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[MISTURANDO-IDEIAS] LANÇAMENTO Livros Loureiro: O Lado Gelado Da Vida - Claire Etcherelli

O LADO GELADO DA VIDA
Claire Etcherelli


Claire Etcherelli obteve com este romance a consagração do
público e da crítica — Prix Femina, 1967. Nascida na região
dos Países Baixos, aí estudou com uma bolsa, conseguida
após a morte de seu pai pelos alemães, na última guerra. Foi
para Paris nos tempos críticos da guerra da Argélia e, sem
recursos, trabalhou numa grande fábrica durante 2 anos.
Este recorte biográfico da escritora e o clima de tensão em
que se encontrava a sociedade francesa surgem no romance
através dos sonhos de "vraie vie", nutridos pela personagem
principal — Elise —, e do conjunto fantástico, inteligente,
revoltado, instável com que é iniciada nos ideais
revolucionários. Elise apaixona-se por um ativista argelino,
cujo comportamento e destino passam a constituir como que
"o sal" da sua vida. Mas a vida autentica, livre, verdadeira
que Elise ambiciona, e pela qual luta desde a adolescência, é
uma imagem impossível. O racismo é sentido na sua ligação
com Arezki, o argelino parisiense. Seu irmão morre. Também
este não consegue resolver certas contradições da vida. E
Elise regressa ao lar, esperando mesmo assim, que um dia se
levante um vento quente que amenize "O Lado Gelado da
Vida".

O L A D O GELADO DA VIDA
Editora Expressão e Cultura



PRIMEIRA PARTE


Sobretudo não pensar. Como se diz "Sobretudo, não se mexa" a um
ferido com as pernas quebradas. Rechaçar as imagens, sempre as
mesmas, as de ontem, do tempo que não voltará. Não pensar. Não
reatar as derradeiras frases da última conversa, as palavras que a
separação tornou definitivas, dizer que o tempo está magnífico para
a época, que os vizinhos da frente voltam para casa bem tarde.
Perdermo-nos em detalhes, debruçarmo-nos, inte-ressarmo-nos pelo
espetáculo da rua. Lá fora, os transeuntes caminham, entrecruzamse,
entram, saem. Há operários que conduzem a sacola do lanche,
vazia, enrolada na mão. Os bares devem estar cheios, é a hora em
que todo o mundo se acotovela e empurra ao longo dos balcões.
Esta noite, haverá mulheres que serão felizes numa terra à deriva,
numa ilha flutuante, num quarto onde são dois. Sair da janela,
descer? Na rua, haverá certamente uma aventura para mim. Os
passeios fervilham de homens com seus olhos devassadores. Não
gosto de aventuras. Quero partir num barco que nunca faça escalas.
Embarcar, desembarcar, isso não é coisa para mim. Essa imagem de
um barco recebi-a de meu irmão, Lucien. "Prometo-lhe um navio \
que traçará no meio do mar uma rota que nenhum outro ousará
seguir." Êle escrevera isso para Ana. Devem ser sete horas, o tempo
está esplêndido, é um verdadeiro mês de junho com suas tardes
amenas, que fazem pensar: "Enfim, o verão...". A fila acaba às sete
horas. Os homens precipitam-se para os vestiários. Começo aqui a
minha última noite. Amanhã deixarei o quarto. Ana virá buscar a
chave. Terei de agradecer-lhe. Ela não ficará espantada, nunca faz
perguntas. Quando fala, é sempre no presente. Não é discreta nem
pudica, mas idealmente indiferente. Lucien queria que fôssemos
amigas, porém a verdade é que ela não precisa de confidente, nem
de conselheira, nem de protetora. Quanto a mim, já perdi o hábito.
Aos treze anos, tinha uma amiga "para toda a vida"; aos quinze
anos, só tinha camaradas cujos olhares tornavam-se críticos. Aliás,


eu já estava do lado de Lucien. Nesse ano dos meus quinze anos,
cedi-lhe o meu quarto. Até então, o meu irmão dormira na cozinha,
numa cama que desarmávamos pela manhã. Para o atrair, cedi-lhe o
que ele mais desejava, este quartinho quadrado, ensolarado até ao
meio-dia e que dava sobre o pátio. Quando a vovó nos viu mudar as
nossas coisas, zangou-se. Para apaziguá-la, prometi-lhe que, daí em
diante, compartilharia com ela a sua enorme cama. Isso deu-lhe
prazer, pois a vovó adorava falar de noite, no escuro. Um ano antes
da guerra, viéramos residir em sua casa, a fim de que ela nos
educasse. Em 1940, atravessávamos a Ponte de Pedra quando
chegaram os primeiros caminhões carregados de alemães. "Os
boches", disse eu a Lucien. Ele apanhou a palavra e repetiu-a por
tudo quanto era lado. Foi preciso ensinar-lhe a esquecê-la. Era a
época do colégio. Brigávamos de noite, eu esbofeteava-o, ele
rasgava os meus deveres. Com giz, desenhávamos um V nos
sapatos; estávamos mal alimentados, a vovó recusou que fôssemos
levados para o campo; não queria separar-se de nós.
Também não perdemos um bombardeio, nem um só, e nunca
faltamos a uma fila diante das mercearias. Todas as manhãs, Lucien
e eu partíamos juntos e, por medida

de prudência, só o deixava mesmo à porta da escola. Depois da
guerra, quis continuar a conduzi-lo. A custo me suportava e eu
agarrava-me a ele. Como caminhava muito depressa, eu era
obrigada a estugar o passo. Atravessávamos a Praça da Vitória, com
suas coloridas bancas de floristas. Em cada vitrina, viam-se
entronizados os retratos dos generais vencedores. Lucien parava,
olhava-os. Eu parava também. Ele espreitava esse momento para
disparar, correndo rua abaixo até sumir de vista. Eu o encontrava,
depois, cínico, manhoso. E decidia que o meu exemplo seria, para
ele, a melhor escola de moral.
Eu caíra suavemente numa devoção escrupulosa, severa, da qual
tirava minhas horas de contentamento. A vovó pouco influía nisso;
ensinara-nos suas orações, as palavras pecado e sacrifício, mas a sua


