.
Ela o amava, já havia aceitado o fato. Mas não com um amor tão
terra a terra como o de Sarah, não assim. Naomi tinha sonhos
românticos com Joshua, os mesmos que outras jovens mulheres
tinham com Valentino, Clark Gable, Ronald Colman ou Gary
Cooper. Não suspirava por ídolos de matinê. Tinha um homem de
verdade que estava sempre com ela e não era mais inatingível do
que os astros cinematográficos eram para outras mulheres. Nenhum
astro de cinema jamais dissera que amava qualquer uma delas. Seus
sonhos fundamentavam-se na realidade.
Mas Naomi também estava sonhando com ele à noite, após ter
relações com Arnold. Então sonhava que era Joshua quem beijava
sua boca ávida, quem penetrava em seu corpo aberto e acolhedor,
enquanto ela o estreitava com braços e pernas e lhe implorava para
não parar, nunca parar. Sonhos imorais que pareciam durar horas e
nunca duravam o bastante. Sonhos degradantes que a faziam
regalar-se no corpo dele de uma forma que nunca imaginou
conhecer, desejos que revolviam suas entranhas até que acordava,
molhada e com o coração aos pulos, incapaz de encarar Arnold de
manhã.
Não havia ninguém com quem pudesse se abrir, embora com
freqüência se sentisse tentada a confiar em Sarah. Guardava tudo
para si, junto com a convicção de que Arnold. merecia alguém
melhor, que o enganara sem intenção Arnold

não lhe pedia mais para dizer que o amava — muito embora
realmente o amasse de um modo que nada tinha a ver com desejo e
realização pessoal. Acabara de lhe pedir para ter um quarto só seu,


argumentando estar tão nervosa que precisava dormir sozinha por
um tempo. Necessitava escapar da apreensão que se apoderava dela
todas as noites, na hora de deitar.
Às vezes achava que começaria a gritar e nunca mais iria parar. . .
Aconchegou-se mais ao novo casaco de pele, balançou a cabeça e
levantou-se do banco. Isso precisava parar. Tinha de fazer com que
parasse. Descobriria algo com que se ocupar, algo importante.
Aspirou profundamente o ar frio, enquanto caminhava. Quando a
mãe atendeu à porta, Naomi estava sorrindo.

Capítulo 9

PALESTINA — maio de 1933

"Tu és bela, minha querida, tu és formosa, meu claro e luminoso
amor" — disse Joshua suavemente, beijando Rachel. Ela riu.

— E tu és louco! Sou tão trigueira quanto uma amora, não clara,
exceto aqui e ali.
— Eu sei. Ainda assim você dá a impressão de estar usando camisa
e shorts brancos. Muito erótico, de uma maneira recatada.
Os dois estavam no quarto de uma casinha na praia ao sul de Tel
Aviv, alugada de um amigo por alguns dias. Depois Joshua partiria
em outra missão para comprar armas na Europa, e Rachel voltaria
para casa em Giora.
— Eu, erótica, mesmo de um jeito recatado? — Rachel imaginava se
Joshua a amava tão plenamente quanto ela a ele ou se a sombra do
passado ainda o acompanhava.
— Você não é recatada, querida. De fato, é uma caixa de surpresas.
— De que modo?

Joshua rolou o corpo para deitar-se de costas e acendeu um cigarro.

— Você é uma mistura de contrastes: romântica e prática, passional
e disciplinada, compassiva e incrivelmente corajosa.
— Obrigada. Mas por qual dessas qualidades estou aqui com você?
— Por todas — ele respondeu, segurando-lhe a mão. — E, já que
tocou no assunto, por que eu estou aqui com você?
— Porque o amo. — Ela disse isso simplesmente, mas para Joshua
foi uma reprovação. Rachel não enumerou suas qualidades e
concluiu que ele era um bom parceiro. Ela o amava, com a
franqueza e a sinceridade com que fora criada, em um kibbutz
recuperado da terra imprestável e de um pântano pestilento, onde a
vida era dura, precária e simples, não complicada por boas
maneiras, modas ou filosofias.
Ele a conhecera há quatro anos como uma perfeita sabra, mas Rachel
era mais do que isso. Era uma mulher com idéias próprias, uma
mulher forte com o corpo de uma jovem caçadora, uma pessoa
independente que ficava com ele por amor, sem mencionar
casamento, muito embora ele passasse a maior parte do tempo
longe dela. Contudo, Joshua não podia dizer honestamente que
Rachel era seu único amor. Havia a sombra de Naomi no passado e
a dedicação absoluta à sua tarefa do presente. Ben continuava
desesperadamente apaixonado por ela — mas Rachel não estava em
nenhum outro lugar com Ben. Estava aqui, com Joshua.
Ele apagou o cigarro e virou-se de novo para Rachel, afastando-lhe
do rosto o longo cabelo negro. Seus olhos escuros refletiam os dela.
Seus braços envolveram-lhe o corpo forte e doce e a puxaram para
perto de si.
— Eu amo você, Rachel. Nunca duvide disso. Desde a primeira vez
em que a vi, havia algo que sempre me fazia retornar, esperando
que você não tivesse se casado com Ben.

— Beijou-a. — Eu só precisava descobrir como era a vida aqui, o
que podia realizar. Tinha de esperar que ainda estivesse livre, todas
as vezes em que voltava. Graças a Deus ainda está.
Isso bastava para Rachel. Ela era tudo o que Joshua afirmara:
prática, sensível. Para ela, o amor era apenas uma parte da vida, não
a vida inteira. Mas o lado compassivo de sua natureza era atraído
para as profundezas ocultas, sombrias, de Joshua. Algum dia talvez
ele se abrisse com ela e lhe contasse sobre a mulher no passado.
Ultimamente, Rachel havia estado mais perto de se casar com Ben
do que Joshua podia imaginar, devido a esse passado e seu efeito
desconhecido sobre o futuro dos dois. Mas de nada serviria
confessar-lhe isso. Estava aqui com ele. Isso era prova suficiente, se
provas fossem necessárias, de que o amava mais do que a Ben, não
importava qual parte de si próprio Joshua lhe ocultasse. Só podia
ser uma mulher. Agora já o conhecia bastante para estar certa disso.
— Rachel? — Joshua a beijou novamente. — Em que está pensando?
Ela o enlaçou com força, a boca encostada na pele lisa e bronzeada
do ombro dele.
— Que estou muito feliz. Que desejo ir nadar nua. Que me sinto
como uma princesa, como Salomé ou Ester, ou até mesmo Lilith. —
Riu, uma risadinha sensual.
A paixão o engolfou. As palavras ditas por Rachel, o modo como se
movia contra ele, sua natureza singela e direta, tão aberta e
inebriante quanto uma noite no deserto, o comoveram e excitaram,
e ele deixou o desejo à solta.
Aqui não havia nenhuma deusa. Aqui não havia nenhum passado a
assombrá-lo com desapontamentos, nenhum presente a afastá-lo,
nenhum futuro a distraí-lo. Aqui estava uma mulher de cabelo
negro que ele desejava agora, agora, neste minuto, com cada fibra
de seu ser. Mas, mesmo enquanto a abraçava, a possuía e movia-se
com ela, o momento estava terminando, e ele ficou subitamente
aterrorizado com a possibilidade de que talvez nunca mais voltasse.

— Rachel — Joshua lhe implorou, quase ao fim desse momento
fugaz, luminoso e de total esgotamento. — Rachel, case comigo, por
favor, diga que se casa comigo.
Os olhos dela estavam fechados, mas a boca sorriu e buscou a do
companheiro.

— Sim — sussurrou para Joshua. — Sim, sim. Haveria outros casos
amorosos na vida dos dois, mas
nenhum tão profundo quanto este, nenhum tão liberador no laço
que acabavam de forjar, nenhum tão surpreendente na sua nua
sensibilidade, nem tão livre de tudo o que já se fora e tudo o que
ainda viria.
Dormiram de novo, quando o desejo foi saciado. Nadaram nus no
Mediterrâneo. Caminharam na praia à noite. Quase nada disseram
um ao outro nesses poucos dias, até a última noite, quando se
sentaram na varanda da casinha, contemplando o mar que brilhava
à luz da lua.
— Quando será? — indagou Joshua. — Que tal amanhã em Haifa?
Rachel balançou a cabeça.
— Quero me casar em Giora. Quero me casar usando um vestido. E
ainda nem tenho um. — Deu uma risada suave.
— Estarei pronta na próxima vez que regressar. Mas irei a Haifa
com você amanhã e pegarei o trem.
A mão de. Joshua procurou a dela.

— Lembro-me da viagem para Giora em 1929, quando retornei da
América. Como são belos os campos de Emek Yizre'el. E, ao fim da
jornada, você.
— Quanto tempo ficará longe desta vez?
— Não há jeito de saber. Tenho de fazer as compras de costume e
preciso descobrir um jeito de convencer os judeus alemães de que
devem sair agora. Se não o fizerem, teremos de encontrar rotas de
fuga para tirá-los de lá, caso os portões se fechem.
— Mas tantos já vieram este ano — Rachel lembrou.

— Por que sua gente acha que não haverá mais?
— Ninguém acredita que Hitler pretenda fazer o que diz. Muitos
judeus alemães ficaram furiosos com Isaac em sua última viagem,
por sugerir que a lealdade deles à Alemanha seria sempre
questionada. Eram primeiro alemães e judeus somente por acaso.
— Qual a opinião de Lazar?
— Lazar sempre acreditou que Hitler queria dizer exatamente cada
palavra que disse. Ele está novamente de volta à Europa com Sarah.
. . algum dia você vai conhecer Sarah e vai gostar muito dela. . . e o
que viu não o fez mudar de idéia.
— A queima de livros?
— Isso... e as restrições diárias contra os judeus. Lazar escreveu que
lá existe uma atmosfera de violência possível de se cortar com uma
faca. Ele não devia voltar lá tantas vezes. Minha irmã é americana,
mas Lazar é um judeu com passaporte palestino.
— Você algum dia será um palestino?
— Já seria um. Mas o quartel-general acha que a cidadania
americana me dá melhor proteção e maior liberdade de
movimentos, no caso de as coisas piorarem. — Olhou para ela. — Se
incomoda de casar com um estrangeiro?
Rachel riu.
— Quase todo mundo na Palestina é estrangeiro. Pergunte se eu me
importo de casar com um rabino!
Joshua a acompanhou na risada.
— Eles querem que eu continue nessa profissão também. Quem
suspeitaria que um rabino contrabandeia armas?
— Qualquer pessoa que o conheça — ela respondeu, sentando-se
em seu colo. — Sabe, teria que deixar crescer a barba.
— Você se importaria?
— Não. Nunca beijei um homem barbado.
Joshua a apertou mais contra si, ouvindo o marulhar gentil das
ondas, os sons noturnos dos pequenos animais nos juncos. Não
tinha a menor idéia de quantas semanas transcorreriam antes que

pudesse revê-la, antes de poder deliciar-se na paz e na quietude de
Rachel e de uma noite como esta. Mas ela seria sua esposa. Onde
quer que Rachel estivesse, seria um lar. Permaneceram sentados por
longo tempo, antes de Joshua entrar em casa para apanhar alguns
cobertores. Desceram para a praia, fizeram amor e dormiram um
sono profundo até de manhã.
Deram adeus a Haifa, e ele viu o trem partir, levando-a embora.
Depois virou-se e atravessou apressadamente as ruas ensolaradas,
rumo a uma pequena casa aos pés do Monte Carmel.
Foi Ari que atendeu à batida na porta. Alguns dos rostos na
pequena sala de reunião eram familiares: Ben Horowitz, Isaac Levy,
Natan Markevitsch — só Lazar estava ausente no grupo dos cinco
amigos que trabalharam e viveram juntos tão intimamente na
brigada. Havia sete dos tenentes mais antigos de Ari e dois homens
que Joshua nunca vira antes.
Os dois sujeitos usavam ternos amarrotados. A tez pálida e a
pronúncia indicaram-lhe que eram novos imigrantes da Alemanha
de Hitler, parte de uma onda de médicos, advogados, técnicos e
engenheiros que afluíam para a Palestina em conseqüência das
restrições na Alemanha. Ari não se perturbara com o afluxo de
cidadãos urbanos para um país agrário. "Vamos ensinar alguns a
arar a terra e o resto a atirar", falou. "Os engenheiros talvez possam
consertar nossas armas miseráveis — ou desenhar outras novas."

— Salve, o Rabino chegou — disse Ari, seguindo Joshua até a sala.
— Rachel viajou?
Joshua assentiu com a cabeça, acenando para os demais em
saudação, evitando os olhos de Ben.
— Bonita moça — comentou Ari. Depois a voz se elevou. — Agora
temos assuntos sérios a tratar. Nessa viagem, você precisa comprar
mais armas por menos dinheiro. A Depressão está tornando cada
vez mais difícil para Lazar conseguir dinheiro na América, embora
todos garantam que logo Roosevelt fará algo pela economia. Por
enquanto, você deve fazer alguma coisa. Sorte que tenha passaporte

americano. Logo você será um dos poucos que poderão andar
livremente na Alemanha.

— Está tão ruim assim? — perguntou Joshua aos recém-chegados.
— Pior — respondeu um deles. Ari observou:
— Ninguém mais vai nos ajudar. Precisamos ajudar a nós mesmos.
— Primeiro temos de ajudar a nós mesmos aqui — objetou Natan
em tom raivoso. — Os árabes continuam atacando os judeus aqui.
Ben Horowitz pousou uma das mãos no largo ombro de Natan.
— Natan, o Haganah pode cuidar dos árabes, mesmo que tenhamos
de ficar escondidos. Mas ninguém está preparado para lutar contra
Hitler.
— Os árabes serão sempre um problema — insistiu Natan. — Quem
sabe quanto tempo Hitler vai durar na Alemanha? Tenho uma
esposa grávida em Giora. — Ele havia se casado com sua adorada
Aviva há um ano e o primeiro filho era esperado para breve.
— Sei como se sente sobre Aviva — falou Joshua. — Acabei de
mandar Rachel para lá. — Seus olhos pousaram em Ben por um
instante. — Mas, se o que ouvimos sobre a Alemanha for verdade,
precisamos fazer alguma coisa a respeito.
— É verdade — afirmou um dos alemães. Natan mergulhou em um
silêncio emburrado.
— Tudo bem — disse Ari, falando com as frases explosivas de
sempre. — O caso é esse. O Rabino e o Janota. . . ora, ele parece
ariano, como vocês sabem, uma nova palavra que Hitler inventou.
. . . vão fazer compras primeiro na Tche-coslováquia, depois na
França, onde se encontrarão com Lazar. Natan segue para a
Romênia, Hungria, qualquer lugar onde haja armas a serem
comercializadas a bom preço. E todos vocês fiquem de olhos abertos
para as rotas de contrabando, de pessoas e armas também. Isaac,
você é necessário aqui, há outra ameaça de febre tifóide. De
qualquer modo, você parece judeu demais para ir à Áustria. Todos
levam dinheiro. Todos conhecem seus contatos. Não se demorem

muito por lá. Comprem armas. Comprem informações, informações
exatas. Contrabandistas não podem ser sentimentais. É isso aí.
Alguma pergunta?
Ninguém falou nada. Dispersaram-se, deixando a casa em grupos
de dois e três. Joshua e Ben caminharam em direção ao centro de
Haifa.


— Natan fala por muitos de nós — disse Ben. — Os militantes estão
ficando fartos com a política de restrição do Haganah. Isso pode
levar a uma cisão profunda.
— Eu sei. Não quero estar em oposição a velhos amigos. — Joshua
podia sentir a tensão entre os dois, enquanto caminhavam.
— Rachel — Ben disse muito de repente, como se estivesse
guardando esse nome dentro de si há tempo demais para se
controlar.
— Eu queria conversar com você a sós, Ben. Vamos nos casar
quando eu retornar.
Ben continuou andando, os ombros rígidos, as costas retas.
— Foi difícil para ela escolher um de nós, se isso melhora as coisas
para você.
— Não — respondeu o outro secamente. — Piora. . .
Houve um silêncio entre ambos. Joshua queria lhe dizer que amor
não era algo que alguém decidisse sentir; simplesmente acontecia.
Parecia-lhe que já dissera isso antes, não conseguia se lembrar
quando foi. E Ben não precisava que lhe repetissem essa verdade.
Joshua tentou novamente:
— Ben, compreendo seus-sentimentos, mas somos amigos. —
Parou. — Gostaria que houvesse algo que eu pudesse dizer.
Ben manteve os olhos presos na rua diante de si.
— Poderia dizer que é a única mulher que ama.
Joshua concordou com a cabeça, recordando-se dos sonhos com
Naomi que compartilhara com os amigos, ao chegar na Palestina

pela primeira vez. — Ela é a única — assegurou Joshua. — Esperei
muito tempo para ter certeza disso.
Os ombros de Ben relaxaram. Virou-se para encarar Joshua, a
expressão menos tensa, mas os olhos ainda sombrios e penetrantes.
— Fico feliz por isso — respondeu, afinal. — É o que ela merece. —
Pôs uma mão hesitante no braço de Joshua, como se ainda lhe fosse
difícil fazê-lo. — Vamos, vou lhe pagar um drinque.


Caminharam juntos na rua inundada de sol, calados outra vez. Era
quase como o antigo e amistoso silêncio que já não partilhavam há
muitos, muitos anos.
Nunca mais tornaram a mencionar o assunto. Joshua falara a
verdade. Rachel era sua esposa, a Palestina o seu país. E ambos
lutavam para sobreviver.


Capítulo 10

NOVA YORK — junho de 1933

Até mesmo do escritório no fundo do corredor, bem distante das
portas do elevador que se abriam para o andar inteiro que a
Duquesa ocupava na Park Avenue, Arnold ouviu as vozes e o riso;
Sarah estava de volta! Levantou-se da mesa e foi até a porta para
recebê-la.
Sarah descia o corredor acarpetado, elétrica, andando a passos
largos e leves, o cabelo escuro encimado por um chapéu parisiense,
que parecia tolo em qualquer outra mulher, o corpo envolto em
jérsei de seda cinza drapeado, sob uma capa sem forro de lã fina da
mesma cor.

— Anjo! — Deu no irmão um abraço de urso. — Como está?
— Não preciso perguntar como você está! Quando o navio atracou?

— Ontem às três, como você sabe perfeitamente bem. Por não me
procurar em casa, vai ganhar um presente muito especial. —
Entregou-lhe uma caixa. — Deus, como sentimos saudades de
Rebekah e Seth! Essa é a última vez que vamos a qualquer parte
sem eles. — Sentou-se na poltrona de couro da Borgonha, de frente
para a mesa de Arnold, jogando a capa de lado. — Ande, abra o
presente.
Era um frasco de perfume de uns dezessete centímetros, de vidro
verde-escuro quase totalmente coberto por uma teia de arabescos
dourados. Arnold assobiou ao vê-lo.
— Francês do século XVIII. — Sarah sorriu. — Fan tástico, não é? A
melhor peça da sua coleção.
— Deve ter custado uma fortuna. — Arnold o segurava com
carinho.
— Não se preocupe, vamos ganhar bastante dinheiro com as idéias
que eu trouxe. Os franceses são tão cheios de idéias que você nem
iria acreditar. — A expressão do rosto se alterou. — E quanto a
Naomi?
— Melhor. Menos... emocional. Está trabalhando com o Rabino
Wise e formando um grupo que arranja lares para crianças
refugiadas.
— Oh, Arnold — disse Sarah, uma irmãzinha novamente. — Não é
justo.
— Não é justo para Naomi. Não me importo se nunca tivermos
filhos. Se ao menos ela pudesse ser feliz... — Olhou para a irmã,
guardando dentro de si coisas que jamais poderia revelar, nem
mesmo a ela.
— Darei uma passadinha lá para ver Naomi, assim que acabar aqui.
— Tirou o chapéu e vasculhou a bolsa de couro macio, de modo que
ele não percebesse as lágrimas em seus olhos. Se pelo menos Arnold
falasse com ela. — Droga, nunca consigo achar nada aqui dentro.
Preciso desenhar uma para mim. Ah, aqui estão. — Acendeu um
cigarro. — Como vão os negócios?

— Melhorando a cada mês, a cada semana. Seu amigo Maresh está
dirigindo a operação de armazenagem para toda a costa leste da
Filadélfia. Construímos mais dois hangares de estocagem!
— Eu estava certa sobre ele — Sarah sorriu. — Vamos para lá na
semana que vem. Você não pode comprar devoção igual a essa.
— Eu sei. Nunca precisei nem chegar perto do lugar. Mas será que
ele diz mais de três palavras de cada vez?
— Lógico que sim, se tem algo para dizer. Maresh conversa com
Lazar como costumava fazer com Josh. — De repente ficou muito
ocupada com os papéis na maleta. — Mas tenho um monte de
novidades para você. Em primeiro lugar, você tinha razão: é mais
barato nós mesmos importarmos-as essências florais e prepararmos
a fórmula do perfume aqui. Eliminamos os intermediários e
compramos diretamente dos plantadores na França e na Itália. Ou
comerciamos com intermediários locais, se a coisa vier de lugares
que não possamos alcançar com facilidade. Rússia, Madagáscar,
África do Norte, China.
— Ótimo! Mas precisamos de um perfume que supere as vendas do
Chanel N.° 5 e L'Aimant. E ainda não encontramos um.
Continuamos necessitando de um especialista em combinação de
essências, um "nariz".
— Esta é a minha grande notícia! Tenho um. Um jovem judeu
polonês que encontrei tremendo de frio em um café de Paris.
— Mais um de seus ratos afogados?
— Não se preocupe, meus ratos são seus melhores funcionários, e
você sabe disso. Este aqui, seu nome é Otto Einhorn, é formado em
química, mas tem bom nariz para as fragrâncias. Não conseguia
arranjar emprego na França. Os franceses acham que ninguém pode
fazer isso como eles. — Torceu o nariz. — Mas Otto é um maven em
perfumes.
— Como sabe?
— Comprei um terno bem elegante e levei o sujeito até o Lanvin.
Disse que era meu secretário, e pensaram que também fosse meu

amante. Bem, eles nunca viram Lazar. De qualquer jeito, o pessoal,
lá, guarda os atares sem nenhuma identificação, sem nomes nos
frascos de ensaio, só números. Pois ele identificou todos. Até sabia
em que altitude a alfazema foi cultivada! O Lanvin quase desmaiou.
E — parou dramaticamente — Otto deu uma boa cheirada em
alguma coisa em que estão trabalhando. Eu também. É sensacional!
Ele também sabe o que aquilo contém. . . rosa, jasmim, algo
chamado vetiveril e alguns outros sintéticos. De qualquer maneira,
podemos chegar bem perto daquilo, podemos fazer melhor! Feito
aqui, engarrafado na França.

— Engarrafado na França? Você está biruta, Sarah! De que adianta
importar tudo para fazer o produto aqui, depois mandar de volta
para engarrafar lá?
— Primeiro, só nós conhecemos a fórmula, as proporções, quero
dizer. Segundo, você pode vender por um preço três vezes maior, se
vier da França. Sabe que a clientela de elite ainda não está pronta
para os perfumes domésticos. Terceiro, a embalagem luxuosa é
indispensável, e esta é uma especialidade francesa. . . cristal
lapidado, caixas de veludo. É mais barato fazer isso lá. . . mão-deobra,
materiais. Faz sentido?
— Por enquanto. Quero checar os custos do frete.
— Já verifiquei. Mas você tem de anunciar o produto Arnold. Um
bocado. Vogue, Vanity Fair, Harper's Bazaar. Apenas um retrato e o
nome: Duquesa. O retrato precis vender a história: sexy, mas de alta
classe. Vai custar uma fortuna.
— Podemos arcar com as despesas. — Com os cosméticos,
obtinham um lucro líquido de 25 por cento na venda por atacado.
Perfumes, sabia Arnold, dão um lucro de n mínimo 35 por cento,
provavelmente mais. Fez um gesto de aprovação com a cabeça. —
Por mim, está ótimo, se a fragrância for boa. Agora, onde está esse
Einhorn?
— No Waldorf. Não se pode colocar o melhor especialista em
perfumes do mundo em qualquer lugar. Isso causaria uma péssima

impressão, quando começarmos a focalizar a publicidade nele. —
Pôs de lado um maço de papéis e pegou outro, olhando para
Arnold com um sorriso travesso.

— Tudo bem, o que é? — ele perguntou, como se ela fosse uma
garotinha com um segredo.
— Um balneário.
O sorriso dele sumiu.
— O quê?
— Uma espécie de clínica de beleza para mulheres. Na Califórnia.
— Inclinou-se para a frente, entusiasmada. — A gente alimenta as
clientes com folhas de alface e suco de limão, oferece tratamento de
pele, massagens, enemas do cólon superior. Fazemos com que
pratiquem exercícios até caírem de cansaço. Quando forem embora,
levam consigo uma linha completa dos produtos.
Sarah começou a enumerar os custos com os dedos.
— A comida para as clientes custa quase nada. Só precisamos de
alguns empregados para começar: um para o tratamento da pele,
uma professora de ginástica, uma massagista, uma enfermeira para
tratamento do cólon, uma maquiladora/cabeleireira. Ou talvez a que
trate da pele possa se encarregar da maquilagem. Uns sete mil
dólares de salário para cada um por ano perfazem trinta e cinco mil.
É possível comprar bem barato uma fazenda velha, depois da
Depressão, uns cinqüenta mil, talvez setenta e cinco com muita
terra. — Ela riu. — Com bastante terra, podemos plantar nossa
própria alface e o limão. Montamos tudo por vinte, vinte e cinco
mil. Outros trinta e cinco mil para a publicidade. Esse é um
investimento de cento e setenta, duzentos mil dólares no máximo.
Sarah acendeu outro cigarro, enquanto Arnold ouvia, as objeções
sumindo enquanto ela falava.
— A gente cobra das clientes quinhentos por semana. Menos não
vai funcionar, a alta sociedade não quer se misturar com a plebe.
Vendemos às mulheres no mínimo cem dólares de produtos quando
partirem. Calcule vinte e cinco mulheres a seiscentos cada uma por

semana. Isso é quase oitocentos mil por ano. O investimento
original é recuperado em uns três meses, e o resto da renda do
primeiro ano é lucro líquido, sem mencionar a valorização da terra e
da casa reformada. Não se perde nada em uma transação dessas.

— Como teve essa idéia? — perguntou Arnold maravilhado.
— Fui a uma clínica na França! Lá elas bebem aquelas águas
horrorosas e comem como cavalos. Aqui as mulheres têm mania de
dieta. Todas querem ter peito chato e nenhum traseiro. Portanto,
vamos dar-lhes água pura e pouquíssima comida. Também é ótimo
para relaxar. Após uma temporada social, aquelas mulheres
precisam disso.
— Mas, de acordo com o que disse, teremos de conservar o lugar
cheio o ano inteiro.
— E vamos. Elas sempre separam algumas semanas no ano para
recarregar as baterias. E estaremos bem perto da fronteira mexicana.
Elas podem arranjar um divórcio rápido no México e um período de
descanso lá. Também um aborto.
— Nada de abortos na nossa clínica.
— Lógico que não! As clientes só terão um lugar onde Poderão se
esconder e se recuperar quando retornarem. Certo?
— Certo. Inventou algum outro meio de gastar nosso dinheiro?
— Ganhar mais, quer dizer. Precisamos de mais produtos na linha.
— Já temos vinte e cinco!
— Arden tem cento e oito em quinhentos e noventa e cinco
formatos e tamanhos diferentes.
— A Arden não vai entrar no ramo dos perfumes em grande escala.
E não está montando um balneário.
— Oh, sim, está, o balneário está nos planos dela. Meu motorista
dorme com a empregada de Lizzie Arden. Talvez não o perfume,
não importado como o nosso. Mas ainda acho que precisamos de
mais alguns produtos para a Duquesa.
— Por exemplo?

— Xampu. Creme rinse. Óleo de banho para combinar com os dois.
Por que não uma loção para o corpo que acompanhe a fragrância?
Podíamos preparar embalagens de presente para o Natal, Dia dos
Namorados.
— Está certo, chega! Você me deixa tonto.
— Bem, sei que vai concordar com tudo. . . mesmo que eu precise
usar de persuasão. — Lançou para Arnold um sorriso adorável.
— Isso se parece mais com chantagem. — Devolveu o sorriso.
— Chantagem merda nenhuma! O irmão
mostrou-se chocado.
— Uma mulher não devia falar palavrão.
— Não é palavrão, é uma expressão. Se eu tivesse que pensar no
que é correto todas as vezes em que abro a boca, nunca diria nada.
Pense só no que você ia perder!
Ele riu.
— Desisto. O que há na outra pasta?
— Frascos, potes para você dar uma olhada. Por falar nisso, nada
mais de potes quadrados. Os redondos levam menos produto.
Também as amostras das embalagens. Então, quando chegar a hora,
você saberá por que as nossas têm de ser extravagantes.
— Já sei, ninguém quer pensar em farrapos, só os ricos. Sarah
assentiu com a cabeça.
— E, por causa disso, tenho tudo que sempre quis. — Hesitou. —
Espero que você também tenha.
— Lógico que tenho — respondeu, olhando para a fotografia de
Naomi na mesa. — Viu esta aqui no Vanity Fair?
— E como! "A delicada beleza de camafeu de Naomi Fursten,
esposa do jovem e dinâmico presidente da Duquesa Limitada." —
Sarah citou a revista e imaginou se alguém na Palestina já vira
aquilo. Havia resolvido não contar a Arnold sobre o casamento de
Joshua, antes de dar a notícia a Naomi. . . . a sós. — Pensei numa
coisa, talvez Naomi tenha uma idéia para a campanha de

publicidade. Vamos — disse cheia de animação. — Vou ao Waldorf
apresentar você ao seu novo "nariz", o pequeno Einhorn. Trate o
homem com gentileza, Arnold. Ele é um rapaz assustado. As coisas
que contou sobre a situação na Alemanha. . . .

— Estou interessado no nariz dele. A Alemanha não tem nada a ver
conosco.
— Se Hitler começar uma guerra, vamos ter sim. Só espero que você
esteja certo, e Lazar, errado — replicou Sarah com ar de dúvida.
— Desta vez, Lazar está errado. Roosevelt acabou de ser
empossado, já existe um novo sentimento no país. Ele não vai
tumultuar ainda mais as coisas, tomando partido em outra disputa
européia. — Segurou a capa de Sarah para ela. — Por que não
almoça comigo e com Einhorn?
— Por que vou almoçar com sua delicada esposa com beleza de
camafeu. — Sarah sorriu.
— Como está Lazar? — indagou Arnold, quando desciam o
corredor em direção ao elevador.
— Aflito. Tem uma única preocupação, como você sabe. Quando
um país começa a queimar livros, algo está terrivelmente errado e
não são os livros. Sabe que agora não podem publicar nenhum livro
na Alemanha sem a aprovação de um vigaristazinho pegajoso
chamado Goebbels? Há uma suástica ondulando em quase todos os
prédios. E as prisões estão repletas de opositores do regime. —
Entraram no elevador. — O país inteiro enlouqueceu.
— Não é o país inteiro. Só um punhado de fanfarrões.
— Provavelmente foi o que disseram sobre Átila, o Huno —
retrucou Sarah, quando as portas do elevador se fecharam atrás dos
dois.
— Parece mais um cenário de filme, tudo branco e espetacular —
declarou Sarah, fingindo interessar-se pela decoração do
apartamento na Quinta Avenida. Observava Naomi fumando sem
parar, movendo as mãos em gestos nervosos, rindo com animação
exagerada. Quase nada restava da moça risonha e gentil que Sarah

acompanhou ao altar há cinco anos, da jovem esposa tão orgulhosa
de sua gravidez no casamento da cunhada. Antes, achava que
Naomi havia se ajustado à situação. Mas Sarah compreendia agora
que estivera envolvida demais com Lazar e seus dois filhos para
perceber a mudança gradual da jovem quieta e bondosa à mulher
frágil, nervosa e sofisticada como um modelo fotográfico.
E Arnold dissera que ela estava menos emocional! Mas Arnold
enxergava apenas o que suportava ver. Será que era pelo fato de
não haver filhos nesse casamento, ou ainda era o que sempre fora?

— Acho que você fez um trabalho magnífico — comentou Sarah,
despenteando o cabelo curto do jeito que fazia quando algo a
preocupava. — Vão fotografar o apartamento para o próximo
número da Vogue. Eu não ousaria deixar que aquela gente visse o
meu zoológico.
— Você tem coisas melhores a fazer com seu tempo do que decorar
apartamentos. E sempre está com uma aparência absolutamente
perfeita.
— Preciso. Para a Duquesa — disse Sarah com ar ausente. Os
quartos separados não lhe passaram despercebidos, apesar de
existir uma porta de comunicação. Casais que precisavam
atravessar uma porta para se comunicar não faziam isso muito bem
e nem com muita freqüência. Imaginava como diabos iria contar a
Naomi sobre Joshua. Mas talvez ele não fosse a razão.
As duas mulheres entraram na sala de estar, vindo do quarto todo
branco de Naomi.
— Continua sendo azul — falou Naomi. — Ultramoderno, mas
azul. Eu gostava mais da vista do apartamento de Riverside Drive,
você não?
Sarah respirou fundo e respondeu:
— Não ligo a mínima para a sua vista. Naomi a fitou, perplexa.
— Sim, foi isso mesmo o que eu disse. Estou interessada em você.
Parece mais tensa que uma corda do violino de Menuhin. Qual é o
problema agora?

Naomi balançou a cabeça.

— Nada.
Nada, merda nenhuma. Você fuma como uma chaminé, está mais
magra que uma vassoura. E quanto a essa história de quartos
separados? — Sentou-se junto de Naomi, no sofá de veludo azul. —
Pelo amor de Deus, desabafe! Sabe que pode confiar em mim.
A voz de Naomi continuava insegura.
— O que há de errado com quartos separados?
— Nada, exceto que você não gosta de dormir com seu marido.
Naomi desviou os olhos.
— Não suporto dormir com meu marido — sussurrou. — Tudo o
que consigo com isso são bebês mortos.
— Jesus, Naomi! O amor não significa necessariamente bebês
mortos. Arnold não se importa com filhos. Ele ama
você.
— Bem, eu me importo — retrucou Naomi, começando a chorar. —
Qual é o sentido de um casamento sem filhos?
Sarah balançou a cabeça.
— Não me venha com essa. Você fala como uma piedosa moralista.
E você não é nada disso. Tem vida demais dentro de si para se
sentir assim ou se acostumar com isso. É Arnold? Sei que ele não é
uma pessoa muito fácil de se conviver, mas ele faz tudo por você.
— Não quero mais ouvir falar de Arnold e do que faz por mim. —
A voz de Naomi se elevou. — Acha que não sei o quanto lhe devo, e
o quanto toda a minha família lhe deve? Vivem me lembrando disso
o tempo inteiro. Acha que não sei o quanto estou sendo injusta com
Arnold? Estou farta de pensar nisso. Se eu pudesse fazer o que
queria, me divorciava dele amanhã mesmo, pelo seu próprio bem.
— Olhou para Sarah com ar desafiador. — Sim, eu me separaria,
apesar de tudo o que ele faz por mim. Não quero que ele me ame.
Quero que me deixe em paz!
Sarah enlaçou a cunhada. Esta não era a hora de lhe perguntar à
queima-roupa se era Joshua que ainda queria. Provavelmente

Naomi negaria tudo. Filhos teriam ajudado. Sarah pensou em seus
próprios filhos.

— Minha querida, chore, chore, sim — ela consolou Naomi,
estreitando-a com força para abrandar-lhe os tremores. — Só uma
mulher que perdeu os filhos compreende como você se sente. Mas
não creio que o divórcio solucionasse o problema, mesmo que você
tivesse coragem de fazê-lo. Acho que precisa tirar esses problemas
da cabeça e concentrar seus pensamentos em outra coisa, antes de se
divorciar. — Segurou Naomi com os braços estendidos. — Beleza
perfeita de camafeu, puxa vida. Você mais parece um espantalho.
O riso de Naomi saiu trêmulo.
— Você é a única pessoa neste mundo que pode dizer coisas assim
sem ferir os sentimentos de uma garota, Shai. Mas o que posso
fazer? Arnold não me deixa trabalhar. Até se opõe a que colabore
com o Rabino Wise, e isso é tudo o que sei fazer.
— Ele deixará você trabalhar no que tenho em mente. Espere até
ouvir, vai adorar. Mas vá lá para dentro e ajeite essa cara primeiro.
Arnold logo estará em casa, fazendo perguntas. Vá, preparo um
drinque para nós e depois levo até o quarto, certo?
Sarah dirigiu-se até o bar espelhado e serviu dois conhaques,
acrescentando gelo e um pouco de soda ao seu. Levou os copos ao
quarto branco de Naomi e pousou o conhaque puro na penteadeira.
Era agora ou nunca — e Naomi já havia parado de chorar.
— Joshua tinha uma surpresa para nós, quando nos vimos em Paris.
— O quê? — Naomi terminou de retirar com creme a maquilagem
borrada.
— Ele se casou. — Sarah virou de costas para Naomi e examinou a
Quinta Avenida, onze andares abaixo. — Estava mais do que na
hora. Josh tem trinta anos, e um homem precisa de uma mulher,
principalmente naquele lugar.
— Você a encontrou lá? — Naomi dava batidinhas rápidas no rosto
com o adstringente Duquesa.

— Não, mas ouvi falar muito sobre ela. Lazar a conhece. Vinte e
dois anos. Nascida em Giora, uma das mais antigas colônias na
Palestina. Tem cabelos negros, olhos escuros. O primeiro vestido
que usou na vida foi no dia do casamento, com o cabelo em longas
tranças. É uma verdadeira chalutza, uma pioneira. Seu nome é
Rachel, e Lazar diz que ela é muito especial. De qualquer modo,
Josh está casado, e isso é um alívio para todos nós, não acha? Se
bem que ela ficará um bocado sozinha, Josh vive viajando. — Sarah
se ouviu falando muito depressa, mas estava dando a Naomi uma
chance para se controlar. O copo de conhaque sobre a penteadeira
estava vazio quando Sarah se voltou.
— Arnold sabe? — perguntou Naomi, a voz fraca.
— Não, esqueci de contar, ficamos tão ocupados falando de
negócios.
Naomi acabou de aplicar nova maquilagem. Sarah era uma péssima
mentirosa, mas uma boa amiga por lhe dar a notícia antes que
Arnold chegasse em casa.
— Espero que sejam felizes — disse. Olhou para Sarah, o rosto
sereno. Ergueu-se e retornou à sala de estar, serviu mais conhaque
para as duas e sentou-se com Sarah. — Acho que está certa sobre
mim. Preciso me ocupar. Qual é a sua idéia?
Não haveria mais confidências, Sarah pôde perceber, mas Naomi
parecia bastante tranqüila, e ela seguiu seu exemplo.
— Finalmente, teremos um perfume digno da Duquesa, e
necessitamos de algo sensacional em termos de publicidade. Já
expliquei a Arnold: só o nome Duquesa e uma fotografia ou uma
pintura, alguma coisa muito sensual, mas de alta classe. — Sorriu.
— Por mim, usaríamos a Maja Desnuda, de Goya; ela era a Duquesa
de Alba. Mas as americanas ainda não estão prontas para mulheres
nuas.
Naomi concordou:
— Muitas não comprariam um perfume anunciado por uma mulher
nua, por mais que quisessem. E os homens não o dariam às esposas.

Só às amantes. — Sorriu. — Perderíamos tantos negócios quanto
iríamos ganhar.

— Certo. Descubra algo romântico e provocante, sexy o bastante
para sugerir o que acontecerá quando uma mulher usar o perfume.
Sabe o que quero dizer.
— Sei exatamente o que quero dizer — respondeu Naomi, mais
empolgada a cada minuto. — Tentarei primeiro os museus,
pinturas, gravuras. Será fascinante. — Seu rosto demonstrava tanto
interesse quanto a voz, como Sarah ficou aliviada ao constatar. —
Para quando precisa disso?
— Não se apresse, ainda nem conseguimos o perfume. . . . Arnold
acaba de se encontrar com o homem que descobri para prepará-lo,
nosso "nariz". Mas iniciaremos a campanha publicitária alguns
meses antes de colocarmos o produto no mercado.
Ainda conversavam sobre o assunto, quando Arnold chegou. Ele
beijou Naomi, surpreso com sua animação, seu entusiasmo com o
projeto. Sarah estava certa — ela precisava se ocupar. Sua escolha
dos potes e rótulos, feita anos atrás, provou que Naomi tinha queda
para desenho — se ele precisasse de provas do seu bom gosto. Se
ela se envolvesse nos negócios outra vez, tal como no princípio,
talvez a frieza existente entre os dois desaparecesse. . .
— O que fez com o nosso pequenino Otto? — indagou Sarah. —
Espero que não tenha apavorado o rapaz!
— Pare com isso. Simplesmente sentamos e conversamos sobre
perfumes. Pelo que pude perceber, o sujeito entende do assunto.
Podemos trabalhar juntos. Ele só quis dar um passeio e conhecer a
cidade por sua conta. — Não acrescentou que dera ao jovem pálido,
dinheiro mais do que suficiente para satisfazer todas as suas
possíveis necessidades. Suspeitava que Sarah tivesse feito o mesmo,
pelo modo como Einhorn tentou recusá-lo.
Sarah cedeu.

— Apenas seja bondoso com ele. O rapaz já recebeu muito pontapé
da vida. Vem de um gueto, é outra mentalidade.
— O que eu sou, algum tipo de monstro? Pelo amor de Deus! —
Arnold se queixou, Servando-se de um drinque.


— Lógico que não. — Sarah sorriu. — Você é um gatinho.
— Arnold só finge que é um monstro às vezes — disse Naomi. —
Assim ninguém desconfia da verdade. Volto já, quero ver o que
estão aprontando para o jantar.
Ela parou na copa, apoiando-se na porta. Joshua estava casado.
Com um tipo "especial" de mulher. Fechou os olhos, imaginando o
inconcebível: Joshua e uma mulher juntos, do jeito que ela sonhara
tantas vezes. Mas a mulher não era ela. A mulher possuía cabelo
negro e olhos escuros, tão escuros quanto os de Joshua, tão cheios
de desejo quanto os dele.
Abriu os olhos: os doces, românticos devaneios de amor estavam
despedaçados para sempre e só lhe restavam os sonhos eróticos
com ele — sonhos que não surgiam sem Arnold atiçá-los. Procuraria
o médico no dia seguinte, para arranjar um anticonceptivo — isso
era algo que não revelaria a ninguém, nem mesmo a Sarah — e
então Arnold preencheria suas noites, assim como Rachel
preencheria as de Joshua.
Não era o que poderia ter sido, mas era melhor do que nada.
Foi conversar rapidamente com a cozinheira. Retornou à sala de
estar a tempo de ouvir Sarah contar a Arnold sobre a noiva do
irmão.

Capítulo 11


O principal armazém da Duquesa Limitada ficava a poucos
quilômetros da Filadélfia. Sarah e Lazar alugaram um carro,
deixando as crianças com a esposa e a prole de Maresh.

— Que dia maravilhoso — Sarah regozijou-se. É pena que não
tenhamos trazido as crianças.
— Eles podiam ver alguma coisa que não devessem comentar.
— Seth mal sabe falar — protestou Sarah.
— Mas Rebekah fala tanto quanto você. E, quando se usa um
depósito de cosméticos para esconder armas, não se pode arriscar. E
se Rebekah contasse tudo ao tio Arnold?
— Ele sofreria um enfarte — respondeu Sarah, desanimada. —
Odeio fazer isso às escondidas de Arnold, mas ele nunca
concordaria. Ainda não acredita que haverá confusão.
— Bem, não vamos demorar muito tempo para tomar outras
providências. — Lazar deu uma palmadinha na coxa de Sarah, por
baixo da saia pregueada. — Também não gosto disso, mas não
temos escolha.
— Maresh é uma bênção dos céus — observou Sarah,
— Ele está fazendo isso por Joshua. Faria qualquer coisa por seu
irmão.
— Por você também. Ele também faria tudo por você.
— Melhor ainda. Quem sabe o que mais precisaremos lhe pedir?
Desde a Depressão, era ainda mais difícil para Lazar arranjar armas
do que dinheiro. Peças antiquadas da Grande Guerra eram as
melhores que conseguiam obter, mas a entrega ocorria em um
esquema irregular, e a carga tinha de ficar escondida até que
pudessem contrabandeá-la para fora do país. Necessitavam de
alguém que estivesse sempre disponível e fosse da mais absoluta
confiança.

Maresh encarregava-se pessoalmente de receber tudo no armazém
da Duquesa, e podiam confiar nele para ocultar esses carregamentos
pelo tempo que fosse necessário.
Sarah interrompeu os pensamentos de Lazar.


— Fale-me sobre Rachel. Todos nós estamos curiosos sobre ela.
— Rachel é uma pessoa independente, sempre foi. E não faz mais
política. Durante um tempo, seguiu os marxistas trabalhistas de
Ben-Gurion.
Sarah ergueu a mão. Qualquer discussão sobre as facções políticas
do Yishuv a confundia. Os colonos vinham de países europeus
muito diferentes. Onde não conseguiram ser assimilados, juntaram-
se a grupos de protesto, todos eles diferentes. Agora, na Palestina,
continuavam protestando, quase sempre entre si.
-Você sabe que não sou capaz de diferenciar uns dos
outros — disse Sarah. Estudou o marido com olhos desconfiados.


— Você conhecia bem a garota?
Ele riu, entendendo o que Sarah tinha em mente.
— Não.
— Bem, fico feliz com isso. Seria muito desagradável se fosse esse o
caso. Ela é minha cunhada agora.
— O que acha que estávamos fazendo lá, naquela brigada de
trabalhadores? Tudo bem, sei o que acha que eu estava fazendo, mas
nosso objetivo era aumentar a população mais por imigração do que
por fornicação.
— Tenho certeza disso — brincou Sarah. Depois falou sério: —
Tomara que Josh seja feliz. Naomi não está muito bem. Ainda tem.
. . . carinho por ele.
— Bem, Josh está casado agora.
— Meu querido inocente, pensa realmente que estar casado
significa não querer mais ninguém?
— E você? — Lazar tirou os olhos da estrada por um segundo. —
Quer outra pessoa?

— Não, mas nós somos diferentes. Às vezes receio que seja bom
demais para durar. — Cruzou os dedos, ainda séria.
A mão de Lazar subiu pela perna dela.
— Vai durar. Você assiste a filmes demais sobre amores
malfadados. — Sarah relaxou, suspirando suavemente. — Quer
parar um pouco? A grama parece tão aveludada quanto você.
— Sim — Sarah concordou, os olhos fechados. — Oh, sim.
Os dois chegaram tarde no armazém, mas Maresh ainda estava no
local do imenso prédio semelhante a um hangar quando
apareceram, o corpo poderoso coberto por um macacão azul,
checando a carga com seus funcionários. Ele desistira de tentar
vestir-se como um executivo — era desconfortável demais. O rosto
grande e quadrado exibiu um largo sorriso ao recebê-los.
— Então Joshua finalmente se casou! Ele nos escreveu. Anna e eu
abrimos uma garrafa de vinho para celebrar. — Foi caminhando na
frente, até o pequeno escritório. — Vamos tomar café — falou,
puxando as cadeiras para ambos. — Como estão as crianças? —
Sentou-se logo após servir o café, e rapidamente trocaram notícias
sobre a família. Depois fechou a porta do escritório. — Sobre o que
desejam falar primeiro?
— As armas — respondeu Sarah.
Maresh assentiu com a cabeça, retirando uma pasta do cofre na
parede. Logo ficaram absorvidos nas providências a serem tomadas
para remeter a Boston as armas pequenas que Maresh escondera no
armazém. De lá a carga faria uma baldeação de trem para o Canadá
e, depois, seguiria de navio para lugares escolhidos na Palestina.
— Tomara que um maior número de armas chegue ao destino desta
vez — comentou Lazar.
— Os britânicos andam confiscando muito?
— Eles não são estúpidos. Conhecem a costa tão bem quanto o
Haganah.

— Joshua escreveu que a situação está muito ruim na Europa,
piorando para todos.
— Está mesmo, Maresh — concordou Sarah com ar sombrio. —
Hitler acha que russos, poloneses e ciganos não são muito melhores
do que os judeus. Todos inferiores, só servem para o trabalho
escravo.
Maresh levantou-se, os maciços ombros tensos sob o macacão azul,
o rosto perplexo.
— Não gosto de agir às escondidas de Arnold, mas sei que ele
nunca concordaria se eu lhe pedisse. E este é o único meio de ajudar
que tenho. Talvez devesse voltar à Polônia, ou até mesmo ir à
Palestina, e fazer alguma coisa ao invés de deixar que vocês se
encarreguem de tudo.
— Eu me sinto da mesma maneira — afirmou Lazar. — Mas nós
dois somos úteis aqui. Se Josh precisasse de nos lá, nos avisaria.
— Sim — concordou Maresh. — Ele disse que faria isso. — Olhou
para Sarah, com o cenho ainda franzido. —1 Quer examinar os
documentos do estoque?
— Não, simplesmente mande para Nova York, como sempre. Quero
saber se há bastante espaço aqui para guardar uma grande
quantidade de um novo material para a Duquesa—
Arranjarei espaço — prometeu Maresh.
— Bem, prepare-se, garoto. Vamos fabricar perfume e, no ano que
vem, estaremos nadando em dinheiro. E necessitamos de tudo o que
seja possível obter.
Levou dezoito meses para se poder transformar as idéias de Sarah
em realidade lucrativa. Para alegria de Arnold, o pai de Naomi se
ofereceu para encontrar uma propriedade para o balneário na
Califórnia, e Arnold ficou aliviado por encarregá-lo das pesquisas
que tanto tempo consumiam. Martin era quase sempre difícil de
lidar. Ainda julgava haver muitas coisas que poderia ensinar a
Arnold nos negócios.

Assim que compraram a propriedade, pareceu uma boa idéia deixar
Martin supervisionar a ampla reforma do lugar — e era muito
lógico que se mudasse para lá com Leah, a fim de inspecionar o
balneário diretamente do local. Embora Martin fosse uma pessoa
importuna, Arnold podia confiar nele inteiramente. Isso também
resolvia o problema dos pais de Arnold: Los Angeles tinha um
clima melhor para eles do que Nova York.
No início de dezembro de 1934, os portões de ferro batido do
Domínio foram abertos, encimados pela coroa de cinco pontas da
Duquesa. Após uma festa de inauguração, Arnold e Naomi
retornaram a Nova York com Sarah e Lazar. O Domínio se encheu
de clientes desde o princípio.

— Comecei como alfaiate — Martin disse a Naomi pelo telefone,
naquele Natal — e termino aqui como um fino fazendeiro. E sua
mãe é governanta de um bando de nafkas enfeitadas.
— Papai — Naomi riu dele. — O simples fato de fazerem dieta e
exercícios não significa que sejam prostitutas.
Quem se importa com isso, contanto que o dinheiro continue
entrando? Estamos funcionando há apenas três semanas e já temos
reservas para os próximos seis meses! O clima e maravilhoso.
Leonard e Manya sentem-se como pintinhos primavera. A única
coisa de que sentimos falta é de vocês,crianças. Quando você vem
passar uma temporada neste palácio?
— Logo que puder, papai, depois do ano-novo. Agora estamos
iniciando a campanha de propaganda para o novo perfume.
— E a minha garotinha descobriu a imagem perfeita para isso.
Arnold me contou na última vez em que esteve aqui. Estou
orgulhoso de você.
A própria Naomi estava orgulhosa da estampa. Enquanto Otto
Einhorn produzia sua fórmula, semelhante ao novo e fabuloso
Arpege, mas com uma diferença sutil — "outra nota básica", ele
explicou, no jargão dos perfumistas —, e Arnold iniciava a

fabricação, Naomi tinha procurado em toda a parte até achar a
imagem certa para os anúncios. Dúzias de desenhos e retratos
foram recusados.
"Frio demais", sentenciou Sarah. Ou "Esnobe demais, ela dá a
impressão de que só tira a calcinha para mijar." Finalmente Naomi
recorreu à própria imaginação para o que pretendia. Contratou um
pintor, descreveu a cena e fez com que lhe apresentasse dezenas de
esboços até estar certa de que a pintura teria o romance, o fulgor
dourado que queria.
Era de uma jovem posando para seu retrato em uma túnica branca
estilo Império, a coroa da Duquesa sobre o cabelo louro. O artista de
cabelos escuros acabava de levantá-la da cadeira em um abraço
delirante. Enlaçava-a com um braço forte, a mão livre erguendo a
palheta para lançá-la de lado no momento seguinte, o quadro ainda
incompleto e quase esquecido no fundo, enquanto ambos se
entregavam à paixão, o corpo da modelo curvado para o dele.
Havia um arrebatamento na cena, uma possessão da fêmea pelo
macho, que fascinava a todos que a viam. O contraste entre a pose
discreta do retrato inacabado no fundo e o total abandono nos
braços do artista era mais do que sugestivo.
"É ultrajantemente sexy", declarou Sarah. "Não há nenhuma dúvida
sobre o que vai acontecer a seguir, que está quase acontecendo no
momento em que olhamos. É perfeito, Naomi." Virou-se para
Arnold. "Isso venderia um milhão de galões, mesmo que o perfume
não fosse tão bom quanto é."
E Arnold concordou com a irmã, desconcertado com algo no retrato
e com a mudança ocorrida em Naomi, desde que começou o projeto.
Agora ela estava sempre ocupada, porém menos tensa. Quase como
a Naomi do passado. Era uma alegria ser recebido em seu quarto: às
vezes ela chegava até a ir ao seu.
Ele sempre teve certeza de que Naomi trazia em si o
tipo de paixão que era abrasadora como a daquele retrato,


paixão que ela nunca lhe havia mostrado. Isso lhe proporcionaria
mais prazer do que o sucesso.
A pintura original estava pendurada sobre a lareira da sala de estar,
e ele costumava estudá-la, tentando chegar ao fundo daquilo. Em
suas ricas tessituras e seu sublime romance, o quadro simbolizava a
natureza dos negócios de Arnold e sua fenomenal ascensão. Ele
gostaria que também fosse um símbolo de seu casamento.
Mas ao menos tinha novamente o calor da afeição de Naomi, se não
podia ter o calor do seu desejo. A afeição retornava em um
momento crucial, após meses de abstinência, exatamente quando
estava prestes a ter um caso com Annalise Becker, uma das
químicas principiantes da Duquesa, uma jovem quieta refugiada
que parecia tão necessitada de alguém quanto ele. Mas Arnold
nunca quis apenas sexo. Sentia-se atraído por Annalise, mas era
Naomi que queria e o sentimento que ela lhe recusava. Não podia
mais culpar o irmão por essa recusa. Joshua estava longe há anos,
em contato apenas por meio de cartas ocasionais, casado com outra
mulher. Arnold não tinha ninguém a quem culpar — ninguém a
não ser a si mesmo — por querer alguém que não conseguia ter, que
talvez nem mesmo existisse. Resolveu contentar-se com o que a vida
lhe oferecia.
E, ao terminar o ano de 1934, a vida lhe oferecia muitas coisas.
Arnold decidira deixar o Natal passar e lançar o novo perfume
quando as pessoas não estivessem distraídas com outros tipos de
presente. De qualquer modo, perfume era um luxo — e os ricos
estariam sempre lá, tão seguros quanto a agora famosa coroa da
Duquesa.

— Espere até o perfume sair — disse Sarah a Lazar com um ar de
profunda satisfação. — Eu mesma vou usar uma coroa.
Estavam a caminho do apartamento de Arnold, para a festa da
véspera de ano-novo. Lazar olhou para a esposai sentada ao seu
lado no banco traseiro da limusine de Arnolda Sarah usava um


vestido de moiré preto e justo, com decote baixo e mangas
compridas. O cabelo tinha crescido e agora estava puxado para trás,
em um coque baixo. Uma longa capa de lã negra adornada de pele
de raposa caía-lhe pelos ombros.

— Você não precisa de uma coroa — replicou Lazar. — Sabe como o
negro acentua o tom da sua pele, especialmente o cabelo, quando
está nua. Nunca mais torne a cortá-lo.
— Você também está bonito. E agora usa traje de noite como se
fosse o Janota de quem tanto me fala. Quando vou à Palestina com
você?
Lazar fizera muitas viagens curtas sem ela, esperando poder ficar lá
e mandar buscar Sarah e os filhos. Mas executava seu trabalho bem
demais. Transformara a arrecadação de fundos em uma ciência, e o
dinheiro que recolhia, até mesmo durante esses magros anos de
Depressão, era absolutamente essencial.
— Logo — ele respondeu.
— Este logo nunca será cedo demais para mim — insistiu Sarah.
O carro parou, e os dois atravessaram o vestíbulo enfeitado de
ouropel e subiram para o apartamento de Naomi. Aquela era
predominantemente uma festa familiar. Arnold não tinha vida
social, exceto para assuntos de negócios, e nunca em casa,
preferindo a publicidade das grandes recepções, dos jantares e
bailes de caridade. Nesse ano, havia um grupo ainda menor do que
o de sempre: Leah e Martin e os Fursten estavam ausentes. Mas
Otto Einhorn se achava lá, além dos irmãos de Naomi, Simon e
David, com as esposas, duas moças simpáticas que, assim parecia a
Naomi, não falavam de outra coisa senão de roupas e bebês. Maresh
e sua Anna tinham vindo da Filadélfia. Isso era uma tradição,
apesar de Maresh sentir-se terrivelmente constrangido em meio a
todo esse esplendor, a não ser quando Sarah estava por perto.
Eles formavam um gracioso grupo de pessoas, conscientes da sua
boa sorte ao entrarem no ano de 1935. Todos haviam trabalhado
duro para progredir, mesmo que parecesse assustador alcançar

tanto êxito em meio a uma depressão. Valorizavam o sucesso, mas
tendiam a guardar para si o prazer que isso lhes proporcionava.
Celebravam com tranqüilidade até mesmo uns com os outros e,
como os negócios absorviam totalmente a maioria deles, em geral
acabavam falando sobre a Duquesa, tal como Arnold fazia agora.

— Aquele projeto nunca vai passar — garantiu.
— Qual projeto? — indagou a esposa de Simon. Ela sempre
mostrava interesse pela Duquesa na presença de Arnold.
Sarah riu.
— Eles pretendem restringir o que chamam de propaganda "superromântica"
de roupas e cosméticos. Dizem que é ruim para as
mulheres, que lhes dá uma perspectiva irreal da vida.
Lazar balançou a cabeça, atônito. Abismava-o que o Congresso
estivesse interessado em romances, enquanto Hitler abandonava a
Liga das Nações para iniciar o rearmamento do país, e Churchill
prevenia a Câmara dos Comuns de que a força aérea alemã
ultrapassaria a britânica dentro de um ano. Mas até mesmo Lazar
tinha de admitir que o amor, tão representado nos livros e cinemas
americanos, era estranhamente antiséptico: segundo as palavras de
Sarah, "nenhum som, nenhum suor, nenhuma dor de cabeça, apenas
ondas quebrando na praia e final feliz". Bem, a sua própria história
era o único final feliz que Lazar via nesse especial círculo de amigos.
Joshua sofrera anos de indecisão até finalmente casar-se com
Rachel. E a vitória de Joshua significou a derrota de Ben.
— Seria de se supor que o Congresso dos Estados Unidos tivesse
melhores coisas com que se preocupar — disse Naomi.
— Os americanos já têm muito com que se preocupar '— concordou
Arnold, olhando de relance para Lazar. — Não estão interessados
em disputas européias. E com razão. — Este era o único assunto
sobre o qual Arnold e Lazar discutiam.
— Pois estão errados — insistiu Lazar. Só em raras ocasiões ele
levantava a voz. Mas quando isso acontecia, as pessoas o ouviam,
como estavam fazendo agora. Naomi lançou a Sarah um olhar

ansioso, mas Sarah limitou-se a encolher os ombros de leve. Se os
dois homens estavam determinados a tirar a limpo essa questão
mais uma vez, não havia nada que pudesse fazer a respeito. Brigas
aborreciam Naomi. Sarah não se incomodava com elas.
Arnold ignorou a opinião de Lazar como o faria com um projeto de
negócios não lucrativos.

— Não adianta discutir isso — concluiu com ar de superioridade.
— Acha que poderá mudar os fatos, se não discuti-los?
— Lazar estava impaciente, quase sarcástico. — Você enterra a
cabeça na areia como. . . . Como. . . — Procurou a palavra em
inglês.
— Uma avestruz — respondeu Sarah, erguendo uma sobrancelha
para Arnold em sinal de advertência. Uma coisa era ser arrogante
com seus subordinados no trabalho, mas não podia ignorar Lazar
com aquela sua autoridade majestosa, não neste assunto.
— E seu irmão? — indagou Lazar asperamente. — Está se
esquecendo dele? O que acha que ele está fazendo, correndo de lá
para cá na Europa, contrabandeando armas para a Palestina como
um ladrão?
Arnold ficou imóvel, a voz fria como sempre ocorria quando estava
zangado.
— Só porque Joshua escolheu fazer isso não significa que seja uma
necessidade. Ele não é Deus!
Maresh se mexeu, inquieto.
— Mas precisa ser feito, Arnold. Josh não mentiria.
— É lógico que precisa — acrescentou Einhorn.
Os outros estavam calados. Arnold tratava estes dois com uma
consideração que não estendia a Martin e seus filhos.
— Mesmo que seja necessário, e não estou concordando com você,
não quero ter nenhuma participação nisso.
— Não pode estar sendo sincero — Sarah explodiu, olhando aflita
para o rosto vermelho e perturbado de Maresh.

— Você ajudaria muito se pudesse, sabe que sim. Oh, pelo amor de
Deus, vamos conversar sobre outra coisa. Supõe-se que isto seja
uma festa!
Arnold olhou para Lazar fixamente, do jeito que às vezes olhava,
pensou Naomi, quando as pessoas falavam sobre Joshua.


— Não quero ter nenhuma participação nisso — repetiu.
Lazar hesitou apenas um segundo, depois a expressão do rosto de
Arnold o fez decidir-se.
— Você já tem — disse. E contou a Arnold que o armazém na
Filadélfia fora uma escala de trânsito para os carregamentos das
armas.
O silêncio na sala era absoluto.
— Foi minha idéia — explicou Lazar. — Eu não devia ter
convencido Maresh de que você gostaria de ajudar, mas farei tudo o
que precisar fazer, mesmo que contrarie os desejos de um homem
cuja capacidade admiro.
O rosto de Arnold era uma máscara de fúria e incredulidade.
— Sim, eu o respeito — continuou Lazar. — Exceto quanto a
esta questão, que você se recusa a reconhecer, só Deus sabe o
motivo. — Ergueu-se, o corpo alto e desafiador.
— Quer que a gente vá embora?
— Oh, Arnold, por favor — intercedeu Naomi. — Eles vão parar de
usar o armazém de agora em diante. Não vão?
— Seus olhos imploravam a Lazar que concordasse.
— Já tomamos outras providências há muito tempo — respondeu
Lazar. — Mas faria tudo de novo amanhã, se fosse necessário.
Arnold conseguiu engolir um pouco de champanha, a fim de aliviar
o aperto na garganta. Não podia arriscar-se a ter um
desentendimento declarado com Sarah, Maresh e Otto por causa de
Lazar! Gostava de Lazar, muito embora ele fosse louco. Acreditava
mesmo que o sentimento fosse mútuo. O que não conseguia aceitar
era a influência que Joshua exercia sobre todos eles. Maresh não o
via há anos, e Einhorn nem o conhecia. Será que precisaria estar

eternamente sujeito à influência do irmão, direta ou indireta, até
mesmo a ponto de que isso afetasse seus negócios? Essa era a única
coisa na vida de Arnold que ele julgava ser exclusivamente sua.
Olhou sobre a borda da taça, controlando o impulso de gritar com
as pessoas presentes. Se somente Joshua estivesse aqui, o verdadeiro
alvo de sua fúria, poderia tê-lo feito. Ma essas pessoas eram tão
dominadas por Joshua quanto ele Todos eram vítimas, reféns da
força de vontade, caráter oupersonalidade de um homem que não se
importava o suficiente com nenhum deles para permanecer na
América, onde per tencia.

— Bem, você é honesto — disse Arnold a Lazar. — Tenho que
admitir isso em seu favor. — Manteve a voz baixa, de modo que
ninguém a ouvisse tremer. — E o que está feito, está feito, ao diabo
com tudo. — Podia sentir com as pessoas na sala cheia relaxaram.
— Agora sabe o que penso
Sentiu a mão de Naomi em seu ombro, apaziguadora, apre ciativa.
Ela inclinou-se para pegar o copo de Arnold, beijando lhe a testa.
— Venham todos, por favor — falou Naomi. — I muito champanha.
Capítulo 12

GIORA — dia do ano-novo de 1935

Natan Markevitsch ergueu os olhos ansiosos do fogo ç remexia,
quando Isaac saiu do quarto de Rachel.
—O que é?


— Um garoto! — respondeu Isaac com um enorme sorriso. — Uma
obra maravilhosa, um bebê! — Vestiu pesada jaqueta e agachou-se

perto do fogo. A barba orlada de branco balançava enquanto ele
fumava cachimbo.

— Como está Rachel? — Ben Horowitz quis saber.
— Outra obra maravilhosa! É uma coisa fantástica ver uma mulher
forte e saudável dar à luz uma criança forte saudável!
— Ela não deu nem um grito — comentou Nata pensando em sua
frágil esposa, Aviva, que logo teria o segundo filho.
— Prometo que Aviva não terá um parto difícil — disse Isaac,
dando uma palmadinha no braço de Natan. — Você a trata como
porcelana chinesa, mas ela realmente não vai quebrar.
O Janota deitou-se de costas, contemplando as estrelas. Havia
perdido um pouco do brilho da juventude, mas ainda tinha as
feições finas e a aparência impecável que lhe valera o apelido.
—Estamos envelhecendo. Lazar tem dois filhos, Natan está quase
no segundo e agora Rachel tem o primeiro. Realmente me sinto
velho.
— Case-se — Isaac o aconselhou. — Vai sentir-se jovem. Mas Ben
pareceu não ouvir.
— Onde está Josh agora? — indagou.
— Quem sabe? — respondeu Isaac. — Em alguma parte da Europa,
tentando fazer homens cegos enxergarem. Ele e Lazar estão sempre
viajando. Apesar disso, Josh tem enviado um bocado de trastes
velhos. Mas ele diz que a Alemanha está produzindo uma incrível
quantidade de armas. E Ari imagina em quem Hitler vai
experimentá-las primeiro.
— Eu ficaria muito feliz em experimentar as armas por ele aqui
mesmo — retrucou Natan.
— As coisas estão relativamente calmas nos últimos tempos —
observou Ben. — Talvez o problema esteja terminado.
— Vamos lá, Ben! — objetou Natan. — Todos os dias há mais
judeus vindo da Alemanha e da Polônia, e os árabes ficam mais
zangados a cada um que chega.

— Mas a prosperidade fala mais alto — insistiu Isaac. Agora havia
catorze mil comerciantes judeus na Palestina, triplicados em sete
anos. A recessão estava finda. Os árabes tinham trabalho. —
Quando se tem prosperidade, as pessoas não andam por aí matando
umas às outras.
Natan não concordou.


— Existem árabes trabalhando para estas firmas, ganhando
dinheiro, tendo idéias. Os efêndis não querem que °s camponeses
tenham idéias. De qualquer jeito, se o que você diz é verdade, por
que estamos contrabandeando armas?
— Natan estava aborrecido, zangado. — Todos vocês estão
sonhando.
— Acho que devíamos beber um drinque em homenagem ao filho
de Joshua e, depois, dormir um pouco. — Ben ofereceu uma garrafa
de conhaque que tirou debaixo do cobertor.
— Proponho um brinde ao jovem Benjamin Fursten e sua mãe!
— Benjamin? Ben assentiu com a cabeça.
— É o nome do pai de Rachel. — Passou a garrafa em torno do
pequeno círculo de amigos.
— Quem vai telefonar a Josh? — perguntou Natan.
— Ari — contou Ben. — Vou encontrá-lo em Haifa de manhã. Ele
deve saber onde Josh está. Alguém vai partir amanhã?
Todos balançaram a cabeça.
— Não chegaram ordens de Ari --respondeu Isaac.
— Natan quer ficar até o bebê nascer, se puder. E eu estou enterrado
aqui. É o que consigo por ser médico.
— Você sabe que precisamos de um lugar central para onde mandar
quem for baleado por uma patrulha britânica — explicou Ben.
— Ou esfaqueado por um árabe — acrescentou Natan.
— De qualquer modo — prosseguiu Ben, após uma pausa —, você
se diverte um pouco fazendo partos.
Isaac sorriu.

— Nisso me divirto mesmo. — Levantou-se, sacudindo o cachimbo.
— Agora darei outra olhada em meus pacientes.
— Vou liberar Aviva. Leve-a para casa, Natan, ela precisa
descansar. Ficarei esta noite com Rachel. --Voltou para o quarto e
fechou a porta.
Ben se levantou.
— Vá com calma, Natan. Não podemos lutar contra os britânicos, os
árabes e Hitler ao mesmo tempo. Precisamos proteger nossa gente
do perigo mais iminente e enfrentar o maior de todos.
— Eu sei — Natan suspirou. — Mas algum dia terei de lutar contra
todos eles. Simplesmente não consigo esquecer o que aconteceu na
Rússia, em Kishinev, em Odessa. Não posso esquecer o que
aconteceu aqui em Hebron, em Safed, e apenas a um quilômetro de
distância. Acho que nasci com a lembrança dos ataques, estupros e
carnificina nos ossos. Foi por essa razão que vim para a Palestina. E
sinto a mesma coisa aqui. Isso acontece com todos os judeus? Você
se sentia assim na Inglaterra, onde nunca houve nenhum pogrom? E
será que Joshua também sentia a mesma coisa na América, onde
estava seguro?
— Não sei. Sei apenas que, até termos nosso próprio país, isso é algo
a se temer. Portanto, poupe a fúria e as energias, Minotauro. Vai
precisar delas. — Pôs a mão no ombro forte de Natan por um
momento, depois o deixou junto ao fogo.
O rosto de Natan estava sombrio de preocupação até que Aviva,
caminhando pesadamente na gravidez já muito adiantada, saiu do
quarto de Rachel. Ele então ergueu-se, e seu rosto se iluminou com
inacreditável amor. Ainda não podia acreditar que essa bela
criatura, o rosto semelhante a uma flor, o cabelo muito louro, longo
e sedoso, fosse sua esposa, que o amasse. Aviva sorriu quando
Natan a abraçou com cuidado, abotoando a jaqueta para protegê-la
do frio.
— Espere até que o veja — ela disse. — É adorável.

— Você é adorável — replicou Natan, as mãos grandes
emoldurando-lhe o rosto. Depois chutou a areia na direção do fogo,
apagando-o cuidadosamente.
Dirigiram-se ao quarto, na ala dos aposentos dos casais. O poderoso
braço esquerdo de Natan a enlaçava com gentileza. A mão direita
carregava o rifle.
Da escuridão, Ben os viu juntos, desejando Rachel. Tinha aprendido
a suportar sua condição de mulher casada, mas nunca deixou de
querer tomar conta dela, de amá-la.
Joshua devia estar aqui. Devia ter movido céus e terras para estar
aqui, quando Rachel desse à luz o filho dele.
Benjamin.
Parecia-lhe certo que o pai e o filho de Rachel tivessem o seu nome.
Ela nunca conhecera o amor de um pai — e Ben estava com ela mais
do que o marido. Se não podia viver com Rachel, ao menos podia
estar perto dela. Isso era melhor do que nada.
Capítulo 13

NOVA YORK — Janeiro de 1935

Este vestido tinha de ser perfeito, Naomi sabia. O jantar para
arrecadar fundos proporcionaria outra oportunidade para o Rabino
Stephen Wise condenar abertamente, naquela sua voz trovejante, o
anti-semitismo raivoso de Hitler, que se propagava pela Alemanha
como um fungo malcheiroso. O jantar levantaria o dinheiro para
auxiliar aqueles que tentavam escapar da Europa, principalmente as
crianças. Naomi queria desesperadamente presidir esse comitê, e as


mulheres de sociedade que resolviam tais assuntos baseavam suas
decisões nas aparências.
Ela acabava de trazer o vestido para casa, após a prova final, mas
queria ter certeza. Postou-se diante do espelho de três faces no
quarto de vestir, examinando-o de todos os ângulos. Eram camadas
de chiffon azul pálido sobre uma combinação justa de cetim em azul
mais escuro, a cor de seus olhos. Os sapatos de cetim foram feitos
sob encomenda. Usaria luvas brancas de pelica, compridas até o
cotovelo, a bolsa de contas em tom pastel que Sarah lhe trouxera de
Paris e as safiras.
Ouviu a criada saudando Arnold. Ele estava em casa mais cedo.

— Venha cá um minuto, sim, querido? — pediu. — Quero que veja
o que comprei para a semana que vem,
Arnold atravessou o quarto branco, passando pela cama coalhada
de travesseiros de todos os formatos e tamanhos, em fronhas de
organdi bordadas a mão. A colcha era de renda branca sobre cetim
também branco. Sedosos tapetes brancos de pele de urso estavam
espalhados sobre o chão de mármore. Era como um cenário de
cinema, mas, na opinião de Arnold, aquele sempre fora um quarto
frio, proibido.
Ele parou na porta do quarto de dormir quando Naomi se virou,
muito delicada no chiffon azul, fino e flutuante, o corpo castamente
revelado pela combinação colante de cetim-
Arnold fez um gesto com a cabeça em sinal de aprovação, quase
comovido demais para falar. Ela tinha uma aparência tão jovem, tão
bela, tão dourada quanto a que exibira no dia do casamento. Naomi
lhe dissera que nunca poderia amá-lo mais do que já o amava
naquele dia. E realmente nunca fora mais do que isso. Precisava
aceitar o fato de que jamais seria. Então por que esta dor dentro de
si pelo que nunca poderia obter?

— Custou uma fortuna — Naomi estava contando. — Portanto,
espero que gostem. Se quero presidir aquele comitê, preciso ter a
aparência certa. — Sorriu. — Não importa com quanto dinheiro
você contribua.
— Isso é realmente importante para você, não é? — Nunca havia
pensado na possibilidade de Naomi ter uma vida independente da
que levava com ele.
— É uma chance de realizar algo importante. Preciso fazer alguma
coisa por conta própria. — Ergueu a sobrancelha. — Sarah disse que
é idiotice ter de parecer elegante para ajudar, mas é assim que as
coisas são.
— Isso é o tipo de coisa que Shai diria. — Ele acabara de receber
outra notícia da irmã que o havia perturbado. Imaginou como
contar a Naomi sem dar ao fato importância demasiada. Ficou
parado, olhando para ela. Estava impecavelmente vestido, como
sempre, em um terno cinza listrado e feito sob medida, de modo a
favorecer a figura esbelta e a estatura mediana. A camisa era de um
branco alvíssimo e imaculado; ele guardava um estoque delas no
escritório e as trocava várias vezes ao dia. A gravata era cor de
granada escura. O rosto continuava atraente como antes, os
mutáveis olhos verde-acinzentados sendo o detalhe mais notável.
Porém sua expressão possuía agora um ar de autoridade. Qualquer
pessoa que olhasse para Arnold Fursten sabia ser ele um homem
que tomava decisões e dava ordens.
Naomi sentia os olhos do marido pousados nela.
— Por que não prepara um drinque para nós? Vou vestir algo mais
confortável para o jantar. — Não tinha muita certeza se estava
disposta a fazer amor essa noite.
Não a desagradava que Arnold a desejasse. Isso era um conforto.
Mas ficava feliz que o relacionamento íntimo dos dois tivesse se
acomodado em uma ligação tranqüila e amigável, e feliz também
por Arnold estar disposto a deixar à sua escolha a freqüência e a
atmosfera em que ocorreria. Às vezes as técnicas que experimentava

para excitá-la não eram nem um pouco tentadoras, mas ele nunca
insistia.
Naomi havia superado o choque emocional resultante da perda de
todos aqueles bebês e agora usava algo para evitar o risco de outra
gravidez. Sua vida interior era quase tão serena quanto a exterior.
Até mesmo os devaneios com Joshua mudaram. Os sonhos
transformaram-se em pequenos tesouros a serem desenterrados nos
momentos de quietude, como cochas em dias chuvosos. Não
encerravam mais a ânsia erótica que corroía sua vida secreta.
Não, decidiu, não estava disposta a fazer amor essa noite. Trocou de
roupa rapidamente e atravessou o quarto, abotoando o severo robe
negro, sem perceber que o contraste da pele ebúrnea e do cabelo
louro-avermelhado como o veludo a tornava ainda mais desejável
para Arnold.
Enquanto bebiam um copo de xerez, os dois conversaram
calmamente sobre qual seria provavelmente a primeira reação aos
anúncios da Duquesa, há pouco veiculados em todas as revistas
sofisticadas, sobre os pais na Califórnia e quando poderiam ir juntos
visitar o Domínio. Os Held pareciam perfeitamente felizes por
administrarem o lugar; os pais de Arnold estavam contentes,
embora tivessem saudades de Rivington Street. Arnold sabia que
eles só sentiam falta de Joshua, sempre Joshua. Com sua ausência,
ele lançava sobre todos uma sombra mais poderosa do que Arnold
conseguia quando estava lá na Califórnia com eles. O que diriam os
pais sobre o mais recente triunfo do filho pródigo? Um herdeiro.
Olhou de relance para a esposa com ar inquieto.
Quando a empregada anunciou o jantar, foram para a pequena
mesa na saleta com janelas que se abriam para a Quinta Avenida. A
grande mesa no salão de refeições só era usada para os jantares de
negócios ou com a família.

— Espero que esteja com vontade de tomar sopa — disse Naomi
quando a empregada colocou a terrina de prata sobre a mesa e
retornou à cozinha. — Esteve tão frio hoje. Achei que você gostaria.

— Encheu com a concha os pratos fundos de porcelana Wedgwood,
o bonito tom de azul formando um agradável contraste com a
toalha branca de damasco. Arnold serviu o vinho. Naomi sempre
tinha vinho na mesa, junto com flores e candelabros, mesmo que
fizessem a refeição a sós.
Ele imaginou como seria a mesa em Giora e o pequeno quarto que
Joshua partilhava com a esposa. Havia perguntado a Lazar apenas
uma vez e recebido a resposta típica do cunhado desatento.
"A mesa é de madeira, o quarto tem quatro paredes e uma janela, se
tivermos sorte. Caso contrário, a coisa toda se resume a uma esteira
no chão." Lazar ainda ansiava pela vida dura e selvagem na
Palestina; os anos de luxo na América não o modificaram. Ele era
tão incompreensível para Arnold quanto Joshua.
— Arnold, você está bem? — Naomi tinha tomado algumas
colheres de sopa, mas agora o fitava com preocupação. Ele não se
mexia desde que servira o vinho.
— Sarah recebeu um telegrama de Joshua. Ele tem um filho, nascido
há mais ou menos dez dias.
Ela parou de comer, e os dois se olharam, como se Arnold tivesse
anunciado um acontecimento extraordinário. O silêncio estendeu-se
entre ambos por longo tempo.
— Você deve estar feliz por ter um sobrinho — Naomi comentou
afinal, tentando falar normalmente através do aperto na garganta. O
que enchia a alma de Arnold devia ser um misto de orgulho de
família e inveja angustiada.
— É lógico que estou! Por eles — respondeu Arnold, brincando com
a haste da taça de vinho.
— Pois não parece. — Naomi sabia que esse era um terreno
perigoso. Estava tentando ocultar os próprios sentimentos
turbulentos ao questionar os de Arnold, ou queria compartilhá-los
com ele? Era verdade que, afora seu interesse Pela Duquesa, ela não
podia dividir muitas coisas com Arnold, retraído como ele era.

Certamente não os sentimentos proibidos pelo irmão de seu marido.
Mas o que mais podiam compartilhar? Eles não tinham filhos.
A haste do cálice de Arnold quebrou, e Naomi olhou Para ela,
chocada demais para se mover ou chamar a empregada, vendo a
mancha vermelha se espalhar na toalha branca como uma poça de
sangue.


— Estou com ciúmes de Joshua! — A voz de Arnold era baixa, mas
violenta, e ele baixou os olhos para a mancha que se ampliava,
sentindo a antiga convicção de que nunca seria páreo para o irmão,
sentindo todas as suspeitas adormecidas sobre Joshua e Naomi se
espalhando junto à mancha de vinho. Ergueu para ela os olhos
acusadores, um caos de sentimentos no peito, incapaz de decifrar-
lhe a expressão do rosto. — Ele sempre consegue o que eu quero.
Arnold lhe implorara muitas vezes no passado que dissesse que o
amava. Mas nunca dera um nome à barreira existente entre os dois.
Naomi temia que a mencionasse agora. Ela simplesmente não
suportaria ouvir e fingir indiferença. Em pânico, deliberadamente
transformou aquelas palavras em um ataque contra si própria.
— Você é tão cruel! — exclamou, vendo a expressão do marido
mudar de uma suspeita abafada a assombro declarado. — Sabe que
desejo um filho tanto quanto você. Por que precisa me lembrar que
não posso. . . .
Ele se levantou.
— Naomi, nunca lembrei você de nada. Nunca disse uma palavra, a
não ser que foi uma pena. . . — Aproximou-se dela.
— Deixe-me em paz! — Sua voz o deteve. — Não chegue perto de
mim. Não me toque. Você tem pena sim, mas só de si mesmo. Todos
estes anos em que perdi um filho depois do outro, tudo o que você
fez foi insistir, me fazendo. . . Se é assim que se sente, por que não
se divorcia de mim e se casa com alguém que possa ter filhos como
uma vaca?
O rosto de Arnold estava branco.

— Divorciar? Sobre o que está falando? Você está histérica. Naomi,
por favor. — Estendeu a mão, mas não a tocou. — Sabe como me
sinto, o quanto a amo. Se não podemos ter filhos, isso não modifica
meus sentimentos. Acha que gosto de dormir em outro quarto
quase todas as noites? Isso só nos torna mais infelizes.
— Então não mencione mais o assunto — ela retrucou, a voz
estridente. — Pare de falar a esse respeito.
A raiva o dominou.


— Não era sobre isso que eu estava falando, diabo. Só disse que
meu irmão tem um filho. O que há de tão terrível
nisso?
Ela puxou nervosamente o guardanapo, rasgando a bainha feita a
mão.
— Você disse que Joshua sempre consegue o que você quer, sentado
bem aí, com cara de que isso é o fim do mundo. Disse que está com
ciúmes dele por causa da criança. Como acha que eu me sinto? —
Naomi se conteve — por ouvir você dizer isso, quero dizer?
Os olhos de Arnold, de um cinza furioso, a observavam com
atenção.
— Como você se sente realmente por saber que ele tem um filho?
O rosto de Naomi enrubesceu, devido à raiva e a um exame de
outras emoções que não queria identificar. O guardanapo rasgou.
Ela o pousou sobre a mesa e tocou uma pequena campainha de
cristal, os olhos ainda fixos nos dele. Quando a criada apareceu, a
voz de Naomi estava tão fria e límpida quanto o som da campainha.
— Não estou me sentindo bem, Maida. O Sr. Fursten tomará o café
no escritório, como sempre. Você pode se retirar depois de servir.
Boa noite.
A criada, uma figura bem arrumada no uniforme preto, deu boa
noite e foi buscar o café, tornando a deixá-los a sós.
— Não respondeu à pergunta — murmurou Arnold. —-Como se
sente por saber que eles têm um filho?
— Não quero mais discutir o assunto. Vou me deitar.

— Sozinha, naturalmente. Não é assim que se têm filhos, é?
Ela deu-lhe as costas sem responder e saiu em direção ao quarto,
passando pelo quarto de vestir e entrando no banheiro. Fechou e
trancou a porta, as mãos trêmulas de indignação.
Como ele pôde? Como pôde ser tão insensível? Não lhe havia dito
que a amaria a vida inteira? Esta era a derradeira traição. Ela podia
aceitar seu casamento, mas um filho com outra mulher? Às vezes
em que ela própria engravidou não
foram sua culpa. Tinha de se submeter ao marido. Fra um

dever de esposa.
Mas ele! Já era bastante ruim se casar por sexo —e que alguma
mulher forte e morena limpasse sua cabana, carre gasse água do
riacho e só Deus sabia mais o quê. Era sua culpa se não tinha sido

criada para viver assim? Ele devia ter ficado aqui na América, se
realmente a amava. Ela poderia ter filhos dele!
Examinou-se no espelho. Era tão mulher quanto a outra

com quem ele se casou. Não era alta, não era forte, mas era
tão mulher quanto a esposa dele, sua esposa! Pensou na esposa
de Joshua deitada debaixo dele. Pensou na mulher com o filho
de Joshua nos braços.
Despiu-se em silêncio. Encheu a banheira com água quente e entrou
nela. Lembrou-se da noite em que ele a beijou como se nunca se
cansasse de tê-la, como se quisesse imprimi-la em seu corpo pelo
resto da vida — a noite em que lhe implorou que fugissem juntos,
quando suas mãos moveram-se sobre seu corpo com tanta fome.
Oh, sim, era tão mulher quanto a outra. Iria provar isso a ele, ao
mundo inteiro. Sabia como todos a olhavam, fingindo apiedar-se
dela porque não podia ter filhos, fazendo com que se sentisse um
tanto incompleta, inacabada.
Enxugou-se, passou no corpo a loção cremosa da Duquesa e pegou
uma diáfana camisola. Não usaria anticonceptivo essa noite.
Escovou o cabelo, agora não tão curto, uma nuvem de ondas


ambarinas brilhando na luz. Voltou ao quarto e abriu a porta.
Arnold vestira uma. calça esporte e um pulôver e estava colocando

o paletó na sala de estar.
— Aonde vai? — perguntou Naomi, surpresa demais para deixá-lo
falar primeiro, como planejara que ele fizesse.
— Dar uma volta — respondeu Arnold, sem olhar para Naomi. Ia
telefonar para Annalise e perguntar se podia vê-la. Tinha certeza de
que ela o receberia. Sempre que se encontravam e trocavam umas
poucas palavras, a expressão de seus olhos lhe indicava que faria
isso. Ela não exigia nada em troca — Arnold não suportaria se ela
quisesse algo mais. Simplesmente queria estar com ele, e Arnold
necessitava de alguém que o quisesse.
-Não vá, Arnold — pediu Naomi, desejando que o namorado a
fitasse. Arnold se virou, os olhos movendo-se do rosto para o corpo,
os seios e as coxas que a luz vinda do quarto delineava claramente
sob a gaze. — Fique comigo. — Ela estendeu a mão.
-Naomi, por favor. Não quero mais discutir.
Nem eu. — Caminhou para junto dele, enlaçou-o e o beijou como
nunca fizera antes. — Desculpe pelo que disse. Fique comigo. —
Sua intenção era inconfundível.
Os braços de Arnold a estreitaram com força, e ele a beijou com um
misto de paixão e fúria que ao mesmo tempo a assustou e excitou.
Tirou o paletó. Continuou a abraçá-la enquanto se dirigiam ao
quarto.
Os olhos de Naomi estavam fechados quando Arnold a deitou na
cama, e quando começou a tirar-lhe a camisola, e fechados ficaram
quando a rasgou. Sentiu a língua dele dentro de sua boca, as mãos
correndo por todo o seu corpo, os dedos tocando-a, devassando,
puxando. Os olhos de Naomi continuaram fechados quando Arnold
segurou suas mãos estendidas, enquanto a cabeça dele descia para
os seus seios, e a boca acariciava-lhe os mamilos, fechados
permaneceram quando ele abriu-lhe as coxas com o joelho, quando
a penetrou, quando sentiu que se movia junto com ele.


Oh, Deus, pensou Naomi, deixe-me conceber. Por favor, por favor,
deixe que eu engravide e tenha uma criança desta vez. Deixe-me ter
um filho.
Arnold estava arquejante agora, bem como Naomi. Ela moveu-se
mais depressa até o som vindo dele indicar-lhe que estava tudo
acabado. Um longo estremecimento de triunfo, raiva e perversa
excitação sacudiu-lhe o corpo, assim como o alívio da tensão
sacudiu o dele. Arnold erroneamente interpretou isso como o
primeiro sinal de paixão correspondida em seu casamento e a beijou
em agradecida adoração, a fome satisfeita, a sede saciada. Ela o
soltou. Talvez tivesse que repetir tudo de novo, antes de engravidar.
Finalmente, Arnold deitou-se ao lado dela, acariciando-a. Naomi
continuou lá, sem ir ao banheiro, como costumava fazer para lavar-
se. Conservou os joelhos dobrados. Quis colocar um travesseiro
debaixo dos quadris para facilitar a concepção — sua mãe lhe
aconselhara isso certa vez — mas não queria mover-se muito.
Arnold se mexeu, e ela ficou tensa. Não de novo, não essa noite.
Não conseguiria fazer tudo outra vez essa noite Porém ele apenas se
inclinou para beijá-la.

