Camões Filho
Vendo tanta violência pela televisão, com mortes, assassinatos, carros e ônibus sendo incendiados nas ruas e praças, traficantes e bandidos desafiando a polícia, fico imaginando que no meu tempo de criança eu era realmente feliz e não sabia. Afinal, quem nos assustavam eram apenas e tão somente uns fantasminhas camaradas.
Se a gente fazia estripulia, nossa mãe nos punha pra dormir mais cedo, cantarolando que a cuca vai pegar. A gente caía no soninho imediatamente. Daí poderíamos sonhar com príncipes e princesas, contos de fadas, viagens em tapetes mágicos.
O máximo de susto seria imaginar um saci pererê cruzando a esquina, todo lépido e fagueiro com uma perninha só, fumando seu cachimbinho e com seu bonezinho vermelho. Ou então jurar ter visto um boitatá, uma boa de fogo fantasmagórica, cruzando o negror da noite.
Tinha ainda lobisomem e corpo-seco, bruxas boas e más, mula-sem-cabeça e alma penada.
Curiosamente, todas as assombrações de nossa infância eram genuinamente brasileiras. Não havia nada de monstro importado. Até o vampiro era brasileiro, lembra? O Bento Carneiro, que o Chico Anísio mostrava na televisão, com capa e tudo. Vampiro, brasileiro! Bah!
As histórias, que eram horripilantes à época, mas que hoje soariam como sopa no mel, seguiam um conhecido ritual. Eram contadas à noitinha pelos mais velhos, especialmente aos pés dos fogões de lenha. Assim, era uma sessão de sustos, café e bolinho de chuva.
A gente tremia de medo e ia pra cama acreditando em tudo aquilo, rezando um pai nosso e prometendo ser bom filho, respeitar pai e mãe. Tudo pra ficar livre do coisa-ruim. Vade retro, satanás!
Um dia aquelas histórias seriam contadas por nós para nossos filhos e netos. E assim a tradição ia seguindo, de boca em boca. Geração em geração.
Acho que vale a pena hoje à noite desligar a televisão, esquecer a violência que grassa em nossas grandes cidades. Acender o fogão, coar o café, fritar os bolinhos. Reunir as crianças e contar essas histórias do imaginário popular, para que elas embalem os sonhos das novas gerações.
Crianças, prestem atenção... era uma vez...
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elzinha
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