fé, como a sua filosofia, resumia-se nesta frase que ela gostava de
repetir amiúde: "O bom Deus tem uma grande colher com que x
serve a todo o mundo". Tive momentos de emoção e prazer nos
jardins do patronato, verdes como um oásis, onde, todas as quintas-
feiras e domingos, à sombra das religiosas e da sua serenidade
imperturbável, se formara o meu gosto pelas flores, as toalhas
bordadas, as cores pálidas e uma alma própria.
A vovó ainda fazia alguns serviços de limpeza nos escritórios do
porto. A sua principal preocupação continuava sendo os
mantimentos, sempre difíceis. Lucien, depois que obtivera seu
quarto, fechava-se nele todas as noites. Eu já me arrependia de o ter
cedido. Dormir com a vovó tornara-se penoso. Aos dezesseis anos,
deixei o colégio e comecei a trabalhar. Comerciantes das redondezas
aconselharam-me a alugar uma máquina de escrever, a fim de
aprender datilografia sozinha, visto que os cursos estavam acima
das nossas posses, e dedicar-me a bater cópias. Mais tarde, quando
já dispusesse de um pouco de dinheiro, poderia pensar em coisa
melhor. Eu não tinha ambição nem vocação. Sonhava em sacrificar-
me por Lucien. Ninguém me orientava e eu me julgava favorecida
em comparação com as moças do meu bairro que, aos quinze anos,
já seguiam o caminho da fábrica.
De manhã, ocupava-me com as lides caseiras e as compras. Ao
meio-dia, quando Lucien voltava, sentia-me orgulhosa por êle
encontrar a mesa posta, uma casa arrumada, os semblantes
tranqüilos, imagens do que eu chamava a vida ideal e que se
gravariam nele, criando-lhe o hábito e depois a necessidade desse
equilíbrio, pelo resto da vida.

Amanhã, ela baterá de mansinho:

— É a Ana.
Abrirei, trocaremos cumprimentos.
— De partida? Já não precisa do meu quarto?

— Não, já arrumei todas as minhas coisas.
Virá então o momento mais difícil: agradecer-lhe. Com a pressa,
uma e outra, de não nos vermos mais, evitaremos as longas
fórmulas. Falará de Lucien?
Aos quatorze anos, meu irmão teve duas paixões: sua amizade por
Henri, que era a sua paixão nobre, e os patins de rodas, que êle
calçava assim que voltava do colégio. Durante meses, ouvimos
todas as noites o rolar dos patins pelo passeio, rua abaixo. Aos
domingos, levantava-se muito cedo, devorava o desjejum em dois
tragos e só voltava ao meio-dia, para tornar a sair até ao cair da
noite e meter-se na cama, arfando de cansaço. Uma manhã, por
curiosidade, caminhei até aos quincunces. A névoa fria esfumava os
tetos das casas, os ramos negros das árvores estavam cobertos de
geada e os postes de iluminação ainda estavam acesos, queimando a
bruma. Inquietei-me por Lucien e decidi levá-lo de volta comigo.

Vislumbrei-o sozinho, na névoa fria, com sua pequena gabardina
creme que lhe dava pelas coxas, as meias até aos joelhos e os patins
nos pés. Retirara o cachecol vermelho, que jazia por terra, junto de
uma árvore. Vi-o de pernas arqueadas, a pele do rosto vermelha de
frio, os braços para diante, prestes a lançar-se na corrida. Eu
adivinhava a sua felicidade, essa vagabundagem na neblina, a
doçura da solidão, a vida adormecida, a sensação de liberdade reencontrada,
a embriaguez de correr sem obstáculos, os olhos
úmidos de frio, as mãos geladas, os pés escaldantes. Eu pensava no
seu regresso, a vovó tricotando na cozinha, eu lendo e ele oscilando
entre as duas.
Tentei muitas vezes acompanhá-lo, à tarde, depois das aulas.
Sentada em companhia das freiras, aguardava até às seis horas,
pacientemente, a sua merenda sobre os joelhos, encontrando sempre
alguém que escutar. Mas tive de renunciar também a esse prazer


porque, no caminho de regresso, ele me acusava de o vigiar, de o
espiar, de o irritar, ameaçando mudar de lugar, de não sair mais se
eu continuasse seguindo-o por toda a parte.
A vovó e Lucien altercavam muitas vezes. Ela enchia-o de
recriminações fúteis, a que êle respondia com insolência. Ainda nos
falou, por algum tempo, a respeito de Henri, mas com pudor, a voz
alterada, tímida. Essa reserva fêz-me avaliar quanto êle queria ao
amigo. Conheci esse Henri um dia, à saída do colégio. Mais velho
do que Lucien, a sua frieza fazia as vezes de autoridade. Falava
lentamente, a voz grave. Intimidou-me um pouco, embora êle
tivesse apenas dezessete anos. Ao que parece, achava-me pequena.
Aos vinte anos, é verdade, eu parecia muito jovem. Sentia-me
orgulhosa da minha insipidez, vestia-me sem cores e satisfazia-me
por não ser "como as outras".

— Você — disse-me Lucien mais tarde — só é excepcional para você
própria.
Aproximavam-se os jogos do colégio, que se realizavam sempre no
último domingo de maio. Henri, atleta experimentado, preparava a
festa de ginástica e meu irmão esperava fazer o número principal.
Exercitava seus músculos, à noite, quando nos julgava dormindo.
Tinha a certeza de ser o escolhido; falava-me disso, mas com
desprendimento, como de tudo o que amava. Ele não teve essa
honra. Henri escolheu um certo Cazale, melhor do que Lucien, sem
dúvida.