— Amo você, Naomi. Lamento pelo que disse. — Imagerou o que
dissera.
— Tudo bem, Arnold. Esqueça.
— Naomi?
— Sim.
— Você me ama? — Sim, Arnold. — Ela deu palmadinha em seu
braço.
Isso era o máximo que podia dizer; mas, após receber de Naomi
uma resposta como nunca tivera antes, Arnold estava contente.
Logo adormeceu.
Naomi sorriu na escuridão, um leve e trêmulo sorriso que era mais
de ira do que de triunfo ou alívio. Nunca sonhou que pudesse agir
assim, mas havia coisas que eram insuportáveis, a não ser que se

tomassem providências a respeito, a não ser que se combatesse com
qualquer arma disponível.
Odeio você, pensou. Mas, se era este irmão que odiava ou o outro —
ou a si mesma — ou a todos aqueles que esperavam dela mais do
que era capaz de dar, não lhe era possível dizer.


Capítulo 14

GIORA — novembro de 1935

Palestina, Afinal! Sarah passou os olhos pelo pequeno quarto que
ela e Lazar ocupavam durante a primeira e rápida visita a Giora.
Lazar realizara muitas viagens antes, mas o Fundo acabava de
transferi-lo para a Palestina, para alívio e apreensão de Sarah. O
quarto era pobre e rústico, tal como Lazar aviso que seria. Apesar
disso, Sarah viveria nesse lugar alegremente, se ao menos ela e as
crianças pudessem ficar aqui com ele.
"Agora não", Lazar foi inflexível. "Não até trazermos para cá o
maior número possível de judeus, não até Hitler estar fora do
poder, não até estarmos seguros contra os árabes."
A agitação renascia entre os árabes. Com a decretação das Leis de
Nuremberg na Alemanha, há dois meses, privando formalmente os
judeus de direitos civis, educação, admissão a quaisquer profissões
ou às forças armadas, a maré cheia da imigração oriunda da
Alemanha transformara-se em inundação. A hostilidade árabe
cresceu junto com a população judia. O pequeno surto de
prosperidade da Palestina havia se evaporado, e novamente os
árabes argumentavam que o território não podia sustentar mais
colonos. Segundo eles, um aumento seis vezes maior na população


judia era demasiado. Exigiam o fim da imigração, o fim das vendas
de terra a judeus e um Estado governado pelos árabes.
A comunidade judaica insistia que era possível estabelecer mais
colônias no deserto árido, tornar cultiváveis mais áreas pantanosas,
sem privar os árabes de qualquer terra que ocupassem. Se nenhuma
outra nação estava disposta a elevar as cotas de imigração em face
das atitudes sinistras de Hitler, os britânicos deviam deixai os
judeus virem para a Palestina. A Declaração de Balfour garantira
um lar nacional para o povo judeu. Eles agora precisavam disso
mais do que nunca.
"Mas ninguém acredita que Hitler cumprirá suas ameaças , afirmara
Joshua em desespero na noite passada. "Até mesmo a maioria dos
judeus na Alemanha acredita que esse anti-semitismo é como uma
bolha que vai estourar no ar."
Contudo, Hitler não parecia estar fazendo ameaças vãs. A medida
que 1935 chegava ao fim, quase sessenta mil judeus vieram para a
Terra Santa por acreditarem que estavam em perigo. Mas o perigo
que deixaram para trás agora os ameaçava na Palestina, acenando
com o Crescente Fértil do Islã, ao invés da suástica.
Sarah suspirou. Sabia que logo regressaria aos Estados Unidos com
as crianças, que a separação dos dois duraria mais que em qualquer
outra época de sua vida conjugal. Porém, não havia outro jeito.
Nenhuma mulher com um porto segura na América tinha o direito
de privar outra mulher, outras duas crianças de casa e comida neste
país, de uma oportunidade de fuga da Alemanha, onde o perigo era
muito maior do que aqui.
Pegou a carta e a releu várias vezes, a fim de certificar-se de que a
primeira impressão estava correta. O nascimento de uma filha fizera
mais por Naomi do que cicatrizar as velhas feridas. Evitara o
surgimento de outras novas.
Não havia nada de específico no que Naomi escrevia, ma o
nervosismo frenético e inseguro não mais existia. Sarah tinha
certeza de que a cunhada não só estava feliz com o bebê, como


também satisfeita com a vida, algo que não acontecia desde a
primeira partida de Joshua para a Palestina, há quase oito anos.
Pôs a carta de lado e começou a vestir a calça de sarja e a blusa de
trabalho — traje padronizado aqui. Não podia reclamar. Os anos
que Lazar conseguira passar com ela na América foram uma
dádiva, não incluída na barganha que fizeram ao se casar. Não
podia reclamar, quando uma mulher como Rachel aceitava seu
próprio casamento a longa distância como algo natural. As esposas
sionistas sabiam o que esperar Trabalhavam com tanto empenho
quanto os maridos em prol de uma pátria e, se o trabalho os
separava, consideravam fato como parte do preço.
Sarah admirava Rachel. Embora as duas tivessem aproximadamente
a mesma idade, em geral Sarah sentia que Rache era muitos anos
mais velha, a despeito de sua aparência juvenil, com as longas
tranças negras enroladas na cabeça, quando trabalhava na pequena
fábrica de laticínios. Quando segurava o filho no colo, poderia ser
sua irmã mais velha.
Apenas os olhos escuros de Rachel e o queixo forte determinado
mostravam que ela era uma mulher. E era quando fitava Joshua que

o respeito pelo homem com quem se casara transformava-se em
amor de mulher. Isso era muito diferente Sarah tinha de admitir a si
mesma, do romance novelesco que ela própria vivia com Lazar, que
sempre viveria, não impor tava quantos anos juntos tivessem ainda.
O amor de Rache era calmo, sólido, equilibrado.
Mas também havia êxtase nele, Sarah estava certa disso. Sendo ela
própria uma mulher sensual, podia sempre perceber quando existia
uma espécie de corrente elétrica ligando um homem e uma mulher
— o tipo de corrente óbvia e predestinada que notara entre Naomi e
Joshua, ambos tentando ser polidos no casamento de Sarah, o tipo
de elo que nunca houve entre Naomi e Arnold.
Tornou a pegar a carta. Ao menos Naomi estava serena; melhor a
serenidade do que a aridez emocional existente nesse casamento até


agora. Se Naomi e Arnold pudessem conversar, até mesmo gritar
um com o outro. . . . Mas isso era pedir demais de pessoas que nem
mesmo podiam ser sinceras consigo mesmas.
Quanto a Sarah, sempre tinha jurado que preferia saborear um
breve período de êxtase do que toda uma existência de serenidade.
Pensava nisso agora, enquanto escovava o cabelo e o amarrava em
um rabo-de-cavalo com uma fita, tremendo de leve, embora o dia de
novembro estivesse ameno e agradável.
Depois saiu para se reunir a Joshua e Rachel.
Joshua a viu se aproximando do bosque de cítricos, onde Rachel e o
bebê estavam sentados sobre um cobertor, à sombra de uma
laranjeira.

— Ela parece maravilhosa — observou Rachel, fazendo eco aos
pensamentos dele. — Posso compreender por que Lazar não a
deixou escapar.
— Sarah sempre foi um bálsamo — concordou Joshua. E agora que
Lazar não está mais enclausurado em salas
de visitas, ele é . . . é tal como era quando o conheci. E você.
A mão afagou-lhe o cabelo escuro e luzidio, e Joshua sorriu Para ela.
— Você não é o mesmo — retrucou Rachel, tirando uma Pedrinha
da mão gorducha de Benjamin. — Está diferente.
— Sarah disse a mesma coisa na noite passada. Não creio que eu
tenha mudado muito, só que estou fazendo o que desejo. E estou
onde quero estar. E tenho você e Benjamin. Inclinou-se para beijálos.
— Pensando bem, isso é o baste para mudar um homem
completamente, não acha?
Rachel não fez comentário. Sempre ficava silenciosa nos momentos
em que outras mulheres diriam mais, perguntariam mais. Joshua
sentia haver muitas coisas em Rachel que ela não compartilhava
com ninguém, nem mesmo com ele. Não tinha a menor idéia de que
ela sentia o mesmo com relação ao que ele não dizia.



Sarah os alcançou e abaixou-se para pegar o bebê, segu-rando-o até
que desse gritinhos de prazer.

— Ele é realmente engraçadinho demais para ser real. É tão
ajuizado quanto a mãe e tão sábio quanto o pai. E, aos onze meses,
isso é engraçado. — Aconchegou a cabeça do bebê ao rosto. — Onde
está a minha tropa?
— Lazar levou as crianças à fazenda, para verem as vacas —
respondeu Joshua. — Sente-se aqui, Benjamin é pesado.
Ela sentou-se e pôs o bebê sobre o cobertor.


— Recebi uma carta de Naomi. Manda suas bênçãos a vocês três.
Conta que ainda não consegue acreditar que tem um bebê. E nem
Arnold.
— É uma pena que não possa ter outros — comentou Rachel,
inclinando-se para beijar a orelha de Benjamin.
— Nenhum dos dois se importa. Julie é incomparável, então é
bastante natural que seja filha única. — Sarah riu.
— Ela diz que Arnold já a está mimando. Com seis semanas!
— Eles devem estar tão felizes! — falou Rachel.
— Deus, tomara que sim — replicou Sarah. Os dois a olharam
fixamente. — Depois de todos aqueles abortos, quero dizer —
acrescentou depressa. Sarah nunca mais conversara com Joshua
sobre seus sentimentos para com Naomi, desde a noite em que ele
levou Lazar ao apartamento em Rivington Street. Olhou de relance
para o irmão. Joshua estava brincando com o filho, mas havia uma
tensão nele que não existia antes. Sarah tentou freneticamente
pensar em algo para dizer, a fim de mudar de assunto, de preencher
o silêncio.
Seus olhos encontraram os de Rachel, e as duas mulheres fitaram-se
por uma fração de segundo, no tipo de código feminino que revela
mais do que horas de conversa.
O momento passou, e Joshua se levantou.

— Vou procurar Lazar e as crianças. Se vamos a Tiberíades, está na
hora de ir andando.
Entregou Benjamin a Rachel e caminhou em direção à fazenda,
naquelas mesmas passadas longas de que Sarah se recordava desde
a meninice. Nada foi dito até Joshua dobrar a esquina e sumir de
vista.
— Ele enviou um retrato nosso para o irmão em Nova York —
contou Rachel. Finalmente sabia quem ela era, mas queria saber o
motivo. — Espero que nos mandem um deles.
— Tenho certeza de que sim — garantiu Sarah. Tornou a olhar para
Rachel. — Sabe, Josh está muito feliz.
Rachel assentiu com a cabeça.
— Ele acabou de me dizer a mesma coisa. — Mas isso foi antes que
o comentário sobre a filha de Naomi o deixasse tenso, distante, do
jeito como costumava ficar.
Certos sentimentos, pensou Sarah, nunca desapareciam.
Simplesmente mudavam de lugar.
Capítulo 15

NOVA YORK — novembro de 1935

Naomi segurava o bebê nos braços, ainda se maravilhando com esta
criatura que cruzara a grande linha divisória da inexistência para a
existência há somente seis semanas, uma criatura com pensamentos,
feita por causa de seus pensamentos.
A ira ciumenta e a perversa sexualidade que a impulsionaram à
concepção de Julie pareciam muito remotas agora. Toda a torrente
de perda, culpa e maternidade frustrada, o turbilhão de amor mal


direcionado que ameaçara engolfá-la estavam longe, no passado.
Naomi estava farta de se alimentar de sonhos; fora como a
sobrevivente de um naufrágio que matava a sede com água do mar

— só aumentando a sede.
No momento em que o bebê começou a mexer em sua barriga, ela
passou a viver na realidade, sabia agora o que sentia por Arnold:
confiança, orgulho por suas realizações e pela vida que ele lhe
proporcionava — e piedade por um tipo de amor que não podia
retribuir. Estava resolvida a con vencê-lo de que retribuía. Qualquer
outra atitude seria egoísta e injusta para com os dois — e sua filha.
Aconchegou mais o bebê ao seio. As coisas que essa cabecinha
aprenderia! Plumas e flocos de neve e trens. Sentimentos também.
Meiguice e fúria, piedade e orgulho. Protegeria Julie do pior,
enquanto lhe fosse possível.
A enfermeira veio pegar o bebê. A recuperação após uma cesariana
era muito lenta, reclamava Naomi. Especialmente porque fora
obrigada a passar quase toda a gravidez na cama, para evitar um
aborto. Mas Arnold insistia em que a esposa seguisse as ordens do
médico.
Ela sorriu, pensando nele. Arnold estava assombradíssimo com esse
minúsculo centro de seu universo. Ambos aceitavam o fato de que
Julie seria filha única. Sentiam-se tão afortunados em tê-la!
Naomi cochilou, ainda sorrindo. Arnold não a perturbou ao chegar
em casa, mas ficou contemplando-a por um momento, antes de
dirigir-se ao quarto da filha.
Ela significava tantas coisas para ele, essa garotinha, tão pequena,
indefesa, perfeita. Mas era algo mais do que uma filha. Era a prova,
a lembrança viva da primeira e única paixão de sua vida. Acima de
tudo, mais do que o sucesso do perfume Duquesa, lançado
aproximadamente na época em que Julie foi concebida, mais do que
os lucros extraordinários que o Domínio obtinha, essa criança
representava para Arnold a prova de que fora bem-sucedido:
Naomi o amava como ele queria ser amado. Estava certo em

guardar as suspeitas para si, em ocultar-lhe a mágoa. O tempo
fizera seu trabalho.
Não mais pensava na seqüência dos acontecimentos da noite em
que Naomi discutiu com ele pela primeira vez, e, depois, o seduziu
com tanto ardor. Havia decidido que ambos estavam nervosos e
sentia-se grato por não ter procurado Anna-lise Becker em busca de
um falso conforto. Não refletia mais sobre a pintura da Duquesa.
Sempre soube que a sensualidade por ele captada na pintura estava
em Naomi, sensualidade que ela afinal lhe oferecia, como uma bela
adormecida que desperta de um feitiço. Tinha certeza de que, tão
logo ela se recuperasse, os momentos de intimidade seriam tão
gratificantes quanto se recordava. A lembrança estava às portas da
consciência, todas as vezes em que olhava para a filha. Uma obra do
amor — achava que sabia o verdadeiro significado disso.
As antigas suspeitas sobre Joshua não existiam mais. Ele e o irmão
nunca se compreenderiam, mas isso não era motivo para desconfiar.
Os dois eram diferentes demais para que qualquer rivalidade fosse
significativa. Sarah havia dito isso certa vez, naquele seu jeito
perspicaz: "Como um pêssego pode sobrepujar um gerânio? Vocês
são duas espécies diferentes".
As últimas notícias de Sarah e Joshua eram assustadoras. Se
houvesse guerra na Europa, precisaria tomar providências
imediatas para assegurar a saúde do seu império em expansão. Os
suprimentos de atares e óleos essenciais necessários para a
fabricação do perfume vinham de todas as partes do mundo.
Mesmo que a guerra se restringisse à Europa, a remessa seria
interrompida. Arnold já estava iniciando o cultivo de flores no sul
dos Estados Unidos.
Acariciou gentilmente o rosto do bebê com o dedo, de cenho
franzido. Sarah devia voltar da Palestina. Antes de mais nada, lá
não era seguro. E havia decisões a serem tomadas por ambos a
respeito dos negócios. Ela tinha escrito muitas coisas sobre a
Palestina, e Joshua enviara uma carta carinhosa logo após o


nascimento de Julie, junto com um retrato dele, de Rachel e do bebê.
Agora os dois eram pais. Esta era uma linha que ambos cruzaram,
tênue, mas significativa, que os redefinia. Podia pensar em rever o
irmão com antecipação, afastando os ressentimentos para o fundo
da mente, esquecendo que um dia chegou a alimentá-los..
Arnold retornou ao quarto branco de Naomi. Ela estava acordada, e
ele abaixou-se para beijá-la.

— Como está?
— Bem, mas com uma preguiça vergonhosa. — Naomi sorriu
alegremente. — Acabei de tirar um cochilo. Gostaria que o médico
me permitisse retornar ao trabalho no comitê.
— E o bebê?
— O comitê não ocupa muito o meu tempo, Arnold. E você sabe o
quanto isso é importante para mim, ainda mais agora que temos
uma filha. Se algum dia ela tivesse que ficar abandonada como
algumas daquelas crianças. . . .
— Não ficará, jamais.
Naomi encostou a mão de Arnold em seu rosto por um momento.
— Aconteceu algo interessante hoje? Ele balançou a cabeça.
-— Gostaria que Sarah regressasse. Temos coisas a fazer.
— Sarah só deixará Lazar quando for absolutamente necessário. —
Naomi aninhou-se entre os travesseiros. — Será que Julie algum dia
vai conhecer o primo Benjamin?
— Podemos viajar até lá algumas vezes, quando as coisas estiverem
mais seguras. — Beijou-lhe a mão. — Vou tomar um banho de
chuveiro e me trocar para o jantar. — Naomi o viu sair em direção a
seu próprio banheiro, a postura o fazendo parecer mais alto do que
era. Até recentemente, só em raras ocasiões Arnold mencionava o
irmão. Agora estava pensando em ir à Palestina para visitá-lo!
Abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e retirou a fotografia
enviada por Joshua. Ele parecia o mesmo, mas era difícil dizer se
havia realmente mudado. Joshua era tridimensional. Sua essência

estava na maneira de andar, na voz, nas idéias. Tudo isso o tornava
maior do que a vida.
Imaginou como seria a moça. Tinha mais ou menos a mesma idade
de Naomi, mas parecia jovem demais para ser mãe, jovem demais
para Joshua. Era difícil imaginá-la como sua esposa. Que assuntos
arranjariam para conversar, se chegassem a se encontrar, ela e essa
garota palestina? Não tinham absolutamente nada em comum.
Nada além de Joshua.
Naomi balançou a cabeça, guardou a fotografia e levantou-se para
se vestir para o jantar.

Capítulo 16

GIORA — novembro de 1940

Violência. A Palestina era uma terra onde florescia a violência, ao
invés do trigo. Rachel segurava o filho de cinco anos com uma das
mãos e um rifle de repetição com a outra, vendo desaparecer a trilha
de poeira do caminhão que levava Joshua para a América.
Seus olhos esquadrinhavam a área automaticamente a cada
segundo. Todos estavam sempre em guarda nesses dias, muito
embora os três anos de ataques árabes estivessem findos, e
sufocadas as rebeliões antibritânicas. A qualquer momento poderia
aparecer um kaffiyeh branco sobre uma das pequenas elevações e
soariam as palavras "Aleihum! That el Yahud!" Ao ataque! Morte aos
judeus!

Rachel baixou os olhos para Benjamin, que em sua curta vida nunca
havia conhecido outra coisa além do amor e da violência.


— É hora de ir à escola, querido. Abba foi viajar.
A criança ouviu, tão calma e controlada quanto o pai. Fitou Rachel
com os olhos de Joshua. O resto do rosto era dela, a boca menos
larga, menos sensual do que a de Joshua, o queixo tão quadrado e
firme quanto o da mãe. Mas os olhos eram do pai.
Os olhos de Joshua poderiam ser os de um árabe, assim tão
profundos e escuros, cintilando com as chamas da ira quando
zangado, cintilando com as chamas do desejo como na noite
passada. A noite anterior deixara um torvelinho de lembranças
eróticas em seu corpo, até mesmo agora, enquanto respondia às
perguntas que o menininho fazia com voz infantil, ao seguirem pelo
caminho que ia da estrada à nova cerca de arame farpado fora de
Giora.
Joshua a despira gentilmente enquanto ela estava de pé junto da
cama. Acariciou-lhe de leve as costas e as nádegas, erguendo-a um
pouco, enquanto a beijava. Depois abaixou seu corpo, deixando a
boca viajar ao longo de Rachel e retornar ao lugar que abriu entre as
coxas, primeiro provocando-a, depois insistindo com lábios que
sabiam exatamente como proporcionar-lhe prazer. Deitou-a na
cama após a primeira onda de sensações escaldantes provocar um
estremecimento em Rachel, a fim de mover-se sobre cada
centímetro dela, repelindo suas tentativas de fazer amor, querendo
apenas fazê-la gozar vezes sem conta, deleitando-se no corpo dessa
sua esposa há sete anos, um corpo que conhecia tão bem quanto ela
conhecia o dele.
Havia tantas coisas em Joshua que ela ainda não entendia. . . . Qual
era a fonte dessa sensualidade sempre presente nele, e que às vezes
explodia de suas profundezas, tal como ocorrera na noite passada?
Ela o queria de novo, neste momento, até mesmo enquanto
atravessava a paliçada com o filho e o conduzia à casa das crianças.
Não tinha idéia de quando o reencontraria. Ele ia visitar a família na
América. Depois levaria Maresh consigo à Inglaterra, um país que
desde Dunquerque, a incrível Batalha da Grã-Bretanha, resistia por

pura coragem ante a expectativa de uma invasão através do Canal,
que nunca vinha. Só Deus sabia o motivo: a Inglaterra sucumbiria
aos alemães da noite para o dia.
Joshua preferia entrar na Inglaterra vindo da América; seria alvo de
suspeitas imediatas se viesse da Palestina. Arriscava-se a perder a
cidadania americana, caso envergasse o uniforme de outro país.
Mas existiam tantos homens nas sitiadas Ilhas Britânicas que não
eram seus filhos, que os governos estavam fechando os olhos para
que eles as defendessem, assim como Joshua estava determinado a
fazer.

— Os britânicos não permitirão que os judeus palestinos formem
uma brigada. Tudo que eles podem fazer é cavar trincheiras —
afirmara Joshua há uma semana, no refeitório. — Não deixariam
judeus palestinos pilotarem os aviões da RAF, nem mesmo durante
a Batalha da Grã-Bretanha. Mas não vão impedir que um rabino
americano ofereça ajuda e conforto. Assim serei capaz de fazer
alguma coisa.
Ele vagueara o olhar pelas pessoas na sala: Lazar, Ben, Isaac e
Natan, Ari e os rapazes do Haganah. Rachel sabia que somente
esses homens podiam convencer Joshua a permanecer na Palestina e
esperar que a guerra chegasse até ele, como mais cedo ou mais tarde
fatalmente ocorreria.
— Você pode fazer algo aqui — insistiu Ben. — Haverá luta na
África do Norte. Hitler ocupou a Áustria, a Tchecos-lováquia, a
França, todos eles. Precisa assegurar a conquista da África do Norte,
ou será ameaçado do sul, através da Itália.
— Finalmente obtivemos permissão para portar armas — alegou
Natan. — E você quer partir! Por quê?
— Porque aquele maníaco vai matar todos os judeus na Europa —
gritou Joshua. — Ele disse isso. A SS foi criada em 1929 para matar
subumanos bolcheviques! A Gestapo tem chacinado gente desde
1933. Alguém precisa fazer algo a esse respeito.

— E o que você vai fazer? — inquiriu Lazar. — Mais do que já
estamos fazendo? — Estavam tirando judeus de lá em caminhões de
gado, cruzando os Bálcãs, da Rússia para Istambul, através do Mar
Vermelho. Estavam publicando toda e qualquer informação que
pudessem contrabandear, a fim de que o mundo tomasse
conhecimento do que estava acontecendo dentro da Alemanha e
dos países ocupados, que caíram aos pés de Hitler como fruta
madura.
Joshua balançou a cabeça ferozmente.
— Não tenho certeza. Simplesmente preciso ir. Talvez seja porque
passei tanto tempo na Europa, porque já vi tanta coisa que não
posso esperar. Vocês estão armados, estão legalizados agora. — Não
disse que as armas estavam lá em grande parte por sua causa.
Lazar discordou.
— Estamos legalizados apenas como força policial, não como
exército. Podemos portar armas. Mas olhe o tipo de arma que nos
deixam carregar. — Chutou um velho rifle com desdém. — Os
britânicos estão ocupados demais sobrevivendo, para manter um
exército significativo aqui. Estamos cercados de árabes hostis e
necessitamos de todo homem disponível.
— Mandarei mais homens para vocês. Juro. É por isso que pretendo
ir, para mandar mais do que um punhadinho de judeus. — Os olhos
de Joshua foram de Lazar a Ari. — Não podem me pedir para ficar
aqui, quando sei que serei útil em outro lugar.
Houve um silêncio entre os homens, enquanto Rachel e as mulheres
esperavam. Seria tão perigoso se ele alcançasse a Europa através do
Canal, e ela sabia ser exatamente isso o que Joshua tinha em mente.
Para ele não bastava que novas colônias estivessem nascendo quase
da noite para o dia — a despeito das tentativas britânicas para detêlos
— a fim de poderem receber e abrigar quaisquer refugiados que
conseguissem atingir a Palestina legalmente ou por outros meios.
Eles não tinham nenhum outro lugar para onde fugir. Alguém
dissera isso em nome do mundo: ninguém quer importar um

problema racial. Apenas há um ano, um navio que saíra de
Hamburgo com quase mil judeus a bordo teve sua entrada
impedida em Washington e Havana e retornou à Alemanha.
"Acha que vão morrer de morte natural?", falara Natan com
amargura. "Mais de duzentos deles eram crianças. Criancinhas! Vai
me dizer que nenhum país tem lugar para duzentas crianças?"
E, portanto, as colônias se multiplicaram, muitas delas surgindo aos
sábados. Os britânicos ainda achavam que o sionismo era uma
religião e que nenhum judeu trabalhava no sabbath. Mas
trabalhavam, sim. Tudo de que precisavam era uma cerca e uma
torre de observação, e lá surgia mais uma colônia, um lugar para
mais refugiados em um trecho de terra pedregosa.
O Haganah treinava febrilmente sob as ordens de Orde Wingate,
um oficial britânico que encarava com desprezo os frágeis esforços
de seu país para abafar as rebeliões árabes de protesto, ocorridas
nos últimos três anos. Os ataques e as revoltas visavam tanto aos
britânicos quanto aos judeus — e finalmente os judeus tinham
permissão de carregar armas para se defenderem.
Na opinião de Wingate, a única defesa contra os ataques furtivos e
silenciosos dos árabes, que deixavam as vilas juncadas de cadáveres
retalhados e cobertos de moscas tresandando ao sol, era atacar os
atacantes e eliminar os acampamentos dos árabes militantes.
Wingate foi eventualmente chamado de volta à Inglaterra, mas não
antes de deixar como legado bem treinadas unidades de comando,
que se transformariam no Palmach, uma força de ataque de elite.
Alguns dos mais jovens, insatisfeitos com os esforços empreendidos
pelos judeus para resgatar seus companheiros na Europa, falavam
em ir ao continente, para retirá-los de lá.
Mas nenhuma dessas medidas, algumas delas perigosas e
desesperadas, satisfaziam Joshua. Ele estava convencido de que
toda a população judia da Alemanha e da Polônia — os que não
fugiram para a área ocupada pela Rússia em 1939 — seria dizimada.
Hitler afirmara isso.


Ari não havia dito nada durante a discussão. Mas falava agora, o
cabelo grisalho duro como cerdas.

— Você não vai até lá bancar o rabino ou comprar armas, pois isso é
impossível. Quer algo mais. E acha que seus contatos na Europa
serão úteis. — Estendeu as mãos. — Conclusão: quer entrar em
contato com os movimentos de resistência na França, Dinamarca,
Noruega e as forças clandestinas polonesas, a fim de organizar rotas
de fuga. — Olhou de esguelha para Joshua. — Provavelmente quer
organizar uma resistência judia.
O resto dos homens ergueu os olhos. Ari balançou a cabeça na
direção deles.
— Precisamos de todos vocês aqui, não fiquem com idéias na
cabeça. O Rabino talvez consiga entrar. Se não conseguir, pode
organizar. E um religioso é uma boa fachada.
— Falo polonês — disse Lazar, os olhos azuis brilhando de
interesse. — Há mais judeus na Polônia do que em qualquer outra
parte.
Joshua refutou a sugestão.
— É perigoso demais. Agora você é muito conhecido na Polônia. —
Lazar fez menção de objetar, depois mudou de idéia. Tinha seus
próprios planos sobre a Polônia, que não estava pronto a revelar.
— Quem, então? — indagou Ari, adiantando-se. — É óbvio que tem
alguém em mente.
Lazar sorriu, percebendo em quem Joshua estava pensando antes
que respondesse.
— Um homem que trabalha para meu irmão, Maresh Skowalski. Ele
nasceu em Varsóvia. Lazar o conhece, ele está nos ajudando a
contrabandear armas há anos. É um nacionalista polonês. A única
razão para não se juntar ao exército clandestino é minha irmã. Sarah
sabe que quero Maresh comigo.
— Então quer organizar uma ação na Polônia — disse Ari, sorrindo.
— Os britânicos estão com problemas. Não serão generosos em
termos de ajuda.

— Mas são ótimos com palavras — replicou Isaac. — As chacinas
em 29 foram "incidentes" porque só morreram judeus. As rebeliões
árabes foram um "estado de emergência" porque seus soldados
morreram. E agora descobrem que é possível ser morto pelos
alemães mesmo que a pessoa seja loura de olhos azuis!
— Fodam-se os britânicos — esbravejou Natan, furioso.
— Como você pode sequer pensar em ajudar aquela gente? Eles
merecem morrer.
— Natan, seja justo — apelou Joshua. — Os britânicos estão lutando
como leões no ar, após Dunquerque. Recusaram a oferta de paz de
Hitler, quando podiam ganhar tempo com um nojento pacto de
não-agressão, tal como os russos.
— Fodam-se os russos também — retrucou Natan. — Quantos de
nós eles mataram sem nenhuma razão?
— O problema com você, Josh, é que sempre analisa ambos os lados
da questão — observou Ben.
— Porque Lorde Peel estava certo sobre nós e os árabes: é um
conflito de direito com direito — respondeu Joshua.
— Mas só luto por um dos lados.
Ari mostrou-se duvidoso.
— Algum dia precisará ver apenas um dos lados ou não será capaz
de lutar. O que pensa? Que somos todos santos por termos sofrido
perseguições? Nobres pioneiros? Não lutamos e matamos?
Isaac concordou e disse:
— Ari está certo. Aprendemos com a bota que nos esmagou. Siga
seu conselho, Josh: não olhe para ambos os lados. Olhe para o nosso
lado ou vai estourar.
— Continuo afirmando que, até a América entrar nesta guerra,
precisamos cooperar com os britânicos, nos controlar.
Alguns dos homens murmuraram em concordância, mas o punho
poderoso de Natan bateu com força na mesa de madeira.
— Vocês do Haganah me deixam maluco com essa maldita
moderação. Quem já usou de moderação conosco?

— Você está falando como um fanático do Irgun — redarguiu Ari.
— Talvez me transforme em um — contrapôs Natan calorosamente
— se for isso o que terei de fazer para proteger minha família dos
árabes. Os ingleses não nos defenderam quando podiam. E agora
estão combatendo em sua própria
guerra.
— Está certo! — A voz de Ari interrompeu a discussão.
— Não podemos decidir isso esta noite. — Havia tensão na sala.
Alguns dos homens estavam fartos de cooperar com os britânicos,
da insistência de Ben-Gurion para haver havlagah
— moderação — por parte do Haganah. Preferiram a posição não
comprometida do Irgun de Menahem Begin. Se os britânicos não
iam fazer nada para solucionar o problema na Palestina, então que
saíssem de lá — ou sofressem as conseqüências. As duas facções
estavam se distanciando.
Ari prosseguiu:
— Estamos aqui para decidir se o Rabino vai ou não. Sou um
general educado. Peço às minhas tropas que me ajudem a tomar
decisões. — Os homens riram, aliviando a tensão.
Após um momento, Ari encolheu os ombros.
— Você vai. Se puder fazer algo, fique. Caso contrário, volte.
Realmente precisamos de todos os homens. — Passou os olhos pelos
homens reunidos na sala. — De todas as mulheres. De todas as
crianças com idade bastante para disparar uma arma. O simples
fato de os britânicos terem matado um bando de árabes furiosos
durante os últimos anos não significa que não haja muitos por lá. E
eles nos odeiam mais do que odeiam os ingleses por nos deixarem
entrar neste país. — Levantou-se com um resmungo. — Vou
dormir. Treinar garotos para as unidades de comando exige que ao
menos eu tenha uma aparência saudável, já que não sou mais
jovem.
Essa decisão fora tomada há uma semana — e a noite passada tinha
sido exatamente a última, embora parecesse a Rachel que ocorrera

há anos. Entrou no quarto e deitou-se na cama. Joshua logo estaria
em Nova York. Veria a família, o irmão Arnold. E ela.
Após onze anos, iria reencontrá-la. Havia algo que perdurava, algo
mais importante do que qualquer sentimento que

Joshua nutrisse por outras mulheres, mulheres como Shula, antes
que ela se mudasse para Tel Aviv — talvez ainda agora, pelo que
Rachel sabia. Mulheres na Europa, em suas longas viagens,
mulheres que não importavam. Quase sempre havia homens e
mulheres, nos desvios de um casamento, que não tinham a menor
importância. O perigo vinha daqueles que importavam — como Ben
Horowitz para ela. O sentimento que por pouco a fez escolher Ben
como marido a advertiu para não buscar conforto nele enquanto
Joshua estivesse longe. Parte do tempo em Nova York, com uma
mulher que lhe era importante.
Rachel suspirou. Haveria algo de real na lenda hasídica da bashert?
Aqueles judeus que adoravam a Deus com um regozijo esfuziante,
capaz de chocar os ortodoxos, insistiam que era assim. Certas almas
estavam destinadas a se juntar e atravessariam meio mundo para se
encontrar. Mesmo que as circunstâncias as tornassem totalmente
inadequadas. O poder que as unia era mais forte do que as barreiras
que as separavam. Um nunca se sentiria completo sem o outro, caso
nunca se encontrassem. Ambos estariam sempre procurando.
Tolice supersticiosa, disse Rachel a si mesma. E, apesar disso, por
que uma mulher continuava a lançar uma sombra no espírito de
Joshua? Os dois nada tinham em comum, nem suas vidas, seus
ideais, suas mentes. A vida de Joshua era aqui na Palestina,
trabalhando pela mesma causa para a qual Rachel nascera,
trabalhando pela segurança da esposa e do filho e da família de
todo o Yishuv. Joshua a amava. Rachel sabia disso. Ele a desejava —
a noite passada era a prova desse fato.
A não ser que tenha sido uma espécie de âncora para ele também,
como se estivesse buscando um porto seguro no corpo de Rachel, de
modo a não ser tentado por ninguém mais, alguém a quem não


podia resistir e de quem jamais se esqueceria, simplesmente porque
ela era a única, a destinada, a bashert.
Os olhos de Rachel se fecharam. Guiadas pela lembrança dele, as
mãos viajaram dos seios até a barriga. Se houvesse qualquer
conexão entre a paixão da noite anterior e o encontro antecipado de
Joshua com a esposa do irmão, Rachel não queria saber qual era.

Capítulo 17

NOVA YORK — dezembro de 1940

Pela janela do escritório, Arnold contemplou a cidade que se
movimentava lá embaixo, nervoso por rever Joshua, sem compreender
o motivo disso, mas determinado a não demonstrá-lo.
Onze anos! Tantas coisas mudaram para ambos. Os dois eram pais

— e os pais deles também tinham morrido, com um ano de
diferença um do outro. Era algo sério perder os pais. Era um sinal
de mortalidade, um lembrete muito claro de que ninguém vivia
para sempre.
Arnold balançou a cabeça. Pensamentos como esses raramente o
perturbavam. Vivia ocupado demais com o trabalho. Mas agora o
irmão mais velho, o deus de sua infância e a maldição de sua
maturidade, logo estaria aqui, neste escritório. Protegido com a
armadura do sucesso, devia estar se sentindo confiante, feliz ante a
perspectiva do encontro. Mas não estava.
Isso nada tinha a ver com Naomi. Os dois levavam uma vida feliz
juntos. Haviam se mudado para uma bela casa em Sands Point,

construída após o nascimento de Julie. Naomi estava muito
ocupada com Julie, com os filhos de Sarah, o trabalho com os órfãos
refugiados, com a vida social que era parte da incrível ascensão de
Arnold na indústria. A companhia se transformara em uma
sociedade anônima, e, embora a família ainda fosse a acionista
majoritária, as ações da Duquesa eram realmente sólidas, seus
dividendos estáveis. Se bem que não fosse a maior, a Duquesa tinha
prestígio suficiente para que os jornais e revistas pretensiosos
fofocassem sobre o simpático e jovem casal Fursten, sobre a filha
adorável, a casa imponente. Ele sabia que Naomi era feliz. Embora a
paixão daquela noite em que Julie foi concebida não houvesse
retornado com a mesma intensidade, a esposa lhe dava calor e
prazer.
Então por que esse receio com relação ao encontro com o irmão?
Jamais entenderia por que Joshua escolhera essa vida — desperdício
de talento, na opinião de Arnold — mas ainda assim lhe queria
bem. Não importava mais que os pais sempre tivessem idolatrado
Joshua e aceitado Arnold com indiferença. Joshua representava a
fuga, o renascimento e a renovação para eles, desde o momento em
que nasceu. Arnold podia lembrar-se com afeição de todas as horas
que o mano mais velho despendera com ele, as histórias, as
pequenas excursões, as lições quando tinha a idade de Julie e
ignorava que a mágica de Joshua não se confinava à família, que se
expandia e envolvia a todos que conhecia, eclipsando o irmão
caçula, quer tencionasse isso ou não.
Arnold voltou à mesa e concentrou-se em um grosso memorando
do departamento jurídico da Duquesa. A Comissão Federal do
Comércio estava sempre xeretando nas empresas de cosméticos
nessa época. Arnold insistia que o lobby da Associação Médica
Americana estava por trás disso, usando a indústria para desviar a
atenção de Roosevelt do ogre da medicina socializada.
Foi a AMA que forçou a aprovação da Emenda Wheeler-Lea em
1938, que estendia o controle do governo aos cosméticos e também


aos alimentos e medicamentos. Agora as qualidades do produto
tinham de ser substanciadas. A fabricação de um creme facial podia
ser interrompida por não renovar a cútis, o mesmo ocorrendo a
loções refrescantes por não refrescarem realmente a pele.
Com a aprovação do Decreto dos Cosméticos, Medicamentos e
Alimentos, ingredientes perigosos precisariam ser eliminados.
Novas fórmulas tinham sido incrivelmente onerosas — mas ainda
assim o lucro era grande o bastante para cobrir os custos com
facilidade.
Afora isso, Arnold não queria ter problemas com a Comissão
Federal de Comércio, à qual foram delegados poderes para
implementar as novas leis. A CFC já levará a Pond's ao tribunal por
causa do seu Novo Creme Facial de Vitaminas, que supostamente
fornecia um meio mais "científico" de nutrir a cútis das americanas.
Arnold estava decidido a evitar esse tipo de notoriedade. A idéia de
receber uma ordem de apreensão, tal como no caso do batom da
Guerlain e a máscara Lash Lure, o horrorizava. Sabia que existiam
meios para evitar essas ordens: o reconhecimento de culpa levava a
multas insignificantes; táticas legais adiavam as conseqüências, até
que toda a mercadoria incriminadora fosse vendida, e produtos
novos e aceitáveis estivessem nas prateleiras. Porém, Arnold não
queria uma mácula dessas no inatacável pedigree da Duquesa. Com
Einhorn e o departamento jurídico, tencionava evitar uma
confrontação com qualquer agência federal.
Mas, tal como ocorria com o resto da indústria, as qualidades da
Duquesa não estavam mais impressas nos rótulos. Em vez disso, os
efeitos mágicos dos produtos eram elogiados em uma propaganda
muito sutil e cada vez mais intensificada. O balancete da companhia
continuava sendo impressionante.
Nem mesmo a guerra havia detido a Duquesa. Há muito tempo,
Arnold arranjara fontes de suprimento alternativas na América do
Sul e no mundo inteiro. Tinha aumentado a produção de flores no
sul dos Estados Unidos. E sua decisão de ingressar no setor


farmacêutico era sensata: esta seria uma indústria essencial, se o
país entrasse na guerra. Mas esperava que a América não se
envolvesse. O motivo pelo qual Joshua queria ir à Inglaterra para
participar da luta estava além de sua compreensão.
Ergueu os olhos. Joshua estava parado na soleira da porta, fitando-o
com uma expressão da qual Arnold lembrava-se desde a meninice,
uma combinação de orgulho, amor e interesse por tudo o que o
irmãozinho tivesse a contar-lhe sobre os acontecimentos do dia.
Saiu de trás da mesa, o nervosismo esquecido. Os irmãos se
abraçaram, um abraço cheio de um impetuoso carinho, que anulava
os anos de separação.

— Meu Deus — exclamou Arnold, depois que passou a sensação de
aperto na garganta. — Você está tão magro! Está tudo bem?
— Não estou mais magro agora do que estava no casamento de
Sarah. — Joshua sentou-se no outro lado da mesa de mogno
entalhado, elegantemente enfeitada com acessórios de couro
gravado a ouro. — Você parece maravilhoso. Mas tenho visto
fotografias suas com muita freqüência.
— Onde?
— No Vogue, Bazaar, as revistas da moda. Oh, sim, temos todas elas,
até mesmo em Giora. Rachel as devora. Diz que é o único jeito que
tem de ver sua família americana.
— Como ela é? Como é Benjamin?
— Rachel é maravilhosa. E Benjamin é fantástico. Ele não fala
muito, mas vê tudo. Sarah diz que sua Julie é quieta também.
— Julgará por si mesmo quando conhecê-la esta noite. Você virá?
Naomi está preparando um jantar especial.
— Preciso ir ao escritório da Agência Judaica, mas Sarah e eu
sairemos com Rebekah e Seth bem a tempo. Sarah parou em algum
lugar no corredor. Acho que queria nos deixar um pouco a sós. De
qualquer forma, ficarei aqui apenas um dia.
Eles se examinavam.

— Estou feliz em vê-lo — afirmou Arnold com sinceridade. —
Gostaria que pudesse permanecer mais tempo.

— Quero chegar logo aonde estou indo. Só tive esta chance de
visitar vocês porque é melhor para mim entrar na Inglaterra vindo
da América do que da Palestina.
— Sarah me contou. Mas, se o que dizem é verdade, você estará
correndo mais perigo lá do que já correu durante todas as rebeliões
árabes.
Joshua moveu-se nervosamente na luxuosa cadeira de couro.
— O que dizem é verdade, Arnold. E haverá perigo em toda parte,
se não pusermos um fim nele. — Joshua parecia impaciente, como
se não quisesse discutir a situação, apenas agir a respeito.
— Há algo que eu possa fazer para ajudar? — indagou Arnold.
— Sim. Faça com que Rachel e Benjamin não morram de fome, caso
me aconteça algo. — Os olhos escuros encontraram os de Arnold.
Ele dissera isso com suavidade. Não, tinha pedido como um favor.
Ainda assim, Arnold sentia-se vagamente diminuído. Lá estava ele,
presidente de uma empresa de muitos milhões de dólares, cercado
pelas evidências de seu sucesso — e de algum modo tudo isso
parecia insignificante em comparação com o que Joshua, em um
terno barato e antiquado, estava prestes a empreender. Joshua
estava arriscando a vida. Tudo o que esperava de Arnold era
dinheiro para a esposa e o filho, se morresse.
— É lógico — prometeu Arnold. — Se realmente precisa ir.
— Alguém precisa ir — afirmou Joshua secamente, enquanto a
porta se abria, e Sarah entrava.
— Bem, o que acham um do outro, após tantos anos?
— Seus olhos foram de um a outro irmão. — Espero que Josh esteja
impressionado de maneira favorável! Josh, por que você mais
parece um maltrapilho aqui e perfeitamente bem na Palestina?
— Todos são maltrapilhos na Palestina. Eu me misturo lá. —
Joshua sorriu. — E, sim, estou impressionado. Arnold, você fez tudo
o que garantiu que faria e muito mais. Um homem não pode pedir

nada melhor do que isso. Gostaria de poder dizer o mesmo sobre
mim.
Arnold relaxou. Joshua nunca negara suas realizações, isso era um
fato. Nem Lazar. Só que eles o fizeram sentir que aquilo não era
algo realmente importante.

— Ei, e quanto a mim? Sou a metade de tudo isso — replicou Sarah.
—Você tem dividido suas energias nos últimos tempos
— Joshua lembrou-a. — Arnold, você deixa Sarah fazer tudo o que
quer, mas também sempre fizemos isto, não é?
Uma onda de nostalgia inundou os três.
— Quem sonhava com tudo isso em Rivington Street? — disse
Sarah. Desde a morte dos pais, houve muito pouca coisa a lembrálos
de Rivington Street, exceto quando estavam todos juntos, tal
como agora.
Arnold pigarreou.
— Acabei de perguntar a Josh se havia algo que eu pudesse fazer
para ajudar.
Os olhos de Joshua e Sarah se cruzaram rapidamente.
— Arnold, querido, você vai ficar terrivelmente zangado — ela
falou.
Ele aguardou, olhando para Joshua.
— Maresh irá comigo — contou Joshua.
Sarah os interrompeu com uma torrente de palavras.
— Há mais de um ano ele quer se juntar ao exército clandestino
polonês na Inglaterra e, de lá, entrar em contato com a Resistência
dentro da Polônia. Consegui mantê-lo aqui até agora com o auxílio
de Anna, mas ele está decidido a ir com Josh.
Arnold estava atônito.
— Com Anna e todas aquelas crianças para cuidar? O melhor
controlador de qualidade da companhia?
— Lembro de quando você não queria contratá-lo — disse Sarah,
tentando brincar.

Mas Arnold não sorriu.

— Eu estava errado. Mesmo que ele preferisse plantar batatas a
jasmins. Maresh é um dos poucos homens em que posso confiar.
Por que ele quer ir?
— Ele é um nacionalista polonês, Arnold — explicou Joshua. — Seu
país foi invadido. Novamente. A Polônia tem sido cortada como
uma torta há séculos.
— E Maresh é uma pessoa de confiança — acrescentou Sarah. —
Você mesmo acabou de afirmar isso. A maioria dos poloneses é
mais anti-semita do que os alemães, mas não Maresh. No lugar para
onde vai, Josh necessitará de alguém em quem possa confiar.
Arnold girou a cadeira, de modo a ficar de frente para a janela de
vidro fume que se abria para o sul, em Park Avenue. Estava preso
em uma armadilha. Precisava de Maresh na empresa. Se a América
entrasse na guerra, ele seria mais necessário do que nunca. Mas
Joshua também precisava dele para salvar vidas — possivelmente a
vida do próprio Joshua. Entre as necessidades deste império tão
duramente conquistado e a vida do irmão, só podia haver uma
escolha. O objetivo de Joshua sempre fora mais importante do que o
seu.
E, apesar disso, quando homens como Joshua e Lazar precisavam
de dinheiro, a quem recorriam? A homens como Arnold, capitalistas
que veneravam o dinheiro e supostamente não possuíam ideais,
mas que mantinham o mundo girando. A hipocrisia disso! Este
homem que ignorava e desprezava o dinheiro devia ser mais
admirado do que aqueles que o ganhavam. No fim das contas, era o
dinheiro o que todos queriam e do que todos necessitavam.
Parasitas, todos eles.
— Maresh é dono do seu nariz — respondeu Arnold, virando-se. —
Não posso forçá-lo a ficar, se quer ir.
— Ele quer a sua aprovação — disse Sarah. — É leal a você tanto
quanto a mim, a Josh e Lazar.

— Lazar? — Arnold indagou asperamente. — O que Maresh tem a
ver com Lazar agora? — A lembrança das armas guardadas no
armazém da Duquesa continuava a irritá-lo.
— Ele é meu marido, lembra-se? E, quando Lazar se juntar a Josh,
eu me sentirei mais tranqüila se Maresh estiver junto.
Arnold concordou com a cabeça. Aliviar a preocupação da irmã era
algo aceitável, mas não o heroísmo de Joshua. Levantou-se quando
Joshua pôs-se de pé, acompanhando-o até a porta do escritório.
Joshua pousou a mão no ombro do irmão.
— Obrigado, Arnold.
— Pelo quê? — perguntou Arnold, procurando esconder a raiva.
— Por tudo. Por compreender sobre Maresh. Por Rachel e
Benjamin. Rachel sabe que pode confiar em você.
Um misto de sentimentos o dominou. O irmão era um parasita, um
hipócrita, um idealista louco — mas o irmão talvez fosse morto, e
ele amava o irmão. Maldito seja, ele amava o irmão.
— Como ela pode saber? Nem me conhece — retrucou Arnold malhumorado,
completamente confuso.
— Mas eu conheço. E contei a Rachel como você é. — Houve uma
pausa constrangedora. Então Joshua concluiu, antes de fechar a
porta: — Vejo você à noite.
Arnold retornou à mesa, evitando os olhos cintilantes de Sarah, tão
embaraçado com sua aprovação quanto com a de Joshua. No
entanto, tudo parecia certo novamente, do jeito que fora em
Rivington Street, quando adorava o mano mais velho e protegia a
irmãzinha. Quando havia perdido isso, esse generoso amor?
—Bem — disse a Sarah —, vamos decidir quem substituirá Maresh.

Capítulo 18


Ela movia-se pela luxuosa sala de estar em Sands Point, brilhando
com um fulgor que ele não via desde que ela era uma menina,
desde que se apaixonara por ela com um amor tão desesperado que
nunca conseguia desejar nenhuma outra.
Esta era a Naomi que todos adoravam, aquela que iluminava um
aposento como um raio de sol ao entrar, que fazia coisas para tornar
as pessoas mais felizes.
Ao observar a esposa, Arnold soube que ela não tinha suavizado
com a maturidade, que não estava mais calma por estar contente e
não retribuía seu amor na mesma medida. Ele fora um pobre tolo ao
pensar que qualquer parte da menina desapareceria na mulher. Ela
continuava lá, precisando apenas da centelha certa para acendê-la

— e a centelha certa era seu irmão, sentado no sofá de seda bege
conversando animadamente, hipnóticamente, com os filhos de
Sarah, um em cada lado, tal como costumava fazer com Arnold e
Sarah. O traço de desespero existente em Joshua devido à guerra só
aumentava a força de sua personalidade, o impacto do seu charme,
o efeito que exercia sobre Naomi.
Arnold a via contemplar Joshua com os olhos brilhantes, o adorável
cabelo ruivo pálido semelhante a um halo. Conhecia o aroma
daquele cabelo quando a tomava nos braços, sabia como se
enrodilhava entre as coxas, como era estar dentro daquele corpo
pequeno, perfeito. E sabia que ela realmente não o queria lá. Apesar
das inúmeras vezes que disse a si mesmo, antes do nascimento de
Julie, que uma jovem inocente como Naomi não podia corresponder
plenamente à paixão do marido, apesar das inúmeras vezes que
tentou se convencer, desde o nascimento da filha, de que finalmente
ela o desejava, outro pensamento sempre brotava de algum lugar no
fundo da mente: será que ela desejava mais o irmão? E, quando
Naomi o deixava ficar lá deitado, acariciando seus seios,

murmurando seu nome, derramando-se dentro dela, essa pergunta

estava sempre presente.
Estava com ele agora, enquanto a observava. E agora tinha certeza
da resposta.
Para além das janelas Tudor com pilaretes centrais da sala de estar,
a noite descia, enegrecendo o gramado que era como um veludo
verde salpicado de flores no verão, mas ressecado e com ar de
abandonado nesta noite de inverno, um reflexo dos sentimentos de
Arnold. A sala estava quente, mobiliada com grupos de estofados
que facilitavam a conversa até mesmo em grandes festas, mas
permitiam que um pequeno grupo se congregasse em um canto, tal
como a família estava fazendo nessa noite.
Enorme como era o salão, Arnold sentia-se sufocar ali dentro, como
se nenhum aposento fosse grande o bastante para contê-lo e ao
irmão quando Naomi estava presente com os dois, uma sugestão de
riso e cor no sofisticado conjunto de calça comprida e blusa de crepe
azul-turquesa, que se destacava contra a sala branca e bege. A única
outra cor era a do retrato da Duquesa sobre a enorme lareira, com o
console e toda a parte externa em mármore bege.
Joshua estava contando histórias a Rebekah, de dez anos, e Seth, de
nove, histórias do primo Benjamin e da tia Rachel, do pai dos dois,
ainda na Palestina. A última visita das crianças ao pai fora há três
anos, antes que as rebeliões árabes se tornassem tão perigosas, mas
ambos recordavam-se bem de todos os amigos especiais de Lazar da
época da brigada: Ben, o Janota, Natan, o Minotauro, e Isaac, o
Médico, com sua barba branca. Os dois exigiam histórias que
tinham ouvido uma dúzia de vezes.
— Mas por que Sarah está demorando tanto a descer com Julie? —
indagou Joshua. — Quero conhecer minha sobrinha!

— Ela é uma bonequinha — disse Rebekah, parecendo-se com o pai
mais do que nunca. — Gosta que mamãe lhe conte tudo sobre
papai. É louca por meu pai.

Seth, tão moreno e exuberante quanto Sarah, concordou:

— Ensinamos Julie a falar. E não foi fácil, podem crer! Naomi riu
junto com Joshua.
— Você fala igual à sua mãe, Seth. Até Julie comenta isso. Mas aqui
estão elas agora. Venha, querida, diga alô a seu tio Josh.
Julie deixou Sarah na soleira da porta e correu para o pai. Arnold
pegou-a no colo, sentindo seus bracinhos rodeando-lhe o pescoço
como reconfortantes laços de amor, um amor que era total e
inalteravelmente seu. Julie tinha um cheirinho delicioso de sabonete
e talco de bebê. O cabelo, no mesmo louro-avermelhado de Naomi,
fora lavado com xampu naquela tarde e pendia em longos cachos ao
redor do rosto, preso nas têmporas por dois pregadores de prata.
Usava, um vestido de tafetá na mesma cor da roupa de Naomi. O
rosto era o de Naomi. Mas ela era de Arnold. Ele a segurou por mais
uns segundos, antes de colocá-la no chão e virá-la para o tio.
— Aí está — falou Rebekah com ar triunfante. — Eu não disse que
ela era uma boneca?
— Este é o tio Josh — explicou Seth. — Ele conta histórias quase tão
bem quanto papai.
Josh viu a garotinha se aproximar. Julie estudou o rosto do tio com
cuidado, naquele jeito quieto e reservado que tinha com estranhos.
Depois estendeu a mão e Joshua a pegou com ar sério.
Sarah juntou-se a eles, rindo.
— Bem, isso é tudo que vai conseguir por enquanto, Josh. Se
comportar-se bem, talvez receba um beijo de boa noite na hora de
deitar. -— Ajoelhou-se para abraçar de novo a sobrinha. — Fico feliz
que você conheça a mim, Julie. Não gostaria que me dessem uma
olhadinha tão rápida assim.
— Querida — Naomi procurou convencê-la gentilmente —, não
quer dizer algo mais ao tio Josh?
Julie pôs as mãos atrás das costas e balançou a cabeça.
— Não se preocupe — Josh lhe disse. — É um prazer simplesmente
olhar para você. A última fotografia de todos vocês no Vogue não

lhe fazia justiça — comentou com Naomi. O retrato de página
inteira do presidente da Duquesa com a bela esposa e a angelical
filha de cinco anos havia circulado em Giora, onde o glamour da
família de Joshua era uma lenda. — Tenho um garotinho não muito
mais velho do que você — contou a Julie.

— É o nosso primo Benjamin — acrescentou Seth. — A mãe dele
carrega uma arma.
— Seth, isso não é importante. — Sarah olhou de relance para
Arnold, como se desculpando. Arnold não queria que Julie soubesse
coisa alguma sobre armas ou perigos. Costumava criticar Lazar
abertamente por se recusar a fingir para os próprios filhos que
levava uma vida comum em um país comum.
— Acho que é hora de jantar — disse Arnold. — Não quero que as
crianças fiquem acordadas até tarde. — Olhou para Naomi.
— Estará tudo pronto quando você quiser. — Naomi sorriu para
ele, o rosto tão adorável, que Arnold quis gritar com ela diante de
todos. Por que não por mim? Por que por ele e não por mim? Mas nunca
lhe perguntara isso antes e não o faria agora. Daria vida ao
fantasma, se o vestisse com palavras.
A refeição foi simples, mas parecia a Arnold que o jantar duraria
para sempre, que uma hora diluía-se em outra hora infindável,
antes que Sarah e Joshua finalmente vestissem as crianças para
retornarem à cidade, enquanto Julie observava, encostada nas
pernas do pai, que estava sentado na sua poltrona de couro bege
junto à lareira.
— Vejo você amanhã — Joshua avisou a Arnold. — Meu vôo sai às
sete, Naomi. — Virou-se para ela. As mãos seguravam-lhe os
ombros, a boca roçou sua face. Ele tinha feito a mesma coisa quanto
a vira pela primeira vez naquela noite. — Continue com o bom
trabalho de auxílio às crianças refugiadas.
Arnold a viu erguer os olhos para Joshua, obviamente feliz com o
trabalho que ambos tinham em comum.

— Vou continuar. Seja cauteloso lá. E me dê mais crianças.
Arnold enrubesceu ao som daquela voz. Era íntima, suplicante,
como se Naomi estivesse pedindo a Joshua para fazer mais filhos
nela, literalmente. Permaneceu em silêncio na cadeira, atento,
enquanto o peito transformava-se em pedra.
Joshua ajoelhou-se ao lado de Julie.
— Adeus, sobrinha — falou, pondo a mão em sen cabelo, tão
semelhante ao de Naomi. — Pensarei em você quando precisar
lembrar de algo agradável.
É lógico que pensaria nela. Julie era a imagem de Naomi Julie
estudou-lhe o rosto novamente. Em um impulso
passou os braços pelo pescoço do tio e encostou o rosto n
dele. Depois, apoiou-se no pai.
— Acompanho vocês até a garagem — ofereceu Naomi. — Arnold,
pode levar Julie para cima? Já é tarde demais para ela.
Todos saíram em meio a uma algazarra de vozes infantis e boas
noites. Arnold levantou-se e ergueu Julie, acomodando-o em seus
braços.
— Vamos, princesa, hora de dormir. Julie bocejou.
— Papai, por que tio Josh tem de viver tão longe para pintar?
— Pintar? Ele não é pintor — respondeu Arnold distraído,
começando a cruzar a sala de estar com Julie nos braços.
— Ele é um pintor lá — ela insistiu, sonolenta. Arnold seguiu a
direção do braço da filha até o retrato
da Duquesa sobre a lareira — e parou de andar. O rosto do artista
estava meio oculto enquanto se inclinava para beijar a Duquesa, seu
abraço sendo impetuoso, exigente, e o dela submisso. Só o perfil era
visível — mas é lógico! Era o perfil de Joshua. E o cabelo escuro, a
altura, as mãos graciosas, o corpo esbelto. A pintura que Naomi
havia encomendado, de acordo com uma idéia concebida em sua
imaginação, intrigava Arnold há anos. No início, considerara o
quadro como uma prova de que havia uma corda de paixão na
esposa, se ao menos pudesse fazê-la vibrar. . . Há anos, desde Julie,

estava convencido de que tinha conseguido isso. Mas, após observar
Naomi essa noite, o significado da famosa pintura, obra da sua
fantasia, era tão óbvio para Arnold como devia ser para ela, para
Joshua, Sarah e Lazar, talvez até Rachel — só Deus sabia quantas
outras pessoas reconheceram Joshua após ver o anúncio da
Duquesa.

— Arnold? — Naomi voltara pelo corredor que ligava a casa à
garagem. — Ainda está aqui? A menina está dormindo.
Ele encarou Naomi. Pela primeira vez na vida, odiou-a por enganálo,
tanto quanto odiava o irmão por roubar o que lhe pertencia.
Odiou-a por ridicularizá-lo com aquele retrato. Quase disse isso,
mas era orgulhoso demais. Também havia Julie para proteger do
único resultado de uma tal acusação, após todos esses anos de
fingimento: divórcio. E nunca conseguiria provar que o significado
do retrato era o que sabia ser. Iria vê-lo uma centena de vezes ao
dia, e cada vez seria como uma bofetada no rosto.
— Arnold? — chamou Naomi, ansiosa. — Está tudo bem?
Ele assentiu com a cabeça. Incapaz de falar, dirigiu-se ao vestíbulo
de entrada de pé-direito alto e à escada curva que conduzia ao
segundo andar, carregando a filha adormecida.
— Subo assim que apagar as luzes — Arnold a ouviu dizer. — Não
acorde Julie, pelo menos hoje não precisaremos enganá-la para
escovar os dentes.
Enganar.

Levou Julie para o quarto, tirou-lhe o vestido azul-turquesa e
vestiu-lhe a camisola, antes de ajeitá-la na cama de dossel e abrir a
janela. Julie fora mais do que preciosa para Arnold desde o primeiro
momento em que a viu. Agora era tudo para ele — a única criatura
na terra que o amava sem perfídia ou restrição.
Ouviu Naomi entrar em seus aposentos e andar pelo quarto,
despindo-se. De repente a desejou — e desejou humilhá-la de algum
modo, tomá-la sem a ternura que sempre havia demonstrado a
despeito de quão ardentemente fizesse amor com ela, possuí-la


como o irmão retratado na pintura a possuía, com violência, quer
ela quisesse ou não.
Após uma noite com seu sonho personificado, decerto Naomi não o
quereria. Mas não se recusaria. Nunca dizia que não.
Atravessou o hall até seu quarto e abriu a porta sem bater.


Capítulo 19

Os fracos raios do sol invernal salpicavam Naomi através das
árvores nuas. Ela virou-se na direção da casa, aconchegando o
casaco ao pescoço, a fim de proteger-se do ar frio. Estava perdida no
silêncio de um pequeno bosque em um dos cantos da propriedade,

o único ruído sendo o som de seus próprios passos sobre as folhas
caídas e sujas de terra e os galhinhos que estalavam.
Por mais que se esforçasse, não tinha nenhuma explicação para o
que a unia a Joshua tão poderosa e profundamente a ponto de
ambos dispensarem as palavras para dizer que ainda estava lá.
Naomi simplesmente sentia-se arder por dentro quando ele estava
perto, e como a escultura de uma mulher, fria como o mármore,
quando não estava. Isso era tolice. Pior, era. lógico, devido ao amor
que dedicava a Arnold. Mesmo sendo um outro tipo de amor.
Ilógico ou não, era assim que se sentia.

O que havia nesse homem magro e tenso, preocupado com os
perigos que corriam a família, o país e ele .próprio — o que havia
nesse homem e em nenhum outro que a eletrizava tanto, que a

deixava consciente do corpo dele e do seu, que lhe dava vontade de
tocá-lo, beijá-lo, abraçá-lo de um modo francamente erótico, mas
também muito mais do que isso? Queria passar horas conversando


com ele, muito embora não tivesse a menor esperança de algum dia
realmente compreender-lhe a mente. O simples fato de vê-lo a transformava.
Ele estava mais velho. Os olhos maravilhosos, que evitaram os seus
com tanto cuidado, estavam envoltos por linhas finas, resultantes da
idade e das preocupações. Isso não importava. A boca maravilhosa
falou apenas da esposa, do filho, do país. Isso não importava.
Naomi nunca o vira como o marido da outra mulher, o pai de outro
filho. Para ela, Joshua continuava sendo o homem que amava
fervorosamente por razões que ainda eram tão misteriosas agora
quanto foram no princípio.

Coisas assim não deviam acontecer com pessoas comuns como ela.
Amores desesperançados ocorriam em livros e óperas, não na vida
real. Na vida real, as pessoas paravam de ansiar pelo que não
conseguiam ter, não deviam querer, não podiam se arriscar. Ou
assim acreditava antes.
Agora achava que, por trás das lendas de desejo e trágica satisfação,
estavam simples mortais. Eles se tornavam extraordinários porque
preferiam jogar com suas vidas e as dos outros. Nenhum desses
mortais amava mais do que ela, nenhum sentia mais remorso do
que ela. Eram diferentes apenas porque corriam riscos e aceitavam
as conseqüências. Era simples assim. As pessoas eram feitas do
mesmo material básico. O que faziam com isso é que as tornava
diferentes.
Mas precisava haver duas pessoas para correr o risco. Sabia agora
que Joshua nunca o faria — nem por amor a ela e nem por qualquer
outra mulher. Era apenas por algo maior que ele arriscaria tudo.
Joshua sempre dizia que sua vida era um novo Israel. O amor dos
dois era secundário. Ele era um homem para quem o amor por um
lar, um filho, uma mulher — ela mesma ou alguma outra — sempre
seria secundário. Era isso o que não tinha compreendido. Ele não
estabelecera uma comparação entre Naomi e o trabalho de sua vida
e a achara menos desejável. Isso era algo à parte, e Joshua incluía


em sua vida somente o que contribuísse para a realização final de
sua meta. A jovem que fora estava despreparada então para ajudálo
a concretizar um sonho no qual se encontrava em segundo plano.
Imaginava se estaria preparada para ajudá-lo até mesmo agora,
levando-se em conta as circunstâncias de sua vida, tanto materiais
quanto emocionais. E daí ela correra a se casar, para provar a si
mesma que alguém a queria.
Qualquer mulher que amasse Joshua nunca poderia ter esperanças
de receber um amor total. Acabava de entender o quanto isso era
doloroso de suportar. Então, de repente, pensou que Arnold havia
suportado tal coisa durante todo o casamento.
Parou na fímbria do bosque, e uma profunda compaixão pelo
marido a invadiu, uma compreensão do quanto teria sido duro para
ele conhecer a verdade. Acontecia o mesmo com ela: querer alguém
que vivia possuído por um sonho. Lutar contra um sonho era uma
triste batalha, por mais que se amasse o sonhador.
Continuou caminhando, sabendo que a vida nunca mais seria a
mesma para ela. Consciência e compaixão moldavam uma mulher
tanto quanto amor e sofrimento, ciúme e triunfo. Talvez mais, pois
consciência e compaixão envolviam outras pessoas além dela
própria.
Da parte inferior do longo gramado que subia da água até a casa,
Naomi viu o carro de Arnold estacionar no caminho. Às vezes,
quando precisava ficar até tarde na cidade, ele vinha para casa mais
cedo durante o dia, a fim de ver Julie.
Pensou na noite passada. Parecia haver transcorrido tanto tempo
desde que estivera na mesma sala com Joshua uma vez mais, desde
que sentira de novo aquela necessidade de contato entre os dois que
brotara tão de repente há anos e nunca seria satisfeita — e nunca
desapareceria.
A noite passada.
Que atitude estranha a de Arnold na noite anterior, ao irromper
daquela maneira em seu quarto e em seus pensamentos, insistindo


silenciosamente em levá-la para a cama, como se isso fosse um
ritual que não pudesse esperar nem mais um minuto, fazendo amor
com uma violência exigente que a surpreendeu, bem como a ajudou
a saciar o desejo despertado por Joshua, abandonando-a logo em
seguida, quando sempre passava a noite com ela após o sexo. Ela
colocara isso de lado naquele momento, pensando apenas em
Joshua enquanto tudo acontecia e durante a maior parte da noite
insone que veio a seguir.
Agora compreendia, com aquela nova percepção capaz de iluminar
tantas outras, que Arnold a estava punindo, impondo sua vontade,
que Arnold sabia exatamente quais eram os sentimentos da esposa
para com o seu irmão, que' sempre soube!
Tornou a parar junto ao carro, no caminho quê conduzia à casa,
apreensiva, confusa. Todos esses anos — e ele nunca dissera nada,
nunca. De imediato, ficou zangada por Arnold nunca ter
mencionado coisa alguma. Depois, cheia de remorso por lhe haver
negado o que ele queria tão desesperadamente quanto ela desejava
Joshua. Durante todos esses anos, Arnold recebeu apenas um eco de
Naomi. Se ele tivesse falado, ela talvez compreendesse mais cedo o
quanto o magoava. Ou talvez procurasse Joshua antes de casar-se
com Arnold, antes que Rachel, Benjamin e Julie a impedissem.
Mentira para si própria ao se unir a Arnold. Nunca devia ter
mentido para ele.
Então os dois eram igualmente culpados, ela por não contar nada,
ele por não exigir que lhe contasse. Ambos aceitaram menos da vida
do que queriam. Agora tudo que lhes restava era um ao outro.
Atravessou rapidamente o vestíbulo e subiu as escadas, ouvindo
vozes vindas do quarto de brinquedos. Pôde ver Arnold e Julie
antes mesmo de atingir o patamar, observando o marido
contemplar a filha com a mesma expressão que sempre tivera para
com ela. Naomi se controlou. Julie não devia perceber o quanto
estava perturbada. Mas precisava dizer a Arnold tantas coisas que
nunca foram ditas, que necessitavam ser ditas. . . Tinha de contar



lhe como nunca soubera antes, como, de repente, havia
amadurecido.
Ele virou-se. Os olhos estavam frios. O brilho de adoração sumira
daquele rosto.


— Você chegou cedo — Naomi conseguiu falar, embaraçada com o
modo como a olhava.
— Sim, para ver Julie. Preciso voltar à cidade para ver meu irmão
partir. E há uma reunião que não pode esperar. — Deu-lhe as costas,
a fim de ajudar Julie a arranjar espaço na casa de boneca para as
novas peças que lhe trouxera. — Vai ficar tarde demais para vir
para casa hoje. Vou passar a noite na cidade.
Ver Julie. Ver "meu irmão partir". Ficar na cidade. Isso era algo que
faziam com freqüência — mas juntos.
Arnold estava inabordável. Pela primeira vez desde que se
conheceram quando crianças, estava frio e distante com ela.
Naomi beijou Julie, abraçando a criança com força, um laço e um
escudo entre os dois. Arnold sempre lhe contava °s detalhes de seus
negócios — ela podia conversar sobre isso.
—Para que é a reunião? — indagou sobre a cabeça de Julie.
— Muitas coisas complicadas — ele respondeu vagamente,
levantando-se. — Venha me beijar, princesa — pedi a Julie. — O
que trarei para você amanhã?
Julie correu para o pai, que a ergueu, ouvindo as neces sidades da
garotinha como se ela fosse um de seus vice-presi dentes. Quando a
pousou no chão, houve um silêncio desagradável. Depois beijou
Naomi de leve na face, tal com faria com uma conhecida em um
baile de caridade.
— Vejo você amanhã — despediu-se. Gomo conversar com ele
agora? Arnold estava tão fechado, tão distante quanto um deus
irado. Não podia reprová-lo pelos anos de silêncio — não quando a
resposta à sua inevitável pergunta "você ainda ama Joshua?" era
sim.

Arnold estava surdo ao fato de que Naomi também o amava. Nunca
aceitaria que houvesse espécies diferentes de amor e que ela não
podia lhe oferecer o sentimento do tipo por ele almejado. Isso não
tinha nenhuma relação com Arnold, nenhuma relação com Joshua.
Isso envolvia a própria Naomi.
Ela o viu partir, mal ouvindo a tagarelice de Julie. Algo
irrecuperável se perdera entre ambos, algo de cuja existência só se
conscientizou depois que se foi.
Arnold desceu a escada, sabendo que voltaria se Naomi o chamasse.
Mas não houve nenhum chamado. Entrou no carro, seguiu pelo
caminho e atravessou os portões. Iria à partida do irmão e, depois,
passaria a noite com Annalise Becker. An-nalise perdera tudo
quando fugira da Europa, há seis anos. Não tinha ninguém e o
queria. Arnold simplesmente precisava estar com uma mulher que
quisesse apenas a ele.

Capítulo 20

NOVA YORK — setembro de 1941

Os homens puseram-se de pé quando Arnold entrou na sala de
conferências. Os irmãos de Naomi, Simon e David Held,
cumprimentaram-no com a cabeça, sem nada falar. Nenhum deles
sabia como se dirigir a Arnold, embora trabalhassem para ele há
mais de dez anos. Decerto não como "Arnold". E "Sr. Fursten"
pareceria ridículo para um cunhado. Ultimamente, sentiam-se ainda
mais constrangidos. Ele havia mudado tanto durante o decorrer do
ano. . . Sabiam que estavam realizando um bom trabalho, porque


Arnold nunca mantinha ninguém que não o fizesse — e nos últimos
meses nunca elogiava ninguém que trabalhava direito. Simon, na
produção, e David, nas vendas, exibiam personalidades diferentes
quando Arnold estava por perto, tal como ocorria com muitas
outras pessoas.
Ellis Trent, o único vice-presidente não judeu da companhia,
chamava Arnold de "Sr. Fursten". Ele era conselheiro da Duquesa
desde que o governo começou a apertar o controle sobre a indústria
dos cosméticos. Arnold havia tirado Trent da firma jurídica que
orientava a Duquesa há três anos e criado seu próprio
departamento jurídico, com Trent como diretor.
"Com a Comissão Federal de Comércio nos perseguindo,
necessitamos de constante conselho legal para ficar longe dos
problemas", argumentava Arnold. E, com a orientação de Trent,
conseguiam evitar quaisquer complicações.
Arnold não gostava realmente de Trent. "Impenetrável demais",
comentava com Sarah. "A gente nunca sabe o que o sujeito está
pensando por trás daquela expressão serena. Mas ele faz o trabalho,
e isso é tudo que conta."
Essas confidências eram reservadas à irmã, ao químico-chefe, Otto
Einhorn, e ao diretor de publicidade, Joseph Morgen, que eliminara

o stern do nome quando Arnold o tirou da Arden por um salário
maior. Arnold gostava de Joe Morgen. Os dois tinham iniciado
como vendedores da Arden. Sua devoção a Arnold era uma piada
na indústria, mas uma piada que permanecia fora das portas de
bronze do edifício da Duquesa, em Park Avenue. Arnold era
importante demais para que alguém se arriscasse a fazer piadas a
seu respeito. Era também muito irritadiço.
Arnold olhou em volta da sala de conferências coberta de painéis,
procurando Einhorn.
— Ele vai chegar um pouco tarde — avisou Simon Held,
interpretando o olhar interrogativo do cunhado. Supunha-se que
Simon soubesse onde cada homem importante da Duquesa estava

em qualquer momento específico. — Ele disse que estava realizando
um teste importante que levaria mais dez minutos.
Arnold fez um breve gesto de concordância com a cabeça.


— Alguém quer café, enquanto esperamos?
Todos se dirigiram ao aparador, onde havia chá e café preparados
em garrafas térmicas. Nunca se servia bebida alcoólica nas reuniões
administrativas da Duquesa. Os homens que dirigiam a empresa —
Simon e David Held, Ellis Trent, Joseph Morgen e Otto Einhorn —
submetiam-se às vontades de um homem que, junto com a irmã
Sarah, era o dono da companhia. Isso incluía que se respeitasse sua
aversão a conversas indecentes e a exigência de "precisão,
pontualidade e entusiasmo no trabalho". Ele esperava que as vidas
de seus executivos pertencessem à empresa tão totalmente quanto a
sua.
Embora embaraçados, Simon e David Held aceitaram a mudança
em Arnold. Ele nunca fora um homem fácil de se conhecer.
Decidiram que aquela nova severidade era um endurecimento de
características que sempre estiveram presentes em sua
personalidade, traços reforçados pelo sucesso, pelo poder na
indústria.
Sarah tinha idéias diferentes sobre a transformação em Arnold, mas
as guardava para si mesma, tal como fazia com as observações sobre
o relacionamento do irmão com Naomi. Nem mesmo Lazar sabia
sobre o precário casamento de Arnold com uma mulher que
continuava a adorar, por mais amargo que fosse seu ressentimento
contra ela, por mais que fizesse para achar conforto em outra parte.
Isso era uma preocupação para Sarah. Arnold era discreto com seu
caso amoroso, mas a afligia ver as profundas linhas de amargura
que seu rosto agora exibia e saber quão infeliz era o irmão. A
segurança de Lazar era outra preocupação ainda maior. Sabia que,
todas as vezes em que ele não estava na Palestina, achava-se com
Maresh e os poucos milhares de judeus que escaparam para a
Polônia ocupada pela Rússia.

Da Europa, vinham histórias não só de horrores nazistas infames
demais para se acreditar, mas também de bandos esfarrapados de
partisans judeus, selvagens como leões-da-montanha e tão
perseguidos pelos poloneses que odiavam os judeus quanto pelos
alemães que os matavam. Ela e Lazar estiveram juntos apenas uma
dúzia de vezes nos três anos seguintes à sua última viagem à
Palestina, e os momentos que compartilhava com o marido eram
preciosos demais para despendê-los com outras pessoas que não
fossem eles mesmos e os filhos — nem mesmo com pessoas que
Sarah amava, tal como Arnold e Naomi. Ela se recolhera a suas
próprias preocupações, deixando Arnold dirigir a companhia como
bem entendesse, por maiores que fossem as exigências para com
seus executivos.

— Mas ele paga bem por isso — Joseph Morgen o defendera para
Ellis Trent em certa ocasião.
— Ele precisa — Trent havia replicado, tão enigmático como
sempre, deixando Morgen imaginar exatamente o que queria dizer.
Pelo que Joe sabia, Arnold não tolerava práticas desonestas. Morgen
decidiu que Trent estava se referindo à personalidade de Fursten,
que tinha mudado muito no último ano. Um homem frio, Arnold
Fursten. Até mesmo sua ira — sempre provocada pela ineficiência
ou incapacidade de se manterem dois passos à frente de seus
competidores — era fria. Quanto à química que todos supunham
ser sua amante, Joe o vira com a moça no laboratório diversas vezes,
e Arnold era tão formal com ela quanto com os outros. Se lhe
dedicava qualquer sentimento, reservava isso para o quarto de
dormir aonde quer que fosse. Ninguém sabia o certo.
— Alguma novidade? — Arnold perguntou a Trent, acrescentando
um pedaço de limão ao chá. Gostava de tomar Earl Grey à tarde e
Turning's Breakfast de manhã. Seu valete de quarto certificava-se
para que nunca bebesse nenhum outro.
Trent balançou a cabeça.

— Nada, por enquanto. Eles estão descansando sobre os louros,
após o Decreto dos Cosméticos, Medicamentos e Alimentos. E as
pessoas estão imaginando quando entraremos na guerra. Não há
muito tempo para pensar na beleza.
Arnold sorriu de leve.
— Vão pensar nesse assunto assim que entrarmos na guerra, pode
apostar. Quando há problemas, tal como depressão, guerra, as
pessoas preocupam-se com a beleza. Enquanto isso, vamos
ingressar em outro ramo de negócios.
— Outro ramo? — repetiu Joe Morgen, mexendo o café. — Achei
que você tinha decidido apertar o cinto até absorvermos os custos
com os novos rótulos, após aquela maldita lei.
— Custou uma fortuna reformular e rotular todo o estoque —
concordou Simon, surpreso com o fato de Arnold estar cogitando
em expansão, após os problemas pelos quais a Duquesa acabara de
passar para se ajustar às novas regulamentações.
Arnold não disse nada. Faria a comunicação na hora certa. O leve
sorriso se ampliou quando Otto Einhorn entrou na sala, o guarda-
pó branco esvoaçando, o cabelo crespo grisalho e despenteado. Ele
era a única pessoa na Duquesa a quem era permitido essa liberdade
nos trajes e na aparência. Mas, como Einhorn não tinha a menor
idéia de que gozava de um tratamento especial, nenhum dos outros
se ressentia pelo lugar que ele ocupava no pequeno reino de
Arnold. Todos admiravam o homem por suas bruxarias químicas e
o apreciavam pelo modo como enfrentava Arnold, principalmente
porque não era intenção de Einhorn enfrentá-lo.
"Ele não tem intenção nenhuma", Sara havia dito a todos eles certa
vez, enquanto esperavam por Arnold e Einhorn nessa mesma sala.
"É um sonhador de muitas qualidades, um poeta da química. Vive
em um mundo só seu e é totalmente alheio a tudo que não seja suas
fórmulas e seus tubos de ensaio."
Sarah vinha logo atrás do químico agora. Aos trinta anos, era tão
esfuziante como sempre fora, embora houvesse sinais de cansaço

em torno dos olhos, e as mãos se movessem nervosamente. Era uma
bela mulher. A figura alta era perfeita para o modelo de Adrian que
envergava, um vestido de seda negra com cinto e ombros largos,
salpicado de leões surrealistas de faces tristes. Um chapéu de abas
largas, a copa alta e estreita, enfeitado de filó preto franzido, estava
puxado para a frente. Usava luvas negras que iam até o cotovelo. Os
homens a admiraram em silêncio. O irmão não tinha perguntado
onde Sarah estava. O paradeiro de Sarah não era para ser discutido
em público — não mais do que o de Arnold.

— Desculpem o atraso, companheiros — falou Sarah.
— Encontrei Otto às voltas com o mercúrio amoniacado.
— Sente-se, sente-se — disse Arnold, puxando uma cadeira para
Sarah. — A não ser que queira café. — Ela balançou a cabeça. — E
quanto ao mercúrio amoniacado? — indagou a Otto.
Einhorn, no aparador, já se servira de café acrescido com muito
creme e açúcar. Remexeu em um armário, em busca de seus
"biscoitos" favoritos — bolachas de gengibre que Arnold importava
de Viena para ele, agora através do Brasil — e sentou-se à mesa com
uma xícara — sem o pires — e um punhado de bolachas,
cumprimentando com a cabeça todos na mesa.
— É perigoso — explicou Einhorn, jogando na boca um biscoito de
gengibre. —-Precisa parar de fabricar Mãos Alvas. — Algumas
migalhas caíram na polida mesa de mogno.
— Parar de fabricar Mãos Alvas? — objetou Simon, franzindo as
sobrancelhas escuras. — É o creme alvejante mais eficaz do
mercado.
— E também um dos que mais vendem — interpôs David.
Einhorn repetiu:
— É perigoso. Tem de interromper a produção.
Arnold ergueu uma das mãos, silenciando seus funcionários de
venda e de produção. Nunca pensava neles como cunhados.
— Que mal pode causar? — indagou a Einhorn. Einhorn pousou a
xícara na mesa lustrosa, e Arnold

se forçou a não mostrar nenhum sinal de irritação com o aro de
umidade que faria. Sarah sorriu ligeiramente ante a cena; sempre se
divertia ao ver Arnold controlar sua natureza ditatorial em
benefício de uma causa maior.

— Dependendo da quantidade, pode causar tudo, desde
descoloração da pele, que é para o que o vendemos, até morte —
respondeu Einhorn.
— Qual a quantidade? — insistiu Trent.
— É lógico! Simplesmente vamos colocá-lo abaixo do nível de
perigo. Levará um pouco mais de tempo para as manchas da pele
desaparecerem — afirmou Arnold. — Isso não é problema.
— Oh, sim. Precisaríamos testar cada mulher que comprasse o
produto, porque o nível de perigo é diferente para cada mulher. —
A sintaxe inglesa de Einhorn ainda falhava ocasionalmente. Ele
mastigou as bolachas, jogando as migalhas no tapete verde-musgo,
espesso e estampado. — Retire da linha de produção. Hoje. —
Levantou a xícara, notou a mancha e a esfregou com a ponta do
guarda-pó, aumentando-a, olhando para Arnold com ar de
desculpa. Todos sabiam que ele estava se desculpando pelo creme
perigoso, não pela marca na mesa.
Houve um silêncio momentâneo. Depois Arnold deu de ombros e
disse:
— Então retirem. Joe, faça um comunicado à imprensa. Diga que a
Duquesa não espera pelas restrições do governo, que sempre
testamos nossos próprios produtos e o estamos voluntariamente
retirando do mercado, devido ao risco em potencial. As demais
companhias não terão outra opção, senão a de seguir o exemplo.
Mas seremos os primeiros e vamos lucrar com a publicidade. Otto
encontrará algum uso para o material estocado e devolvido.
Concordam? — Essa era uma pergunta retórica, e ele nem aguardou
a resposta. — Algo mais?
— As essências florais que obtemos com o cultivo doméstico não
estão apresentando a mesma qualidade das importadas — avisou

Simon. — Vão experimentar fertilizantes diferentes, mas, se isso não
funcionar, o estoque importado se esgotará antes do final de 1941. E
ninguém sabe o que receberemos de fora, se entrarmos na guerra.

— Maresh teria melhorado a qualidade — disse Arnold em tom
contundente, olhando de relance para Sarah.
Ela respondeu com rispidez.
— Até mesmo Maresh precisaria de tempo. Uma laranjeira leva
dezoito meses para amadurecer.
— Bem, não temos tempo — replicou Arnold, mais tranqüilo. Não
estava disposto a discutir com a irmã. E hoje ela parecia mais
nervosa que de costume. A cólera de Sarah raramente aflorava, mas,
quando isso acontecia, era titânica. — Pode fazer algo? — indagou a
Einhorn.
— Acho que sim — respondeu Otto. — Não se esqueça de que
alguns dos melhores perfumes são principalmente sintéticos. Tenho
algumas idéias quanto a mudar a disposição das camadas,
invertendo a ordem, até mesmo os fixadores, para aproveitar mais
os óleos essenciais. Os elementos ves-tigiais que também
negligenciamos, até mesmo com espectrômetro NMR.. .
— Não me venha com detalhes técnicos, Otto querido — protestou
Sarah. — Simplesmente diga se pode ou não.
Otto concordou com a cabeça.
— Creio que sim.
Arnold reclinou-se na cadeira. Se Otto achava que sim, isso era
quase uma certeza.
— Quanto tempo? — indagou.
— Um ou dois meses.
— Esse tempo basta? — Arnold perguntou a Simon. O homem
jovem e atarracado de cabelos escuros que lembrava tanto o pai,
Martin Held, concordou. — Então — prosseguiu Arnold — se não
há mais nada hoje. . . quero comunicar a todos vocês que vamos
ingressar no setor farmacêutico.

Os outros receberam a notícia em silêncio. Foi Joe Morgen quem
falou primeiro.

— Essa é uma boa medida com uma guerra em andamento, mas
onde vamos encontrar a fábrica de que necessitamos? As
companhias farmacêuticas do país já dobraram de preço. Custaria
uma fortuna comprar até mesmo a menor delas. E, com a guerra,
não haverá material de construção disponível.
— A não ser. . . — começou Sarah, os olhos indo do irmão para Otto
e Ellis Trent.
Arnold assentiu com a cabeça. A irmã era uma mulher esperta.
— Exatamente. A não ser que já tenhamos comprado algumas
fábricas e adaptado uma parte da nossa. — Em seu entusiasmo,
Arnold inclinou-se para a frente. — O equipamento é muito
semelhante. Já produzimos sob condições controladas de
quantidade e mistura. Otto me assegurou que é bastante fácil obter
as condições estéreis. Iremos nos restringir a substâncias muito
parecidas com as nossas: pomadas, anti-sépticos, remédios em pó,
tudo isso. E já faz algum tempo que estamos comprando pequenas
fábricas e assumindo o controle de outras companhias.
— Ótimo para você! — disse Sarah. — Por que não me contou?
— Você tem ficado mais tempo ausente do que em casa. —
Novamente o tom de reprovação na voz. — Enquanto isso, Trent se
manteve ocupado. E não só na expansão da fábrica. Ele tem
procurado seus contatos no governo para conseguir as concessões.
Ellis Trent sorriu.
— Só é preciso dar dinheiro às pessoas certas.
— Quase sempre — confirmou Sarah. — Arnold, estou orgulhosa
de você. Quando entrarmos nesta guerra, vou me sentir melhor se
estivermos produzindo remédios, oferecendo à batalha algo mais
do que incentivo moral.
— E eu também — interpôs Otto —, contanto que vendamos para o
lado certo.
— Contanto que vendamos, o que isso importa? — observou Trent.