— Tenho de içar-me no pórtico e fazer uma pausa — confessou-me
ele. — Cazale salta para a barra e começa suas acrobacias. Eu fico
perto dele e tudo o que tenho a fazer é ajudá-lo duas vezes a
levantar-se de novo. Sou um simples comparsa. Não entro no jogo.
Mas aceitou. Voltava insolente e infeliz de cada en saio. Não queria
o êxito de Cazale, não queria vê-lo recebendo os aplausos da
assistência. Ver Henri dar-lhe tapinhas amistosos nas costas e leválo
a beber, após o triunfo.

Vestindo um calção azul, Lucien subiu nervosamente e imobilizou-
se no dorso do cavalo de pau. No instante em que Cazale, que se lhe
juntara, iniciou seus exercícios, Lucien recuou até à extremidade da
barra e, como se ignorasse o perigo, caiu para trás. Toda a platéia
gritou, pondo-se de pé. Cazale desceu, tremendo. Lucien ganhara.
Cazale não se exibiria. Meu irmão ficou três meses de cama, a perna
esquerda quebrada, um pulso desmunhecado, contusões na cabeça
e no rosto. Não passou no exame nem voltou mais ao colégio. Henri
nunca o visitou; enviou, ama única vez, um bilhete de desculpas e
votos de melhoras.
Nem cartas nem visitas. Só nós três, tendo como única paisagem os
muros das casas fronteiras. Ele lia. Precisava de muitos livros.
Jogava damas. Fumava. Pelas manhãs, eu ficava junto dele.
Confessou-me a verdade, esse desejo furioso de que Cazale não
fosse a vedeta. Comovida pela sua confiança, não me atrevi a
censurá-lo. Assim passei semanas inesquecíveis. Lucien falava,
falava. Chamava-me se alguma idéia o entusiasmava e, rindo,
tentava fazer com que eu compartilhasse de seus gostos, de suas
idéias, que muitas vezes me chocavam. Sua cama estava sempre
repleta de jornais, que traziam em letras garrafais o nome de Mao-
Khe. Vez por outra, brigávamos e êle me batia, mas eu não me
importava. Jamais o vi abrir um de seus cadernos escolares nem o
ouvi falar de voltar ao colégio. Por vezes, dizia: "Deixe que eu fique
bom, que possa andar, e alisto-me". A vovó sobressaltava-se, vendo
já o neto nos arrozais da Indochina... ela dizia da China. Mal
começou a convalescer, Lucien passou a exercitar-se todos os dias,
durante todo o inverno.
As nossas grandes horas de ternura estavam terminadas. Não
tinham durado muito. Voltou a ficar de novo fechado em seu quarto
dias inteiros e nos ameaçava, à menor reprimenda:

— Se isso continua, alisto-me...
Pregara um mapa na parede com bandeirinhas pretas e tricolores
espetadas. A vovó, impressionada, nunca mais se atreveu a chamar

lhe a atenção. Quando êle saía à noite, eu sabia que seu caminho era
sempre o mesmo: olhar os barcos, a água e os revérberos dos
lampiões da ponte, que se afogavam. Não tinha dinheiro e
raramente o pedia.
Dois anos após o acidente, ainda continuava com a saúde frágil.
Não se alistou, não partiu, casou com Marie-Louise.


Quando Lucien aparecia de manhã, eu desviava a cabeça. Dizia-nos
bom-dia, resmungando. Queria-nos mal por estarmos ali, por
existirmos, por o seguirmos com os olhos. Desejar-nos-ía
indiferentes, cegas e que o seu aparecimento na cozinha não nos
fizesse sequer voltar a cabeça. Já quando era garoto, despertado
entre os nossos sorrisos, debatia-se: "Não, não...".
Toda manhã, havia sempre um momento difícil a transpor, quando
entrava na sala; sua indiferença, sua frieza, seu humor sombrio e
pesado, difícil de romper. Convinha não cometer erros, encontrar a
palavra, o gesto, que provocaria o degelo. Levantar-se, realizar
diante de nós todos os gestos íntimos da manhã, era-lhe penoso.
Imaginava-o saindo fresco, sorridente, do quarto de banho. Eu
esgotara todos os recursos, a ternura, a jovialidade, a zombaria, pois
desejava a todo o custo tornar agradável a nossa primeira hora em
comum. Porque me era necessário sentir uma certa atmosfera de
serenidade, de gentileza, queria obrigá-lo a penetrar também nela.
Cheguei a propor-lhe um emprego nas casas que me davam
trabalho. "Não, mas...", respondia-me êle de má catadura, com
aquele desprezo peculiar às pessoas que, por nunca terem
trabalhado na vida, passam todo o tempo esperando uma ocupação
digna delas. Instalara-se nele uma única paixão: o seu novo amor.
Sem amigos com quem ironizar, de quem escarnecer, a quem
ridicularizar e vulgarizar os primeiros desejos, os primeiros
impulsos e tudo o que se quer dizer aos dezoito anos com a palavra



amor, Lucien engrandecera-a desmesuradamente, transfigurada. A
sua imaginação fecunda, a indiferença que o separava do que êle
chamava "o resto", encerrava-o entre suas paredes espessas,
preservava-o de nós. Quando as janelas se abriam após as chuvas de
março, via-se Marie-Louise, de manhã cedo, os braços erguidos,
penteando sua franja negra. Primeiro uma sombra, de contornos
imprecisos, depois, ao aproximar-se o verão, um rosto dourado pelo
contraluz.

A vovó surpreendeu-os certa noite, quando se beijavam
furtivamente no vão da porta da rua. Ralhou com ele,
aconselhando-o a tratar de seus negócios com as moças noutras
paragens e não em sua casa.
Muitas vezes eu vasculhava o seu quarto e suas roupas brancas.
Mas havia uma desordem tão bem organizada que ele podia
esconder qualquer coisa sem perigo. Na parede, o mapa amarelecia,
cheio de poeira. Lucien já não nos suportava, feria-nos com suas
críticas grosseiras e, quando nos falava — o que raramente
acontecia —, lançava-se em dissertações inflamadas sobre o orgulho
de ser, em tais tempos, um oprimido.

— Sim, está certo, mas você, Lucien, sempre faz o que quer. Até
agora, é certo, tem preferido não fazer coisa alguma...
Atingia-o em cheio. Percebia-o em seus olhos. Ter-me-ia surrado
com prazer. Então dava meia volta e metia-se no quarto. Diante de
seus olhos, a janela de Marie-Louise. Ele colava a testa à vidraça,
esperava que ela aparecesse, fazia-lhe um sinal e saía.
Na noite de Natal, Lucien vestiu-se cedo.

— Não vai passar conosco a consoada?
— Sim, mas antes vou passar na casa de um amigo.
— Então, você tem um amigo?

— Sim, é verdade, tenho um amigo, e daí? Esperamos até tarde.
Sem ele, desaparecia a alegria
da noite de Natal, o deslumbramento da cozinha cheirosa, com seus
pratos cobertos até ao derradeiro instante, a surpresa escondida no
forno.
—Ele deve estar com essa aí da frente — disse a vovó.

Depois, começou a evocar os mortos, enquanto comia o bolo da
surpresa.
Passadas as festas, tomei uma decisão: fui a São Nicolau e falei com


o diretor. Lucien fizera lá seus primeiros estudos; a paróquia
confiava habitualmente a um órfão o cargo de inspetor em uma de
suas escolas. Expus o caso do meu irmão. 0 diretor escreveu-me dois
dias depois, informando-me que aceitaria Lucien quando as aulas
recomeçassem, em janeiro, para fiscalizar os alunos das classes
noturnas. Era tudo o que êle podia fazer; convocaram-no pouco
depois. Lucien, quando recebeu a carta, leu-a, releu-a e sumiu no
quarto. À mesa, nada disse e saiu como nos demais dias. À noite,
interroguei-o:
— Não recebeu nada de importante esta manhã? Olhou-me
duramente.
— Ah, foi você? Realmente só podia ser coisa sua. Será que vocês
não poderão deixar-me tranqüilo? Por acaso já imaginou, eu,
vigiando os alunos? Se era uma questão de dinheiro, poderiam ter
dito. Há trabalho no cais, na fábrica...
Mas foi. No fim do mês, trouxe o envelope com o ordenado e
colocou-o sobre a mesa.
— O que é isso? — indagou a vovó. Abriu-o e sorriu:
— O primeiro dinheiro que meu neto ganha!
Êle receou as manifestações de enternecimento que se seguiriam e
saiu.
Depois do jantar, certa noite, quando a vovó, sonolenta, cabeceava à
mesa, Lucien disse:

— Escutem vocês duas. Eu conheço uma pequena, vocês sabem
quem. Quero casar. Agora trabalho, sei o que faço.
No começo, a vovó rira, depois ameaçara, em seguida suplicara e
num domingo, finalmente, recebeu Marie-Louise e seu pai. Este
enumerara todos os seus encargos e advertira que nada podia fazer
pelos dois. Reanimada por essa discussão, que mais parecia um
litígio do que um acordo, a vovó concluíra: "Ainda nos veremos de
novo. Não estamos longe".
Foi uma primavera fria. O orvalho matinal revestia a pequena
praça. Até maio, fui obrigada a andar com o casaco de inverno, que
cheirava a cachorro molhado e parecia ter acumulado todo o peso
de sucessivas chuvas que eu ia secar diante do fogão da cozinha.
Em nossa casa, foi uma época melancólica. O frio das manhãs, as
cores desmaiadas sob um sol sem calor, o agonizar dos dias na
garoa pegajosa, o pesado casaco que era preciso vestir todas as
manhãs, a obstinação mal-humorada de Lucien, suas violências e
seu mutismo, o rangido da cadeira da vovó, fazendo seu croché na
cozinha, quando já não sabia o que dizer; nossa importância, nossa
derrota, o estuque caindo aos pedaços no corredor e que nos
acompanhava até ao capacho da entrada, a porta da rua que batia
de súbito com um golpe de vento — era preciso dar três pancadas,
responder ao "Quem é?" debaixo do aguaceiro, de cabeça levantada
para que nos vissem da janela — e então subiam-me à garganta o
desânimo, a sensação de estar atolada na lama, e deixava-me ficar
alguns segundos de cabeça caída, os olhos cheios de lágrimas e
chuva, esperando, o pescoço enregelado, um socorro imaginário. . .
Assim foi a nossa primavera.

Tentei, um dia ou dois, tratar da minha vida e não me ocupar mais
de Lucien. Comecei pelas arrumações. Mudava as minhas coisas de


lugar, dispunha-as de outra maneira. Tocar-lhes, atribuir-lhes um
novo lugar, criava em mim a ilusão de uma mudança. Era preciso
viver. E tudo voltava à ordem, à minha ordem. Observava Lucien e
sofria por ele. Certa noite, regressou cedo, às oito horas.

Não voltou a sair e sentou-se de costas para a janela, o ar fatigado.

— Está cansado do trabalho? — perguntou a vovó. — Vá deitar
mais cedo. Olhe a sua irmã, está na cama todas as noites às dez
horas. No entanto, Elise, — disse, voltando-se para mim — sempre
acreditei que casasse antes de seu irmão. . .
Suspirei. Lucien fixou-me e fez um sinal inesperado, apontando-me
a porta do seu quarto. Depois levantou-se, espreguiçou-se e entrou
no quarto sem tirar os olhos de mim. Quando o alcancei, pôs-se a
rir, esfregando as mãos.
— Deixe a velhota falar à vontade! — disse ele, acenando com a
cabeça para a vovó, invisível. Mas logo nos sentimos contrafeitos
por nos encontrarmos juntos sem saber o que dizer um ao outro. Ele
lançou um olhar de soslaio para a janela. Talvez a minha presença já
fosse demais.
— É verdade que parece fatigado — disse eu. — Muito trabalho?
Falou-me das classes que vigiava. As crianças tinham gostado dele
desde o primeiro dia. Agora já começavam a ficar cheias.
— É sombrio, é triste. Do estrado, só vejo uma nesga do céu.
Quando fiquei aqui de cama, depois do acidente, também era a
minha única vista. Passei dias e dias sem tirar os olhos desse pedaço
de céu, até os olhos me arderem.
— Tudo isso acabou — disse eu para o encorajar.
— Eu sei. E não voltará mais. Eu era como um ser encerrado numa
bola de cristal e todo o mundo me via, mas ninguém me escutava. E
eu. . . o que eu queria era quebrar a redoma para que alguém me
ouvisse, entende?
Eu pensava: "E é Marie-Louise que o vai escutar?". Mas não lhe
disse, não me atrevia ainda. Do bolso do blusão, tirou um jornal
enrolado e que desdobrou diante de mim.