— Pois pode apostar sua bunda que isso importa — retrucou Sarah
ferozmente, enquanto Arnold estremecia ante a linguagem da irmã.
— Sabe muito bem que este país vai juntar-se aos Aliados. Qualquer
venda para o Eixo seria uma traição.
— Você ficaria surpresa com a quantidade de negócios que se fará
entre empresas de lados opostos da batalha — replicou Ellis,
imperturbável. — Não creia em toda a propaganda que os governos
espalham por aí durante uma guerra. Os produtos, inclusive os
farmacêuticos, irão para quem fizer a melhor oferta, direta ou
indiretamente.
Todos os olhos voltaram-se para Arnold. Einhorn inclinou-se para a
frente, na expectativa.
— Não — afirmou Arnold, afastando seus temores. — Esta
companhia nunca venderá para o Eixo.
— Ou para qualquer país neutro que possa abastecer o Eixo, apesar
do lucro? — acrescentou Sarah, desafiando o irmão a anular
qualquer uma dessas possibilidades de uma vez por todas.
— Lógico que não! — garantiu Arnold, surpreso com a inferência da
irmã. — Acha que as minhas simpatias estão com os alemães?
— As minhas estão com os judeus — falou Einhorn.
Não farei nada, nem perfumes, nem remédios, que não seja
para combater meus inimigos.
— Você tem a minha palavra, Otto — prometeu Arnold, eliminando
as suspeitas com um olhar firme. — Nunca houve nenhuma dúvida
a esse respeito. Agora vamos ao que interessa.
Começaram a discutir o novo projeto, decidindo quais fábricas
seriam adaptadas se ganhassem a concorrência dos contratos,
canalizando os vários estágios de responsabilidade aos diferentes
chefes de departamento.
— Contrate mulheres — sugeriu Sarah, quando discutiram o
problema da falta de pessoal. — Os homens serão convocados.

Analisaram os prós e os contras de tornarem público o novo
empreendimento. Arnold e Joe Morgen estavam a favor, Ellis Trent
era contra.

— Podemos precisar fazer isso mais tarde — argumentou. Arnold
cedeu.
Dividiram as operações entre os funcionários da produção e os das
vendas subsidiárias sob as ordens de Simon e David. A estrutura
básica já fora estabelecida por Arnold e Ellis Trent. Os detalhes
cabiam a um trabalho de grupo.
A reunião foi interrompida quando Arnold olhou para o relógio.
— Precisamos ir andando — disse a Sarah e aos dois irmãos Held.
— A festa de Julie é às seis, e temos de pegar as esposas e os filhos.
Continuaremos com isso daqui a alguns dias — avisou aos outros.
— Mas, com a garantia da indústria farmacêutica, a Duquesa não
tem nada com que se preocupar, com ou sem guerra.
— Esse homem é um bocado esperto — comentou Joe Morgen
quando os quatro membros da família Fursten saíram, após se
despedirem rapidamente dos outros. — E, com tudo isso na cabeça,
não se esquece da festa de aniversário pelos seis anos da filha. —
Balançou a cabeça em admiração silenciosa.
Trent encolheu os ombros.
— Qualquer pessoa podia ver que os medicamentos eram a
alternativa lógica, a linha colateral básica.
— Sim, mas ele percebeu isso há anos. E olhe como tirou vantagem
da catástrofe do creme alvejante. — Virou-se para Otto. — Tem de
admitir que os suprimentos médicos são patrióticos.
Einhorn pareceu perturbado.
— Esperto ele é — reconheceu suavemente. — Quanto a patriótico,
não tenho muita certeza. Talvez não faça isso pela guerra, mas
apenas pela empresa.
Joe ergueu-se, ainda sorrindo.

— O que interessa o motivo? O resultado é o mesmo. Bem, já é
tarde. Preciso preparar um comunicado à imprensa sobre o caso das
Mãos Alvas e uma reunião com os rapazes da agência. Vejo vocês
depois.
Saiu, deixando os dois homens, um calmo e vestido com elegância,
o outro agitado e desalinhado, em silêncio na grande mesa.
Olharam um para o outro, e Einhorn perguntou:
— É realmente verdade que uma empresa pode vender seus
produtos para o inimigo em uma guerra?
— Acontece todo o tempo — respondeu Trent. Achava Einhorn
ofensivo sob inúmeros aspectos, mesmo sendo um químico tão bom
quanto era.
— Não nesta companhia. Ele deu sua palavra. Trent ficou calado.
— Ele deu sua palavra! — insistiu Einhorn.
— Então devemos supor que vai mantê-la — replicou Trent
irreverentemente, como se estivesse se divertindo com o químico. —
Haverá dinheiro suficiente nos contratos do governo. Ele nem
mesmo será tentado a quebrar a promessa — Recolheu os papéis. —
Isso não importa muito.
— Importa, sim — retrucou. — Para ele, vai importar Até mesmo
para você. — Saiu, deixando Trent sozinho na luz de setembro, que
morria lentamente.
Logo isso teria muita importância para todos eles. Muita
importância.
Capítulo 21

LONDRES — véspera de ano-novo de 1942


Londres estava turbulenta, desordeira, vivendo de sua coragem.
Anos depois, os sobreviventes diriam que a guerra foi a uma
aventura sem paralelo, uma época de excitação e camaradagem.
Envergonhados, confessariam que foi o ponto alto de suas vidas.
Lazar Kramer e Maresh Skowalski estavam sentados em um pub na
Baker Street, não muito longe de onde o sagaz Sherlock Holmes
supostamente teria morado. A teimosa, assustada Londres
celebrava o nascer do ano de 1943 com o lunático júbilo da guerra.
A guerra não estava indo nada bem. A entrada da América na luta
dera novo alento aos Aliados; o que precisavam era de uma força
poderosa para deter a gigantesca onda de vitórias alemãs. A Europa
era o play-ground de Hitler, o cenário de jogos demoníacos. A maior
parte da Rússia parecia prestes a seguir o destino de Stalingrado —
a não ser que a maré mudasse e a incrível ofensiva do Exército
Vermelho alcançasse êxito. O exército alemão ocupara toda a
Criméia, desde a queda de Sebastopol em julho. Na África, Rommel
havia ocupado Tobruck e invadido o Egito até El Alamein. Apenas
há um mês Montgomery o forçara a recuar.
Na Palestina, o Haganah agia abertamente em auxílio aos
britânicos, muito embora a política de imigração britânica para os
judeus torturados da Europa permanecesse inalterada. Um grupo
de extremistas judeus tinha endurecido suas posições: nunca se
esqueceriam de que a Palestina continuava fechada, enquanto os
portões de Auschwitz achavam-se escancarados. Mas, por
enquanto, não havia dúvidas da lealdade do Yishuv para com os
britânicos.
O mundo começava a pensar que poderia haver uma certa verdade
em todas as histórias vindas da Europa nazista, especialmente
quando foram publicados os relatórios da con-erencia de Wannesee,
especificamente convocada para alinhavar uma "solução final do
problema judeu". Alguém devia resgatar as vítimas de Hitler, dizia

o mundo, antes que fosse tarde demais. Não existiam voluntários.
Alguns países aceitavam apenas trabalhadores rurais

experimentados — e os judeus da Europa há muito tempo estavam
proibidos de possuir ou trabalhar a terra. Um país só queria
imigrantes batizados. Três outros argumentavam que comerciantes
e intelectuais eram cidadãos indesejáveis.
Havia ofertas de um nazista chamado Adolf Eichmann para vender
judeus ou trocá-los por medicamentos e qualquer outro material de
guerra.
Mais tarde, quando o massacre terminasse, as nações civilizadas
tremeriam ante os filmes e filmes dos campos de extermínio,
participariam piedosamente dos julgamentos dos crimes de guerra
em Nuremberg. No presente, deixavam os judeus entregues ao seu
destino.
Da Palestina, o único lugar onde uma parte da população queria os
judeus, comandos do Palmach voavam para a Europa, a fim de
organizarem a resistência e a fuga. A maioria deles morreria. Em
Londres, Charles de Gaulle agora liderava a França livre e
atormentava os britânicos com exigências de mais autoridade;
Churchill diria depois que, de todas as cruzes que precisou carregar,
a Cruz de Lorraine fora a mais difícil. Em Londres, havia
combatentes fugidos da Bélgica, da Dinamarca, da Holanda, da
Noruega. E, em Londres, o Ministro do Interior do governo polonês
era Stanislaus Mikolajczyk. Era a esse quartel-general que Lazar
Kramer e Maresh Sko-walski estavam ligados de uma forma
independente.
Nesta véspera de ano-novo, a atmosfera do pub estava densa de
fumaça. As conversas e os risos eram ensurdecedores, mas Lazar e
Maresh bebiam em silêncio duas canecas de cerveja, atentos à porta,
esperando.
Havia uma semelhança entre eles. Ambos possuíam uma altura
bem acima da média, embora Maresh fosse muito mais encorpado,

o corpo poderoso formando um estranho contraste com a expressão
gentil e ansiosa do rosto quadrado. O cabelo de Lazar, descorado
pelos anos de exposição ao sol, tinha agora muito do branco natural.

Os olhos eram de um azul mais profundo do que os de Maresh, mas
igualmente penetrantes, observadores. Movia o corpo musculoso
com agilidade treinada, porém silenciosa. Apesar de serem
diferentes, as atitudes se assemelhavam, em uma espécie de
precaução constante. Por força do hábito, ambos sabiam quantos
homens os ladeavam, onde ficavam as saídas, como poderiam fugir
de lá rapidamente em caso de emergência. Passavam muito tempo
no continente, cada segundo, um momento de perigo.
Os rostos tensos e marcados pelas intempéries abriram-se em
sorrisos quando Joshua cruzou a porta do pub. Ele agora envergava
um uniforme do Exército dos Estados Unidos, em substituição ao
uniforme da Cruz Vermelha que usara até dezembro de 1941 para
trabalhar com as forças clandestinas na Polônia. Havia divisas de
capitão nos ombros da jaqueta, uma insígnia "US" em uma das
lapelas e uma estrela-de-davi na outra. Quando tirou o quepe, o
cabelo escuro estava raiado de cinza. O cinza ficava mais evidente
nele do que em homens louros como Lazar e Maresh — mas o
sorriso refletia o deles, enquanto abria caminho até a mesa. Os três
se uniram em abraços juvenis.

— Quanto tempo tem? — indagou Maresh.
— Uma hora.
— Você conseguiu! — gritou Lazar. — Estávamos começando a
desistir.
— Eu não — insistiu Maresh. — Ele nunca quebrou sua palavra
comigo, desde que tínhamos cinco anos de idade.
— Começou a andar em direção ao bar. — Vou pegar as bebidas. O
que prefere, Josh?
— O mesmo que você. — Joshua sentou-se junto ao cunhado e o
examinou com atenção. — Você parece estar em ótima forma. Tenho
que mandar o relatório a Sarah, entende. — O rosto tornou-se mais
sério. — É verdade que você e Maresh têm entrado e saído da
Polônia como turistas?

Lazar concordou com a cabeça, a fisionomia espelhando a de
Joshua.

— Mas os lugares que visitamos não estão em nenhum guia de
viagens. Obrigado, Maresh. — Ajudou o homenzarrão a colocar na
mesa as canecas de cerveja.
— Quantos partisans judeus existem no campo polonês? -perguntou
Joshua, tomando um grande gole de cerveja.
— Mais ou menos mil — respondeu Maresh.
— Será que podem sabotar as deportações do gueto de Varsóvia, as
ferrovias para Auschwitz, qualquer coisa?
Lazar balançou a cabeça.
— Eles fazem o que podem, mas seu principal interesse é
permanecerem vivos até tudo terminar. Não quero chocá-lo, Josh,
mas acontecem coisas estranhas a homens perseguidos, que vivem
como animais. — Olhou de relance para Maresh, que parecia
deprimido.
— Diga-me, Lazar. O que está acontecendo com aquela gente?
Lazar lhe contou. Os bandos nômades de judeus que escaparam
para as colinas estavam passando necessidades. Era uma questão de
sobrevivência.
— Não se pode ser nobre quando o problema é sobreviver. — Lazar
evitou os olhos de Joshua.
— Prossiga -— disse Joshua, sentindo que havia algo errado.
— Os partisans não se arriscarão a chegar perto do gueto ou das
ferrovias para Auschwitz. Mas já existem muitos homens
organizando uma resistência, antes que todos os judeus em
Varsóvia sejam mortos.
— Mordechai Anilewicz — falou Joshua. — Já ouvi falar.
— E alguns outros — acrescentou Maresh. — Itzhak Zuckerman.
Szymon Gotesman.

— E vocês! — exclamou Joshua alarmado, compreendendo de
repente. — Vocês dois estão indo para lá pessoalmente. Mas nunca
conseguirão sair.
— Vamos sair — afirmou Maresh. — Lazar se parece com um
polonês e fala como eles tanto quanto eu, e olhe que já transitei por
lá um bocado. As forças clandestinas polonesas infiltraram sua
gente no país com bastante facilidade. I Quase sempre o problema
era arranjar os documentos para fazê-los sair. Até agora tiveram
sorte.
— Escute, Josh — disse Lazar. — Não há escolha. Os que ficaram na
Polônia têm muita fibra. Tudo de que necessitam é algo com que
lutar e alguém para liderar os grupos de combate.
— Mas de que isso vai adiantar? — protestou Joshua.
Nada no mundo impedirá que o gueto caia, assim que os
alemães decidirem arrasar com tudo!
— Concordo. — Lazar assentiu com a cabeça. — Mas podemos tirar
mais algumas pessoas de lá. E podemos lutar! Isso compensa o
risco. — Fitou Maresh, depois Joshua. — Não é? — Essa foi uma
pergunta séria. Ele esperava por uma resposta.
Joshua examinou os dois mais atentamente. Havia algo muito
errado, uma vaga sensação de dúvida que nunca sentira antes em
nenhum deles. Começava a encontrar isso cada vez mais nos
homens que testemunharam violências e crueldades muito além da
própria crueldade da guerra. O fato de conhecerem as profundezas
nas quais a humanidade podia afundar os fazia imaginar se deviam
arriscar as próprias vidas para salvar as dos outros — ou até mesmo
lutar contra os alemães.
— Você fala como se quisesse ser convencido. Por quê? Lazar e
Maresh estavam tensos, de cabeça baixa.
A mente de Joshua retornou àquele momento no qual pela primeira
vez sentiu que algo não ia bem.
— Fale-me sobre os partisans, os que precisam sobreviver.
Os ombros de Lazar baixaram. A voz também.

— Eles são selvagens como feras. — Os olhos azuis encontraram os
de Joshua, implorando, desculpando-se. — Eles não podem evitar,
Josh. Aquela gente precisa roubar cada bocado de comida que
come. Vestem-se de trapos, pedaços de cobertores mofados,
uniformes alemães que tiram dos mortos, até dos homens que eles
mesmos matam. — Parou de implorar. Simplesmente falou. — No
mês passado, dezoito deles estupraram uma das mulheres. Não sei
por quê. Uma de nossas próprias mulheres, uma partisan, uma
judia! Tentamos impedir, Maresh e eu. Mas os homens que não
estavam fazendo aquilo nos seguraram, como se estivessem
acostumados com coisas assim. Quando tudo acabou, a mulher
também pareceu não ligar. Enfiou um trapo na calcinha, pegou o
rifle e foi andando. — Balançou a cabeça. — Eu não conseguia
acreditar naquilo. Eles sabem o que está acontecendo com as
mulheres nos campos. E agem do mesmo modo.
— Mas há coisa ainda pior — disse Maresh, as imagens afluindo
para ele como se Lazar tivesse aberto uma represa. — Algo que não
posso entender. Que nunca entendi. Que nunca entenderei. —
Respirou fundo. — Há um pequeno campo de repouso onde os
oficiais mantêm as jovens judias bonitas. Não foi muito difícil para
abatermos os guardas, não havia muitos. Fica perto de uma cidade,
e nunca pensaram que chegaríamos tão perto. Abrimos o lugar
onde as garotas estavam trancadas. — Olhou para Joshua, perplexo.
— Estavam todas nuas, simplesmente sentadas nas camas. Estava
quente lá, mas não tinha nem um só pedaço de pano ali.
"Todas" tinham tatuagens, aqui. — A mão cruzou o peito maciço. —
Em alemão. Dizia "Prostitutas de Campanha". Pedimos às moças
que corressem, que fugissem antes de unia patrulha alemã aparecer,
que viessem conosco. Tiramos as jaquetas para terem algo que
vestir. Eram tão jovens, algumas mais jovens do que minhas
próprias filhas. — Meneou a cabeça, tal como Lazar fizera.

"Elas" não vieram conosco, Josh. Quiseram ficar onde estavam.
Disseram que os alemães saberiam que os partisans tinham matado
os guardas, não elas. Disseram que estava quente lá, que recebiam
comida, que tinham mais chance de sobreviver permanecendo onde
estavam do que fugindo conosco. — Seu rosto era um estudo de
perplexidade, implorando por uma explicação. — Não pude culpálas.
A mulher que fora estuprada estava conosco. Quando as
meninas nos disseram para que fôssemos embora e as deixássemos
ali, aquela mulher riu. Nunca ouvi uma mulher rir daquele jeito. Foi
terrível!
Os três homens ficaram silenciosos por um tempo. Quando Lazar
falou, seu rosto estava tenso.

— Ari comentou isso certa vez em Giora, lembra-se, Josh? Não
somos santos, não somos nobres. Somos iguais a eles. Animais, tal
como eles.
— Não! — Maresh bateu na mesa com o punho. — Não somos como
eles! Em toda a história do mundo, não existe ninguém igual a essa
gente. Não sei quem é esse seu Ari, Lazar, mas ele está errado. Não
compreendo nada disso, mas sei que está enganado. Ninguém
jamais fez o que os alemães fizeram. Nunca!
Lazar pousou a mão sobre a de Joshua.
— E a nossa gente no gueto merece que lutemos por eles, Josh? —
Não falava com tanta segurança quanto Maresh. — Nós merecemos,
se somos também iguais a eles?
Josh segurou-lhe a mão. Durante toda a vida, havia acreditado que
era possível moldar a natureza humana em bondade ou no seu
oposto. Durante toda a vida, havia acreditado na justiça de uma boa
causa. Mas, se convencesse esses homens, estaria arriscando duas
vidas que lhe eram caras para tentar salvar algumas pessoas que
nunca conheceria. E será que estava certo? Se um homem como
Lazar Kramer podia pôr em dúvida sua vida inteira, Joshua estaria
certo?


— Não posso lhe responder — disse Joshua, após pensar durante
um longo tempo. Só posso dizer o que acredito para mim mesmo.
Sim, ainda vale a pena lutar por eles, porque a civilização merece a
luta, e os homens são as naus da civilização. Os guerrilheiros que
estupram, as moças que preferiram ficar onde estavam, até mesmo
os milhões que caminham para a própria destruição como
cordeiros, é isso o que acontece sem a civilização. Quando
presenciamos o que ocorre com as pessoas comuns sem ela. . . —
Recostou-se na cadeira. — Mesmo que as pessoas tenham sofrido
brutalidades tão horríveis a ponto de não valer a pena salvá-las,
precisamos salvar a civilização em si.
— Olhou para cada um deles. — Pelo bem dela, pelo nosso bem,
temos de salvá-la. Essa é a minha opinião.
Maresh assentiu com a cabeça, respirando fundo.
— Eu sabia que você seria capaz de nos responder. Lazar,
sempre lhe disse que Joshua explica as coisas.
A fisionomia de Lazar parecia menos tensa agora.


— As coisas ficam desfocadas quando não se analisam ambos os
lados, como faz o Rabino. Acho que não devemos deixar a
civilização de Josh descer pelo esgoto, porque os encarregados de
conservá-la enlouqueceram. Mas, às vezes, bem que gostaria de
ensinar os animais a tocar música e ler livros. Nossas realizações
seriam mais seguras com eles.
—Isso significa que vão entrar no gueto? — perguntou Joshua.
Lazar fez que sim com a cabeça.


— Eu iria de qualquer maneira. Mas sem saber o motivo. Os três
homens continuaram bebendo a tépida cerveja,
que era a preferida dos ingleses. Logo estavam falando de casa, dos
amigos, das esposas e dos filhos. Poderia ser qualquer outra cidade
em qualquer outro ano. Mas era Londres, era quase 1943 — e então
era hora de partir.

— Ei, Rabino! — Um dos homens no bar reconheceu a insígnia de
Joshua, quando os três se comprimiram em direção à porta. — Que
tal uma bênção para o nosso ano-novo?
— Tudo bem. Darei a você uma que talvez não compreenda, mas
que nunca falha.
O grupo mais próximo ficou silencioso, esperando que os olhos de
Joshua percorressem os seus rostos, e ele disse algo em uma língua
desconhecida. Depois tornou a sorrir.
— Com ela, você terá sorte, garanto.
Os homens relaxaram, felizes e ruidosos novamente, despedindo-se
dos três amigos que saíam do pub. Lá fora, olharam uns para os
outros. Joshua passou os braços em torno dos dois, repetindo o que
dissera no pub. Então se despediu:
— Cuidem um do outro.
Virou-se e se afastou dos dois rapidamente, sumindo no ano frio e
úmido que se iniciava, sacudindo os ombros dentro do sobretudo,
os olhos marejados de lágrimas, temeroso de nunca mais tornar a
vê-los. Só um milagre conseguiria tirá-los do gueto de Varsóvia.
Assim como a maioria das pessoas, Joshua apenas esperava pelos
milagres; não acreditava neles.
— Aquilo era hebreu, o que ele disse, não é? — Maresh quis saber
após Joshua desaparecer de vista.
— Não, era árabe. Acho que era uma antiga bênção egípcia. —
Lazar pensou por um momento, tentando reproduzi-la com
exatidão. Depois disse: — Que Deus esteja entre você e o mal em
todos os caminhos solitários que precisar trilhar.

Capítulo 22

VARSÓVIA — maio de 1943

Maresh estava de pé com um grupo de homens, do lado de fora do
muro que separava o gueto do resto de Varsóvia. As mãos estavam
enrodilhadas nos bolsos do paletó surrado, e ele sentia frio, embora
raramente prestasse atenção ao tempo, exceto no que se referia às
colheitas em qualquer estação do ano.
Uma fumaça acre pairava sobre o gueto e, sem respeitar os muros,
se espalhava pelos quarteirões ao redor. Maresh estava feliz com
isso. A fumaça encobria o forte cheiro do queijo que pendurara na
cintura e nos joelhos, sob a calça frouxa. O queijo e um pedaço de
pão eram tudo o que conseguira trazer consigo dessa vez. Não era
muito — mas também não havia jeito de saber quantos deles
restavam lá dentro. O número dos sobreviventes diminuía a cada
vez que Maresh entrava.
Uma explosão de risos dos homens em volta interrompeu suas
divagações, e ele riu junto com os outros. A única coisa que não
devia fazer era parecer diferente dos demais, até que tivesse uma
chance de se esgueirar em um dos bueiros.

— Gostaria de provar mais uma dessas. E você? — O homem perto
de Maresh cutucou-lhe o braço sugestivamente.
— Nunca experimentei nenhuma — resmungou Maresh.
— Não sabe o que está perdendo. É uma das mais gostosas. Ei! — O
homem chamou os outros. — Aqui tem um sujeito que nunca
provou uma boceta judia.
Os homens riram de novo. Um deles se aproximou de Maresh.
— Escute — falou. — Você não ia acreditar em como era
apertada a minha. Mas era quente! Ela era quente como uma
galinha assada. Lutou um pouco, mas posso jurar que queria. E
quando enfiei nela, a garota se sacudiu como uma cobra presa em
um pau. O meu pau. — Todos tornaram a rir. — Era tão apertada e

se agitava tanto que nem precisei mexer muito a bunda para gozar
como um foguete.

— Uma virgem? — Um dos homens, tão grande e louro como
Maresh, umedeceu os lábios.
— Como vou saber? Mas ela tinha uma xoxota pequenininha, como
um mexilhão cor-de-rosa com cabelo por cima, quando abriram as
pernas dela para mim. Fui o primeiro, e ninguém viu sangue algum
até o quarto ou o quinto.
Embora a contragosto, Maresh sentiu a calça se avolumar na frente.
Fazia muito tempo que não tinha uma mulher.
— Onde a descobriu?
O homem, menor e não tão louro quanto o que umedecera os lábios,
enfiou os polegares no cinto.
— Fomos lá dentro antes que o construíssem. — Indicou o muro
com um movimento da cabeça. — A gente espiou pelas janelas até
achar a que queria. A garota tinha tetas iguais a grandes bolas de
neve! Entramos pela janela da copa, depois que vimos o velho da
garota, devia ser o pai, sair pela porta da frente. Era uma sexta-feira
à noite, sabe, quando todos os homens saem para fazer as preces, ao
invés de rezarem aos domingos como todo cristão decente. Ela
estava acendendo as velas, quando a agarramos. Nessa noite, ela
conseguiu mais velas do que esperava.
Maresh manteve o sorriso lúbrico nos lábios, mas a ereção
provocada pela conversa daqueles homens tinha sumido. Não
conseguia pensar em nada além de Manya Fursten, em Rivington
Street, acendendo velas em uma sexta-feira à noite, há muito tempo,
quando Anna estava em trabalho de parto, e ele irrompeu no
apartamento dos Fursten em busca de auxílio. Sarah, de pé junto à
mãe, erguera os olhos sobressaltada, mas Manya, uma das mãos
cobrindo os olhos enquanto a outra segurava o fósforo, murmurou
suas preces até completar o ritual, antes de virar-se para Maresh.
— Por favor, senhora — implorou. — Chegou a hora de Anna; o
bebê vem na posição errada. Por favor!

— Oh, mas ela não pode sair agora, é shabbas — começou Sarah. Ela
era apenas uma criança então, com doze ou treze anos, mas já era
uma linda menina.
— Sha! — a mãe fê-la calar-se e, depois, dirigiu-se a Maresh em
polonês. — As dores estão vindo muito próximas uma da outra?
— Sim, senhora, por favor. — Maresh resfolegava, quase louco de
preocupação. Sua Anna era tudo o que lhe restava da antiga pátria,
e se esse bebê fosse um menino, após duas garotas. . .
— Tudo bem, já estou indo — disse Manya. Falou algumas palavras
a Sarah em iídiche, enquanto pegava alguma coisa no grande
aparador de moldura onde oravam há pouco. Ele nunca soube o
que Manya disse, mas Sarah concordou com a cabeça, olhando para
a mãe, que vestia o casaco e saía correndo com Maresh, como se a
visse pela primeira vez.
Ela precisou correr muitas vezes depois daquela noite, para outros
bebês, doentes ou recém-nascidos, para o próprio Maresh, no
inverno em que teve pleurisia. Ele nunca entendeu por que Manya,
cuja estrita obediência à religião era alvo dos falatórios de toda a
vizinhança, punha a piedade de lado para ir em auxílio de qualquer
um que necessitasse dela. Certa vez, no dia mais santo do ano para
os judeus, saiu para fazer o que chamou de mitzvah — uma boa
ação, Joshua lhe contou mais tarde. "Se muitas pessoas fizerem um
grande número de boas ações, isso equilibra a balança para quem
não fez nenhuma."
Bem, Manya fazia mais do que o suficiente! Não comprava sua
carne — isso era trayf, dizia, impura. E ele tinha de tirar da parede o
crucifixo e o retrato de Nossa Senhora, antes que ela cruzasse a
soleira de sua porta. Mas Manya nunca se recusava a ajudar. Por
isso ele a honrava como se fosse sua própria mãe.
Maresh respeitava Arnold, apesar de não conseguir realmente
conversar com ele. Venerava Joshua, cujas lições ajudaram a mudar
sua vida. Mataria qualquer um que encostasse a mão em Sarah —
como este miserável imundo aqui. Aprendera a amar Lazar quase

tanto quanto gostava de Joshua. Lazar, que neste exato momento
estava dentro do gueto, à espera de comida.
A raiva queimava em sua garganta, mas continuou sorrindo, tal
como este sujeitinho de merda que havia violentado uma jovem
como Sarah, em uma noite de sexta-feira semelhante a esta. E,
apesar disso, seu pau começara a inchar, como se tivesse ouvidos.
Em pensamento, passou uma violenta descompostura em si mesmo.
Não era capaz de entender tais coisas. Estavam além da
compreensão de um homem simples, comum. Porém, até mesmo
um homem simples buscava respostas. Joshua sempre respondera
mesmo a suas perguntas mais intrigantes melhor do que o padre.
Imaginou o que Joshua diria a esse camarada! Receava que nunca
descobrisse. Joshua estava em alguma parte com os americanos; não
recebera nenhuma mensagem dele por meses, até hoje. E quem
sabia quanto tempo a mensagem havia levado para alcançá-lo — ou
se Joshua continuava vivo?
Os homens começaram a conversar sobre os planos alemães para
aniquilar a resistência final no gueto essa noite. Maresh ouviu
atentamente. Isso não era nenhuma surpresa. Também não seria
para quem se encontrava lá dentro. Os alemães só aguardaram
tanto tempo porque desejavam capturar alguns vivos para se
divertirem, mas começavam a achar isso uma besteira: um punhado
de cordeiros judeus fazendo um levante!

— Vi os tanques — disse o nojento estuprador. — É hoje à noite
com certeza.
— Está mais ou menos na hora também — Maresh forçou-se a
dizer. — Onde?
— No outro lado.
— Acha que podíamos dar uma olhada? — perguntou o que
lambeu os lábios.
Maresh prendeu a respiração. Se ao menos eles saíssem de lá, teria
uma chance de entrar em um bueiro e seguir o conduto até o beco
próximo ao esconderijo de Lazar. Relaxou quando começaram a

andar, acompanhando-os até poder escapulir no crepúsculo que
descia lentamente e voltar sobre seus passos. Esperou mais um
pouco, para se certificar de que ninguém espiava nas sombras.
Depois dobrou em uma viela, ergueu uma pesada tampa do lugar
onde descansava e desapareceu no bueiro, sem notar o fedor que
subia, como se tentasse apossar-se dele. Estava acostumado com
isso agora.
Automaticamente, transferiu os pacotes de comida da cintura e do
joelho para o pescoço, antes de mergulhar nas águas fétidas do
esgoto. Movia-se ligeiro, escorregando e praguejando, às vezes
quase agachado, às vezes rastejando. Mas havia um leve sorriso em
seus lábios. Resolvera o problema em sua mente: podia rir com os
demais sobre outros judeus. Judeus eram judeus, afinal de contas.
Mas os que amava, esses eram os seus judeus, e estava disposto a
morrer por eles essa noite — com eles, caso fosse necessário. Não
tinha nenhuma intenção de deixar Lazar lá dentro para morrer,
quando os alemães viessem. Nunca conseguiria encarar Joshua, se o
fizesse.
Jesus, como gostava daquele" homem! De Lazar também, mas não
tanto quanto de Joshua. Não havia ninguém na terra nem no céu
como Joshua. E Joshua lhe dissera para tomar conta de Lazar.
Então, onde ele está hoje? — indagou um dos homens, esfregando a
testa com uma das mangas encardidas, antes de prosseguir com o
trabalho.

— Só Deus sabe — respondeu Lazar. — Provavelmente esperando
uma chance de entrar. Ele nunca falhou conosco até hoje.
Continuou a encher cuidadosamente as garrafas com querosene e a
passá-las ao vizinho, um homem pequeno e redondo com olhos
tristes, que metia trapos dentro das garrafas.
— Olhem só como o nosso Mendele se mantém tão bonito e
rechonchudo com as gostosuras que Maresh traz.

O terceiro homem, muito mais jovem do que os companheiros,
empilhava as garrafas em um caixote encostado na parede do
depósito.

— Rechonchudo! Meu tio era duas vezes mais gordo que isto antes
da guerra — contou, embrulhando outra garrafa em um pedaço de
pano. — Tia Yetta vai desmaiar quando o vir tão magro.
Houve um silêncio. Todos eles tinham o estranho hábito de
conversar sobre pessoas que sabiam estar mortas — que foram
fuziladas ou deportadas para as câmaras de gás — como se ainda
estivessem vivas, como se algum compromisso social ou pequenas
tarefas domésticas as tivessem impedido de comparecer a essa festa
de garrafas em um imundo depósito de carvão.
Fazia anos que não havia carvão aqui. Quem tinha carvão para
queimar no gueto — ou em qualquer outro lugar de Varsóvia?
Quem, exceto os alemães? A porta do depósito estava obstruída
com mobília velha, caixas com louça de barro rachada ou partida,
roupas usadas, carrinhos de bebê, trenós — o tipo de entulho que as
pessoas guardavam em copas e sótãos no passado, antes que o
muro fosse construído, e cada ninharia que uma família possuía se
tornasse outra vez preciosa para uso ou troca. Foi nessa época que o
homem chamado Mendele descobriu a porta do depósito de carvão

— e quando Lazar apareceu no gueto, decidiu que este seria um
bom esconderijo para quem estivesse determinado a resistir até o
fim, aqueles que conheciam o verdadeiro significado do
"remanejamento para o leste" e que estavam decididos a fazer com
que todos no gueto soubessem também e a lutar até a morte, ao
invés de renderem-se como ovelhas.
Lazar suspirou. A maioria deles tinha se rendido como um bando de
cordeiros, realmente. O que acontecera com o sangue dos guerreiros
que antes correra nas veias judias? Os antigos israelitas eram
combatentes quando precisavam ser, fazendeiros quando havia paz.
Em certas ocasiões, quando estava longe da fonte de esperança que
a Palestina representava para ele, Lazar se desesperava ao perceber

que todos os séculos de perseguição haviam extinguido a fibra e as
metas do passado, exceto a de sobreviver, com os judeus fun-dindose
como pudessem nos países adotivos, vivendo silenciosamente de
quaisquer profissões que seus superiores lhes permitissem e
apegando-se ao estudo de sua lei amaldiçoada, a fim de
perpetuarem uma lenda puramente religiosa, não seu orgulho como
nação.
Então balançou a cabeça. Não, não era tarde demais. Era só
readquirir a posse da terra para eles, e não existiriam mais ovelhas.
Tinha de haver um Israel depois disso. O mundo seria forçado a
aceitar que ia haver um Israel, mesmo que ele próprio não estivesse
lá para ver. Joshua veria. Joshua precisava chegar ao fim da guerra
para vê-lo. Ela veria — não podia se arriscar a pensar muito nela,
pois isso o abateria. Seus próprios filhos o veriam.

Não se importava de morrer. Fora criado por homens que estavam
preparados para morrer, a fim de conseguirem o que queriam. Iria
haver uma nação judia, enquanto existissem homens como Joshua e
mulheres como Rachel e . . . . Sua mente desviou-se mais uma vez
das lembranças de Sarah, a única criatura no mundo que o fazia
encarar com profundo horror a certeza da morte.
Olhou para o quinto membro do grupo, uma mulher com traços que
poderiam ter saído de um entalhe grego ou um friso egípcio. Os
planos e ângulos eram agudos no rosto faminto. Havia círculos
escuros em torno dos olhos imensos e amendoados, que, como
poças de tinta seca, não refletiam nenhuma luz. Ela talvez não fosse
mais velha que Sarah — sentiu de novo o coração apertado no peito
—, mas o cabelo negro estava mesclado de cinza, e a pele era pálida,
devido aos anos de desnutrição e às semanas de permanência nesse
buraco escuro e apinhado, onde apenas uma pequena grade no topo
do tubo de escoamento do carvão lhes dava ventilação.
Ela raramente falava. Ninguém sabia de onde tinha vindo na noite
em que se juntou a eles com duas pistolas e uma faca de açougueiro.


Ninguém perguntou. O vestido sujo ainda estava manchado com o
sangue seco, que brilhara quando acenderam a lanterna no depósito
naquela noite. Agora limpava suas armas e as dos outros em
silêncio, tal como fazia todas as noites, antes de saírem para matar
alemães.

— Então, onde ele está? — tornou a perguntar o primeiro homem,
arrastando a útlima lata de querosene colocada junto da parede.
— Paciência, Avram — disse Lazar. — Ele virá, se ainda estiver
vivo. — Sorriu. — Você me lembra meu cunhado, um impaciente
Avram, embora chame a si mesmo de Arnold.
Avram ergueu os olhos da lata que estava abrindo.

— Pensei que você só tinha um cunhado, Joshua, o Rabino.
— Bem, também tenho Arnold, o mercador. Só que às vezes ele se
esquece de que é judeu.
— Ah! — exclamou Mendele com desprezo. — Quando os
problemas surgem, todos se lembram de quem é judeu
O sobrinho ergueu os olhos chamejantes.
— Algum dia vão se lembrar de quem é judeu por outras razões. É
só esperar. . . — A voz foi sumindo. Havia muito pouco tempo para
esperarem.
Lazar tornou a olhar de relance para a mulher. Nenhum sinal de
histeria nela.
— Escutem, todos vocês. Não haverá muito tempo quando Maresh
chegar. Quero mandá-lo embora daqui, antes que seja tarde demais.
..
— Mandá-lo embora? — objetou Avram ferozmente — Mandar
embora um chacal polonês? Se mandar alguém, que seja um judeu,
salve um judeu. Não restam muitos de nós!
Os outros pararam de trabalhar, exceto a mulher. Olharam com
raiva para Lazar, um líder do levante do gueto e um herói para eles
desde o princípio. Esta era a primeira vez que questionavam uma
de suas decisões.

— Sei como se sentem. Porém, mesmo se Maresh não fosse um
polonês especial, um amigo de muitos anos, é um polonês e o único
de nós com alguma chance de sobreviver de fugir da Polônia, de
contar a nossos amigos, a nossa gente o que aconteceu aqui, de
garantir que o mundo vai saber
— Que o mundo vá para o inferno — murmurou o sobrinho. — O
mundo se importa muito...
— Mas vai! Lazar era alto demais para ficar de pé, ereto, quando se
levantou para enfrentá-los. O cabelo cor de linho estava preto com o
pó do carvão, e os olhos azuis avermelhados pela fumaça. —
Alguém tem de contar o que foi isso aqui. Alguém, de preferência
que não seja judeu, precisa garantir que todos tomarão
conhecimento, nossos inimigos nossos amigos, nossa gente, de que
no fim reencontramos nossa herança e lutamos como israelitas!
A voz se tornara tensa, tão irresistível neste buraco sujo quanto fora
antes nas simples salas de conferência e nos suntuosos salões
particulares do mundo inteiro.
— Percebe o que significará para nosso povo derrotado saber que
finalmente — o punho socou a coxa em um gesto enfático —
ficamos de pé, dissemos "não!" e combatemos como nossos
ancestrais?
Estavam todos calados, a hostilidade se dissipando, substituída por
outro tipo de fúria.
Lazar prosseguiu calmamente.
— Se quiserem que Maresh leve alguma mensagem, escrevam
agora. Esta é sua última viagem, todos nós sabemos
disso.
— Que mensagem? — indagou Avram. — Para quem? Minha
família está morta.
— Escreva para qualquer judeu no mundo — retrucou Lazar
secamente. — Eles são sua família agora. É tudo que resta e tudo de
que precisamos.

Pela primeira vez, a mulher levantou a cabeça e o fitou. Uma
sobrancelha se ergueu em uma expressão de cinismo. Depois ela
voltou-se para a submetralhadora, sem prestar mais atenção,
enquanto Mendele e o sobrinho começavam a escrever no precioso
papel que Lazar lhes deu, antes que ele próprio se sentasse para
escrever. Avram encolheu os ombros e continuou enchendo as
garrafas.
No silêncio momentâneo, ouviu-se o som de passos no lado oposto
da parede do depósito que os separava do pequeno pátio interno
onde estava a abertura do esgoto. Pegaram todas as armas que
tinham. Quando veio o sinal certo, largaram-nas e começaram a
remover, um a um, os tijolos cuidadosamente encaixados na parede
do beco, até que o buraco fosse bastante largo para os enormes
ombros de Maresh. Eles o puxaram para dentro, sem nada dizer. Os
tijolos foram recolocados, antes que qualquer um deles falasse.

— Puxa, você fede! — disse o sobrinho.
— Não mais do que este lugar. — Maresh sorriu. Retirou o paletó
rapidamente e entregou-lhes o pacote de comida. Baixou a calça e
soltou das coxas as balas protegidas com borracha. Em seguida,
vestiu a calça, amarrou o cinto e envolveu Lazar em um forte
abraço.
— Você está bem? Recebi uma mensagem dele! — Tirou um
envelope, também protegido com plástico, preso na Parte lateral do
corpo, e o deu a Lazar. Ambos agacharam-se como homens das
cavernas, enquanto Mendele segurava a Ianterna e Lazar lia como
se bebesse néctar. Olhou em torno do círculo expectante, sorrindo,
segurando a carta de Joshua.
— Ele conseguiu! No mínimo seis barcos, com promessa de mais.
Eu disse a vocês. Eu disse! Assim que a guerra acabar, talvez até
antes disso, se conheço meus amigos, vão começar a levar judeus
para a Palestina, apesar do que aqueles britânicos de merda irão
falar a esse respeito. — Abraçou Maresh novamente e sentaram-se,

enquanto Lazar comia com os outros. Todos fitavam Maresh com
ansiedade.
O homenzarrão tinha um ar infeliz.


— Nada de schnapps. Não consegui nenhum, não com todo dinheiro
que Joshua me envia. Água foi o melhor que pude arranjar.
Desculpe. — Parecia envergonhado de si mesmo.
— Não tem importância — resmungou Avram. — Água serve.
Passe para cá.
Quando a refeição singela terminou, Lazar virou-se para Maresh.
— Tudo bem. E então? Maresh engoliu
em seco.
— Hoje à noite.
— Onde?
— Perto daqui. A dois quarteirões de distância. Tanques, no mínimo
uns dez só naquele lugar, assim me pareceu.
Lazar deu uma palmadinha em seu braço.
— Tudo bem. Maresh, você precisa sair agora, antes que seja tarde
demais.
Maresh olhou para ele, depois balançou a cabeça com violência.
— Está louco, Lazar? Não vou deixar você aqui para morrer
sozinho.
— Não estou sozinho.
— Sabe a que me refiro! O que eu diria a Joshua? O que eu diria a
Sarah e às crianças?
Lazar pegou as notas que os três homens tinham escrito.
— Aqui está o que dirá. — E, quando o homenzarrão balançou a
cabeça, teimoso, acrescentou: — Escute, Maresh, Josh vai precisar de
você. Todos precisarão. Quero que vá. E escrevi aqui algumas coisas
que ele tem de saber.
— Então venha comigo — insistiu Maresh. Seus olhos percorreram
os demais. — Todos vocês. Posso conduzi-los através do esgoto até
o outro lado, um de cada vez. Venham comigo! — Voltou-se para
Lazar.

— Mesmo que saiamos do gueto, jamais deixaríamos a Polônia.
— Por que não? Todos vocês falam polonês! Você até se parece com
um polonês.
— Eu podia me parecer com o próprio Papa Pio e os outros
também, mas nunca conseguiríamos, sem documentos. Você sabe
disso. Todos nós sabemos. Então, não discuta, Maresh, não há
tempo. Pegue estas cartas e fuja, fuja do país. Vá para a Palestina,
conhece as rotas. Depois da guerra, encontre Joshua. Lute, Maresh.
Lute por nós.
Maresh parecia desconcertado, a mente dominada por um problema
para o qual não conseguia achar solução.
— Joshua — falou. — Joshua quer que eu deixe você aqui e fuja?
Lazar concordou com a cabeça.
— Ele diz isso. Na carta. Está em hebreu, caso contrário eu daria a
você para ler.
Sentado como estava, Maresh tinha um ar de derrota, os ombros
caídos, os olhos marejados de lágrimas, fitando o amigo com
tristeza.
— Se Joshua diz isso. . .
— Vá, então, enquanto é tempo.
Todos se levantaram, inclusive a mulher, meio oculta nas sombras
lançadas pela lanterna.
— Sabe, Lazar, Joshua me contou certa vez que o nome dele em
hebreu é Yeshua.
— Sim — respondeu Lazar. — Por que se lembra disso agora?
— Bem, ele me disse que Yeshua era também o nome de Jesus em
hebreu.
Lazar estava intrigado, mas paciente, enquanto os outros
permaneciam paralisados ante aquela estranha "conversa e a visão
do enorme polonês, as lágrimas descendo-lhe pelas faces.
— Então, talvez — disse Maresh, hesitante —, se os dois têm o
mesmo nome, está certo amar um homem tanto quanto a Deus?
Lazar segurou sua mão.

— Dizem que cada alma é uma vela do Senhor, Maresh, então acho
que está certo. — Pôs as cartas na mão de Maresh. — Agora vá e
entregue isto a Joshua.
Maresh enfiou as cartas no saco plástico e o prendeu em um dos
lados do corpo. Abraçou Lazar, depois virou-se para os demais,
tocando cada um deles com o polegar em um gesto de adeus, antes
de retirar os tijolos e atravessar a parede. Depois, eles recolocaram
os tijolos, bloqueando a visão.
— Pobre infeliz — observou Avram. Depois pegou uma arma. —
Venham, vamos dar uma olhada, antes de tirarmos essas coisas
daqui. Se conseguirmos ver onde eles estão, poderemos matar mais
alguns miseráveis, antes que nos matem.
— Vá em frente — sugeriu Lazar. — Vou terminar o resto das
garrafas.
— Carregarei as armas — ofereceu-se a mulher, pegando o pacote
de balas trazido por Maresh.
Os três homens subiram cuidadosamente os degraus de madeira
que conduziam ao alçapão do depósito de carvão e o levantaram
com cautela. Desapareceram na copa da casa, debaixo da qual se
encontravam, fechando-a silenciosamente atrás de si.
Lazar e a mulher trabalhavam calados. O tilintar das garrafas e o
clique macio de cada bala encaixando-se no lugar eram os únicos
ruídos no depósito. Lá fora, um tiro ocasional ou o ronco de um
veículo pesado era trazido até eles pela fumaça que saturava o ar.
Após terminar, a mulher empilhou as armas em um pedaço de lona
e começou a dobrar o resto dos trapos que usaram para encher as
garrafas, a juntar as latas de querosene e pegar os papéis de
embrulho da patética refeição que Maresh lhes trouxera. Lazar a
observou até que, notando sua atenção solidária, ela parou,
encolheu os ombros magros e retornou a seu lugar, junto às armas.
— O último lugar que deixamos é o nosso lar — explicou. A voz
estava rouca, como que enferrujada pela falta de uso. Ela ficara

silenciosa por tantos dias, Lazar nem se lembrava quantos foram. . .

— Até mesmo um buraco como esse.
— Não é um buraco — ele replicou, os olhos distantes.
É um quarto adorável e ensolarado em uma casinha junto
a um lago, uma casa muito limpa. Há um tapete macio no chão, e
uma leve brisa primaveril está fazendo as cortinas da janela
dançarem, cortinas brancas e limpas! O ar traz o aroma intenso da
primavera e da água do lago, e há duas pessoas no quarto que se
sentem felizes por simplesmente estarem juntas.
— Não — disse a mulher. — É uma linda e clara noite de inverno. A
lua brilha na neve e além das montanhas, tão grandes, poderosas,
protetoras. Há tantas estrelas, tantas! O ar é muito frio e muito seco,
como champanha fino, e cada respiração é inebriante, cada toque é
morno, apesar da leve capa de lã e veludo que estou usando. A
respiração sai em nuvens que tocam no ar frio como beijos, como
promessas dos muitos beijos que virão.
Os dois se olharam sem verem um ao outro, vendo outro homem,
outra mulher. Dentro do depósito, flutuava no ar um cheiro de
sujeira, fome e morte, mas, para Lazar, era uma primavera gentil na
Palestina e, para a mulher, um inverno semelhante ao champanha.
Para ele, os olhos escuros que o fitavam naquele rosto sujo de
fuligem eram os de Sarah. Para ela, a boca de Lazar era outra boca
que ansiava por tocar novamente com a sua. Era a luz da lanterna
pregando peças em sua imaginação faminta. Era a proximidade da
morte que os fazia almejar a mais completa expressão da vida.
Aproximaram-se um do outro até ficarem juntos. Os braços dela o
envolveram, os olhos fechados. Ele a abraçou com amor e tristeza e
beijou sua boca acolhedora. Deitaram-se sobre as pedras imundas
que eram como um tapete macio, uma capa de veludo. O odor
desagradável dos corpos unidos era o perfume da neve e das flores
de primavera.
A mulher sussurrou seu nome, quando Lazar moveu-se dentro dela.

— Oh, David, sim, meu querido, só você, oh, David, sim.
Lazar respondeu à investida daquele corpo com o seu e murmurou
contra os lábios da mulher:
— Minha Sarah, meu querido amor. Os dois uniram-se em um
último tributo desesperado
ao amor de suas vidas e o último que iriam sentir, tocar, saborear, e
não havia jeito de saber se eram duas almas fun-dindo-se naquele
momento em que ambos rodopiaram no espaço. . . ou quatro.
Continuaram juntos em silêncio quando tudo terminou, temerosos
de que o mais leve movimento, o menor som, levantasse uma
nuvem de poeira negra que ofuscasse suas visões únicas, porém
separadas.
A porta da copa abriu, e passos começaram a descer a escada. Os
dois afastaram-se depressa nas sombras, arrumando as roupas,
quando Avram surgiu na escada, com Mendele e o sobrinho logo
atrás.
Avram entregou a arma a Mendele e inclinou-se para a pesada caixa
de garrafas, junto com o sobrinho.
— Vamos — disse. — Daqui a meia hora estará escuro demais para
saber quantos matamos.
— Quantos tanques? — perguntou Lazar.
— Muitos — respondeu Avram. — É inútil. Não temos nenhuma
chance.
— É mesmo? E daí? — retrucou Mendele. — Vamos, sobrinho,
ajude-me a carregar isto escada acima.
— Pegue minha submetralhadora — o rapaz pediu ao tio.
Todos pararam por um momento e olharam ao redor do lugar que
os abrigara durante seus últimos dias.
— O último lugar que deixamos é o nosso lar — falou Lazar,
fitando a mulher, cujos olhos encontraram os dele.

— Certo — replicou Avram. — Podemos ficar aqui e ser queimados
vivos como o resto de nosso povo, mas no nosso forno particular, se
você gosta de exclusividade. Pessoalmente, prefiro morrer nas ruas.
—Cale a boca, Avram — disse o sobrinho. — Mexa-se.
Os dois subiram penosamente a escada com a pesada caixa.
Mendele os acompanhou com os dois revólveres e a
submetralhadora. A mulher foi logo atrás, carregando uma arma e
uma faca, seguida por Lazar. Todos atravessaram a casa, rumo à
porta da frente, e saíram na rua.
Quando atingiram a avenida enfumaçada, que levava ao ponto de
ataque alemão, Lazar refletiu que nem mesmo sabia o nome da
mulher e que nunca saberia.
Pegou sua mão, e ambos desceram juntos a avenida.

Capítulo 23

SANDS POINT — julho de 1943

Arnold estava sentado a sós diante do fogo, tal como fazia todas as
noites há uma semana. Podia ouvir as vozes das crianças vindo do
segundo andar. Rebekah chorava baixinho de vez em quando, e
Seth falava sobre o pai, a imagem de um menininho zangado e
corajoso. Julie ouvia, tentando consolá-los. Ela amara o seu alto e
louro tio Lazar quase tanto quanto gostava de tia Sarah.
Sarah estava no andar de cima, no quarto que sempre ocupava em
Sands Point, e afinal tinha permitido que Naomi ficasse com ela. Se
ao menos Sarah dissesse algo! Ou chorasse! Mas permanecera
calada, até mesmo com os próprios filhos, desde que a notícia da
morte de Lazar chegara há uma semana.


Arnold segurava a carta, escrita na caligrafia pontiaguda de Joshua.
Era uma carta angustiada, definitiva. Lazar estava morto. A guerra
viera reclamar sua família, como fizera com tantas outras.
A mão de Arnold esfregou os olhos. Lazar era um bom homem. Um
tipo louco que preferia perambular pelo deserto, ao invés de usar
aquela sua mente superior para coisas melhores. Arnold quase
podia ver o corpo longo e indolente, sempre deslocado em uma sala
formalmente mobiliada. Podia ouvir sua voz, com o leve e atraente
sotaque que levava as pessoas a doarem enormes quantias em
dinheiro. Lembrou-se dos olhos azuis de Lazar, sagazes,
penetrantes, sempre presos em Sarah com a espécie de amor que
Arnold nunca conseguiu demonstrar.
Arnold se encolheu. Só podia esperar que Sarah o tivesse perdoado
pelas coisas estúpidas que o mau gênio o fizera dizer há alguns
meses. Maresh já o abandonara — e agora Einhorn também ia para
a guerra.

— Einhorn! .— Arnold havia esbravejado para Sarah nessa mesma
sala. — Assustado até com a própria sombra, só é feliz preparando
fragrâncias e produtos químicos. Eu podia tê-lo impedido, ele é
mais necessário aqui, realizando um trabalho importante. O que
uma pessoa dessas tem a ver com a guerra? Ele não seria capaz de
disparar uma arma, nem que sua vida dependesse disso!
— Ele vai disparar uma arma contra os nazistas — retrucou Sarah
em tom reprovador. — Einhorn é um judeu. Sua vida depende
disso.
— Você acredita em toda aquela propaganda? Aconteceu a mesma
coisa na Primeira Guerra, cartazes com alemães enfiando baionetas
em bebês belgas. Nenhum país faria o que a Alemanha está sendo
acusada de fazer. — Tinha ignorado o silêncio ameaçador de Sarah.
— Já foi bastante ruim perder Maresh. E ele nem mesmo se alistou
no nosso exército.
— Você sabe que ele está com as forças clandestinas polonesas. —
Sarah replicou com firmeza.

— Isso vai adiantar muito para ele e para os outros, um camponês
grande e louro como Maresh.
Naomi tentou impedi-lo de continuar falando daquela maneira.
— Pelo que ouvi sobre o gueto de Varsóvia, aquele grande e louro
camponês é exatamente do que necessitam. — Ela estava sentada no
sofá, ao lado de Sarah.
— Mais propaganda.
— Droga, Arnold — exclamou Sarah, erguendo-se do sofá. — Será
que não pode calar a boca? Lazar está com ele. Os dois vão morrer no
gueto por causa do que você chama de propaganda. — Andava de
um lado para o outro, o rosto pálido, os olhos escuros cintilando de
raiva e medo. — Você tem o direito de ter suas opiniões, mas faça-
me o favor de guardar todas elas para si mesmo, quando eu estiver
por perto. — Correu os dedos pelo cabelo curto, num gesto nervoso
muito seu, e voltou para junto de Naomi, tirando um cigarro da
mesa do café ao sentar, acendendo e dando longas tragadas.
Arnold inclinou-se para a frente, a cabeça apoiada nas mãos. Sabia
que era mais do que propaganda, o mundo inteiro sabia disso
agora. Daria tudo para nunca ter dito aquilo. E Sarah decidira
mudar-se para a Palestina com os filhos, porque era isso que Lazar
faria. Sabia que ela iria; não havia jeito de impedir Shai, assim que
tomava uma decisão. Então como iria algum dia se retratar? Que
demônio de amargura o levou a atormentá-la daquele modo, a irmã
que amava tanto? Era o mesmo demônio que o fazia falar tão
asperamente com seus vice-presidentes, que o tornava tão impaciente
para com sua garotinha. Era Naomi e o fato de que
continuava a amá-la, a querê-la, de que ainda se ressentia do irmão
— temia diariamente pela vida de Joshua, pensava nele sempre que
olhava para Naomi. Ter uma amante não lhe dava o conforto que
deveria dar.
Imagens de Annalise lhe acudiram. Ela ainda era a mesma pessoa
quieta e nada exigente que ingressara na companhia como química
principiante há anos, antes de Julie nascer. Era uma executiva na

Duquesa agora — e não porque dormia com Arnold. Annalise fizera
por merecer o cargo, bem antes que Arnold a procurasse da
primeira vez, precisando do que ela lhe oferecia porque não tinha
ninguém mais com quem partilhar. Annalise havia perdido a
família inteira na Europa. A companhia ocasional de um homem
que se importasse com ela era tudo o que desejava. Os dois eram
extremamente discretos. Arnold achava que Naomi não aceitaria
uma amante, se descobrisse. Em primeiro lugar, não havia razão
para ter uma. Apenas suspeitas.
Naomi nunca o recusara, nem uma só vez nos seus quinze anos de
casamento. Nunca dizia que não — mas havia uma rejeição
silenciosa que era pior. Havia recusas mais dolorosas do que o
retraimento absoluto. Ela lhe negava a parte de si mesma de que ele
mais precisava. Ainda dormiam juntos quando o desejo de possuí-la

o dominava. Mas não era amor, não era amor mesmo. Não da parte
dela. E Arnold ocultava seus sentimentos. Não podia deixá-la
perceber que ainda havia amor nele.
Com Annalise tinha, senão amor, ao menos carinho; senão uma
paixão recíproca, no mínimo um prazer compartilhado. Seu
apartamento era pequeno — Arnold teria prefe rido um maior para
ela, mas Annalise recusou — e aconchegante, mobiliado com
simplicidade e repleto de revistas livros de química amontoados por
todos os cantos. Agora ela sabia como guiar Arnold até o quarto,
sem embaraçá-lo. E demonstrava o quanto gostava de que fizesse
amor com ela.
Em seguida, conversavam sobre o único assunto que mais
interessava a ambos: Duquesa. Ao partir, Arnold a deixava relaxada
e satisfeita. Annalise proporcionava-lhe paz sem suspeita. Mas isso
não era o bastante.
Tornou a olhar para a carta de Joshua, envergonhado com o rumo
que seus pensamentos tomaram. Seu irmão poderia estar morto ou
morrendo. Sentia na garganta uma dor de medo e arrependimento,
a dor pela perda de Lazar — e de tantas outras coisas. Será que se

precipitara ao julgar Naomi? Será que devia ter procurado
entender? A vida era tão curta, e a morte tão definitiva. . .
Continuou sentado lá, sozinho, contemplando o fogo, desejando
que Sarah o tivesse perdoado, desejando que o irmão estivesse em
segurança querendo falar com a esposa.
Sarah estava sentada na beira da cama, abraçando o próprio corpo,
os olhos fechados.


— Fique neste mundo — sussurrou baixinho. — Por favor, fique,
querido, fique só mais um pouco.
Naomi a enlaçou, tentando confortá-la, quando todo cor forto,
carinho e proteção eram inúteis.
— Só gostaria de poder tocá-lo uma vez mais — disse Sarah. —
Abraçá-lo mais uma vez, só por um minuto. Tomara que não tenha
sido doloroso demais no final. Que tivesse alguém com ele ao
morrer, um amigo, uma mulher talvez. Lazar amava as mulheres.
Espero que não tenha morrido só. — Seu rosto estava úmido,
embora não houvesse nenhum som de choro. — Sabe, Naomi,
sempre imaginei se tudo teria continuado tão bom quanto era entre
nós. Talvez algumas coisas sejam boas demais para durar. Nunca
desejei a serenidade da velhice e o consolo do companheirismo. Não
depois do que tive com Lazar. Mas ele era jovem demais para
morrer. — Balançou a cabeça, protestando. — Existiam dentro dele
canções demais ainda a serem cantadas. Estava sempre correndo
por aí em busca de dinheiro, mas era realmente um escritor, um
poeta. Era mesmo. — Fitou Naomi, o rosto devastado por uma
semana de sofrimento insuportável, por meses de suspense
insuportável.
— Oh, não, Sarah. Não restaram canções a serem cantadas em
Lazar. Era isso o que as pessoas sentiam sobre ele, por isso o
seguiam daquela maneira, tentando ser iguais a ele.
— Eu o amava tanto! Sei que é um modo estúpido de dizer o que
sinto, mas não conheço nenhum outro para expressá-lo. Soube que

nos pertencíamos desde a primeira vez em que o vi. E também
aconteceu o mesmo com ele. Lazar é a parte de mim mesma que eu
buscava. E que agora perdi. — Olhou para Naomi como uma
criança assustada.

— Eu sei — murmurou Naomi enquanto a embalava, aliviada por
Shai estar chorando abertamente afinal, quebrando o silêncio
perigoso.
— É o que você acha que Joshua representa em sua vida.
Naomi ficou tensa.
— Não, não se surpreenda. Eu sempre soube sobre vocês dois. Mas
ele não é o homem certo para você. Amar alguém como Joshua é
como caminhar em meio a uma neblina. Quando se está no centro
dela, tudo desaparece. — Tomou o rosto de Naomi nas mãos. —
Escute, preciso lhe dizer isto. Você nunca irá compreendê-lo, e não
se pode amar um homem que não se compreende. Você pode
querer Joshua, mas não amá-lo. Se ele ainda estiver vivo, vá para a
cama com ele. Isto é o mais próximo que qualquer pessoa
conseguirá ficar de Joshua, e é tudo o que você quer. Mas é a Arnold
que pertence. Sempre foi.
— Sim — respondeu Naomi, só concordando para aquietar Sarah.
— Mas agora deite e descanse. Não dorme há dias As crianças vão
precisar de você.
Sarah abaixou o corpo devagar, como se cada osso do corpo lhe
doesse.
— Estou certa quanto a Joshua, sabe. Lazar diz a mes ma coisa. E ele
conhece Josh mais do que qualquer outra pessoa. — Ela falava como
se Lazar estivesse vivo.
— Sim — repetiu Naomi. — Eu sei. Conversaremos sobre isso mais
tarde. Agora durma.
— Eu não devia ter cortado o cabelo — murmurou Sarah com voz
de cansaço. — Lazar gostava dele comprido — Estendeu a mão para
pegar, na mesinha-de-cabeceira, o último bilhete que Lazar

escrevera, uma mensagem que, por enquanto, não partilharia com
ninguém. — Nunca mais vou deixar crescer de novo — sussurrou.
Naomi apagou a luz e ficou quieta na escuridão, desolada por
Lazar, ansiosa por Sarah e as crianças, preocupada com Joshua. É
lógico que Sarah estava certa sobre Joshua — ela nunca o
entenderia. Tinha percebido isso no dia da partida de Josh para a
Inglaterra e para a guerra, há quase três anos. Mas isso não
significava que não pudesse amá-lo, que não pudesse querer só a
ele.
E Sarah estava errada sobre Arnold. Ele e Naomi continuavam
juntos, mas havia entre os dois um muro que não conseguia
derrubar. Se realmente se pertencessem, tal como afirmavam Sarah
e Lazar, ela o teria alcançado. Não teria receado tentar.
Arnold mudara muito desde o dia em que Joshua partiu Ficara
difícil e irritadiço, até mesmo com Julie. Criticava todos à sua volta

— exceto Naomi. Contudo, era impossível para ela conversar
francamente com um homem que a tratava com extrema
consideração em público e com fria polidez em particular — exceto
na cama. Ele a procurava só em rara ocasiões, mas, quando o fazia,
era apaixonadamente exigente e até um tanto excitante. Nunca
tornou a lhe perguntar se o amava. Nunca mais disse que a amava.
Parecia estar ali contra sua vontade, não importando se ela queria
ou não.
Naomi sacudiu a cabeça de leve. Essa não era a hora de refletir
sobre o seu relacionamento com Arnold. Tinha as crianças para
cuidar e Sarah para ajudar, agora que o entorpecimento cedera
lugar à dor. E havia também o trabalho com as, infelizmente, poucas
crianças refugiadas trazidas a este país para serem adotadas. Esse
era o trabalho mais importante que precisava realizar, que já tinha
realizado em toda a sua vida, exceto a criação da própria filha.
Naomi deixou o quarto em silêncio, tencionando ir ao quarto de
brinquedos. Porém, ao invés disso, desceu a graciosa escadaria e foi


para a sala de estar. O grosso tapete abafou seus passos, e ela viu
Arnold da porta.
Ele estava sentado como ficara na maior parte da semana anterior,
sombrio, inabordável. Estava lá quando era necessário, mas nunca
procurava as pessoas impulsivamente. De repente, Naomi soube
que o motivo disso era não estar seguro de como o receberiam. Seus
olhos encheram-se de lágrimas a esse pensamento.
Arnold estava com a carta de Joshua nas mãos. Estranho como a
segurava tal como Sarah fazia com o bilhete de Lazar. A carta de
Joshua — tão breve, tão pungente, falando sobre a morte de um
homem que Joshua amava como um irmão. Não, Naomi sabia, mais
do que o próprio irmão, do jeito como seu próprio irmão queria ser
amado.
Nesse momento, não importava mais para Naomi o fato de que ela
e Arnold nunca deviam ter se casado, que se distanciaram muito
um do outro. Ela não estava olhando para o marido. Havia um
homem solitário sentado naquela cadeira. Arnold se tornara tão frio
e difícil nos últimos anos porque se sentia só, e era horrível ser
solitário em meio à vida.
Sem parar para pensar em como ele reagiria, Naomi caminhou até a
cadeira e enroscou-se no colo de Arnold, os braços estreitando-o
com força, o rosto enterrado em seu ombro, chorando de amor,
perda e pena por ambos, por Lazar, por Sarah. Ele a abraçou até que

o choro cessasse. Depois secou-lhe o rosto gentilmente com o lenço
do bolso do paletó. Seus lenços sempre cheiravam às essências do
laboratório. Era reconfortante, familiar.
Ajude-me — pediu Naomi. — Preciso de você.
Ele assentiu com a cabeça, incapaz de falar. Ela o manteve perto de
si por mais um minuto, depois ambos saíram da cadeira e foram
para a escada.
Esta foi a primeira brecha no muro que Arnold construíra no dia -da
partida de Joshua. Naomi tinha uma chance de recuperar uma parte
do que tivera antes. E faria isso tanto pelo bem de Julie quanto pelo



seu. Julie não devia sofrer porque Arnold estava amargurado.
Naquele dia, algo o convencera de que suas suspeitas sobre Joshua
eram justificadas Naomi nunca mais permitiria que isso se repetisse.
Pegou a mão de Arnold, e os dois subiram a escada para o quarto
das crianças.
Se ainda existia nela uma canção a ser cantada, não era por culpa de
Arnold, mas dela mesma, e que Deus a castigasse se qualquer um
dos dois continuasse sofrendo por causa disso.


Capítulo 24

ALEMANHA — abril de 1945

As árvores assemelhavam-se a mãos torturadas, carbonizada e
retorcidas, implorando que pusessem um fim àquilo. Sete exércitos
aliados estavam espalhados pela Alemanha, rumando para o leste, a
fim de terminarem a guerra. Os russos dirigiam-se para oeste, e a
parafernália da morte estava em toda a parte, instrumentos
brilhantemente concebidos para rasga a carne, esmagar os ossos,
revolver as entranhas. Os alvos c ambos os lados eram homens em
uniformes semelhantes com botões, presilhas e insígnias para
identificar quem eram e um código especial para andar, falar,
saudar — tão semelhantes quanto as árvores que margeavam a
estrada perto de Weimar.
As árvores indicavam aos homens um lugar onde a mor te era de
uma luminosa simplicidade, sem saudações ou insígnias, exigindo
apenas gás e fogo. Era simples, tão diabolicamente simples, que
apenas uma civilização altamente avançada podia tê-la concebido e
executado.


Neste dia de princípio de abril, a ponta de lança armada do 3.°
Exército do General Paton saía de Weimar, avançando
pesadamente, como grandes baratas de ferro, protegidas pelos
agressivos batedores de canhões.
Joshua caminhava a sotavento de um tanque, balançando a cabeça,
assombrado.


— Qual é o problema, capelão? — gritou para ele um dos
tripulantes do tanque, empoleirado no seu ombro de ferro. — Não
pode acreditar que é primavera na alegre Alemanha?
Joshua olhou para cima.
— Não posso acreditar que homens como Liszt e Goethe nasceram
neste lugar.
— Se encontrássemos os dois, eles iam lamentar. — O homem
magro deu um sorriso ameaçador. — Alemão bom, só morto.
— É isso mesmo — concordou um companheiro que estava longe
demais para Joshua vê-lo.
— Ei, capelão — o primeiro homem disse. — Você era para estar
aqui?
— Não, mas gostaria de uma carona. O homem riu.
— É sempre bom ter um capelão a bordo, especialmente um sujeito
peitudo. Vá lá para trás, e ajudo você a subir. — Braços jovens e
fortes se estenderam para puxá-lo pela parte traseira do tanque que
se movia lentamente.
— Ei! — disse o segundo soldado, ao ver a insígnia. — Ele é um
rabino!
—E daí? Você pode enterrar todo o tipo de gente, certo?
Joshua assentiu com a cabeça. Havia ministrado todos os rituais da
morte, segurando mãos que se agarravam à vida, quaisquer que
fossem as denominações religiosas. Esta era a razão aparente para
estar aqui, mas o propósito real era promover a causa sionista
quando a guerra acabasse, conseguindo maior número possível de
judeus para a Palestina — se ainda restasse algum vivo.



Ultimamente, algo mais o impulsionava, algo tão impossível que
tentava não pensar nisso.

— Mas talvez ele não devesse ir lá com a gente — insistiu o homem
mais jovem. — Não na primeira vez.
O mais velho olhou para Joshua com maior atenção e disse:
— Oh, sim. Tem certeza de que quer ir até lá, rabino? Ouvimos
coisas horrorosas sobre esses lugares.
— Tenho — respondeu Joshua.
Os homens ficaram silenciosos, deixando Joshua de lado. Tratavam
os judeus com um embaraço muito peculiar, acrescido de quaisquer
outros sentimentos que tivessem para com eles, desde que os russos
libertaram o famoso campo de extermínio de Auschwitz, na
Polônia.
O campo logo adiante na estrada seria a primeira olhada que os
americanos dariam no inacreditável.
O irônico era que ficava perto do famoso carvalho de Goethe, onde
o poeta ia buscar inspiração. Mas agora outra musa prevalecia.
O lugar era Buchenwald.
Joshua sentiu o tanque roncar sob os pés, uma trepidante massa de
metal. Desde a libertação de Auschwitz, vinha tentando convencer a
si mesmo, mas era do conheciment geral que os alemães enviaram
todos em Auschwitz que po diam caminhar para os campos dentro
da Alemanha, antes que os russos chegassem. Prisioneiros vivos
eram uma evi dência perigosa, tal como os fornos-crematórios e as
câmara de gás, que os alemães tentaram explodir. Porém, só os mais
fortes teriam sobrevivido a essa marcha forçada.
Lazar era um homem forte.
Joshua engoliu em seco, forçando-se a lembrar que Laza fora dado
como morto no gueto de Varsóvia pelos mesmo agentes da polícia
polonesa que registraram a morte de Ma resh, dois meses depois.
Joshua havia acreditado nisso -acreditado e escrito uma carta dando
a notícia a Sarah. Contudo, como alguém podia ter certeza de
qualquer coisa em I meio ao entulho e ao caos de Varsóvia?

Vezes sem conta Joshua usara suas linhas de comunicação com as
forças clandestinas tanto polonesas quanto judaicas para se
certificar — e sempre com a mesma resposta. Mas isso não
conseguiu anular outro fato para ele: mais de cinqüenta mil judeus
estavam em Varsóvia quando o gueto finalmente caiu — e só vinte e
quatro mil foram dados como mortos no levante final e em
Treblinka II. Os alemães costumavam poupar quem fosse forte o
bastante para labutar até a morte no trabalho do campo de
Auschwitz. E Lazar era um homem forte.
Ele estava no gueto há poucos meses, antes que este caísse, não o
bastante para que isso enfraquecesse o vigor do seu corpo grande e
preguiçoso. Se tivesse sobrevivido a Auschwitz e sido enviado
naquela marcha forçada para oeste. . .
Impossível. Joshua sabia que era impossível. Obrigara-se a acreditar
que Lazar estava morto — até o momento em que entrara na
Alemanha.
Teve então um súbito pressentimento, algo lhe dizendo que Lazar
estava vivo, a despeito de seu crime monumental de tê-lo
persuadido a voltar à Polônia. Lazar estava vivo e em algum lugar
ali perto — caso contrário, por que Joshua estaria com o exército que
ocupou Weimar, com Buchenwald logo adiante na estrada? Por que
estava ali e não em alguma parte da Itália ou da França? Podia ser
verdade. Ele vira coisas estranhas nessa guerra.
Mas nunca tinha acreditado em milagres antes. E muito menos em
pecado ou em uma batalha interminável entre Deus e o. Diabo.
Confiava apenas na predominância eventual do intelecto que dava
vida ao universo e devia ser, senão divino, ao menos benigno.
Mas, aqui na Alemanha, uma inteligência maligna estava agindo há
anos, e a visão disso o destruía. Agora não acreditava em nada,
exceto no próprio pecado de dizer o que pensava a um homem que
seria influenciado por suas palavras. Se Joshua vivesse até o fim da
guerra — e esperava que não — sabia que nunca arruinaria mais
ninguém com o poder de suas próprias crenças.


O tanque parou. Havia um silêncio lúgubre. À frente, estavam os
portões de entrada, encimados por duas máximas gravadas no ferro
batido.

— O que diz? — perguntou o jovem soldado. Joshua traduziu.
— "Certo ou Errado — Meu País" é a primeira.
— Ei, não foi um americano que disse isso?
— E a outra?
— "Para cada um, o seu" — respondeu Joshua.
— O que diabo querem dizer com isso? — perguntou-se o homem
mais velho.
— Nada se move — seu amigo observou, nervoso. — Por que
paramos?
— O capitão foi fazer uma verificação. Pegue o meu rifle, para que
eu possa dar uma espiada com o binóculo. — Levou-o aos olhos. —
Oh, Deus! — sussurrou. — Bendito Deus!
— O que é? — o rapaz indagou com a arma de prontidão.
A boca do outro homem começou a tremer.
— São homens. Acho que estão vivos. Oh, Jesus Cristo! Joshua
nunca se lembrou de ter descido do tanque, caído
na terra revolvida e corrido em direção ao portão. Nem dos olhos
encovados que o contemplaram enquanto escancarava-o, só da
vergonha que sentiu pela própria saúde, pela barriga cheia, pela
vida.
Lembrou-se depois das vozes dos tripulantes do tanque chamando-
o de volta e da sua própria voz gritando sem parar "Lazar, Lazar".
Lembrou-se do fedor e das mãos torturadas que o agarraram,
implorando como as árvores ao longo da estrada, uma floresta de
mãos suplicantes, tantas, tantas. . .
Lembrou-se de um corpo alto e trêmulo que jazia perto do portão,
um braço que se ergueu fracamente quando chamou de novo, e
como parou e abaixou-se sobre ele.

Era tão alto quanto Lazar, mas não havia nem cabelo, nem carne
para mostrar como aquele corpo fora em vida. Não estava
tremendo. O que se movia era um cobertor de piolhos pululantes.

— Lazar. . . Lazar? — indagou.
Os olhos se abriram lentamente, olhos azuis como os de Lazar, mas
pálidos. Será que os olhos ficavam pálidos em lugares como aquele?
Caiu de joelhos, soluçando. E, soluçando, tomou nos braços o corpo.
Pensou ouvi-lo dizer "por mim" antes do suspiro final, e depois não
ouviu mais nada além do seu próprio choro convulsivo, até que a
mão quente de alguém o trouxe de volta à vida.


— Solte o homem, rabino — uma voz forte falou através do lenço.
— Ele está morto. — Uma pausa. — Solte o homem. Deve haver tifo
aqui.
— Tifo? — Joshua gritou para ele. — Olhe ao redor, homem. Há
algo pior do que tifo aqui. Deixe-me sozinho com ele. — Apertou o
corpo contra o peito, embalando-o. — Lazar, nunca me perdoe por
isto.
— Cristo, você o conhece? — a voz indagou em abafado horror.
— Ele respondeu quando chamei seu nome.
— Rabino, muitos homens têm o mesmo nome, e qualquer um teria
respondido. Dizem que há vinte mil aqui. Agora deixe o homem. Se
alguém precisa de você, é quem ainda está vivo.
Joshua soltou o fardo imundo, não mais pesado que um bebê. Seria
mesmo Lazar? Carregaria consigo o peso patético daquilo pelo resto
da vida, porque podia ter sido Lazar.
Podia ser seu amigo que jazia morto na quieta terra indiferente,
após um sofrimento indescritível. Quantos amigos lá estão, amigos
que conhecem sua mente, que estimulam seu espírito, que aceitam
suas falhas, que lhe dão carta branca no caminho da vida, um lugar
que o acolhe quando não existe nenhum outro? Quantos amigos
como este encontra entre o princípio e o fim de si mesmo? Não lhe
interessavam os outros. Suas ilusões imbecis não tinham trazido os
outros para cá.

Não tinha amado os outros como Lazar, e eles não sofreram por
amá-lo.
Foi despiolhado e mandado a um hospital de campanha e,
eventualmente, dali para a Inglaterra, onde recusou-se a comer,
beber ou oficiar os serviços que estava lá para ministrar.
O futuro o aterrorizava. O futuro estava escrito no passado. O crime
era grande demais para ser compreendido, mas, com o tempo, seria
aceito; este era o mal. E, uma vez aceito um massacre dessa
magnitude, o mundo poderia aceitar outro ainda maior. Após um
tempo, nenhuma infâmia seria grande demais. Depois do
assassinato planejado de catorze milhões de pessoas, seria fácil
matar vinte milhões, cinqüenta milhões, toda a espécie insana,
incômoda e desonrada como era pelos milênios de crimes contra si
mesma.
Por fim, começou a voltar ao normal. Mas, para ele, a guerra na
Europa continuava dentro dos portões de Buchenwald. Estava
trancafiado dentro daqueles portões, junto com o amor, a ternura e
todas as temíveis paixões que poderiam ligá-lo a qualquer pessoa —
ou pior, ligar qualquer pessoa a ele.
Só uma obsessão o mantinha vivo. Faria o que Lazar teria feito; não
tinha o direito de fazer nenhuma outra coisa. Por mim, a voz
murmurara.
Tudo bem, então, por você, Joshua jurou, pelo meu mais querido
amigo, por você.

Capítulo 25

SANDS POINT — dezembro de 1945


Naomi verificou se os presentes para a família estavam todos na
valise, antes que a fechasse e trancasse. Todos estavam no Domínio,
na Califórnia, o primeiro ano-novo sem guerra em quatro anos —
todos, menos Lazar e Joshua. E ninguém sabia onde estava Joshua.
Os pais de Naomi, Martin e Leah, ainda dirigiam, o Domínio. Os
irmãos, Simon e David, tinham viajado uma semana antes com as
esposas e os filhos. Sarah havia trazido Seth e Rebekah do kibbutz
Yad Mordechai na Palestina — que chamava de Israel — e partido
para a Costa Oeste com Arnold e Julie, há três dias.
Só Naomi se recusara a ir, até que os pais adotivos chegassem de
Phoenix para levar suas duas pequeninas e silenciosas órfãs para
um novo lar. Ninguém nem mesmo sugeriu que deixasse os
detalhes finais para uma das outras mulheres do comitê. Sabiam
que ela considerava as crianças para as quais arranjava um lar como
sua responsabilidade pessoal, até a adoção. Estava feliz por ficar;
achava que as crianças e seus novos pais tinham uma chance de
felicidade. Após anos trabalhando com órfãos do terror nazista,
Naomi sabia que uma chance era tudo que as pessoas desejavam.
Estava quase pronta para mandar o chofer vir pegar as malas,
quando o telefone tocou. A criadagem já saíra de férias, e ela mesma
atendeu.

— Estou tentando achar a Sra. Kramer — falou uma voz de homem.
— Pensei que estivesse nesse número.
— Estava, mas viajou. . . — Naomi parou, o coração saltando no
peito. — Joshua? — sussurrou. — É você?
Pensou que tivesse se enganado. A voz soara como a de um velho, e
Joshua tinha apenas quarenta e dois anos.
— Quem é?
— Naomi — ela conseguiu dizer. — É Naomi. — Esperou um
momento. — Onde você está?
— Em Forte Dix. Acabei tudo agora e. . . . e quis ver Sarah. . .
alguém.

— Joshua — disse Naomi com firmeza. — Anote este endereço. —
Ela o ditou. — Chame um táxi e venha já para cá. Estarei esperando
por você. Certo?

— Sim — ele respondeu, como se gostasse de que o orientassem,
como se não pudesse orientar-se a si mesmo. Estou indo.
Naomi colocou o fone no gancho e ficou sentada por um tempo, o
coração ainda batendo. Ele parecia terrivelmente perdido e
dominado por um cansaço mortal, tal como acontecia com Julie às
vezes. Tinha certeza de que Joshua estava à beira de um colapso, de
que precisava descansar, antes que pudesse ir a qualquer parte — à
Califórnia ou à Palestina.
Naomi pegou o interfone e ligou para o quarto do chofer, avisando-
o da mudança de planos, que ele podia sair de férias agora.
Telefonou para o caseiro e lhe pediu para deixar os portões abertos,
até o táxi que estava esperando chegar e sair.
Depois enviou um telegrama ao Domínio, prevenindo a família de
que se atrasaria por um dia ou dois, devido ao processo de adoção.
Sua voz a trairia, se telefonasse. Joshua estava em casa finalmente, a
salvo. Era egoísmo seu ocultar a notícia, mas havia Arnold a
considerar. As coisas tinham se ajustado em um arranjo conveniente
para ambos; esperavam menos um do outro e davam mais. Porém
seria demais pedir a Arnold para acreditar que Joshua estava em
Sands Point, sozinho com Naomi, simplesmente porque não tinha
forças para ir a qualquer outro lugar. Era a verdade, mas Arnold
jamais acreditaria.
Desceu ao escritório para acender o fogo e sentou-se no pequeno
sofá, contemplando as chamas. As lâmpadas brilhavam suavemente
no crepúsculo de inverno. Ainda era difícil para ela respirar.
Quão desesperadamente triste ele parecia. Tomara que não estivesse
doente. O que estava fazendo na América? Rachel e o filho ficaram
na Palestina durante toda a guerra. Talvez precisasse retornar aos
Estados Unidos para dar baixa oficial do exército: era isso mesmo.

Dix era um centro de desligamento. Talvez tivesse vários dias de
licença para os feriados. Mas ele dissera que havia "acabado".
Fazia cinco anos que não o via. E tantas coisas aconteceram a eles.
Lazar estava morto. Sarah e as crianças moravam na Palestina, em
um kibbutz que levava o nome de um herói do gueto, Mordechai
Anilewicz.
Ignoraram o perigoso sentimento antibritânico na Terra Santa, que
estava lançando o Yishuv em campos opostos. Ignoraram o perigo
ainda maior, se fosse concedido a Israel a condição de Estado,
apesar da violenta oposição dos árabes. É para lá que Lazar teria
ido, disse Sarah. Ela quis vender a Arnold suas ações na Duquesa,
mas este recusou. Ele ainda esperava que a irmã retomasse sua ativa
participação na empresa, assim que a situação na Palestina se
acomodasse. Nesse meio tempo, ela dera a Israel quase até o último
centavo que possuía — e Sarah era uma mulher rica. A Duquesa
tinha prosperado durante a guerra e continuava se expandindo,
com Arnold adquirindo subsidiárias sempre que possível.
Mas Arnold não tentou dissuadir Sarah. Isso se devia em parte à
morte de Lazar e ao "arranjo conveniente" que ele e Naomi
estenderam também à maioria das outras pessoas. Arnold ainda era
uma personalidade abrasiva, um perfeccionista com os
companheiros de trabalho e a filha. Mas era menos frio, menos
retraído, mais fácil de abordar.
Naomi nunca conseguira conversar com ele sobre Joshua. Já estava
bastante agradecida por falar com o marido sobre Julie. Estava grata
por terem alcançado uma compreensão muda, afetuosa.
E essa compreensão não devia ser ameaçada agora pela chegada de
Joshua. Naomi foi ao bar preparar um conhaque e tirou um
segundo copo para Joshua. Ele parecia precisar de alguém.
Caminhou até a janela com seu copo, verificando se havia luzes de
faróis no caminho em frente à casa, muito embora fosse cedo
demais para Joshua chegar. As palpitações tinham diminuído, mas
ela estava nervosa. Daqui a pouco, estaria face a face — sozinha —


com o homem que há anos era uma parte secreta e íntima de sua
vida, um homem que devia ter mudado radicalmente, um homem
que Naomi jamais compreendeu, mas que ainda amava.
Voltou ao sofá e sentou-se olhando para o fogo, lembrando, até que
ouviu o táxi estacionar diante da porta.

Capítulo 26

Joshua encostou-se na porta, como se não tivesse forças para ficar
de pé sem apoio, o rosto sombreado pelo visor do quepe. Naomi
podia ver-lhe o rosto encovado.

— Entre, Joshua — disse ela. — Entre e descanse.
Ele a seguiu até o escritório iluminado, carregando uma pequena
sacola de lona, ainda usando o pesado sobretudo. Examinou o belo
e cálido aposento com paredes cobertas de livros, como se tivesse
esquecido que coisas assim existiam.
— Pouse a bolsa e me dê seu sobretudo — pediu Naomi, sentindo
outra vez que ele não tinha forças para fazer nada sozinho. Ela
tirou-lhe o casaco e o conduziu gentilmente ao sofá diante da
lareira. Quando Joshua afundou nas gordas almofadas, Naomi
tirou-lhe o quepe da cabeça e o colocou junto com o sobretudo sobre
uma cadeira do bar. Serviu duas grandes doses de conhaque e lhe
ofereceu uma. Depois sentou-se a seu lado, segurando o copo,
esperando.
Joshua bebeu um longo gole de conhaque. Ela podia ver como
estava magro, não só no rosto, mas também no corpo alto. Ele
sempre fora esbelto, mas agora estava ema-ciado. A jaqueta cor de
oliva desbotada e a camisa caqui estavam muitos centímetros mais
largas no pescoço. O cabelo achava-se quase todo branco.

Joshua ficou parado durante um tempo, a cabeça apoiada no
encosto do sofá, primeiro com os olhos fechados, depois olhando
para o fogo, enquanto bebericava o conhaque. Por fim, virou-se para
ela, e Naomi viu seus olhos claramente pela primeira vez.

— Oh, Joshua — falou, impressionada com aqueles olhos.
Aproximou-se o bastante para passar um braço em torno de seus
ombros, tomando-lhe a mão na sua, tentando aliviar-lhe a desolação
que nenhuma palavra poderia expressar ou reconhecer.
— Oh, Joshua — sussurrou de novo.
Acariciou seu cabelo, murmurando baixinho como fazia com a filha
quando esta se feria, como fazia com os órfãos, dizendo qualquer
coisa para consolá-lo.
— Você está comigo agora, está tudo bem, tudo terminou.
Após um tempo, Joshua acabou com o conhaque, e Naomi lhe
serviu outro. Ele falou pela primeira vez.
— Obrigado — foi tudo o que disse.
— Está com fome? Joshua balançou a cabeça.
— Então precisa dormir — sugeriu, estendendo a mão. Ele a
segurou e acompanhou Naomi até o quarto de
Sarah, levando consigo o conhaque. Ela pegou o copo e dobrou a
ponta das cobertas da cama, enquanto Joshua se despia. Quando já
estava deitado, ela o cobriu.
— Agora durma, Josh. — beijou-lhe a testa. — Está tudo bem,
apenas durma.
Ele estava dormindo quando ela desligou a lâmpada e desceu as
escadas para apagar a lareira, trancar a porta e apagar as luzes.
Voltou ao próprio quarto para se despir. Deitou-se e ficou
pensando, sentindo vários tipos de amor.
Naomi vira essa mesma desolação nos olhos das crianças, mas
nunca com a amargura, nunca com a profundidade encontrada nos
olhos de Joshua, como se ele vagasse perdido em alguma estrela
morta, de onde jamais conseguiria escapar, onde o calor nunca

poderia alcançá-lo. Ele estava atormentado, e ela precisava ajudá-lo.
Teria tentado ajudar mesmo que não o amasse como amava.
Joshua dormiu até o meio-dia. Naomi estava sentada junto à janela
no quarto de Sarah quando ele acordou, visivelmente confuso,
tentando lembrar-se de onde estava e como havia chegado até ali.
Seus olhos ainda eram grandes cavernas de desespero, mas parecia
menos exausto.


— Naomi — ele falou, com anos de lembrança na voz.
Ela sorriu.
— Quer um pouco de café?
— Sim, mas antes prefiro um banho. Naomi apontou
para a porta do banheiro.
— Ali encontrará tudo de que precisa. E também um grande roupão
felpudo. — Aquilo pertencera a Lazar, mas ela não queria lhe dizer
isso. — Quer sua bolsa?
— Sim, tem algumas roupas limpas.
— Vou deixá-la perto da porta do banheiro.
Naomi subiu com a bolsa e tornou a descer para preparar café, suco,
pães doces. Trouxe a bandeja, pousou-a aos pés da cama e sentou-se
para esperar que ele aparecesse. Quando voltou, Joshua parecia
ainda mais pálido com a barba feita. Tornou a enfiar-se na cama e
colocou a bandeja no colo, servindo-se do café de uma garrafa
térmica.
— Isto é incrível — ele falou.
— Eu estava pensando a mesma coisa.
— Por que.está aqui sozinha? Onde estão todos?
Ela lhe contou.
— Como estão Sarah e as crianças?
— Bem. Mas Sarah não consegue ficar quieta. Antes era vitalidade e
coragem. Agora é nervosismo, como se estivesse apostando uma
espécie de corrida consigo mesma. Ela precisa de você. Irá à
Califórnia ver a família, antes de voltar para casa, não é? — Esperou

que ele fizesse um sinal afirmativo com a cabeça. — Será bom para
você ver Sarah.