— Quer? Pode ficar com êle. Com certeza vai interessá-lo.
— Não tenho muito tempo para o ler — respondi. Arrependi-me no
mesmo instante da minha resposta.
Ia decepcioná-lo.
— Dê-me o jornal. Esse é novo, não é? Nunca o vi.
— Novo e muito importante.
— Ah, sim! — exclamei surpresa.
— É totalmente contra a guerra.
— Que guerra? Todo o mundo é contra a guerra.
— Acredita nisso? Então não sabe que se combate há cinco anos na
Indochina?
— Ah, mas isso é lá na Indochina.
Recordo o tom leviano com que disse isso. Uma guerra longínqua,
discreta, de causas imprecisas, quase reconfortante, uma prova de
boa saúde, de vitalidade.
— Bom, não se fala mais nisso — disse Lucien, como se tivesse
consciência de estar perdendo o seu tempo. — Agora vamos
dormir.
— Quando você partir, voltarei para o quarto.
— Quando partir para onde?
— Você disse que quer casar, ou então partir. Não digo que se
aliste, mas, enfim, sei que sairá daqui mais dia menos dia.
— E você, não? A vovó está velha. Quando você ficar sozinha. . .
Nunca sentiu vontade de partir?
A voz saiu-lhe abafada por detrás do pulôver de tricô que êle nunca
desabotoava e tinha o mau hábito de tirar pela cabeça. Os braços
ainda metidos nas mangas, sentou-se ao meu lado. Eu procurava as
palavras. Queria ser hábil, evitando pronunciar o nome de Marie-
Louise. Quem sabe? Talvez a sua memória reencontrasse um dia
essas palavras, ao acaso, como as flores ressequidas entre as páginas
de um livro.
— A vida ideal — disse êle, com doçura — é como você. A calma, a
paz interior. Eu também tenho vontade de ser calmo. Creia em mim,

Elise, tenho pressa em casar para conseguir essa vida. Tenho a
certeza de que serei feliz, mais feliz, para falar com exatidão. E você
também será mais feliz. E a vovó também.
Conseguiu enternecer-me. Sabia que eu era vulnerável a essas
imagens da vida tranqüila, direita, simples.
Após o juramento: "jamais darei o meu sim"; depois das lágrimas,
das cenas, das ameaças, a vovó cedera. Farta de discussões
violentas, do semblante sinistro de Lucien, prevendo que nunca o
convenceria, temendo que êle fizesse alguma asneira, vencida pelo
cansaço, acabou por dizer-lhe certa noite, enquanto lhe servia a
sopa:

— Faça, como quiser: case, fique, vá embora, dou-lhe todas as
autorizações que quiser.
Depois, sentou-se, aliviada, e começou a falar de outra coisa.
Quando Lucien nos falou dos papéis, das voltas que era preciso dar
— com um ar lasso e triste — vovó ouviu tudo calmamente. Mas,
sozinha comigo, chorava muitas vezes. Com uma grande boa
vontade, desceu as escadas e subiu os dois andares no fundo do
pátio. Ai ficou combinado que Marie-Louise continuaria
trabalhando e que viriam residir conosco. Assim nos encontramos
diante do fato consumado. A data foi escolhida e a vovó só teve
tempo de mandar limpar o seu vestido preto. Na véspera, frisara os
cabelos. Foi certamente a figura mais notável do pálido cortejo,
olhos brilhantes, uma terrível excitação reprimida, toda de preto:
vestido, chapéu, sapatos, um camafeu preso na altura do peito. Algo
de fugaz, de impalpável como um perfume, aquilo a que se chama
uma aragem, fazia-a sobressair dentre todos os presentes. Falou
pouco, comeu e bebeu com discrição. Em nossa casa come com um
apetite voraz. Éramos sete na curta cerimônia da bênção que se
seguiu ao casamento civil. O sacristão só acendera uma lâmpada.
No meio das orações, o padre gritou por êle, para que arranjasse
mais luz.

Os pais de Marie-Louise partiram na mesma noite para as vindimas.
Lucien e sua mulher instalaram-se por alguns dias na casa vazia.
Também nessa mesma noite dormi no quarto de meu irmão, com o
sentimento de extinguir algo que ia definitivamente escapar-me. Eu
esquecera, depois de tantos anos, que os ruídos, os próprios odores,
não eram aí semelhantes aos da rua. A meio da noite, os rapazes
chamavam-se uns aos outros com prolongados assobios, as botas
ferradas estaiejavam na pedra da calçada, as pessoas falavam de
janela para janela e as frituras crepitantes das casas vizinhas
despertavam o apetite.

Formavam um casal bizarro. Marie-Louise levantava-se muito cedo,
saía antes das sete para a pastelaria, onde trabalhava de pé, até ao
fim da tarde, atrás de sua máquina. Quando ela regressava, Lucien
já partira. Esperava por êle no quarto, lendo revistas. Algumas
vezes, mal chegava a casa, penteava-se de novo, retocava a
maquilagem e partia ao encontro do marido, na direção da Praça da
Vitória.
Lucien ignorava-nos completamente. Fui a primeira a perceber que
iam ter um filho. Contei a vovó.

— Não duvido, Elise, — disse ela. — Com esse rapaz nada me
surpreende mais. É preciso que se diga que a moça andava atrás
dele. Agora está feito. Êle que se vire para ganhar a vida.
— Gosta de Marie-Louise?
— Não é desagradável de todo. Julgava-a pior.
Bem entendido, eu não gostava dela nem um pouco. Cheguei
mesmo a me rejubilar por vê-la deformada e pesadona.