— Isso não trará Lazar de volta — Joshua respondeu, cobrindo os
olhos com o braço. — Ou qualquer um deles.
— Não, mas você foi sempre como uma rocha para Sarah.
Joshua balançou a cabeça, o braço ainda ocultando o rosto.
— Não sou como uma rocha para mais ninguém. Mal consigo
manter meu próprio equilíbrio.
Naomi cruzou o quarto e sentou-se na beira da cama junto dele.
— Então, teremos de ajudá-lo, para variar.
— Ninguém pode me ajudar. — Segurou sua mão. — Mas estou
feliz que esteja aqui.
— Vamos para Los Angeles assim que você tiver descansado. —
Pôs a bandeja na mesa e tornou a sentar-se junto dele. — Não avisei
à família que você regressou. Na noite passada, mandei um
telegrama informando que me atrasaria, mas não contei que você
estava aqui.
Joshua a fitou, compreendendo.
— Vai dizer hoje.
— Fique comigo e descanse hoje, Josh. Podemos dar a notícia
amanhã. Não conseguimos conversar a sós há anos. Fique comigo.
— Queria dizer muito mais do que disse. Estava tudo em sua voz.
— Não sou mais a mesma pessoa, Naomi — ele respondeu,
ouvindo todas as coisas que ela não podia dizer.
— Nem eu.
Joshua não replicou, examinando o amplo aposento atrás
dela.
— Em que está pensando?
— Como esse quarto é diferente do nosso na Palestina — estava
lembrando-a, e a si próprio, de Rachel.
— Quando vai partir?

— Assim que puder. Haverá problemas antes que surja um Israel.
Precisarão de mim lá. — Ergueu uma das sobrancelhas com um ar
de cinismo. — Lazar não está aqui para conseguir uma pátria para
os judeus, então tenho de fazer isso por ele.
Ela nunca o ouvira falar desse jeito.
— Não são também os seus judeus?
Joshua pegou o conhaque, que estava na mesinha-de-cabe-ceira
desde a noite anterior, e o bebeu de um gole só.
— Agora eles são de todos — retrucou, amargurado. — Os
escolhidos. Bem, que o desgraçado escolha outra espécie de gente
na próxima vez.
Naomi o observou com apreensão, sem saber o que responder.
— Você acha que enlouqueci — ele prosseguiu. — Mas está errada.
Finalmente descobri isso. Começou quando Lazar e Maresh
entraram no gueto de Varsóvia por algo em que eu acreditava, o
maravilhoso par de tolos. Dois heróis insignificantes, o belo poeta e
o belo camponês. Tão patéticos quanto o Rei Lear, pensando:
"Faremos tais coisas. . . eles serão os terrores da terra..." Os dois se
julgavam os símbolos do insaciável espírito humano que derrota os
terrores da terra! Mas a piada é que o espírito humano criou os
terrores da terra em primeiro lugar.
Ele deu um sorriso frio, baixando a voz.
— Há uma lenda contando que, ao olhar para Sua criação e ver o
que o homem fizera com ela, Deus explodiu a Si mesmo em um
trilhão de pedaços. A tarefa do homem é encontrar esses pedaços,
geração por geração, e tornar a juntar todos os fragmentos e
partículas do bem, para que Deus fique inteiro de novo. — Olhou
para ela, zombando de si próprio. — Eu costumava acreditar em
besteiras como essa. Pensava que a criação era um símbolo para o
pensamento, a civilização. Achava que Deus era apenas outra
palavra para o bem. — Desviou os olhos com o desespero
estampado no rosto. — Mas não depois do que vi, cheirei e toquei.
Um homem teria que ser louco para supor que existe o bem.

— A voz baixou ainda mais. — Jesus! — gemeu. — Não consigo
tirar isso da cabeça. Nunca vai desaparecer. — As mãos ocultaram o
rosto. — É. . . horrível!
— Joshua — implorou Naomi. — Não. Precisa parar. O som dessa
voz foi como água fria banhando seu inferno
particular, e ele ergueu os olhos para ela. Por um momento, pareceu
que conseguiria fugir do pesadelo, mas depois sacudiu a cabeça.
— Não posso parar. Isto faz parte de mim, está em meus poros, em
meus pulmões, nas órbitas dos meus olhos.
— Os olhos estavam secos. — Como as pessoas puderam fazer tais
coisas? Por que permitiram que fizessem? Tentamos, podíamos ter
pago resgate por eles, por alguns, tínhamos o dinheiro. Mas alguém
impediu. Por quê? E então todos pereceram, não só os judeus de
Lazar, mas também catorze milhões de pessoas. Sabe quanto tempo
levaria para contar catorze milhões de pessoas? Poloneses, eslavos,
ciganos. Gente. Garotinhas como a sua, menininhos como o meu. —
Agarrou as mãos de Naomi. — É impossível parar de pensar nisso.
O único alívio que posso ter é a morte. E não posso decepcionar
Lazar, buscando-a antes que venha até mim. Amo aquela sua
estúpida coragem tanto quanto o amei. Preciso fazer o que ele teria
feito. Não posso fazer por todos. Então que seja pelos judeus. Eles
também são humanos. E a natureza humana é. . . abominável.
Ela receava por Joshua. Nunca vira um homem em tão profundo
desespero. Não tinha respostas para lhe dar. Como podia? Não
conhecia nada do que ele viu. Tudo que tinha a oferecer era amor.
— Amo tanto você! Não há nada que eu possa fazer? Joshua fitou-a
com olhos vazios.
— Não há nada que alguém possa fazer para me ajudar. Naomi o
enlaçou, sabendo que era verdade. Puxou a
cabeça de Joshua para seu ombro, os lábios tocando o cabelo, o
corpo curvado envolvendo-o como abrigo e proteção. Sonhara
milhares de vezes em estar perto dele, mas nunca dessa maneira,

sem nenhum desejo, exceto o de ajudá-lo, de fazê-lo esquecer-se de
seu sofrimento, mesmo que fosse por uma única vez.
Esta não era a fantasia erótica que havia criado para si mesma no
correr dos anos. Isto era amor, preocupação, piedade, compaixão
que não podia expressar-se de outro modo, a não ser oferecendo-lhe
um santuário físico, um berço onde descansar, braços para enlaçálo.
Não possuía nem a experiência nem a serenidade para oferecer-
lhe qualquer outro tipo de auxílio.
Ele a abraçou de leve, gentilmente, ainda isolado em si mesmo,
imune a algo tão pequeno quanto o conforto físico. Como um
homem podia achar conforto bebendo chá, enquanto os planetas
colidiam?
Depois beijou-a com um suspiro de alívio — ou era de resignação?
Beijou-lhe a boca, os olhos, o cabelo.

— Tão macia — sussurrou. — Tão macia, limpa e doce.
As mãos tiraram o robe que Naomi usava e acariciaram-lhe o corpo.
Seus lábios tocaram os seios. Ela deitou-se ao lado de Joshua para
aquecê-lo, surpresa de que ele fosse tão rijo e aveludado em contato
com sua pele, mas não dentro de seu corpo, que estivesse quente
com uma umidade que nascia nela.
Joshua subiu em seu corpo como um homem afogado tenta subir à
tona para respirar. Ele não amava Rachel, então? Sim, amava a
esposa, sua devoção, sua força, seu sustento — de sua terra, de seu
filho, do próprio Joshua. Mas Rachel era a realidade, e aqui, sob o
corpo agora unido ao dele, estava um sonho, o melhor de todos os
seus sonhos, uma lembrança da juventude não maculada pelo
medo, pela dor, pelo horror. Aqui estava o Graal, a fonte, o
manancial mágico que todo homem passava a vida inteira
procurando e sabia que nunca encontraria.
Para Naomi, os devaneios de tantos anos afinal adquiriam vida. Os
idílios de pura paixão da jovem e o sublime abandono da mulher. A
recepção a um cavalheiro duramente testado e mais aguerrido, que
voltava ao lar para deliciar-se com sua esposa, sua mulher, seu

primeiro e mais duradouro amor. Ela lhe deu tudo o que
representava para ele, toda a luz e as mágicas canções ainda não
cantadas que possuía. E, se isso significava que precisava partilhar
com Joshua todo o horror por ele presenciado para ajudá-lo a
suportar a carga, estava pronta a fazê-lo. Não podia dizer tal coisa

— só podia mostrar, ser, fazer. A jovem que fora nunca seria capaz
de fazê-lo. A mulher em que se transformara o fazia. -Juntos
retornaram no tempo, a uma época em que a vida ainda não havia
perdido o sabor doce e agradável da novidade, à idade da
descoberta, à primeira vez em que olharam um para o outro com a
ânsia de se unirem, de serem um só, de amalgamarem-se
lentamente, sem reflexão, objetivo ou razão, sem responsabilidade,
censura ou preocupação. As lembranças perdidas e destruídas pela
vida, as lembranças machucadas e envelhecidas prematuramente,
todas as lembranças voltaram e renasceram.
Capítulo 27

GIORA — fevereiro de 1946

— Eu devia estar acostumada — Sarah comentou com Rachel,
secando os olhos com um dos lenços de Lazar. — Há reuniões todos
os dias, mas isso me faz sentir tão bem que eu podia até explodir.
— Oh, mamãe — protestou Seth, observando a mãe com ansiedade.
— Você está sempre pronta para explodir por alguma coisa. — Ele
odiava ver a mãe chorar.
— Criança sem coração. — Sarah sorriu, beijando-o.
— Pare de reclamar com sua velha mãe e vá brincar com seus
amigos.

Tranqüilizado, o rapazinho foi juntar-se aos outros garotos que
conhecia em Giora.

— Quem acreditaria que ele tem quase quinze? — Sarah comentou
com Rachel. — E quem acreditaria em tudo isso?
— Seus olhos contemplaram com deleite a multidão barulhenta
reunida-dentro da cerca com a torre de vigilância de Giora.
A uma certa distância das duas mulheres, Joshua conversava
animadamente com velhos amigos e novos companheiros. Reuven
estava lá, um vigoroso carvalho fortalecido pelo sol e pela chuva.
Isaac Levy retornara de seu posto no campo de crianças em
Aglasterhausen, perto de Heidelberg, magro e ágil como sempre,
com uma orla maior de branco em torno da barba. Ari e alguns dos
seus tenentes também estavam lá, ainda maltrapilhos e silenciosos,
porém mais jovens do que costumavam ser. Os homens mais velhos
continuavam chegando lentamente da Europa.
O filho de Rachel, Benjamin, já estava em treinamento.
Eventualmente ingressaria no Haganah, tal como acontecia com
todos os rapazes aos dezesseis anos.
— Nossos filhos brincam de maneira muito estranha — disse
Rachel.
Sarah concordou.
-Precisamos lutar, se quisermos nos transformar em Estado. É bom
estar preparado. — Olhou para Rachel com mais atenção. — Não
melhorou nada, não é?
Rachel balançou a cabeça.
— Acho que não vai mudar. Sarah enlaçou-a com um
dos braços.
— Alguns homens precisam de mais tempo do que outros.
Observando Joshua, Rachel não pensou que fosse uma
questão de tempo. Ela devia ter sabido. Levando em conta o
passado, Rachel compreendeu que deveria ter sabido. Como um
homem que baseou sua vida na fé, no intelecto humano, podia

testemunhar infâmias planejadas com tanta inteligência e ainda
assim continuar confiando na humanidade?
Ele dedicava todos os seus planos, toda a sua vida à luta que se
travaria quando as Nações Unidas lhes dessem um Estado, e os
árabes viessem esmagá-lo. Mas Joshua havia exilado suas emoções
em um reino à parte ou, ela começava a temer, as abandonado
completamente.
De início, a própria Rachel fez isso. Todos fizeram, numa espécie de
narcose de autoproteção, um povo vítima de um ódio arrasador, de
uma perseguição monstruosa. No dia em que Joshua voltou para
Giora, os olhos de Rachel tinham profundezas como os dele. As
mãos fortes traçaram as linhas daquele rosto como se desejassem
descobrir o novo ser que existia por trás das faces encovadas, da
boca tensa, do cabelo branco.
Mas não lhe perguntou como foram as coisas com ele. Ela sabia.
Tinha conhecimento de tudo o que o marido presenciara, através
dos refugiados que estavam sendo contrabandeados para a
Palestina.
O mundo cambaleava ante a magnitude do fato, encolhia-se diante
de verdades terríveis demais para enfrentar. Anos depois, haveria
uma tentativa para entender como tal loucura podia infectar uma
das nações mais altamente civilizadas do mundo — e se eles fizeram
isso, era a pergunta que ninguém ousava formular, será que nós
também não faríamos?
Joshua teve a ousadia de perguntar e encarar a resposta. Era uma
aptidão universal para o mal que acabaria prevalecendo. Isso foi
tudo o que ele lhe disse. No momento, havia outra guerra a ganhar,
um país a ser garantido. Que importância tinha como ele se sentia?
Como qualquer um deles se sentia?
A princípio, Rachel pensou que encontrariam um caminho para
saírem juntos dessa anestesia, que logo iriam se apoiar um no outro,
chorar e depois prosseguir juntos. Queria desesperadamente ter
mais filhos — estava com quase trinta e cinco anos. Tantos foram


perdidos, a melhor maneira pela qual podia se dar era ter mais
filhos, era desafiar com a vida a morte grotesca. E Benjamin
precisava de uma família. Precisava de irmãos e irmãs tanto quanto
de um pai. Durante toda a guerra, Ben Horowitz fora mais pai para
seu filho do que o próprio Joshua.
Nas semanas seguintes ao regresso de Joshua, os dois sàciaram-se
um no outro, procurando esquecer tudo em paixões mudas,
inexprimíveis, que bloqueavam todos os pensamentos, todas as
emoções, deixando apenas os sentidos vagarem, noite após noite,
nas solitárias planícies de Eros. Eles mesmos nunca se encontraram.
Era como um colossal banquete dos sentidos que compartilhavam,
mas logo Rachel começou a temer o vazio disso. Era uma fuga, não
uma realização pessoal, copular desse modo, cada um em um
universo separado de esquecimento.
Ela não tinha nenhuma necessidade de perguntar se ele ainda a
amava. Não era isso o que a fazia se sentir tão sozinha a seu lado.
Era a maneira como a amava. Joshua sempre fora um homem
sensual, mas agora usava a sensualidade como uma droga, para
eliminar tudo o que lhe ulcerava a alma. Se não podia dividir sua
amargura com ela, também não podia dividir a paixão. Ele aceitava
e dava isso, mas não compartilhava.
Rachel acabou acreditando que seria melhor se Joshua apenas
segurasse sua mão. Seria muito mais significativo. E, contudo,
estava tão faminta quanto ele pelas noites que passaram juntos no
início.
E, então, certa noite, em uma febre de luxúria para absorver seu
corpo tão completamente a ponto de poder alcançá-lo afinal, Rachel

o beijou como se estivesse morrendo.
— Não tire agora, não esta noite — murmurou ofegante, agarrando-
se a Joshua. E, mais uma vez, quando ele se afastou freneticamente
para o que ela sabia ser seu alívio solitário, pediu: — Fique, fique
dentro de mim. Quero um bebê. Quero um filho.

Joshua parou, como se Rachel o tivesse esfaqueado, e ela sussurrou,
os sentidos inflamados ansiando por satisfação, o coração ansiando
ainda mais por ele, não apenas por seu corpo, mas pelo próprio
Joshua.
Ele se ergueu e deitou ao seu lado, enquanto Rachel sentia as
palpitações diminuírem e cessarem, e os ruídos noturnos se
intensificarem no silêncio dos dois.

— Por quê? — ela perguntou com tristeza. — Precisa me dizer.
— Não quero pôr outro filho no mundo.
— Uma criança nossa? Uma criança judia?
— Rachel, pelo amor de Deus, que diferença faz? Neste exato
momento, estamos nos preparando para uma guerra. Vamos matar.
Vamos destruir. E esse filho crescerá para matar e destruir. Você
tem Benjamin. Contente-se com um filho de onze anos, que
precisará disparar a arma primeiro ou será baleado.
Rachel ficara sem fala. Ainda assim, pensou que Joshua mudaria de
idéia com o tempo. Ela o via trabalhar nos campos è nos pomares,
como fazia desde sua volta, o corpo recuperando peso, as forças
retornando. Ela o via com Benjamin, o pequeno companheiro da
mãe durante os longos anos de guerra e aflição. E Joshua amava o
filho, Rachel tinha certeza disso — mas se esforçava para não amálo
demais.
E Joshua não mudou. Nem mesmo Sarah e as crianças faziam
alguma diferença para ele, exceto lembrá-lo de Lazar, assim parecia,
e estimulá-lo a prosseguir na tarefa que afirmara estar determinado
a executar pelo amigo. Para Joshua, era como se não valesse a pena
lutar por nenhum ser vivo.
Era isso o que ele não conseguia perceber — que estava realizando
um trabalho por puro amor, porque existia muito amor nele. Era
isso o que a fazia continuar amando essa efígie de Joshua. Era
irônico que sua obsessão por Lazar fosse o tipo de idolatria que ele
sempre rejeitara, como agora rejeitava o risco de se deixar levar
demais pelos sentimentos.

Logo desistiu de tentar persuadi-lo. Amava-o, mas, ainda que ele
preferisse negar-se a ela, não tinha o direito de negar-lhe um filho.
Não se incomodava que isso pudesse ser apenas a natureza cega
procurando repor o que se perdera — havia sempre uma explosão
no índice de natalidade após uma guerra. Rachel sempre viveu
junto à natureza, como se fosse parte dela, e, se queria uma
afirmação da vida dessa forma mais primitiva, Joshua não tinha o
direito de recusar-lhe isso.
Agora, ainda o observando, disse a Sarah.

— Preferia qualquer coisa a isto. Preferia que ele esbanjasse um
pouco de amor por aí, porque o tem em excesso, do que não receber
absolutamente nada.
Palavras não ditas — "até mesmo para ela, para Naomi" — pairaram
entre as duas mulheres.
Sarah a estreitou contra si. Não havia como refutar o que Rachel
dissera. Sarah sempre fora uma celebrante da vida. Era sua
natureza. Suas tristezas eram tão violentas quanto as alegrias, as
lamentações tão livres quanto o riso. Era mais fácil tampar a boca de
um vulcão do que isolar Sarah da vida, a despeito de todo o mal
que esta lhe trouxesse.
Sarah refletira sobre a real natureza da transformação em Joshua,
assim que o viu descer do trem com Naomi no último Natal, na
Califórnia. Naomi estava diferente. Era uma mudança sexual, que
Sarah, com sua infalível intuição sobre homens e mulheres, logo
detectou. Estava grata por Arnold não ter percebido e também pelo
fato de que, para o irmão, Naomi estivesse mais carinhosa —
porque estava mais compreensiva — do que nunca.
Mas Joshua era um homem que Sarah não conhecia mais. Não havia
nele nenhum sinal de amor. Uma fuga" de apenas uma hora era
tudo o que Joshua ia agora buscar ou partilhar com uma mulher.
Tais relações vazias não eram nem amor e nem adultério, Sarah
sabia.

Era sorte, havia pensado então como pensava agora, que ele e
Naomi se encontrassem tão pouco, caso contrário o fato de o sexo
representar somente uma fuga para Joshua se tornaria tão evidente
para Naomi quanto o era para Rachel. E inaceitável também, por
razões inteiramente diferentes. Naomi se sentiria envergonhada,
sem amor para justificar a paixão. Rachel se sentia só.
Um grito as despertou. Uma das meninas de pé junto a Seth e
Benjamin virou-se por um segundo, antes de correr ao encontro dó
caminhão empoeirado que cruzava os portões, o rosto radiante.

—É abba— avisou aos outros. — É meu pai!
— Viu o rosto daquela criança se iluminar? — Sarah estava
chorando de novo. — Quem é?
— É Natan — respondeu Rachel. — É o nosso Minotauro. Preciso
avisar Aviva. — Parou e tornou a olhar para o caminhão apinhado.
— E Ben está com ele, nosso querido Janota. — Começou a
caminhar para o caminhão, olhando-o com o tipo de sorriso que
Sarah não via naquele rosto há anos. — Ele voltou!
Rachel correu em direção ao caminhão junto com os outros,
esquecendo-se de Aviva. Sarah a viu ir, esperando que o regresso de
Ben arrancasse o irmão do seu desventurado isolamento. Os dois
eram amigos há tanto tempo — e Ben sempre esteve lá durante os
anos em que Joshua se achava ausente, quando Rachel e Benjamin
precisavam de alguém.
De repente Sarah apertou o lenço contra os lábios, sentindo haver
uma inevitabilidade em Ben e Rachel, desejando que não
acontecesse, sabendo que não culparia Rachel se ocorresse.
Capítulo 28

TEL AVIV — setembro de 1946


O quartel-general do Haganah em Tel Aviv ficava na Rua
Hayarkon, em um prédio de estuque, que chamavam de casa
vermelha.

— É porque é cor-de-rosa — Isaac comentou com Joshua, ao se
aproximarem da casa lentamente, como dois amigos que saíram
para um passeio. — Os britânicos possuem um tipo de mente literal.
Só vão procurar casas vermelhas. Joshua franziu o cenho, sem
ouvir.
— Onde eles estão, droga? Isaac balançou a cabeça.
— Você sabe que não virão.
Joshua ficou silencioso novamente. Vários homens passavam pelos
dois e entravam na casa a intervalos discretos. Mas Natan e o Janota
não se achavam entre eles.
— Vamos, Josh, está na hora de entrar.
— Que se danem! — Joshua praguejou baixinho, meio zangado,
meio pesaroso. — Depois de todos estes anos juntos. — Dobraram
no caminho que conduzia a casa. — Natan sempre foi cabeça
quente. Mas Ben! Juntar-se ao Irgun! Diabo, provavelmente
acabaremos trabalhando juntos, se as coisas continuarem como
estão. Mas como um exército, não como terroristas.
Ele estava certo. O que parecia impossível há alguns anos
acontecera dentro de certos limites, embora o Irgun Z'vai Le'umi, de
Menahen Begin, e o Lech'i, de Avraham Stern, mais conhecido como
a Gangue Stern, fossem totalmente inaceitáveis para o Hagahah e
todo o Yishuv durante a guerra. Houvera divisões panzer alemãs em
toda a África do Norte, e a Grã-Bretanha concedera ao Haganah o
statuts "não-oficial" de exército, com armas "não-oficiais". E, quando
a Alemanha foi expulsa do continente após El Alamein, restava
ainda o ex-Grande Mufti, Haj-Amim al Husseini. Sendo um
declarado simpatizantes dos nazistas, ficou maquinando planos em
seu covil, ameaçando o exército de segurança britânico, infiltrando
sua gente na inteligência britânica. Os homens do Haganah estavam
acostumados com a contra-espionagem, mas, assim que os alemães

foram derrotados, o exército dos judeus perdeu a condição de "nãooficial".
Era mais uma vez ilegal.
Eles "cooperavam" com o exército britânico, procurando homens e
documentos de Irgun. Os britânicos não sabiam ler ou falar hebreu,
e o Haganah sabia. Mas, de alguma forma, a maioria dos homens
detidos para interrogatório fugia, a maior parte dos documentos
incriminatórios era destruída. O Haganah podia discordar do Irgun,
mas os judeus não seriam entregues a ninguém para serem
condenados à forca, prisão ou deportação para a Eritréia, onde •
havia campos para os dissidentes há anos.
Mesmo assim, "a Tia" — um dos apelidos do Haganah (o outro era
Hashura, "o Leão") — poderia manter a lealdade para com os
britânicos, se a política de pós-guerra deste país não mudasse tão
radicalmente.
As centenas de milhares de sobreviventes do Holocausto, declarou

o ministro das Relações Exteriores, Ernest Bevin, conseguiram
chegar ao fim da guerra. Tinham sofrido muito, era verdade, mas
sobreviveram. Não havia mais nenhuma necessidade de uma pátria
judia. Hitler estava morto e, com ele, o horror nazista. Os refugiados
só precisavam voltar para seus lares.
— Seus lares! — vociferou Natan. — Eles não têm nenhum lar. Ou
será que Bevin pretende construir para eles pequenas fazendas no
campo, perto de Auschwitz, Buchen-wald e Belsen? Há um bocado
de farinha de ossos lá para servir de fertilizante.
— Eles vão mudar de idéia — os outros lhe disseram, tentando
convencer a si mesmos. — Formularão um acordo. De que
adiantaria lutar contra os britânicos?
— Para tirar essa gente daqui! — argumentou Natan. — Eles nos
usaram quando foi conveniente, e, agora que se sentem seguros,
tiram nossas armas. E nossa terra. Nós não estamos seguros.
Aqueles pobres infelizes nos campos dos deslocados de guerra na
Europa não estão seguros. Houve um pogrom na Polônia há dois

meses. Sem um Estado, nenhum judeu no mundo está seguro. E
Bevin quer que retornem para seus lares.
O clamor ante essa sugestão foi colossal — do Haganah, do Yishuv,
da Agência Judaica na América e do Presidente Truman.
Igualmente colossal foi a advertência dos árabes, caso os britânicos
cedessem e permitissem a entrada de um número suficiente de
judeus para acarretar uma maioria judia na Palestina.
Segundo os árabes, as perseguições nazistas na Europa não eram
culpa deles. Os judeus eram "o povo da Bíblia" e nunca foram
perseguidos nos países árabes — exceto pelos cruzados europeus.
Se os americanos estavam tão ansiosos para dar um lar aos
refugiados, então que lhes abrissem as portas da América. Lá era
grande o bastante para absorvê-los, mas não a Palestina. Por que os
árabes deviam ser penalizados quem não tinha uma parcela de
culpa no Holocausto, seja
direta ou indiretamente? Era uma referência sutil ao fracasso dos
Aliados em deter os extermínios, tão logo surgiram evidências
inegáveis sobre o fato, ou em bombardear as ferrovias para os
crematórios de Auschwitz, tal como os judeus imploraram-lhes que
fizessem. Referiam-se ao fato de não terem aceitado a barganha
oferecida por Eichmann, pagando resgate pelos judeus, nem
concedido visto de entrada às poucas centenas que tentaram achar
abrigo em seus países, antes mesmo que os assassinatos em massa
começassem.
Até Ben Horowitz perdera a calma com Joshua em uma discussão
sobre a meta do Irgun de expulsar os britânicos. "Vai dizer agora
que os britânicos estão certos?", protestou Ben, os lábios brancos de
raiva. "Vai analisar os dois lados novamente? Ou talvez todos os
três? Você é bom nisso."
Mas havia apenas um ponto de vista para Joshua agora. Tal como o
Yishuv, ele detestava a violência. Mas, tal como o Yishuv, sabia que o
Irgun estava certo. Se os britânicos não deixassem os refugiados
entrarem, teriam de ser forçados a deixar a Palestina. E só táticas


desesperadas podiam forçá-los a abandonar a Palestina. Estava se
aproximando o dia em que "a Tia" talvez tivesse de coordenar as
atividades junto com o Irgun. No mínimo, ao contrário de alguns, a
política do Irgun era forçar os britânicos a saírem de lá, não simplesmente
matá-los.
Quebrariam o moral dos britânicos a ponto de fazê-los desistir e se
retirarem, por meio de avisos com bomba, que às vezes explodiam,
às vezes não, raptando oficiais do exército, quando qualquer judeu
estivesse ameaçado de enforcamento; resgatando prisioneiros dos
campos de concentração britânicos na Eritréia.
Joshua sabia que eles tinham uma chance agindo assim. Os
britânicos precisavam cumprir suas promessas ou partir. Com
provocação suficiente, abandonariam a Palestina, ao invés de
perseguirem todo o povo. Eram um inimigo honrado.

Um "inimigo honrado" — Joshua tirou esse pensamento da cabeça.
Ele e Isaac entraram em uma sala apinhada na casa vermelha, onde
uns cinqüenta homens estavam sentados.
Ari estava presente, mas não como chefe das operações. Sacudiu a
cabeça hirsuta lentamente, depois que os olhos de Joshua abarcaram
todo o aposento, em busca dos dois rostos familiares que sabia
estarem ausentes. Ari também tinha esperado por Ben e Natan,
desejando que mudassem de idéia quanto a unirem-se ao Irgun
Z'vai Le'umi. Ainda havia outros recursos. Líderes judeus como
Weizmann e os da Agência Judaica podiam negociar a nível
diplomático. E, se Weizmann se demitisse ou fosse coagido a isso,
caso não conseguisse impedir uma rebelião judia, Ben-Gurion se
certificaria de que "a Tia" cumprisse suas duas funções principais:
contrabandear refugiados e adquirir armas. Estavam falando em
partilha como solução, se tudo o mais fracassasse.
A partilha da Palestina era melhor do que não ter Estado algum —
mas Begin se opunha à partilha. Achava que os judeus deviam
ocupar ambas as margens do Jordão, que as fronteiras do país


deviam ser bíblicas. Era a terra deles. Estava escrito nas Escrituras
que era a terra do povo judeu.
O homem de pé agora para presidir a reunião era franzino e
desalinhado, com cabelo muito longo. Estava vestido com
displicência, como a maioria dos palestinos, com calça de trabalho e
uma camisa desbotada e aberta até o peito pálido e sem pêlos nesse
quente dia de setembro. Os óculos de lentes grossas escorregavam
pelo nariz suado, e ele os puxava para cima constantemente, com
obstinação, como se soubesse que algum dia ficariam no lugar ao
qual pertenciam.

— Um yeshiva bocher — murmurou Ari a Isaac. — Por que nos
mandam professores universitários? Dois dias no campo e estarão
mortos.
Isaac só teve tempo de sorrir, antes que o professor universitário
começasse a falar. Sua voz era tão forte quanto o corpo era miúdo.
Falou em um inglês com sotaque grego, muito enfeitado com
americanismos.
— Tenho notícias do Velho — disse, referindo-se a Ben Gurion. —
Arrecadaram dinheiro na América, o bastante para começarmos, de
qualquer maneira. Mas precisamos achar as armas para usar o
dinheiro. Conseguimos algumas da campanha da África do Norte,
até mesmo de alguns soldados britânicos aqui, mas isso é café
pequeno. Temos de arranjar muito mais na Tchecoslováquia,
Hungria, especialmente na América.
— Empurrou os óculos para cima. — Agora que os japonas se
renderam, a Administração dos Haveres de Guerra vai vender as
sobras do material.
— Para nós? — um dos homens indagou com desdém. O chefe
sorriu.
— Eles não precisam saber que é para nós, não é?
— Parou para que todos absorvessem bem suas palavras.
— Como vamos contrabandear as armas e a maquinaria sem os
britânicos saberem? — um dos homens perguntou.

— Eles não nos deixam ter explosivos nem para as construções,
muito menos armas!
— Do jeito que falei. Desmontamos o material grande e remetemos
tudo, peça por peça. Como podem identificar o quadro inteiro com
uma única peça do quebra-cabeça? O material vem escondido com
outras mercadorias. Eles têm olhos de raios X? Trouxemos
ilegalmente do Chipre alguns engenheiros quase mortos que os
alemães deixaram passar e que vão juntar todas as peças e nos
ensinar como funcionam, quando tudo chegar. — Parou de novo,
exibindo um ar de satisfação. — A tarefa de você é organizar um
exército. Bem depressa.
— Um exército? — protestou Ari. — Só temos dois mil homens no
Palmach e alguns milhares de reservistas! Se os britânicos não
consentirem na imigração, onde vamos arranjar um exército judeu?
O chefe suspirou, retirou os óculos e os limpou na fralda da camisa.
— Primeiro recrute qualquer pessoa com idade bastante para atirar,
homem ou mulher. Então espere até trazermos os homens.
— Quem? Aqueles coitados famintos dos campos de concentração?
— Eles serão os melhores combatentes — respondeu o homenzinho
magro com voz cortante. — Quando se está dentro de um daqueles
campos, não se tem medo de lutar pela própria vida. Pode acreditar
em mim.
Os olhos, curiosamente ampliados atrás das grossas lentes,
pousaram em Ari firmemente, que concordou com um breve gesto
de cabeça e sentou-se. A sala ficou muito silenciosa por alguns
segundos. Aqui estavam todos eles vivos, enquanto tantos outros
estavam mortos nos campos de concentração.
— Afora isso — a voz profunda prosseguiu, sem mais sinal de
ressentimento — iremos pesquisar nos registros de guerra dos
capelães. Entraremos em contato com cada judeu americano que
combateu e veremos se querem visitar a Palestina. Os britânicos não
podem expulsar os turistas americanos.

Ninguém perguntou como a Agência Judaica teria acesso aos
registros. Durante a guerra, eles aprenderam muito sobre infiltração
com a inteligência britânica.

— Também existem os mercenários. Alguns homens simplesmente
gostam das guerras. Conseguirei os homens, e vocês, as armas.
Precisamos apenas de dinheiro e gente para localizar e comprar a
mercadoria. Pessoas que não se pareçam com compradores de
armas. . . gente como eu.
Os homens riram, enquanto Ari e Isaac viravam-se para Joshua. Seu
rosto estava impassível. Qualquer pessoa com antecedentes
americanos e, melhor ainda, com passaporte americano seria valiosa
no jogo do engano em massa que estava prestes a começar. Parecia
inevitável que Joshua retornasse aos Estados Unidos.
O chefe prosseguiu:
— Se conhecerem alguém que possa ser o tipo de homem de que
necessitamos, mandem para cá daqui a uma semana, na mesma
hora. Outra coisa: precisamos de um sistema de comunicação que
ligue as colônias aos quartéis-generais e também uns com os outros,
a fim de preveni-los sobre grupos de busca britânicos ou ataques
árabes. Temos um homem trabalhando nisso. Temos também um
transmissor que se parece com um rádio comum. A única diferença
é o cristal. — O homem sorriu, satisfeito de novo. — É bastante
improvável que os inspetores da alfândega conheçam coisas como
estas. Então esperem um bocado de rádios. — Apoiou as mãos na
mesa. — Não há muito mais para dizer a vocês agora. O principal
foi comunicar a todos que o Velho levantou o dinheiro, no mínimo o
suficiente para começar. Quando precisarmos de mais — respirou
fundo — arrumaremos mais.
A essa altura, não havia um único homem na sala que duvidasse do
líder com ar de fome e de que seus amigos arrecadariam mais
dinheiro.
Um dos homens ergueu uma das mãos.


— O Velho descobriu por que os ingleses de repente ficaram tão
amigos dos beduínos, depois de toda a ajuda que lhes demos na
guerra?
— Petróleo — o chefe respondeu. — Os árabes o têm. Nós não.
— O que pensou que fosse, palerma? — indagou um homem muito
moreno. — Anti-semitismo? O que mais existe aqui é semitas. Eu
mesmo me pareço com um beduíno. '
— O palerma foi o Patriarca Abraão — replicou Ari.
— Todos aqueles anos no deserto, e ele ocupa exatamente o único
pedaço de terra que não tem petróleo. Você. — Apontou para o
homem muito moreno entre as risadas de alguns e a desaprovação
de outros. — Posso usar um homem que se pareça com um árabe.
Sabe onde me encontrar, se estiver interessado em se arriscar.
Houve um rumor de conversa quando a reunião terminou. Ari
trocou um aperto de mão com Isaac e Joshua, enquanto os homens
rumavam lentamente para a porta em grupos de dois e três.
— Sentirei falta dos dois — Ari começou sem nenhum preâmbulo.
— Natan pode matar um homem tranqüilamente com o punho,
ainda que realmente fale como um asno. Quanto ao Janota,
precisaremos achar outro judeu com cara de inglês para se infiltrar
no quartel-general britânico. — Resmungou.
— Malditos tolos. Você, Rabino. — Examinou Joshua com o cenho
franzido. — Você volta para o lugar de onde veio. Outra vez.
Provavelmente é melhor assim. Você não é um assassino nato, como
alguns de nós. — Deixou-os na sua maneira abrupta de sempre.
Após alguns minutos, Joshua e Isaac saíram na rua banhada pelo
sol.
O Doutor levantou o braço para descansar a mão solitária no ombro
de Joshua.

— É uma vergonha! Tudo o que você sempre quis foi ficar na
Palestina.

Joshua limitou-se a olhar com frieza, um olhar que seus amigos
aprenderam a conhecer bem.

— Esqueça, amigo — disse Isaac suavemente. — Tem que haver um
fim para as lamentações. — Depois, o rosto bondoso endureceu de
leve. — Se não for pelo seu bem, então pelo de sua família. Às vezes
acho que você não lembra que tem mulher e filho aqui.
Será que Isaac pensava que ele era infiel a Rachel? Ele não fora —
nunca seria infiel a Rachel. Respeitava profundamente sua esposa
pelo que era. E não havia lhe tirado nada naqueles poucos dias com
Naomi. Que ameaça um encontro fortuito podia representar para
um relacionamento duradouro? Há muito tempo aprendera com
Lazar que as aventuras sexuais eram prazeres passageiros, quentes
como o vinho, como um campo de girassóis dourados. Rachel
crescera sabendo disso. O que Rachel não podia aceitar era sua
desilusão intolerável.
Se tinha culpa de alguma infidelidade, era para com Arnold. Estava
tirando algo que o irmão necessitava possuir exclusivamente. A
fidelidade sexual ainda era o elemento básico no mundo de Arnold.
E, ainda assim, Joshua não tinha a menor intenção de se sacrificar
pelo bem de Arnold, se Naomi continuasse querendo que ele
satisfizesse uma parte de sua natureza, que Arnold não conseguia
alcançar. Naomi era seu único sonho que não estava ligado a um
pesadelo. Este mesmo país que jurara defender — e todos nele —
estava eternamente ligado a seu inferno pessoal.
Não havia nada que não fizesse para garantir um Estado judeu, pelo
bem de Lazar. Não havia nada que não fizesse para achar um
momento de libertação da lembrança daquele fardo frágil junto a
uma cerca de arame farpado.
— Rachel quer outro filho — contou de repente. Isaac sorriu.
— É lógico que quer. E todos não querem? — Encheu o cachimbo
enquanto caminhava, falando no silêncio de Joshua, sem notá-lo. —
Não há uma só mulher na Palestina que não deseje substituir uma
parte do que perdeu.

— Então haverá muitas velhas almas lançadas neste mundo a
contragosto.
Isaac ficou surpreso.
— Onde ouviu essa expressão?
— Cresci com ela. Eu mesmo sou uma velha alma, substituindo
outros infelizes que pereceram em outras chamas, há muito tempo.
Os dois pararam debaixo de uma árvore, e o rosto de Joshua ficou
desenhado com a sombra das folhas. Ele parecia perplexo, do modo
como costumava ficar, recordava-se do Doutor, quando chegou na
Palestina pela primeira vez, loucamente apaixonado por uma moça
e por um sonho, tendo que escolher entre os dois. A sombra das
folhas obscurecia o cabelo branco que contrastava de modo
surpreendente com o rosto ainda jovem e atraente, e, em
pensamento, Isaac forçou-se a lembrar que Joshua era um homem,
não um menino, e que esse homem carregava um fardo que lhe fora
imposto, sem saber, por pais ignorantes com suas próprias
necessidades emocionais. Obviamente, Joshua sentia-se responsável
por cada judeu morto como uma vítima da violência, e Lazar era o
símbolo de todos eles.
O rosto do Doutor era um estudo de compreensão e piedade.
— Isto é só uma figura de linguagem, Joshua, uma fantasia que
consola. Uma velha alma carrega um fardo grande demais. Seja
uma alma jovem. Não faça o que as pessoas esperam de você. Faça o
que quer.
Joshua reiniciou a caminhada, sem ouvir.
— Não estou disposto a gerar outro herdeiro para a história da
humanidade. Ele seria um mártir ou um assassino. Assim é o
mundo. Mas Rachel. . . Rachel quer um filho.
Isaac, silencioso, deu baforadas no cachimbo por uns minutos.
— Vá para a América, Josh. Às vezes os problemas se resolvem
sozinhos, se os deixamos de lado por um tempo. Você pode resolver
isso com Rachel quando voltar definitivamente. O que você sempre
quis foi permanecer aqui.

Joshua ouviu sua própria voz dizendo a Naomi, há tantos anos, que
a Palestina era sua vida, que ela não podia lhe pedir para desistir da
parte mais importante de si próprio.
Ele balançou a cabeça.


— Oscar Wilde disse que a vida tem apenas duas tragédias: uma é
não obter o que deseja, e a outra é obtê-lo.
— Ele era um cínico — Isaac retrucou. — Você é um lutador, um
rabino contrabandista de armas. Vamos, vou lhe pagar a pior xícara
de café do Oriente Médio.
Caminhando ao lado do amigo no lugar que era a sua vida, Joshua
refletiu que já conhecera uma vez as duas tragédias da vida e
certamente tornaria a conhecê-las.
Capítulo 29

GIORA — setembro de 1946

Rachel pôs de lado os livros-razão, quando Ben bateu na porta. Na
ceia tinham combinado dar um de seus longos e tranqüilos passeios
ao redor de Giora. Desligou a luz e saiu ao seu encontro,
cumprimentando-o com um leve aceno de cabeça, que era tudo o
que conseguia fazer quando as coisas iam mal. Ele compreendeu
seu estado de espírito. "Embora", como Ben comentara certa vez,
"pelo que eu saiba, você só tenha dois, bom e não muito bom."
Rachel passou o braço pelo dele, e juntos caminharam sem
conversar, simplesmente aspirando o ar fresco da noite. Os raios de
luar brincavam sobre seus rostos — o dela tenso, o dele pensativo

— e sobre a cerca alta, a torre de observação, as luzes foscas.
Rumaram para a plantação de cítricos, afastando-se do arame

farpado instalado ao redor. Absurdo cercar o laranjal com um
arame tão feio! Mas eram ordens de Ari.
"Isso poderia dar a vocês um segundo a mais, e isso é tudo de que
precisam para preparar um rifle", ele os informou.


Rachel tremeu de leve.


— O que foi? — perguntou Ben.
— Estava pensando no quanto odeio o arame farpado. Mas vocês
conhece Ari. — Ela o fitou de relance. — Por que não está em Tel
Aviv, você e Natan, com os outros?
— Coisas para fazer — Ben respondeu sucintamente. Só em raras
ocasiões mencionava suas atividades, mas parecia especialmente
relutante em tocar no assunto essa noite. — Vou me ausentar por
um longo tempo.
— Benjamin sentirá sua falta — disse Rachel, os olhos fixos nas
laranjeiras à sua frente.
— Ele tem Joshua. Está feliz demais para sentir falta de alguém.
— Não tenho tanta certeza. Ben aguardou.
— Você viu como ele está — prosseguiu Rachel depressa, não
querendo envolver Ben, mas tendo necessidade de falar sobre o
marido. — Desde que voltou para casa. — Suspirou. — Josh só teve
um sonho em sua vida. Agora é uma compulsão. Isso-anula tudo o
mais, inclusive a mim, inclusive Benjamin. — Anos atrás, percebera
que Joshua havia abandonado Naomi mais porque ela não se
encaixava em sua vida do que por amar uma mulher mais do que a
outra. Porém, ele tinha cruzado a linha divisória da ambição para a
obsessão.
Ben acendeu um cigarro, enquanto chegavam ao fim do laranjal e
voltavam.
— Dê-lhe mais tempo, Rachel. Josh presenciou coisas que levam
tempo para superar.
Rachel balançou a cabeça.
— Todos nós vimos coisas que nunca esqueceremos. A diferença
entre ele e nós é que Josh não quer superar nada, quer se agarrar à

lembrança. Eu o amo, Ben, mas ele não me permite ajudar. O pior
de tudo é que age da mesma forma com Benjamin. O menino
precisará crescer antes de compreender o motivo. E mesmo então
vai magoá-lo tanto quanto agora.
Sua voz estava trêmula, e Ben segurou-lhe o braço.

— Vamos voltar. Você precisa de um conhaque — falou
carinhosamente enquanto caminhavam. — A guerra muda tudo. E,
quando um homem tem uma diante de si e outra atrás, é ainda pior.
— Mas não mudou você.
Ele olhou para Rachel à luz do luar.
— Oh, sim, mudou. Matou minha sagrada honradez. Destruiu
todos os princípios que aprendi a respeitar, antes de tomar o que eu
queria. — Virou a cabeça para o outro lado. — Juntei-me ao Irgun.
Ela prendeu a respiração. O Irgun era clandestino. Tinha um
objetivo imediato: tirar os britânicos da Palestina. O Irgun não
estava interessado em moderação. Mas Joshua e os amigos se
opunham a medidas extremadas. Entre eles, controlavam os outros,
até mesmo o frustrado e temperamental Natan. Era difícil imaginar
Ben, o Janota, tão sereno e educacado, atacando qualquer pessoa
sem ser por autodefesa.
Os dois chegaram à pequena cabana que Ben usava em Giora e
entraram. Ben tirou de uma prateleira uma garrafa de conhaque e
dois copos comuns.
— Joshua sabe? — indagou Rachel, pegando o copo que ele lhe
oferecia.
— Sabe sim, agora que Natan e eu não aparecemos. — Encolheu os
ombros. — Josh está com Ari e o Haganah. Eu não. Eles querem
fazer as coisas de um modo, e nós, de outro. É estúpido. Estamos
em facções opostas, lutando pelo mesmo ideal.
Rachel apoiou-se na parede de madeira da cabana.
— O que aconteceu com todos nós? Eu costumava estar tão certa
sobre algumas coisas. E agora as coisas mais certas se
transformaram. Não sei o que fazer.

— Posso ajudar? — Ben deu uma palmadinha em suas costas, como
fizera com freqüência no passado, quando Joshua estava longe, e ela
e Benjamin sentiam-se sós.
Mas, desta vez, os sentimentos que a uniam a Joshua não a isolaram
do toque de Ben. Desta vez, a bondade foi dolorosa, porque os laços
entre a própria Rachel e o marido não mais existiam, talvez para
sempre.
— Rachel, você está cansada. Quer voltar?
Oh, sim, ela queria voltar ao passado. Queria Joshua de volta, com
sua voz profunda e seu sorriso doce. Queria sua vida de volta, do
jeito que fora. A garganta doía de tanto querer. Encostou-se na
parede áspera e chorou, os ombros sacudidos pelos soluços.
-Rachel? Oh, Deus, Rachel, por favor. — Ela não era o tipo de
mulher que chorava facilmente. Ben virou-a para si e pôs as mãos
em seus ombros. O que foi? Diga-me. Vou ajudar. Farei qualquer
coisa. Mas não suporto vê-la sofrer assim. Rachel, minha querida,
diga-me.
Ela viu-lhe o rosto através de um véu de lágrimas e de lembranças.
Estava tão completamente só, e agora havia este rosto, familiar,
mais velho e mais querido por todos os anos de amizade
cuidadosamente guardada, muito embora ela fosse a sua amada.
— Simplesmente me abrace, Ben, simplesmente me ame. Agüento
qualquer coisa, se houver alguém que me ame.
As mãos de Ben envolveram-lhe gentilmente o rosto.
— Sabe que amo você. Tanto! Há tanto tempo! Não chore, minha
Rachel. Sempre amarei você.
Ela entrou no círculo daqueles braços, enlaçou-lhe o pescoço e o
beijou. Rachel o sentiu tremer, e isso a comoveu mais do que
qualquer outra coisa, que Ben a amasse o bastante para tremer como
um rapazinho, apesar de nunca tê-la beijado em todos esses anos.
Ele não perdera sua sagrada honradez, e isso era o que havia de
mais maravilhoso nele. Não era de seu temperamento brincar com
sentimento assim tão profundos, tão calorosos. Mas queria esse

calor. Ela o amava por dar-lhe isso tão livremente, sem exigir que o
amasse na mesma medida.
Mas a desolação de Ben era muito real para Rachel, tão real quanto
a sua, a desolação de amar alguém que amava outra pessoa ou que
estava trancado demais em si mesmo para querer qualquer espécie
de amor. Por que levava tantos anos de vida saber o que a outra
pessoa estava pensando? Por que isso era tão difícil de aprender,
quando era o que mais importava entre as pessoas?
Ela o apertou mais contra si e tornou a beijá-lo, puxando-o consigo
para baixo, para o colchão sobre o assoalho da minúscula cabana.
Era como se os dois tivessem feito amor durante toda a vida, com
tanta ternura, com tanta gentileza e tão bem. Este não era seu
marido, o dono de seu corpo e do amor de seu coração. Este era um
amigo que a amava. Em seu isolamento de Joshua, Rachel precisava
de alguém que estivesse lá com ela no ato do amor e não perdido
em seu próprio e remoto esquecimento.
Uma onda de alívio inundou-lhe o corpo, e ela o manteve junto de
si.

— Rachel. . . .
Ela o fez silenciar. Não havia nada a ser dito, até que ambos
refletissem sobre aquilo, e, nesse exato momento, Rachel não queria
pensar. Virou-se para Ben, dando-lhe um longo beijo. Dessa vez, foi
a própria Rachel quem tremeu ante as ondas de amor por ele
provocadas, que quebraram o dique dos anos.
Capítulo 30

NOVA YORK — dezembro de 1946


Naomi usou a chave que lhe dera para entrar no quarto de hotel.
Era uma longa viagem de volta a Sands Point, e precisava estar lá às
cinco, quando Julie chegasse da aula de piano. Despiu-se para
poupar tempo, pegou o roupão de Joshua e embrulhou-se nele,
rindo de seu reflexo no longo espelho da porta do banheiro. Metros
de seda escarlate caíam-lhe pelas mãos e em torno dos pés, sobre o
chão. Embora tivesse comprado o roupão para Joshua, a cor lhe
assentava bem. Azul-claro estava começando a parecer-lhe insípido.
Escarlate era a cor que mais combinava com uma concubina.
Deitou-se na cama e ficou à espera. Os lençóis estavam frios. O
sorriso desapareceu.
Era ridículo pensar dessa maneira — uma concubina era o tipo de
coisa que o pai diria. Isso não era casual. Era um caso de amor. Os
dois estavam apaixonados há quase vinte anos e precisavam um do
outro. Casamento era impossível por causa das crianças, por causa
do trabalho dele. Mas negar a si mesmos o pouco que poderiam ter
seria um desperdício estúpido do que lhes haviam ensinado.
Ela sabia que os pais ficariam chocados e humilhados se
descobrissem. E Arnold... . era melhor não pensar em Arnold.
Mexeu-se, inquieta. Simplesmente não sentia esse tipo de amor por
Arnold, muito embora o amasse o mais que podia. Só que faltava
algo, um brilho, um fulgor. Por que se envergonhar de haver
descoberto isso com o homem com quem devia ter se casado, apesar
de todos os argumentos dos pais? Vergonha era algo no qual Joshua
nunca cogitava, Naomi estava convicta disso.
A expectativa a excitava. Havia ocasiões em que ela era tão sensual
quanto Joshua. Surpreendentes as sensações, o desejo ardente que
ele lhe despertava de explorar a paixão física de uma forma que a
mortificaria experimentar com Arnold.
Contudo, não era apenas por sexo que estava ali. Às vezes, desejava
que não houvesse sexo algum, que simplesmente ficassem juntos
em silêncio e conversassem sobre coisas que ele guardava dentro de


si desde as explosões de angústia no primeiro dia em casa, após
retornar da guerra. Mas Joshua parecia querer aquele profundo
contato físico, como se isso lhe proporcionasse um tipo de consolo,
que a simples conversa nunca daria. Sob aquelas mãos experientes,
Naomi ficava sempre suficientemente excitada para apreciar o ato
do amor, até mesmo para ansiar por ele. Mas o que mais ansiava era
que ele confiasse nela, que a amasse o bastante para lhe falar sobre
si mesmo.
Olhou em torno do quarto. Era pequeno e muito limpo, com papel
de parede listrado, colcha de chenille e uma escrivaninha junto à
janela, que se abria para um pátio interno. Ela sempre baixava a
persiana no momento em que chegava. Um edifício comercial dava
fundos para o hotel. Não era sórdido, mas não era o tipo de quarto
que imaginara para os dois.
Eles só se encontravam em raras ocasiões e, naturalmente, nunca em
público. Joshua regressara em outubro e viajava a maior parte do
tempo, buscando fontes de suprimento de armas e munições.
Recusara o convite de Arnold para ficar em Sands Point ou usar o
apartamento na Quinta Avenida. Explicou que não aceitava porque

o hotel na Rua 60 Leste era o lugar onde muitos membros do
Haganah se hospedavam, mas Naomi sabia que agora era
impossível para Joshua viver sob o teto do irmão.
A viagem para a Califórnia no último Natal fora muito diferente do
modo como as coisas estavam agora. Os dois ficaram sentados
juntos, calados quase todo o tempo, vendo a paisagem sem
cicatrizes de bombas passar pela janela da sala dé estar do trem
como se fosse um filme tranqüilo em uma tela de cinema. Até
mesmo quando faziam amor era em silêncio, como se ele precisasse
ficar quieto, após o pandemônio ensurdecedor da guerra. Tinha
havido mais amor do que aventura na cabine do trem Pullman, dias
idílicos que ultrapassaram seus mais delicados sonhos de amor com
Joshua.

Dessa vez, ele retornara muito mudado, de um modo que escapava
à sua compreensão. Estava mais distante com todos, inclusive com
ela. Naomi estava certa de que o verdadeiro Joshua continuava
encerrado em alguma parte de si próprio, o jovem com a voz
vibrante e olhos irresistíveis, que magnetizaria as pessoas, mesmo
se não fosse tão bonito, tão brilhante, tão perfeito.
Ela tinha plena consciência da impossibilidade de recuperar o
Joshua oculto atrás do homem sério e carrancudo em que se
transformara — exceto na cama. Lá, ele não era distante. Lá, as
paixões idealistas do jovem emergiam no erotismo absorvente do
homem. Mas seria esse o único modo de alcançá-lo?
O som da chave de Joshua na porta a fez sentar, enrubescendo com
a excitação. Sempre podia sentir seu estado de espírito no momento
em que ele abria a porta, e hoje Joshua estava bem-humorado. Sabia

o que ele queria ouvir.
— O que encontrou? — Naomi indagou ansiosa, enquanto ele se
virava para trancar a porta.
— Rifles, metralhadoras leves, todo o tipo de brinquedos diabólicos.
— Voltou-se para ela. — E você. Sempre me surpreendo ao
encontrá-la. — Tirou o sobretudo e foi para a cama, abraçando-a.
Embora o rosto estivesse frio, a boca era morna, e havia nele um
odor que era exclusivamente seu. Naomi respirou fundo.
— Eu reconheceria você em qualquer lugar, até na escuridão mais
profunda — ela sussurrou.
Joshua riu.

— Madame, você me excita. — Estava desabotoando a camisa,
tirando-a. Puxou as cobertas e viu o roupão. — Oh, não, você não
vai se esconder nisso.
A idéia do desnudamento, da lenta exposição àqueles olhos, àquelas
mãos, àquela boca, a deixava quente e úmida, antes mesmo de
Joshua tocá-la. Naomi estava pronta a ser engolfada nesse silêncio
lascivo que ele tanto queria quando faziam amor.

Quando tornou a abrir os olhos, ele a fitava fixamente.

— O que vê, quando me olha desse jeito?
— Muitas coisas — respondeu, acariciando-lhe o cabelo. — Vejo o
dia em que todos nós estávamos passeando de barco no parque,
quando percebi pela primeira vez que você era uma mulher, não
uma menina. Penso nas vezes em que discutia política na casa de
seu pai e sonhava com você. Penso nos domingos em família,
quando você não passava de uma garotinha. Você tinha um sorriso
que iluminava o mundo inteiro, mamãe vivia dizendo. Ainda tem.
Naomi o beijou, com um vago desapontamento.
— Não vê nada no presente?
Joshua fechou os olhos, balançando a cabeça.
— Você é a única pessoa no mundo que me faz esquecer do
presente. Faça com que me esqueça do presente — sussurrou,
enlaçando-a com força. — Naomi, faça com que eu pare de pensar
em tudo, exceto em como a vida era antes.
A pequena nuvem de desapontamento logo dissipou-se. Ela o
ajudou a esquecer-se do presente.
O sol começava a baixar, quando Naomi acabou de vestir-se.
Aquela seria uma precoce escuridão de inverno. Saiu do banheiro, o
rosto iluminado de amor e contentamento.
— Preciso correr. Julie estará em casa às cinco.
Ele estava completamente vestido, fumando um cigarro e
examinando uns papéis sobre a escrivaninha.


— Apareço para jantar amanhã — ele avisou, largando os papéis e
indo ao seu encontro. — Mas estou livre amanhã. Pode vir?
Ela ficou alarmada, muito embora soubesse que seria inevitável
confrontar-se com o marido e o amante ao mesmo tempo. Porém,
nunca conseguiria agir naturalmente, se fosse para a cama com
Joshua na mesma manhã. Como ele podia?
— Não — mentiu. — Amanhã é sexta-feira e tem alguma coisa no
colégio de Julie.

— É pena — ele replicou, os braços envolvendo-a. — Precisamos
esperar por uma ou duas semanas, então. Vou para a Califórnia. —
Alguns dos maiores fabricantes de armas da América estavam na
costa oeste.
Ela se sentiu tentada a concordar em vir quando Joshua a beijou,
mas a idéia era constrangedora demais. Despediu-se e desceu as
escadas às pressas, ao invés de perder tempo aguardando o
elevador. Cruzou ligeiro o vestíbulo, sem olhar para o gerente ou o
mensageiro, e correu para a garagem onde sempre estacionava o
carro. Quando atravessou a ponte e achava-se bem perto de Sands
Point, estava mais calma.
Era perfeitamente natural o irmão de Arnold vir jantar
— ele não era um estranho, afinal de contas, e era assim que
ela devia agir. Droga, a maior parte da vida era feita de representação.
As pessoas eram uma no trabalho, outra com os amigos,
ainda outra com os filhos ou estranhos, maridos ou amantes.
Na noite de amanhã, Naomi desempenharia o papel da
esposa e mãe que era.
Pensou em pedir a Julie para passar toda a noite com eles, depois
balançou a cabeça. Muito embora a presença de Julie tornasse mais
fácil para ela ficar lá sentada com os dois irmãos, a apreensão de
Naomi e a razão disso eram assunto seu e de mais ninguém, muito
menos da filha.
Sorriu ao pensar na filha. Julie apenas aparentava possuir a mesma
natureza gentil e condescendente que as pessoas apreciavam tanto
em Naomi. Por trás da serenidade que todos confundiam com
aquiescência feminina, Julie tinha uma vontade de ferro — frase que
a mãe de Naomi sempre usava com sombria desaprovação.
— O que há de errado em ter idéias próprias?
— O que sabe uma criança? — era a eterna resposta. Muitas coisas,
na opinião de Naomi. Pode conhecer a
própria mente, se tiver uma chance de descobri-la — senão, será
sempre uma criança. Arnold já decidira que a filha seria tal como a

tia Sarah. Ele nunca aceitou a decisão da irmã de morar na
Palestina, e seu sonho era que algum dia Julie ocupasse seu lugar na
Duquesa. Isso estava começando a preocupar Naomi.
Sarah era de fato a mulher mais capaz e mais adorável do mundo,
mas principalmente porque era tão autêntica. Naomi queria isso
para Julie. Ela não conseguira o mesmo para si própria, nem antes e
nem agora. Sempre tinha feito o que deixava os pais orgulhosos e
felizes e, depois deles, o marido. E agora, o amante. Mas isso era
diferente, Joshua era diferente. Apenas Sarah sabia como Naomi se
sentia sobre Joshua — mas Sarah dissera certa vez que sentir não
era amar. Se o que sentia — que sempre havia sentido — por Joshua
não era amor, o que era, então?
O som de outro carro a assustou, e descobriu-se parada no meio do
caminho diante de casa, onde uma parte de si mesma
automaticamente a levara, como um pombo-correio. Julie estava
saindo do carro que a trouxera para casa, guiado pelo motorista
particular.

— Em que está pensando, mãe? — Nenhuma colega de onze anos
da turma de Julie usava o termo "mamãe", embora "papai" ainda
fosse aceitável.
— No amor, querida — respondeu Naomi, descendo do carro e
passando um braço em torno da filha. — No quanto amo você.
Julie se achegou à mãe enquanto caminhavam para casa. A despeito
do que Arnold quisesse para essa criança, Naomi estava
determinada a que Julie tivesse o que desejava para si própria.
Capítulo 31



Julie ouvia atentamente tudo o que o tio Josh lhe contava sobre a
família na Palestina. Estava acostumada com os adul tos, mas ele
parecia mais adulto do que todos os outros, ate mesmo o pai. Talvez
fosse porque esteve na guerra. Isso tinha embranquecido seu cabelo.
Tinha matado tio Lazar.
Julie recordava-se do tio Lazar de quando era muito pe quena, mas
não se lembrava de ter encontrado tio Josh ante do ano passado,
quando a mãe o trouxera para a Califórnia com uma cara de doente
que ela quis confortar todo o tempo Ele parecia forte agora, não
dando nenhuma impressão de desejar o conforto de alguém. Era
alto e muito bonito, igualzinho ao herói do romance que estava
lendo, um livro que o papai achou "malicioso" demais para ela, ou
seja lá o que isso signifique. A mãe a deixava ler o que queria.

— Agora é a sua vez — o tio estava dizendo, enquanto a sobremesa
era servida, queijo cheddar picante com fresca maçãs vermelhas. —
Fale sobre a escola. — Todos pergunta vam sobre a escola, mas tio
Josh devia realmente estar interessado. Ele nunca falava à toa. Nem
o pai. Os dois eram mesmo um bocado parecidos.
— Tenho que estudar educação cívica e geografia. Mas não é do que
gosto. Prefiro inglês, história e francês. — Julie queria saber o que
ele pensava disso. Papai achava que ela gastava tempo demais
nessas matérias. "Nada práticas", ele as definia, "inúteis nos
negócios." O tio parecia estar estudando o assunto. — O que
Benjamin prefere? — ela indagou, afina
Os olhos de Arnold encontraram os de Naomi e, depois detiveram-
se em Joshua com uma expressão de advertência Arnold já ouvira o
irmão falar o suficiente no escritório da Duquesa para saber o que
Benjamin precisava aprender na Palestina. Não era nada do que
desejava que Julie ouvisse.
Joshua recomeçou a descascar a maçã em uma longa fita vermelha
com as mãos graciosas.
— Ele gosta de matemática e química. E de mexer com máquinas.
Quer ser engenheiro.

Se eu fosse menino, ia querer ser piloto — comentou
Julie.

— Rebekah é piloto — lembrou Naomi. — É mesmo. — Tendo
como mãe aquela minha irmã maluca, tudo
é possível. — Arnold estava claramente aborrecido. — Imagine só,
comprar para Rebekah aquele brinquedo de montar estruturas!
Julie e Naomi trocaram um sorrisinho. Arnold amava a irmã mais
do que qualquer outra pessoa no mundo, depois da esposa e da
filha. Mas estava sempre fingindo desaprová-la. Era o jeito de
Arnold. Desde que a mãe lhe explicou isso, Julie não se chateava
tanto quando o pai a criticava.
Após o jantar, quando Julie se recolheu, Arnold fechou a porta do
escritório. O fogo com o aroma agradável de madeira de árvores
frutíferas silvava e crepitava na lareira. Ele pegou a xicrinha de café
preto oferecida por Naomi.
— Não entendo por que você precisa viajar durante o Natal e o ano-
novo. Não podem deixá-lo ir para casa?
— Não — respondeu Joshua, assentindo com a cabeça ante a
indagação de Naomi se devia pôr açúcar no café. — É muito
dispendioso. Mais em termos de tempo do que de dinheiro. Se não
adquirirmos já os suprimentos disponíveis, outra pessoa o fará. —
A Agência Judaica estava encontrando dificuldade não em localizar
as máquinas necessárias para a fabricação de suas próprias armas,
mas em exportá-las. Era legal comprar qualquer tipo de maquinaria,
mas a permissão do Departamento de Estado exigia a exportação do
material — e o Departamento de Estado não estava disposto a
contrariar os ingleses, permitindo o embarque de máquinas
operatrizes para a Palestina. Joshua precisava recorrer a métodos
desonestos, criar empresas fantasmas para exportar "máquinas
agrícolas" e "arados" para outros portos.
Joshua ergueu os olhos, compreendendo que o irmão estava falando
com ele.

— Desculpe, o que você disse?
— Perguntei como andam as coisas. Você está bem, Josh? — Arnold
estava um pouco ansioso. A calma aparente do irmão o inquietava,
como uma tampa apertada sobre um tanque de óleo borbulhante,
tal como as da fábrica. Joshua nunca fora impetuoso, mas sempre se
mostrava estusiasmado com tudo o que realizava, cheio de
vitalidade.
— Estou bem, mas a situação é péssima. Conseguimos comprar com
muita dificuldade apenas cinco mil rifles, algumas centenas de
metralhadoras e munição insuficiente para conter os árabes por
mais de dois dias.
— Talvez você não precise combatê-los — observou Naomi. Não
queria pensar em Joshua lutando em outra guerra.
— Depois que nos livrarmos dos britânicos, teremos de enfrentálos.
— Joshua afirmou com segurança. — Eles nos querem lá, e a
Palestina é o único lugar para onde nosso povo pode ir. Mas, ainda
que consigamos as armas, necessitamos de um exército para
dispará-las. Os britânicos acabam de rejeitar outro apelo de Truman
para consentir a imigração daquelas centenas de milhares de
refugiados. Isso rescinde a Declaração de Balfour, que, antes de
mais nada, foi o motivo para ganharem o mandato.
— Como podem sair impunes disso, depois do que aconteceu? —
indagou Arnold. — Isso é quebra de contrato.
— Como podia acontecer tudo o que aconteceu? — Joshua tinha o
mesmo olhar frio. que todos conheciam tão bem, o mesmo olhar que
Naomi vira nesta sala há um ano. — Vão matar todos nós, se
puderem. Mas, desta vez, não sem luta.
— Arnold inclinou-se para a frente.
— Josh, é uma batalha inútil. Por que não pega a família e volta
para casa?
Joshua encarou o irmão com franco desprezo.
— Há milhares de pessoas esperando voltar para casa, Arnold. Não
ouviu o que eu disse?

— Oh, pelo amor de Deus — Arnold retrucou, exasperado. — Você
não mudou nem um pouco. — Josh sempre o fazia sentir-se
pessoalmente responsável por tudo o que existia de errado no
mundo.
— Nem você — Josh observou com frieza. — A não ser enriquecer.
— E é isso o que você quer, o meu dinheiro!
Joshua concordou com a cabeça. Estava sempre sereno quando
Arnold estava zangado, o que enfurecia o irmão ainda mais.


— E você tem de dá-lo a nós porque estamos travando a sua
batalha.
Nunca havia uma resposta para isso. Arnold recostou-se na
poltrona, ainda fumegando. Era sempre a mesma coisa entre os
dois, esse antagonismo familiar. E ainda assim — os olhos de
Arnold voltaram-se para o rosto do irmão — isso era algo diferente.
As idéias de ambos sempre divergiram, mas Joshua sempre seguira
seus próprios planos. Nunca havia criticado e nem espicaçado o
irmão antes. Arnold olhou de relance para Naomi. Ela estava pálida
pelo choque.
— Josh — Arnold disse calmamente. — Qual é o problema? Alguma
coisa está aborrecendo você. Tenho certeza disso. Diga o que é. Sua
voz era gentil, persuasiva.
A cabeça de Josh baixou pesadamente para as mãos.
— É Rachel — respondeu, a frieza sumindo da voz. — Recebi uma
carta hoje.
— O que há com Rachel?
Naomi aguardou, sem realmente querer ouvi-lo falar sobre Rachel,
mas precisando saber.
— Ela está grávida — respondeu Joshua. Arnold parecia
sinceramente intrigado.
— O que há de errado nisso? É perigoso ela ter um filho?
— Droga! — Joshua saltou da poltrona e começou a andar de um
lado para o outro, nervoso. Naomi o observava, sentindo-se traída e
cheia de ciúme, sabendo que estava errada. Joshua tinha todo o

direito de ir para a cama com Rachel; ela ia para a cama com
Arnold. Ambos eram igualmente culpados — ou igualmente
inocentes. Ela não havia pensado em nada disso essa noite.
Conseguira manter a intimidade deles longe desta casa. De
qualquer forma, ele parecera tão diferente até agora. . . Ela o via
caminhar pela sala naquele seu jeito nervoso.
— Perigoso? — Joshua replicou afinal, impulsionado pela fúria. —
A Palestina é uma praça de guerra, pelo amor de Deus! Será que
nunca escuta o que digo?

— Então traga Rachel para cá — sugeriu Arnold.
Joshua sacudiu a cabeça, furioso.
— Não compreende? Ela não viria, não agora. Mas, mesmo que
viesse, quem em seu juízo perfeito poria uma criança neste mundo,
não importa onde nasça? Rachel sabia que eu não queria outro filho.
Ela sabia disso!
Naomi queria lhe perguntar por que não, queria lhe dizer o quanto
ela própria ansiava por mais filhos — ele devia saber disso. Queria
defender Rachel, uma mulher suficientemente corajosa para
permanecer na Palestina e rebelde o bastante para ter outro filho
sozinha, a despeito do que o marido achava. Joshua não tinha o
direito de afirmar tal coisa.
— Ela não fez o bebê sozinha. — Sua voz era dura. — A criança é
tão sua quanto dela, não é?
A cabeça de Joshua virou-se abruptamente para Naomi. Seus olhos
estreitaram-se de raiva, então, de repente, arregalaram-se," como se
outro pensamento lhe acudisse. Parou de andar.
— Vamos parar com isso — falou Arnold. — Um bebê não deve ser
motivo de discussão. — Foi até a esposa, e seu tom de voz suavizou-
se. — Naomi fica perturbada ao ouvi-lo falar assim. Não sabe o
quanto gostaríamos de ter outro filho?
Joshua concordou com a cabeça, olhando para o rosto branco e
tenso de Naomi, tão diferente do que vira no dia anterior.
— Lamento. Perdoem-me, vocês dois.

— Tudo bem, Josh — disse Naomi. — Também lamento. Devo estar
muito cansada. Vou me despedir agora. E boa sorte na viagem.
Arnold abriu a porta do escritório para a esposa, e ela tocou-lhe no
queixo ao sair.
— Sei que vai fazer algo para ajudar.
Subiu as escadas rapidamente, em um misto de emoções sufocantes.
Joshua continuava tão transtornado quanto na primeira noite do seu
regresso da guerra, e ela estava preocupada com ele. Mas estava
também muito zangada com sua atitude para com Rachel, uma
mulher que nem conhecia. Joshua não tinha o direito de recusar-lhe
outro filho, nenhum homem tinha. Há poucos minutos, ressentia-se
de Rachel. Isso lhe parecia tão infantil agora. Neste momento,
queria ajudá-la. Talvez Sarah pudesse lhe dizer como.
Mas quem podia lhe dizer o que fazer por esse homem angustiado,
que ela amava tanto e compreendia tão pouco? Naomi julgara saber
exatamente o que significava para ele e até mesmo o que Rachel
significava. Agora não estava assim tão certa.

Capítulo 32

GIORA — maio de 1947

Sarah embrulhou o menininho na manta de algodão macio,
enquanto Isaac Levy terminava de cuidar de Rachel.

— Ela está bem?
— Ótima! Você é uma verdadeira amazona, Rachel, mas que o
diabo me carregue se eu sei por que você não permitiu que ninguém
mais ajudasse, além de Sarah. Ela é uma mulher fantástica, mas uma
péssima parteira. — Sorriu com carinho para as duas mulheres e
saiu, carregando um balde e um monte de lençóis ensangüentados.

Sarah entregou o bebê a Rachel e sentou-se perto da cama.

— Eu disse alguma coisa? — indagou Rachel.
Sarah balançou a cabeça, e depois o quarto ficou quieto, enquanto
Rachel examinava o filho, os dedos das mãos e dos pés, os ouvidos.
Em seguida, estudou-lhe o rosto.
— Ele se parece comigo — disse Rachel. — O que acha?
— Acho que não importa nem um pouco quem é o pai, se é ao que
se refere. Decidimos isso há meses.
— Exceto que um pai o quer, e outro não.
— Rachel, pare de falar sobre os dois pais, certo? Não sou muito
boa em questões morais, e você é pior ainda. Você amou um homem
tanto quanto o outro, durante aquelas poucas horas. Nunca teria
acontecido, se Joshua não estivesse... como está.
— Ele continua do mesmo jeito, e eu ainda o amo, então não há
desculpa.
Sarah levantou-se e foi até a janela, despenteando o cabelo curto,
estriado de cinza. A figura alta se tornara esguia e resistente com
todo o trabalho ao ar livre que fazia em Yad Mor-dechai, mas ainda
era uma mulher dona de impressionante voluptuosidade, até
mesmo de calça cáqui. Uma camisa branca de algodão realçava o
bronzeado que nunca concedera a si própria quando trabalhava na
Duquesa. Sua casa agora era aqui.


— Lazar nunca acreditou em desculpas. E eu concordo com ele.
Lazar acreditava na vida, isto é tudo, vida. E você a tem nos braços.
— Os olhos estavam úmidos. — Agora descanse, querida. Vou
contar a Benjamin e a minhas crianças sobre o Tarzan aqui. Como
vai se chamar?
— Eleazar, se você não se importa.
Sarah assentiu com a cabeça, sorrindo para a cunhada.
— Você é uma pessoa adorável, Rachel. Vou chorar se não sair
daqui, e você sabe como as crianças odeiam isso. Agora vá dormir.
Volto mais tarde.

O bebê choramingou, e Rachel levou-o ao seio, mas ele agitou as
mãozinhas minúsculas, recusando-o.
Ben escutara em silêncio a princípio, quando ela lhe contara, meses
antes, que uma noite era tudo o que teriam.


— Não posso me aproveitar de seus sentimentos a meu respeito,
Ben. Não, não olhe para mim dessa maneira. Sei que não foi assim
na noite passada, mas é no que poderia se transformar. Ouça.
Existem coisas entre Joshua e eu que nos manterão juntos pelo resto
de nossas vidas. É sempre assim quando duas pessoas se amaram
da mesma forma, ao mesmo tempo.
— É como se ele estivesse morto agora — disse Ben.
— Mas não está. Josh está ferido, Ben, mas ainda não está morto.
Está terrivelmente triste e furioso, mas não vai fugir desse modo.
Isso não é de sua natureza.
— Ainda acha que haverá algum milagre? — Ben perdeu a calma.
— Acredita mesmo que um relâmpago transformará Josh no que era
antes? — Balançou a cabeça. — Nunca conheci um homem que
admirasse mais, exceto Lazar. Se eu tinha que perder você, que ao
menos fosse para alguém como ele. Joshua não é um homem
comum. . . . — Parou, a raiva e a admiração misturadas,
cancelando-se mutuamente. — Estou defendendo Josh agora —
disse, cedendo. — Mas sempre estarei aqui quando precisar, Rachel,
não importa o que aconteça.
Ben partiu quase imediatamente, os ombros muito largos e fortes
sob uma elegante jaqueta safari, o cabelo louro brilhando ao sol,
eternamente jovem, como são algumas pessoas. Ele trabalhara para
os britânicos na contra-espionagem durante toda a guerra e, agora,
no Irgun, usaria contra eles o que tinha aprendido.
Ben voltou meses depois.
— Soube de você por um dos homens do Haganah. Por que não me
avisou? Isaac sabe como me encontrar.
— Mas por que, Ben?

— Por quê? Isso muda tudo. Não pude ficar longe assim que soube.
— As mãos agarraram-lhe os ombros. — Case-se comigo, Rachel.
Sabe que Josh nunca aceitará essa criança. Mesmo que aceite, nunca
seria para o bebê um pai melhor do que foi para Benjamin, e Deus
sabe que foi muito pouco.
— Ele estava lutando em uma guerra! Ainda está.
— Esqueça-se dele. E quanto a nós? E quanto ao nosso bebê?
— Ben, por favor. Não tenho certeza de que esta criança seja sua.
Ele se afastou como se ela o tivesse esfaqueado, e Rachel sentou-se,
sentindo-se fraca. Era possível para um homem compreender que a
natureza do sexo podia mudar o suficiente para ser dolorosa, sem
acabar por completo — que restava a esperança de que tudo
voltasse a ser como antes?
— Que tipo de homem é Josh, usando você desse jeito?
— Eu o quis. E você sabe que tipo de homem ele é. Joshua aceitaria
o bebê, ainda que não tivesse certeza da paternidade. É por isso que
continuo a amá-lo. É por isso que você e eu devemos parar. Eu o
quis, ainda quero. Não foi justo para você.
— Justo? É justo que eu sempre tenha amado você e ninguém mais?
— Era uma referência ao amor de Joshua por outra mulher. Rachel
ignorou o comentário. — É justo que eu nunca me case, que nunca
tenha um filho que possa chamar de meu?
— Nunca lhe pedi tal coisa, Ben.
Ele se sentou perto de Rachel então, a cólera dissipando-se em
resignação.

— Não, não pediu. Eu só queria lhe dar tudo. — Segurou sua mão.
— Não se aborreça, querida, vou parar. Mas você não pode mudar
meus sentimentos. Ainda amo você. E, no que me diz respeito, essa
criança é minha. — Por um instante, pousou as mãos no ventre
inchado. Depois levantou-se para ir, beijando-a no rosto como
sempre fez no passado.
— Seja cuidadoso, Ben, por favor. Ele assentiu com a cabeça.
— Quando descobrirá?

Rachel sabia o que Ben queria dizer.

— Provavelmente, logo que o bebê nascer.
— Vai me contar se for meu? — Estava de costas para ela. — Não
criarei confusão, Rachel, prometo. Só quero saber.
Rachel temia ceder totalmente ante a visão daquelas costas largas e
do modo como o cabelo ondulava na nuca, indefeso como o de uma
criança. O que era essa mistura de confiança, respeito e carinho que
ela lhe dedicava, senão amor? Se nunca tivesse conhecido Joshua,
esse amor teria lhe bastado. Talvez amasse a ambos — da maneira
como Josh amava duas mulheres.
Ben estava aguardando uma resposta.
— Sim, Ben, vou contar.
Não o vira mais desde então. Baixou os olhos quando o bebê
chorou.
— Bem, quem é seu pai, afinal? — perguntou, começando a
amamentá-lo. Os olhinhos estavam fechados. Seriam azuis? Mesmo
assim, os olhos de alguns bebês eram azuis no início. Mas não os do
jovem Benjamin. Os dele eram tão negros quanto os de Joshua,
desde o momento em que os abriu.
— Você também é careca como um ovo — disse ao novo filho, rindo
baixinho ante a imensa alegria de alimentá-lo. Será que teria cabelo
quando Joshua o visse? Julgava conhecer Joshua muito bem, mas
como ele se sentiria se encontrasse um bebê louro e de olhos azuis
que obviamente não era seu? Sabia que ele não reagiria como o
típico marido ciumento. Magoava-a pensar que Josh aceitaria sua
infidelidade porque lhe recusara um filho. Ele era esse tipo de
homem. Havia ocasiões nas quais Rachel desejava que Joshua fosse
mais convencional, menos justo, que se preocupasse mais com casa
e a família.
Mas agora ele. não se preocupava com nada que não fosse seu
trabalho e com mais ninguém além de Lazar.

— Acho que você ainda é pequeno demais para carregar um nome
tão pesado como "Lazar" — falou para o bebê. — Vou chamá-lo de
Elea.
Quando Joshua regressaria? Decerto não antes que o comitê das
Nações Unidas, recentemente formado, haja recomendado a
partilha da Palestina — eles precisam fazê-lo, pensou Rachel eles
precisam — e a Assembléia Geral já votara a respeito do assunto. A
Agência Judaica exerceria toda pressão possível a favor da
recomendação e do voto. As coisas estavam mudando de novo na
Palestina por causa disso.
O Haganah aceitaria a partilha, mas não o Irgun. Os colonos eram
leais a ambas as facções, em sua maioria. Embora odiassem o
terrorismo, compreendiam a raiva que o alimentava todas as vezes
em que eles próprios, suas casas, seus caminhões eram detidos e
examinados cuidadosamente, em busca de armas ocultas que
achavam ter o direito de possuir, todas as vezes em que pensavam
naqueles sobreviventes do Holocausto, cuja entrada na Palestina
ainda era barrada. Se a partilha fosse concedida, todos estariam
enfrentando os árabes, não os britânicos ou uns aos outros.
E onde estava Ben? Ben não era o tipo de homem que tolerasse
qualquer espécie de assassinato. Contudo, mataria para forçar a
retirada dos britânicos. A regra do Irgun era não tirar nenhuma
vida, a menos que fosse estritamente necessário, e acontecia o
mesmo com o Haganah. Ambos divergiam no que constituía essa
necessidade.
O bebê estava adormecido. Rachel fechou os olhos. Durante essas
poucas horas, pensaria apenas na alegria de segurar seu filho.
Na América, todos os olhos acompanhavam um navio chamado
President Warfield — mais tarde denominado The Exodus — que
transportava quatro mil e quinhentos refugiados. O navio fora
abordado pelos britânicos, e seus passageiros, devolvidos ao porto
francês de origem. Mas os refugiados, em sua maioria sobreviventes


dos campos, recusaram a oferta francesa de casas e empregos e os
privilégios da cidadania.
— Eles não querem morar na França — disse Joshua a Arnold. —
Querem viver na Palestina. Depois de tudo o que sofreram, é lógico
que têm esse direito.
Arnold concordou.


— Mas aqueles fanáticos estão fazendo com que os judeus percam o
apoio da opinião pública.
— Não queremos apoio nenhum. Queremos um país só nosso.
— Vão precisar dele para obter uma pátria, quer queiram ou não.
Quando os refugiados foram devolvidos à Alemanha em agosto, o
apoio da opinião pública foi para os judeus. Houve uma onda de
indignação no mundo inteiro, de pessoas que não tinham nenhuma
idéia das implicações políticas do exaustivo trabalho da Grã-
Bretanha na Palestina. Só sabiam que era cruel mandar as vítimas
das atrocidades alemãs de volta à cena do crime.
— Também não era cruel o Irgun matar soldados britânicos? —
contrapôs Arnold. — Eles não fazem política, mas precisam executála.
— É o que os alemães diziam — Joshua replicou com brusquidão.
— Não quero ouvir mais nada sobre isso. Em uma luta como esta,
só posso levar em conta um dos lados, o nosso. Há muito tempo
parei de analisar tudo que não fosse o nosso lado. Não toque mais
neste assunto.
E Arnold parou de falar, mais preocupado do que nunca com o
irmão. Ele o via muito pouco. Joshua quase sempre estava viajando
à procura de dinheiro, armas, meios de introduzir os armamentos
na Palestina, sem despertar a atenção dos britânicos.
Pela primeira vez na vida, Arnold sentiu que o irmão precisava
dele. Não era um apelo declarado, mas Joshua telefonava para a
Duquesa quase diariamente — para conversar sobre um livro, sobre
o tempo, praticamente, sobre qualquer coisa, como se sentisse
necessidade de ouvir a voz de Arnold. Era impossível não estar lá

quando o irmão precisava dele, apesar de seu Comportamento ser
tão extravagante. Afora a notícia de que Rachel dera à luz um
menino, Joshua nunca tornou a mencionar o segundo filho para
Arnold.
Ao fim de agosto, o Comitê' Especial das Nações Unidas, reunido
para decidir a questão da Palestina, recomendou que a Grã-
Bretanha abrisse mão do mandato, e a Palestina fosse dividida. Em
29 de novembro de 1947, a Assembléia Geral das Nações Unidas
votou a favor dessa recomendação.

Capítulo 33

NOVA YORK — dezembro de 1947

As celebrações em Nova York foram mais longas do que na
Palestina — agora todos estavam começando a chamá-la de Israel —
onde a cada dia a oposição árabe se intensificava como febre. Para
Naomi, não foi surpresa que Joshua recebesse a notícia muito mais
com preocupação do que com entusiasmo: tinham um Estado, mas
como conservá-lo?

— Voltará logo? — ela lhe perguntou certo dia, em outro quarto
no mesmo hotel. Tinham estado juntos não mais do que uma meia
dúzia de vezes no ano passado, e Naomi começava a odiar esse
hotel.
— Sim, na semana que vem.
De certa forma, ela ficou aliviada ao ouvir isso.
— Por quanto tempo?

— Não sei. Necessitamos de um plano para o que virá após a
retirada dos britânicos. Necessitamos de armas para implementar o
plano. — A mão foi até o seio de Naomi. — Não fale nisso aqui.
Ela se sentou, segurando o lençol contra o corpo.
— Há uma coisa que preciso falar. Há muito tempo venho sentindo
que algo está errado, Josh. — Esperou, imaginando o que ele diria.
— Desde que tomou conhecimento da gravidez de Rachel, eu sei.
Os olhos azuis viraram-se para ele.
— Então você sabia! Sentia-se da mesma maneira!
— Não da mesma maneira. Não sou hipócrita, Naomi. Não acho
que é pecado fazer amor quando Rachel está grávida e
perfeitamente aceitável quando não está.
— É isso que eu sou? — Naomi murmurou, — Uma hipócrita?
Joshua a puxou para baixo, fazendo-a deitar ao seu lado.
— Não, querida, só ingênua. Acha que preciso menos de você por
causa do bebê? Ou você de mim?
— Você precisaria de mim se Rachel estivesse aqui? O rosto de
Joshua mudou.
— Não vou ficar especulando. Minha esposa não está aqui.
— Meu marido está. — Ela não pretendia dizer tal coisa.
— Sei disso.
Ambos estavam zangados agora.
— Somos um belo par de amantes — replicou Naomi. — Você se
sente culpado por causa do meu marido, e eu, por causa de sua
esposa.
Ele sacudiu-a de leve.
— Deseja realmente que isso nunca tivesse acontecido, que não
estivéssemos aqui juntos? Bem, eu não. Você é tudo o que me resta.
— Beijou-a como se fosse a primeira vez. Mas como podia ela ser
tudo o que lhe restava? Josh amava Rachel, ela sabia disso; amava
os filhos também. Continuaria sentindo-se assim a seu respeito
quando visse o bebê? O medo de perdê-lo a dominou. Não, não

podia desejar que isso nunca tivesse acontecido com os dois, estava
feliz por estarem ali juntos. Permitiu que ele a puxasse para mais
perto de si.
Quando o deixou, Naomi ainda estava inquieta quanto ao
relacionamento dos dois, mas não sabia muito bem o motivo. Isso
era algo sobre o qual teria de refletir durante a ausência de Joshua.
Arnold levou o irmão até o Aeroporto de La Guardia para a viagem
de vinte horas até Tel Aviv.

— Já perdi a conta do número de aviões em que coloquei você —
observou enquanto o chofer manobrava o Rolls Royce. Não houve
resposta. Não esperava receber nenhuma.
Houve ocasiões em que ficou feliz com a partida do irmão. Joshua
era o herói da família, e ele era o seu banqueiro. Isso os mantinha
separados. O rei guerreiro e o trabalhador. Antes se ressentira disso,
antes também o invejara por sua autoconfiança, seu charme — e
Naomi. Agora não o invejava por nada — exceto, muito vagamente,
pelo segundo filho. Sua Julie representava mais para ele do que dez
crianças, mas um filho teria lhe agradado.
Joshua veria Elea pela primeira vez. Decerto, a essa altura, já havia
abandonado as irracionais objeções a esse bebê. Ele nunca falava
muito sobre a família. Era difícil descobrir o que pensava sobre
qualquer coisa que não fosse política.
O carro dobrou na rampa de desembarque. Joshua nunca deixava
que o irmão esperasse no terminal, mas Arnold saiu do carro,
quando este parou, e abriu o porta-malas.

— Tome. — Arnold entregou-lhe um pacote. — Presentes para
Rachel e todas as crianças. Avise-me se precisarem de algo. Se não
avisar, Sarah o fará.
Joshua assentiu com um breve gesto de cabeça, apertou a mão do
irmão e pegou a valise.
— Obrigado, Arnold, por tudo.

Desapareceu no terminal apinhado de gente, e Arnold entrou no
carro, contente por estar a caminho de casa.
Em geral, Arnold aproveitava esses minutos do percurso para
separar alguns projetos de trabalho. Era surpreendente a rapidez
com que os mercados estavam voltando ao normal, após a guerra.
Negócios eram muito mais estáveis do que a política. Os negócios
diziam respeito apenas ao dinheiro, ao passo que a política envolvia
poder e falsos protestos de amizade segundo os interesses de muitas
pessoas, muito embora sua meta última também fosse a riqueza.
Arnold continuava expandindo a Duquesa, colecionando
companhias que produziam produtos farmacêuticos — e alimentos
infantis. As pessoas sempre precisariam de remédios, e a primeira
onda de bebês pós-guerra já havia chegado. Em quinze anos, após
Arnold alimentá-las. as meninas estariam comprando seus
cosméticos.
Entretanto, nessa noite ele estava contando riquezas de um tipo
diferente. Seu lugar nos negócios e na hierarquia social, sua bela
casa, sua filha. E sua esposa, principalmente sua esposa. Ele sempre
deixava o melhor para o fim. Ela estava bela como sempre; ainda
mais, com uma nova espécie de maturidade.
Agora Naomi tinha idéias muito definidas sobre inúmeras coisas,
inclusive Julie, mas a autoconfiança a tornara uma mulher ainda
mais sedutora. Havia algo nela que o estimulava mais do que
nunca, muito embora ela ainda fosse sexualmente passiva. Podia
sentir em Naomi uma certa reminiscência daquela inesquecível
semana em que Julie foi concebida. Isso o deixava tão excitado que,
às vezes, queria levá-la para a cama sem esperar até a noite e a hora
de deitar e fazer com ela todos os tipos de amor apaixonado que
experimentava com Annalise, mas que nunca havia tentado com a
esposa. Contudo, não se arriscaria a ofendê-la — e isso não era algo
que um homem pudesse fazer, após vinte anos de casamento.
Ficou embaraçado ao se descobrir completamente excitado com a
simples idéia de como a tocaria nessa noite. De repente imaginou se


Joshua estaria pensando o mesmo sobre Rachel. Mas a vida sexual
de Joshua não era assunto seu. Desviou os pensamentos para a
Duquesa.
Joshua tinha localizado dois homens do Haganah no avião, mas não
estava com vontade de conversar e conseguiu sentar-se junto de
pessoas estranhas.
Sempre se esquecia de Nova York no momento em que partia para a
Palestina, onde pertencia, onde era quase insu portável para ele
viver, agora que tudo já o amarrava ao passado, o ligava
impiedosamente ao que não devia esquecer, mesmo se pudesse.
E agora um filho chamado Lazar. Seria sua essa criança?
A dureza da observação de Naomi naquela noite — "Ela não fez o
bebê sozinha. A criança é tão sua quanto dela" — apertara um botão
em alguma parte dentro dele e o fizera lembrar que nem uma única
vez havia perdido o controle na

cama com Rachel, o fizera imaginar por que ela tinha chorado na
noite anterior à sua viagem, Rachel, que nunca chorava. Mas,
naquela noite, ela se agarrara a ele como uma criança, dizendo que

o amava. Os dois nunca precisaram de palavras para dizer tal coisa
um ao outro. Isso estava em seus olhos, em um simples toque de
mãos, nas horas de vida compartilhada, não apenas nas horas do
amor físico.
Ou será que Rachel estava lhe pedindo para dizer que ainda a
amava? Ele tentara, Deus, como tentara! Mas não conseguira vencer
o medo de sentir qualquer coisa, receando sentir demais. A única
emoção familiar — e segura — para ele agora era a fúria, e,
ultimamente, mal conseguia controlá-la. Não podia culpar Rachel
por querer uma confirmação de amor do homem em que se
transformara.
E não lhe dera essa confirmação. Será que Rachel a encontrara com
Ben? Ele era o único homem para quem sua esposa se voltaria,
estava seguro disso. Seria filho de Ben ou seu? Rachel lhe contaria
ou — não conseguia suportar isso, não conseguia — iria trocá-lo por

Ben? Em um casamento como o dos dois, feito mais de distância do
que de proximidade, não precisava de muita coisa para que ela o
abandonasse. Mas não podia imaginar a vida sem Rachel. Ela era
parte de tudo o que construíra para si próprio.
E só podia esquecer parte do presente com Naomi. Até mesmo
Naomi parecia menos disposta a viver com ele no eterno reino do
faz-de-conta. Ela não era mais uma romântica incurável, mas uma
mulher perspicaz que começava a questionar o que ele sabia ser
incapaz de enfrentar.
"Um belo par de amantes", dissera Naomi, que se sentiam culpados
não pelos próprios cônjuges, mas pelos companheiros um do outro.
Rachel tinha direito a isso, não importava o que quisesse. Era o seu
corpo, afinal de contas. E ele se lembrava desse corpo, e dela, com
um ciúme diferente do que experimentara nos primeiros anos do
casamento de Naomi com Arnold. Aquela fora uma ânsia
melancólica, esta era uma dor lancinante.
Não tinha direito a nenhum dos dois sentimentos. Não tinha direito
a qualquer sentimento que fosse. Descansou a cabeça no encosto da
poltrona e acomodou-se para uma longa viagem. Tomara que Isaac
tenha recebido a mensagem. NaoisP estava certa. Do jeito que a
situação estava agora na PA lestina. . .

Capítulo 34

GIORA — dezembro de 1947

Isaac estava esperando por Rachel, quando ela veio da fazenda
usando um avental manchado de leite sobre um pesado suéter e
carregando Elea em uma cesta.


— Ele está quase do tamanho da cesta. — O Doutor sorriu
estendendo um dedo para o bebê agarrar. — Está mais do que na
hora de Joshua conhecer o filho. Rachel ergueu os olhos
rapidamente.
— Recebeu alguma notícia?
— Ele está a caminho, Ari acabou de avisar pelo rádio. Pediu para
dizer a você e Benjamin que ele chegará daqui três dias, quatro no
máximo.
Ela fechou os olhos.
— Graças a Deus — sussurrou. — Espero que esteja melhor.
— Josh não escreveu?
— É lógico, mas não dá para perceber nada pelas cartas O rosto de
Isaac estava muito sério.
— O que ele falou sobre Elea? Rachel suspirou.
— As coisas certas, mas seu coração não está nas palavras. Ele
simplesmente não queria outro bebê. — Rache virou-se. — Preciso
entrar para amamentar o bebê. Avise-me se tiver mais alguma
notícia.
Isaac ajudou a carregar o bebê até a porta do quarto Assim que
entrou, Rachel despiu o bebê, retirou uma parte das próprias roupas
para expor o seio e sentou-se para alimentá-lo.
— Talvez quando Josh vir você — disse a Elea. Ele era um bebê
alegre, sem a serenidade que sempre caracterizou
Benjamin. Elea tinha os seus olhos, não os de Joshua, e a fina
penugem que cobria a cabecinha adorável era castanho-escura. Às
vezes, quando pegava no filho durante o banho, achava que ele era
mais robusto do que Benjamin. Ela e Joshua tinham altura acima da
média, mas não eram encorpados. E, às vezes, havia uma expressão
naquele rosto. . . mas não havia semelhança nenhuma com
ninguém. Assim que Joshua voltasse, ela se esqueceria de tudo.
Ben vira o bebê uma vez. Uma única vez.



Estava tão quieto naquela noite, um silêncio sinistro. Os britânicos
agora estavam na Palestina só para constar; não protegiam e nem
puniam ninguém. Os árabes também estavam lá, com a clara
intenção de eliminar todo judeu que pudessem.
Rachel se encontrava dentro do quarto, quando as vozes rasgaram a
escuridão lá fora. Apagou a luz e pegou o rifle de repetição embaixo
da cama. Benjamin dormia na casa das crianças. Elea continuou
imóvel no berço de madeira, um presente de Sarah. Ela afastou a
cortina e espiou pela janela, na expectativa. Quase pôde ouvir o
suspiro de alívio coletivo, quando a sentinela da torre gritou "Ha'kol
b'seder" — "Está tudo bem" — e as luzes piscaram e acenderam de
novo.
Ouviu passos se aproximando e a voz de Isaac, mais furiosa do que
nunca.

— Seu maldito idiota, entrando dessa maneira. Podia ter levado um
tiro. Se aquela sentinela soubesse que você é do Irgun, talvez o
tivesse varado de balas de qualquer maneira.
— Eu precisava ver Rachel — soou a voz de Ben, tensa e malhumorada.
Ela podia ver duas silhuetas quase indistintas do lado de
fora da janela.
— Eu teria levado Rachel até lá, imbecil!
— É perigoso demais para ela se afastar de Giora — retrucou Ben
com impaciência. — Quero vê-la a sós, Isaac.
— É doido mesmo. Bem, vá em frente. Vocês dois são maiores de
idade. Aguardo você no final do caminho.
Os passos de Isaac recuaram, e Rachel abriu a porta. Ben fechou-a
em silêncio, enquanto ela acendia a lâmpada. Rachel ficou
boquiaberta ao vê-lo. O rosto, as roupas e o cabelo estavai cobertos
de lama. Ben carregava uma metralhadora. Havis uma pistola no
coldre preso ao quadril e cartucheiras penduradas a tiracolo.
— Eu devia ter trocado de roupa, mas não houve tempo Não me
olhe dessa maneira, Rachel. — Ele sorriu, o doce sorriso de Ben. —
Sou apenas um terrorista, não o diabo.

Rachel aproximou-se dele então.

— Você está bem? Parece tão magro! Quer beber alguma coisa? Só
tenho vinho aqui.
— Onde ele está? — Ben perguntou.
Ela pegou sua mão e o levou até o berço. Trouxe o lampião para que
ele pudesse ver melhor o bebê adormecido. O rostinho de Elea
estava quase oculto. Dormia de bruços, com a cabeça imprensada
no lado do berço, acolchoado com cobertores velhos para sua
proteção.
Após muitos minutos, Ben ergueu os olhos.
— Se eu tirar a jaqueta e lavar as mãos, posso segurá-lo? Rachel
concordou com a cabeça, pondo uma bacia d'água
sobre a cômoda. Pegou o bebê e esperou até Ben secar o rosto e os
braços, depois lhe entregou a criança. Ele aninhou-a junto ao rosto, e
ela desviou os olhos. O momento era íntimo demais para que
qualquer pessoa o presenciasse, até mesmo ela.
Ben lhe perguntaria, sabia que perguntaria. De que adiantava contar
a verdade, que honestamente não sabia? Isso só iria perturbá-lo e,
pela sua aparência, ele já estava vivendo à custa da própria
coragem. Quanto tempo Ben duraria, vivendo à beira do abismo a
cada minuto? Melhor dizer que estava segurando o filho de Joshua
e pôr um fim nisso.
— Rachel, ele é maravilhoso!
Sua voz estava repleta de admiração, como se tivesse visto algo de
inevitável esplendor. Como podia tirar isso de Ben, de um homem
que não tinha nada na vida além de armas, sangue e morte — e seu
amor por ela?
Não é minha culpa, gritou para Ben em pensamento. Você podia ter se
casado, podia ter desposado qualquer mulher que quisesse, tão amoroso,
bom e doce que é. Por que tinha de se apaixonar por mim?
— É meu?

Meu. O modo como todos pronunciavam essa palavra. Por que
significava tanto possuir uma coisa, uma pessoa, um pedaço de
terra? O mundo estava engasgado com suas posses.
Deixe-me só, quase lhe pediu. Deixe-me só com esta criança que não é
sua, não ê de Joshua, nem mesmo é minha tanto quanto é de Laxar.

— Você prometeu, Rachel. Nunca vou incomodá-la. Juro. Só preciso
saber.
Rachel cobriu os olhos com a mão.
— Sim, Ben, é seu.
O que mais podia lhe dar, a este tão querido amigo, senão um
insignificante fragmento de alegria? Ele manteria a palavra. Um
homem honrado, o Janota.
— Eu sabia — falou quando Rachel virou-se para ele. Ben estava de
novo com o bebê junto ao rosto. — Estou feliz que tenha lhe dado o
nome de Lazar. — Inclinou-se e devolveu Elea ao berço, de bruços,
não muito perto do lado acolchoado, como se soubesse que ele logo
se arrastaria para lá. Tirou do pescoço uma corrente de ouro com
um chai hebreu pendurado, o símbolo que significava "vida".
— Guarde isto até eu voltar. Quando ele fizer treze anos, eu mesmo
lhe darei.
Estava abotoando a jaqueta, amarrando o cinturão com o coldre,
apanhando as cartueheiras.
Aceitou o copo de vinho que ela lhe ofereceu e bebeu de um gole só.
— Se precisar de mim, avise Isaac. E seja cuidadosa. De agora em
diante, isso aqui vai ficar mais perigoso ainda. — Beijou-a na face,
segurando-a a distância da jaqueta suja. — Preciso ir agora. — Foi
para a porta. — Obrigado, Rachel — sussurrou sobre o ombro. —
Obrigado por meu filho. Amo você. — Depois se foi.
Rachel ficou lá parada por longo tempo, antes de recolocar o
lampião sobre a cômoda; depois apagou a luz e deitou-se na cama,
segurando a corrente e o chai que Ben lhe dera.

Agora Rachel pousou o bebê no berço e mirou-se no espelho. Tinha
de fazer algo com o cabelo. Queria estar bonita para Joshua.
Somente ele podia fazer alguma coisa por seu olhar aflito.

Capítulo 35

TEL AVIV — dezembro de 1947

Ari foi andando na frente até um velho e amassado Austin,
estacionado perto do aeroporto.

— Você não tem cara de rabino — observou, falando com o charuto
na boca. — Onde estão o chapéu, os cachos, a barba?
— Roupa preta já é o suficiente para a América — respondeu
Joshua. Jogou o paletó do terno de lã no banco traseiro, junto com a
capa de chuva e a bagagem. O sol estava escaldante, e a brisa,
fresca. Era um típico dia de dezembro no Mediterrâneo.
— E então? — indagou Joshua, quando o carro estava em
movimento.
— Como sempre. Os britânicos nos odeiam. Nós odiamos os
britânicos. Os árabes odeiam todo o mundo. É a repetição do Éden.
— E o Irgun?
— O que posso lhe dizer? Às vezes agimos juntos, às vezes não.
Explodir hotéis não é a nossa linha de ação. — Deu de ombros. — Se
o Irgun fosse francês, seria chamado de Resistência. Na Iugoslávia,
seus membros seriam partisans. Ninguém sabe o que pensar de um
judeu que luta. Todos esperam que eles vivam em silêncio e
morram sem causar confusão.
— Temos uma chance contra os árabes, quando os britânicos
partirem?

— Respondo isso em maio. — Ari apertou a buzina do carro, que
guinchou como um soprano em fim de carreira, quando
atravessaram um cruzamento com má visibilidade. Ele sorriu. — Se
vivermos até lá.
Estacionaram o carro a alguns quarteirões de distância da Rua
Hayarkron e caminharam em direção à casa vermelha. Joshua
recusou um dos charutos de Ari:
— Você é quem devia distribuir charutos — disse Ari. — Um bebê e
tanto, o seu.
Joshua olhou para ele, curioso para ouvir mais.


— Estivemos lá quando o bebê tinha umas seis semanas -continuou
Ari. — Fizemos uma pequena festa para sua esposa. Sua irmã
também estava lá. Veio de Yard Mordechai. Bela mulher. Seu filho
mais velho está quase da sua altura. Consegue farejar no escuro
como um gato, é o que me contam, do jeito que Wingate nos
ensinou. Ficarão felizes por você estar em casa no Natal...
Joshua sorriu.
— Hanukkah.
Ari encolheu os ombros.

— Neste país, que diferença faz? Temos três sabbaths: os
muçulmanos fecham na sexta, os judeus no sábado, e os cristãos, no
domingo. Páscoa dos cristãos, Páscoa dos judeus, tudo misturado.
Mas é o Natal que atrai mais turistas. Explique-me isso, Rabino. Um
judeu nasce em um estábulo, e durante dois mil anos o mundo
inteiro faz um bris. Onde é que está escrito no Novo Testamento
sobre a sua circuncisão?
Joshua riu abertamente dessa vez.
— Não creio que esteja. Não sabia que você se preocupava com
assuntos de religião, Ari.
Saíram da rua e entraram na casa vermelha, sempre a primeira
parada para os membros do Haganah que chegavam do exterior.
Havia homens trabalhando em quase todas as salas no andar térreo,
examinando papéis, mapas, instruções de montagem das máquinas

a serem contrabandeadas. Se uma patrulha britânica aparecesse,
Bíblias substituiriam os documentos, e os homens cantariam em
hebreu.
Ari e Joshua subiram a escada para a sala do rádio, onde o grego
com cara de tuberculoso — seu nome era Andrea — que conduzira
a reunião há meses, acenou com uma das mãos e continuou
decifrando uma mensagem que acabava de chegar. Um
radioamador licenciado em Nova York transmitia em holandês os
prefixos das estações transmissoras e recebia resposta de Tel Aviv
em grego. Isso confundia as autoridades americanas, que
cooperavam com a polícia britânica, apesar da imensa popularidade
que a partilha tinha nos Estados Unidos ou da evidente necessidade
de os judeus se defenderem.

Andrea, ainda magro, porém, com um bronzeado que lhe conferia
um ar mais saudável, socou a mesa, ao concluir a decifração da
mensagem.

— Os miseráveis! — bufou. — Fecharam a porta para nós.
Ari e Joshua esperaram até que ele se acalmasse. Alguns homens
vieram das salas adjacentes e juntaram-se na soleira da porta.
— Um embargo — finalmente Andrea conseguiu explicar. — Os
Estados Unidos embargaram todas as vendas de armas para o
Oriente Médio. Podem acreditar nisso? Uma semana depois da
partilha!
— Isso também inclui os árabes, além de nós — um dos homens
argumentou.
— Os árabes já têm todo o equipamento de que necessitam —
Joshua contou-lhe. — E nenhum exército britânico os está vigiando
para que não consigam mais.
— Que vão todos para o inferno, os filhos da puta — esbravejou
Ari. — Vamos fabricar por nossa conta.
Andrea assentiu com a cabeça sem convicção e tornou a sentar-se à
mesa.

— Os britânicos podem ser o que for, mas a verdade é que são bons
soldados. E treinaram aquela legião árabe acampada na outra
margem do Jordão.
— Besteira — retrucou Ari. — Eles nos treinaram também. Os
árabes são apenas homens, Andrea. A única diferença entre judeus
e árabes é que eles têm cinco países. Nós apenas um. — Olhou de
relance para Joshua. Ele precisaria regressar mais depressa do que
planejava. Se o embargo tivesse acontecido há dois dias, era bem
possível que nem tivesse voltado.
Andrea tornou a concordar com a cabeça.
— Sentem-se. Temos muito o que conversar.
Estava escuro quando a reunião terminou. Ari entregou a Joshua as
chaves do Austin.
Pegue, você irá demorar muito pouco tempo por lá. Mas não
atravesse o país sozinho à noite.
— Não se preocupe. Vou ficar com minha irmã e ir para casa
amanhã.
Marcaram uma hora para o próximo encontro, e Joshua partiu,
deixando o homem atarracado de pé na calçada da rua silenciosa.
Atravessou Tel Aviv e rumou para o sul, pela estrada costeira que ia
para Ashkelon. Yad Mordechai ficava depois de Ashkelon, bem
perto da Faixa de Gaza. Certamente, este seria um dos primeiros
alvos egípcios.
Então uma compreensão súbita o atingiu: a estrada em que seguia
era uma estrada judia em um Estado judeu. Algo pelo qual ansiava
desde a mais tenra infância era realidade agora. Nunca imaginou
que viveria o bastante para ver isso pessoalmente, só que
trabalharia para a realização do sonho. Se ao menos Lazar. . . . mas
Lazar sempre teve certeza de que aconteceria.
Estava tão cansado que só pôde fazer uma leve refeição com Sarah e
os sobrinhos, antes de cair na cama. Sarah o acordou ao nascer do
dia.



— Você está com uma cara horrível — declarou, quando o irmão, já
lavado e barbeado, bebia chá forte com ela. — Algo errado?
— Não, mas temos um trabalho duro pela frente.
— Sempre temos, de um jeito ou de outro.
— Acho que você e as crianças deviam sair daqui. Sabe que este
lugar será o primeiro a ser atacado.
Sarah serviu mais chá.
— Se puder convencer as crianças, poderá convencer a mim —
replicou. Mas sabia que Seth e Rebekah nunca abandonariam este
lugar. A maioria dos colonos tinha vindo da Polônia, alguns sendo
fugitivos do gueto de Varsóvia. Para eles, isso era uma ligação com
Lazar.
— Então prometa que sairá antes que os egípcios a peguem, Shai.
Ela prometeu. Joshua pediu mais chá, porém Sarah balançou a
cabeça.
— Você precisa ir para casa mais cedo ou mais tarde. Não adianta
fingir comigo, Joshua. Sou sua irmã, lembra-se? Conheço você
muito bem.
Ele se virou na cadeira.
— Sarah, não se meta.
— E o que acha que devo fazer? Ficar aqui sentada e ver você
arruinar tudo?
— Se é o que estou fazendo, sim. — Levantou-se da mesa. — É a
minha vida.
— Não é mais — ela retrucou, em um de seus terríveis acessos de
raiva. — Há Rachel, Benjamin e o bebê. Ele está aqui, quer você
queira ou não.
As mãos de Joshua estavam cerradas.
— Rachel lhe contou?
— Não precisava me contar, do jeito que você está.
— Como estou? — indagou Joshua, tentando controlar a voz.

— Merda — Sarah gritou, o rosto afogueado de raiva. — Quando
foi que brigamos antes? — Baixou a voz. — Não sei o que aconteceu
lá, Josh. Mas, seja o que for, você está vivo. Vivo, seu bobalhão! —
Inclinou-se sobre a mesa e tomou as mãos do irmão nas suas. —
Não pode trazer Lazar de volta desse modo. Não pode trazer
nenhum deles de volta.
Ele quase lhe disse, então. Sarah era a única pessoa a quem podia
contar, porque ela nunca julgava ninguém. Mas Sarah era a esposa
de Lazar. Retirou as mãos, ainda se controlando.
— Preciso ir.
— Então vá! — Estava furiosa de novo. — Não castigue Rachel por
ter seu filho!
— Suponha que não seja meu? — Finalmente tinha dito.
— E daí se não for? Você é o último dos homens no mundo com
direito de exigir fidelidade de uma mulher. — Parou. Havia
respondido a Joshua movida pela raiva, não pelo que sabia. Não
queria falar demais.
Ele não tinha meios de saber se Sarah referia-se a Naomi ou aos
casos passageiros do passado. Não existia muita coisa que Sarah
não percebesse. De qualquer maneira...
— Tem razão — concordou suavemente.
— E você está louco em dizer tal coisa. — A raiva de Sarah também
se evaporara. — Droga. — Sentou-se e acendeu um cigarro. —
Discussões são uma merda mesmo. — Ergueu os olhos para Joshua,
a irmãzinha que ele tanto amava.
Joshua sentou-se e passou um braço em volta da irmã.


— Está certo, Shai, nada mais de discussão.
Sarah recostou a cabeça em seu ombro, e os dois ficaram quietos, tal
como costumavam fazer há tanto tempo.
— Preciso ir — disse Joshua, afinal. Ela o acompanhou até o Austin.
— Vejo você no sábado. Nós três vamos passar o fim de semana em
Giora. — Abaixou-se e o fitou pela janela aberta do carro. — Você
está bem?

— Estou ótimo — ele respondeu, sorrindo para Sarah.
— Tem uma arma?
Joshua abriu o porta-luvas para lhe mostrar.
— Coloque no banco ao lado e aponte para qualquer pessoa que
tentar detê-lo.
— E se for um judeu?
— Nem sempre é fácil distinguir um judeu de um árabe. Apenas
não se arrisque.
Ele podia vê-la acenando pelo espelho retrovisor, à medida que o
carro sacolejava pela estrada esburacada. O fato de revelar à irmã
sua suspeita fez com que tudo parecesse ridículo. Engatou a
primeira e rumou para Haifa, ao norte. De lá, atravessou a Galileia
para o Lago Kinneret e depois viajaria para o sul, até Giora. A rota
mais direta seria na direção nordeste, em várias etapas: a oeste até
Hebron, ao norte até Jerusalém, a oeste até Jericó e ao norte, ao
longo do Jordão. Mas essa região estava infestada de árabes hostis e
britânicos curiosos. O caminho indireto era mais seguro — e ele
queria ver esse novo Estado de Israel a caminho de Giora. A essa
altura, a pequena cabana de dois cômodos em Giora já devia estar
quase pronta. Estava ansioso para conhecê-la também.
LIVRO CINCO

Capítulo 36

NOVA YORK — setembro de 1950

Julie sorriu alegremente e seguiu o pai através da fábrica de Long
Island, esperando não tomar a desapontá-lo. Dessa vez, iria
concentrar-se de verdade em todas as suas explicações sobre o novo
equipamento, os novos métodos para a mistura das camadas nos


perfumes e a economia de tudo isso. Dessa vez, não começaria a
sonhar com a romântica história do ramo de negócios do pai: a
primeira grande dama a perfumar as luvas com castóreo; como o
Rei Sol amava as fragrâncias a ponto de ir sempre a seu pavilhão
florido respirar os deliciosos aromas, nos intervalos dos encontros
com os ministros ou as amantes; como Madame Pompadour usava
um perfume diferente a cada dia e desenhava pintas ao longo do
corpo, de modo que o Rei Luís XV pudesse caçá-las na cama com
imenso prazer.
Julie corou. Estava fazendo isso de novo. Prestou atenção ao pai.

— Ah! — o pai falava orgulhoso. — Impressionante, não é?
— Oh, sim sussurrou Julie, erguendo os olhos para
a fileira de cubas de aço inoxidável que avultavam sobre suas
cabeças como monstros. —-Mas como se limpam esses tanques?
Arnold apontou.
— Aquele macaco hidráulico levanta um homem na altura
suficiente para esfregá-los com uma escova de cabo comprido.
Quando ela era criança, a fábrica a assustava com sua atmosfera
anti-séptica, com os tubos borbulhantes e as máquinas imensas.
Agora, aos quinze, a impossibilidade de dominar a complexidade
da fabricação de perfumes e cosméticos a assustava ainda mais do
que as máquinas. Sua cabeça começou a doer, enquanto procurava
uma pergunta inteligente para fazer.
— Quanto comportam? — foi tudo em que conseguiu pensar.
— Dez mil galões. Nestas cubas, podemos produzir em massa
nossos artigos mais vendáveis.
— E quanto mais se fabricar de uma só vez — acrescentou Julie,
repetindo o que o ouvira dizer tantas vezes menores serão os custos
e maior a margem de lucro. Arnold sorriu em sinal de aprovação.
— Absolutamente certo. — Envolveu a filha com u dos braços. —
Ainda vamos transformar você em uma mulher de negócios, igual à
sua tia Sarah.

Julie disfarçou a familiar sensação de vazio com outro sorriso
luminoso. Tinha pleno conhecimento de que jamais conseguiria
administrar o gigantesco império do pai, nem me mo um cantinho
dele. Pior ainda, sabia que não queria isso. Antes de mais nada, não
era nem um pouco parecida com Sarah. Ela era uma mulher
notável, que havia ajudado kibbutz a conter o avanço das tropas
egípcias durante seis dias vitais, na guerra da Independência de
Israel. Os primos Seth e Rebekah ajudaram a mãe — e Julie também
não se parecia em nada com os dois. Eles preferiram permanecer lá
e reconstruir Yad Mordechai de suas ruínas quando a guerra
terminou ao invés de aproveitarem a vida aqui nos Estados Unido
Eles estavam sempre fazendo coisas espetaculares. Julie sabia que
nunca faria nada de espetacular.
Ela era uma sonhadora. O pai vivia comentando isso Gostava de
livros e música, poesias e peças de teatro, principalmente cinema —
tudo que tocasse sua imaginação e fizesse voar. O pai não tinha
paciência com sonhadores, e sua aprovação era o que Julie mais
ansiava obter. Sabia que podia contar com a da mãe. Esperava que
ela não demorasse a chegar. Naomi sempre conseguia abrandar as
expectativas de Arnold sobre o futuro de Julie na Duquesa.
Os dois prosseguiram na visita à fábrica, onde os departamentos
eram chefiados por supervisores de guarda-pó cinza Mulheres em
avental cor-de-rosa certificavam-se de que o potes de creme
deliciosamente perfumados estavam adequada mente fechados, e
embaladores de avental verde enfileirava! os potes em elegantes
caixas marcadas com o emblema da Duquesa, aprontando-as para o
embarque.

— Sabe — disse Arnold, quando estavam no corredor que separava
as duas alas do prédio —, Shai tinha a sua idade quando
preparamos a primeira leva de creme facial, a partir de uma receita
de sua avó. — Balançou a cabeça. — É difícil acreditar que foi há
tanto tempo.

— Ela virá logo? — Tia Sarah era a favorita de Julie, depois da mãe.
Nem mesmo o fato de precisar estar à altura dela, uma tarefa inútil,
alterava o amor de Julie por Sarah, a solidão que com ela
compartilhava pela perda do tio, tão parecido com o príncipe louro
das histórias que ele mesmo costumava lhe contar quando era
pequena.
Arnold encolheu os ombros.
— Vivo lhe dizendo que temos alguns problemas para discutir. E
Sarah vive me dizendo que está ocupada demais para dar uma
fugida até aqui. Ocupada. Em uma fazenda! — Abriu uma porta de
segurança, e os dois seguiram ao longo de um corredor nu e
cintilante.
— Que problemas, papai? Você disse na noite passada que a
indústria de cosméticos está em plena expansão, mesmo sem todas
aquelas outras coisas que a companhia possui.
— Subsidiárias — ele a corrigiu. — Use o termo correto. Nosso
principal problema é a competição. Precisamos nos manter à frente
de nossos competidores. Conseguimos uma boa dianteira com
nosso perfume, mas não se pode contar apenas com uma única
jogada que deu certo. Agora a Arden abriu um salão para homens.
Acho que vai fracassar, mas, no mínimo, devíamos ter pensado
nisso. Sarah sempre tinha boas idéias. — Seu rosto mudou para
uma expressão de aborrecimento. — E a Revlon surge do nada e
enche o país com essa chamada de "Onde Está o Fogo?" É uma
propaganda barata, sensacional, e lucrativa. Não temos nada que se
compare a isso.
Arnold abriu outro par de portas e entrou na divisão de perfumes
da Duquesa, com Julie logo atrás. Aqui ainda se preparava uma
única fragrância, que continuava liderando as vendas. Desde a
guerra, o produto era anunciado como um perfume americano e
aceito como tal. Mas agora não havia mais guerra. Existia muito
dinheiro lá fora a ser gasto, e Arnold estava convencido de que a
situação seguiria o antigo padrão: tudo que fosse francês — vinho,

alta costura, perfumes ou amor — seria considerado superior. A

Duquesa precisava de outra fragrância engarrafada na França.
O aroma intenso da Duquesa pairava no ar, mas isso era
reconfortante para Julie. Fazia com que se lembrasse da mãe, que
usava exclusivamente esse perfume desde o nascimento da filha.
— Gostaria que Einhorn prosseguisse com o novo perfume —
reclamou Arnold. — Ele é tão teimoso! Adora brincar com "odores"
para nossos produtos domésticos. O homem que criou a Duquesa se
preocupando com pasta de dentes e spray! Que desperdício!
Julie olhou ao redor em busca de Otto Einhorn, o sujeito engraçado
e desarrumado, a quem o pai permitia quebrar tantas regras. Ela
ainda o chamava de tio Otto porque ele apreciava isso. Einhorn não
tinha família. Pelo que as pessoas diziam, não podia ter, já que fora
ferido na guerra. Isso havia intrigado Julie, até que a mãe lhe
explicara tudo. A princípio, Julie ficava embaraçada sempre que
estava perto de tio Otto, mas agora só sentia tristeza por ele. Achava
que sua lesão significava um desperdício maior do que quaisquer
experiências com odores de pasta de dente. De repente percebeu
que acabava de dizer isso ao pai.
Arnold ficou chocado.

— Uma adolescente não devia saber dessas coisas e muito menos
ter opinião sobre elas. Quem lhe contou?
— Mamãe — respondeu Julie, furiosa consigo mesma. Agora ele
estava zangado, e isso estragaria toda a noite.
Arnold fez um som de reprovação, mas nunca criticava nada que
Naomi fizesse ou dissesse. Demonstrava sua desaprovação por
meio de indiretas, e Naomi aguardava até que ele tivesse feito
comentários suficientes para aliviar seu aborrecimento, antes de
anular todas as objeções com algum comentário gentil. A mãe tinha
uma habilidade especial para lidar com o marido que Julie desejava
muito imitar, mas não conseguia. Sempre ficava nervosa quando o
pai se irritava. Tal coisa nunca ocorria com a mãe.

Ela o viu cheirar nervosamente os bastões de teste para os atares e
fragrâncias que sempre carregava no bolso do paletó. Tia Sarah
dizia que sempre era possível descobrir o estado de espírito de
Arnold por seus bastões de testes.
"Se ele cheirar mais de dois, cuidado!"

E Arnold já cheirava o quarto, enquanto seguia na frente, em
direção à longa fila de salas ocupadas pela equipe de especialistas
em essências, que a Duquesa empregava para criar os aromas certos
para cosméticos, loções, desodorantes, xampus, sprays domésticos,
lustradores de móveis, detergentes. A lista era infindável.
A ala dos perfumes estava abastecida com todo o tipo de fragrâncias
existentes no mundo. Flores — jasmim, rosa, flor de laranjeira,
violetas, gerânio. Ervas — lavanda, hortelã, patchouli. Especiarias —
cravo, canela, noz-moscada. Sândalo das índias Orientais. Gramas,
raízes e musgos, limão, lirio-florentino e carvalho.
E havia as essências animais usadas para "fixar" as fragrâncias,
assim que eram misturadas. Almíscar do veado-asiá-tico, que era
atraído à clareira pelas flautas dos caçadores e morto assim que
aparecia, para dele se extrair o precioso saco de almíscar. Âmbargris,
um derivado de uma doença do cachalote, com cheiro horrível
em sua massa natural, porém precioso em quantidades diminutas e
refinadas, para acentuar um perfume ou fazê-lo durar mais tempo
na pele. Algalia do almiscareiro, o melhor fixador para as essências
florais.
Havia milhares de frascos de essências naturais e sintéticas. Dentre
estas, um especialista selecionava algumas: aromas fortes para as
notas básicas, gradualmente mais leves para as notas médias e altas,
e um fixador. O especialista entrava em uma cabine hermeticamente
fechada, de onde todo o ar fora bombeado e substituído por outro
puro e sem nenhum odor, e ali "compunha" uma fragrância.


Isso sempre surpreendera Arnold. "Eles podem reconhecer tantos
aromas! Estou sempre tentando, mas só consigo localizar um de vez
em quando. É exatamente como aqueles que possuem um ouvido
absoluto."
Julie sabia que Einhorn podia identificar aromas naturais e de onde
provinham, como também, no caso das essências florais, era capaz
de especificar em que altitudes as flores foram cultivadas. Era o
melhor "nariz" na indústria e o •nais excêntrico.


Agora ele saía do seu escritório envidraçado, o cabeie grisalho
rebelde e desgrenhado, o guarda-pó branco amarrotado e coberto
de manchas de óleo.
Ele abraçou Julie, recendendo a cravo.


— Como está a minha princesinha? Arnold, a cada dia que passa ela
está mais parecida com a mãe. Só tem os seus olhos, verdes como
um lago na montanha. — Sorriu para ambos. — Logo ela vai se
casar e teremos um netinho.
Julie corou, rindo, mas Arnold não achou graça nenhuma.
— Otto, ela só tem quinze anos, ainda é uma criança.
— Sim, sim. Mas uma bela criança. Já deve ter um monte de rapazes
atrás dela.
Julie e o pai trocaram olhares. Julie não gostava dos meninos da sua
idade. Era muito mais feliz com livros do que os irmãos das colegas
de colégio, rapazes do curso preparatório. Arnold achava que ela
devia ir a uma festa de vez em quando, aprender a se misturar com
as pessoas. Uma mulher de negócios não podia ser tímida.
Ele a viu rir com Otto. Não, Julie não era mais uma criança. Estava
mais alta do que a mãe, e possuía a mesma tez rosada e fina, os
mesmos olhos imensos, o narizinho gracioso e os lábios cheios. Sua
figura era menos redonda do que a de Naomi nessa idade — os
olhos de Arnold notaram isso apenas de passagem —, mas tinha o
mesmo talento para escolher as roupas e cores que melhor lhe
assentavam.

Se a cor preferida de Naomi, quando jovem, era azul, a de Julie era
verde-claro. O vestido de tafetá, comprado durante a última viagem
de compras a Paris, era justo na cintura e, depois, se abria em ondas
sobre amplas anáguas. Julie estava linda nele. Os saltos altos a
tornavam mais alta do que era — e, sim, Arnold repetiu a si próprio
tomado pelo susto e pela surpresa, ela já não ê mais uma criança. Talvez
fosse melhor mesmo que Julie não gostasse de namorar.

— Vamos, Julie, deixe Otto voltar ao trabalho — disse
abruptamente. — Alguma novidade, Otto?
Einhorn balançou a cabeça, ainda sorrindo, a despeito da óbvia
impaciência de Arnold.
— Uma fragrância é como uma sinfonia. Ou um poema.
A mente precisa abrir suas portas e vagar para lá e para cá, até
encontrar as harmonias certas, a partir de infinitas possibilidades.
Paciência, meu caro Arnold. Julie o beijou e saiu com o pai.


— Que homem encantador ele é.
— Seria muito mais encantador se me preparasse um novo perfume.
— Arnold abriu as portas do escritório. — Sinfonias!
Naomi estava sentada na cadeira do marido, contemplando o
gramado macio que contornava a Duquesa, em Long Island.
— Você veio cedo — ele falou, sorrindo quando Naomi girou a
cadeira e levantou-se.
Ela o beijou e virou-se para Julie.
— O que achou da fábrica, querida?
— É maravilhosa! — Julie exclamou, esperando que o pai não se
lembrasse de que conhecia a infelicidade de Otto Einhorn.
— Ela está começando a se interessar de fato pelas coisas — Arnold
contou com ar de satisfação. Olhou para alguns papéis sobre a
mesa, depois para a esposa e a filha. Pigarreou. — Vocês estão
muito bonitas — falou. Naomi usava um conjunto de saia e casaco
de faille azul-marinho, com uma espuma de renda branca no
pescoço e nos punhos, e um chapeuzinho que cobria o topo da

cabeça, puxando o cabelo para trás suavemente. Às vezes Arnold
nem conseguia acreditar na sua boa sorte, quando fitava as duas.

— Você também — replicou Naomi. — Esta é uma grande ocasião,
afinal de contas. Nosso sobrinho está começando a escola aqui, e
Julie faz quinze anos. Será uma noite magnífica.
— Se Benjamin não aparecer de short e camisa de caçador —
observou Julie.
Naomi riu ante a expressão do rosto de Arnold.
— Arnold, Julie está brincando. Benjamin não é um selvagem.
Arnold tinha um ar de dúvida.
— Lá todos são selvagens.
— Eu adoraria viajar com ele nas férias de Natal — Julie arriscou,
esperançosa.
— Mas não pode. É como passar as férias em uma zona de guerra.
Só gente biruta como minha irmã vive em um lugar assim com os
filhos.
— Tio Josh não é biruta e mora lá com tia Rachel, Benjamin e Elea.
Arnold estava ocupado com os papéis.
— Pergunte a sua mãe se ela ficaria em um lugar desses,
quando você era apenas um bebê como Elea, tendo uma casa como
a nossa para onde vir.
Naomi balançou a cabeça.
— Não, Julie. Eu regressaria à América. Mas não sou Sarah ou
Rachel. . . — A frase pairou incompleta nos ouvidos de Arnold.
— E eu não sou Joshua — ele terminou por Naomi, porém com
calma. Já fizera um acordo de paz íntimo com o fato, há vários anos,
e estava convencido de que nada jamais tornaria a perturbá-lo. — É
melhor irmos ou nos atrasaremos para o avião de Benjamin.
Julie seguiu os pais até o carro, imaginando o quanto Benjamin
havia crescido. Ele viera à América com o pai algumas vezes, desde
o fim da guerra, e sempre se hospedava com eles. Tinha feito cursos
especiais para compensar os estudos perdidos durante a Guerra da
Independência de Israel. Não perdera muita coisa. Benjamin era um

gênio. Iria sair-se bem no curso preparatório e em Harvard, mas isso
era fácil para ele. O primo era brilhante — exatamente como o pai,
dizia tia Sarah.
Benjamin lembrava muito o pai, tal como este era no passado, de
acordo com as velhas fotografias que Julie vira, mas era mais aberto
e franco, muito menos reservado do que tio Josh. Julie não conhecia
tia Rachel e o primo Elea — ninguém conhecia — mas sabia tudo
sobre os dois pelas histórias que ouvira durante toda a vida.
Eles eram diferentes. Benjamin não se parecia em nada com os
rapazes americanos da sua idade. Ninguém jamais o chamara de
Ben ou Benjy. Ele era sério demais para ter um apelido. Era forte,
cheio de vitalidade e determinação. Seu pai era calado, retraído e
enérgico, totalmente preocupado com dinheiro. Visitava a América
com freqüência, porém mal o viam. Ele estava sempre viajando para
arrecadar fundos ou por algum outro negócio.
-Nossos pais têm uma coisa em comum — Julie havia dito a
Benjamin no verão anterior. — Dinheiro.

Benjamin concordara.

— Mas é só isso.
Embora ninguém tocasse nesse assunto, Julie sabia que Arnold
estava pagando os estudos de Benjamin. Esta era uma atitude
generosa, mas Julie achava que o pai tinha algum outro motivo. É
lógico que ele gostava de Benjamin. Todos gostavam. Julie sentia
mais do que uma paixonite pelo primo. Pensava que talvez os dois
pudessem se casar. Isso agradaria ao pai — se Benjamin
concordasse em permanecer nos Estados Unidos e ingressar na
Duquesa. Depois, ele teria netos com o nome de Fursten a quem
deixar seu império.
De uma coisa Julie estava certa: quando tio Josh aparecia, o pai o
recebia bem, mas a mãe ficava realmente feliz em vê-lo. À medida
que crescia, Julie percebia que os pais ainda faziam coisas na cama
— e esse pensamento lhe ocorria principalmente quando tio Josh

estava neste país. Não sabia por que era assim, mas essa impressão
era freqüente demais para que fosse apenas uma coincidência, e tal
coisa sempre a perturbava.

Era difícil imaginar os pais juntos em qualquer outra hora. Será que
os dois se viam completamente despidos, a bela mãe e o atraente e
assustador pai? Julie sabia tudo sobre sexo e bebês, mas todos os
livros do mundo não podiam fazê-la sentir como era aquilo. Mas
Benjamin sabia. Papai dizia que todos na Palestina eram liberais; e
ele se referia a sexo, não a política.
Ela entrou no Rolls Royce cinza-prateado com os pais e procurou
parar de pensar em sexo. O carro deslizou silenciosamente pelo
caminho, cruzando os portões de ferro batido discretamente
marcados com um "Duquesa Limitada, Long Island" e pegou a
estrada para o aeroporto. Benjamin estava chegando, e era sempre
bom ver Benjamin.

Capítulo 37

GIORA — setembro de 1950

Rachel entrou na sala de estar da casa minúscula.

— Sempre detesto quando Benjamin viaja — ela disse. Joshua
ergueu os olhos das listas que estava compilando.
— Você tem Elea.
— Também tenho você.
— Que tal visitar Sarah? — ele sugeriu.
Rachel sentou-se em uma poltrona e olhou para o marido.
— Acha que eu iria para Yad Mordechai, enquanto você está
aqui?— Balançou a cabeça. — Passei cinco longos anos sem você

durante a guerra. Ainda hoje passamos meses longe, longe um do
outro. Apenas sinto saudades do meu companheiro, só isso.
Joshua levantou-se da mesa, a cabeça quase roçando o teto.

— Você sabe que preciso ir.
— É lógico — ela respondeu com equanimidade. — Mas quando
você está aqui, eu estou aqui, e ponto final.
Joshua sentou-se no braço da poltrona e segurou-lhe a mão.
— Você nunca se queixa de nada.
— Você não está por perto para me ouvir. — Ergueu os olhos para o
marido, rindo.
Era bom ouvir Rachel rir. Ela havia mudado, desde a Guerra da
Independência, há dois anos. Perigo e trabalho duro traçaram mais
linhas em torno daqueles olhos do que fizeram os trinta e nove anos
de vida. Havia uma tolerância nela que não trazia mais nenhum
vestígio da juventude. Raquel tinha o corpo mais cheio e o espírito
mais firme que o seu. Às vezes imaginava se isso acontecia a
despeito de sua solidão ou por causa dela. Ou será que ela
simplesmente nascera para ter poucas ilusões, para sofrer menos
por perdê-las?
Ele a beijou e retornou à mesa.
— Em que está trabalhando? — perguntou Rachel.
— O de sempre. Mais viagens, mais reuniões em salas elegantes
para convencer as pessoas de que apenas vencemos a primeira
batalha. Preciso envergonhá-las bastante para nos darem mais do
que querem dar.
— Isso não vai matar ninguém — observou Rachel, pegando um
livro. Psicologia, ele viu.
Joshua voltou a atenção para os papéis, mas não conseguia se
concentrar. O tique-taque do relógio sobre o aparador o perturbava.
A casa parecia estranha sem Benjamin. Não era fácil ser pai de um
gênio — talvez fosse por isso que Rachel estava lendo livros de
psicologia —, embora Benjamin parecesse não notar que possuía
uma inteligência fora do comum. Ele era como uma esponja,

absorvendo conhecimentos das pilhas de livros que Sarah sempre
lhe enviara. Agora Arnold e Naomi os mandavam para todas as
crianças.

— Meus dois filhos não são como Benjamin — Sarah sempre
comentava. — A vida não será mais fácil para eles do que para seu
filho. Seth e Rebekah não são como eu. Não creio que papai tivesse
alguma idéia de que você era uma criança tão talentosa, Josh. Não
sabiam nada dessas coisas naquela época.
— Não deixe que Arnold a escute dizer isso.
— Oh, ele também é talentoso, mas só de uma forma. Ele não tem
quaisquer. . . bem, circuitos emocionais naquela sua mente
fenomenal, só negócios. Arnold nunca se emociona com música,
poesia ou qualquer coisa intangível, como uma idéia. Não acredito
que algum dia se deixe emocionar por algo.
Exceto a esposa, Joshua sabia. Mas Arnold nunca conseguira
demonstrar-lhe isso, nunca fora capaz de deixar escapar a centelha
que consolidaria a união dos dois. Os próprios interludios amorosos
de Joshua com a esposa do irmão representavam uma fuga para ele
e uma libertação para Naomi, sempre que podiam se encontrar. Isso
ocorria tão raramente que não sobrava tempo para conversar, para
definir a natureza desse relacionamento. Joshua preferia assim, e
agora, aparentemente, também Naomi. De algum modo, isso
isolava a intimidade dos dois em um mundo longe da realidade,
sem ameaçar nem o próprio Joshua, nem a ninguém. Surpreendia-o
que pensasse em Naomi até mesmo quando estava em casa, em
Israel. Não queria que uma parte de sua vida se misturasse com a
outra. Assim todos estariam seguros.
Somente sua fúria oculta era uma ameaça. De vez em quando, a
ponta aguçada e dolorosa do iceberg aflorava à superfície, e ele não
conseguia se impedir de dizer o que dizia, querendo magoar tanto
quanto fora magoado. Esse sentimento estava lá presente com os
amigos ricos do irmão, com o próprio Arnold.


Mas, na maior parte do tempo, era capaz de manter a raiva sob
controle, junto com a melancolia. Não devia aumentar seus crimes,
infligindo-os sobre a esposa e o filho — filhos, corrigiu-se.
Tinha certeza quase absoluta de que Elea era filho de Ben Horowitz,
mas nunca confessou isso a ninguém além de Sarah, naquela única
vez. Essa certeza baseava-se em fragmentos, coisas que Rachel havia
dito ou feito, mais do que no bebê feliz que era a imagem da mãe.
Apenas o sorriso de Elea, às vezes, era igual ao de Ben.
Joshua olhou para o cabelo escuro da esposa, ainda não tocado pelo
cinza dos anos, sob a lâmpada de leitura.
As lágrimas de Rachel na noite anterior à partida para a América,
antes de descobrir que estava grávida. As lágrimas não foram pela
criança.
O rosto de Rachel no dia que ele voltou para conhecer o xará de
Lazar. Hesitante, ligeiramente ansiosa. Talvez fosse por causa de
Joshua — "do jeito que está", Sarah dissera. Mas Rachel lhe entregou


o bebê, como se o desafiasse a não pegar a criança e aceitá-la como
sua. Até aquele momento, Joshua nunca sentira tanto medo de
perder uma mulher. Aceitaria Elea sob quaisquer circunstâncias, ao
invés de arriscar-se a viver sem a mãe dele.
A Rachel da ocasião em que Yad Mordechai sucumbira, após reter o
exército egípcio durante seis dias críticos, todos morrendo de
preocupação com Sarah e as crianças. Achavam-se reunidos no
salão comunal, quando chegou a mensagem: Sarah estava a salvo;
Seth e Rebekah tinham fugido para Gvar Am, ao norte, a fim de
prosseguirem na luta. Os olhos do velho Reuven estavam nublados
de lágrimas ao contar-lhes o resto da mensagem.
Ben Horowitz estava em Yad Mordechai. Ele estava morto.
A voz de Aviva protestou em nome de todos.

— Oh, não, não o nosso Ben, não o nosso Janota, com seu sorriso tão
meigo.

Rachel então desapareceu do círculo de pessoas ansiosas, sem
pronunciar uma palavra, e retornou com o bebê adormecido, as
lágrimas molhando-lhe o rosto pequenino, enquanto mergulhavam
na raiva e na tristeza, lamentando por Ben. Rachel abraçava o bebê
por algo mais do que simples conforto — podia ter abraçado Joshua.
Porém, na ocasião, não houve tempo para deslindar problemas
pessoais. Um grupo liderado por Moshe Dayan estava contendo os
tanques sírios nas proximidades, com dois canhões franceses tão
velhos que os chamavam de "filhotes de Napoleão". Estavam todos
lutando.
Foi só após o cessar-fogo que Joshua teve tempo para refletir. Então
era tarde demais para falar.
Fragmentos, como pedacinhos de pano costurados juntos para
formar um boneco de trapos, um boneco que assumia a forma de
Ben, vivo e adorável, adorando Rachel.
Afastou o desalento que essa idéia provocava. Não devia, não podia
ser ciumento. A moralidade convencional não tinha lugar nessa
vida. Como podia ser moralista um homem que se fazia passar por
rabino para comprar munições? Como podia ser moralista um
homem que enviava à morte o amigo mais querido e traía o próprio
irmão?
Houve um ruído na soleira da porta, e ele ergueu os olhos para ver
Elea, estremunhado de sono e agarrado a um ursinho.

— O que é, querido? — Rachel indagou calmamente, pousando o
livro e levantando-se para segurá-lo. Mas o menininho correu para
Joshua, que o pegou no colo.
— Bum — disse Elea, agarrando Joshua e o ursinho, o corpo
pequeno e robusto tremendo. Tinham ocorrido terríveis
bombardeios em Giora durante a guerra, e as crianças, até mesmo
no abrigo subterrâneo, ouviram o barulho e ficaram aterrorizadas.
Mas por que Elea viera para ele? Provavelmente por ser alto e sério
como o irmão mais velho, Benjamin, que desempenhava o papel de
pai desde o minuto em que Elea nasceu.


Não, a criança o chamou de abba — papai.
Joshua o abraçou, falando com carinho, acariciando as costas de
Eleazar. Uma tremenda onda de amor pelo garotinho o inundou.
Pensou que morreria de dor quando a desgraça atingisse esse
inocente, como fatalmente atinge todo ser vivo.
Oh, Deus, pensou, oh, Deus, não posso sentir isto de novo ou sei que vou
rastejar para um túmulo qualquer e acabar com tudo, antes de realizar o
que prometi.


Com um esforço desesperado, afastou de si o sentimento, levantou a
cabeça e olhou para Rachel.


— Tire-o daqui.
A chama do desapontamento bruxuleou naquele rosto por um
segundo. Depois, Rachel aproximou-se e levou Elea para o quarto,
enquanto ele continuava sentado à mesa, trêmulo.
Quando ela voltou, o rosto de Joshua estava calmo. Ele concentrou-
se nos papéis, Rachel no livro. O relógio tiquetaqueava sem parar
no quarto.
Capítulo 38

SANDS POINT — agosto de 1953

Julie deixou o cavalo caminhar a furta-passo pelo bosque. As rédeas
estavam frouxas, de modo que Tarquin pudesse abaixar a bela
cabeça e pastar à vontade, sempre que lhe aprouvesse. Estava
passeando há duas horas e aproximava-se o momento de regressar
à casa para posar. Esse pensamento a excitou. Sempre excitava.
Deveria ser monótono posar para um retrato formal no vestido fofo
que o pai escolhera, ao invés de fazê-lo em traje de montaria,


cavalgando Tarquin, como queria. Mas nada era monótono quando

o pintor era um homem como Paul O' Connor.
No início, achou que ele era o homem mais insignificante que já
vira. Os homens que conhecia melhor — o pai, o tio, os primos Seth
e Benjamin — eram muito bonitos. O'Connor era quase feio. Tinha
uma boca larga, olhos azuis miúdos e penetrantes como lâminas, e
cabelo muito curto, como o de um soldado. Usava até um velho
uniforme do exército e era quase sempre rude. Não havia nada de
romântico nele.
Mas Julie sempre esperava que ele largasse os pincéis e a tomasse
nos braços, tal como o pintor no retrato da Duquesa. O quadro
continuava pendurado sobre a lareira na grande sala de visitas em
Sands Point. Durante longo tempo, aquilo fora para ela mais do que
uma pintura bonita.
Ela não sabia o que lhe dava essa vontade de ser abraçada por
aquele homem — estava mais ou menos apaixonada por Benjamin.
E O'Connor tinha péssima opinião sobre as filhas paparicadas de
pais milionários, provavelmente porque Arnold insistira para que
ele pintasse o retrato aqui, em uma casa de hóspedes na
propriedade, e oferecera-lhe mais dinheiro do que ele tinha forças
para recusar.
"Não permitirei que minha filha fique sozinha em um estúdio com
um homem", Arnold anunciou. "Você argumenta que não pode
trabalhar com uma terceira pessoa por perto. Então será aqui em
Sands Point ou escolho outro artista. E pagarei a você quatro vezes
mais do que costuma cobrar."
O'Connor pediu uma quantia ainda maior, e Arnold concordou sem
pestanejar. Arnold gostava do trabalho de O'Connor — ele pintara o
retrato de Naomi há dois anos. E Arnold estava habituado a ter o
que apreciava.
Portanto, uma sala de uma das casas menores foi escolhida por sua
luz e transformada em estúdio. Uma vez por semana, nos últimos
dois meses, o Rolls Royce pegava O'Connor e o depositava na casa,

praguejando e resmungando todo o tempo. Julie estava acostumada
com essa linguagem. E logo estava imaginando como pôde achá-lo
feio.

— Vamos, Tarquin — disse suavemente ao cavalo, enquanto pegava
as rédeas. As orelhas do animal indicaram-lhe que ouvira, e ela deu
palmadinhas no pêlo reluzente. — Você é a mais esplendorosa
criatura de quatro pernas do mundo. Está com vontade de galopar,
não é, menino? Assim que nos afastarmos das árvores, vamos voar.
Ainda está bastante fresco.
Ela deu um mínimo de rédea, e Tarquin trotou sem esforço através
do bosque, os galhinhos estalando sob os cascos, um cheiro forte de
barro, musgo e animal escovado subindo às narinas de Julie.
Excitava a ambos, à moça e ao garanhão, trotar dessa maneira
através do bosque, refreando-se, preparando-se, sabendo que, ao
atingirem a planície, toda a força do garanhão explodiria,
carregando a jovem consigo.
— Calma, Tarquin, ainda não — ela sussurrou. — Agüente só mais
um pouco, ainda não, não corra ainda.
Fechou os olhos, esperando que o calor do sol lhe indicasse quando
estivessem longe das árvores. Sim, aqui estava quente e
embriagador. E então gritou:
— Sim, agora!
As rédeas afrouxaram ainda mais, e o animal disparou num galope,
sua força poderosa crescendo, enquanto Julie apertava os joelhos
com mais força ao redor do cavalo e o deixava solto.
Estava ofegante de prazer quanto Tarquin diminuiu a velocidade
para um majestoso meio-galope e, depois, para um trote, ao
chegarem ao paddock do estábulo. Julie deslizou da sela e correu a
enlaçar o pescoço do garanhão.
— Você é maravilhoso — disse. Depois moveu-se para acariciar-lhe
o focinho. — Não há outro igual a você no mundo inteiro. Aqui. —
Ofereceu-lhe açúcar da bolsa presa no cinto, e ele o mastigou

placidamente. — Vejo você de novo à tarde, quando o sol estiver
baixando.
Ela acenou para o cavalariço quando este pegou o animal, e se
acomodou no seu MG. Como só faria dezoito anos na semana
seguinte, dirigia apenas nas vizinhanças. O carro subiu velozmente
a estrada rumo à casa dos hóspedes, e Julie entrou nela, dando uma
olhadela no relógio. Quase onze da manhã. Tinha tempo para um
banho de chuveiro.
Quando 0'Connor chegou, ela estava no vestido de organza branco,
sentada na cadeira sobre a plataforma ligeiramente elevada que ele
mandara construir.
Ele estava mais ranzinza do que de costume.

— Na hora certa, para variar — resmungou, enrolando as mangas.
Nunca usava nada tão pretensioso quanto um guarda-pó. Vestia
calça caqui e camisa branca, aberta no pescoço. Tinha o hábito de
ficar parado com os quadris um pouco para a frente, o que fascinava
Julie. Estrelas de cinema faziam isto. Modelos também. Era uma
pose muito sexy.
Em seguida, apanhou os pincéis, que sempre limpava
completamente antes de sair, e virou-se para olhá-la. Ou seu perfil
— O'Connor nunca olhava realmente para ela, pensou Julie. Fez um
breve gesto de aprovação com a cabeça, como se estivesse satisfeito
com o ângulo, depois começou a mexer nas tintas.
— Vamos terminar hoje. E isso é ótimo também. Este serviço de táxi
é um saco. Posso acabar o que faltar em Nova York. Não precisarei
de você. — Deu uma risada. — Seu pai pode dormir tranqüilo. A
donzela continua intacta.
Julie corou.
— Merda, não fique cheia de manchas. Estou tentando captar o tom
certo de sua pele. Você tem uma tez maravilhosa, igual à sua mãe.
Ela tentou relaxar, e o rubor sumiu lentamente.
— Qual o problema com esse vestido? — ele indagou de repente. —
Está tudo amontoado em torno da cintura.

— Não consegui prender a faixa — respondeu Julie com um
murmúrio.
— Bem, então fique de pé, que eu prendo para você. Isso está
parecendo um saco de batatas. — Aproximou-se da plataforma,
virou-a e começou a prender a larga faixa de veludo que moldava o
vestido à cintura. Virou-a de frente e ajeitou o corpete sem ombros.
Era a primeira vez que a tocava, e ela sentiu que corava de novo, o
rubor espalhando-se das faces para o pescoço e os seios, cobertos
com recato, mas claramente delineados.
Ele sorriu para Julie. Era um sorriso quase desagradável.
— Então é assim — disse suavemente. — Outra virgem ansiosa. —
As mãos deslizaram para os seios. — E além disso de verdade,
imagino.
Julie tinha certeza de que O'Connor a beijaria, mas ele não o fez.
Sentou-a novamente na cadeira e ajoelhou-se a seu lado. Observou
seu rosto, enquanto a mão infiltrava-se sob seu vestido e subia pelas
coxas, separando-as e tocando-a ali. A princípio, tocou-a muito
lentamente, observando-a ao fazê-lo, até que ela fechou os olhos,
meio envergonhada, meio ansiosa para que ele prosseguisse.
Era a mesma sensação que tinha quando Tarquin movia-se a trote
sob o seu corpo, antes que a força do animal aumentasse e os
lançasse em um galope alucinante. Agora ela estava quase fora da
floresta e, em um segundo, sentiria o sol no rosto e lhe diria.
— Agora — sussurrou. — Sim, agora. — Sentiu que o corpo se
movia.
Tudo acabou depressa demais.
O'Connor voltou ao cavalete, ainda sorrindo.
— Bem, isso vai acalmar você. Vamos ao trabalho.
Ao final da sessão, Julie o viu limpar e recolher o material de
pintura e, depois, chamar o chofer pelo telefone da casa. Segurou a
tela com todo o cuidado e fez uma reverência, uma pequena mesura
de zombaria.

— Adieu, meu vulcão. Se está imaginando por que não a fodi
devidamente, o motivo é que acho as virgens muito chatas na cama.
— Deu uma gargalhada. — E também porque seu pai arrancaria o
meu peru se algum dia descobrisse. Mas o meu conselho para você
é que se case logo ou vá trabalhar em um bordel.
Julie o viu partir e retornou à casa, feliz por que os pais estavam na
cidade. Se aquilo era tão glorioso, como não seria o resto? Queria
pensar no caso. Por que desejou que O'Connor a tocasse, quando as
tentativas de todos os outros rapazes que conhecia a revoltaram
tanto? Benjamin nunca havia tentado, mas sabia que gostaria de
experimentar com o primo.
Então, tudo o que tinha lido sobre a "química" entre os homens e
mulheres devia ser verdade. Era ainda mais fascinante do que as
aulas de química no laboratório da escola.
O professor de química viria após o almoço, um rechonchudo
bacharel em Ciências, de Yale. Ele nem desconfiaria que ela estava
diferente sob todos os aspectos. Seu pai jamais sonharia que a filha
tinha feito tal coisa, e menos ainda que havia gostado disso e queria
fazer de novo. Mas a mãe...
Nunca notara qualquer química entre os pais. Mas devia ter havido
no passado.
De repente imaginou se a mãe também achara O'Connor atraente,
tal como ela. Mas a mãe não era o tipo de mulher que dormia com
homens estranhos. A mãe nunca seria infiel a um marido que a
amava tanto.


Capítulo 39

SANDS POINT — setembro de 1953


Arnold deixou seu lugar na extremidade da mesa lindamente
decorada e sentou-se junto de Naomi. Os convidados estavam
dançando, mas havia dois lugares na mesa do clube campestre que
obviamente não estavam ocupados.

— Espero que cheguem antes de servirem o jantar — disse Arnold,
observando a entrada do salão de baile.
Naomi ocultou a própria impaciência.
— O avião atrasou. Logo estarão aqui. — Olhou para os dançarinos.
— Ela está linda, não acha?
Arnold concordou, contemplando a filha.
— É muito ruim que aja mais jovens para celebrar seus dezoito
anos. Chamamos alguns de nossos amigos. E Otto Einhorn também.
— Arnold não gostava de misturar negócios com prazer. Os irmãos
de Naomi e suas famílias não eram convidados para reuniões
sociais fora de casa. Otto, como sempre, era a única exceção.
Finalmente criara uma fragrância leve e delicada, que recebeu o
nome de Princesa. O perfume foi um sucesso instantâneo e, em
conseqüência disso, Otto era mais mimado do que nunca, embora
jamais exigisse tais privilégios.
Julie estava dançando com ele. Einhorn sempre afirmava que ela
tinha sido sua inspiração para a Princesa.
— Creio que somos culpados por isso em parte — comentou
Naomi. — Mas Julie fica mais à vontade com adultos.
A voz de Otto a corrigiu, quando ele se sentou à mesa.
— Não, no momento.
— Com quem a deixou? — perguntou Arnold, virándose para
olhar.
— Não conheço o sujeito, mas apareceu quando eu dançava com
Julie — respondeu Otto, bebericando o champanha. — Um
espécime atraente, não?
O homem que dançava com Julie era mais do que atraente, pensou
Naomi. Era mais velho do que sua filha, muito além dos vinte anos.
Movia-se e falava com uma segurança que nenhum colegial teria.

Era muito alto, bem mais do que Arnold, e vestia-se com extrema
elegância. Arnold estava perguntando outra vez quem era ele.

— Não sei, querido. Mas deve estar tudo bem, se veio com um dos
convidados.
Otto deu uma risadinha.
— Para Arnold, todo homem é o Duque de Mântua, tentando
seduzir Gilda. Vamos, Rigoletto, relaxe. Ou, então, cante-nos uma
ária.
— Não fale bobagens, Otto. Simplesmente não gosto que ela dance
com qualquer Tom, Dick e Harry. — Arnold franziu o cenho
quando Julie sorriu para o parceiro.
— Talvez seu nome seja Max — brincou Otto.
— Lá vêm os dois! — Naomi levantou-se, elegante no vestido de
chiffon champanha, o cabelo curto fazendo-a parecer mais jovem do
que era.
Benjamin e Joshua estavam entrando no salão de baile, ambos em
traje de noite. Ela nunca vira Joshua assim antes e adorava o modo
como seu corpo ficava no smoking preto. Era o homem mais bonito
que já vira — e como Benjamin se parecia com o pai! Exceto pelo
cabelo branco de Joshua — pela barba. Ele deixara crescer uma
barba curta e distinta, que lhe delineava a boca bonita. Que
sensação a barba lhe provocaria quando beijasse aquela boca?
— Com essa barba, ele se parece ainda mais com um rabino —
sussurrou Arnold. — Só espero que não comece a arrecadar fundos
aqui no clube.
Aguardaram os recém-chegados. Naomi não disse nada. Não o
encontrava há vários meses, e era difícil vê-lo sem correr para ele,
era difícil cumprimentá-lo com um casto beijo de irmã, quando
desejava que ele a tomasse nos braços. Ela tinha quarenta e quatro
anos, mas toda a vez que via esse homem — especialmente após
uma longa separação — sentia-se como a jovem de dezenove anos
que fora: ofegante, ansiosa para estar perto dele, para contemplar
seu rosto, ouvir sua voz.

Ninguém adivinharia isso pelo modo como beijou Joshua e seu
filho, conversando animadamente com ambos, enquanto os dois
diziam alô a Otto e aos outros, que conheciam muito bem os
pedidos de dinheiro de Joshua.

— Ela sabe? — indagou Benjamin. — Contou a Julie, tia Naomi?
Naomi sempre ficava ligeiramente aborrecida quando ele a
chamava de "tia" — Benjamin era tão viril, fazia com que ela se
sentisse mais velha.
— Não, não contei nada. Mas fiquem de pé, vocês dois. Vocês são
mais altos do que todos na sala. Julie vai olhar para cá em um
minuto.
— Do jeito que está olhando para aquele sujeito, acho que não —
replicou Benjamin. — Quem é ele?
— É o que eu gostaria de saber — retrucou Arnold.
A dança terminou, mas a banda iniciou logo outra música, As Time
Goes By, e Julie continuou com o mesmo parceiro.
— Acho melhor sentarmos — sugeriu Joshua. — Fico contente por
Julie estar feliz.
— Mas ainda assim gostaria de saber quem é o camarada — insistiu
Benjamin. Ele tinha atitudes muito protetoras com relação à prima,
tal como fazia com a mãe e o irmãozinho. Benjamin, Sarah sempre
dizia, era um protetor nato, e sua mãe, a melhor companheira. Ele
concluiria Harvard em três anos, depois ingressaria no Instituto de
Tecnologia de Massachusetts. Julie iniciaria seu primeiro ano na
Smith esse mês.
— Que diferença faz, se Julie gosta dele? — Joshua perguntou ao
filho.
— Faz muita diferença — Arnold interpôs, irritado.
— Como estão todos em casa? — perguntou Naomi. Apesar de as
coisas terem melhorado entre os irmãos, Joshua sempre exercia um
efeito abrasivo sobre Arnold. Mas isso não era apenas por causa
dela. Naomi estava convencida de que Arnold não suspeitava de
nada. Estava determinada a que isso nunca acontecesse.

Nesse momento, Julie aproximou-se da mesa, surpresa e deliciada
em ver o tio e Benjamin. O outro homem ficou parado logo atrás, até
que Julie o apresentou à família. Seu nome era Parker Mitchell e
viera como convidado dos Braden.
Ele era definitivamente atraente e parecia no mínimo dez anos mais
velho do que Julie, com sobrancelhas escuras e espessas e o tipo de
cabelo que começaria a rarear quando atingisse os trinta anos, sem
prejudicar-lhe a boa aparência. A razão disso era que ele possuía
charme suficiente para três homens, pensou Naomi. Não o tipo de
magnetismo natural que Joshua tinha, mas algo mais específico,
dirigido quase exclusivamente às mulheres. Disse alguma coisa em
voz baixa para Julie, depois sorriu para todos e foi embora.

— Não gosto desse camarada — declarou Benjamin.
— Então não precisa dançar com ele — retrucou Julie. — Como é
bom ver você! — Era ruim demais que Benjamin não gostasse de
Parker Mitchell. Notando a expressão desaprovadora do pai, Julie
não se importou se simpatizassem ou não com Parker. Ele era o
primeiro homem interessante que conhecia desde O'Connor, e
sentia mais do que um simples desejo de que a tocasse. Não tornara
a ver O'Connor, mas ia rever Parker, sabia que sim.
Ao fim da noite, combinaram sair para jantar. Essa foi uma noite
que mudou muitas coisas para Julie. Ela sempre esteve meio
apaixonada por Benjamin, chegando até supor que se casariam
algum dia. Agora ele era apenas um primo, e dançar com ela era o
mesmo que dançar com o tio ou o pai.
Era algo muito diferente dançar com Parker Mitchell, e não apenas
por atração sexual. Ela sabia disso agora, graças àqueles poucos
minutos com O'Connor. Havia muito disso, mas também algo mais.
— Esta foi a noite mais feliz da minha vida — Julie contou aos pais,
quando estavam em casa novamente e subiam a escada curva. —
Estou tão feliz que podia explodir!
— Você fala igual a sua tia Sarah — Arnold replicou, sorrindo para
a filha.

— Agora sei o que ela quer dizer com isso — disse Julie. Beijou os
pais. — Obrigada por tudo e pelas duas surpresas de Israel. Não são
fantásticos os dois? — Atravessou rapidamente a varanda do
segundo andar e desapareceu no quarto.
Arnold e Naomi olharam um para o outro.
— Vou me informar sobre esse homem — disse Arnold, abrindo a
porta da saleta que separava os dois quartos. — Julie ficou toda
agitada por causa dele.
— Ela não ficou agitada, Arnold. Julie é jovem, está feliz e talvez
um pouco apaixonada. O que há de errado nisso?
— Julie nunca estará "um pouco apaixonada". Ela é exatamente
como eu. — O olhar de preocupação pela filha agora exprimia algo
mais. — Ela é exatamente como eu — repetiu. — Irá apaixonar-se
apenas uma vez e dar tudo o que tem. — Abraçou a esposa e a
beijou. Ano após ano, era sempre a mesma coisa, o amor, o desejo
por Naomi. Talvez fosse porque, apesar de amá-la como amava, e
Arnold tinha certeza disso agora, ela nunca retribuía sua paixão. —
Deixe que eu fique com você esta noite.
— Lógico que sim!
Ela sempre respondia "lógico que sim". E ele a procurava e a achava
amorosa, receptiva — e fria, Uma delícia de segurar, tocar, beijar —,
mas fria, passiva demais para que Arnold arriscasse qualquer coisa
além do simples ato do amor que fizeram na noite de núpcias. Tudo
o que aprendera com Annalise decerto ofenderia sua esposa.
Annalise gostava de sexo. O relacionamento físico dos dois havia
mudado no correr dos anos, quando ela era sua amante. A
princípio, ela era sutil. Depois passou a mostrar-lhe explicitamente
onde e como ele podia lhe proporcionar maior prazer, e seu prazer
era contagiante, pois intensificava o dele. Após um tempo, Arnold já
conseguia permitir que Annalise o tocasse como nunca esperou que
Naomi soubesse fazer. Annalise gostava de coisas que nenhum
homem experimentaria com a esposa.

Às vezes, ela o esperava na cama, com os mamilos pintados com
ruge, as coxas abertas, usando apenas ligas pretas e meias de seda
rendadas da mesma cor, que o atraíam como um imã para o lugar
úmido e perfumado entre as pernas. Naquelas noites, ele fazia tudo

o que Annalise queria, sem se preocupar com a vergonha que mais
tarde o dominaria.
Ficava envergonhado depois, porque nunca amara aquela mulher.
Arnold amava Naomi.
Agora se despia em seu quarto, dando à esposa tempo de fazer o
mesmo, mas desejando despi-la ele mesmo. Foi ao seu encontro,
vestindo um recatado pijama, e apagou a luz como sempre, antes de
tirar a roupa e deitar na cama.
Ao tocá-la surpreendeu-se por encontrá-la nua — ela sempre usava
uma camisola. Só de vez em quando deixava que ele a tirasse. Esse
fato incomum o excitou. E também o modo como ela o beijou.
A boca de Arnold desceu para os seios, a mão deslizou para a
cintura. Naomi a conduziu mais para baixo, mostrou-lhe o lugar,
pediu com voz urgente "não pare, sim, mais depressa", alcançou o
clímax em meio a uma onda de gemidos incoerentes, puxou Arnold
para si e o estreitou com braços e pernas, quente, selvagem e
palpitante, até que ele acabasse, chocado, exultante, esgotado.
Ambos estavam exaustos, e Naomi parecia dormir quando ele
moveu-se para o lado. Arnold fechou os olhos, os pensamentos em
um turbilhão. Por quê? Por que esta noite? O champanha? Mas ela
bebera champanha antes!
E por que esta noite, entre tantas noites? Será que ficara tão excitada
que não pôde deixar de mostrar-lhe o que queria? E como podia
saber o que queria, a não ser que tivesse aprendido isso com outra
pessoa, tal como acontecera com ele?
Joshua? Ele tinha cinqüenta anos, era retraído e dado a inesperados
acessos de cólera, um homem com uma esposa extraordinária, ao
que todos comentavam, e dois filhos maravilhosos, porém movido
por um demônio que o fazia se preocupar apenas com seu trabalho.

Joshua não tinha tempo para amores furtivos. Não, Joshua não. Se o
encontro com Joshua havia estimulado Naomi sexualmente, por que
não ocorrera o mesmo nas outras visitas? Não, não podia ser
Joshua. Arnold conhecia o irmão.
E também conhecia a esposa. Não havia outro homem. Nunca
houve ninguém durante todos esses anos, até mesmo antes de Julie.
Sempre soube existir algo mais em Naomi que a modéstia e a
inibição não lhe permitiam mostrar. Isso somente vinha à tona
muito raramente. Ele adormeceu, esperando que tornasse a
acontecer.
Naomi continuou imóvel ao lado de Arnold, controlando a
respiração, até ter certeza de que ele dormia. Estava tão atônita
quanto ele devia estar. Sempre achou agradável e reconfortante ir
para a cama com o marido. Arnold era gentil, delicado e amoroso
na cama — de uma certa forma, exatamente como a própria Naomi.
Mas havia algo mais nela, um lado de sua personalidade que Joshua
tinha despertado e que algumas vezes se igualava ao dele em
paixão. Ela sempre fingia com Arnold — sentia que falhava com ele
se não o fizesse. Ao vê-lo esta noite, ela o desejou. Na cama com
Arnold, quis mais do que conforto, quis satisfação. Agora que sabia

o que isso significava, era difícil permanecer totalmente imune às
carícias do marido, discretas como eram, e difícil não se satisfazer,
assim que ficava excitada. Como seu corpo podia se recusar a
cantar, agora que aprendera a canção?
O que a perturbava, o que sabia que pertubaria Arnold, era onde
havia aprendido tal coisa. Ele nunca indagaria, mas na certa ia
imaginar.
Teria que pôr a culpa no champanha e na festa e esperar para ver o
que sucedia depois. De certa maneira, foi a festa. Sua menina não era
mais tão pequena assim. Julie já estava pronta para se apaixonar,
provavelmente já se apaixonara. A vida ia passando devagar, e
Naomi, bem no fundo de si mesma, onde realmente vivia, não era a
tia de ninguém, a mãe de ninguém, a esposa de ninguém, muito

embora também fosse todas essas coisas. Ela era Naomi, ainda
apaixonada por um homem que, o instinto lhe dizia, nunca a
deixaria conhecê-lo. Nunca ousara perguntar-lhe por que estavam
juntos — para ela, certamente não era apenas por sexo. E estava
começando a pensar que, para Joshua, não era por outra coisa. Fora
mais do que isso no passado, mas ele não era o mesmo homem de
antes, e Naomi estava perdendo a esperança de que algum dia
voltasse a ser.
De repente, sentiu-se muito só. Estava contente por ter a companhia
de Arnold essa noite.

Através do balcão em forma de U, Julie contemplava a noite
magnífica, insone. Amor à primeira vista não era algo que apenas se
lia nos livros. Devia acontecer, caso contrário ninguém teria escrito
a esse respeito, antes de mais nada.
Parker Mitchell. Havia nele algo extraordinariamente encantador,
algo além de suas maneiras — "macio como seda", as garotas o
definiriam — algo além da forte atração que exercia sobre o sexo
oposto.
"Case-se logo", O'Connor a aconselhara, "ou vá trabalhar em um
bordel."
Mas daí a três semanas começariam as aulas, e que chance teria para
fazer com que a desposasse? Um homem como Parker não vinha a
Northampton nos fins de semana para levar menininhas em
passeios decorosos e depois entregá-las à meia-noite! De qualquer
modo, tinha certeza de que iria odiar a escola.
Bem, muitas coisas podiam acontecer em três semanas. Veja só o
que aconteceu em uma única noite! E sabia que podia contar com a
ajuda da mãe, a despeito do que o pai dissesse.
O resto dependia de Parker.


Capítulo 40


— Ele é um mestiço — contou Arnold à esposa e à filha duas
semanas depois. Era um domingo de manhã, e faziam o desjejum na
pequena sala de jantar que dava para o terraço de lajotas e a grama
que descia até a água. Julie e Naomi usavam penhoares de
cambraia, e Arnold, um roupão fino de brocado que teria eclipsado
uma personalidade menos marcante.
Era um veranico de fim de outono, e os alegres raios de sol
atravessavam as janelas Tudor com pilares centrais e brilhavam
sobre a fruteira repleta de uvas, mangas e abacates, sobre o cristal
Baccarat e a engomada toalha de linho Por-thault. O mordomo
estava arrumando sobre o aparador uma série de travessas de prata
com tampa. O café fumegava de uma cafeteira de prata georgiana.
Uma urna menor continha o chá com aroma de especiarias, que
Arnold agora temperava a seu gosto. Fez um sinal com a cabeça
para o mordomo, pedindo outra xícara, e depois o despachou.


— Do que está falando? — perguntou Naomi.
— Parker Mitchell. Descobri tudo a seu respeito — respondeu
Arnold. — Sua mãe era uma WASP* de Boston, e o pai era um
playboy judeu.
Julie riu.
— Que importância tem quem são os pais de Parker?
— Eram — corrigiu Arnold, pegando um brioche e um pouco de
compota de morango importada. — Os dois morreram em um
acidente, quando ele tinha quinze anos.
— Essa é uma das coisas mais tristes que já ouvi — disse Naomi. —
Quem tomou conta dele?
— Colégios internos. Os WASPs não o queriam por causa do
sangue judeu, e o pai era órfão. Mas pode apostar que a sua família
também não ia querer saber do rapaz.

— Isso é nojento — Julie reclamou em voz baixa com o pai. Não
entendo como pode discutir este assunto como se estivesse falando
sobre o tempo.
Arnold bebeu um gole de chá.
— Porque isso parece que não o prejudicou em nada. Teve uma boa
educação, cortesia dos parentes de Boston. É um corretor de valores
diletante e recebe uma anuidade da mãe. Mas o que ele está caçando
mesmo é mulheres. Mulheres ricas.
Julie enrubesceu.
—Arnold, por favor — interveio Naomi. — Não creio que isso seja
necessário.

Arnold abandonou o ar de cinismo e indiferença.

— Julie está se encontrando demais com esse sujeito. Acho que deve
saber do que ele está atrás. Do seu dinheiro.
— O que lhe dá tanta certeza de que Parker está atrás do meu
dinheiro? Se quer saber, eu estou atrás dele. Então, pode parar de
espionar porque não me interessa o que você pensa! De qualquer
jeito, ele não me telefona há três dias. Isso deve deixar você muito
feliz. — Atirou o guardanapo sobre a mesa e foi para a porta. —
Vou cavalgar — falou sobre o ombro, acrescentando, em uma clara
afronta ao pai: — mamãe.
Arnold ficou imóvel, a cabeça apoiada na mão.
— O que vamos fazer? — indagou a Naomi, parecendo aflito e
magoado.
— Em primeiro lugar, pare de falar assim.
— Tudo bem, cometi um erro terrível. — Suspirou. — Julie nunca se
dirigiu a mim dessa maneira antes. Mas eu precisava fazer alguma
coisa, Naomi.
*WASP é a abreviatura de protestante anglo-saxão branco, que os grupos
minoritários consideram ser o tipo dominante na sociedade americana que
mantém sua inflexível solidariedade de classe.


O homem é conhecido em toda Nova York. Teve um número
incontável de amantes, em sua maioria mulheres mais velhas, todas
ricas. Tentou se casar com muitas garotas mais novas, porém os pais
sempre impediram. O que vamos fazer?
Naomi inclinou-se sobre a mesa e segurou sua mão.

— Julie não é nenhuma tola, Arnold. Se ela o ama, deve haver uma
boa razão.
— Como ela pode saber? Só tem dezoito anos!
— Eu não tinha mais do que isso quando nos casamos. Sim, sei que
era diferente. Mas só porque éramos menos sofisticados do que
Julie. Ela nasceu para um estilo de vida a a que só nos ajustamos
com o tempo. Sua fotografia apareceu no Vogue desde que estava
com três anos de idade. Julie viajou o mundo inteiro conosco e
sente-se à vontade com gente que teria nos assustado mortalmente.
Como pode afirmar que ela sabe o que quer menos do que nós
sabíamos?
— Continuo dizendo que aquele rapaz não serve para Julie. Não
confio nele.
— Você nem o conhece — argumentou Naomi, procurando ser
imparcial. — De qualquer modo, ele não telefonou nestes últimos
dias. Talvez estejamos nos preocupando à toa.
— Acho que temos muitos motivos de preocupação.
— Conversarei com ela quando voltar. Ou quando se acalmar. E
você...
— Não direi uma palavra — antecipou-se Arnold. — Não quero
perdê-la. — Parecia assustado. — Ela costumava me escutar. Nunca
falou comigo desse jeito antes.
Os dois ouviram Julie descer correndo a escada e cruzar o terraço,
vestida com uma calça de montaria, disparando para os estábulos
no MG.
A sala ficou muito silenciosa, assim que o ronco do motor morreu
na distância.

Julie deixou Tarquin correr, tão logo saíram do paddock. Estava
furiosa com o pai e furiosa com Parker por dar em cima dela após
sua festa de aniversário e depois sumir. Os dois gostavam das
mesmas coisas — teatro e cinema, barzinhos com música romântica
ao piano, jazz com a grande orquestra no The Embers, perambular
por museus e inventar histórias tolas sobre estátuas gregas no
Museu Metropolitano e no de História Natural.
Parker nunca mencionava a família ou sua infância infeliz. Agora
entendia melhor o que a atraía naquele homem: a solidão. Uma
solidão diferente da sua, desinteressada como era pelas coisas de
que as colegas do colégio gostavam — namorados, roupas e mais
namorados —, mas que ainda assim era solidão.
Sabia que ele não tinha muito dinheiro, mas Parker nunca tentou
esconder sua pobreza relativa, muito embora isso o deixasse
constrangido. Queria lhe dizer que não importava qual dos dois
tinha dinheiro, mas nunca ousou fazer tal coisa. Isso poderia
embaraçá-lo.
Como o pai podia ser tão injusto com Parker e tão insensível para
com os sentimentos da própria filha? E daí, se Parker corria atrás
das mulheres? As mulheres também corriam atrás dele. Tinha
presenciado isso sempre que encontrava amigos em um restaurante
ou no teatro. As mulheres ignoravam os namorados, até mesmo os
maridos, quando ele estava por perto.
Com ela, Parker era apenas afetuoso. Nem mesmo a beijara!
Julie fez Tarquin estacar, e seu olhos encheram-se de lágrimas.
Talvez a quisesse apenas pelo dinheiro, mas depois balançou a
cabeça. Podia mudar isso depois. O importante era fazer com que a
quisesse o bastante para desposá-la.
Parker jogou para o lado a seção de esportes do The New York Times
e foi para a cozinha buscar outra xícara de café. Era um belo dia, e o
parque devia estar muito agradável. Os olhos dirigiram-se para o
telefone. Quis ligar para Julie, mas precisava. aguardar por mais


alguns dias ou todo o esforço feito para que a garota se apaixonasse
por ele seria desperdiçado.
Bem, desperdiçado não, porque ela era tão adorável... Mas havia
muito em jogo, e tinha de ser cuidadoso. Tinha vinte e seis anos, e,
na sua opinião, estava mais do que na hora de realizar o que sempre
planejara: casar com uma mulher muito rica. Agora que tinha uma
chance, com uma jovem rica e bonita, não ia cometer nenhum erro.
Acendeu um cigarro e pegou o telefone. Houve um clique e uma
resposta, três toques depois de completar a ligação.
— Bom dia, beleza — cumprimentou, a voz íntima e macia. —
Espero que não tenha acordado você.
A mulher no outro lado da linha riu suavemente.


— Já passa de uma hora, e ainda estou na cama. Terrível, não é?
— Acho que é delicioso. Posso juntar-me a você? A mulher tornou a
rir.
— Parker! Preciso dar um descanso à pobrezinha de vez em
quando.
— Que tal almoçarmos juntos? Pego você daqui a uma hora?
— Uma hora e meia é melhor. E encontre-me no Rum-pelmayer's. O
porteiro está ficando muito curioso, e não quero ter problemas com
Richard.
Parker assobiava enquanto se vestia — blazer e calça de flanela cinza
da Brook Brothers, camisa Oxford abotoada na frente, mocassins
lustrosos e costurados a mão. Também queria evitar-problemas
com o marido de Norma, nas raras ocasiões em que Richard estava
em Nova York.
Há meses vinha preenchendo as horas de solidão de Norma Mason
e não estava nem perto de convencê-la a divorciar-se de Richard e
casar-se com ele. Norma era generosa em questões de dinheiro e,
certamente, era generosa na cama, mas o caso não estava dando em
nada. E agora havia Julie.

Parou de assobiar, e o rosto ficou pensativo quando começou a
caminhar na direção oeste, atravessando o Central Park rumo ao
restaurante.
Julie era ouro para Parker, não só como fortuna, mas também como
símbolo. Era tão acetinada e luminosa! A pele assemelhava-se aos
lençóis de seda onde na certa dormia, o cabelo tinha a rica
tonalidade do mel. As roupas eram de couro e seda macios,
importados. A maquilagem, quando usava, era discreta. As unhas
eram curtas e pintadas com um esmalte transparente. Possuía a
elegância da mãe, e ele queria isso em uma mulher. Acima de tudo,
tinha dinheiro e nenhum irmão que se interpusesse no seu caminho
para a Duquesa.
A princípio, no curto espaço de tempo em que a conhecia, fora
demais seu limitado orçamento. Mas, depois, começou a evitar
lugares da moda e entradas de teatro muito caras em favor de
prazeres mais simples. Comprava-lhe presenti-nhos singelos: um
pequeno pastor de ovelhas de biscuit, uma pulseira fina mexicana
que encontrou no Village. Procurava levá-la a restaurantes
tranqüilos e originais e em longos passeios pela cidade.
Sentia-se atraído por Julie. E então começou a captar uma
sensualidade nela que primeiro o intrigou, depois o excitou. Não
era nada declarada, porém ainda mais poderosa porque ela não
tinha consciência disso. Parker conhecia as mulheres e suspeitava
que ela era virgem, além de sensual. Se conseguisse levá-la para a
cama, certamente Julie o desposaria, apesar da oposição dos pais.
Podia deixá-la viciada em sexo — e garotas como Julie casavam-se
com seus primeiros parceiros sexuais.