E o outono passou: bátegas de água, os primeiros nevões, café com
leite às quatro horas, quando acendem as luzes na rua — tudo o que


é esperado, habitual, conhecido. A vida — a minha vida —
decompunha-se em quatro tempos, as quatro estações, que
modificavam alguns gestos dessa ginástica bem regulada. Mas esse
outono, com o estrangeiro detestado, foi o mais infeliz da minha
vida. Foi também, mas eu não sabia, o último antes de a carruagem
que nos conduziria por ínvios caminhos atingir o declive onde a
nossa existência, já desgovernada, aceleraria até à queda final.
Quando estávamos todos reunidos, o inacessível Lucien compraziase
nas conversas mais vulgares. Eu observara que, sozinho com
Marie-Louise, mudava de tom e de assunto. As paredes, muito
delgadas, deixavam filtrar muitas de suas palavras. Depois da
refeição, Lucien levantava-se, jogava o guardanapo sobre a mesa e,
do limiar do quarto, assobiava para Marie-Louise, que o seguia, rindo.
"Riem de mim. . . " . Se me queixava a vovó, ela me escutava
com enfado. Há alguns tempos, sua fisionomia mudara. As
pálpebras inchadas, a íris de seus olhos amarelecera e as orelhas,
sobretudo, tornaram-se imensas.
Marie-Louise estava sempre de acordo com Lucien. Cheguei a
lamentá-la, tão singela, sem exigências, as idéias reduzidas à
expressão mais simples, mas que o seu entusiasmo por Lucien
conduzira até nós, os inquietos, os indecisos, os insatisfeitos, os
raciocinadores. Os nossos problemas, os de meu irmão, os meus, ela
os considerava, sem dúvida, como uma estranha e cansativa mania.
Mas, paciência, para ter Lucien era preciso passar por isso!


Essas idéias, essas palavras acabaram, apesar de tudo, por marcá-la.
Começou a repeti-las, sem se esforçar por compreendê-las (ela fora
feita para seguir atrás dos outros). Depois, pela força do hábito,
acabou por considerá-las como suas.
Lucien lia numerosos jornais. Eu juntava aqueles que êle deixava
espalhados pelo quarto; algumas vezes, também, os livros que
esquecia na cozinha.



Eu os lia e espessas cortinas se erguiam. Era uma impressão
semelhante à música. Desprender-me de tudo, compreender,
penetrar no seio das palavras, seguir a frase e a sua lógica, saber.
Sentia uma satisfação física, fechava os olhos de prazer. Instruir-me,
entendia o que isso significava. Invejava Lucien, que percorria as
bibliotecas. E insistia, multiplicava as dificuldades. Era como um
daqueles jogos complicados em que é preciso unir todos os pontos
para que surja e se compreenda o desenho. "Eu devia falar com
alguém". De todo esse prazer que eu acumulava, ninguém sabia
nada. Não tinha a menor possibilidade de encontrar o espectador de
meus pensamentos.
As leituras de Lucien perturbavam-me. Com uma lógica terrível,
esses escritos denunciavam ferozmente tudo o que me parecia
natural.
Depressa me senti consternada. Vi a minha condição e tornei-me
altiva. A meu redor, os fatos desenhavam seus contornos, o porto
estava imobilizado pela greve, os estivadores resistiam há vinte e
três dias, era julgada uma mulher que se atravessara diante de um
trem carregado de armas. Lucien raramente me falava, mas era o
bastante que se dignasse ainda fazê-lo uma vez por outra.

"Eu não percebera que estava tão próximo de minha irmã. Não vira
a árvore que se inclinava para a água e não vira a água. Não ergui
os olhos quando a lancha avançou com a majestade de uma mulher
gorda. Os redemoinhos da água, os pequenos estremecimentos que
mal a encrespavam, nos enviavam seu odor, e eu não o aspirei. Não
tinha visto as cores, ignorava até que o mundo, nesse dia, fosse
colorido. Julgava-o transparente, pois meus olhos não eram
sustados pela casca verde das árvores ainda tenras, nem pela água
cinzenta e seus círculos prateados — seus olhos loucos — nem pela
barca, tranqüila matrona de negro, nem pela outra margem, onde os
barqueiros discutiam. Meus olhos atravessavam a espessura dos


corpos, a liquidez dos corpos, meus olhos só olhavam para mim e,
hoje, se os fecho, as cores de outrora, desse dia em que eu não sabia
que elas existiam, perturbam-me como se, chegado ao alto de uma
colina, descobrisse um rapazinho feliz, sentado entre sua irmã e sua
avó, diante do rio, numa tarde de verão".

Isto estava escrito no caderno verde de Lucien — que eu descobri na
sua ausência — com data de 1.° de março. Marie nascera na véspera.
Fora Lucien quem escolhera o nome. Todas as noites instalávamos
cordas em diagonal na cozinha para secar as fraldas. Após alguns
dias de repouso, Marie-Louise vestiu de novo seu suéter vermelho e
retomou o caminho da pastelaria. Não o demonstrei, mas a minha
cunhada emocionava-me bastante. As exigências de Lucien
confundiam-na. Ele não se privava nunca de recriminá-la; queria,
dizia ele, moldá-la, educá-la. E ela obedecia-lhe sem entender,
imaginando por vezes que conseguira, mas quando dizia ou fazia
alguma coisa que era um progresso sobre as suas atitudes passadas,
Lucien já estava mais longe ou então fazia marcha à ré e não
conseguiam encontrar-se. Nas contradições de Lucien, quem
poderia reencontrá-lo?

Excetuando suas três horas de trabalho no colégio, ele não tinha
ocupação alguma. Marie-Louise encorajava-o em sua inação. Seria
ciumenta, receando que ele abordasse outras moças? Às suas
colegas, ela dizia: "É estudante". Em casa, já ninguém acreditava
nisso. Não consigo compreender por que tremíamos todas quando
ele nos ameaçava de aceitar o primeiro trabalho que aparecesse.
Não alimentaríamos a intenção oculta de prendê-lo assim muito
mais a nós, de o explorarmos? Longe de nós, escapar-nos-ia, teria
amigos, camaradas, outros amores. Era tão jovem, não fizera ainda
vinte anos. Tinha tempo ainda para se preparar, para se aperfeiçoar,
como ele dizia.


Às oito horas ainda era dia claro e, ao cair da tarde, Marie-Louise
descia ao encontro de Lucien. Ele chegava, agarrava-a pela nuca; ela
agarrava-o pela aba do blusão e subiam juntos. Uma tarde, por
acaso, desci também. Lucien tardava. Finalmente, surgiu na esquina
da rua. Não fazia frio, apenas uma aragem fresca, na noite sem estrelas
nem lua, tendo por único astro o néon verde de um clube que
acabara de abrir no ângulo do beco em frente. Três rapazes
dirigiam-se para a entrada. A luz crua iluminava-os e o da
esquerda, quando cruzou com Lucien, que se juntava a nós, olhou-o
e parou. Sem entusiasmo, Lucien tirou a mão do bolso.

— Puxa! — disse o outro. — Quem diria que viria encontrá-lo aqui,
depois de tanto tempo! Reconheci-o assim que o vi, rapaz! Também
vai ao clube?
Marie-Louise aproximou-se mais de Lucien. Reconheci o moço, com
seus cabelos ondulados e sempre muito compridos. O verde do
letreiro desenhava-lhe um segundo rosto em relevo, sobre o
verdadeiro. Eu espiava Lucien, sentia-me na sua pele. O secreto
rancor acumulado, os anos de solidão, a amizade desenganada, essa
chaga que jamais sarara por completo, a visão rápida do que não
conseguira ser, a humilhação de nada ter para dizer, eu sentia tudo
isso como ele.
— Olá, boa noite — disse Lucien por fim.
Houve um pequeno hiato, durante o qual não me atrevi a fazer
sequer um movimento.
— Não, eu não vou ao clube. Moro ali.
Respirei. Ali, era a rua bolorenta, a casa decrépita, o corredor
úmido, a janela onde seca a roupa branca; ali, entre homens
decrépitos, os velhos mastigando fumo sentados nos degraus das
portas, as velhas de saias sujas, mais compridas do que os aventais,
as moças da fábrica que envernizam as unhas negras, a gente pobre
e a pobre gente.
— Ah, eu não sabia. Mas o que é que você faz?
— Eu? Não faço nada.

A resposta de meu irmão parecia ter agradado ao outro. Olhou-o, o
nariz franzido por um sorriso, um fungar de cão seguindo o rastro,
uma alegria de furão iluminando todo o rosto.

— Venha beber um trago conosco. A esta hora ainda não há
ninguém, podemos bater um papo.
Marie-Louise avançou.
— Lucien, eu subo.
— Está bem, suba. Espere... Agarrou-a pelo braço.
— Quero apresentá-lo à minha mulher.
Antes de descer, ela removera toda a maquilagem, para só precisar
lavar o rosto pela manhã. Os traços fatigados de um fim de dia de
trabalho, os pômulos avermelhados do frio, Marie-Louise não
estava num de seus melhores momentos.
— Está casado? Muito gosto, minha senhora. Sou um velho
companheiro de colégio de Lucien.
Marie-Louise desfez-se num sorriso.
— Suba — disse Lucien. — Eu já vou pra cima, só cinco minutos. . .
— Então, acompanha a gente? Vamos... Lucien abanou a cabeça.
— Obrigado, não vou. Eu não bebo. O que você faz? Direito?
— Exato. Direito. E me viro para evitar o exército numa altura
destas. E você, escapou?
— Não. Fiquei isento.
— Está casado há muito tempo?
— Vai fazer agora um ano.
Trocaram ainda algumas palavras, depois Lucien desculpou-se e
estendeu a mão.
— Boa noite, meu velho. Até um dia destes.
— Você estava aí? — perguntou-me Lucien, que me viu parada à
porta.
— Era o Henri?
— Sim, era o Henri. Você o reconheceu?
— Ele não mudou.

Lucien baixou a cabeça e subimos. Nas noites seguintes, voltava
rapidamente para casa, como se temesse encontrar Henri. Mas
encontraram-se. Mais tarde, o meu irmão contou-me que Henri o
esperara e o abordara diante de nossa casa. Como Lucien recusasse
entrar no bar, marcaram encontro uma tarde num café do porto.
Lucien prometeu a si próprio que não compareceria, mas, de hesitação
em hesitação, acabou mesmo indo. Henri perguntava, Lucien
falava. Henri escutava. O insólito, o ser marginal o atraía. A revolta
dos outros, a miséria, o cheiro de pobreza, eram para ele poderosos
estimulantes. Pertencendo a uma família abastada, sem histórias;
deliciava-se com as que farejava alhures. Mas nem tudo nele era
exotismo. Pelo raciocínio e a análise, chegara às mesmas concepções
que meu irmão alimentava. Henri vivia em casa dos pais e
aproveitava as vantagens de sua situação, mas, contou a Lucien,
"porque era preciso trapacear com a sociedade que queremos
destruir, e é mais eficaz, mais hábil, contorná-la e aproveitarmo-nos
dela para melhor a derrubarmos".
Lucien readquiriu pelo amigo a admiração de outrora. Depressa se
habituaram aos encontros diários. Uma noite, Lucien trouxe-o à
nossa casa. Fecharam-se no quarto. Daí em diante, Marie-Louise
viu-se obrigada a passar as noites na cozinha conosco, até Henri se
retirar. Da primeira vez, a visita de Henri pôs a casa em alvoroço. A
vovó sentiu-se obrigada a grandes limpezas e colocar uma toalha na
mesa da cozinha, onde o visitante nem parou, ao passo que Marie-
Louise refez a maquilagem, para que êle lhe dissesse um boa-noite
de passagem. Não nos atrevíamos a falar alto, na secreta esperança
de captarmos algumas frases. Henri parecia feliz por freqüentar
nossa casa. Ao subir, devia aspirar os aromas da escada, inebriar-se
com a beleza do cenário. . .
Marie-Louise foi a sacrificada. Habituada a que Lucien se ocupasse
dela, lhe falasse, a interrogasse, lhe explicasse, encontrou-se tardes
inteiras, domingos inteiros, sozinha com Marie, com quem passeava
ao longo do cais, quando fazia sol. O marido deixava-a no momenot