Portanto, Parker a tratava com extrema gentileza e cortesia,
demonstrando sempre uma franca admiração, mas a distância.
Sabia o quanto era necessário convencê-la de que a queria não por
sexo, principalmente não por dinheiro, mas por ela mesma. Foi uma
grande surpresa descobrir que realmente não estava fingindo. Não a


via há três dias e já sentia saudades. Precisava ir a Northampton
para vê-la, antes que partisse.
As mulheres que conhecia pareciam-lhe previsíveis e pretensiosas.
Quanto às moças, a castidade era uma mercadoria para elas, algo
que aprenderam a usar como um produto a ser negociado em troca
de casamento a quem apresentasse a maior oferta.
Imaginou se conseguiria passar outros quatro dias sem lhe
telefonar. Talvez um silêncio tão longo assim fosse demais para seu
orgulho. Talvez ligasse para ela essa noite — se pudesse tirar
Norma da cama e voltar cedo para casa. Iria persuadir a mulher
com quem se encontraria de que uma matinê seria mais excitante e
menos perigosa — graças a Deus pelo porteiro bisbilhoteiro — do
que um desempenho noturno.

Julie correu para o quarto da mãe no minuto em que pousou o
telefone. Naomi estava escrevendo para Sarah. Sorriu ao ver o rosto
da filha.

— Não me diga, deixe-me advinhar. Era Parker.
— Vamos sair para jantar amanhã. Eu sabia que ele ligaria, eu sabia.
— Ele explicou por que não telefonou? — Naomi mostrava
interesse sem nenhuma desaprovação.
— Disse que podia me contar um monte de mentiras, mas que
preferia me dizer a verdade amanhã à noite. — Julie sentou-se em
um grande pufe de cetim. — O que será? Mas não importa —
acrescentou. — Estou apaixonada por Parker. — Olhou para a mãe.
— Eu sei, querida.
— O que acha?
— O importante é o que você acha.
— Papai ficaria furioso se a ouvisse falar assim.
Naomi levantou-se e caminhou até as portas da sacada, com
almofadas e cortina de seda branca e algodão rebordado,

— E se seu pai não estiver apenas sendo difícil, Julie? E se estiver
realmente certo de que o casamento com Parker será um erro?

— Ele ainda nem me pediu.
— Mas você sabe que o fará.
Julie parecia determinada. Com esse ar resoluto, assemelhava-se a
Arnold mais do que imaginava.
— Se pedir, eu aceito.
— Você conhece o rapaz há poucas semanas — Naomi preveniu.
— Não creio que seja necessário muito tempo para se conhecer bem
um homem. Tia Sarah amou Lazar no minuto em que o viu e ainda
ama.
— Sarah é diferente da maioria das mulheres — argumentou
Naomi. — Graças a Deus — acrescentou.
— Você sempre disse que uma pessoa é diferente da outra —
lembrou-a Julie.
— Ainda penso assim, mas todos nós temos algumas coisas em
comum. Erros, por exemplo. Todos os cometemos.
Julie estudou o diamante em forma de coração que Arnold lhe dera
quando fez dezesseis anos e a malaquita que Sarah lhe enviara pelo
tio Josh no aniversário desse ano. "
— Você não errou — respondeu à mãe.
Naomi quase lhe contou, então — ela parecia estar perguntando.
Mas esse não era o momento de sobrecarregar Julie com seus
próprios problemas e certamente não era o momento de influenciála
de um jeito ou de outro. Tentara formar o caráter da filha de
modo a deixá-la tomar decisões por conta própria. E foi por esse
motivo que não interferiu com mais firmeza nos planos de Arnold
para Julie. Se Naomi fora bem-sucedida com a filha, Julie decidiria
por si mesma se queria ou não ingressar na Duquesa.
Aproximou-se de Julie.
— Conheço seu pai desde que nascemos. Crescemos juntos.
Julie riu, erguendo os olhos para a mãe.
— Você teve sorte. Não cresci com ninguém igual a papai. Durante
um tempo, pensei que queria casar-me com Benjamin. Ou Seth,
quando era muito pequena. Mas isso foi antes de conhecer Parker.

Agora sei que existem diferentes tipos de amor e que só nos
casamos por causa de um.

— É o tipo de amor que faz um bom casamento? — Naomi também
estava indagando a si mesma.
Julie balançou a cabeça.
— Não é só isso, muito embora eu. . . bem, eu realmente sinta
isso por ele. Simplesmente o -compreendo, sei como se sente. Tenho
certeza disso. E acho que Parker me compreende da mesma forma.
Ele quer o dinheiro.. . oh, sim, papai está certo a esse respeito. . .
mas quer a mim também, mesmo que ainda não saiba desse fato.
Naomi segurou as mãos da filha e fez com que se levantasse.
Abraçou Julie.
— Tudo bem, querida. Só não quero que se magoe, e seu pai
também não. Procure certificar-se do que deseja, antes de casar-se
com Parker. Procure ter certeza de que não é apenas "química". Só
há um jeito de descobrir e, mesmo assim, leva tempo para saber.
A intenção da mãe era inconfundível, mas não embaraçou Julie, se
bem que a surpreendesse um pouco.
— Já tenho certeza — respondeu, pensando em O'Connor. Mas
não explicou se tinha planos para se certificar disso, e Naomi não
perguntou.
Julie beijou-a, antes de sair do quarto.
— É bem possível que eu durma no apartamento amanhã. Telefono
para você assim que chegar lá. Sem aquele apartamento, eu seria
geograficamente indesejável.
— Não deixe de ligar, por mais tarde que seja.
— Ligo, sim — prometeu Julie. Partiu em um rodopio de alegre
expectativa.
Naomi sentou-se à mesa e olhou, sem ver, para o que escrevera a
Sarah. Não se encontrava com Joshua desde a festa de aniversário
de Julie, mas ele era esperado de volta a Nova York com Benjamin
dentro de alguns dias. Não haveria chance de vê-lo até Benjamin e
Julie irem para a escola, dali a uma semana.

Você não errou, Julie tinha dito. Oh, mas errou, sim. O casamento não
se limita a sexo, mas este é uma parte importante dele. A vida não
se limita à paixão, mas como é terrível sua ausência absoluta. Ela
não era uma mulher profundamente erótica por natureza, mas, por
causa de Joshua, havia conhecido alguns momentos de paixão.
E, ultimamente, por causa de Arnold também. Foi uma boa saída
culpar o champanha pelo seu comportamento daquela noite, mas,
ao descobrir o que a agradava, Arnold queria agradá-la ainda mais.
Ela não podia e nem iria recusá-lo. Era incrível que sua primeira
satisfação sexual com o marido viesse após vinte e cinco anos de
casamento, quando estava na meia-idade. Mas isso não alterava
nada. Afinal de contas, ela cometera um erro.
Nem conhecia Parker Mitchell. Só podia esperar que o instinto de
Julie fosse melhor do que o seu tinha sido no passado, que a sua
única filha não sofresse. Fizera tudo o que sabia para evitar tal coisa.
Preparou-se para relatar tudo a Sarah. Tinha uma idéia do que a
cunhada diria: "Se você está viva, se machuca. O único jeito de
evitar o sofrimento é morrer, como Lazar, e essa é uma cura muito
radical".

Capítulo 41


Parker só percebeu o quanto sentiu falta de Julie quando ela entrou
no restaurante. Havia se esquecido de como ela era adorável.

— Estas são para você — ele disse, quando sentaram a uma mesa
tranqüila de canto. Entregou-lhe um buquê de violetas em um
antiquado prendedor de prata.
— Oh, Parker, é lindo! E as flores também.

— O prendedor era de minha mãe. Ela o usou na sua festa de
debutante.
— Como se chamava? — Esse presente a comovia mais do que
qualquer outro que ele pudesse ter lhe dado.
— Paige Parker. Antes era Mitchell. Era muito bonita, assim como
você.
Parou e fez um sinal para o garçom. Pediram os drinques, e depois
ele prosseguiu:
— Deve sempre usar essa cor. Com essa pele de porcelana e um
cabelo cor de mel como o seu, não sei qual parte de você quero tocar
primeiro.
O garçom trouxe os drinques, e Julie tomou um bom gole do seu,
agindo como se estivesse acostumada a beber, como se não fosse
menor de idade.
— Mas você nunca... me tocou. Passou dias sem telefonar.
Parker acendeu um cigarro, evitando seus olhos.
— Não porque eu não quisesse.
Ela esperou, sem dizer nada, aguardando o resto.
— Droga, Julie — ele replicou, afinal —, você sabe como são as
coisas. Sabe como me sinto a seu respeito, mas não há uma chance
no mundo de que me case com você. Não durante muito tempo.
Não até que tenha algo para lhe oferecer. — Não estava em seus
planos que as coisas acontecessem tão depressa, mas ao menos
havia mencionado casamento. Queria ver sua reação.
— Você está se referindo a dinheiro — falou Julie. Ela não disse que
o dinheiro não importava. Sabia muito bem que não era assim.
— Sim, é lógico, dinheiro — Parker concordou abruptamente. —
Nunca tive muito dinheiro mesmo, mas também nunca me importei
muito com isso. Agora me importo. Nunca haverá o bastante para
alguém como você. Ou seu pai.
— Você não sabe quanto dinheiro é bastante para mim. E meu pai
não tem nada a ver conosco.

— Ele pensaria que me casei com você por esse motivo —
argumentou Parker, amargurado porque isso fora verdade desde o
início, ainda era verdade em parte. Fitou-a com o olhar mais
inocente que conseguiu encontrar. — Você não pensa o mesmo?
Julie assentiu com a cabeça, e Parker sentiu um aperto no peito.
Depois ela explicou:
— No princípio, sim. Mas não agora. Ele pegou sua mão.
— Por que não agora?
— Porque não é mais verdade.
Parker apertou a mão de Julie, atônito com sua percepção. Depois
beijou sua mão. Isso deu-lhe tempo para pensar. Estava confuso.
Um sucesso estratégico se transformara em uma realidade
emocional. O dinheiro não era tudo o que queria.
— Não, não é mais verdade — sussurrou. O absurdo é que estava
sendo sincero. Estava tão apaixonado por essa garota quanto podia
estar por uma mulher. Desejava Julie quase tanto quanto queria o
dinheiro.
— O que vamos fazer? — Parker pensou em voz alta, transferindo a
decisão para ela. — Seu pai nunca acreditará em mim.
— Vamos para o seu apartamento. Ele não terá escolha. Parker não
planejava que a sugestão viesse dela. Não
esperava que Julie fosse tão objetiva — ou que quisesse ir, sabendo
que ele realmente estava atrás de sua fortuna.
— Julie, este não é o modo certo de começarmos. Não é desse jeito
que obteremos a aprovação de seu pai.
— É o único jeito. — Ela o encarou com aquele olhar direto que
tinha. Embora por razões diferentes, ambos precisavam de Arnold.
Levantaram-se para sair, o jantar esquecido. Quando Julie
finalmente entrou no quarto enxadrezado em preto, marrom e
branco, onde tantas mulheres estiveram antes, parecia deslocada.
Suas mãos retiraram as jóias. Ela estava sorrindo, mas não os olhos.
Parker aproximou-se para abraçá-la.

— Julie, deixe que a leve para casa. Não precisa. . . .
— Eu quero — Julie interrompeu, a boca em sua face. — Só não sei
como.
Parker tirou o paletó, mas não se despiu, dominado por uma
estranha timidez. Abriu o zíper do vestido de seda, e ela o tirou
pelas pernas. Usava uma combinação de cetim verde-claro,
enfeitada de renda Alençon. Ele baixou as alças e sentiu-a tensa,
embora Julie não se afastasse. Sua modéstia o comovia, além de
excitá-lo.
Virou-a de frente para si e beijou-a com ternura, até que a tensão
desapareceu. Depois levou-a para a cama e retirou-lhe as
minúsculas peças de roupa íntima, enquanto lhe acariciava as
costas. Estreitou-a com força, aspirando o perfume de seu cabelo. A
mão foi das costas para os seios redondos, acariciou os mamilos e
desceu para as coxas. Ela suspirou de prazer quando ele a tocou.
Era úmida e macia como seda, e ele podia tê-la possuído então, mas
esperou. Queria ligá-la a si através do sexo e também do amor. Os
homens podiam ser impulsionados pelo sexo; as mulheres eram
conquistadas pelo homem que lhes oferecesse o tipo certo de amor.
Aguardou até que ficasse ofegante e trêmula. Quando a penetrou,
Julie uniu-se a ele com um movimento dos quadris e acompanhou-
lhe o ritmo quando o sentiu mover-se dentro de seu corpo. A boca
colada à dele era tão acolhedora quanto o corpo, as coxas
prendendo-o com força inesperada. Parker sabia que Julie era
virgem, mesmo sem o obstáculo tradicional, mas era também tão
sensual quanto sua intuição lhe sugerira.
Sürpreendeu-o que ela se entregasse com tamanho abandono. E
estava triunfante com a certeza de que essa posse a forçaria
irremediavelmente a casar-se com ele.
Os sentidos o aprisionaram, e esqueceu que ela era Julie e ele,
Parker.

O que não sentiu foi a vaga repugnância que sempre surgia
rapidamente após o orgasmo, nunca dominante, jamais igualando-
se ao prazer experimentado, mas sempre presente por uma fração
de segundo. Não sentiu nada disso. Tudo fora de uma sublime
sensualidade, mas também algo mais do que isso. Não se apercebia
de que confiava nela implicitamente, que queria sua adoração, além
do dinheiro. Precisava do dinheiro bem menos do que precisava de
Julie.

— Fique comigo esta noite — implorou. — Pode?
— Sim. Ela o beijou. — Mas tenho de avisar minha mãe que estou
bem.
— Quer ir ao apartamento?
— Não, está tudo certo. Mamãe nunca telefonaria para lá sabendo
que estou segura. Será que estou?
— Não.
Eram quase duas da madrugada quando se lembrou de ligar para a
mãe. E estava certa. Naomi não telefonara para o apartamento a fim
de confirmar se realmente estava tudo bem.
Mas Arnold telefonou.
— Julie não está lá — disse, irrompendo no quarto de Naomi. —
Liguei para o apartamento, e a empregada informou que ela não
estava lá. São quase duas horas. Está passando a noite com aquele
caça-dotes filho da puta.
— Arnold, não há nada que você possa fazer a esse respeito.
— Acha que vou deixar a minha Julie casar com um miserável
daquela espécie?
— Talvez agora ela não queira casar-se com o rapaz. Arnold olhou
para a esposa, chocado, compreendendo.
— Está dizendo que poderia tirá-lo da cabeça desse jeito? Deus,
tomara que sim! Mas como pode ficar assim tão calma quando sabe
que Julie está. . . dormindo com esse sujeito? Fico enojado só de
pensar nisso.

Naomi levantou-se e vestiu o penhoar.

— Arnold, isso tinha de acontecer um dia. Com ou sem casamento,
você não gostaria da idéia. Ela ainda é uma garotinha para você,
não uma mulher com vida própria. — Estendeu a mão. — Olhe,
vamos descer e tomar um conhaque. Você parece precisar de um.
Arnold seguiu-a escada abaixo, ainda surpreso pela calma com que
a esposa aceitou o fato. Pelo modo como Naomi sempre fora em
relação a sexo — até recentemente — havia contado com algum tipo
de indignação moral. Não tinha a menor idéia de que Naomi temia
tanto quanto ele a possibilidade de ter permitido que Julie
cometesse um terrível engano. O que ela deveria ter feito antes do
casamento era ter ido para a cama com um homem. Mas Julie era
sua filha, não Naomi.
— Devo falar alguma coisa com ela amanhã? — Arnold abriu a
porta do escritório.
— Deus, não! — Julie ficaria muito zangada.
Ele pegou o copo de conhaque que Naomi lhe deu.
— Mas ela mentiu para você há pouco no telefone.
— Não, avisou apenas que estava bem, mas não mencionou onde
estava.
— Bem? E se engravidar?
— Isso não acontecerá se Julie não quiser. — Respondeu à pergunta
do marido antes que ela a fizesse. — Providenciei para que Julie
usasse um diafragma no ano passado.
Arnold sentou-se.
— Não entendo mais você — replicou, a voz muito rouca. — Queria
que Julie fizesse uma coisa dessas?
— Eu queria que ela tivesse uma opção. Não desejava que se
casasse com o primeiro homem que julgasse amar. Queria que
tivesse tempo bastante para se certificar de que não era apenas sexo.
— Naomi o observava, tentando escolher as palavras. — Julie não é

igual a mim. Ela sente. . ... ela não é fria como eu. — Nunca
imaginou que isso fosse tão difícil de dizer.
— Mas você não é, não realmente. É o modo como foi educada. —
Estava embaraçado, pensando em como ela era agora, as pequenas
exigências, poucas, mas muito claras e insistentes, que fazia na
cama, o modo como o tocava agora.
Naomi respirou fundo.


— É por isto que a criei de maneira diferente.
Ele não falou nada durante um tempo, bebendo o conhaque,
pensativo.
— E você a deixa ser usada por um homem que nem conhece sem
se perturbar?
— Quando uma relação é muito forte, não se pode impedi-la. Julie
não é tola. Sabia desde o princípio que o rapaz queria seu dinheiro.
Mas agora ele a quer — Naomi parecia pálida e nervosa. — Tenho
tanto medo de perdê-la, se fizermos alguma coisa para acabar com
esse namoro. Arnold, eu não suportaria isso.
— Nem eu. — Tornou a ficar silencioso, tentando compreender
tudo aquilo. Era chocante demais que sua filha dócil e gentil tivesse
uma vontade tão forte quanto a sua.
-Arnold — Naomi disse, hesitante, outra vez cuidadosa
na escolha das palavras. — Nós dois não tivemos isso,
esse lado do amor. Não tire isso de Julie.
Ele ergueu-se então, esquecido de Julie.


— Não diga "nós", Naomi. Sempre tive esse sentimento por você.
Meus Deus, ainda sinto o mesmo desejo toda vez que penso em
você. — Os olhos estavam embaraçados de raiva e de uma antiga,
muito antiga reprovação. A mão bateu no peito, e a voz tremeu. —
Eu amo você, diabo, amo você. Mas sempre que a tocava, sabia que
não me queria.
As mãos dela seguraram com força o copo de conhaque.

— Nunca tive a intenção de magoá-lo, Arnold. É que o meu
temperamento é assim mesmo.
— É coisa nenhuma! Você queria meu irmão desse jeito. Desde o
dia em que nos casamos, você o quis. Acha que sou cego?
O copo de conhaque escorregou das mãos trêmulas de Naomi e caiu
no tapete com um ruído abafado.
— Durante todos estes anos, você pensou nisso e nunca comentou
nada?
— Tinha medo de perdê-la, esse é o motivo. Mas nunca a possuí de
verdade. Você nunca me amou. Não sei por que se casou comigo, a
não ser para partir meu coração.
Ela achou que nunca mais voltaria a respirar, mas Arnold continuou
falando, exaltado.
— E quando o esqueceu, porque Joshua amava apenas o seu
precioso Estado de Israel, não sobrou muita coisa para mim.
Ela se sentou de repente, cobriu o rosto e chorou como não fazia
desde a noite em que Joshua a abandonou, a fim de ir para a
Palestina. Chorou porque Arnold a amava demais para suspeitar
que o desejo fora saciado, porque ele suportara a mágoa em silêncio,
ao invés de arriscar-se a perdê-la, e isso era mais amor do que
alguém merecia receber.
Arnold tinha razão também quanto ao fato de Joshua amar apenas
Israel.
Só estava errado em uma coisa. Ela não deixara de amar Joshua, por
mais que quisesse. Entretanto, depois dessa noite, como poderia
continuar encontrando-se com ele?
Arnold a observava, dividido entre a fúria e o alívio por finalmente
haver desabafado. Nunca a ouvira chorar assim nem mesmo
durante todos aqueles anos antes do nascimento de Julie, como se
não houvesse nada no mundo capaz de aliviar a dor.
Era inútil. Naomi não partira seu coração, apenas o ferira e o que
restou continuava a amá-la exatamente como antes talvez mais



ainda. Acabava de perder Julie para outro homem; não queria
perder Naomi também.
Por fim, aproximou-se dela e a pós de pé, ainda solu çante, para
estreitá-la nos braços.


— Não se aflija, querida, eu não queria dizer nada disso Estou
preocupado com Julie. Não chore assim, não posso suportar isso.
Continuou falando, até que ela se acalmasse, com a cabeça pousada
em seu ombro e os braços o envolvendo.
— Amo você — ela sussurrou. — Amo realmente. — Encostou-se
nele como se fosse cair sem seu apoio.
— Eu sei — respondeu Arnold. Não era o tipo de amo que queria,
mas era melhor do que nada.
Começaram a subir a escada. Um tremor súbito a domi nou, e ele a
puxou mais para si. No topo da escada, ambos olharam para o
quarto de Julie, depois um para o outro.
— Arnold, por favor. . . . Não quero perdê-la.
— Não se preocupe, não vou criar nenhum caso se ela quer
realmente esse rapaz. Mas ficarei de olho nele. — Estava
acostumado a controlar seus sentimentos para conservar o que
amava.
Arrumou Naomi na cama, beijou-a e foi para o seu quarto. Tinha
muito em que pensar. Se conseguisse mandar Julie para a escola,
isso lhe daria tempo. Talvez ela mudasse de idéia, agora que
estava... satisfeita. Fez uma careta ante a idéia e procurou não
pensar em Julie fazendo amor com alguém como Parker Mitchell.
Essa imagem foi substituída por outra. A da esposa com o irmão.
Quando uma relação é muito forte, não se pode impedi-la. Será que o
sentimento fora demasiadamente forte para que conseguissem
eliminá-lo? Talvez ela tivesse tentado lutar contra isso, mas não
Joshua, não do modo como estava agora, não se importando com
nada que não fosse sua cruzada pessoal. Contudo, Naomi se
considerava "fria". Se algo havia acontecido algum dia, quando foi?

Apagou a luz e, com ela, todos os acontecimentos dessa noite.
Nenhum dos dois mencionaria o fato, assim era esse casamento. Sua
vida conjugal permaneceria inalterada. Julie iria para a escola, e,
depois, decidiriam.
Porém, em fins de novembro, Julie retornou do colégio para o
feriado do Dia de Ação de Graças com a notícia de que estava
grávida. Parecia feliz demais para que o pai fizesse outra coisa
senão aceitar o inevitável. Não havia nada a decidir, a não ser
quanto aos preparativos do casamento. A essa altura, Arnold, tinha
se encontrado com Parker Mitchell algumas vezes e confirmado sua
péssima opinião sobre o homem.

— Acho melhor vocês fugirem para casar — disse Arnold, tentando
olhar para Parker e não conseguindo, como sempre. Ao invés disso,
fitou Julie, evitando a idéia da gravidez.
— Por causa do bebê — Julie concordou. Naomi interrompeu.
— Comunicaremos a todos, logo que vocês se casarem. Assim não
vamos ferir os sentimentos de ninguém. Poderíamos dar uma
grande recepção aqui em casa durante os feriados de Natal.
Arnold concordou. Era conhecido demais para que a filha se casasse
sem oferecerem algum tipo de festa. Já era bastante desagradável
que a criança fosse "prematura". Seu neto.
— Está tudo bem para você? — Julie indagou a Parker. Uma
expressão de profunda antipatia cruzou o rosto de
Arnold.
— Acho que tudo o que quisermos estará bem para ele — retrucou
Arnold em tom ofensivo.
Parker corou. Não tinha nenhuma ilusão quanto à opinião de
Arnold a seu respeito. Mas achava que tinha a simpatia de Naomi.
— Tudo que Julie quiser — replicou, enfatizando o nome. O único
jeito de controlar Arnold era através de Julie.
Naomi pousou a mão apaziguadora sobre o ombro de Arnold. Não
ia ser fácil.
— Acho melhor vocês fugirem logo.

Os dois se foram no MG, antes que houvesse algum problema sério.
Naomi gostava de Parker, mas Arnold não precisava saber.

— Procure não julgá-lo, até que o conheça melhor — disse Naomi,
quando ficaram a sós na sala silenciosa demais.
— Serei obrigado a trabalhar com esse crápula, quando ele
ingressar na Duquesa. Comparado a isso, julgá-lo é até fácil.
— Já conversou com Parker sobre a Duquesa?
— Eu esperava que isso não fosse necessário. Mas ele não ganha o
bastante nem para alimentar o cavalo de Julie, quanto mais lhe dar o
que ela está acostumada a ter.
Naomi segurou-lhe a mão.
— Vai dar certo, Arnold, se não se exaltar com o rapaz. Ele tem seu
orgulho.
A voz de Arnold mostrou cansaço.
— Não ligo a mínima para o orgulho dele. Esse sujeito não vai
arrancar o que custei tanto a conseguir sem pagar caro por isso. Já
basta que esteja fodendo com a minha filha.
Ele nunca falara palavrão antes. Esse fato a surpreendeu, mas
também o tornava menos disciplinado, não tão severo. Agora não
havia nada que não tivessem dito um ao outro — exceto uma coisa,
e isso ela tinha jurado que o marido nunca descobriria.
— É melhor começarmos a escrever um telegrama — sugeriu
Naomi. — Talvez Sarah venha para a festa!
— Tomara que sim. Gostaria de ouvir o que ela pensa sobre o nosso
genro. Ninguém consegue enganar aquela mulher.
Naomi olhou de relance para o marido, mas não existia nenhum
significado oculto em suas palavras. E ele estava certo. Havia muito
pouco que Sarah não soubesse sobre as pessoas que a interessavam.

Capítulo 42

YAD MORDECHAI — dezembro de 1953

Acho que vocês dois deviam vir comigo — insistiu Sarah, vendo
Elea correr para os campos. Deu uma risada. — Olhe só para ele,
mal pode esperar para chegar logo àquelas malditas rochas. —
Virou-se para Rachel. — Acho realmente que vocês deviam vir. Será
uma boa maneira de celebrar o ano-novo.

— Não sei. É uma longa viagem, e nunca saí de Israel em toda a
minha vida. O que eu faria em uma festa de grã-finos?
— Assombraria a todos com sua beleza e inteligência, o que mais?
Iremos a Tel Aviv comprar uns dois vestidos importados de Paris.
Não há nada como uma roupa elegante para nos dar confiança.
Quando eu dirigia todo o departamento de vendas de Arnold,
cheguei a gastar até o último centavo em um fantástico conjunto de
vestido e casaco. Coisas assim faziam com que eu me sentisse
segura e sofisticada, como acabei sendo. — Sorriu para a cunhada.
Rachel devolveu o sorriso.
— Isso iria surpreendê-los, a pioneira em um vestido de Paris.
Provavelmente esperam que eu apareça de macacão.
— Ou com uma faixa de fios dourados cobrindo o peito, como nas
minas do Rei Salomão e assim por diante. Bem, o que decide?
— Preciso pensar no caso. . . — começou Rachel, mas o barulho de
uma britadeira pneumática a interrompeu. Havia sempre o som de
alguma coisa sendo construída em Yad Mordechai. Do vilarejo
original, restava apenas a torre de água derrubada, uma lembrança
da batalha pela independência, que custara a vida de Ben e de
tantas outras pessoas. Desde 1949, o kibbutz vinha sendo
reconstruído totalmente, pouco a pouco abandonando os austeros
prédios de concreto, perfurados por buracos de balas, em favor de
pequenas casas familiares de dois cômodos cada uma.

Estavam erigindo um museu dedicado ao Gueto de Varsóvia, e sua,
biblioteca seria impressionante. Yad Mordechai também estava
muito maior. Incorporava as aldeias abandonadas pelos árabes,
quando a maré da guerra mudou em 1948. Os acampamentos na
Faixa de Gaza, que ainda abrigavam refugiados árabes cinco anos
depois, eram visíveis dos telhados das casas dos colonos.
"É sempre a mesma velha história", Sarah costumava dizer. "Penso
no Gueto de Varsóvia e sei que temos o direito de estar aqui. Olho
para aqueles campos e sei que eles também têm direitos. Por que as
nações árabes não abrigam essa gente? Eles têm mais espaço do que
nós neste Éden do tamanho de um ovo."
Mas, após um tempo, os colonos pararam de discutir o assunto e
simplesmente prosseguiram na tarefa de construir um kibbutz e
viver nele. As rosas floresciam em Yad Mordechai — poderia haver
um grande mercado para a exportação de flores frescas enviadas à
Europa por via aérea. Também produziriam mel, além de frutas
cítricas e laticínios.
A britadeira parou.

— Já pensou no caso? — perguntou Sarah.
— É muito dispendioso.
— Não me venha com essa, Rachel. Dinheiro não é nenhum
empecilho, o problema é encontrar Naomi, não é?
— Sim. Suponha que você precisasse se encontrar com uma mulher
que Lazar amou antes de apaixonar-se por você. Ou mesmo depois.
Como se sentiria?
— O passado não conta.
— Bem, então depois — insistiu Rachel.
— Não tem nada a ver. Joshua não sentia mais nada por Naomi
quando se casou com você. E depois. . . bem, ele mudou. E não
preciso lhe dizer o quanto mudou. Como você bem sabe, amor não é
absolutamente o aspecto fundamental na vida de meu irmão. Não
deste irmão, de qualquer modo. — Despenteou o cabelo curto. —

Sabe, é engraçado. Josh sempre foi o romântico da família, mas
agora Arnold é que é o eterno apaixonado.

— Naomi tem sorte de saber de uma coisa como essa.
— Mas como ela pode saber, se o bobalhão não lhe diz? Arnold a
trata como um bibelô de Dresden. Devia dar umas boas palmadas
naquele traseiro e arrastá-la para a cama! E é isso o que Naomi julga
querer, tal como no cinema.
Rachel franziu o cenho.
— Pelas fotografias, ele não parece ser esse tipo de homem.
— Aí é que está o problema. Arnold não é. E nem ela, de fato.
Naomi ansiava por uma espécie de sheik da Arábia, o tipo de coisa
que termina com ondas quebrando na praia. Joshua parecia ser
assim.
Sarah foi cautelosa ao colocar tudo no passado. Não tinha muita
certeza de que o caso terminara, após alguns dias em um trem, no
fim da guerra.
— Joshua é assim. E sem ondas — replicou Rachel.
— Sarah levantou-se.
— Não revele os segredos do quarto ou também o farei.
— Oh, Sarah, existe alguém?
— Existem vários, mas não adianta. Continuo à procura dele,
entende o que quero dizer? De vez em quando, aparece um homem
que é quase como Lazar, então permito que se aproxime de mim um
pouco. Mas é só uma característica, não tudo, e isso aumenta ainda
mais a saudade. — Olhou para longe, ocultando seu rosto de
Rachel. — Onde está aquele seu filho? Você acabará perdendo Elea
para um dinossauro, se não tomar cuidado. Há algo estranho em
um menininho que gosta de desencavar antiguidades, tal como ele
faz. Devia pedir uma pílula qualquer a Isaac.
Rachel passou um braço em volta de Sarah, deixando-a tagarelar.
Às vezes, achava que seria melhor para Sarah sair de Israel, agora
que os filhos estavam crescidos — Seth tinha vinte e um anos,
Rebekah, vinte e dois. A sensação de perda nunca diminuiria,

enquanto vivesse aqui, em um monumento em memória aos
homens que morreram com Lazar. Talvez Arnold pudesse
persuadi-la — ou Naomi, a mais velha amiga de Sarah.
De repente a curiosidade sobrepujou a relutância. Quem era essa
mulher que cativou dois irmãos e Sarah —-até mesmo" Benjamin,
que era tão cuidadoso na escolha de suas afeições?


Ele falava muito sobre a tia, desde que começou a estudar na
América. Ela não era apenas bonita, Benjamin nunca notava essas
coisas. Naomi devia ser mais, muito mais do que isso.


— Está bem — concordou Rachel. — Vamos com você. Sarah a
abraçou.
— Estou contente com isso.
— Provavelmente, você será a única a estar.
— Está se referindo a Josh? Bem, ele que se dane, se não gostar!
— Shai!
— É isso mesmo. Joshua não pode arruinar sua vida junto com a
dele.
— Foi outra coisa que destruiu a vida de Josh. Ele não tem culpa.
A raiva de Sarah esfriou.
— Creio que tem razão. Mas a guerra terminou há oito anos. Está na
hora de Josh esquecer-se de tudo, seja lá o que for. — Hesitou. —
Como ele trata Elea?
— Com reserva, do jeito que é com Benjamin, porém ainda mais. E
Elea o adora.
— Droga! — Sarah resmungou baixinho. — Ele já comentou alguma
coisa?
— Não, mas Josh acha que Elea não é seu filho, estou certa disso.
— Sabe, Rachel, talvez fosse uma boa idéia lhe contar a verdade.
— Como contar o que nem eu mesma sei?
— Não sabe merda nenhuma! — Sarah estava muito zangada de
novo. — Somente nos filmes é que as mulheres engravidam logo na
primeira vez. Tenho certeza de que você e Joshua não eram
exatamente estranhos quando ele regressou.

— Nem um pouco, se está se referindo a sexo.
— Ora, que diabo, ele não tem nenhum motivo para desconfiar! A
não ser para tirar o corpo fora, porque é contra a reprodução. Oh,
Cristo! — exclamou, aborrecida consigo mesma. — Aqui estamos
nós remoendo tudo isso de novo, e eu jurei que não o faria. Esqueça.
Vamos resgatar Elea dos seus ossos velhos. Iremos a Tel Aviv
comprar algumas roupas. Então você não poderá mudar de idéia.
Capítulo 43

NOVA YORK — dezembro de 1953

Joshua pendurou os dois casacos em um armário junto à porta.

— Esse lugar é um bocado triste, não acha? Nunca presto atenção
onde estou quando você não está comigo. Então, tudo sai perdendo
na comparação.
Naomi atravessou a sala e sentou-se no sofá puído. Eles não se viam
a sós há meses, mas Joshua não a tocou, e ela estava feliz por isso.
— Quer uma xícara de chá ou um drinque?
— Chá, por favor.
Naomi o viu começar a preparar o chá na minúscula cozinha
Pullman do seu hotel residencial em Greenwich Village. A seus
olhos, era como se a barba ou as linhas cinzeladas naquele rosto não
existissem. Exceto quanto ao cabelo, Joshua poderia ser o mesmo
jovem que saiu de sua vida há tanto tempo. Mas agora ela já
desistira de reencontrar aquele homem.
— Por que as pessoas sempre tentam mudar umas as outras? —
disse a Joshua. — O tempo já faz isso, de qualquer maneira.
— Quem você quis mudar?
— Você, no passado. — Estava contente por Joshua não estar
olhando para ela. — Quis transformá-lo no que era antes.

Ele voltou-se para fitá-la, então.

— Se existe alguém que podia, é você. Há momentos em que
realmente o consegue.
Naomi continuava encantada com seu rosto. Mas, ainda assim, disse
o que pretendia dizer.
— Não posso mais continuar.
— Por quê? — Estava absolutamente imóvel.
— Por causa de Arnold. Ele não desconfia de nada sobre. . . isso.
Mas conhece meus sentimentos a seu respeito desde o princípio. O
próprio Arnold me contou. — Balançou a cabeça. — Sei que não
fará nenhum sentido para você, mas era diferente quando eu podia
fingir que não o havia magoado porque ele não sabia. Não posso
fingir mais.
O rosto de Joshua estava impassível. Apoiou-se na parede da
cozinha pequena e pobre, assemelhando-se a um profeta ou a uma
estátua grega, assemelhando-se a tudo, menos a um rabino
contrabandista de armas. Ou um amante.
— Não faz sentido mesmo — concordou. — Mas a decisão é sua.
Sempre foi.
— Nem sempre.
— Sim, sempre — ele insistiu. — Você fez sua escolha. Eu fiz a
minha. Ainda é assim que tem de ser. — A voz baixou. — Mas
preciso de você. Quando estamos juntos, consigo me esquecer de
toda a insanidade existente lá fora. Nesses momentos, parece certo
amar a vida, mesmo que precisemos deixá-la, no fim. Não diga
adeus antes do fim, Naomi. Por favor, não diga.
Parecia um gesto bastante inútil recusar um homem pelo que o
outro nunca precisaria saber. O problema era que amava a ambos, e
um dos dois sofria com isso.
— Não posso viver nesta armadilha, dividida entre vocês dois.
Nunca entendi como você conseguia.
— Não tente me entender. Simplesmente fique comigo. Ele nunca
descobrirá, juro.

— E Rachel?
— Rachel sempre soube.
— Oh, Deus. — Virou a cabeça. — O que ela disse?
— Nunca discutimos o assunto. Rachel compreende. Naomi ficou
abismada.
— Como pode ter tanta certeza, se nunca conversaram a esse
respeito?
— Conheço minha esposa. Ela foi criada em um mundo diferente
do seu, com valores diferentes. Para Rachel, o casamento não se
fundamenta na fidelidade.
— Nem para você, até agora.
— Fidelidade de quem, sua ou de Arnold?
— Minha, agora. E dele também, por causa disso. Você não se
importaria se Rachel. . . ?
O rosto dele mudou.
— Não posso estabelecer um conjunto de regras para mim e outro
para minha esposa. — Os olhos baixaram. — Não estou certo se
Elea é meu filho.
— Oh, Joshua, não! — Como uma mulher casada com ele podia
querer outro homem? — Foi por nossa causa?
Ele balançou a cabeça.
— Por que ficava muito tempo sozinha?
— Eu estava em Israel nessa época. Mas não queria outro filho. —
Encarou-a, os olhos cheios de perguntas. — Ou talvez ela
necessitasse do tipo de amor que outro homem tinha, a lhe oferecer
na ocasião. Isso não importa. Ela é dona de si própria.
Naomi sabia que isso importava para ele. Exceto quanto à noite em
que Joshua lhe contou sobre a gravidez de Rachel, Naomi nunca
pensava nela como uma pessoa, apenas como a esposa de Joshua.
Por todos os comentários que ouvira sobre Rachel, ela realmente era
uma mulher independente, Naomi não era assim. Ela dependia de
muita gente. Inclusive desse homem que duvidava da própria
paternidade.

— Foi por isso que ficou tão zangado com Rachel, quando soube do
bebê?
— É lógico que não! Eu achava que era meu e ainda assim não
queria. — Estava tentando manter a calma. — Este não é um mundo
para os inocentes, Naomi. É um lugar cruel e terrível. O pouco de
beleza e amor que existe aqui é apenas mais uma das monstruosas
piadinhas da natureza, um meio de ocultar-nos a verdade brutal. Só
com você é que me esqueço dessa verdade. — Ele não tinha se
mexido, mas parecia estar procurando alcançá-la. — Você é a única
pessoa na minha vida que não está ligada a medo, sofrimento e
morte implacável. Preciso de você tanto quanto ele. E até mais.
Ela deveria ficar feliz ao saber disso, mas, por alguma razão, estava
furiosa.
— O que isso significa? Que sou uma mercadoria que vai para
quem for mais necessitado? Não quero ser necessária. Quero ser... .
conhecida. Por mim mesma. Quero conhecer você. Mas você nunca
permite que me aproxime, não de fato. — Na verdade, ela também
nunca deixara que Arnold se aproximasse dela. E esse fato fazia
com que se sentisse tola e injusta. Falou com mais calma. — Eu
existo, Joshua, fora dos sonhos de alguém, até mesmo dos meus
próprios sonhos. O que espera que eu faça com todas as horas em
que não sou a fantasia de alguém?
— O que você quer fazer?
— Não sei — Naomi respondeu honestamente. — Parar de fingir
ser algo que não sou, creio. Não sou assim tão doce, bondosa e
encantadora. E também não sou especialmente passional, exceto de
vez em quando, com você. Sabia disso?
Ele balançou a cabeça.
— Oh, Josh. — Os olhos azuis estavam confusos. — Como
realmente nos conhecemos pouco. — Levantou-se. — É tarde.
Preciso ir.
Joshua a viu caminhar até o armário para pegar o casaco. Estava
com a mesma aparência elegante de sempre. Exceto na cama. Lá

parecia jovem e desarrumada. Esta era apenas outra ilusão. Sabia
que a vira amadurecer, desde a noite em que regressou da guerra.

— Vai voltar?
A voz saiu abafada pelo armário. Achava que, se Joshua a tocasse
agora, acabaria ficando. Ele sabia disso, mas "não era o tipo de
homem que usaria esse recurso. Isso só fazia com que o amasse
mais.
— Continuo amando você. Se me quisesse, Joshua, eu me
divorciaria de Arnold para que nos casássemos. Mas não posso
levar duas vidas diferentes, mesmo que você possa. Preciso fazer o
que tenho de fazer.
Vestiu o casaco, olhou para ele por um segundo, depois saiu,
fechando a porta suavemente atrás de si.
Joshua permaneceu onde estava. Um vestígio do seu perfume
perdurou no pequeno aposento solitário. Ela não tinha dito que não
— estava convencido de que voltaria. Naomi era o único conforto
que tinha. Havia uma suavidade nela, uma calma que era tão doce
quanto o mel. A única paz estava com Naomi, em Naomi. Mas ela
tinha razão, nunca permitira a ninguém uma aproximação maior.
Seus próprios amores o machucaram demais para que pudesse lidar
com os dos outros.
A água ferveu na chaleira com um assobio selvagem. Joshua tirou-a
do fogo e apagou a chama.
Então Arnold sabia, sempre soube — e nunca havia dito nada.
Nunca julgou Arnold capaz de manter esse controle de ferro.
Ocorreu-lhe que conhecia muito pouco o irmão. O atual
relacionamento dos dois era cordial, até amigável. Somente o mau
humor de Joshua o ameaçava — e agora Arnold aceitava isso com
surpreendente equanimidade.
A esposa do irmão.. . Lembrava-se de como se sentiu ao descobrir
que ela era esposa do irmão. Naomi amadurecera o bastante para
ceder ao sentimento que antes os uniu e também o bastante para
resistir a isso por algum tardio princípio moral.


Princípios eram um luxo desfrutado por poucos. Se tivesse lhe
restado algum, Joshua não conseguiria realizar seu trabalho. De
quem seria a vida que pereceria na mira de uma arma colocada por
ele nas mãos de um soldado desconhecido? De quem seria a carne
destroçada por uma das granadas que comprou? Quantas vidas
seriam eliminadas por sua causa? Contudo, essa tarefa precisava ser
executada, e, se não tinha escrúpulos em realizá-la, não tinha para
mais nada.
Deu um longo suspiro. Nessa noite, iria encontrar-se com Arnold e
alguns homens ricos que o irmão conhecia. Gostaria de cancelar o
compromisso. Nunca invejara a riqueza, a posição ou a vida de
Arnold. Apenas sua esposa, quando era moço e — por razões
diferentes — agora. Mas o dinheiro de Arnold era essencial, e
Joshua iria à reunião para obtê-lo, mantendo entre si próprio e
Arnold a mesma distância que conservava com relação aos outros.
Entretanto, havia ocasiões nas quais sentia necessidade de ver o
irmão ou conversar com ele. Arnold possuía um tipo de firmeza que
servia de âncora, quando as coisas iam mal. Sempre se sabia que ele
estaria lá.
Joshua derramou um pouco de conhaque no copo e examinou a
correspondência que jogara sobre a mesa. Havia uma carta de
Rachel que leu e releu.
Ela viria para a festa de casamento de Julie, junto com Sarah e Elea.
A carta não dava margem a discussão — Rachel sempre agia assim,
quando tomava uma decisão.
E então elas se conheceriam, as duas mulheres de sua vida. Tinha o
pressentimento de que esse encontro mudaria a vida de todos.
Continuou bebericando o conhaque e imaginando como seria. De
uma coisa estava certo: isso traria Naomi de volta ou separaria os
dois para sempre.
Finalmente, afastou esse pensamento e saiu para a reunião que
ocorreria às seis horas no apartamento de Arnold, na Quinta
Avenida. Nessa noite, Joshua mostrou-se mais impaciente do que


nunca com a necessidade de explicar a esses refinados magnatas de
barba e unhas bem tratadas que cada centímetro de terra em Israel
estava em constante perigo, e cada habitante daquele minúsculo
país, em permanente estado de alerta. Nessa noite, ele foi insultante
na recusa em aceitar o que esses homens ofereciam. Joshua exigiu
mais.

— Os árabes nos superam em uma proporção de quarenta para um.
E os senhores são bons em números. Os sírios podem bombardear a
Galileia das Colinas de Golan, sempre que quiserem. Há tropas
jordanianas flanqueando nosso setor de Jerusalém. E a imigração
está diminuindo não apenas porque os países do bloco soviético
suspenderam os vistos de saída para os judeus. Nem todas as
pessoas capazes de suportar as condições de vida que lhes
oferecemos são Einsteins! Precisamos ensinar a iemenitas da Idade
da Pedra como produzir, como assimilar, como lutar. Temos de
ensinar cada imigrante a falar hebreu. Isso custa dinheiro! E vocês
me dão desculpas!
Encarou os empresários elegantes, sentados em uma sala luxuosa,
bebendo uísque de vinte anos. Olhou ao redor da sala com
expressão mordaz.
— Isto aqui é muito diferente de uma colônia agrícola isolada, que,
de um momento para o outro, pode ser alvo de um ataque de
surpresa. Aquela gente necessita mais do que de algumas fracas
desculpas, para se defender.
— Já demos milhões — objetou um dos homens. — Por que insiste
em nos responsabilizar por cada judeu no mundo?
— Só pelos vivos — retrucou Joshua com voz desdenhosa. —
Podemos nos encarregar dos mortos.
— Acho que vocês estão cometendo um erro ao insistir tanto nesse
assunto. O mundo quer esquecer.
— Ora essa — disse Joshua, colocando mais ironia nessas duas
palavras do que Arnold já ouvira em toda a sua vida. — E a que o
mundo faz objeção exatamente?

Arnold mexeu-se, pouco à vontade.

— A que vocês fiquem esfregando isso no nariz de todos. Deixe
para lá, esqueça!
Joshua olhou para o irmão, depois para o círculo de rostos na sala, a
expressão tensa, implacável.
— Acreditam que a luta acabou? — A voz estava baixa, incrédula.
— Há infiltração maciça dos árabes através da fronteira e ataques
terroristas contra colônias localizadas no interior do país. — A mão
desceu com força sobre a reluzente mesa de mogno. — Pois não
terminou. Ainda não terminou] Crêem por um minuto sequer que
qualquer judeu está salvo em sua cama porque sepultaram com
tratores todos aqueles cadáveres e agora a grama cresce macia em
Auschwitz sobre aquele fertilizante obsceno? Meu Deus, como
alguém pode esquecer tudo isso?
Arnold não se manifestou mais. Os outros homens ficaram quietos.
— Lembrem-se também de outra coisa — prosseguiu Joshua. Os
homens que fizeram essas coisas eram seres humanos como vocês,
como eu. Se querem esquecer-se das vítimas, tenham piedade dos
criminosos, do outro lado de nossa natureza, o lado sombrio.
Haverá mais assassinatos, sabem?
Os homens se entreolharam.
— Do que você está falando, afinal? — indagou um deles. Após um
segundo, a voz de Joshua retomou o tom normal.
— Dinheiro. Isto é algo que todos nós compreendemos. Preciso
de dinheiro para comprar armas. Estou exigindo que me dêem mais
do que desejam dar. É só isso. — Foi direto, cortês e
ameaçadoramente encantador.
— Bem, se coloca as coisas dessa maneira.. .
Os homens tiraram os talões de cheque, rindo com ar incerto, a
princípio. Recusaram o oferecimento de Arnold para outra rodada
de drinques. Tinham coisas a fazer: festas, idas ao teatro, jogos de
bridge.

— Uma coisa tenho que dizer a seu favor, Rabino — um dos
homens comentou ao sair. — Você é infatigável.
Por um segundo, foi a voz de Lazar que ouviu, na primeira noite em
Giora. Isaac dizia a Lazar: Você nunca nos deixa esquecer, não é? Ao
que Lazar respondeu: Nem eles.
O homem olhava para Joshua, que replicou com sarcasmo:


— "Aquele que protege Israel não dorme e nem cochila". Fechou a
porta e retornou para junto de Arnold. O irmão
estava misturando mais drinques, obviamente furioso, mas procurando
controlar-se.
— Acho que não irão voltar mais.
— Vão, sim — assegurou-lhe Joshua. — O sentimento de culpa faz
aumentar o resgate. Eu devia saber.
A fúria borbulhante transbordou.
— Quem você pensa que é? — retrucou Arnold. — Algum tipo de
messias que precisa sofrer por toda a humanidade?
— Sofrer? — Joshua parecia abatido. — Não, eu traria todos de
volta, se pudesse. — Depois, estava zombando de si mesmo outra
vez. — Mas veja só, meus poderes como salvador, ao contrário dos
de nossos abençoados ancestrais de Nazaré. . . que, por falar nisso,
não se dignaram a aparecer nos campos . . . limitam-se aos judeus
em Israel. E salvarei o maior número possível deles. Agora, quanto
você vai me dar?
— O que quiser — respondeu Arnold com voz rouca. Joshua o
assustava quando falava desse modo. E sentia pena do irmão, além
de medo. Queria ir para casa, para Naomi e Julie. Queria certificar-
se de que as duas estavam bem. Queria até confortar esse homem
angustiado que possuía o que Arnold mais desejava no mundo e era
tolo o bastante — graças a Deus
— para preocupar-se apenas com outra coisa.
Joshua bebeu o conhaque.

— Tenho uma novidade para você — disse. Falou normalmente, o
espectro que o possuíra desaparecendo outra vez. — Rachel e Elea
vêm para a festa de Julie.
— Que bom — Arnold conseguiu responder, finalmente.
— Você está casado há vinte anos, e nunca vi sua esposa. Ela deve
ser uma mulher e tanto, com um filho como Benjamin.
Joshua não fez qualquer comentário.
— Como está Benjamin? — Arnold tinha de preencher o silêncio
pesado.
— Muito bem. Algum dia estará roubando segredos atômicos —
falou em tom de brincadeira. Era difícil descobrir o que ele tinha em
mente quando dizia coisas assim.
— Suponho que não demorará a casar. Joshua sorriu.
— Não, Benjamin acha que o casamento é ultrapassado. Rebekah
também. Está vivendo com o mesmo homem há cinco anos, mas
não pretende se casar.
— Ela mudará de idéia se tiver um filho — replicou Arnold,
examinando o copo.
— Julie está grávida? Arnold assentiu com a cabeça.
— É por isso que fugiram para casar. Eu gostaria de matar o filho
da puta. Ao invés disso, tenho de oferecer uma grande recepção
porque ele seduziu minha filha.
— Talvez seja mútuo. Não, não se zangue. Julie é determinada
demais para ser seduzida. E os dois parecem tão felizes que deve ser
mútuo, tanto com relação ao casamento quanto ao bebê.
— Não venha me dizer agora que o sujeito está apaixonado! —
objetou Arnold. Diga-me se Naomi continua apaixonada por você,
acrescentou em pensamento.
— Amor é uma coisa que não conheço — respondeu Joshua. —
Mas, na minha opinião, os dois são devotados um ao outro.
Se você não sabe nada sobre o amor, como me rouba o amor de Naomi?

— Ele é devotado apenas ao dinheiro de Julie — insistiu Arnold.

— Como sou ao seu. — Joshua levantou-se. — Isso não significa
que não gosto de você. — Começou a andar no jeito nervoso que
substituía a calma original.
Arnold o observava, confuso e comovido com essa inesperada
declaração de afeto. Embora não conhecesse nada sobre o amor, ele
"gostava" de Arnold. Esta era uma mistura de emoções conflitantes.
Arnold odiava demais a desordem para alongar-se no assunto.
Pigarreou.
— Naomi acha que devo lhe dar uma oportunidade na Duquesa.
— Ela está certa. — O rosto de Joshua estava oculto nas sombras da
sala.
— Não é fácil. Julie é minha filha.
— As duas são, Julie e a Duquesa. E você sempre quis um filho.
— Não como ele! Como. . . bem, durante um tempo cheguei a
pensar que ela poderia se casar com Benjamin.
Joshua parou de andar.
— Sim — disse suavemente. — Você teria desejado esse casamento.
Mas, afora isso, obteve tudo o que quis.
— Você também — replicou Arnold, deixando a mentira continuar
presente entre os dois.
Joshua parecia não tê-lo ouvido.
— Preciso ir, tenho um compromisso.
— E já está na minha hora de voltar para casa. Apagaram as luzes,
pegaram os casacos e saíram do apartamento.
— Quer que eu o deixe em algum lugar? — indagou Arnold no
elevador.
— Não, fica a poucos quarteirões daqui. Telefono para você dentro
de um ou dois dias. — Joshua partiu abruptamente.
Os dois seguiram em direções opostas. Arnold sabia que sempre
fora assim com eles, mas dessa vez era diferente. Arnold entrou no
Rolls Royce, que o aguardava.
Alguma coisa em Arnold — não o que fazia, mas algo que era —
atormentava seu irmão, assim como a personalidade do irmão o

atormentava. Contudo, "gostavam" um do outro, dois homens
unidos por um laço que não compartilhavam com mais ninguém: o
sentimento fraterno.
Essa compreensão fez com que Arnold quisesse chorar por todos os
anos perdidos no passado e no futuro, porque, por maior que fosse

o afeto entre os dois, nunca se conheceriam realmente.
Capítulo 44

SANDS POINT — dezembro de 1953

Nunca tinha havido uma festa como essa em Sands Point. Os
inúmeros jantares oferecidos no correr dos anos eram sociais apenas
superficialmente — os convidados eram gente importante para a
Duquesa. Julie tinha poucos amigos, e a vida de Naomi
centralizava-se na filha, não nas poucas festas de caridade com que
colaborava ou no clube. Arnold detestava qualquer publicidade em
torno de sua vida particular.
"Não vou usar minha família para vender coisa alguma", costumava
dizer em uma óbvia censura a um de seus competidores mais
exibicionistas, cujas festas eram bem documentadas na imprensa.
Até mesmo nessa noite, muitos dos convidados estavam ligados à
Duquesa de um jeito ou de outro. Mas hoje também havia jovens,
em sua maioria amigos de Parker. Delicadas samambaias e as rosas
amarelas preferidas de Julie estavam espalhadas por toda a casa.
Pelas espaçosas salas localizadas em ambos os lados do vestíbulo de
entrada, ondulava a música vinda da sala de jantar, agora sem os
móveis, para que se pudesse dançar. Todas as portas duplas de


carvalho entalhado foram abertas, e, às nove horas, a casa
resplandecia de gente feliz e elegante, que ria, conversava, dançava.
Naomi imaginou por que essa pequena família vivia em tão
esplêndido isolamento. Deviam ter celebrado mais festas como essa,
mais reuniões de família. Esta era a primeira vez que tantos de seus
membros estavam reunidos sob o mesmo teto: os irmãos de Naomi
com as esposas, que mal viam porque Arnold preferia manter
distância dos homens que trabalhavam para ele; Sarah, que ia e
vinha e nunca mudava; os pais de Naomi, redondos e bronzeados,
convictos de que Los Angeles era o único lugar para Julie e Parker
residirem; Joshua, com Benjamin e Elea. . . e Rachel.
Naomi ficara apreensiva quase a ponto de adoecer, até Rachel
finalmente chegar com Sarah e Elea. A notícia inesperada de que
Rachel viria não lhe deu tempo de se preparar para o encontro com
a cunhada ou avaliar o que estava acontecendo com sua vida. A
expectativa desse encontro, enquanto organizava os detalhes do
casamento de Julie, as roupas, a festa — a perda da filha, a perda da
filha! —, foi infinitamente mais dolorosa do que o encontro em si.
A intimidade com Joshua estava terminada, mas não importava
quando as coisas, ocorreram, só que tinham acontecido e que,
exceto quanto à cena desoladora com Arnold, ela poderia ter ido
para a cama com o marido de Rachel após uma separação de mais
de um ano. O mais importante era que continuava a querê-lo.
Decerto a esposa sentiria isso.
Quando as duas mulheres finalmente se conheceram, o sentimento
que obscureceu todos os outros para Naomi foi o mais inesperado:
simpatia. Rachel não possuía uma beleza convencional, mas sim o
tipo de rosto do qual as pessoas se lembravam. Estava
magnificamente vestida, mas acreditava que isso se devia a Sarah. E
era também uma companhia muito divertida, sem que se esforçasse,
porque sua vida fora uma enorme aventura, comparada com a de
Naomi e Julie.


— Elas fazem com que eu me sinta tão inútil, Sarah e Rachel —
comentou depois do encontro. Foi durante a volta para Sands Point,
após deixarem o apartamento em Nova York, onde Sarah se
hospedava com Joshua e sua família. — Como se eu fosse só
decorativa.

— Isso é ridículo — declarou Arnold. — Nem todos nasceram para
capinar, arar e ordenhar vacas.
— E quanto ao trabalho que realizou durante a guerra, mamãe? E o
que faz agora?
Parker deu uma palmadinha na mão enluvada de Naomi.
— Você é mais do que decorativa. Não sei o que qualquer um de
nós faria sem você.
Ele era sincero e disse isso a despeito do olhar mal-humorado de
Arnold, sempre que Parker falava como um membro da família.
Parker gostava realmente da sogra. Ela era uma mulher muito
bonita, mas não apenas isso. Não havia em Naomi o menor traço de
mesquinharia, e isso era mais do que Parker podia dizer sobre a
maioria das pessoas. Nem mesmo Julie, muito embora ela soubesse
o que queria e fizesse tudo para obtê-lo — tal como fez com ele.
— Suas palavras foram muito doces, Parker. Obrigada — Naomi
sorriu.
Arnold ficou silencioso, desejando ter dito isso. Olhou para o genro
com fria desaprovação.
— Foram honestas — replicou Julie — não doces. Meu marido tem
muitas qualidades, mas a doçura não é uma delas.
Com que orgulho Julie disse "meu marido", pensou Naomi
enquanto o carro movia-se maciamente. Graças a Deus que Julie
estava feliz — era o que Naomi sempre quis. Tinha muitas dúvidas
quanto à futura fidelidade de um homem tão atraente quanto
Parker, e o modo como Julie reagiria a isso a inquietava. Como
qualquer mulher reagiria, se amasse um homem?

Estava certa de uma coisa, após conhecer Rachel e passar uma noite
com ela e Joshua: Rachel sabia apenas que Naomi e Joshua
estiveram apaixonados quando jovens. Não desconfiava que os dois
foram mais do que isso. Joshua estava distorcendo a verdade, ao
fingir que a esposa "sabia" e "compreendia" algo sobre o qual nunca
discutiram. Naomi nunca julgou Joshua capaz de tal desonestidade
— esta era a única palavra em que podia pensar. E ainda assim —
enrubesceu na escuridão do carro — também não fora desonesto de
sua parte fingir que Arnold não sabia de nada, durante todos esses
anos?
Essa atitude não era simples desonestidade. Era auto-preservação
não encarar certos fatos. Às vezes era muito duro conviver com a
verdade sobre si mesmo, uma verdade que tornava mais difícil
ainda fazer o que se queria.

— Estou louca por aquele menininho — comentou Julie,
interrompendo os pensamentos de Naomi. — Adoro ouvir Elea
descrever as suas "escavações". Ele esburacaria até o Central Park,
se deixassem. Vamos levá-lo ao museu para ver os dinossauros.
Arnold sorriu.
— Ele não é tão sério quanto Benjamin. E é muito parecido com a
mãe.
Agora, enquanto a música tocava e as pessoas riam, Naomi
observava a mãe de Elea. Em um modelo Grés em gaze cor de
damasco claro, Rachel não se assemelhava a uma mulher que
capinava um campo ou ordenhava uma vaca. Estava de pé junto a
Joshua, os dois atentos aos comentários do filho caçula, como se
Elea fosse o próprio Ben Gurion.
Eram marido e mulher compartilhando coisas como nenhum outro
casal jamais poderia fazer, mesmo se estivessem prestes a se
divorciar e se casar em segundas núpcias. E tinham dois filhos a
ligá-los. Naomi definitivamente rejeitava as suspeitas de Joshua
sobre Elea. Outra maneira de mascarar a verdade. Não teria
culpado Rachel — não estava absolutamente em posição de culpar


ninguém —, mas Rachel amava o marido. Demonstrava isso no
modo como o fitava, como se comportava quando estava perto dele.
Não era uma criatura distante, perdida em um terrível sofrimento,
tal como Joshua. Simplesmente era mais adequada para ele do que
qualquer mulher que Naomi já conhecera — inclusive ela mesma.
Mas nem sempre as pessoas amam quem é mais adequado. E não
havia nenhuma dúvida na mente ou no corpo de Naomi de que
continuava a amar um homem que não podia ter.
Mais penoso ainda era resistir à necessidade que sentia dele. Por
que a necessidade era mais absorvente, mais irresistível do que o
amor? O amor era constante, assim como Arnold. A necessidade era
tão caprichosa quanto o vento... e igualmente excitante. Os dois
raramente pareciam caminhar juntos.
Os olhos de Naomi procuraram pela filha nos majestosos aposentos.
Só podia esperar que Julie fosse mais amada e menos necessária.
Encontrou-a, afinal, entre Parker e Sarah, parecendo muito
adorável, muito jovem e muito vulnerável.
Parker ria com essa mulher alta e atraente, que não conseguia ver
no papel de tia. O cabelo curto e desarrumado estava mesclado de
cinza, e ela tinha o hábito de despenteá-lo quando falava, uma
variação agradável dos estilos de cabelos tingidos, penteados e
cobertos de laque, típicos de quase todas as mulheres de sua idade.
Possuía um corpo forte e voluptuoso, envolto em jérsei cor de mate
escuro e enfeitado com um singelo pingente de brilhantes. A pele
era dourada, como a de Rachel, e os olhos cintilavam de alegria. Era
difícil acreditar que tinha quarenta e três anos.

— Chega de tanta bobagem — disse Sarah. — Para quando é o
bebê?
— Papai lhe contou? — perguntou Julie, surpresa.
— Não seja tola, Julie. Seu pai é um homem antiquado. Ninguém
precisou me dizer. Você tem todo o aspecto de uma mulher que
guarda um segredo delicioso. Todos sabem sobre isso. — Deu uma

palmadinha no braço de Parker. — Então só podia ser esse o
motivo. Quando vai nascer?

— Daqui a seis meses — respondeu Parker, deliciado com Sarah.
— Vai trabalhar na Duquesa? Parker assentiu
com a cabeça.
— Acha que é uma boa idéia? — Sarah estava mais interessada do
que parecia.
— Ele quer. Então tenho de tentar. — Parker raramente chamava
Arnold pelo nome.
— Depois da lua-de-mel, suponho. Para onde vão? Julie encolheu
os ombros.
— Não tivemos tempo de pensar.
— Bem, eu tive. Por que não pegam o Ballade e fazem um cruzeiro
pelo Mediterrâneo?
— O que é o Ballade? — perguntou Parker.
— É um iate, e muito bonito. — Sarah riu. — Dissemos que era um
iate para enganar os britânicos e trazê-lo até Haifa, mas era uma
canhoneira maravilhosa. Ficou meio avariada durante a guerra, mas
já foi consertada, perdeu algumas toneladas de canhão e está de
cara nova. Portanto, voltou a ser um iate. Vocês podiam pegar o
barco em algum porto do Mediterrâneo.
— Tia Shai, você é um anjo. Sempre quis fazer um cruzeiro pelo
Mediterrâneo com um homem como Parker.
Sarah sorriu.
— Posso entender a razão. Agora vá dar uma voltinha e me deixe
conhecer meu sobrinho. Acho que Benjamin está procurando por
você.
Virou-se para Parker, quando Julie não os ouvia mais.
— Bem, então que tipo de homem é você? — ela indagou,
examinando-o com grande atenção.
— Sei lá. De qualquer modo, não o tipo que ele pensa que sou. —
Olhou de relance para Arnold, no outro lado da sala.

— Está certo, então não é um caça-dotes e o marido errado para
Julie. Mas não parece bom idéia perder tempo tentando mudar a
opinião de Arnold a seu respeito. Ele protege a Duquesa tal como
faz com a filha. Melhor, obviamente.
— Deu um breve sorriso. — Arnold não lhe dará liberdade de
realizar nada por conta própria.
Os lábios de Parker cerraram-se em uma expressão de teimosia.
— Eu não apostaria nisso. — Não ia desperdiçar a chance de toda
uma vida, apesar de tudo o que o sogro fizesse.
— De qualquer modo, levarei anos para aprender o que ele sabe. —
Olhou para Sarah. — Amo Julie de verdade, apesar do que ele diz.
Ela o estudou, os olhos escuros avaliando-o.
— Acredito que ame realmente. — Sua atitude mudou, e ela
segurou-lhe a mão. — Seja bem-vindo a esta pequena e singular
família, Parker. Você é a coisa mais bonita que já vi há anos. Será
um bebê magnífico. Agora, que tal dançar uma valsa com sua tia
Sarah?
Parker relaxou e seguiu-a em direção aos dançarinos, acenando para
Julie no caminho. Sempre que Julie estava por perto, ele ganhava
alma nova e ficava certo de que tudo se ajeitaria, que realizaria
coisas maravilhosas na Duquesa. Precisava do reflexo da imagem
que Julie tinha dele. Esta era uma fantasia reconfortante que
alimentava desde a morte dos pais. Ele era uma espécie de príncipe
encantado, ao qual negaram o direito de primogenitura, ficando
alienado de ambas as famílias, tal como lhe acontecera.
Agora tinha uma família — e extraordinária, a julgar pelos parentes
israelenses, O fato de ter uma família proporcionava-lhe uma cálida
e agradável sensação de segurança, ainda que um de seus membros
fosse Arnold Furstein. E a chave para isso, para tudo isso, era Julie,
Ela já desafiara o pai uma vez por sua causa: tinha certeza de que
sempre o faria.

Arnold ficou observando Sarah e Parker, depois os perdeu de vista
entre os dançarinos. Imaginava o que a irmã diria sobre Parker.
Todos os dias prometia a si mesmo esconder sua antipatia pelo
genro, ao menos de Julie. E todos os dias quebrava essa promessa.
Havia algo no homem que o irritava. Suspirou.

— Suspirando? — perguntou Rachel. — Em uma oca-sião tão feliz?
Arnold estava contente em ter alguém com quem conversar,
especialmente Rachel. Ela o encantava como apenas umas poucas
pessoas o conseguiam. Rachel parecia tão equilibrada, tão pronta a
aceitar a vida como era e não como poderia ter sido... Seria tão bom
se pudesse fazer o mesmo... . Ela sabia sobre o trabalho de Joshua —
até se orgulhava dele. Não tinha a menor idéia do quanto Arnold se
esforçava para ocultar da imprensa as atividades secretas do irmão.
Esta não era absolutamente uma profissão convencional.
— Creio que não gosto de mudanças — ele respondeu, após um
momento.
— Oh, sim — concordou Rachel. — Entendo o que quer dizer.
Arnold tornou a suspirar.
— Só espero que ela seja feliz. Rachel refletiu sobre isto.
— Acho que não conheço ninguém que o seja. Oh, de vez em
quando, talvez, mas é a exceção, não a regra.
— Para você também? Ela riu.
— Eu sei. As pessoas supõem que passamos o dia inteiro bebendo
leite e mel e dançando a hora. Bem, não é assim. Nunca foi. — Fez
uma pausa. — Não pretendo ser. . . sarcástica, não é? Mas a
felicidade é algo que só vem para muito poucos. — Arnold gostava
do som de sua voz. Rachel tinha o mesmo sotaque de Lazar. — Nem
mesmo sua Cons tituição pode garanti-la, sabe, a não ser a busca da
felicidade. E, ainda assim, as pessoas só a obtêm através do esforço
pessoal.
— Entendo. Tenho a mesma opinião sobre os meus negócios. Mas
Joshua devia estar feliz, seu sonho se concretizou. Israel é um
Estado.

Os olhos escuros o observaram, pensativos.

— O preço foi alto demais. Suas ilusões morreram enquanto o sonho
se realizava. Meu marido é um homem incapaz de viver sem
ilusões.
— Que se danem as ilusões! Ele tem você e os filhos.
— Arnold nunca tivera esse tipo de conversa antes. Podia falar com
essa mulher, a esposa do irmão, como não conseguia com o irmão,
como nunca havia conseguido com a própria esposa.
Rachel balançou a cabeça.
— Ele está longe de nós, da alegria, creio, desde a guerra. Agora não
lhe dá prazer arrecadar mais dinheiro e comprar mais munições do
que qualquer outra pessoa. Está distante dos garotos tanto quanto
de mim. É como se — prosseguiu, após um momento de reflexão —
não possa confiar em si o bastante para amar qualquer pessoa de
novo. Mas ele quer. Passa pela vida com a cabeça nas nuvens e os
pés em areia movediça.
— O que quer dizer?
— A realidade o fica puxando para a terra, a realidade e a
inevitabilidade do próprio eclipse final. Mas ao menos
— Rachel sorriu de leve — Joshua viu as estrelas uma vez. Elas
também são parte da realidade, assim como a areia movediça, não
acha?
Filosofia estava além da compreensão de Arnold, mas ele ficou
observando o irmão, que conversava com Naomi e Sarah no outro
lado da sala. Uma nova compaixão por esse homem o dominou.
Com Rachel presente, o ciúme não distorcia sua visão das coisas.
Esqueceu-se do cabelo branco de Joshua, das linhas existentes
naquele rosto. Viu o irmão mais velho que o ajudara a crescer
quando o pai dos dois era tão estranho neste novo país que era
como se ainda estivesse na Rússia. Recordou-se de Joshua lhe
trazendo livros, levando-o à biblioteca em úmidos dias de inverno,
quando o cheiro das emboloradas capas dos livros misturava-se ao
cheiro de molhadas luvas de lã e galochas de borracha cobertas de

neve. Recordou-se também de ler sobre a história da América com
tanta avidez quanto Joshua estudava a história do sionismo, de
voltar depois para casa com o irmão segurando-lhe a mão a fim de
que não escorregasse na neve, para contar tudo a Sarah, presa em
casa ajudando a mãe. E o modo como os três conversavam, riam,
planejavam seu futuro secreto.
Como foram longe! Quanto ganharam — e perderam! Suspirou, e
Rachel, observando Arnold e também Joshua com Naomi, não se
sentiu deprimida ao ver a mulher que o marido amava com um tipo
de amor diferente do que lhe dedicava. Esta era uma realidade da
vida, nada mais, nada menos do que isso, e a única coisa que se
podia fazer com as realidades da vida era aceitá-las, como
obviamente Arnold nunca tinha feito. Quanto a si própria, se existia
algo que Rachel lamentava era o fato de Joshua se reprovar —
sendo excessivamente indulgente consigo mesmo, na opinião dela

— por usar o rabinado como cobertura para a compra de munições.
Embora desse pouca importância ao que definia como observância
religiosa cheia de superstição, ainda era contra a sua natureza, ele
afirmava, usar a religião como disfarce. Era triste, pensou Rachel,
que o marido também precisasse carregar a culpa de amar a esposa
do irmão.
Será que se mostraria tão compreensiva, tão tolerante, se não fosse
por Ben? Os maiores santos foram sempre os maiores pecadores,
afinal de contas.
Ao olhar de relance para Arnold outra vez, Rachel estava
convencida de que, por mais que suspeitasse de toda a verdade
sobre aqueles dois, ele não sabia de nada ao certo, provavelmente
porque não queria saber. Através de Joshua, Arnold manca saberia,
disso Rachel tinha certeza. Nem ela, a não ser que perguntasse, e
não sentia necessidade de indagar.
"A confissão pode fazer bem à alma", afirmou Joshua certa vez em
tom mordaz, achou Rachel. "Mas apenas para a alma de quem
confessa. Pode destruir a alma de quem ouve. A Igreja católica

pensa o seguinte: guarde suas culpas para o ouvido impessoal do
confessionário, ao invés de desabafá-las com seus amigos e
familiares." Não me conte nada, ele parecia estar prevenindo-a, não
me pergunte nada.
Quanto a Naomi, Rachel agora sabia ao que Sarah s referira,
durante todos esses anos. Naomi nunca alardeava beleza, a fortuna
ou qualquer coisa que pudesse deixar outra mulher constrangida ou
até invejosa. Benjamin considerava tia "boa gente", e Rachel achava
que ela era exatamente isso uma pessoa de boa índole, de bom
coração, boa. Se algum dia Naomi iria revelar ao marido o que ele
não queria saber isso era algo que Rachel não podia prever em um
contato assim tão rápido. Entretanto, tinha o pressentimento de que
Naomi o faria no futuro.
Arnold sentiu os olhos de Rachel pousados nele e retribuiu o olhar.
Tantas coisas precisavam ser mantidas em si lêncio. E, ainda assim,
pensou Arnold, ela compreendia. Sentia se melhor agora do que em
muitos anos. Queria conversar com o irmão, que estava parado a
um canto, sozinho, enquanto Naomi e Sarah caminhavam para a
porta.

— Não podemos deixar Joshua sozinho assim — disse Arnold com
voz rouca. — Não, em uma festa.
— Não — concordou Rachel. — Não podemos. Os dois foram
juntar-se a Joshua. Sarah sorriu para Naomi e circundou-lhe a
cintura com
um braço, enquanto atravessavam a sala de estar.
— Mais um casamento. Lembra-se do seu? E do meu? Como você
ficou chocada por Lazar e eu não esperarmos Mas com que
tranqüilidade aceitou isso de Julie.
— Amadureci — replicou Naomi. — Ou algo assim.
— Eu apostaria no "algo assim". Ninguém jamais amadurece
completamente. Mas você tem um genro muito decorativo, e isso é
mais do que posso dizer de mim mesma.
— Como é o rapaz com quem Rebekah vive?

— Oh, forte, impetuoso e tão dedicado quanto ela. exatamente
como alguém imaginaria um israelense, assim como Joshua. Lazar
também era louro.
— Nossa, que par de homens eles eram. Iguais aos galãs de cinema.
Sarah assentiu com a cabeça, preferindo ignorar o modo como
Naomi usou o tempo passado, ao se referir aos dois homens. Sabia
por que Naomi fez isso.
— Esta é uma família extraordinariamente bonita — foi tudo o que
respondeu. Olhou pelas portas abertas para a sala ao lado, onde
Arnold e Rachel conversavam com Joshua.
— Ela não é o que eu esperava — comentou Naomi, seguindo os
olhos de Sarah.
— Ela é um tipo especial de mulher.
— Lazar disse isso sobre Rachel uma vez, lembra?
As duas mulheres ficaram caladas, absorvidas nas lembranças.
Quando a orquestra começou a tocar uma nova canção, ainda
estavam pensando nos dois homens que mudaram suas vidas, um
desaparecido, embora estivesse presente nessa casa, o outro,
perdido na eternidade, se tal coisa existia.
Era uma antiga canção, tocada em ritmo de valsa, e significava algo
diferente para todos acima dos quarenta anos.
"Está solitária esta noite?", indagava a muitos dos sorridentes
convidados que se sentiam assim. "Está com saudade de mim esta
noite? Lamenta nossa separação?"
— Não podemos ficar aqui paradas e chorar por causa de uma
velha canção — sussurrou Naomi para Sarah.
— Quem diz que não podemos? E quem diz que é por causa de
uma canção?
— O que as pessoas vão pensar? — perguntou Naomi, sem se
importar realmente.
— Que se danem todos. Você está com cara de quem precisa chorar
um bocado, tanto quanto eu.

— Está certo — concordou Naomi, encostando a face úmida na de
Sarah. — Que se danem todos.
As duas continuaram juntas, enquanto os dançarinos rodopiavam,
conversavam e riam.
"Seu coração está cheio de dor?", perguntava a canção. "Quer que eu
volte novamente? Diga-me, querida, está solitária nesta noite?"
Capítulo 45

MONTE CARLO — janeiro de 1954

Julie e Parker demoravam-se mais um tempo no convés do Ballade,
na enseada de Monte Carlo. Acabavam de passar a noite no cassino,
após um dia passeando nas colinas atrás do litoral francês. Esse fora
um dia excepcionalmente ameno, o último da lua-de-mel, e os
canteiros de mimosas douradas nos Alpes Marítimos eram
magníficos.
No dia seguinte partiriam do aeroporto de Nice rumo a Nova York,
com escala em Paris.


— Eu gostaria que isso nunca terminasse — disse Julie. Parker
puxou-a para si.
— Foi a época mais feliz da minha vida, mas preciso trabalhar.
Julie desejou que o pai pudesse ouvi-lo. Arnold estava convencido
de que, dada uma chance, Parker passaria o resto da vida vadiando
pelo mundo, exclusivamente em busca do prazer. Tinha certeza de
que o pai faria Parker pagar caro por esse casamento, muito embora
ela fosse tão culpada quanto o marido pela gravidez que o
precipitara. Ele não acreditaria que a filha teria se casado com esse
homem mais cedo ou mais tarde, grávida ou não. Mas agora só
podia divisar problemas no futuro dos dois.

— Parker, não acha que seria melhor para todos nós se você não
ingressasse na Duquesa?
Ele balançou a cabeça. Não ia se matar de trabalhar em outro lugar,
quando podia começar de cima com o sogro. E, de qualquer
maneira, todos pensariam que era um espião de Fursten, em
qualquer emprego que conseguisse graças aos contatos de Julie.
Essa indústria protegia seus segredos como os militares.
— Isso significaria ficar entre você e seu pai — foi sua curta resposta
à tal sugestão. — Há uma chave para controlar todas as pessoas.
Tudo que preciso fazer é descobrir a dele.
Julie procurou ignorar o comentário. Parker nunca brigara com ela,
e não queria que isso acontecesse jamais.


— Estou feliz por você ter encontrado a minha — disse Julie,
achegando-se a ele. Estava certa disso, ao menos.
— Você é uma mulher astuta, sabe? E ainda por cima grávida.
Beijou-a.
Os olhos de Julie fecharam-se, e um sorrisinho curvou-lhe a boca.
— É uma bela noite e quero você. Aqui. Agora.
As mãos de Parker deslizaram sob a capa, a fim de tocar a pele nua
no decote do vestido.
— E quanto à tripulação?
— Tia Sarah os treinou bem — sussurrou com a boca encostada na
do marido. — Eles nunca aparecerão aqui se não tocarmos a
campainha. E há o cercado. — A cabeça moveu-se ligeiramente em
direção ao espaço protegido com persianas no convés. Lá dentro,
havia um grande colchão redondo coberto com toalhas aveludadas,
para quem quisesse tomar banho de sol despido. As mãos abriram a
camisa, e ela beijou-lhe o peito, a língua acariciante. — Vamos.
Entraram no cercado, e Julie abriu o zíper do vestido, deixando-o
escorregar para o chão. Ficou de pé, nua, exceto pela pelerine curta,
o estômago ligeiramente arredondado.
— O tempo está maravilhoso — ela falou, esticando o corpo com
um movimento indolente. — Deite aí.

Julie abriu-lhe as roupas e o cobriu com o corpo esguio e bronzeado,
movendo-se ao longo dele, acariciando, beijando. Sabia quando
tocá-lo de leve, quando provocar, quando demorar.
Então o cavalgou, o corpo inclinado para trás, os olhos fechados, as
mãos segurando as dele, enquanto se movia. A excitação de Parker
sempre se renovava ante o prazer libertino que ela exibia, mas de
repente sentiu que Julie o estava possuindo, movendo-se com uma
sensualidade tão plena que era ela que comandava, ele que
obedecia. Isso lhe dava um domínio sobre ele que Parker não podia
aceitar da filha de Arnold Fursten, se precisava aceitá-lo também de
Arnold Fursten.

Abruptamente, agarrou-a e puxou-a para baixo, rolando o corpo de
modo a inverter as posições e ficar por cima de Julie. Os olhos dela
continuavam fechados em uma febre de paixão, mas agora era ele
que a controlava.
Assim como estava certo de que, com o tempo, acabaria controlando

o sogro.
Mas o fato é que nunca deixou de sentir-se como um colegial junto
de Arnold Fursten. Se havia uma chave para manipular o homem,
ele nunca a descobriu.
Arnold achava que conseguia esconder sua antipatia, até mesmo na
Duquesa. Julgava que ninguém de fora sabia. Sujeitos como Parker
Mitchell tinham tudo o que queriam — mas a Duquesa pagava as
contas, não Parker. Seu enorme salário era depositado em um fundo
em benefício do bebê. O dinheiro era entregue a Julie apenas para as
despesas miúdas. Cartões de crédito em profusão pagavam tudo o
mais: carros, casas, viagens de avião — estava tudo à sua
disposição, junto com uma sala imensa na Duquesa, decorada por
Arnold com uma inestimável mobília em austero estilo Luís XVI,
com tapetes orientais espalhados pelo assoalho e uma vicepresidência
para rematar.

Seu cargo na companhia tinha todas as armadilhas do poder, mas
não sua influência. E o resto da indústria, perita na interpretação
dos mais leves sinais, logo farejou o problema.
"Ele é como uma cobra", esbravejou Parker para Julie em certo dia
de junho. "Não há nenhuma prova concreta, mas é óbvio para todos
que ele me considera uma espécie de débil mental. Não me dão
nada de importante para fazer. Eu poderia muito bem ficar sentado
naquele escritório, que mais parece um museu, brincando com
clipes de papel."
Com uma enorme barriga, Julie podia apenas ouvir e mostrar-se
solidária. Parker a proibira de interceder junto ao pai, para grande
alívio dela. Iria humilhá-lo ainda mais, explicou à esposa, que Julie
tivesse de implorar ao pai em seu favor. Intimamente, tinha
absoluta convicção de que, com a vinda do bebê, a atitude de
Arnold mudaria e não iria precisar da interferência de Julie.

Quase sempre ele se controlava quando estava com Julie, mas vivia
nervoso. O médico dissera que não deveria haver sexo nas últimas
semanas, e o pouco que ela fazia para satis-fazê-lo não lhe bastava.
Ele necessitava da sensação de poder que lhe faltava na ausência do
sexo. Do que precisava acima de tudo era um modo de se auto-
afirmar — e sempre conseguira isso de forma muito espetacular
com as mulheres.
Mas não podia arriscar-se a ter amantes agora. Amava demais a
esposa e, portanto, resolveu esperar que a criança nascesse,
desejando que fosse um menino, para herdar a Duquesa. Sabia que
ele próprio nunca conseguiria isso.
Enquanto aguardava junto com os sogros no hospital da Quinta
Avenida, desde o início do trabalho de parto, Parker tinha uma
horrível sensação de perda iminente. A última vez que esteve num
hospital foi na noite em que os pais morreram.
O trabalho de parto se arrastava lentamente, e todos esperavam na
silenciosa sala com ar condicionado, impessoal demais para
absorver as ansiedades e os ressentimentos que pareciam reverberar


no assoalho reluzente e nas paredes de tom verde-claro, a ponto de
tornar a espera ainda mais difícil.

— Isso está demorando demais — disse Arnold, brincando com
seus bastõezinhos de teste. — Por que não nos informam sobre o
que está acontecendo?
Naomi estava sentada perto do marido, aflita por Julie e
preocupada com Parker e Arnold. A guerra entre os dois homens
estava piorando, e ela decidira não comentar nada a esse respeito.
Como Parker, desejava que o nascimento do bebê acalmasse as
coisas.
Levantou-se e cruzou a saleta de espera particular.
— Parker, não deve torturar-se assim. Sabíamos que seria
demorado. É sempre assim com o primeiro filho. — Rodeou-lhe os
ombros com o braço. — Por que não desce e bebe um pouco de
café?
Ele respondeu que não com a cabeça, mas as mãos fecharam-se
sobre as dela.
— Obrigado, Naomi, mas não posso sair agora. É o hospital. . .
odeio este lugar.
— Eu sei, querido, mas gravidez não é um acidente. As mulheres
têm filhos todos os dias, e Julie é muito saudável.
— Ela não é tão forte assim — ele replicou com voz tensa.
Isso aprofundou sua afeição por Parker. Não tinha ilusões quanto
ao genro, mas estava certa de que o homem amava sua filha, e isso
era tudo que lhe interessava.
— Também estou assustada — confessou.
Minutos depois, a porta abriu, e o obstetra avisou que Julie e a filha
estavam bem. Teriam de esperar um pouco para ver Julie, mas o
bebê logo estaria no berçário. O médico cumprimentou-os e pediu
licença para ir examinar sua paciente.
— Estou tão feliz por Julie! — disse Naomi. — Ela queria uma
menina.

— Eu também — contou Parker. — Mas toda essa espera é
apavorante demais. Um filho é o bastante. — Um sorriso
transformou seu rosto. — Já sou pai.
Arnold o observava, ressentindo-se amargamente com sua alegria.
Que direito tinha um homem como Parker à filha de Arnold — à
sua neta. Compreendeu de súbito que tinha uma neta. Essa
realidade era mais atordoante do que a expectativa.
— Quero ver o bebê — falou.
Minutos depois, viram, através do vidro, a enfermeira conduzir o
carrinho com o neném minúsculo e vermelho, que choramingava
dentro do berço.
— Ela é igualzinha a Julie quando nasceu — declarou Naomi. —
Como vão chamá-la? — Nunca conseguira descobrir. Segundo os

dois, Julie e Parker eram supersticiosos quanto a isso.

— Paige Parker Mitchell — informou Parker, todo orgulhoso. — O
nome de minha mãe.
Arnold sentiu por essa criança algo diferente do amor que dedicava
a Julie. A filha era uma extensão de si próprio, e preocupava-o que
ela pudesse não ser perfeita. Podia exigir menos de Paige e divertir-
se mais com a neta. Parou de tentar decifrar suas emoções. Estava
contente por ser uma menina.
Sabia tudo sobre menininhas agora e podia mimar esta aqui a seu
bel-prazer.
Quanto ao pai do bebê, gostava de Parker menos do que antes.
Ultimamente, Parker havia apresentado algumas de suas idéias com
tanta segurança que dava a impressão de estar no negócio há anos e
não há poucos meses. O sujeito era esperto, Arnold era forçado a
admitir, e aprendia depressa. Mas era o tipo de homem que devia
ser vigiado ou acabaria tomando conta de tudo. Voltou a atenção
novamente para a neta.


Nos meses seguintes ao nascimento do bebê, tornou-se claro para
Parker que a tão esperada transformação na atitude de Arnold não
ocorreria. Arnold era, no mínimo, mais rigoroso na recusa em
confiar no genro. Era sutil quanto a isso, dando-lhe mais projetos
para organizar, mas sem que nenhum deles pudesse ser executado
sem sua aprovação pessoal. Até os irmãos de Naomi tinham mais
responsabilidades do que isso.
Mais uma vez Parker era visto como um intruso, como sempre fora
durante a juventude. Na época, havia pertencido a duas famílias,
sem que fosse parte de nenhuma delas. Agora era vice-presidente
titular de uma empresa gigantesca, mas não. possuía absolutamente
nenhum poder para dirigi-la.
Apesar de tudo, recusava-se a abandonar a companhia, a despeito
do quanto isso custasse ao seu orgulho. Era bom nesse negócio,
sabia que era. Logo -convenceu a si próprio de que desistira de uma
chance de reconhecimento em outra companhia porque não queria
se interpor entre Julie e o pai. Era pelo bem de Julie, acima de tudo.
Isso lhe dava toda a justificativa necessária para compensar sua
castração profissional de qualquer forma que escolhesse. E escolheu
as mulheres: sempre fizera grande sucesso com as mulheres.
O meio de Julie compensá-lo por muitas coisas era deixá-lo agir
assim. Ela o tinha seduzido. Era o pai dela que estava fazendo essas
coisas com ele.
E ele a amava. Mesmo tendo amantes, Parker nunca era capaz de
resistir à voluptuosidade do corpo perfumado e elegante da esposa.
Julie era uma pagã embalada em filigrana. O relacionamento físico
dos dois os mantinha juntos, apesar dos inúmeros casos amorosos.
Acima de tudo, a posse da filha de Fursten contra a vontade de
Fursten era o único triunfo que tinha sobre o homem.
-Naomi acompanhava isso com a sensação desoladora de que havia
educado Julie não para ter o que Julie queria, mas o que Naomi
queria. E tudo o que podia fazer a esse respeito era tornar as coisas


tão agradáveis quanto possível entre Arnold e Parker e estar
presente se Julie precisasse dela.
Certa vez, pensou que seria melhor parar de fingir que tudo estava
maravilhoso, mas sabia o quanto essa atitude chocaria todos eles,
inclusive ela mesma. Durante toda a sua vida vinha fingindo que
tudo estava maravilhoso.


LIVRO 6

Capítulo 46

GIORA — maio de 1960

Elea caminhava lentamente, conservando-se várias centenas de
metros distante do litoral do Mar da Galileia — chamava-o de
Kinneret. Estava de cabeça baixa, os olhos vasculhando o chão
cuidadosamente em busca de qualquer pequena elevação ou
escarpa, que pudesse ser uma almofada de terra sobre a história
antiga. Era tolice olhar — conhecia cada centímetro de Giora —,
mas isso era um hábito.
A arqueologia sempre o fascinara, antes mesmo de aprender o
nome da ciência que explorava o passado deste planeta. Era
impossível adivinhar quando se tropeçaria em algum segredo do
passado. Os Kibbutzniks de Beit Alpha faziam escavações em seus
campos, quando encontraram uma sinagoga do sexto século, em
1923. E a assombrosa descoberta dos Pergaminhos do Mar Morto
em 1946 fora um acidente. Esta era uma ciência excitante e, nesta
terra antiga, quase um passatempo nacional. Assim como o
militarismo era uma necessidade nacional e uma forte ligação entre
todos os cidadãos.


Às vezes as duas ciências caminhavam juntas: o comandante das
operações das Forças de Defesa de Israel em 1949, Yigael Yadin, era
um bacharel em arqueologia, que utilizava seu conhecimento do
terreno do país para movimentar as tropas com efeito letal. Moshe
Dayan estava absorvido na arqueologia. Os dois homens eram seus
heróis, mas Elea sonhava mais em fazer ele' próprio uma grande
descoberta do que em participar de batalhas. Ele e a namorada,
Miri, queriam estudar arqueologia juntos na Universidade
Hebraica. Ou então ir para uma escola preparatória na América em
outubro e, depois, para Harvard, quando estivesse com dezoito
anos, assim como o irmão.
Esta era uma decisão importante: a Universidade Hebrai-cai ou
Harvard. A América era tentadora, mas ele ficaria muito longe de
tudo o que conhecia. Era em Israel que queria viver, mas, por outro
lado, não gostava muito do militarismo, e isso era parte da vida
aqui. Ainbrera, diziam as pessoas — não havia escolha.
Olhou para a margem oposta do lago, em direção às colinas de
Golan, na Síria. Elas eram uma ameaça constante, desmilitarizada
ou não, para os colonos do Lago Kinneret, localizado ao norte da
fronteira libanesa. Haveria uma guerra total com os sírios algum
dia, não apenas ataques retaliatórios contra os terroristas. Todos
sabiam disso. O pai de Miri, Natan, o Minotauro, queria iniciá-la
antes que os árabes o fizessem. Ari, o soldado perpétuo que vagava
pelo deserto como um beduíno, previa guerra sempre que visitava
Giora de passagem. Isaac Levy, o médico que trouxera ao mundo
Elea e o irmão, Benjamin, e Miri, a caçula das cinco filhas de Natan,
concordava. O mesmo acontecia com Benjamin e abba — e os dois
estavam em melhor posição para saber.
Benjamin estava no serviço de informações, embora Elea não
soubesse se era no Mossad, no Shin Bet ou em alguma outra
organização. Quanto a abba, ninguém sabia ao certo o que Joshua
fazia, desde que parou de correr pelo mundo, há cinco anos. Ainda
saía do país de vez em quando, mas quase sempre ficava em Israel,


em alguma parte do Deserto de Zin, um lugar que poucas pessoas
conheciam.
Seu pai. Um homem que todos admiravam, principalmente Elea.
No passado, parecera-lhe que o irmão Benjamin era mais seu pai do
que o próprio Joshua. Mas, desde o regresso definitivo de abba, era
de Joshua que queria seguir o exemplo, e isso era difícil de fazer
porque o pai era um homem difícil de se conhecer. E diferente.
Cada vez que ele voltava do deserto, vinha mudado.
Ele e Benjamin eram muito parecidos, exceto pela barba prateada de
abba, que o fazia assemelhar-se a um filósofo grego, e pelo cabelo,
mas havia uma grande diferença. As pessoas podiam perceber
como Benjamin se sentia a seu respeito. Joshua não se preocupava
com as pessoas, apenas com o trabalho, fosse lá o que fosse, e Elea o
respeitava por isso. Era assim que a nova geração queria ser — era
muito melhor do que ser todo emocional, como o primo Seth e a tia
Sarah. Elea e Rachel ficavam mais ou menos no meio-termo.

Quando era pequeno, os sentimentos o dominavam facilmente, mas
estava aprendendo a controlá-los. Os israelenses precisavam ser
ousados, fortes, corajosos. Estavam em constante perigo, e talvez
houvesse coisas a fazer no futuro que não levariam em conta os
sentimentos. Mas nunca tinham medo.
"Zumbis", tia Sarah os definira. "Este país está preparando uma
geração de zumbis emocionais! Acham que é fraqueza sentir
alguma coisa. Seth é o único rapaz que conheço com coragem de
dizer que está apaixonado. Não sei nada de Rebekah desde que
estava com treze anos."
Amor, acreditava Elea, era algo perigoso. As pessoas passavam pela
vida muito melhor sem ele, e não apenas homens como Joshua. A
prima Rebekah tinha dois filhos do homem com quem vivia há doze
anos, mas não estava apaixonada e não pretendia se casar. Benjamin
dormia com garotas diferentes quando queria; agentes secretos
também não podiam se envolver com o amor. Elea e Miri decidiram
que dormiriam juntos, quando estivessem com dezesseis anos, e se


casariam após os dois anos de serviço militar.. . a não ser que
adiasse o serviço, indo para Harvard.
Ambos tornaram-se membros do GADNA quando iniciaram o
curso secundário. Essa era uma organização paramilitar dedicada
ao condicionamento físico e a habilidades úteis, como pontaria
certeira e interpretação de sinais visuais. Havia longas caminhadas
pelo deserto no verão escaldante. Testes espartanos de força e
resistência que os preparavam para quaisquer adversidades que o
futuro lhes reservasse.
"Quem não se lembra do passado estará condenado a repeti-lo", era
a citação favorita dos dois. Nenhum deles pretendia reviver o
passado judeu.
Elea caminhou uns nove metros para o interior, continuando o
passeio. Os velhos tempos. Abba e seus amigos eram testemunhas
vivas da história recente do país. Eram parte dos velhos e dos novos
tempos. Pelo simples fato de ouvi-los, os jovens aprendiam as
verdades da vida, não um amontoado de fábulas agradáveis sobre
honra e decência.

Obtinham a história certa através de homens como Ari, ainda que
ele se exaltasse e perdesse o controle todo o tempo.
A campanha do Sinai, de alguns anos atrás, por exemplo Não
aconteceu como escreveram nos jornais. Elea sabia tudo sobre o
assunto pelas explosões de Ari, muito embora tivesse apenas nove
anos na época.
"Desgraçados!", dizia Ari. "Kurvehs, todos nós! Um plano, uma
coreografia que vocês nunca imaginariam. Fingimos atacar o Canal
de Suez, quando realmente queríamos abrir o Estreito de Tiran e
conquistar Gaza. A França e a Grã-Bretanha aparecem para nos
deter, quando o que pretendem é assegurar o canal. Nasser tem
bombas nas asas dos seus MIGs russos, enquanto Eisenhower se
irrita e aborta a operação porque os soviéticos fazem objeções!
Objeções! E enquanto isso eles chacinam os húngaros! Por que não


devemos lutar pelo que realmente queremos, ao invés de fazer uma
canção e dançar desse jeito?"
Joshua e Benjamin sempre insistiam que Israel precisava cooperar.
A necessidade de equipamento bélico agora era tão grande quanto
em 1956, de modo que precisavam entrar em acordo.
"Não me interessa acordo nenhum", Ari respondia-lhes. "Não sou
um comerciante, sou um soldado. Este país ainda está em guerra e
estará até que tenhamos fronteiras que façam sentido. Entrem em
acordo quanto a isso!"
Mas a campanha do Sinai realmente atraiu 125.000 novos imigrantes
em dois anos, e Israel precisava de armas tanto quanto de colonos.
Ari sabia disso, por mais que quisesse jogar sujo com regras
honestas. Ninguém em seu juízo perfeito viria para Israel se viesse a
público tudo o que se sucedia naquelas conferências diplomáticas.
Elea gostava de Ari. Ele era arrebatado, vigoroso e com um peito
largo e forte, apesar de estar perto dos sessenta, a mesma idade de
Joshua. Ari era um excêntrico brilhante no exército de cidadãos de
Israel. No passado, liderara uma brigada independente; continuava
sendo um voluntário ativo. Homens como Ari construíram este
país. E homens como

Joshua. Eram muito diferentes dos imigrantes que chegaram após a
Segunda Guerra Mundial.
O pai de Elea e seus amigos não tinham nada em comum com os
sobreviventes do Holocausto, mas — e era isso o que intrigava Elea

— tinham simpatia por aquela gente. Os jovens, não. Entre si,
chamavam os sobreviventes de "sabões", um medonho lembrete de
como os alemães fabricavam sabão com gordura humana nos
campos. Aqueles judeus permitiram que os conduzissem à morte
como gado. Mas os novos israelenses não morreriam sem uma luta
monumental. Eram intrépidos, corajosos — e sentiam vergonha dos
seis milhões que pereceram sem luta — exceto alguns, como tio
Lazar e Mordechai Anilewicz.

Havia uma estátua de Anilewicz em Yad Mordechai. Ela avultava
maior do que a vida, mas representava o tipo de homem que Natan,
Ari e o Doutor eram.
E Joshua, acima de tudo, porque nunca perdia o controle, nunca
deixava que as emoções interferissem.
Elea voltou em direção a Giora. Havia outro nome a acrescentar a
essa lista: Ben Horowitz. Puxou o chai pendurado embaixo da
camisa. Isso era de Ben, e a mãe o dera a Elea quando fez treze anos.
O chai no cordão de ouro estava sempre em seu pescoço desde
então.
Todos os velhos amigos falavam muito sobre Ben — quase tanto
quanto de Lazar. Chamavam Ben de "Janota" e relembravam suas
façanhas dentro do quartel-general britânico, na época do mandato.
Conversavam até sobre suas aventuras com Natan, quando os dois
juntaram-se ao Irgun. As diferenças entre o Irgun e o Haganah
agora estavam virtualmente eliminadas. Já nem existia mais o
Palmach. Havia apenas o Zahal — o exército.
Soltou o chai ao aproximar-se de Giora. Os ouvidos treinados para
interpretar os sons sentiam falta do barulho dos tratores, das vozes
das pessoas trabalhando nos campos e nos pomares. Todos tinham
parado mais cedo hoje a fim de se aprontarem para uma grande
festa: Giora fora fundada há cinqüenta anos, nesta mesma data, e
viria gente de todas as partes para celebrar.

Nesta tarde de primavera, os girassóis sussuravam sua aprovação
por essas bodas de ouro, o ar estava doce, e o céu, muito azul sobre

o Kinneret. Para Elea, este era o lugar mais bonito do mundo. De
repente, quis ver Miri, para contar-lhe que decidira não ir para a
América.
Apressou-se e correu em direção a Giora em passadas largas e leves,
passando pelo portão principal, pela torre de observação, pelas
novas fábricas de laticínios, que eram orgulho e responsabilidade da
mãe.

Um pressentimento de que algo acontecera o estimulou a ir mais
depressa. Chegou ao salão comunal e entrou, encontrando toda a
comunidade de pé em silêncio, olhando para Joshua, coberto da
poeira da estrada, enquanto terminava de dizer algo. Após ficarem
um momento assimilando a notícia, todos irromperam em uma
gritaria que não era de alegria. Para Elea, soava mais como raiva.
Contudo, estavam aplaudindo.
Elea abriu caminho na multidão, até chegar junto ao pai, e bateu no
braço de Joshua.

— O que foi, abba? O que houve?
— Eles o pegaram — respondeu Joshua quase chorando. Elea nunca
vira o pai desse jeito. Isso era mais do que embaraçoso, era
assustador. O que perturbaria tanto o pai a ponto de fazê-lo chorar?
— Quem?
— Eichmann. Pegaram Eichmann. Está aqui em Israel e será
julgado. Por nós. Por judeus.
Um dos principais organizadores da "solução final" de Adolf Hitler.
Um pioneiro no extermínio em massa. Um admirador entusiasta do
Zyklon B, o gás que usava para matar em um curto período de dez a
quinze minutos. Os israelenses o perseguiam desde 1945.
— Benjamin está envolvido nisso? — Talvez fosse esse o motivo
para o pai agir assim.
— Não sei. Isso não importa. O importante é que agarramos o
homem, após todos esses anos.
— Não acho que seja motivo para celebrar — disse Elea.
As pessoas ao redor ficaram de repente muito quietas, a atenção
concentrada nele. Os olhos escuros do pai o examinaram.


— Por que não?
— Teremos que ouvir toda essa história de novo. Já ouvimos
bastante. Ninguém se interessa mais, a não ser os "sabões".

A violência da bofetada jogou sua cabeça para trás. Elea ficou sem
respiração com o choque. O pai nunca lhe batera, nunca batera em
ninguém.

— Nunca mais torne a chamá-los assim — falou Joshua com
ferocidade. — Não se atreva, seu filho da puta nojento.
A voz de Rachel o impediu de esbofetear Elea outra vez. A mão
baixou, mas os olhos continuaram furiosos. Depois a ira sumiu, e ele
pareceu voltar ao normal.
— Desculpe pelo que chamei você, mas não pelo resto. Não tem o
direito de dizer algo assim tão sórdido, a não ser que saiba do que
está falando, saiba como aconteceu. — Tomou uma respiração
funda e irregular. — Agora vai aprender. É muito triste que
aprenda isso com Adolf Eichmann.
O homem e o adolescente encararam-se em silêncio. Depois ouviu-
se o som estridente de uma buzina lá fora, e um minuto depois
Sarah entrava correndo, com uma expressão de amarga alegria no
rosto.
— Já souberam da novidade? — gritou, enquanto atravessava a
multidão até onde eles estavam. — Foi Benjamin? — Parou perto
deles. — O que é? Está tudo bem?
— Sim — respondeu Joshua. — Foi só um mal-entendido.
Elea assentiu com a cabeça. Fazia muito tempo que não chorava e
tinha receio de que isso acontecesse agora se tentasse falar. Mais do
que humilhado pelo tapa, estava enfurecido com o fato de Joshua se
importar tanto assim. . . . mas não com sua família. Como podia
amar uma gente que morreu antes de Elea nascer mais do que ao
próprio filho?
Segurou a mão estendida, como se a briga estivesse terminada,
como se tudo estivesse certo novamente. Mas tudo estava mudado.
Sabia que o pai não ligava para ele nem um pouco — apenas para
aquela gente. O pai não era reservado — era simplesmente
indiferente.

Quanto a tentar agradar Joshua, Elea acabava de perder a chance de
consegui-lo para sempre.
No outono, iria estudar na América. Ain brera — não havia escolha.


Capítulo 47

SANDS POINT — dezembro de 1964

— Ele chegou — gritou Paige do seu posto de observação na sacada
do quarto de Naomi. — Elea está em casa! — Atravessou o quarto a
correr e disparou para a escada. Julie e Naomi sorriram uma para a
outra.
— Devemos lhe dar alguns minutos a sós com seu ídolo, antes de
descermos? — indagou Naomi.
— Ela nos mandará de volta para o quarto se não o fizermos —
concordou Julie. — É engraçado, eu costumava esperar por
Benjamin desse mesmo jeito, não era?
— Com mais paciência, talvez. De vez em quando, eu pensava que
vocês poderiam se casar algum dia.
— Você deixaria que eu fosse morar em um lugar tão afastado da
civilização como Israel?
— Oh, sim — respondeu Naomi, enfaticamente. — Nunca achei
correto dizer a outras pessoas o que é melhor para elas, nem mesmo
às crianças. Especialmente às crianças.
— Você fala como se alguém lhe tivesse dito algo. . . e não fosse o
melhor.
— Todos me disseram.
— Estavam errados? — Julie estava hesitante. Nunca havia
questionado o casamento aparentemente estável do pai, mas onze

anos de vida conjugal lhe ensinaram que nem sempre as coisas
eram o que pareciam.
Naomi desviou os olhos.


— Acreditei em tudo o que me disseram, e era isso que estava
errado. Se tinham razão ou não... bem, não se pode viver duas
vezes, então creio que nunca vou saber. E não adianta nada ficar
analisando as coisas a esta altura da vida. — Os olhos azuis
procuraram o rosto de Julie, quase dizendo que ainda havia tempo
para Julie analisar. Existia um abismo de tempo entre vinte e nove e
cinqüenta e cinco anos.
Julie levantou-se, esguia e despretensiosa na roupa de cashmere e
tweed.
— Vou me pintar. Parker e papai logo estarão em casa. Naomi a viu
atravessar a varanda e dirigir-se ao antigo
quarto. Julie ainda usava muito pouca maquilagem, e o cabelo curto
dispensava outros cuidados além de uma escovadela. Ela saiu
porque não queria falar sobre Parker.
Naomi sentou-se na penteadeira. Parker era um problema, ainda
que trabalhasse mais do que qualquer outro funcionário da
Duquesa. Por mais lucrativas e inovadoras que fossem as suas
idéias, Arnold não confiava nele. O fato de Parker ser notoriamente
infiel à esposa não ajudava em nada.
Na maior parte do tempo, Naomi limitava-se a ouvir Arnold. Era
melhor que ele desabafasse a raiva em particular. Mas ultimamente
se opunha às coisas que aquelas observações revelavam.
— Eu avisei que ele não valia nada desde o princípio — havia dito
Arnold na noite anterior.
— Você age como se houvesse algum mérito em estar certo sobre
um assunto como este — protestou Naomi.
Ele parou de esbravejar com essa resposta. Após um minuto,
prosseguiu:
— Ele não a ama, nunca amou.

— Para algumas pessoas, Arnold, amor e sexo são duas coisas
diferentes. Nós dois sabemos disso.
Arnold lhe deu as costas.
— Não diga isso. Não para mim.
— Desculpe. . . mas as suas críticas constantes me deixam louca, e
me magoa ver Julie magoada, quer você esteja ou não com a razão
sobre Parker.
E não achava que Arnold estivesse. Tinha certeza de que o genro
amava a esposa, fiel ou não. Por que Julie tolerava sua infidelidade
fora um mistério até ouvir a filha comentar: "Ele faz muitas coisas
para desforrar-se de papai".
Por dedução, essas coisas não tinham nenhuma relação com Julie.
Mas tinham! Elas a machucavam.
De certo modo, Julie estava certa. Era fácil para Parker provocar
Arnold, vingar-se dele por sua atitude de ofensiva condescendência.
Como convencer Julie de que uma razão não era uma desculpa?
Como dizer à sua única, filha que ninguém tinha o direito de usá-la
dessa maneira? E como fazer Arnold perceber a ligação entre o
comportamento negativo de Parker e o seu? Como nunca
examinava os próprios motivos, Arnold não analisava os dos
outros. Ele não conseguia entender que Parker precisava da
aprovação pela qual trabalhava com tanto empenho — e precisava
disso da parte de Arnold porque o rapaz sentia tanta falta de um pai
quanto Arnold de um filho.
Parker possuía um talento inato para a indústria de cosméticos, mas
nem isso nem o incentivo que dava a Arnold para experimentar
coisas novas era o bastante. Arnold o tratava com sutil desprezo, e
Parker se comportava de forma desprezível por ser o que se
esperava dele. As pessoas costumam fazer o que se espera delas,
não o que querem fazer.
Naomi olhou para seu reflexo no espelho. Era por isso que havia
terminado o caso com Joshua — por ser o que se esperava dela, tão



logo soube que Arnold ficara magoado? O amor que sentia por
Joshua tinha suavizado com a idade, junto com tudo o mais: seu
corpo, sua energia, o desejo de estar com ele. Mas o sentimento não
desaparecera. Havia ainda as palpitações familiares e a sensação de
ser novamente uma jovem de dezenove anos sempre que ouvia sua
voz, nas poucas vezes em que ele vinha à América ou, como agora,

o som da voz do filho.
Podia agora ouvir Elea no andar de baixo, de volta da escola, para
passar os feriados natalinos em casa, tentando aquietar Paige. Paige
era irresistível, como Sarah havia sido. Possuía os olhos verdes de
Julie e o cabelo escuro de Parker, mas seu temperamento, terno e
tempestuoso, era igual ao de Sarah.
Julie interrompeu seus devaneios. — Acorde, mamãe. Está na hora
de ir receber o Garoto Número Dois. — Para Julie, Benjamin era o
Número Um, ainda um menino aos vinte e nove anos.
— Desça primeiro, querida. Vou em seguida. Tomara que Parker e
seu pai não se atrasem. Elea está sempre faminto.
Talvez os dois homens estivessem em boas relações essa noite.
Estava cansada de tentar apaziguar as brigas, e seria uma pena
estragar a primeira noite de Elea em casa.
Mas esta não era a casa de Elea. Seu lar era Giora, um lugar que
Naomi nunca vira. Todos eles tinham viajado muito desde o
casamento de Julie, mas Arnold recusava-se a ir a Israel.
"É perigoso demais", argumentava. "E a comida é terrível, carne de
caça e leite não pasteurizado."
Mas é lógico que não era a comida. O tempo não fora o suficiente
para aliviar a tensão que Arnold sempre sentia na presença do
irmão, como se suas realizações fossem insignificantes se
comparadas com as de Joshua. Arnold preocupava-se com o irmão,
mas ainda tinha ciúme dele. Era impossível superar o hábito, tão
impossível quanto seu amor por Joshua.

Naomi sabia que ele ainda tinha razão para ser ciumento. Sua
excitação não existia mais e também a febre para possuir Joshua,
mas não o amor por ele. Naomi tornou a olhar-se no espelho. Agora
começava a achar que seu espírito estava mais harmonizado com
seu corpo. Não havia meio de recuperar a aparência dos dezoito
anos — ou trinta, ou quarenta. E era mais fácil viver sem o desejo
sufocado ou as satisfações pecaminosas, mais fácil não fingir que
sexo era tudo o que sempre quis com Joshua simplesmente porque
era tudo o que ele queria com ela.
Abriu uma gaveta e pegou as cartas de Rachel. Elas chegavam
regularmente, após ficar decidido que Elea permaneceria em Sands
Point enquanto se preparava para Harvard. Releu a primeira,
recebida há quatro anos.

"Ele parece mal-humorado e inabordável", Rachel escrevera.
"Nossos filhos crescem depressa demais aqui, sem tempo de
aprender o que é compaixão. Receiam arriscar-se a um
envolvimento muito grande com alguém. A mentalidade de um
país sitiado transforma o povo. Mas sei que você compreende isso."
Rachel referia-se tanto a Joshua quanto ao filho. E Elea era seu filho?
Por um longo tempo após a separação, Naomi sentira tanta falta de
Joshua que nem se lembrara do que ele havia dito sobre Elea
naquele dia. Durante um tempo, achou que Joshua talvez estivesse
procurando justificar a própria infidelidade; mas Joshua não era
homem que justificasse seus atos. Quando jovem, fizera aquilo em
que acreditava. Agora fazia o que julgava precisar fazer. Existia
uma grande disparidade entre as duas coisas.
Tinha visto Joshua com Elea. Ele não agia de modo paternal.
Provavelmente acreditava que Elea não era seu filho. Isso devia ter
importado mais para ele do que imaginava.
Folheou rapidamente as cartas, lembrando-se do prazer crescente
de Rachel à medida que a América modificava seu filho caçula. A
maior parte desse mérito cabia a Paige. Jovem como era, ela cuidava
do primo; algumas almas nascem com esse dom. Naomi também


tinha uma participação nisso. Na sua opinião, a mudança realmente
havia começado quando encontrara o sobrinho no escritório certa
noite, já bem tarde, exatamente onde o pai se sentara há muitos
anos.
O rapaz havia reavivado o fogo mortiço e o contemplava com um ar
jovem e solitário.

— O que foi, Elea? — Naomi sentou-se ao seu lado no sofá. Elea
sabia o quanto todos o amavam, mas talvez ainda estivesse com
saudades de casa.
Ele não respondeu durante um tempo, mas não se esquivou a uma
aproximação maior, como costumava fazer. Finalmente, apontou
para um jornal, cujas manchetes informavam sobre o enforcamento
de Adolf Eichmann.
— É ele — respondeu Elea.
O recolhimento das provas e o julgamento em si tinham
mesmerizado o mundo durante dois anos. O homem de aparência
inofensiva cristalizara de alguma forma o horror do Holocausto
como nada mais, nem mesmo aqueles filmes terríveis, conseguira.
Ele humanizava a bestialidade ao mascará-la com um ar de
inocência. Fazia as pessoas suspeitarem do próprio potencial para a
infâmia. . . e temerem a própria rendição impotente na mesma
escala em que o pequeno Adolf Eichmann a executara.
Naomi aguardou que Elea falasse.
— Meu pai me disse que eu descobriria como aconteceu através
desse homem. E descobri mesmo.
— Certamente você já sabia, Elea!
— Sim, mas eu odiava aquela gente, os judeus, quero dizer, por
deixarem tudo aquilo acontecer. Achava que deveriam ter arranjado
um jeito de lutar, mas compreendo por que esperaram tanto tempo
a ponto de não poderem mais se rebelar. Não acreditaram em nada
daquilo até que era tarde demais. Ninguém acreditou. Quem
acreditaria em uma coisa como. . . ele? Milhares de "coisas" como

ele? — Olhava fixamente para o fogo. — Gostaria de poder dizer a
meu pai que agora compreendo.

— Por que não diz?
— Isso não faria nenhuma diferença. Meu pai não liga para mim.
Nunca ligou.
— Oh, querido, ele só dá essa impressão por causa de tudo que lhe
aconteceu. — Elea não devia saber o que Joshua desconfiava!
— Não, ele tem muitas outras pessoas mais dignas de sua atenção
com que se preocupar. Não tem tempo para mim.
Naomi quis tomá-lo nos braços. Era profundamente triste ouvi-lo
falar com tamanha resignação. Segurou sua mão.
— Certa vez, quando eu era pequena, meus irmãos e eu dissemos à
minha mãe que ela devia preferir um de nós, que não podia amar
todos da mesma maneira. Mamãe acendeu uma vela e respondeu:
"Isto é como o amor". Depois fez cada um de nós acender uma vela
na sua. Todas cintilaram exatamente do mesmo jeito, e a dela
também tinha o mesmo brilho. É possível acender mil velas e ainda
assim ter outras mil para acender.
Elea deixou a mão descansando entre as da tia por uns momentos.


— Obrigado, tia Naomi, mas ele é meu pai e nunca permitiu que eu
sequer me aproximasse da chama.
— Talvez esteja com medo — argumentou Naomi, de repente
lembrando-se da recusa de Joshua em compartilhar qualquer coisa
com ela além do passado, a insistência em compartilhar o presente
dos dois apenas em um silêncio que virtualmente o cancelava.
— Medo do quê?
— Não sei. Mas, às vezes, quando começamos a chorar, não
conseguimos parar. . . se isso faz algum sentido.
Elea não respondeu nada, mas, antes de ir para a cama, inclinou-se e
beijou-a pela primeira vez desde que viera morar nesta casa. Naomi
achava que Elea começou a mudar nessa noite, que pouco a pouco
passou a sentir menos receio de ser ele mesmo. E as cartas de

Rachel, quando o filho voltou para casa no verão, lhe indicavam que
estava certa.
As cartas estabeleceram uma estranha amizade entre as duas
mulheres que se encontraram apenas uma vez, mas que sabiam
tanto uma da outra através de Sarah. Naomi não tinha outras
amigas além de Sarah e, ultimamente, Julie. Sua vida ainda se
concentrava na família, tal como antes. Mas Rachel era uma amiga.
Ambas amavam o mesmo homem e o mesmo rapaz.
E Rachel sabia desse fato, agora Naomi tinha certeza disso. Segundo
todos os padrões de amor e ciúme que Naomi aprendera, essa
situação devia tê-las separado. Porém, ao contrário, as unia. Embora
fossem totalmente diferentes, as duas mulheres gostavam uma da
outra. Este era um dos mistérios da meia-idade de Naomi, até que
parou de ver Rachel como uma extensão de Joshua e pensou nela
como uma mulher e uma amiga. Rachel vivia com um homem que
temia amar qualquer pessoa. Essa devia ser uma vida muito
solitária. Tão solitária, Naomi sabia, quanto as horas que passara
fazendo amor com Joshua.
O amor não começava e não terminava na cama. Era apenas mais
um lugar onde se podia vivê-lo.

Guardou as cartas e desceu a escada para se reunir às crianças,
ainda desejando que Arnold e Parker tivessem chegado ao fim do
dia sem outra amarga discussão.

Capítulo 48


Parker Mitchell deu as costas ao sogro e fingiu examinar a silhueta
dos edifícios que se destacava contra o céu de Nova York. Na
verdade, estava observando, refletida na enorme parede de vidro


fume, a figura inclinada sobre a mesa imensa na sala do presidente
da Duquesa Limitada. Detestava Arnold Fursten e tudo que lhe
dizia respeito; o cabelo louro e já grisalho tão impecavelmente
penteado, o modo como os dedos de unhas bem tratadas dobravam-
se com firmeza na borda da mesa enquanto lia, o terno cinzento
feito sob medida e os olhos de um tom verde-acinzentado, frios
como ágata atrás de óculos com aros dourados.
Parker deixou os olhos vagarem pela cidade, com suas luzes
resplandecendo no crepúsculo desse princípio de inverno. Parker
sabia que seu projeto sobre uma nova linha de produtos de
toucador para homens estava destinado ao sucesso. O velho
também sabia disso agora, droga — mas deixaria Parker esperando
ansioso pela resposta, sem nenhuma indicação de como reagiria ao
projeto, sem nenhuma pista sobre a decisão final. Apenas uma
leitura silenciosa acompanhada por um pronunciamento. Era assim
que gostava de lembrar ao genro sua absoluta autoridade.
Um autocrático filho da puta, pensou Parker, como se ele tivesse
nascido na alta sociedade, ao invés de Parker. Mas, para um novo-
rico, o velho representava bem seu papel, tinha que admitir isso.
Arnold nadava em luxo, mas do tipo certo. Seguindo o exemplo de
Julie, Arnold e Naomi viajavam mais agora, e Arnold possuía casas
no sul da França, em Londres, Barbados — cada uma delas
ricamente decorada —, além dos estabelecimentos comerciais em
Nova York. Passava um tempo em cada um desses lugares, mas
principalmente para supervisionar as filiais da Duquesa.
Era estranho, pensou Parker, que ele não tivesse nenhuma
propriedade em Israel e nunca fosse até lá — e estranho o modo
como evitava qualquer publicidade envolvendo a si mesmo e aquele
seu irmão Don Quixote.
Havia Bentleys, Jaguares e Rolls Royces em suas garagens, nunca
um Maseratti ou um Porsche. O iate e o avião não eram grandes em
excesso ou vulgarmente batizados com o nome da esposa ou da
empresa. As únicas iniciais que apareciam nos seus objetos pessoais


eram as do próprio Arnold, embora não houvesse como confundir
tudo o que pertencesse a Arnold Fursten — coisas ou pessoas.
Ele dirigia seu império em eterna expansão com habilidade e
previsão, embora o setor dos cosméticos fosse o seu favorito, como
era o de Parker, e lançasse nele todo o seu esforço criativo, deixando
as subsidiárias administrarem a si mesmas, assim que as adquiria e
organizava. Para a família, era um ditador benevolente. A única
pessoa que tinha alguma influência sobre ele era Naomi, mas ela
raramente a exercia.
Às vezes Parker ficava analisando a sogra. Naomi poderia dominar

o marido inteiramente, mas agia como se lhe devesse algo. Só duas
vezes nesses últimos onze anos ela lhe dera alguma ajuda: primeiro
quando se casou com Julie e segundo há alguns anos, quando
aprovou um tipo mais sexy de campanha publicitária para dois
novos perfumes.
— Anunciar um perfume da Duquesa com uma mulher nua? —
Arnold havia objetado. — A Vogue não vai publicar.
— Vai, sim — ela assegurou-lhe. — É a Duquesa, e é arte. Sarah
quis usar essa pintura para a Duquesa há anos, mas decidimos que
o mundo ainda não estava preparado para isso.
Arnold se acalmou.
— E agora acha que está?— As opiniões da esposa e da irmã
pesavam muito.
— Sim, acho. Esta será a sensual década de sessenta. A idéia de
Parker não é vulgar ou de mau gosto. É o que o público quer, e a
única maneira de vender alguma coisa é oferecer ao público o que
deseja.
Arnold aceitou o conselho, mas ficou surpreso com sua opinião.
— Nunca imaginei que você fosse tão.. . — Procurou a palavra
certa.
— Calculista? — sugeriu-lhe, enquanto Parker observava fascinado.
— Não, lógico que não. Creio que realista é mais correto.

— Pode chamar do que quiser — replicou Naomi vivamente.
Depois, segurou-lhe a mão com afeto e sorriu para Parker. — Ele
ainda pensa que sou a mocinha com quem se casou.
Naomi estava certa, pensou Parker. Era óbvio pelo modo como
Arnold a tratava, como conversava com a esposa, que ela não
mudara em nada a seus olhos. Isso era um surpreendente traço de
sentimentalismo em um miserável insensível como Arnold.
Os dois irmãos eram frios, mas, nas poucas ocasiões em que
encontrou Joshua, Parker ficou aliviado ao notar que ele guardava
para si a frieza, ao invés de despejá-la sobre os outros.
O campo visual de Parker reduziu novamente do mosaico de luz e
pedra para um reflexo no vidro grosso e levemente colorido. O
cabelo escuro estava ficando grisalho nas têmporas, mas, aos trinta e
sete anos, ele era muito atraente para as mulheres de quinze a
cinqüenta anos. As espessas sobrancelhas' quase se encontravam
acima do nariz reto. Nunca deixava que o barbeiro as aparasse —
achava que lhe conferiam personalidade. Possuía dentes finos,
regulares e muito brancos, em contraste com a pele bronzeada pelo
tênis e pelo surfe praticados no verão e pelo esqui, no inverno.
Parker não freqüentava os alfaiates conservadores do sogro na
Savile Row e na Jermyn Street, mas o corpo esbelto, com um metro e
oitenta e dois de altura, estava sempre trajado com extrema
elegância. Ainda era bastante magro para vestir-se segundo a
vanguarda da moda francesa, embora evitasse algumas das
tendências mais extravagantes. As camisas eram de seda, as
gravatas e os sapatos, feitos a mão.
E ele merecia isso. Era um bocado bom no seu trabalho. Sabia que
estava vendendo não apenas status, como também fantasia, e tinha o
estilo e a educação para fazê-lo bem. Contudo, o sogro insistia em
tratá-lo como um playboy ocasionalmente inspirado, que precisava
ser orientado e quase sempre controlado. As brigas dos dois eram
freqüentes e acaloradas. Mas, todas as vezes em que Parker "se
demitia", Fursten forjava uma "reconciliação": mais ações na

Duquesa, outro Matisse. Estas eram as únicas coisas que Parker
possuía por seus próprios méritos.
Procurou novamente o reflexo da figura de Arnold no vidro. Arnold
virou uma página e prosseguiu na leitura, enquanto Parker
fumegava de ódio por dentro, esperando.
Fursten pigarreou, e Parker virou-se.


— Vai servir — disse Arnold. Nenhum entusiasmo, nenhum
encorajamento. Apenas um "vai servir".
Parker atravessou a sala atapetada com um carpete espesso e
aproximou-se da mesa, sorrindo como se tivesse recebido um
tremendo elogio.
— Fico contente que goste — respondeu, estendendo a mão
para pegar a pasta de apresentação.
A mão de Arnold fez um gesto rápido para que não a pegasse.
— Vou gostar quando der lucro. Como sempre, você quer se
exceder na publicidade.
Parker empertigou-se e retirou a mão estendida.
—Esse é o único jeito de lançar uma nova linha. Você mesmo
costuma dizer isso. — Naturalmente, os outros são seus bebês, pensou.
Gladiador é todo meu. — Olhe — continuou, abrindo a pasta. —
Podemos manter os custos da embalagem em quinze por cento, ao
invés de vinte ou mais. Linho preto simples parece bom. Vidro
simples, nada de cristal lapidado. Este novo desenho do frasco, aqui
está o esboço, é sensacional. Compensa a simplicidade do vidro.
Podemos até colocar um monograma nele, aqui no disco de metal.
Retirou outra folha de papel da pasta.
— O preço das matérias-primas está bastante baixo, menos de
oito por cento. Teria sido ainda mais baixo, mas as essências de
laranja acabaram de subir novamente. Não podemos modificar as
taxas e os custos administrativos, mas não teremos de pagar royalty
pelo uso do nome do desenhista. Nossa pesquisa foi mínima... .
aquele Einhorn é um gênio. Pedi que preparasse uma fragrância
com uma mistura de tabaco e couro, e ele apareceu com o Gladiador

em exatamente dois meses! E não há necessidade de um extenso
controle de qualidade.
Arnold ergueu os olhos rapidamente.


— Esta é uma firma de qualidade. Não deixarei que aquela vigarista
açambarque nossa imagem de qualidade. — Ele nunca se referia de
outra maneira à sua mais recente rival, uma mulher fantasticamente
bem-sucedida.
— É lógico que não! Mas já testamos e estabelecemos a qualidade.
Otto apenas utilizou uma fórmula experimental e acrescentou outra
"nota básica", hissopo, suponho. De qualquer forma, o produto é
bom.
Arnold assentiu com a cabeça, hesitante. Parker
continuou.
— Podíamos cortar a equipe especial da loja de departamentos, mas
não acho conveniente. Aquelas garotas podem ser um excelente
chamariz para a nova linha. E não creio que precisemos cortá-las. Se
somarmos todos os cortes que acabei de mencionar, haverá o
bastante para jogar quarenta por cento na publicidade, não os vinte
e cinco ou trinta de sempre.
Arnold folheou as páginas outra vez. Ergueu os olhos.
— Você sabe qual é o índice de mortalidade nos novos produtos.
— Certo. Mas a Princesa levou somente um ano para cobrir os
custos, não dois ou três, precisamente por causa da campanha
publicitária. Tem de ser algo grande, com muita classe. Não estamos
vendendo ovos e, sim, fantasias.
— Na venda a varejo, o preço tem de ser mais ou menos vinte
dólares para uma colônia de quatro onças e quinze para uma loção
após a barba. Estas são fantasias caras, sem mencionar o sabonete, a
loção para o corpo e o umectante para homens!
Parker encolheu os ombros.


— Os cosméticos masculinos estão definitivamente na moda, e eles
não comprarão os produtos por menos, sabemos disso. Se
colocarmos um preço bem alto e dermos ao produto uma imagem

com que os consumidores possam se identificar, já teremos
realizado metade do trabalho de convencê-los de que estão
comprando mágica.

— Por que um nome como Gladiador? Construí uma fortuna com
uma imagem de nobres e reis. Por que mudar agora?
— Porque os tempos mudam — respondeu Parker, tentando não
demonstrar impaciência. O próprio Arnold não cancelara a linha da
Aurora por essa mesma razão, quando a Duquesa tornou-se uma
sociedade anônima? — Realeza é bom para um mercado padrão,
mas é convencional demais para este aqui. Necessitamos de algo
que atraia homens e mulheres de todas as idades e crenças. Você
conhece as estatísticas sobre homossexualismo tão bem quanto eu.
Este é o meu Gladiador. Ele é todas as coisas para todos os possuidores.
— Parker riu. — Diabos, ele tem até uma rede e uma clava
para o pessoal sadomasoquista.
— Acho isso repugnante demais — retrucou Arnold, obstinado.
— Os lucros não serão repugnantes. Acredito que você ficará
agradavelmente surpreendido.
— Acha mesmo?
— Sim, acho. — Embora a contragosto, a voz de Parker assumiu um
tom entusiasmado. — Todas as mulheres que compram a Duquesa
ou a Princesa para si próprias comprarão o Gladiador para o
marido, o filho ou o namorado. Sem falar nos homens que vão
comprar o produto para uso pessoal. E do jeito que planejei a
campanha de introdução. . .
— São as vendas que importam — interrompeu Arnold
categoricamente, reprimindo a animação esfuziante do genro.
Parker sentou-se na cadeira diante de Arnold.
— Acho que nos últimos onze anos já provei que posso vender. —
A voz estava ligeiramente irritada.


— Você estava vendendo para mulheres, não para homens.
Parker corou.

— Nem sempre. Muitos homens compram perfume. Algumas de
minhas maiores contas são com homens. O que isso tem a ver?
— É que seus métodos de venda são galantes demais. A voz de
Parker estava serena novamente.
— O que quer dizer?
— Não acho correto comprar clientes com sexo e festas regadas a
champanha do modo como você fez.
— Eles esperam por isso! Pensa que Richard, West e todos os outros
na divisão de cosméticos não agem da mesma maneira? Ou mesmo
os irmãos de Naomi?
— No meu tempo, não era assim.
Parker não respondeu. Já estava bastante saturado sem se arriscar a
outro sermão sobre como o velho conseguira chegar ao topo da
indústria. Ele sabia tudo de cor: o trabalho duro e lento para se
arrastarem de Rivington Street, as batalhas e a concorrência feroz.
Havia maneiras mais fáceis de fazê-lo.
— As coisas mudaram um pouco desde então — replicou Parker,
afinal. Você se opôs a Duquesa de Alba e a Duquesa de York, e as
duas foram um tremendo sucesso, apesar de serem minhas idéias.
Arnold não tinha como negar esse fato. Fora idéia de Parker
expandir as operações, antes mesmo de criarem a Unha de
cosméticos da Princesa que combinava com o perfume, incluindo a
fragrância da Duquesa de Alba para as mulheres mais sofisticadas,
que se imaginavam tão sedutoras quanto a Maja Desnuda, de Goya,
e a da Duquesa de York para o grupo das aficionadas por cavalos e
roupas de tweed, que gostavam de estar associadas com a dama que
introduziu na Inglaterra a celebração do Natal com árvores e
presentes, um costume de sua pátria, a Alemanha. Suas idéias para
as campanhas publicitárias foram originais, usando retratos e curtas
biografias das duas duquesas. As embalagens eram caras: frascos de
cristal Daum e estojos recobertos com fazendas finas. Porém, quanto
mais altos os custos, maiores as vendas.

Os dois homens se encararam, a antipatia mútua como uma corda
tensa que os ligava inapelavelmente. Arnold quebrou o silêncio com
uma de suas reações imprevisíveis.

— Tudo bem — concordou. — Vá em frente. Exatamente como
planejou. Mas somente se assumir plena responsabilidade por toda
a linha.
Parker ficou surpreso demais para fazer outra coisa que não fosse
pegar a pasta, antes que o sogro tornasse a falar.
— Mas eu me refiro a toda a responsabilidade. Se fracassar, será o
seu fracasso.
Parker corou.
— Não vou fracassar.
Arnold levantou-se. Intimamente, achava que seria um incrível
sucesso — e tão trabalhoso que manteria Parker longe da cama das
outras mulheres. Teria lhe dado um fracasso certo para poupar sua
Julie, depois do que Naomi lhe dissera na noite anterior. Esta era a
questão central da coisa toda.
— É melhor irmos agora — foi tudo o que disse. — Elea está em
casa.
Parker apanhou o casaco, e os dois homens deixaram o prédio
juntos, a imagem de uma família unida, Parker disse a si mesmo.
Estava quase a ponto de explodir de alegria com essa chance tão
longamente esperada, mas ia dividir isso com Julie.
Chegaria tarde em casa nos próximos seis meses, mas não porque
estivesse trepando por aí. Estaria trabalhando. Se o Gladiador fosse
um sucesso, ele poderia dar as cartas. A sensação de poder que isso
lhe proporcionaria era mais gratificante do que passar a mão em
uma bunda aveludada ou meter em uma nova xoxota apenas
porque Arnold descobriria, como invariavelmente acontecia. Esse
era um sucesso que não precisaria ocultar de Julie, do tipo que
Arnold não poderia ocultar de ninguém.

Capítulo 49

ISRAEL — julho de 1965

Joshua dirigia o jipe com habilidade ao longo da estrada que saía de
Jerusalém, sem realmente ouvir a tagarelice dos amigos. O calor
desprendia-se da terra arenosa e cheia de segredos, e Joshua o
acolhia com satisfação. Nos últimos dez anos, passara muito tempo
no Negev, o ventre de silêncio do qual as colinas da Judeia eram
tão-somente uma sugestão. A vastidão erma e selvagem nada exigia
dos homens e nada lhes dava; o deserto tomava — infindavelmente
tomava o que lhe era sacrificado. Lá, um homem podia ocultar tudo
— ou permitir que os céus testemunhassem sua confissão.
Joshua aprendera a amar o deserto. Lá, podia ser ele mesmo. Mas
era mais difícil para ele repor a máscara, cada vez que o deixava. As
dunas de areia erodiam matérias mais fortes do que a rocha.
Erodiam a capacidade de Joshua de seqüestrar suas emoções.
Sempre que o deixava, precisava de maior disciplina para negar
seus sentimentos, como era necessário. Há muito tempo, havia
decidido que essa era a única maneira de continuar vivendo.
Deliberadamente, desviou os pensamentos para assuntos mais
importantes. O velho sonho de irrigar o Negev estava se tornando
realidade. Haveria colônias agrícolas de verdade, não apenas postos
avançados à entrada do deserto. Haveria campos verdes, casas,
estradas. O coração do deserto permaneceria tão inviolável quanto o
seu, mas agora a água fluiria para lá do Mar da Galileia. O duto
vinha do mar a oeste, passando sob o Emek Yizre'el e atravessando
as colinas ao sul da cordilheira de Carmel, para espalhar sua
fecundidade na região norte do Negev, até Beersheba. O trabalho
tinha prosseguido sem descanso. Tratores sírios tentaram desviar os
afluentes do Jordão, que alimentavam o Mar da Galileia. Mas foram
detidos primeiro pela artilharia israelense e, depois, quando os


sírios tentaram outra vez a mesma tática, a força aérea os

dispersara.
Alguns dos aviões em que voavam ainda eram franceses, alguns até
sobrando da campanha do Sinai. Mas, desde 1957, Israel vinha
fabricando jatos de treinamento Fouga Magister com licença dos
franceses e enviando jovens pilotos à França para treinamento. Mas
Joshua via sinais de uma séria mudança na política francesa; e isso
vinha acontecendo desde que De Gaulle subira ao poder, em 1958.
Na opinião de Joshua, as coisas estavam piorando. A decisão do
governo israelense de diversificar suas fontes de suprimento bélico
era sábia.
Joshua sentia o calor do sol no rosto e nos braços, deli-ciando-se
com isso. O verão era a melhor época do ano para ele. Foi em maio
— o verão israelense — que chegou à Palestina pela primeira vez e
conheceu os homens que o acompanhavam agora. Lazar também
preferia o verão.
Isaac Levy, sentado ao lado de Joshua, ergueu uma das
sobrancelhas.

— Por um minuto, pensei que vovô estivesse sorrindo. Do banco
traseiro, Natan exclamou em tom de zombaria:
— Ele, sorrir? A grande face de pedra nunca sorri.
— Pessoalmente — Ari interpôs — estou acostumado com o Rabino
desse jeito. Se ele sorrisse, eu sairia por aí catando flores. Quando
um homem compra munições dos alemães na segunda-feira, dos
franceses na terça e de alguém mais na quarta, é melhor que tenha a
cara impassível de um jogador de pôquer.
Agora Joshua se encarregava mais de orientar do que de executar as
vendas, mas nunca descrevia seu trabalho em detalhes.
— O mercado da terça anda fazendo uma gritaria muito estranha
ultimamente — observou. Como sempre, eles precisavam de armas.
Israel não estava a salvo.

— Qual o problema com os franceses? Não querem que
experimentemos mais suas novas armas? Não gostam de nosso
reator nuclear sete anos depois que nos ajudaram a construí-lo?
Ari coçou o queixo.
— Natan, é como sempre lhe disse. São todos uns sacanas. E nós
também. Se não fizermos amor com os franceses, faremos com os
alemães.
Natan arrancou do peito um suspiro fundo.
— Acha que algum dia ainda compraremos armas dos alemães?
Isaac encolheu os ombros.
— Compramos de qualquer fonte disponível.
— Mas da Alemanha? Os psicólogos dizem que Eich-mann era uma
espécie de purgação para nós e para eles, mas não engulo isso. —
Natan estava zangado. — Eu não confiaria em nenhum filho da
puta alemão. Para mim, todo alemão é um maldito nazista, até
provar o contrário!
— E até mesmo então! — acrescentou Ari. — Mas as indenizações
de guerra vieram a calhar.
O rosto de Natan tornou-se ainda mais sombrio.
— Nunca imaginei que aceitaríamos dinheiro dos alemães.
— Não era dinheiro dos alemães — replicou Joshua.
— Era dinheiro roubado dos judeus.
Isaac interveio.
— Não vamos começar tudo de novo. Isto aqui é uma reunião de
família, não um debate parlamentar.
Os homens relaxaram em um silêncio amigável, contemplando o
fim de tarde com prazer. Há cinco anos realizavam piqueniques no
verão para juntar as respectivas famílias. Todos se encontravam
sempre — no minúsculo Israel, as pessoas estão sempre topando
com os conhecidos —, mas esta "reunião" era importante para eles
sob um aspecto diferente, ficando mais importante à medida que
envelheciam.

Agora estavam todos grisalhos — exceto Natan, que estava calvo —
e suas fileiras tinham engrossado. Isaac e Ari eram solteirões, mas
Natan e Aviva tinham cinco filhas. Sarah era avó cinco vezes:
Rebekah tinha três — "Como posso ser avó se ainda nem sou
sogra?", Sarah reclamava com a filha -e Seth tinha dois. Com um
pouco de sorte, Benjamin chegaria a Giora essa noite, vindo
ninguém sabia de onde. E os homens no jipe voltavam de um
encontro em Jerusalém

— ainda cercada de armas jordanianas — e dirigiam-se às
escavações em Masada, onde Elea estava trabalhando novamente
nesse verão. De lá, retornariam a Giora.
A rota era um desvio para oeste, contornando a grande saliência na
terra da Judeia que fora ocupada em 1948, junto com a parte oriental
de Jerusalém, ao lado da Jordânia. A anexação de ambas as áreas
fora formalmente reconhecida apenas por duas nações, a Grã-
Bretanha e o Paquistão. Contudo, era impossível para os israelenses
viajarem livremente por essas regiões.
O jipe galgou o topo da serra da Judeia, e os homens viram aquilo
na distância, a visão impressionante que era Masada. Com seus três
mil e noventa metros de altura, o rochedo avultava, meditativo e
majestoso, sobre o litoral oeste do Mar Morto. Do jipe, ainda
estavam longe demais pára divisar os trabalhadores escavando o
topo, deslocando pacientemente cacos de louças de barro e relíquias
com dois mil anos de idade. A grande torre de pedra parecia tão
sombria e desolada quanto fora no quinto século, quando
novecentos judeus fugiram para a fortaleza existente no topo e
retiveram a Décima Legião Romana durante dois longos anos.
Só quando os romanos construíram uma rampa para o cimo foi que
Masada caiu. Mas essa foi uma conquista inútil: apenas duas
mulheres e três crianças estavam vivas. Sob as ordens de seu chefe,
Eleazar Ben Yair, os zelotes de Masada mataram suas famílias e a si
próprios, ao invés de se renderem vivos.

Desde 1963, jovens de todas as partes do mundo e de Israel vinham
trabalhar nas escavações de Masada, dirigidas pelo professor Yigael
Yadin. Levariam vários anos para concluí-las, mas os tesouros eram
surpreendentes em mais de um aspecto. A terra quente e seca havia
preservado não apenas sandálias, tranças de cabelo, agulhas, pentes
e potes de barro. Para os israelenses, orgulho e identidade viviam
nessas ruínas empoeiradas. Estavam descobrindo uma história que
incluía muito mais do que o recente e humilhante passado. Após
dois mil anos de exílio e escravidão, estavam descobrindo a si
mesmos.

— Sempre que vejo isso — comentou Natan — sinto uma coisa.
— Que coisa? — Ari parecia cético.
— Que não temos nada a temer. Se os zelotes puderam fazer aquilo,
então nós também podemos. Bem no íntimo, sempre senti o medo
entranhado nos ossos. Olho para Masada, e o medo desaparece.
Ari balançou a cabeça.

— Eu achava melhor se eles tivessem ganhado sem se suicidarem. É
uma péssima estratégia se entrincheirar a um canto ou no alto de
uma montanha.
Joshua estacionou o carro fora da escavação.

— Ou em um gueto. Bem, estamos acuados em um canto, na orla do
mar. Mas qualquer um que nos jogar pela borda afora desta vez
despenca com a gente. — Abriu a porta e desceu do carro. — Já
passa das três. Elea deve estar aqui em um minuto.
Houve um grito proveniente do local das escavações, e Elea correu
ao encontro deles. Não era tão alto quanto Joshua, mas tinha
ombros largos, pele bronzeada e era gracioso como um dançarino.
O cabelo escuro, molhado na mangueira, cintilava ao sol.
Ao vê-lo, Joshua sentiu algo crescendo dentro de si como uma
chama. Era um rapaz tão atraente! Tão parecido com Rachel. Assim
como a mãe, não possuía uma beleza convencional. Ambos eram
simplesmente atraentes.

Elea estava com dezoito anos, Benjamin passava dos trinta, o
próprio Joshua tinha sessenta e dois. Minha vida, pensou, como
sempre fazia no deserto, o que aconteceu com minha vida? Elea estava
correndo em sua direção, mas poderia muito bem estar correndo
para longe dele, levando anos e décadas consigo. Meu amor, pensou
Joshua angustiado, controlando a expressão do rosto, o que aconteceu
com o meu amor?

— Aquele garoto — disse Ari — tem o físico de um gladiador. Seu
irmão devia ter usado Elea nos anúncios. Eu transformaria o seu
filho em um soldado e tanto.
Elea alcançou o carro.
— Oi, pai. Onde é que eu vou? — Subiu para o banco traseiro do
carro. — Oi, todo mundo. O que há de novo?
— Você costumava chamar seu pai de abba — observou Natan.
— Perdi esse hábito nos Estados Unidos. — Elea sorriu.
— Alguém sabe se Miri recebeu uma encomenda de Nova York?
Estamos à espera de alguns discos.
— O pacote está aqui, mas nada de Beatles esta noite — implorou
Natan. — Não combina muito ouvir isso à luz das estrelas, em
Israel.
— Já viu a dança dos hasidim? — Ari o lembrou. — Eles afirmam
que é como um êxtase divino, mas, se você me perguntar, eu diria
que se parecem com Elvis Presley vestido de avental. Agora conte o
que descobriu esta semana, Elea.
O entusiasmo do rapaz, seu real conhecimento de arqueologia
fascinaram a todos. Mas um estranho, refletiu Isaac, nunca saberia
qual deles era seu pai. Ouvindo Elea, Isaac sorriu e deu uma
palmadinha em Joshua.
— Por que isso? — indagou Joshua, murmurando sob as vozes dos
três homens sentados atrás.
— Ele me lembra tanto você quando chegou aqui na primeira vez.
Atrai as pessoas como um ímã.
Joshua atravessou com cautela um cruzamento, antes de responder.

— Acho que Benjamin é mais parecido comigo.
— Agora talvez. Mas Benjamin é sério por natureza. Não, este aqui
é igual a você quando era jovem e cheio de sonhos. Ele faz tudo
reviver.
Joshua não respondeu.
— Não fique tão ressentido por Elea fazer com que se lembre —
falou Isaac.
— Isso é ridículo. Não banque o. analista comigo, por favor. Não
estou pronto para ser revelado camada por camada, como Masada,
ou descascado como cebola.
— Tem razão — disse Isaac, notando o queixo tenso de Joshua. —
Descascar cebolas faz a gente chorar. — Virou-se para ouvir a
conversa no assento traseiro. Joshua estava estranho; era melhor
deixá-lo em paz.
Joshua rumou para Giora pela mesma rota indireta, contornando o
território árabe. Será que algum dia fora como Elea? Não aos
dezoito anos, certamente. Estava estudando para ser rabino na
ocasião, ainda sem coragem de se rebelar e magoar o pai com essa
atitude. Elea nascera livre; Joshua só conheceu a liberdade aos vinte
e cinco anos. Em um só ano, havia descoberto a liberdade;
descoberto o amor e o perdido; descoberto a Palestina e a amado;
encontrado seu futuro e o negado. Rachel, ágil, porém silenciosa,
com suas tranças escuras. Foi por um homem como Elea que ela
havia esperado durante anos, até que ele soubesse que também a
amava? E quando esse homem foi destruído, teria Rachel amado
Ben? Isso era culpa de Joshua, não de Rachel. Mas teria ela amado
Ben?
Afastou todos esses pensamentos. Havia problemas maiores em que
pensar do que no seu relacionamento com Rachel, com os filhos,
com Naomi. Era responsável por um homem: Lazar. E por uma
realidade: Israel. O pacto de Joshua não era com Deus — isso teria
sido fácil —, mas com um homem que carregara nos braços por
vinte anos. Lazar teria adorado o que estava acontecendo em Israel.



Teria acompanhado severamente o julgamento de Eichmann e
ficado agradecido porque isso curou o país, ao invés de destruí-lo.
Teria aplaudido quando a campanha do Sinai criou uma atmosfera
de segurança que trouxe tantos imigrantes. Teria escrito páginas
sobre Masada e sorrido com ar sardónico quando as indenizações
da Alemanha ajudaram a construir um país para os judeus.
Se não fosse pela morte de Lazar, Naomi nunca aconteceria em sua
vida. Também isso era culpa de Joshua, não de Naomi. Noite após
noite, no silêncio do deserto, pensava nela também, por que motivo

o retiro físico daquele corpo lhe dera mais conforto do que qualquer
outra coisa, o suficiente para fazê-lo esquecer. Ela não tinha
nenhuma ligação com sua vida real, e esse também era o ponto: só
podia escapar de si mesmo com alguém que não fosse a lembrança
da dor, assim como Rachel, estes homens e Benjamin. E principalmente
Elea, o homônimo de Lazar. De quem seria filho?
— Lá está mamãe — disse Elea de repente. — Ela está tão bonita!
E realmente estava, empoleirada no portão em um vestido branco
tingido de laranja pelo sol poente. O cabelo escuro estava amarrado
atrás, caindo sobre um dos ombros. Da estrada, Joshua não podia
ver os fios brancos, não podia ver as linhas. Parecia tão jovem
quanto no primeiro dia em que ele chegou aqui com Natan, Isaac e
Ben. Ben e Rachel. Será?
— Vou descer e seguir na estrada com ela — avisou Elea.
— Não, eu vou — Joshua falou ao rapaz. De quem seria filho? Oh,
Rachel, será que você o amou? — Isaac, pode dirigir o jipe?
Ele parou o veículo e saiu sem olhar para trás, caminhou até Rachel,
fez com que descesse do portão e tomou-a nos braços, antes que ela
pudesse dizer uma palavra aos outros. Isaac deslizou para o
volante, e o jipe prosseguiu viagem, deixando uma trilha de poeira
do verão atrás de si, e Joshua enlaçando Rachel como se não a visse
há muito, muito tempo.
Elea virou-se, depois de observá-los.

— O que será isso?
— Amor — respondeu Isaac.
Mas o pai era o homem menos romântico que Elea conhecia, e sua
mãe, uma mulher prática. Os dois não costumavam mostrar que se
gostavam dessa maneira. Alguma outra coisa perturbava o pai.
— Não entendo nada disso — replicou Elea.
— Vai aprender — Isaac assegurou-lhe, ocultando a preocupação
íntima com as fendas na armadura de Joshua.
— Só não pratique com a minha Miri — preveniu Natan, enquanto
Elea corava intensamente sob o bronzeado, e Ari dava boas
gargalhadas. O jipe roncava rumo a Giora, deixando Joshua e
Rachel no portão.
— O que foi? — ela indagou, colada ao marido. Joshua estava
trêmulo.
— Nada. Tudo.
— Então me diga. — As mãos acariciavam-lhe as costas, a cabeça.
— Não. Algumas coisas são impossíveis de dizer. Esteve a ponto de
fazê-lo, mas o silêncio era um hábito
para ele. Melhor não contar o que Rachel não precisava ouvir; isso
talvez o levasse a perguntar o que ela não devia revelar. Mas havia
uma coisa que tinha de dizer.
— Amo você, Rachel. — Essas palavras foram arrancadas das
profundezas onde as havia trancado há vinte anos.
— Sim, querido, eu sei. — Mas não sabia, realmente. O amor só se
torna conhecido quando é declarado.
— Rachel, não posso sentir tudo de novo. Isso vai me despedaçar.
— Seu corpo tremia.
Ela apoiou o corpo de Joshua no seu. Agora ele parecia prestes a
quebrar.
— Não, querido, isso não vai acontecer. Está tudo bem. Os tremores
cessaram.
— Oh, Deus, Rachel, me ajude, por favor, me ajude.

— Sempre — prometeu Rachel, assustada por causa dele. O jovem
que Joshua escondera na sombra do homem ainda estava presente,
lamentando, exigindo que o ouvissem. Rachel iria aguardar e,
quando chegasse a hora, ouviria.
Ele fora um jovem tão brilhante — merecia ter alguém que o
ouvisse.
Capítulo 50

NOVA YORK — fevereiro de 1967

O avião começou a aproximar-se do aeroporto, e Sarah esqueceu
que estava cansada da viagem. Era sempre excitante ver as luzes de
Nova York quando regressava, mas dessa vez era diferente. Pela
primeira vez, desde 1945, estava voltando para ficar.
A filha pensou que Sarah estivesse louca.

— Você não pode mais levar aquele tipo de vida — Rebekah
insistiu. — Como vai usar maquilagem e roupas malucas para
impressionar as pessoas, depois de ter tido aqui uma vida tão
autêntica?
— Não preciso de roupas malucas e de maquilagem. É da América
que sinto saudades. Isso também é uma vida autêntica.
— Lá existem assassinatos e tumultos raciais. Vou morrer de
preocupação por você.
— E aqui existem bombardeios e ataques terroristas — Sarah riu da
filha. Abraçou Rebekah. — Se você não se preocupar comigo, não
me preocuparei com você.
Sarah pegou o pó compacto, enquanto o avião descia, e pensou se
devia ou não empoar o nariz. Não havia jeito de ambas não se
preocuparem; elas se amavam. Mas realmente não conhecia mais

seus filhos desde que os trouxera para Israel. O país os havia,
absorvido por completo, jovens como eram na época, ao passo que
ela continuava enraizada em outra vida. Ela e Lazar viveram juntos
durante um maior período de tempo na América, e suas raízes
estavam na vida que teve com ele. Todas as que importavam, de
qualquer modo.
Seth compreendia, mas o filho sempre foi o mais sensível dos dois e,
mesmo assim, apenas segundo os padrões de sensibilidade de um
israelense, não dos demais. Qualquer israelense de trinta e cinco
anos tinha lutado em duas guerras e em inúmeras escaramuças com
agentes árabes infiltrados, havia perdido alguém na guerra e vivido
em constante estado de alerta para o próximo ataque. Estavam
destinados a serem imunes aos problemas que afligiam cidadãos de
países mais seguros.
Sarah guardou o pó compacto, o nariz não empoado, e reclinou-se
na cadeira. Para ser perfeitamente honesta, devia admitir que a
pessoa da qual sentiria mais falta era Rachel. Em vinte anos, nunca
passara um mês sequer sem ver Rachel. As duas compartilharam
tantas coisas, muitas em silêncio — e tinham Joshua com quem se
preocupar novamente.
Se isso tivesse acontecido há anos, esse desmoronamento do muro
tão cuidadosamente construído, a antiga personalidade assumiria o
controle. Mas talvez restasse muito pouco daquele homem agora. Se
Joshua se tornara parte do muro, talvez se esboroasse com ele.
O avião desceu na pista com uma pancada gentil. Estava em casa de
novo. Na agitação geral de pessoas apressadas, prestes a serem
liberadas de uma estranha máquina, Sarah pensou naqueles que a
aguardavam ali.
Arnold, decerto ansioso em tê-la de volta. Talvez Parker também,
mas não tão ansioso; Sarah poderia retornar à Duquesa, e Parker
estava compreensivelmente nervoso com a ameaça à sua posição na
companhia. Sarah decidiu estudar essa situação com todo o
cuidado, antes de resolver qualquer coisa.


Naomi — era sempre uma delícia, muito embora fumegasse de
raiva, às vezes, quando uma frase mais triste em uma das cartas de
Naomi indicava que ela ainda julgava Joshua o grande amor de sua
vida. Mas Naomi estava fazendo o que sempre fez — tornando a
vida agradável para aqueles que amava, de um jeito ou de outro.
Naomi cuidava de todos: Arnold e Julie, os filhos de Rachel, até
mesmo Seth e Rebekah, tão longe, em Israel. Naomi aplacava os
ânimos; Sarah os desassossegava violentamente.
Era uma vergonha que aquele seu irmão doido nunca deixasse
Naomi visitar Israel, refletiu Sarah. Não conseguia imaginar alguém
lhe dizendo o que fazer, nem agora nem nunca. Partilhara sua vida
com Lazar de bom grado, mas fundir-se era fácil com Lazar, muito
fácil. Seria virtualmente impossível fazer isso agora. Nunca mais
um homem seria capaz de arrebatá-la dessa maneira. Qualquer
mulher de mais de cinqüenta anos é experiente demais para ser
arrebatada.
Como Julie fora. A julgar pelas cartas ansiosas de Naomi, Julie tinha
motivos para lamentar o fato. Parker adorava Julie, escrevia Naomi,
"mas continua caçando as mulheres ou deixando que elas o cacem.
Não sei como Julie tolera essa situação, mas como posso me meter?"
"Como não pode?", Sarah respondera. "Eles estão se metendo com
você, ao tornarem sua vida desagradável."

Ultimamente, Naomi dava a impressão de que estava a ponto de
explodir, como se sua eterna paciência estivesse diminuindo afinal.
Estava mais do que na hora. Na opinião de Sarah, seria muito
melhor se todos os membros dessa família ouvissem a verdade uns
sobre os outros, ao invés de usarem as boas maneiras para ocultar
as esperanças destruídas. Sarah queria estar presente quando isso
acontecesse.
Os motores pararam, e Sarah vestiu o casaco. Usava o mesmo
sobretudo de cashmere e o mesmo chapéu de abas caídas de sempre.


A família a localizou logo que saiu do avião. Sarah tinha um estilo
muito autêntico que absolutamente não se relacionava com a moda.
E então estava com eles, sentindo como se os anos não tivessem
passado, desde que todos estiveram juntos pela última vez, como se
conhecesse Paige tão bem quanto conhecia Elea. A Sarah de hoje era
a mesma de cinco anos atrás; era o que sempre fora.

— Vamos, todos vocês — ela disse. — Levem-me para casa. A velha
senhora está cansada. Precisa de um banho, um drinque e um mês
para se recuperar.
Mas sua energia voltou inteiramente em uma semana, e Sarah
mudou-se de Sands Point para o apartamento em Nova York.
Passou dois meses apenas deleitando-se com a atmosfera elétrica da
cidade no inverno. Nova York estava muito mudada, suja, perigosa
e miserável, mas ainda tinha o mesmo dom especial de inebriá-la.
Arnold a queria de volta na Duquesa. Ela ainda possuía metade da
empresa. Em uma companhia daquele porte, haveria lugar para
mais um talento, de qualquer modo. Mas era óbvio que ela
facilmente poderia se envolver no jogo de poder entre Arnold e
Parker. Arnold sabia que Parker estava preocupado, mas queria vêlo
preocupado, e não descansando sobre os louros. O Gladiador fora
um sucesso assombroso, e o trabalho duro que exigiu manteve
Parker longe dos prazeres da cama — embora aparentemente
tenham surgido rumores nos últimos tempos.
Os dois lutavam por cada migalha de autoridade, não apenas pela
divisão dos artigos de toucador para homens, mas também por
Paige, Julie e agora Sarah. Se ela retornasse à Duquesa, Arnold
consideraria isso como uma vitória, e Parker, como uma derrota.
Julie seria usada para equilibrar a balança, provavelmente da forma
costumeira. A única pessoa não incluída na rivalidade era Naomi, e
ela estava cansada de tanta tensão.

— Não sei como você consegue ficar o tempo todo botando água
fria na fogueira — observou Sarah certo dia, enquanto almoçavam

no "21". — Sempre antecipando uma briga, mudando de assunto,
vendo Julie fingir que não há nada de errado. Como pode?

— Já nem sei mais. Achei que alguém precisava fazê-lo —
respondeu Naomi com um sorriso irônico.
— Bobagem. Deixe que todos eles acertem suas diferenças. Isso
desanuviaria as idéias. — Inclinou-se sobre a mesa e segurou a mão
de Naomi, subitamente contrita. — Eu não devia julgá-la, meu bem.
A maioria das pessoas não é capaz de pôr as próprias cartas na
mesa.
— Às vezes, nós fazemos.
— Você e Arnold? — Sarah mostrava-se francamente cética.
Naomi assentiu com a cabeça.
— Ele sempre soube sobre Joshua.
— O que Arnold sabe? Naomi enrubesceu.
— Que amei Joshua.
— E ainda ama? — aventurou Sarah, conservando o resto do
relacionamento em segredo, se Naomi preferia assim.
Havia algumas coisas que Naomi não podia revelar, nem mesmo a
Sarah.
— Não sei, Shai. Não penso muito no amor agora. Vejo o que isso
faz às pessoas.
— Por exemplo?
— Julie. Juro que ela ajuda Parker a punir Arnold, deixando o
marido prosseguir com seus casos amorosos. Julie é parte do plano
tanto quando ele. Parker nunca agiria assim sem ter algum tipo de
louco consentimento dela. Sarah concordou com a cabeça.
— É preciso duas pessoas para dançar o tango.
— E eu. Não tenho levado uma vida plena porque não pude ficar
com Joshua e também não consegui ficar sem ele. Não me importei
se havia alguém sofrendo com isso. Sei que Arnold sofreu. Talvez
Rachel também.
Sarah tinha um ar de dúvida.

— Também nesses casos todos têm culpa. Talvez quisessem sofrer
um pouco por alguma coisa, e você os estava ajudando.
Naomi franziu o cenho.
— Tenho de pensar no assunto. -— Após um momento,
acrescentou: — Provavelmente, isso será mais útil do que pensar no
amor. Acho que já superei esse sentimento.
Sarah fez um gesto de concordância com a cabeça.
— Eu também, por razões diferentes. Mas ao menos conheci o amor
quando o tive, e isso é mais do que posso dizer de você. Devia ter se
esquecido de Joshua há muito tempo.
— As pessoas não lhe dizem o mesmo sobre Lazar?
— Certo, mas é difícil esquecer alguém que nunca envelheceu, nem
ficou chato e rabugento. . . ou agonizante, como Joshua. Nunca tive
tempo de me cansar de Lazar, muito menos de ver suas verrugas.
Ninguém pode competir com ele, porque Lazar será sempre novo
para mim.
— O que aconteceu a Josh, Sarah?
— Não sei, algo que ele não conseguiu superar e não pode discutir
com ninguém.
— Ele foi para a guerra e nunca mais regressou. Sarah deu uma
palmadinha na mão de Naomi.
— Suponho que você julgou trazê-lo de volta.
— Tentei.
Sarah fez um sinal para o garçom, pedindo a conta.
— Nós também, mas não adiantou nada.
— Como ele está agora? Sarah pegou a bolsa.
— Josh está bem quando há uma crise. E, em Israel, geralmente
existem crises. Mas Rachel diz que ele parece mais abalado cada vez
que regressa do deserto. Talvez não seja uma boa idéia a pessoa
confrontar-se consigo mesma.
— Talvez seja melhor não se conhecer. Sarah assinou o cheque.

— A maioria das pessoas não tem escolha. Acabam tropeçando em
si mesmas mais cedo ou mais tarde. Arnold é o único homem que
conheço a conseguir alcançar esta etapa da viagem pela vida sem
inspecionar sua própria mercadoria. Talvez Parker também. Os dois
formam um par e tanto quando não estão brigando.
As duas mulheres levantaram-se para sair.
—E isso é tão estúpido! Os dois são muito parecidos.

— Bem, estou prestes a penetrar na cova dos leões. Eles têm uma
nova idéia, algo quente na certa, porque ambos estão muito
agitados por causa disso. Aonde você vai agora?
— Apanhar Paige. Ela quer comprar um presente para Elea. Só
temos dois meses mais pela frente.
Elas se separaram, duas mulheres nos seus cinqüenta e tantos anos.
Ambas eram atraentes, mas não havia muito motivo para ficarem
excitadas por causa disso em um agradável dia de abril em Nova
York, pensou Sarah. Portanto, Naomi continuava protegendo sua
família, e Sarah continuava trabalhando — só que não tinha muita
certeza se queria entrar numa guerra por isso.
Minutos depois, estava no escritório de Arnold, conversando com
Parker, enquanto Arnold e Ellis Trent concluíam alguns negócios.
Como sempre, estavam aguardando Einhorn.
— Por que essa agitação toda? — Sarah perguntou a Parker.
— Desculpe, mas só posso responder depois que todos estiverem
aqui.
— Aposto que é um novo "desodorante especial" em spray para
homens.
— Não, mas eu já tive essa idéia; é sucesso garantido. — Parker
franziu o cenho. — Mas ele não aprovará.
— Por que não? Arnold vende um para as mulheres, e os
pobrezinhos o compram às dúzias.
— Mas ele vende através do ramo farmacêutico. Este aqui seria
parte do Gladiador.

— Minha nossa — Sarah sorriu. — Todos os gladiadores são assim
refinados? Como vai chamar?
— Pensei em "Golpe Baixo" — respondeu Parker, perfeitamente
sério.
Incrível, refletiu Sarah, ele não tem absolutamente nenhum senso de
humor, igualzinho a Arnold.
— Que tal "Pinto Seguro"? — ela sugeriu, explodindo em
gargalhadas.
Após um segundo, Parker riu também, atraindo um olhar cortante
de Arnold, no momento em que Einhorn entrava e sentava,
assemelhando-se mais do que nunca a um cientista louco.
— Desculpe, Arnold — falou Sarah, controlando-se com
dificuldade. — Simplesmente adoro uma boa piada.
— Bem, o que vamos discutir aqui não é nenhuma piada — replicou
Arnold. — Há uma fortuna em potencial nisso.
— Estou pronta — disse Sarah.
— É uma nova maquilagem que dura vários dias. Não sai lavando
ou esfregando. Necessita de uma loção especial para removê-la.
Uma mulher pode se pintar uma vez por semana, e só isso! Também
pode dormir maquilada. Pode molhá-la com água pura. Pensem no
tempo que economizará. Queremos fabricar a maquilagem inteira:
base, ruge, sombras para os olhos, batom, exceto a máscara. Fica
próxima demais dos olhos para garantir uma remoção segura.
— Isso parece maravilhoso — observou Sarah, completamente séria
agora. — Se for segura.
— É o que precisamos verificar — disse Ellis Trent. Ele continuava
magro e garboso nos seus sessenta anos, tal como Sarah sempre se
lembrava. Ellis Trent era o aristocrata consumado — ficaria
estupendo participando de uma caçada à raposa — com ou sem
roupas. E flertava com suprema habilidade e distinção. Mas não era
o tipo de Sarah; fracote demais. —Embora eu ache que estamos
sendo um tanto cuidadosos demais desta vez.

— Nem tanto — preveniu Einhorn. — Existem as alergias. E quem
sabe quais serão os efeitos a longo prazo?
Parker cruzou uma perna sobre a outra.
— Se realizarmos os testes de costume. . . — começou.
— Faremos mais do que os de. costume — Arnold o interrompeu
secamente. — Lembro-me do que aconteceu com Mãos Alvas. O
produto já estava no mercado. Não quero que este seja liberado até
termos certeza absoluta.
— Que diabo! — retrucou Parker. — Se não der certo, podemos
cancelar a fabricação.
— Esta é também a minha opinião — concordou Trent. — Levaria
anos para o FDA provar que não é seguro. O ônus da prova está
com eles. A essa altura, já teremos tido lucro com as mercadorias
vendidas.
— Escutem — exigiu Arnold. — Não quero retirar nada que leve o
rótulo da Duquesa, e isso é definitivo.
— Mas precisará cancelar a pesquisa, de qualquer maneira. O que
são alguns milhões a. mais ou a menos?
— Mitchell está certo — disse Ellis.
— Vamos esperar! — Arnold repetiu, irritado.
— Então para que estamos aqui? — indagou Sarah.
— Para escolher um nome. — Arnold se acalmou. — Para decidir
sobre o primeiro comunicado à imprensa, de modo que tenhamos
tudo pronto, se decidirmos iniciar a produção. Isto é estritamente
secreto. Não quero que nada saia daqui até estarmos prontos.
Alguma sugestão?
Houve um silêncio pensativo.
— Idée Fixe — sugeriu Parker.
— Essa é ótima. — Sarah sorriu.
— Só que esta não é uma idéia "fixa" — objetou Arnold. — É uma
coisa, uma maquilagem.
Fez-se outra pausa, antes que Parker tornasse a falar.
— Fait Accompli — disse ele.

Sarah ficou calada. Era bobagem ameaçar uma sugestão brilhante,
elogiando Parker outra vez.

— Gosto dessa — falou Trent. — Mas não prestem atenção em mim.
Não passo de um advogado velho e antiquado.
Para Sarah, o fato de Trent se ter em alta conta sempre se
evidenciava mais quando se referia a si próprio como um advogado
velho e antiquado.
— Também gosto — declarou Otto enfaticamente. — Um fato
consumado durante cinco dias no mínimo, após a mulher aplicar a
maquilagem.
Todos olharam para Arnold.
— Sim, essa é boa. Os anúncios explicarão o significado para quem
não entende francês.
Sarah riu.
— Quem não entende francês não terá dinheiro para comprar o
produto.
Discutiram a estratégia de publicidade — isto era importante.
Quaisquer qualidades descritas no rótulo precisavam ser
comprovadamente verdadeiras. Nos anúncios, um fabricante podia
prometer tudo, e em geral o fazia, através de uma sugestão
poderosa, sem utilizar termos específicos que o governo pudesse
objetar. Formularam uma manchete para o comunicado à imprensa.
Todos estavam excitados com as possibilidades antes que a reunião
terminasse.
Sarah apertou a mão de Parker.
— Meus parabéns, você é muito talentoso.
— Não diga isso a ele — replicou Parker. — Mas obrigado. Com
licença, Sarah. Quero falar com Ellis antes que saia.
Sarah sentiu o antigo entusiasmo dominá-la, enquanto ouvia
Arnold e Otto conversando sobre os testes. Era estimulante estar
envolvida na criação de um produto que podia revolucionar a
indústria de cosméticos. Seria maravilhoso formular os planos de
marketing, pôr em andamento a campanha publicitária. Seu impulso

era dizer a Arnold neste momento que voltaria, mas virou-se para
observar Parker, que conversava com Ellis Trent. Não, seria melhor
esperar só mais um pouco, até estar certa de que ele não iria encarar
esta notícia da maneira errada.
Seu rosto ensombreceu. Também havia problemas em casa, em
Israel. A Rússia estava despejando armas e "instrutores" no Egito,
buscando outro reduto de influência no Oriente Médio, como
sempre fizera. Nasser era tão claro em suas intenções quanto Hitler
havia sido: "Não entraremos na Palestina com seu solo coberto de
areia", garantia. "Entraremos nela com sua alma embebida em
sangue."
Com a bênção de Nasser, a Organização para a Libertação da
Palestina aterrorizava toda a região entre o Sinai e a Faixa de Gaza,
bem próxima de Yad Mordechai. No outro lado de Israel, o El Fatah
atacava a partir da zona "desmilitarizada" da Síria, ultimamente
contando com o apoio de tropas regulares sírias, que emboscavam e
matavam.
Quando a guerra viesse — ninguém dizia mais "se" — todos eles
estariam em perigo mortal: Seth, Rebekah, as crianças, Joshua,
Rachel e Benjamin.
Agora Sarah apenas parecia estar ouvindo Arnold e Otto. O que
estava debatendo era como podia se entusiasmar com projetos para
convencer as mulheres a pintarem o rosto, enquanto o destino do
país de Lazar e dos "filhos de Lazar pendia na balança.

Capítulo 51


Parker largou o casaco sobre uma cadeira no vestíbulo de entrada
do apartamento, e foi direto para o escritório, carregando consigo a
valise. Preparou um drinque rapidamente em um pequeno bar
portátil, ainda com a maleta debaixo do braço. Depois levou o copo


para a mesa de mogno entalhado. Este era o único objeto de valor
que o pai lhe deixara. O móvel tinha andado de um lado para o
outro com Parker durante anos, até que a mesa e ele encontraram
um lar permanente com Julie, neste duplex no alto da Quinta
Avenida.
Julie e Paige sorriram para ele de uma moldura sobre a mesa, mas
Parker nem as viu. Bebericando o drinque, examinou as anotações
que fizera, depois acendeu um cigarro e olhou de relance para o
telefone, esperando que tocasse.

Reclinou-se na cadeira de couro macio e vagueou os olhos pela sala,
regalando-se com seu luxo. O fogo crepitava entre os cães de bronze
da lareira que ele e Julie descobriram em Cingapura, lançando
sombras sobre o tapete oriental que trouxeram da última viagem ao
Irã.
As estantes estavam cheias de livros — uma seção inteira dedicada
à história dos perfumes. Este era um assunto que o fascinava desde
que ingressara na Duquesa. Tinha o romance que faltava nos outros
ramos de negócio, um mistério todo seu que fazia as pessoas
comprarem uma fragrância, a despeito do quanto custasse. Recuava
aos primeiros registros da história, quando era parte dos ritos
religiosos.
Existiam inúmeros tipos de essências. As que estimulavam o sexo,
como o almíscar, as sementes do abelmosco e as raízes do costo; as
narcóticas, como algumas flores e bálsamos; as refrescantes resinas
verdes da seiva e das folhas da cânfora, do pinheiro e da hortelã.
Parker sabia que nunca seria capaz de criar uma fragrância — não
era um "nariz" —, mas queria viajar pelo mundo, para comprar
algumas das matérias-primas.
Era mínima a chance de realizar esse objetivo com Arnold Fursten
no comando da Duquesa. Ele possuía algumas ações,
parcimoniosamente entregues pelo velho de tempos em tempos,
algumas pinturas que Arnold lhe dera para apaziguar algumas


discussões mais violentas, mas isso era tudo. O resto dos bens
pertencia a Paige, confiado à guarda de Julie. Agora Parker recebia
um salário, mas que nem chegava a cobrir suas despesas básicas.
Ainda estava sendo literalmente sustentado por Julie. E agora havia
Sarah para lhe tirar mais oportunidades. Por mais que gostasse da
mulher, ela era uma ameaça. Pousou os pés sobre a mesa. Tinha
uma chance de enriquecer. Só precisava de dinheiro suficiente para
comprar muitas ações da Duquesa, alguém para agir como testa-deferro
e um pouco de sorte.
Qualquer lote com mais de dez mil ações seria registrado — e todo

o plano dependia do fato de Arnold ignorá-lo. Era por esse motivo
que necessitava de um testa-de-ferro.
Se as coisas corressem conforme planejara, as ações subiriam
durante vários dias e poderiam ser vendidas com lucro. Era por esse
motivo que necessitava de um pouco de sorte.
O dinheiro era outra história. Ficaria mais rico sem ninguém saber e
sem empobrecer a quem quer que fosse. A publicidade antecipada
sobre o novo produto só podia ajudar nas vendas, assim que
estivessem no mercado.
O telefone tocou. Era Ellis Trent.

— Acho que concordamos em muitas coisas — disse Parker, após os
cumprimentos de costume. — Veja este caso, por exemplo. Lembra-
se do que aconteceu há alguns anos, quando transpirou a notícia
sobre um novo cosmético?
Ellis riu, citando o nome de uma grande indústria de cosméticos.
— A coisa era feita de soro de cavalo e supunha-se que
rejuvenescesse os rostos envelhecidos por oito horas. O produto
ficou no mercado durante um ano, antes que a competição o
alcançasse.
— E as ações subiram sessenta e seis por cento — acrescentou
Parker, pondo ênfase nisso.
— Já percebi — respondeu Trent. Parker esperou.
— E percebo também outra coisa: problemas — prosseguiu Trent.

— Nada que não possa contornar? Houve uma pausa.
— Você podia usar uma companhia estrangeira para comprar as
ações. Assim o seu nome não apareceria como comprador de um
grande lote. Isso só vale a pena se adquirir muitas, porque não terá
um ano para esperar que subam. Ele ficará furioso o bastante para
negar a coisa toda, tão logo descubra que a notícia transpirou.
Talvez cancele tudo.
— Se for um rumor interno, ao invés de um comunicado à
imprensa, pode levar alguns dias para que tome conhecimento da
operação. Isso é tudo de que precisamos. Além do mais, ele nunca
iria cancelar. O produto vai fazer muito dinheiro. — Parker estava
sorrindo. Os dois se compreendiam. — Quais são os outros
problemas?
— Dinheiro.
— Eu me encarrego da minha parte — prometeu Parker. — As
ações estão vendendo a vinte e oito. Digamos que a companhia
estrangeira compre cem mil ações na margem. Só precisamos de
cinqüenta por cento do total. — Deu uma risada. — Estou
presumindo que você não me cobrará seus honorários pelo trabalho
de fundar a companhia.
— Meu caro amigo, é lógico que não!
— Quanto tempo levará para organizar a firma?
— Na verdade, já tenho uma preparada, flutuando em torno de
Liechtenstein.
— Perfeito! Para quando quer o dinheiro?
— O fim de semana, antes que os rumores comecem, digamos uma
semana a partir de sábado.
— Você o terá. A época é boa. Ele estará de férias em Barbados. Isso
nos dá cinco dias de mercado para esperar que as ações subam.
Mesmo que subam apenas dez pontos, isso é um lucro gigantesco
em uma operação rápida.
— Ótimo!
Parker tirou os pés de cima da mesa.

— Devemos elaborar algum documento para definir quem controla
a companhia estrangeira? — Ele não. confiava em Ellis Trent.
— Ora, por que não partilhar isso. . . por trás do sujeito em
Liechtenstein, naturalmente?
Parker sorriu outra vez. Era exatamente o que queria. Se estavam
ambos nisso, podia estar seguro quanto a Ellis. Não se importava
que Trent lucrasse também.
— Perfeito — respondeu Parker. — Falo com você durante a
semana.
Pousou o fone no gancho, excitado como não se sentia há muito
tempo. Foi preparar outro drinque. Ao menos possuiria um pé-demeia
só seu, algo que Arnold não controlaria. Voltou para a mesa e
abriu a primeira gaveta, onde Julie guardava os talões de cheque.
Tudo que tinha a fazer era transferir o dinheiro da conta de Julie
para a sua. Ela tinha um grande saldo no banco, mas ele precisaria
cobrir a retirada, vendendo a curto prazo algum papel pertencente à
esposa e substituindo-o assim que obtivesse o lucro.
A assinatura de Julie era fácil de imitar. Parker vinha fazendo isso
há anos, quando preenchia os cheques mensais. Era clara, redonda
como a de uma colegial. Ela nunca saberia e, se soubesse, nunca
tomaria nenhuma providência a esse respeito.
Subiu as escadas quase flutuando. Despiu-se rapidamente e entrou
debaixo do chuveiro, abrindo todos os chuveirinhos da parede, para
que os jatos de água pudessem massagear-lhe o corpo, relaxando os
músculos.
Depois secou-se com uma toalha, espargiu a colônia que preferia ao
Gladiador e caminhou nu para o quarto bege e branco. As cobertas
da enorme cama de dossel já estavam dobradas para baixo. Dois
delicados abajures chineses brilhavam nas mesinhas-de-cabeceira.
No seu lado da cama, um roupão de seda estava pendurado no
braço da poltrona forrada de linho. No lado de Julie, um de seus
diáfanos penhoares de gaze estava arrumado sobre a
espreguiçadeira. Perto da janela, de onde pendia uma cortina de

brocado bege sobre um forro de algodão transparente, estava uma
pequena escrivaninha de pau-rosa em estilo Luís XV, uma perfeita
obra-prima da marchetaria. Na parte oposta do quarto, havia um
par de pequenos sofás de veludo bege, que ladeavam a lareira de
mármore da mesma cor, onde ardia um fogo baixo. O carpete era de
veludo bege, e os inúmeros vasos colocados sobre as mesinhas de
canto e o console estavam repletos com as únicas manchas de cor no
aposento: antúrios de todas as tonalidades, desde o escarlate
acetinado até os tons mais claros de coral, salmão e branco. Eram as
únicas flores colhidas de que Julie gostava, porque duravam muito
tempo.
Sentia vontade de gritar. Pela primeira vez, ia enganar Arnold
Fursten, e as mulheres não tinham nada a ver com isso. A leve
ferroada de remorso que sentia quando pensava em seus muitos
casos amorosos foi sufocada. Um homem precisava provar que era
dono de si próprio de alguma forma. Mas não tinha necessidade de
um caso agora, não com algo assim esquentando.

A sensação de poder o estava deixando sexualmente excitado, mas
podia ter todo o sexo que desejava com a esposa. Baixou os olhos,
sorrindo. Teve uma grande ereção e Julie estaria em casa a qualquer
momento. Deitou-se na cama, acendeu um cigarro e começou a
pensar em fazer amor com Julie. Isso seria melhor do que todo o
sexo que já tiveram juntos, melhor do que o Gladiador, melhor do
que tudo.
Exceto ludibriar Arnold Fursten em um milhão de dólares.

Capítulo 52

ISRAEL — maio de 1967


— Ei, escutem isso! — o radioperador gritou. — Begin quer Ben
Gurion como ministro da Defesa!
Ari ergueu os olhos do almoço misturado com areia.
— Maravilhoso! O que mais?
— E isso não basta? — disse Natan. — Eles são inimigos mortais há
longo tempo.
O rapaz agachou-se junto ao rádio de campanha, ouvindo.
— Dizem que, se não for Ben Gurion, será Dayan. Ari e Natan
trocaram um rápido olhar de satisfação.
Tanto o jovem quanto o velho leão eram aceitáveis para a nação. Na
contracorrente que os arrastava inexoravelmente para a guerra,
recorriam ao líder da guerra de 1948 ou ao da campanha do Sinai.
Além de um exército de 50.000 homens, tinham 250.000 reservistas.
Desde a mobilização, homens e mulheres estavam se deslocando
para as fronteiras, cavando trincheiras, aprontando-se para
defender suas colônias uma a uma, se preciso fosse.
-O que quero saber é por que estamos esperando —falou Natan. —
Nossa única esperança é levarmos vantagem sobre eles. E devemos
estar nas linhas de frente.
— Relaxe, cabeça quente — replicou Ari. — Em um país deste
tamanho, todos estão nas linhas de frente. Agora mesmo estamos
grudados ao inimigo. Você nem devia estar aqui. — Ergueu os
olhos para as Colinas de Golan, elevando-se a quinhentos e dezoito
metros de altura em alguns locais no norte da Galileia, penhascos
rochosos cercados de artilharia pesada ali instalada há anos,
fazendo chover bombas sobre os colonos do Vale Chula. Ao sul, de
frente para Giora, as plataformas para as peças de artilharia eram
mais leves. Isaac estava lá embaixo, mas Natan viera do norte com
Ari, cuja experiência era valiosa demais para o exército recusá-lo,
apesar da idade. Natan cuspiu.
— Eu também sou velho demais para o exército regular, velho
demais para a reserva. Mas ainda sou bastante jovem para mijar de
um lado a outro deste país que construí! Isso é que é gratidão!

— Oh, Deus de nossos pais — Ari entoou, acendendo um cigarro. —
Mande Joshua para aquietá-lo. Eu não posso.
Para Joshua, a bomba-relógio que tiquetaqueava dentro de si há
mais de vinte anos acelerou seu ritmo, à medida que a ameaça da
guerra aumentava. Antes da mobilização, ele estava em Dimona, no
Negev. O imenso reator achava-se protegido por um duplo círculo
de mísseis Hawk americanos, que Joshua ajudara a adquirir. Seu
quartel-general era uma massa de dados sobre armas disponíveis —
e suas cruciais peças de reposição — de todo fornecedor conhecido
no mundo. Essa tarefa estava ligada ao serviço secreto do exército.
Muito embora estivesse fabricando uma parte de seus armamentos,
Israel confiava principalmente nos suprimentos recebidos de outros
países, que vendiam ou não, de acordo com as tendências políticas
prevalecentes. Houve ocasiões em que era prudente vender
indiretamente, assim como os Estados Unidos fizeram através da
Alemanha, dentre todos os países — até serem descobertos.
E Joshua era um dos filhos do deserto — desolado, silencioso, não
disfarçado pelos cosméticos da ilusão. Só conseguia confiar em si
mesmo aqui e com Rachel. Nem o lugar e nem a mulher exigiam
nada dele. Ambos o aceitavam como era.
Benjamin fazia algumas restrições ao pai, mas agora estava
preocupado demais para pensar no assunto. O rapaz entrava e saía
do Centro de Informações, em Dimona, o primeiro a construir uma
cópia do imenso complexo de defesa em Um Catef no Sinai, para as
tropas treinarem até que pudessem tomar a fortaleza real no escuro,
se precisassem. Os detalhes da fortaleza foram reproduzidos com
toda a exatidão, a partir de fotografias aéreas.
Ultimamente, Benjamin cotejava um tipo diferente de informações
secretas aéreas.

— Sabemos em que hora os egípcios fazem seus vôos diurnos de
patrulhamento — contou ao pai. — Sabemos quando descem para o
cafezinho, quando os atiradores nas pistas de pouso almoçam,

quando todos no campo dão uma cagada! — Sorriu com ar
confiante. — Vamos levar a melhor sobre eles, verá.
E Joshua formulara a pergunta de Natan.


— Quando?
— Quando chegar a hora — Benjamin assegurou ao pai. Olhou para
Joshua mais atentamente, notando que aquele rosto envelhecera o
bastante para combinar com o cabelo embranquecido há vinte anos.
— Você está bem?
Joshua concordou com a cabeça.
— Escute — disse Benjamin, não convencido. — Podemos ir para
casa por um dia. Requisitaremos um jipe.
Uma visita a Giora faria bem a Joshua. Ele estava mais sociável,
desde que a tensão relacionada a uma guerra real começara a se
intensificar. No passado, o pai teria sido o último homem a
considerar a ameaça da guerra como um modo de esquecer o que o
assombrava, Benjamin tinha quase seis anos quando o pai partira
para a Europa, e lembrava-se de um homem muito diferente, quieto
mas amoroso, gentil mas feliz, um homem totalmente contrário à
violência, uma coisa repugnante para ele ainda agora. Amor e
felicidade não eram suas preocupações.
Às vezes Benjamin zangava-se por causa da mãe. Como seu pai
podia manter uma barreira entre si próprio e Rachel — sem falar no
modo como tratava Elea? Contudo, Rachel estava sempre por perto
para ajudá-lo, e Benjamin acabou aceitando o fato de que ela queria
isso; a mãe não tinha nada de mártir. Os dois deviam ter se amado
muito antes, para que ela vivesse apenas da lembrança desse
sentimento. Benjamin nunca se apaixonara dessa maneira. Não
guardava tais recordações e, afora o dia de hoje, não tinha nenhum
plano futuro. O trabalho no serviço secreto era uma paixão
escravizante; não sobrava tempo para o amor. Mas Benjamin sempre
fora assim. Joshua não.
Eles não voltaram para casa até a terceira semana de maio, quando
Giora estava mais bela. Uma bruma suave pairava sobre o Mar da

Galileia, e as árvores e os campos eram frescos e verdejantes, após o
violento e ofuscante calor de Negev.
Estavam todos lá, os amigos especiais de Joshua, mas foi Ari quem

o abraçou primeiro, ocultando seus sentimentos ante a visão
daquele rosto tão queimado de sol e do cabelo tão embranquecido.
— Rabino, você se transformou em um rato do deserto! Na primeira
vez em que o vi com Lazar, vocês dois eram como Davi e Jonatas,
tão bonitos e fortes eram. — Segurou Joshua pelos ombros, a cabeça
pontuda com a grenha do cabelo grisalho balançando da esquerda
para a direita. — Oh, Josh, por que você teve de envelhecer?
Pai e filho foram ver Rachel, e Ari olhou para Isaac e Natan.
— Não vejo Joshua há muito tempo. Ele está com uma péssima
aparência.
— Ele está bem — assegurou Isaac. — Tem uma constituição forte.
— Eu é que tenho uma constituição forte. No caso de Josh, somente
algo em sua cabeça consegue mantê-lo vivo.
Sentaram-se na grama, esperando que Joshua e o filho retornassem
do pequeno escritório na fábrica de laticínios, onde se achava
Rachel. Natan estava fora de si.
— Qual a sua opinião, Josh? Não devíamos atacar agora?
— Ainda não — Joshua respondeu ao amigo troncudo. — A França
e os Estados Unidos nos aconselharam a não atacar primeiro.
— Aqueles sacanas de novo? — objetou Ari. — Acredita que vão
manter suas promessas de nos ajudar, se realmente esperarmos e
formos apanhados com as calças na mão?
— Você sabe que é a nossa única chance — argumentou Natan. —
Agora temos as armas. Não precisamos deles.
— Isso depende de quanto tempo a guerra durar.
— Não conseguiremos ganhar uma guerra que dure mais de quatro
dias — Benjamin interpôs.

— Encomendarei a você uma guerra de quatro dias — replicou Ari.
— Você deve estar brincando, garoto. — Era difícil para ele lembrar-
se de que Benjamin estava com trinta e dois anos.
— Não temos condições de continuar com uma guerra de atrito.
Portanto, nossos aviões vão destruir a Força Aérea Egípcia no chão,
depois estarão livres para nos ajudar a conquistar o Sinai, mas dessa
vez a partir do norte, onde não nos esperam. Então será a vez dos
campos de pouso na Síria e no Iraque. E, finalmente, as Colinas de
Golan. — Sorriu para os outros. — Simples.
Ari balançou a cabeça, francamente cético.
— Então me diga como vamos escalar aqueles penhascos. — As
Colinas de Golan eram íngremes e rochosas.
Benjamin sorriu.
— Não posso lhe contar tudo. Não terá nenhuma graça se não for
surpresa.
A voz de Rachel chamou do pequeno escritório na fábrica.


— Benjamin, telefone para você.
Ele ergueu-se sem esforço, estendendo o corpo alto de onde há
pouco estava sentado de pernas cruzadas no círculo dos amigos do
pai, que, em sua maioria, estiveram presentes na noite em que

nasceu.

— Alguma coisa está acontecendo — disse Ari, vendo Benjamin se
afastar.
Os homens aguardavam sem conversar, ansiosos em saber o que
ocorrera, mas relutantes em ouvir a notícia essa noite, quando
estavam todos juntos novamente. Quem sabia quando tornariam a
se reunir? Esperaram até Rachel e Benjamin saírem do escritório.

— Estamos mobilizados — avisou Benjamin a todos. — Contarei aos
outros. Depois teremos de partir.
Para Joshua, a bomba-relógio começou a tiquetaquear mais
depressa. Houve uma agitação de pessoas e vozes nos prédios de
Giora, enquanto os homens recolhiam o equipamento de campanha

e se despediam. Todo reservista na colônia estava preparado para se
juntar às tropas em locais de encontro predeterminados. A maioria
desses homens se deslocaria para a região da Galileia ao norte de
Giora. Joshua e Benjamin iriam primeiro a Dimona, a fim de
receberem instruções, depois para qualquer lugar para onde fossem
enviados.
Joshua sentiu Rachel perto de si e virou-se para abraçá-la.

— Talvez ainda não haja problema. A mobilização não é a guerra.
Mas tenha cuidado. — Estreitou-a com força, falando suavemente
com a boca encostada em sua face. — Rachel, se algo me acontecer,
chame Arnold. Ele saberá o que fazer por você e os garotos.
— Mas estamos bem aqui. — Rachel não se preocupou em negar
que alguma coisa poderia suceder a qualquer um deles. Esta era
uma das razões por que a amava: ela era uma mulher que nunca
fingia.
— Mas se perdermos. . .
— Não vamos perder — afirmou Rachel. — Não podemos nos dar
ao luxo de uma derrota.
Joshua baixou os olhos para a esposa.
— Elea...
— Sim?
— Não deixe que ele volte se houver uma guerra. Telegrafe a Sarah,
para que o prenda lá.
— Ninguém conseguirá manter Elea longe daqui.
— Naomi poderia. Prometa que lhe pedirá para tentar. O jipe de
Benjamin parou com um guinchar de pneus.
— Vamos, pai, estamos perdendo tempo. Cuide-se, mãe.
— Prometa — insistiu Joshua.
Ela assentiu com a cabeça. Joshua a beijou, e -Rachel o viu entrar no
jipe e reunir-se ao grupo de homens que estava deixando Giora a pé
ou nos veículos requisitados pelos mili tares para o transporte de
emergência.

Rachel ainda podia sentir o calor dos dois — do marido e do filho —
na pele. Por fim, tudo ficou quieto outra vez e ela voltou para o
pequeno escritório, a fim de telegrafar a Sarah, assim que
conseguisse uma linha.

Capítulo 53

NOVA YORK — maio de 1967

Este era um dos quentes dias de maio, quando afinal as árvores
floresciam corajosamente em Manhattan, apesar da evidente
superioridade do monóxido de carbono na batalha. Naomi e Julie
examinavam as vitrines ao longo da Quinta Avenida enquanto se
dirigiam à Duquesa, admirando alguns dos estilos da moda atual.
As saias estavam mais curtas este ano, mas mãe e filha sempre
preferiram Chanel a qualquer outro estilista, e Chanel, como todas
as grandes casas, era sempre clássica, nunca seguindo as tendências
passageiras.
Naomi estava nervosa demais para se interessar por moda. Desde
que ela e Arnold regressaram de Barbados na noite passada, Naomi
vinha imaginando se devia prevenir Julie sobre a tempestade que
estava se armando entre Parker e o sogro, muito mais séria do que
todas as outras ocorridas no passado.
A fúria de Arnold foi apoplética quando os banqueiros e advogados
em Zurique descobriram quem estava por trás da grande compra de
ações realizada um dia antes que a notícia transpirasse. Naomi
receava que essa discussão entre Arnold e Parker fosse a última.

— Não posso acreditar que ele fez uma coisa dessas — Arnold
havia gritado, os olhos cinzentos frios como o aço. — Trent é um

vigarista, sempre foi. Mas o filho da puta é casado com a minha
filha. Supostamente, ele é um membro da minha família.
Arnold havia despedido Ellis Trent com um lacônico telegrama.
Mas não podia despedir Parker tão facilmente. Esse pensamento
estava na sua mente e na de Naomi durante toda a viagem de volta
para Nova York: se Parker fosse, Julie talvez o acompanhasse.
Ouvindo Julie, Naomi quase decidiu preveni-la, antes que subissem
as escadas para encontrar Sarah, Parker e Arnold. Mas havia uma
chance de que Sarah tivesse conseguido acalmá-lo. Naomi parara de
tentar no avião. E também estava aborrecida com Parker.
O porteiro sorriu para as duas, quando abriu as portas de bronze da
Duquesa, e elas esperaram pelo elevador particular de Arnold no
andar térreo. Julie estava excitada com o programa daquela noite:
um espetáculo e jantar no Sardi's.

— Fico contente porque papai comprou entradas para um show na
Broadway — observou Julie. — Talvez isso afaste seus pensamentos
da caçada ao grande traidor.
— Só se for um tremendo sucesso — replicou Naomi com ar de
dúvida, entrando no elevador e apertando um botão especial para
parar no último andar. — E talvez nem isso baste.
Julie suspirou.
— Gostaria que papai se esquecesse de tudo. Ele negou os rumores
e parou de trabalhar naquela maquilagem. Está tudo acabado, e não
há mais nada que possa fazer.
Naomi balançou a cabeça, defendendo-o.
— Seu pai não aceita deslealdade de alguém em quem confia. —
Então percebeu que essa afirmação podia se aplicar tanto a Julie
quanto a Parker. Quanto Julie precisava de Parker para continuar
aceitando a deslealdade como a que ele sempre demonstrara
durante todo o casamento?

— Talvez tia Sarah o acalme — Julie falou vivamente, ecoando os
pensamentos da mãe e mudando de assunto, como sempre. — Acha
que ela vai ficar?
As portas do elevador se abriram.
— Não sei, querida. A situação está piorando em Israel. — Tanto
aqui quanto lá, acrescentou intimamente, imaginando por que não
havia vozes alteradas vindo do escritório de Arnold.
Arnold ouviu o elevador. Queria Naomi e Julie presentes a isso,
além de Sarah. Queria ver a reação da filha à traição do marido.
Julie finalmente compreenderia que o pai sempre estivera certo
durante todos esses anos e abandonaria Parker. Ele não era digno
nem de beijar seus pés.
Arnold viu o rosto ansioso de Naomi. Sabia que ela estava aflita
quanto ao perigo de um rompimento definitivo entre Julie e os pais,
mas Arnold reprimira uma indignação legítima vezes demais na
vida, para evitar perder pessoas que não ligavam para ele.
Os pais não lhe davam importância. Sempre preferiram o irmão, até
mesmo quando Joshua lhes voltou as costas, sem se preocupar nem
um pouco com eles, apesar do quanto estavam velhos e frágeis
antes de morrerem. Quantas vezes os ouvira falar com orgulho
sobre seu ídolo ausente, enquanto Arnold sufocava o que desejava
gritar-lhes a plenos pulmões: "Mas e quanto a mim? Por que não
dizem que se orgulham de mim? Porque ele é forte, heróico e
constrói países? Por que isso é tão importante, quando faço tudo por
vocês e ele não faz nada?"
E havia Lazar, que usou uma propriedade de Arnold para esconder
suas armas. Teria ajudado Lazar se ele lhe pedisse, ainda que o risco
para a Duquesa fosse muito grande. Mas não, Lazar preferiu agir às
escondidas,: sabendo também que Arnold dependia dos outros
conspiradores, da própria irmã e daquele pobre infeliz, Maresh, que
Joshua — sempre Joshua — lhe roubou para lutar na Polônia. Até
mesmo Otto Einhorn, a quem Arnold tratava como um irmão,
estava sempre do lado deles. Seu bem pago advogado de quase

vinte anos, Ellis Trent. . . . gente em quem confiava, que sabia o
quanto lhe era necessário; gente que Arnold amava, que sabia que
ele ficaria lá parado e engoliria tudo, tudo, tudo, pelo medo de
perdê-los.
E Naomi, principalmente Naomi. Anos sabendo — e não revelando

— que ela estava apaixonada por Joshua, anos sentindo-se frio por
dentro, até procurar alguma outra mulher para receber um pouco
de calor. Nunca devia ter feito isso apenas pelo seu próprio bem, do
jeito que alguns homens — Parker por exemplo — agiam. Não fazia
diferença que finalmente tenha contado a Naomi o que sabia. A
mágoa era profunda demais e deixara feias cicatrizes, desde aquela
noite, há tantos anos, antes do casamento de Julie.
Parker. Olhou para o genro, jovem e presunçoso, certo de que havia
realizado uma grande façanha, certo de que havia enganado Arnold
com a mesma facilidade com que conquistava as mulheres. Dessa
vez Arnold não ia sufocar a raiva. Não precisava. Não tinha nada a
perder além de Parker. Julie compreenderia que ficaria melhor sem
um marido igual a esse.
Arnold esperou que os cumprimentos acabassem e, depois,
ignorando um último olhar de cautela de Naomi, contou o que
Parker fizera, saboreando cada palavra da sórdida história. Seus
olhos nunca deixaram o rosto de Parker até terminar. Em seguida,
foram de Sarah para Julie.
— Podem acreditar que ele fez uma coisa dessas comigo?
Sarah estava junto à vitrine que guardava parte da inestimável
coleção de frascos de perfume de Arnold. Estava de braços
cruzados, o rosto fechado.
Parker se achava sentado em uma cadeira Luís XV, na postura de
sempre, um tornozelo cruzado sobre o joelho. Parecia
imperturbável diante do longo discurso, interessado apenas nos
sapatos Gucci, mas Naomi já o vira assim antes. Esta era somente
uma calma momentânea.

— Oh, pelo amor de Deus, Parker! — Julie afundou na pequena
poltrona perto de Sarah. — Por quê?
Parker acendeu um cigarro, antes de responder.
— Para ter algum dinheiro. Só meu. — Olhou para Julie. — Após
tantos anos nesta companhia, achei que estava mais do que na hora.
— Não tinha nenhum direito! — O punho de Arnold bateu na mesa.
— Esta tem sido a sua opinião em tudo — replicou Parker
asperamente, descontrolando-se. — Eu não tinha nenhum direito a
casar-me com Julie, nenhum direito a uma parte da Duquesa,
nenhum direito a um salário decente. Sabia disso, Sarah: o seu
precioso irmão me dava uma mesada, droga, entregue através de
minha esposa, até alguns anos atrás? E depois passou a me pagar
um salário menor do que o da sua secretária.
Sarah balançou a cabeça.
— Deixe-me fora disso — sua expressão ficou deliberadamente
neutra.
Parker levantou-se da cadeira, os punhos cerrados.
— Não fiz nada de tão terrível assim! Você podia ter ido em frente
com o produto, assim que a história transpirou. É perfeitamente
seguro. Tudo o que fiz foi preparar o caminho para o lançamento e
ganhar algum dinheiro com a alta das ações.
— Dinheiro! — gritou Arnold. — Existem algumas coisas que um
homem não faz nem por dinheiro.
— Vindo de você — retrucou Parker — isso soa ridículo. Há alguma
coisa que você não tenha feito por dinheiro?
— Sim — respondeu Arnold, inclinando-se para a frente, apoiado
na mesa. — Eu podia ter ganhado milhões exportando para a
Argentina durante a guerra, milhões! Mas não o fiz, por saber que
toda a mercadoria remetida para a América do Sul ia parar na
Alemanha. Esse era um risco que eu não podia assumir, apesar do
grande lucro envolvido nisso.

Os outros aguardavam. A revelação foi uma surpresa tanto para
eles quanto parecia ser para Parker. Naomi sentiu um arrepio de
orgulho pelo marido, e Sarah, um arrepio de vergonha por haver
duvidado abertamente de Arnold naquela reunião de anos atrás.

— Bem, não havia nenhum risco envolvido no que fiz — insistiu
Parker, obstinado, procurando uma saída. — Não para você ou a
Duquesa.
— Jesus! — exclamou Arnold. — O que fez foi uma quebra de
confiança. E ele nem reconhece isso. — Olhou para as três mulheres
e, depois, novamente para Parker. — E, onde conseguiu o dinheiro
para comprar aquelas ações, antes de mais nada?
Parker deu as costas para todos, contemplando a cidade através da
janela envidraçada.
— Com Julie — respondeu.
— Mas como? — surpreendeu-se Julie. — Você não comentou nada
comigo a esse respeito.
— Assinei algumas. . . coisas suas — explicou em voz baixa.
— Forjou a assinatura dela? — disse Arnold, incrédulo.
— Isso é roubo, apropriação indébita, pelo amor de Deus. Eu podia
processá-lo por isso.
— Repus cada centavo do dinheiro de Julie no dia em que vendi as
ações —-replicou Parker, virando-se para fitar Julie. — E você não
pode me processar. O dinheiro pertencia a Julie. Se alguém tivesse
que me processar, seria ela.
— E você tem certeza de que ela não o fará — disse Naomi
secamente, levantando-se da cadeira.
Sarah inclinou-se ligeiramente para a frente, como se algo pelo qual
esperava estivesse prestes a acontecer.
— Lógico que sim — afirmou Parker. — Por que Julie me
processaria?
— Por que o que você fez é condenável. Mas é óbvio que Julie
aceitará tudo o que você fizer, só Deus sabe o motivo.

— Mamãe! — exclamou Julie, naquela voz do tipo "eu não sei o que
dizer". — Não é assim tão simples.
— Oh, Julie, pare com isso — exclamou Naomi, impaciente. — É
muito simples. Seu pai trata Parker como uma criança estúpida, e
Parker age exatamente assim, tendo amantes por aí só para vingar-
se de Arnold. Eles a estão usando, os dois, e você os ajuda nisso. —
Respirou fundo. — Simplesmente não quero mais presenciar essa
situação.
— Naomi! — começou Arnold, a fúria transformada em choque.
— Arnold, é verdade — ela afirmou. — É baixo, mesquinho,
nojento. Mas é verdade. Desprezo vocês dois por se comportarem
dessa maneira. E também desprezo Julie por consentir nisso. —
Olhou para a filha, e sua voz suavizou-se.
— Meu bem, ninguém vale essa espécie de chantagem, nem o meu
marido e nem o seu.
— Que diabo! — esbravejou Arnold. — Como pode me culpar pelas
atitudes dele?
— Você não confia em Parker, papai — argumentou Julie. — Nunca
confiou.
— E algum dia já tive motivo para isso?
— Não tinha razão para não confiar — insistiu Naomi — quando os
dois se casaram. Mas esperava que ele fosse o que. . . se tornou.
Então Parker fez o que esperavam dele. As pessoas costumam agir
assim.
Sentou-se de novo na poltrona, a cabeça abaixada, enquanto
esfregava a testa com ar cansado. Depois ergueu os olhos outra vez.
— Estou cheia de todos vocês. Estou saturada de tentar evitar
discussões, de mudar de assunto, de ver todos se destruírem
mutuamente, enquanto fico com o coração na boca, fingindo que
somos uma família feliz. Vocês não são honestos uns com os outros,
não são felizes uns com os outros. Lamento por todos, mas estou

cansada de vocês. — Reclinou-se na poltrona, exausta. — Isso é
tudo o que tenho a dizer.
A sala estava muito silenciosa. Arnold sentou-se na cadeira atrás da
mesa, o rosto mais confuso do que zangado. Julie e Parker evitavam
se encarar. Por fim, Sarah afastou-se da vitrine.

— Bem, vamos ficar aqui a noite inteira? — Acendeu um cigarro.
— Sarah — falou Arnold com voz arrastada — o que acha que
devemos fazer?
— Despedi-lo, como fez com Ellis. Ou juntar os pedaços e seguir em
frente. Isso não é o fim do mundo, só porque Naomi finalmente
falou a verdade e não o que vocês queriam ouvir. Que diabo, estava
mais do que na hora de alguém pôr as cartas na mesa.
Os ombros de Arnold baixaram. Uma parte do desabafo era
verdadeira, muito embora nunca fosse admitir isso. Nunca dera
uma chance a Parker. Mas Naomi disse que estava cheia de todos
eles, e isso o preocupava mais do que as maquinações do genro.
Podia compreender Parker — embora a contragosto, podia até
admirá-lo por ter sido tão esperto. Mas tinha receio de perguntar a
Naomi o que ela queria dizer. Sempre teve. E agora estava velho
demais para mudar.
— Vamos juntar os pedaços, suponho — respondeu Arnold,
encolhendo os ombros. — Mas vai levar tempo. — Olhou para
Parker, a expressão do rosto indecifrável.
— Não quero um perdão real — o homem mais novo retrucou,
ainda beligerante. — Pertenço a este lugar porque mereço.
— Pois eu não — interpôs Sarah. — Quanto a pertencer aqui, quero
dizer. Antes que tivéssemos esta ceninha alegre, já tinha resolvido
que absolutamente não pertenço mais a isso. Voltarei para Israel.
— Oh, pelo amor de Deus, Sarah — explodiu Arnold. — Há lugar
para você na Duquesa, quer ele continue ou não nesta empresa.
— Eu já disse que Parker não tem nada a ver com esta decisão. E
nem você também, meu querido irmão. Só que não me sinto mais
em casa aqui. É tudo confinado demais. Sinto falta de Yad

Mordechai e de todos aqueles judeus loucos brigando uns com os
outros de manhã à noite. Vocês são educados demais.

— Shai, não vá — disse Naomi. É muito perigoso! Sarah sorriu.
— Eu me sentia mais segura olhando para a Faixa de Gaza do que
me senti há minutos neste escritório. Ao menos lá sei o que eles vão
fazer. Mas, sinceramente, estou com saudades. Vinte anos é muito
tempo para se passar em um lugar. Apesar das dificuldades, a gente
se apega. Tenho filhos e netos em Israel. De qualquer modo, eles
precisam de mim. Foram convocados.
— Oh, não — murmurou Julie. — Quando?
— Ouvi a notícia hoje. Não creio que haja muita chance de impedir
a guerra agora. Assim que a luta começar, vão fechar o aeroporto, e
quero estar em casa antes que o façam.
— Eles não têm nenhuma chance, Sarah — disse Parker, parecendo
sinceramente preocupado. — Está tudo contra eles. Vocês serão
arrasados.
— Quer apostar? — indagou Sarah. — Na verdade, não sou assim
tão heróica, Parker. Acredito realmente que temos uma chance.
— Elea — lembrou Naomi. — Ele vai querer ir. — A idéia de Elea
estar em perigo era insuportável para ela.
— Não posso detê-lo — respondeu Sarah. Tirou da bolsa um
telegrama amarelo. — Joshua me pediu para tentar.
— Elea não irá, se o pai não o quiser lá — afirmou Arnold.
Sarah e Naomi olharam uma para a outra. Elea estava acostumado a
que o pai não o quisesse. Iria, se fosse possível.
— Quando partirá? — perguntou Naomi a Sarah, resignada com o
fato. Quando a cunhada tomava uma decisão, era inútil argumentar.
— Daqui a duas semanas. — Os olhos escuros de Sarah vaguearam
pelos rostos das pessoas presentes na sala. — Se importam de adiar
sua guerra, até vermos o que acontece com esta aqui?
Inclinou a cabeça para guardar o telegrama na bolsa, ocultando o
rosto.

— No que me diz respeito — decretou Naomi — a nossa está
terminada. Não vou mais fingir que as coisas não mudaram depois
desta noite, mas realmente não me interessa o que vocês farão.
Tenho outras coisas em que pensar. — Ergueu-se e passou um braço
em torno de Sarah. — Vamos, Shai. Se não nos apressarmos,
perderemos a hora do espetáculo. Você precisa de um pouco de
divertimento esta noite.
As duas mulheres caminharam para a porta do escritório. Após um
segundo, Julie as acompanhou. Parker e Arnold trocaram um
rápido olhar antes de saírem. A guerrinha dos dois não estava
exatamente terminada, mas Naomi tinha razão — as coisas seriam
diferentes de agora em diante. Durante anos, todos representaram
seus papéis em um cenário familiar cuidadosamente roteirizado,
sem nenhum perigo de desastre, enquanto Naomi estivesse disposta
a manter a ilusão de uma trégua. Ela acabava de abdicar dessa
posição. Agora teriam de lidar uns com os outros diretamente.
Nenhum deles sabia com exatidão como começar.

Capítulo 54

GIORA — 5 de junho de 1967

Rachel saiu da pequena casa ao alvorecer e espreguiçou-se, ainda
sonolenta, sem notar o homem que se lançou ao chão nos juncos
próximos do lago, assim que a viu. Lá dentro, a mesa estava posta
para dois, mas ela pensava que podia persuadir Benjamin a descer
para a margem do lago e lá fazer o desjejum, tal como era costume
dos dois. Ele partiria logo em seguida. Alguma coisa ia acontecer —


geralmente acontecia quando Benjamin viajava —, mas não devia
lhe perguntar nada. Simplesmente era um prazer tê-lo aqui. Joshua
continuava em Dimona.
Benjamin saiu da casa, o cabelo ainda molhado do chuveiro, e parou
atrás da mãe, as mãos em seus ombros, contemplando o lago.

— Escute, mamãe. Acho que seria melhor você ficar escondida
durante os próximos dias, certo?
Ele não pôde ver a mudança no rosto de Rachel.
— Está bem — ela respondeu. — E você?
— Tenho coisas a fazer, mas virei aqui sempre que possível. O pai
deve retornar daqui a um dia ou dois.
— Nunca vou me acostumar a ouvir você chamá-lo de "pai". Parece
tão impessoal. Se não pode dizer "abba", tente "papai". — As mãos
de Rachel seguraram as do filho. Só estava conversando para
mantê-lo perto de si, para mantê-lo a salvo. — Como ele está?
— Você o conhece, é sempre o mesmo.
— Nem sempre. Que tal tomar o café da manhã junto ao lago?
Benjamin assentiu com a cabeça e a ajudou a recolher as coisas para
um desjejum frugal. Desceram para a beira do lago, onde uma brisa
agitava os juncos que encobriam o visitante secreto. Quando o sol
estivesse a pino, a brisa sossegaria. Ia ser um dia quente.
Benjamin serviu chá da garrafa térmica e entregou-lhe um pão doce.
— Quando ele não é o mesmo? — indagou a Rachel, retomando a
conversa interrompida em casa.
— Quando está cansado demais para lutar contra o que realmente
é.
— E como ele é?
— Do jeito que era antes da guerra, lembra-se? Seu pai nunca via
apenas um lado das situações, via todos os lados. Queria endireitar
as coisas, para que fossem do modo como deviam ser. Creio que era
isso o que encantava as pessoas então, a sua crença de que o mundo
era feito para ser justo. . . isso e o quanto ele é bonito, como você.
Benjamin franziu o cenho.

— Ele não foi muito justo com você.
— Não cabe a você julgá-lo, Benjamin. — Então sua voz suavizou-
se. — Houve um momento, há alguns anos. , . Josh ainda continua
lá, em alguma parte. De qualquer modo — sorriu novamente — tive
exatamente a vida que desejei, como acontece com a maioria das
pessoas. E também o homem que quis.
— Você é uma romântica incurável, mamãe. Por que não diz que o
ama porque o ama?
— Por que não? É verdade. — Respirou fundo. — Que bela manhã
a de hoje! Quente para junho.
— E ficará mais quente ainda — comentou, prevenindo-a outra vez.
Rachel o fitou atentamente.
— Quando?
— Hoje.
— Onde?
Ele balançou a cabeça. Não podia lhe contar, mas isso não
importava. Em um país tão minúsculo, qualquer lugar era todo
lugar.
Sentaram-se juntos na brisa fresca que vinha do lago. Os juncos
eram altos nessa primavera. A alguns metros dali, houve um
movimento nos caniços, que o vento não podia explicar. O homem
lá deitado vigiava mãe e filho, na glória pacífica da alvorada de
junho. Os pés estavam enlameados, e as roupas, úmidas. Ele se
jogara ao chão quando a mulher saíra da casa, e os observava desde
então através da alça de mira do rifle. O cano da arma moveu-se
imperceptivelmente, apontando primeiro para a mulher, depois
para o homem.
— É hora de entrar. — Benjamin olhou para o relógio. O dedo do
homem retesou-se no gatilho.
— Um segundo mais — disse Rachel, segurando a mão do filho. —
Você sempre foi meu companheiro, não é?

Todos ouviram ao mesmo tempo: Rachel, Benjamin, o invasor, a
população de Giora — um troar, um rugido, um sibilo. Benjamin só
teve tempo de proteger a mãe com o próprio corpo, antes que caísse
a bomba lançada da margem oposta do lago, apenas mais outra
bomba entre as inúmeras que choviam sobre o Vale do Jordão há
anos.
Vozes gritaram de Giora, pessoas correram, venezianas bateram,
mas perto do lago, quando a poeira assentou sobre a margem,
houve somente o silêncio, depois o pio de um pássaro assustado e o
farfalhar dos juncos.
Quando Isaac veio procurá-los, foi um choque ver o quanto se
pareciam na morte os dois que eram filhos de Abraão e o que era
filho de Ismael.
Às 7:10 da manhã, os aviões israelenses decolaram na hora marcada,
a fim de destruírem a Força Aérea egípcia no chão e também as
esquadrilhas de MIGs do Iraque e da Síria. Por ordem do ministro
da Defesa, todas as comunicações fora de Israel foram cortadas. O
mundo prendia a respiração. A Guerra dos Seis Dias tinha iniciado.
Em três horas, a Força Aérea egípcia foi arrasada, e as forças
terrestres israelenses penetraram no Sinai, de Khan Unis e Rafah até
Al-Arish. A "inexpugnável" fortaleza em Um Catef foi tomada pela
retaguarda — à noite. Ao fim do segundo dia, Gaza foi ocupada, e o
Sinai, aberto às divisões blindadas israelenses. No deserto árido,
brotavam em profusão tanques russos, abandonados pelas tropas
egípcias em fuga.
Contudo, as únicas notícias que vinham do Oriente Médio eram os
alardes egípcios de grandes vitórias. No norte da Galileia, os
homens ouviam, atônitos com as fanfarronadas dos egípcios, que
sabiam não serem verdadeiras, e esperavam a ordem para atacar.

"O filho de Joshua."


Elea continuava ouvindo isso. Até mesmo quando não diziam,
podia perceber que os oficiais estavam pensando assim pelos
olhares que trocavam. Isso o enfurecia. Ele tinha um nome só seu,
era uma pessoa, não apenas o filho de seu pai! E estava com vinte
anos — era um homem, não o garoto de ninguém, acima de tudo
não de Joshua!
Ao seu redor, os homens moviam-se em forma de leque no Vale
Chula, onde estiveram aguardando desde que Elea lá chegou, uma
semana antes de a guerra começar. Ele sabia que viria assim que
Israel se mobilizou, a despeito dos esforços da família para mantê-lo
na América. Suas tias, Sarah e Naomi, também sabiam que ele viria,
apesar da vontade do pai.
Dessa vez, havia uma escolha, mas ele só pensou nisso depois que
estava no avião. Assim que o avião pousou em Israel, não teve
tempo para pensar. Juntara-se imediatamente à brigada no norte da
Galileia, incapaz, no caos da guerra, de comunicar seu paradeiro a
quem quer que fosse em Giora.
E, depois, junto com a Brigada Golani, esperou pela ordem de
Moshe Dayan para ocupar as plataformas da artilharia síria
localizadas nas colinas.

Rumores chegavam até eles lentamente. Os Estados Unidos e a
Inglaterra estavam enviando uma flotilha. O Presidente De Gaulle
havia cortado o embarque de armas e urânio para Israel no dia
anterior à eclosão da guerra. Os russos acusavam Israel de "agressão
criminosa". Os egípcios alardearam grandes vitórias, depois
silenciaram.
Por fim, reuniram-se a eles voluntários de batalhas já travadas e
ganhas no Sinai, em Jerusalém, na margem ocidental do Jordão. Os
homens aguardaram, depois exigiram a ordem de ataque que ainda
não viera.
Elea compreendia como se sentiam. Para esses homens, o mundo
era esse pequeno canto da Galileia, sob bombardeio incessante há


anos — e no outro lado do saqueado Vale Chula, as colinas que os
combatentes ansiavam impacientemente por escalar.
Elea arrepiou-se ao olhar para as Colinas de Golan. Quando
menino, costumava contemplá-las de Giora e sabia que Israel
precisaria fazer alguma coisa a esse respeito. Eram mais altas e mais
ameaçadoras aqui do que em casa.
Imaginou se morreria nas colinas. Algo terrível emboscava-se
naqueles penhascos, algo ruim para ele; sempre se sentira assim. Os
invernos passados na escola americana quase o fizeram esquecer,
mas ficava aqui parte do verão, em treinamento militar, e a Brigada
Golani tinha este nome por causa de seu objetivo último: uma
batalha para pôr fim à esporádica e casual chuva de morte que caía
lá de cima.
Uma batalha impossível, parecia. Penhascos que eram quase
impossíveis de escalar. Defesas com cerca de quinze quilômetros de
largura em alguns lugares, em vários níveis subterrâneos,
protegiam tanques, artilharia e lança-foguetes. Três brigadas sírias
os defendiam. Seis outras as apoiavam. As plataformas mais
fortemente armadas estavam em Tel Azaziat, chamadas de Dragão
das Alturas pelos israelenses e em Tel Fakr. Esses eram os
penhascos que o General Eleazar escolhera para o ataque quando
viesse a ordem. Seus homens cresceram sob a mira das armas sírias
e pretendiam silenciá-las de uma vez por todas.
A ordem finalmente chegou.


Ao meio-dia de 9 de junho, cruzaram a fronteira síria e começaram
a escalada; primeiro os tratores para afastar as rochas, depois os
tanques Sherman para dar a maior cobertura possível, e a infantaria,
na retaguarda.
— Por que escolheram o ponto mais fortificado para atacar? —
indagou um rapaz perto de Elea, a mão movendo-se sobre o rifle.


— É também o mais raso — respondeu Elea, lembrando-se da
descrição de Ari no último verão. — Se o transpusermos,
poderemos flanqueá-los. . .

Ouviu alguém chamar seu nome e, antes mesmo de virarse, soube
que era Ari, acompanhado pelo berro de Natan. Elea virou-se e
levantou o rifle. Então continuou caminhando até que os dois o
alcançassem.

— Eu sabia que você viria — disse Natan, batendo nas costas de
Elea. — Totseret ha'arets — dirigiu-se a Ari. — Fabricação nossa. Eu
falei que ele estaria aqui.
— É lógico que Elea está aqui — replicou Ari. — Ele é filho de
Joshua, não é?
O cheiro da guerra — bombas comuns e de napalm, lançadas pelos
aviões israelenses, encharcavam as colinas, retorciam o metal
quente e torravam a carne humana — envolvia a todos.
Não posso fazer isso, pensou Elea. É íngreme demais, o sol é quente
demais. Por que estou fazendo isso? Que me importa quem está ocupando
esses penhascos, os sírios ou nós? Porque não podiam parar de nos
bombardear, de se meter conosco? Por que não nos deixam viver em paz?
Seus olhos encheram-se de lágrimas de frustração. Nada
conseguiria mantê-lo longe daqui, mas, antes de mais nada, era tão
estúpido que precisasse estar aqui. . . . Estava contente por Ari e
Natan estarem por perto. Sempre se sentia seguro com Ari — e
Natan era indestrutível. Natan era Giora, Rachel e Benjamin. Joshua
estava em Dimona, provavelmente.
Parou de pensar no pai e continuou caminhando. "Cachorros loucos
e ingleses", as crianças costumavam cantar, "cachorros loucos e
ingleses saem sob o sol do meio-dia."

Foi uma escalada cruel até o topo, sob o sol inclemente e a artilharia
síria. Foi uma luta mais cruel ainda quando Elea atingiu as
trincheiras inimigas. Durante três horas, lutaram para conquistá-las,
destruindo com granadas de mão os tanques sírios que começavam
a se infiltrar, combatendo primeiro com rifles, depois com a soleira
da arma, em seguida com facas, finalmente com os punhos.


Um canto da mente de Elea se fechou, e ele conseguiu não ver a si
mesmo esfaqueando outros homens, levando-os à morte com o
pedaço de madeira e metal em suas mãos. Viu Natan de relance, no
meio da confusão, as mãos imensas e poderosas, o enorme torso
parecendo imune a golpes e balas voadoras. Perderam Ari de vista.
Em 9 de junho, o representante sírio nas Nações Unidas, em Nova
York, anunciou que seu governo concordava com o cessar-fogo,
junto com o Egito e a Jordânia. A essa altura, estava escuro
novamente nas Colinas de Golan, duas cabeças-de-ponte estavam
seguras, e Damasco, não muito distante.
Natan e Elea, escorregando em poças de sangue e pedaços de
homens mortos, procuravam Ari. Estavam esgotados demais para
ficarem nauseados com a carnificina, ansiosos demais para se
surpreenderem com o fato de estarem vivos e incólumes — exceto
uma parte de si mesmo, Elea sabia, que jamais seria a mesma de
antes, que se mostraria quando menos se esperasse e envenenaria
todas as coisas doces na vida, se permitisse. Do jeito como o pai
permitira. Continuou procurando Ari, mas estava procurando o pai
também. Não se incomodava mais em ser o filho de Joshua. Não
sabia o motivo, mas simplesmente não se importava.
Acharam Ari recostado nas lagartas de um tanque sírio, moribundo.

— Meu Deus, Ari — murmurou Natan, sentando-se ao lado do
amigo e tomando-o nos braços. — Não morra agora.
Os olhos de Ari abriram-se por um momento, e ele deu um sorriso
fugaz, reconhecendo-lhes a presença. Fitou Elea.
— Um bom soldado — sussurrou. — Ele sempre disse.
— Ari! — Natan o sacudiu de leve. — Ari, não morra!
Pelo amor de Deus, Ari! — Lágrimas escorriam pelo rosto d Natan.
Virou-se para Elea: — Chame um médico, peça ajuda


— É tarde demais — respondeu Elea. Sentou-se e seguro a mão de
Ari. Estava fria. Como Natan não via que a maio parte de Ari não
estava mais lá?

— Seu pai — falou Ari com voz quase inaudível. — Diga a seu pai. .
. Lazar está morto. Já está em tempo. — A pálpebras tremeram e
fecharam pela última vez, e Elea esticou-se ao lado do que restou de
Ari, ouvindo os soluços d Natan e abraçando a ambos, o homem
morto e o vivo, como se neles estivesse sua própria vida.
Capítulo 55

NOVA YORK — junho de 1967

Houve um rebuliço quando a enorme limusine parou na pista
alcatroada, e Parker olhou de relance para o homem em um dos
carros à sua esquerda. O detetive particular respondeu-lhe com um
tranqüilizador gesto de cabeça.
Arnold Fursten era sempre notícia — qualquer magnata era, mas
principalmente um que se esquivava da imprensa. E seu destino era
uma notícia ainda mais quente do que ele. O mundo ainda não
conseguia acreditar que Israel conquistar uma vitória impossível em
apenas seis curtos dias. A imprensa fora como sanguessuga,
tentando arrancar todas as informações possíveis dessa família, e
continuava grudada neles enquanto se dirigiam para o avião
particular que os levaria a Tel Aviv.

— Como ele conseguiu permissão para voar para Israel? — indagou
um dos jornalistas que observavam, comprimidos atrás da cerca de
segurança. — É isso que não consigo entender.
— Alguém da família está lá — respondeu o companheiro. — Um
rabino, pelo que ouvi. Mas os rabinos não são notícia.
— Agora são. Lá vão eles.

Em segundos, a família subiu a bordo do avião: Sarah com Paige,
Naomi e Julie, Parker e Arnold. A porta se fechou, os motores
giraram, e o avião taxiou para levantar vôo. Logo eram
transportados pelo ar, trancados juntos no espaço estreito do avião,
mergulhados no choque de tudo o que acontecera em menos de
uma semana.
O incrédulo alívio quando a guerra começou foi eliminado por um
telegrama de Joshua, que dizia somente o seguinte: "Rachel e
Benjamin morreram. Por favor, venha".
Só agora, sentada junto de Paige, Sarah se apercebeu de que o
telegrama fora endereçado a Arnold, não a ela. No princípio, achou
que Joshua fizera isto para poupá-la. Depois concluiu que o motivo
era o fato de Joshua estar precisando desesperadamente do irmão e
ter escolhido esse meio para lhe mostrar isso.
A garganta doía quando pensava em Rachel e Benjamin. Os dois
eram parte de sua vida. Como deixara Arnold persuadi-la a não
viajar logo após a mobilização geral, assim como fizera Elea?
Arnold estava sempre tentando protegê-la. Ele havia minimizado o
perigo durante a guerra, a fim de protegê-la da ameaça de morte de
Lazar. Mas ela compreendera então a magnitude da ameaça a Lazar.
E devia ter compreendido agora que os israelenses precisavam usar
de surpresa para equilibrar a balança que pesava tanto contra eles.
Os olhos embaçaram-se de lágrimas de dor e remorso. Se tivesse
retornado a Israel, Rachel e Benjamin talvez estivessem em Yad
Mordechai na manhã fatal. Poderiam ainda estar vivos.
Depois, balançou a cabeça. Por maior que fosse o amor, nunca era
forte o bastante para livrar alguém da morte. Ou da vida.
Sentiu um pequeno braço consolador em torno de si e virou-se para
a menina de treze anos ao lado, determinada a aliviar o pânico que
Paige devia sentir em seu primeiro encontro com a morte. Embora
não conhecesse tia Rachel e Benjamim, as pessoas sobre as quais só
se ouve falar assumem proporções legendárias, até mesmo para
uma criança brilhante e sofisticada como Paige.


Paige era o orgulho do avô. Sua idéia de divertimento era um
passeio por algumas das fábricas de Arnold, onde observava a
fabricação dos perfumes com olhos inteligentes. Já carregava seu
próprio conjunto de bastões de teste desde muito pequena e sabia
mais sobre o negócio do que o próprio Arnold podia esperar de
uma criança daquela idade.
"Tudo vai me pertencer um dia", era sua explicação. "Serei
igualzinha à minha tia Sarah."
Ela seguia Sarah como uma criada devotada há meses, e até agora o
maior desapontamento de sua jovem vida fora a decisão de Sarah
de retornar a Israel em caráter permanente. Mas isso era algo que
Paige podia entender, mesmo rivalizando com a Duquesa. Israel era
Elea, e Elea era tudo.
Paige tomou a mão da tia na sua.

— Gostaria de saber o que dizer a ele. O que a gente fala quando
alguém morre?
— Não precisará dizer nada, doçura. Ele saberá que você está lá, e é
disso que ele necessita.
Paige olhou para Naomi, sentada sozinha bem diante das duas.
Talvez Sarah estivesse certa. Vovó era a pessoa mais reconfortante
do mundo e, às vezes, não pronunciava uma palavra.
— Como é realmente tio Josh?
— É difícil descrevê-lo. Não se pode definir um homem como meu
irmão assim tão simplesmente.
Paige insistiu.
— Você poderia, se quisesse.
Sarah apoiou a cabeça na poltrona e pensou por um minuto.
—Bem, eu sempre disse que só conheci dois homens bonitos na vida
— começou.
— E Lazar era um deles — Paige antecipou-se à tia.
— O mais bonito de todos — concordou Sarah. — Com aquela
cabeleira loura, era como uma grenha ambulante, mas uma grenha
extraordinária, com carisma. Lazar sabia o que queria, fazia as

coisas como gostava e era livre. Quero dizer que suas únicas
obrigações eram as que escolhia, comigo, com os filhos, com seu
país.

— E tio Josh?
— Ele também tem carisma, mas de um tipo diferente. Quando eu
era pequena, sempre havia algo pequeno agarrado naquele meu
irmão, uma criança, um animalzinho, uma velhinha. Joshua tinha
sonhos, entende? Acreditava neles e fazia os outros acreditarem
também. — A voz sumiu.
— E então? — perguntou Paige.
— Alguma coisa aconteceu com Josh. Não sei o que foi. Sempre
achei que tinha alguma relação com Lazar. Ele continua se referindo
a Lazar como se tivesse morrido ontem. Está realizando o que os
dois se dispunham a fazer. Mas não acredita mais nisso e, para um
homem como Josh, isso não é fácil. Joshua esconde seus sentimentos
para que possa seguir em frente, quando o que deseja realmente é
fugir. Uma atitude dessas exige grande coragem.
Paige suspirou.
— O que acontecerá com ele agora?
Os olhos de Sarah observavam a cabeça de Naomi.
—Não sei, querida. Simplesmente não sei.
Naomi deixou-se enveredar pelo caminho que deliberadamente
evitava há dias. O que aconteceria a Joshua agora? Benjamin e
Rachel mortos — este era um pensamento assustador. Benjamin era-
lhe tão querido quanto Elea. Durante anos morou em sua casa. Ele e
Julie cresceram juntos. E Rachel — uma mulher que acabara
significando tanto para Naomi nos últimos anos.
Imaginou se Elea e o pai encontraram-se afinal. E o medo a
dominou ao pensar que os dois poderiam ter se machucado. . . . ou
morrido. Não, não pensaria nisso. Decerto o rapaz e o homem se
apoiariam mutuamente agora.

Mas Joshua se ocultava das pessoas. Nem mesmo antes da guerra
buscara o apoio ou a aprovação da família para o que queria fazer.
Só havia lhe pedido uma vez para viver com ele, e ela fora incapaz
de fazê-lo.
Não, ela preferira não fazê-lo. Nunca teria conseguido viver dessa
maneira. Nunca teria podido dividir um homem com algo ou
alguém, tal como Rachel. Não importava como, estava em sua
natureza a necessidade de ser o centro da vida de um homem, não
um elemento secundário. A jovem que fora julgou que Joshua não
podia amá-la, se não amasse apenas a ela. O orgulho se encarregara
do resto. Durante toda a vida, havia amado Joshua e sido amada
por seu irmão.
Olhou para Arnold no outro lado da cabine, sentado sozinho. Se
Joshua precisasse dela, existia alguma razão para não permanecer
ao seu lado? Era tarde para ambos, mas agora ele já fizera o bastante
por Israel. Merecia dedicar alguns anos a si mesmo. E ela fizera todo

o possível por Arnold. A pena era que esse "todo possível" não
bastara para o marido, assim como "todo o possível" da parte de
Arnold não fora suficiente para Naomi.
O que estava faltando nessa sua completa devoção a ela, quando era
isso o que Naomi mais queria de um homem? Por que não aceitara
esse amor com prazer, de braços abertos, ao invés de recebê-lo de
má vontade, a distância? Oh, Arnold, pensou, o que faltou para sermos
felizes?
Julie e Parker não diziam nada desde que o avião levantou vôo.
Estavam excepcionalmente silenciosos um com o outro, desde a
noite em que Naomi os arrancou de sua complacência. Depois a
guerra conduziu todos eles em outra direção — e agora estas mortes
terríveis adiaram qualquer discussão sobre seu relacionamento
íntimo.
Julie mal conhecia a tia, mas gostava muito de Benjamin. E havia
algo em seu mal-humorado tio Josh que a comovia, assim como as


pessoas solitárias sempre a enterneciam, tal como Parker a
enternecera.
Ele estava muito quieto desde aquela noite. Exceto pela boa
aparência, agora não havia nada de dissoluto no marido. O sorriso
fácil demais, os elogios aduladores demais desapareceram. Não lhe
pedira desculpas por todos os anos de infidelidade, como se
pudesse cancelá-los se não tocasse no assunto. Silenciosa, porém
muito clara, estava a certeza de que não continuaria tolerando nada
disso.
Parker tinha organizado tudo para essa dolorosa viagem. Metade de
uma família desaparecida em questão de segundos, tal como a dele.
O que teria sentido? O que estaria pensando? Mas o marido não
dissera nada, e o pai havia deixado tudo a cargo do genro, imerso
demais na dor para agir por conta própria. Era a primeira vez que
Julie via seu enérgico pai assim tão quieto, como se estivesse
esperando que algo pior ocorresse. O que poderia ser pior do que
isso?
Olhou para o pai, no outro lado da passagem central, depois virou-
se para a janela. Aconteça o que acontecer, não deixaria mais que
Parker usasse o seu amor para magoá-la, nem permitiria que o pai
fizesse a mesma coisa, nunca mais.
Impossível, pensou Arnold. Não conseguia aceitar o fato de que
Benjamin não pertencia mais a este mundo, bem como a mulher que

o trouxera a ele. Benjamin, o único rapaz que teria escolhido para
Julie, o filho que nunca teve.
E sempre sentira vontade de conversar novamente com Rachel, de
renovar aquele rápido companheirismo que descobriram na festa de
casamento de Julie. Mas há anos se recusava insistentemente em
viajar a Israel. Já era bastante difícil viver à sombra do irmão
quando Joshua vinha à América — e até quando não vinha. Ele
nunca passaria de um reles comerciante aos olhos de Naomi, se
tivessem visto o homem em Israel.

Agora o veriam — e agora Joshua estava sozinho, como sempre
estivera. A não ser que Naomi. . . pensava nisso há dias. "Estou
cheia de todos vocês", ela havia dito. Era verdade, ele fora duro com
Parker, mas nunca percebera o quanto Naomi se ressentia
amargamente por isso. Nunca compreendera o que estava fazendo a
Julie, ao envolvê-la nessa situação. Punira a ambos por estar
convencido de que ele próprio fora punido pela vida.
E por Naomi: "As pessoas fazem o que se espera delas", afirmara a
esposa. Durante toda a vida esperou que ela dissesse que amava seu
irmão e. . . o quê? Abandoná-lo por Joshua? Isso fora impossível até
agora. Mas Naomi cuidava com carinho das pessoas que amava.
Esta era uma "de suas qualidades que Arnold não mais apreciava.
Naomi talvez ficasse com Joshua. O que havia nele, no seu próprio
marido, que Naomi não podia cuidar com a mesma ternura? Ela
ainda era a única mulher do mundo que desejava, mas isso não
bastava para fazê-la olhar para ele como sempre a viu olhar para
seu irmão.
Os momentos de verdade nesses anos de casamento foram tão
raros, tão breves que apenas conseguiram balançar o barco,
deixando-os prosseguir juntos pacificamente. Mas, bendito Deus,
ele não queria paz. Queria que o amasse!
O que se pode fazer, indagou a si mesmo, para se conseguir o tipo de
amor que sempre se desejou ter de alguém?
O que devo fazer, face a face com esse irmão que sempre recorre a mim em
busca de conforto, assim como eu o procurava quando criança — e que tem
sido uma ameaça para mim, desde que tive idade bastante para saber que
ele era algo que eu jamais poderia ser?

Os motores continuavam zumbindo, e o silêncio envolvia a cabine
enquanto o avião rumava para um encontro com a tristeza em meio
à alegria, a perda em meio à incrível conquista, a derrota no coração
da vitória.


O avião deslizava lentamente ao seu encontro, uma vez mais preso
à terra, pesado e desgracioso. O céu era seu lugar, e lá era belo de se
ver. Era também assim com as pessoas — elas floresciam apenas no
lugar a que pertenciam?
E aonde ele pertencia? Sem Benjamin, imaginava se podia ficar em
Israel. Sem Rachel, imaginava por que algum dia viera para cá.
Ela vagava em sua consciência, tal como na época em que se
casaram, uma dríade de olhos escuros, pele dourada e longas
tranças negras, sedutora e hesitante, esperando por ele, sempre
esperando com uma parte de si mesma, enquanto o resto se
ocupava com os filhos, o trabalho, a vida. Rachel virginal e ardente,
a Rachel tolerante, mas nunca submissa, exigindo muito pouco, mas
tomando o que sentia absoluta necessidade de possuir.
Joshua observou o avião virar de lado em direção à porta do
terminal. Seu irmão tomava o que precisava ter, mas a necessidade
de Arnold era excessiva. Arnold queria dar ao sucesso uma
dimensão heróica, impossível. Alimentava uma rivalidade com
Joshua por uma qualidade que existia apenas em sua imaginação. E,
ainda assim, estava sempre presente quando precisavam, sólido
como uma rocha, confiável. Heróis não eram confiáveis.
Mas, certa vez, os irmãos conheceram uma rivalidade real

— por causa de Naomi. Graças a Deus ela também estava no avião.
Uma mulher doce, vivendo seus sonhos românticos na cama com
Joshua, deixando-o participar de suas fantasias durante algumas
horas de prazer, que eram uma espécie de amor
— tudo o que ele tinha para dar, mas não o tipo de sentimento que
Naomi queria. Ficara-lhe muito agradecido por isso, enquanto o
caso durou. Naomi, afastando-se dele por causa de Arnold. Uma
mulher dedicada. Ela havia protegido a todos: primeiro ele, depois
Benjamin, então Elea. Mas nem mesmo Naomi foi capaz de manter
o garoto longe da guerra.

Elea estava a salvo, Joshua sabia disso. Preso em uma mensagem de
rádio enviada à sala de operações em Dimona, achara um bilhete
para ele: Ari estava morto, mas Elea tinha conseguido chegar
incólume ao fim daquela incrível batalha. Receberia licença e
retornaria. Estava mais do que na hora de descobrir que a mãe e
Benjamin repousavam para sempre em Giora. Isaac já estava lá com
Natan, no caso de Elea voltar antes do esperado, antes que Joshua
estivesse presente para... o quê? Como Elea podia querê-lo, após
todos os anos de uma indiferença que um garoto nunca entenderia?
De repente quis ver Elea, apenas para tocá-lo, para certificar-se de
que estava bem, quente, inteiro.
Quero vê-lo, pensou Joshua, para me assegurar de que a vida continua e
que apenas a vida morre.
Findas. Tantas de minhas vidas estão findas. Rachel e meu filho. Lazar,
minha consciência. Ari — você sempre disse o que todos estavam
pensando; e você sabia mais do que dizia. E Ben. Oh, Deus, Ben,
podia ter sido você para a minha Rachel. Ela teria sido mais feliz
com você, mas fico contente porque não foi assim. Eu a amei, Ben.
Amei-a mais.
Porém restava Elea. Como seria agora entre Joshua e o filho de
Rachel?
Secou as lágrimas dos olhos, enquanto empurravam a escada para o
avião, e a porta se abria. Decerto a primeira pessoa a surgir seria
Sarah ou Naomi. Mas foi Arnold quem apareceu na porta. Sua
expressão mudou, quando viu o rosto ansioso e solitário de Joshua,
e desceu rapidamente os degraus para abraçar o irmão pela
primeira vez em mais de vinte e cinco anos.

Capítulo 56



Saindo de Tei Aviv, todos seguiram para o norte, e agora viajavam
para o leste da Galileia. De lá, tomariam a direção sul, rumo a Giora.
Joshua e Arnold estavam em um carro, o resto da família em outros
dois. Embora nunca fossem de conversar sobre trivialidades,
Arnold sentia-se mais constrangido do que nunca a sós com o
irmão.
Joshua sugeriu que os dois fossem juntos para Giora, para grande
surpresa de Arnold. Joshua os surpreendeu em inúmeros aspectos.
A personalidade austera que todos aprenderam a aceitar por tantos
anos estava mudada. Em seu lugar, não havia simplesmente o
antigo Joshua exibindo uma face macilenta e abatida; teriam
compreendido isso. Em seu lugar, encontraram um homem
hesitante e indefinido, voltando-se para todos eles —
principalmente para Arnold — em busca de orientação, quando
sempre escolhera seu caminho com independência. As mulheres,
até mesmo a pequena Paige, sabiam como lidar com a mudança,
mas não Arnold.
Tudo isso era ainda mais difícil por seu encanto mudo. Obviamente,
Naomi se comovia com essa transformação, o que despertava a
hostilidade de Arnold, ao mesmo tempo em que a piedade pelo
irmão reavivava o antigo amor que compartilharam no passado,
antes que a vida e o ciúme o pervertessem.
Como podia amar alguém que o ameaçava, não pelo que fazia, mas
por ser o que Arnold não era?
Arnold desviou os olhos do rosto emaciado do irmão para a
paisagem que passava veloz.


— Nunca imaginei que fosse assim. Este lugar é tão agreste!
— Não é agreste — replicou Joshua. — O deserto é agreste,
incrivelmente selvagem. Vivi a maior parte dos últimos dez anos no
deserto.

Arnold ouvia, vendo o terreno coberto de vegetação rasteira
romper, de vez em quando, em ordenados quadriláteros de
girassóis amarelos e vegetais verdes, só para reverter novamente em
rocha e plantas do deserto. Imaginava como seria Giora. Haveria
somente túmulos para ver, mas esse era o motivo da viagem, ver
onde Rachel e Benjamin estavam, e por que Joshua precisava deles.
— E agora? — Arnold conseguiu indagar finalmente, sondando. —
Voltará já para o deserto?

— Ontem eu estava pensando em regressar aos Estados Unidos.
Joshua olhou de relance para o irmão. Até mesmo de calça esporte e
camisa aberta, Arnold parecia elegante demais para Israel,
arrumado demais para esse momento de dor. Quando o silêncio
alongou-se embaraçosamente, ele acrescentou:
— Parece que você não considera essa hipótese uma boa idéia.
Naomi nunca viveria neste país impossível. . . mas e se Joshua
retornasse à América?
— Por que pede a minha opinião? Isso não o impediu de vir para cá
no passado. Agora que olho para este. . . nada, continuo sem saber
por que veio.
Joshua refletiu antes de responder. Nunca ligara muito para os
sentimentos do irmão. Com demasiada freqüência, Arnold parecia
não ter nenhum. Mas, se a primeira tragédia da vida de. Joshua o
fizera rejeitar a própria capacidade de amar, esta última catástrofe
abrira as portas que acreditava fechadas para sempre. Arnold estava
visivelmente preocupado. Joshua imaginava o motivo.
Contemporizou.
— Nunca encaramos as coisas do mesmo modo. Este "nada" é
maravilhoso para mim. Mas quero fazer o que é melhor para Elea e
gostaria de saber sua opinião sobre esse assunto. Você o conhece
melhor do que eu.
A fúria de Arnold anulou suas boas intenções.

— O que não é de surpreender, não é? Você não quis o menino
desde o princípio, um rapaz esplêndido como aquele. Houve muitas
pessoas que você não quis, ainda que elas o quisessem.
Joshua mexeu-se, inquieto, perdido. Fora mais fácil quando não se
importava com o que Arnold falava, mais fácil quando não se
importava com nada. Mas uma vez abertas, era impossível fechar as
portas novamente.
— Suponho que mereço isso — retrucou, tentando incluir apenas o
garoto na conversa. — Mas Elea nasceu há muito tempo.
— Acha que isso faz alguma diferença? — Arnold balançou a
cabeça com veemência, respondendo à própria pergunta. —
Algumas coisas duram toda uma existência.
— Entendo — disse Joshua, cedendo. — Não estamos falando sobre
Elea, não é?
— Estamos falando sobre Naomi. . . minha esposa! — Os olhos de
Arnold moveram-se rapidamente. — Sei que somente um egoísta
como eu falaria sobre a esposa quando a sua está morta. Mas não
posso evitar. Preciso saber. — Juntou as mãos, entrelaçando os
dedos com força.
Joshua conduziu o carro para fora da estrada e parou.

— Vá em frente, Arnold, diga. — Esperou, olhando para o
empoeirado painel de instrumentos.
— Está certo, vou dizer. Amo Naomi. Você nunca amou ninguém
dessa maneira. É incapaz disso, não sabe como. Mas, enquanto
Rachel estava aqui, ao menos você a tinha. Nunca tive Naomi,
porque ela sempre quis você. — Havia pensado que as palavras o
sufocariam. Elas quase conseguiram. As palmas das mãos estavam
úmidas.
Ficaram estacionados no acostamento da estrada, ambos olhando
em frente. Este era o primeiro momento de verdade entre os irmãos,
mas toda a verdade tornaria impossível quaisquer outros
momentos.

— Talvez Naomi me quisesse — começou Joshua — mas só durante
um certo tempo.
— Não foi tudo unilateral — replicou Arnold, recusando-lhe uma
saída fácil. — Não a culpe por isso.
Era dolorosamente tocante ouvir Arnold defender Naomi, até
mesmo enquanto a acusava. Ocorreu a Joshua que, apesar de todas
as suas devoções multifacetadas, nunca havia amado uma mulher
com tanta dedicação e sinceridade quanto Arnold amava a esposa.
Seu sistemático e meticuloso irmão possuía uma profundidade de
paixão que vira em apenas um único homem — Lazar. Não existia a
mais leve semelhança entre os dois além dessa característica: cada
um deles podia amar uma mulher desde o dia do primeiro encontro
até o dia da morte.
— Não, não a culpo por nada. Estivemos apaixonados um pelo
outro por algumas semanas, antes da minha partida para a
Palestina. Eu nunca devia ter me declarado, pois ela era sua noiva.
Mas tudo o que eu queria era tirá-la de você, levá-la comigo. O
romance terminou antes mesmo de começar.
— Não terminou. — Novamente Arnold recusava-lhe uma saída. —
Para Naomi, não terminou. Existem. . . . coisas que dizem mais do
que as palavras. Sempre que eu a tocava, sabia disso, via isso.
Durante muito tempo, temi que ela se divorciasse de mim. Depois
você casou-se com Rachel. Até mesmo então nunca soube se vocês
dois. . . — Cobriu o rosto com as mãos. — Pelo amor de Deus, fale!
Algum dia vocês. . . ? Estava além de suas forças dizê-lo.
Joshua quase lhe contou a verdade. O caso de amor acabou porque
Naomi amava mais Arnold — como Rachel amava mais a ele —
porque já tinha o que queria. Este era o maior de todos os amores.
Mas Joshua aprendera que a verdade não era algo absoluto.
Assumia formas diferentes para pessoas diferentes. E, afinal de
contas, gostava demais do irmão para lhe revelar a verdade.
— Não, Arnold, por tudo o que me é mais sagrado. — A mão
descansou no ombro de Arnold. — Ela ama você, sempre amou.

Talvez houvesse ocasiões em que não sabia disso, mas sempre o


amou.
Ficaram em silêncio por um tempo, até Arnold levantar a cabeça e
secar o rosto, usando o lenço com monograma bordado a mão.
Depois Joshua deu partida ao motor dissonante, e o pequeno
Renault voltou tossindo para a estrada poeirenta.


Tudo isso era um choque para Naomi. Primeiro foi Joshua, o rosto
como o de uma criança exausta, ainda o rosto mais impressionante
que já vira. Mas ela nunca o tinha visto aqui, no lugar onde vivia,
onde queria estar. Isso o fazia parecer diferente a seus olhos, de
forma alguma diminuído, porém muito mais ele mesmo. E essa
nova personalidade era completamente estranha para Naomi: não
apenas estranha, mas também inalcançável. Depois, foi o modo
como ele estava esperando para encontrar Elea. Joshua sempre fora
um homem forte, um homem que dominava sem esforço. Contudo,
agora era como se o pai precisasse da força do filho. Tal atitude não
era nem fraqueza, nem velhice, nem sofrimento. Era a necessidade
absorvente de Joshua pelo filho de Rachel, tão forte que o isolava do
universo de Naomi. Seria a mesma coisa se estivesse na lua. Era
óbvio que Joshua ficaria onde Elea estava, e Elea certamente
permaneceria aqui.
E agora, após uma noite em que todos conversaram muito pouco
uns com os outros, Giora também foi um choque. Seus pequenos
prédios, as orgulhosas realizações de Rachel e seus pais, eram tão
simples, até mesmo desconjuntados, em contraste com o mundo de
cimento e aço em que Naomi vivia. Havia beleza ali, não se podia
negar. As cores e. os aromas da terra e do pomar, os azuis e os
brancos do céu e do lago. Tudo possuía a serenidade de Rachel, não
maculada por qualquer planejamento. Simplesmente ao olhar para
este lugar, Naomi sentia Joshua distanciando-se dela — e, quando
Joshua saiu do carro com Arnold, soube que ele se fora para
sempre.



Havia uma ligação entre os irmãos que Naomi nunca tinha
percebido antes — ou talvez fosse a ausência de uma barreira.
Alguma coisa se passara entre os dois na estrada para provocar essa
mudança. Não apenas ficaram juntos perto dos túmulos, também
estavam unidos.
Naomi ficou com Sarah, a única de todas as pessoas presentes que
era livre o bastante para chorar, e com Julie e Parker. Eles ainda
evitavam se olhar de frente, mas continuavam muito juntos, com
Paige aninhada entre ambos. Eram estranhos aqui. Apenas Joshua e
Sarah sentiam-se à vontade nesta terra — e talvez Paige, porque as
crianças sentem-se à vontade em qualquer lugar onde são amadas.
Naomi tinha -a impressão de que o foco de toda essa situação se
alterava, que mudava para uma nova realidade, quando tornava a
examinar Joshua. Não era que o tivesse perdido — Josh nunca lhe
pertencera, mas tão-somente sua idéia dele. Este era o único lugar
na terra para ele, porém era o último lugar na terra para ela, como
sempre fora — e Joshua o último homem. Ele fora a paixão de sua
vida, era verdade. Mas Arnold era seu amor.
Segurou a mão de Sarah para aliviar a sensação de perda. E, então,
libertou-se de seu sonho. Sentiria sua falta — havia um cantinho
para o sonho em cada vida, mas esse era o espaço que lhe cabia, um
cantinho. Se ao menos tivesse se apercebido desse fato tão
claramente aos dezenove anos, poderia ter amado Arnold de modo
diferente. Agora era tarde demais para isso.
Porém não era tarde demais para outra coisa. Sabia que nunca mais
mentiria, não importava o que acontecesse. Pela primeira vez se
recusara a fingir com a família, dissera-lhes a verdade.
Surpreendente o efeito tônico da verdade.

— Olhem — a voz de Paige gritou. — É Elea! — Fez menção de
correr em direção à estrada, mas Julie a reteve. Ele estava muito
quieto, sorrindo, parado na beira da estrada. Precisava de um
tempo para compreender o que via.

A seqüência de suas percepções era muito clara para Joshua, como
se estivesse dentro da mente de Elea. O sorriso naquele rosto se
congelou tão logo percebeu quem estava ausente nesse círculo
familiar. As tias e os primos não teriam vindo de tão longe logo
após uma guerra feroz por nada menos do que. . . Os olhos
baixaram para os dois novos túmulos aos pés da família, e então
soube. E o sorriso partiu-se em pedaços que se reagruparam com
uma dor cruel, resignada, inconsolável. Continuou lá de pé,
contemplando-os, estático, incapaz de mover-se.
Joshua desceu para a estrada, as mãos estendidas. Elea, com os
olhos de Rachel, o sorriso de Ben, o andar indolente de Lazar. Oh,
meu Deus, maravilhou-se Joshua. Elea é todos eles e eu também. Não
importa quem seja seu pai — ele é meu filho.

Os outros observaram o homem e o rapaz juntos, depois os viram se
virar e andar em direção ao lago.

— Vamos entrar em casa e tomar um pouco de chá — sugeriu
Sarah.
— Estou feliz por Joshua ter o filho — comentou Naomi, a mão na
de Sarah. —Ele estará bem enquanto tiver Elea.
— Então você finalmente acordou. Que bom. Imagino o que Arnold
fará a esse respeito.
— Eu também — respondeu Naomi. — Eu também.
— Foi aqui? — indagou Elea quando Joshua contou-lhe sobre a
bomba. Quase parecia esperar que a morte tivesse vindo dos
penhascos do outro lado do lago.
— Sim. Quer sentar um pouco aqui comigo?
Os dois sentaram-se lado a lado na margem do lago. Alguém alisara
a terra onde Benjamin e Rachel morreram, e uma enorme
quantidade de juncos fora cortada ao longo do lago.
— Pai — disse Elea após um tempo. — Resolvi permanecer em
Israel. Se você não me quiser aqui em Giora, vou morar com tia
Sarah.

Joshua respirou fundo. Tinha que compensar esse rapaz por tantas
coisas. . .

— É lógico que o quero aqui. Este é o seu lar.
— Está bem — concordou Elea.
— Nada está bem. Eu não o queria antes. . . mas não era apenas
você, Elea. Eu não queria ninguém, nem mesmo sua maravilhosa
mãe, e ela era a única que compreendia.
Uma dolorosa tristeza dominou o rapaz, lá onde a mãe e Benjamin
passaram sua derradeira manhã. Porém não devia chorar perto do
pai, por mais que quisesse. Agora era mais difícil do que nunca
estar com o pai. Era como se estivessem tentando demarcar um
novo mapa em seu relacionamento. Não existiam setas nem sinais
para indicar-lhes até onde deviam seguir em qualquer direção e por
quanto tempo caminhariam até se encontrarem.
— O que mamãe compreendia?
— Que eu tinha medo de me aproximar demais de qualquer pessoa.
O amor nos torna vulneráveis. Mas, se você deixa alguém amá-lo,
isso é uma responsabilidade assustadora que lhe dá influência sobre
aqueles que o amam. E esse fato pode ser mais perigoso do que
imagina.
Elea abraçou os joelhos, lembrando-se da voz de Ari nas colinas e
de Natan chorando.
— Isso tem alguma relação com Lazar? Joshua mostrou-se surpreso.
— Por que faz essa pergunta?
— Foi algo que Ari falou antes de morrer. — A voz de Elea estava
insegura. — Ele pediu para lhe dizer que Lazar está morto. Isso
pareceu loucura, mas Ari não estava louco, nem mesmo então.
— Então ele também sabia, a velha raposa — observou Joshua em
voz baixa. — Eu não queria que ninguém soubesse... principalmente
Sarah. Não queria que ela perdesse Lazar duas vezes.
Elea tremeu ao ouvir esse comentário, mas ficou em silêncio. A
angústia do pai era quase palpável, íntima e terrível demais para se

tocar. Qualquer que fosse o significado da estranha observação do
pai, devia partilhá-la com Elea de livre vontade.
As mãos de Joshua moveram-se na terra da margem do lago. Aqui
sentaram-se Rachel e Benjamin e aqui morreram. De que valia
nascer, aprender a andar, falar, ler, rir, principalmente amar — e
perder tudo na morte?
Devia viver da lembrança do filho? Não, algo nele gritou. Isso não
basta, não é a mesma coisa. É a minha vida que será cancelada, é o meu
amor que desaparece e não está presente para que o dedique a minha gente.
Sou eu que preciso desistir, libertar-me de mim mesmo. Eu, este pedaço
único e especial de materia, que nunca antes esteve tão combinado e nunca
mais estará. Quem sentiu minha dor exatamente do mesmo jeito? Quem
sentiu minha alegria, meu êxtase, meus anseios tal como eu? Ninguém.
Nunca. Em toda a história da vida passada e futura, ninguém além de
mim. Nem mesmo minha esposa — oh, Rachel, eu realmente amei você.
Nem meu filho

— Benjamin, onde está você? Nem meu mais querido amigo, meu pai, meu
irmão, minha amante. Como ouso isolar-me de mim mesmo, qualquer que
seja a causa? Como a vida ousa se conceder a mim em termos tão grotescos
que eu deva viver o melhor que possa e morrer quer queira ou não em
quaisquer circunstâncias que o destino decida, como Lazar — como todas
as pessoas?
Como posso achar conforto neste rapaz maravilhoso que tenta ganhar meu
amor, este homônimo de um herói, e só Deus sabe quantos outros heróis
esquecidos, cuja vida também será cancelada, com toda a sua beleza, seu
conhecimento, sua força? Como posso ousar amá-lo? A brincadeira é cruel
demais — possuir tudo é perder tudo. Viver é morrer. Amar é sofrer.
As mãos de Joshua moveram-se na terra, e ele sentiu Rachel, os
olhos fitaram o lago e viram Benjamin. Os braços sentiram o leve
peso que carregavam desde aquele dia perto de Weimar.


Mas ele amava esse rapaz. Queria Elea perto de si. Precisava
explicar-lhe por que sempre sentira medo de amar, por que ainda
sentia.
E então contou ao filho sobre Lazar.
Elea aproximou-se mais do pai, enquanto ele falava. Envolveu-o
com um dos braços, quando Joshua terminou.
Não havia como persuadi-lo de que não era culpado pela morte de
Lazar, que esta foi a escolha de Lazar, pouco importava onde
morresse. As pessoas faziam o que queriam fazer, e Lazar mais do
que todos.
Mas, se não podia apagar o sentimento de culpa de Joshua, podia ao
menos ouvi-lo. Isso é tudo de que uma pessoa realmente necessita,
alguém para abraçá-la e dizer: "Estou atento e estou ouvindo".
Nunca tinha amado um homem tanto assim. Nunca compreenderia
um homem assim tão bem.

Capítulo 57

Arnold estava impaciente para deixar o lugar. O hotel em Tel Aviv
era desconfortável e de mau gosto. Como não havia suítes,
ocupavam quartos anexos, bem como Julie e Parker. Podia ouvir
Paige conversando com os pais no outro lado do vestíbulo, quando
entrou no quarto de Naomi pela porta de comunicação.
Esse lugar não combinava com ela. Naomi estava na janela,
contemplando as ruas apinhadas de Tel Aviv. As cortinas eram de
cretone, em uma exagerada estamparia de flores, e faziam-na
parecer mais delicada do que nunca.


As malas já estavam arrumadas. Dali a algumas horas, estariam a
caminho de casa. Mas Arnold sentia-se inquieto quanto a Joshua.
Queria telefonar-lhe mais uma vez, antes de partir. Eles ainda eram
como dois mundos separados. Sempre seriam. Mas tinham se
aproximado um pouco um do outro nestes últimos dias. Talvez
transcorresse muito tempo antes de se reencontrarem, e o irmão
parecia tão mortalmente cansado que era difícil deixá-lo.
O que Naomi estava pensando, parada junto à janela? A mesma
coisa? Que seria impossível deixar Joshua e voltar para casa com o
resto da família? Ela dissera que estava cheia de todos — Não
conseguia esquecer-se disso. Seus sentimentos estavam em
turbilhão. Tudo o que fazia era colorido pela suspeita com relação à
esposa e ao irmão, a despeito do que Joshua dissera. O que lhe
interessava eram os sentimentos de Naomi.

— Por que não deita e descansa antes da viagem? — indagou
Arnold, de repente nervoso. — Você nunca dorme no avião.
— Não estou cansada — respondeu Naomi sobre o ombro. — Estou
preocupada.
— Com o quê?
— Julie e Parker. Se as coisas não mudarem, ela talvez se divorcie
ou o convença a não ter mais nada a ver conosco.
— Virou-se para fitá-lo.
— E acha que eu gostaria disso? Bem, não gostaria, não agora. Não
quero perder Julie.
Ela esperou.
— Droga, Naomi. Estou disposto a tentar novamente — replicou
afinal, sabendo ser isso o que a esposa queria ouvir.
— Mas foi nojento o que ele fez.
As mãos de Naomi fizeram um pequeno gesto de irrelevância.
Essa era uma atitude injusta da parte dela.
— E, naturalmente, acha que foi tudo minha culpa!
— Não, Arnold. — Aproximou-se para tomar as mãos do marido
nas suas. — Simplesmente não creio que importe de quem é a culpa.

As coisas. . . acontecem. As pessoas cometem erros. — Os olhos
azuis buscaram os dele, e Arnold imaginou o que ela estava
procurando lhe dizer. Tinha medo de perguntar.

— Não você — ele replicou, com sinceridade.
— Eu, principalmente.
Aí estava, afinal. Virou a cabeça, as mãos ainda nas de Naomi.
— Você se refere ao fato de ter se casado comigo. — Ela teria de
contar-lhe agora. — Sempre foi Joshua, e ainda é. Você vai ficar aqui
com ele, não é?
— Não! — Naomi estava surpresa. — Joshua não precisa de mim.
— E se precisasse? — A vida dos dois fora governada pelas
necessidades de Joshua, ainda que ele nunca tivesse lhes pedido
nada até agora.
Ela baixou as mãos e sentou-se na poltrona desbotada.
— Arnold, esta é uma história muito antiga. Estamos velhos demais
para termos ciúme.
— Quando a pessoa ama, nunca é velha demais. — Sua voz
exprimia um profundo cansaço. — Durante toda a minha vida, senti
ciúme de meu irmão. Eu queria ser como ele, mas não sou. Não
pude mudar a minha maneira de ser, nem mesmo por você. Sempre
estive convencido de que vocês eram amantes. — Nem mesmo
agora conseguia acreditar no irmão. Precisava da confirmação de
Naomi, fosse lá o que fosse.
Ela ficou examinando as mãos, como se debatesse uma questão
muito complicada. Finalmente, ergueu a cabeça.
— É o que você esperava que eu fizesse, não é? Arnold caminhou
em sua direção.
— Você disse isso sobre Parker. Não é verdade. Não sei ao que está
se referindo.
— Estou me referindo ao fato de sempre ter feito o que as pessoas
esperavam de mim. Meu pai esperava que fosse pura e encantadora.
Minha mãe esperava que me casasse com o homem certo e nunca

necessitasse trabalhar. Julie esperava que eu amenizasse todos os
problemas e fizesse tudo parecer bem. E você esperava que eu
tivesse um caso com seu irmão. É a isso que me refiro. — Ela falava
tal como naquela noite com Julie, como se fosse dizer o que
precisava ser dito, apesar das conseqüências.

Arnold estava aturdido.

— Foi assim tão terrível a sua vida comigo? O que você queria que
eu não lhe dei?
Naomi inclinou a cabeça para trás e abriu os braços, meio triste,
meio irônico quanto ao que desejava.
— Tudo! Queria ser maravilhosa. Queria ser algo mais do que
decorativa. Mas, acima de tudo, queria que alguém me dissesse
"amo você, não pelo modo como me ama ou como acha que devia
ser, mas apenas pelo que é". — Os braços caíram. — Ninguém
nunca me falou tal coisa. Eles apenas esperaram.
— Meu Deus, Naomi, sempre me senti assim, você devia saber
disso. Mas eu não conseguia declarar meus sentimentos.
— Como eu podia saber, se você nunca me falou? Por que não se
abriu comigo?
— Por causa dele. — Juntou as mãos, com os dedos entrelaçados. —
Não é fácil para mim explicar como me sinto, assim como é para
Joshua. E sabendo sobre ele, sobre você. . . não sabe como é difícil
falar de amor a alguém que não retribui esse sentimento. Você
também nunca disse.
— O que você queria, Arnold? Pode me contar?
— Você — ele respondeu. — Somente você.
— Não é verdade. Você queria um enorme sucesso, junto com o tipo
de esposa que se ajustasse a isso e casas para combinar. Queria um
determinado tipo de filha e um certo tipo de marido para Julie. E
queria que eu o amasse loucamente, muito embora soubesse que eu
estava apaixonada por Joshua no dia em que nos casamos. Você
também queria tudo.

-— Está certo, então, tudo. — Estava tão zangado quanto Naomi. —
Bem, não podemos dar tudo um ao outro. — De repente não estava
mais zangado, mas triste. — Ninguém pode.
O rosto de Naomi mudou ao observá-lo.


— Você está certo, querido. Ninguém pode. — Ela nunca o chamara
de "querido" dessa maneira antes. Nunca deixara que Arnold a
amasse a seu modo. Sempre quis que a amasse ao modo dela.
— Podíamos ter sido felizes.. . se não fosse por ele. — As mãos de
Arnold pousaram na cabeça da esposa. O cabelo de Naomi estava
grisalho, mas, para Arnold, ela não havia mudado. Á desolação o
dominou. — Vocês foram amantes? Diga-me, Naomi. Preciso saber.
Ela hesitou. Fazia poucos dias que tinha jurado nunca mais tornar a
mentir. Mas o homem que voltara da guerra não era o homem por
quem se apaixonara há tantos anos. Ela se havia recusado a aceitar a
mudança, mas Joshua não era o homem de quem Arnold estava
falando.
Não importava muito o que Joshua quisera dela no passado. Ao
pesar e fazer um balanço desse momento, o que mais importava era
o que Naomi quisera dele. Fora principalmente sexo, do tipo que
nunca havia conhecido e nunca pensou que queria, do qual nunca
necessitou realmente da mesma forma que mulheres como Sarah.
Havia também um pouco de amor — mas não pelo capitão em seu
uniforme do exército ou pelo rabino com suas armas e aqueles olhos
amargurados que jamais sorriam. Era pelo homem que Joshua fora,
tão magnífico de se ver, tão maravilhoso de se ouvir. Esse homem a
fizera acreditar em tudo o que dissera então — exceto que ela devia
tornar-se sua esposa e acompanhá-lo até a Palestina. Naomi nunca
foi amante desse homem e não quebraria o coração de Arnold por
causa dele.
— Não — respondeu com absoluta convicção. — Mas você estava
apaixonada por Joshua.
— Sim.
— Desde o princípio? — Os dois estavam se olhando agora...

— Sim, é verdade, desde o princípio. — Pronunciou essas palavras
com alívio e pesar. Seu rosto estava úmido.
— E nunca por mim. — A voz de Arnold estava mais firme agora.
Ele afirmava um fato que passara a vida inteira tentando aceitar.
— Não é verdade — ela objetou, as lágrimas brilhando no rosto. —
Escolhi você. Podia ter vindo para cá com Joshua, mas não vim.
Devo ter amado você. É lógico que amei. Mesmo sem o tipo de
paixão que Sarah e Lazar conheceram.
— Eu conheci — ele implorou, até mesmo agora.
— Eu sei e lamento muito. Não é da minha natureza ser assim. —
Não por Arnold, e por Joshua apenas como ele foi no passado.
Havia ignorado esse fato durante muito tempo.
— Nunca tive intenção de enganá-lo, Arnold. Amo você de
verdade. Tentei fazê-lo feliz.
Arnold baixou os olhos para Naomi. O fato lamentável era que a
esposa achou necessário tentar. Ele crescera amando-a. Nunca teria
sabido como amar outra mulher.
— Arnold. — Ela levantou-se, colocando os braços ao redor do
marido. — Quero voltar para casa, onde é o meu lugar. Mas você
precisa esquecer-se de tudo agora, toda esta velha história. Tem de
libertar-se do passado.
Ele secou-lhe as lágrimas com um lenço que exalava um leve aroma
de perfume. Para Arnold, a velha história nunca seria esquecida,
mas ao menos estava acabada.


— Tudo bem. Vou esquecer. Mas agora descanse, você está exausta.
— Conduziu-a à cama e a cobriu com a colcha. Depois dirigiu-se à
porta.
— Aonde você vai?
— Ao meu quarto, telefonar para Giora. Naomi mexeu-
se ligeiramente.

Deixe a porta aberta, Arnold. Não quero ficar sozinha. Ele deixou a
porta aberta e entrou no quarto ao lado a fim de despedir-se do
irmão.


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Naomi ama Arnold. Na festa de noivado, reencontra Joshuo, o futuro cunhado, por quem se apaixona. Dois caminhos se apresentam: ficar na América e construir um império industrial num casamento seguro ou ir para a Palestina, lutar pela criação do Estado de Israel e viver uma grande paixão.

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Henry Miller





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