em que seu espírito, entorpecido como um músculo que nunca tivesse
trabalhado, começara a ganhar desenvoltura. Lucien semeara
com teimosia, obstinara-se — dedicara-se exclusivamente a ela — e
parara bruscamente. Revejo-a, em certas tardes de verão, sentada na
cama, inútil, o ar de refletir sem compreender. Lucien e seu amigo
tinham saído, discutindo e fumando, para a margem do rio. Êle era
feliz, Henri encorajava-o a não alterar em nada o seu modo de vida.
E nós tínhamos imaginado que o amigo poria em ação as suas
relações! Já víamos Lucien encaixado num emprego rendoso e sério.

Uma noite em que se demorou além da conta, Henri pediu a meu
irmão que me deixasse ir telefonar à sua mulher, desculpando-o do
atraso.

— Minha irmã não se atreverá jamais a entrar num café para
telefonar. Creio até que ela nunca telefonou.
Henri me encarou surpreso. Era verdade. A quem iria eu telefonar?
Não tínhamos amigos. Quando queríamos uma informação,
saíamos para obtê-la. Se era preciso o médico, passávamos pela casa
dele. Morava tão perto. Era tudo tão perto. Uma grande tristeza se
filtrou em mim. Também houve um ano em que a vovó, a quem
mostrei dois cartões de Boas Festas, recebidos no Natal, ficou
extasiada: "Oh, cartas!". Era um acontecimento e tanto. Provincianos
maltrapilhos. Isolados, bisonhos, pobres da pobreza que se esconde.
Amava o meu irmão, nesses momentos, pelo que ele sofreria um
dia, pelo que ele já sofrera; amava-o também porque tinha medo da
vida sem ele, única ponte entre nós e o mundo dos outros. A partir
desse incidente, Henri distinguia-me com uma certa deferência. Não
era possível crer que a sua atitude fosse ditada pela caridade. Não,
eu era um desses seres insólitos, inadaptados, em que seu espírito
curioso se comprazia. Esporadicamente me apertava a mão,
dirigindo-me pequenas frases a que eu respondia num tom que lhe
agradava. E Lucien, reticente no princípio, acabou consentindo
esporadicamente na minha presença junto aos dois.

Essa época foi a da minha desforra, do momento previsto e
desejado: o abandono de Marie-Louise. Diante de mim, ela
procurava brincar, envolvendo Lucien com perguntas que, tempos
atrás, tê-lo-iam encantado.
—Explique-me, Lucien...
Ele regressava a casa por volta das onze horas, ou mais tarde, e
procurava a mulher.

— Marie-Louise, onde é que ela está metida?
— Estou aqui.
— O que é que tem?
— Nada.
— Bom, se não tem nada, ótimo.
Retiravam-se para o quarto. Eu ouvia a voz de Marie-Louise
cochichando, a de Lucien mais alto. Falavam demoradamente.
Todas as tardes, depois do almoço, Henri chegava ao bater da uma
hora. Sentava-se simplesmente diante da porta, esperando que meu
irmão descesse. Outras vezes, ficava caminhando de um lado para o
outro no pátio, onde a única árvore, mais verde do que nunca,
estendia sua copa em forma de guarda-chuva para o chão seco. As
nossas janelas ficavam abertas noite e dia e as paredes secavam.
Lucien suspirava, por vezes, quando estava com o seu amigo:
— Um dia faremos tudo o que queremos fazer. Será a vida ideal.
Todo o mundo fará o que quiser...
Lucien era categórico. Sim, realizaríamos os nossos sonhos, iríamos
juntar-nos aos que vibravam como nós. Os nossos espíritos já
estavam em movimento, os corpos em breve os seguiriam.
Sobre a cadeira do quarto deles empilhavam-se os jornais que
Marie-Louise comprava. Correio dos corações, conselhos às esposas,
como conservar o marido, receitas de beleza. . . Ela devia encontrar
aí todas as receitas e todos os remédios para as metamorfoses de


Lucien. Ela era extremamente doce e serena; nessa época, eu dizia
extremamente apática, molengona.
Quanto a mim, devorava tudo o que denunciava aquela guerra
agonizante, mas ainda não extinta. Procurava o último artigo de
Barsac, que meu irmão arquivara em sua coleção sem que eu tivesse
tido tempo de o ler. Estava invisível. Mais uma vez, apoderei-me do
seu caderno verde, escondido numa camisa, sob uma pilha de
papéis.
Percorri-o rapidamente com a vista, saltei frases sem interesse,
descrições, comentários filosóficos; procurava algum indício que
pudesse esclarecer-me. Na véspera, após uma demorada discussão

— eram quase onze horas — Henri despedira-se. Na cozinha,
Marie-Louise folheava um jornal. Lucien a interpelara.
— Marie-Lou, vamos dormir?
— Tenho vontade de dar uma volta com você. . .
— A esta hora?
— E por que não?
Ela erguera-se lentamente, dobrara o jornal e depois, de súbito,
correra para o marido.
— Querido, leve-me a dar uma volta.
— Agora não.
Tentou desvencilhar-se dela, que lhe passara os braços em redor do
pescoço.
— Bem — suspirou ele, resignado. — Ponha um vestido. Elise!
Vem, nós vamos dar uma volta.
Eu não me mexera, colhida de surpresa.
— Vamos, — repetiu ele — despache-se! Marie-Louise nada ousara
dizer, mas sua fisionomia
denunciava a decepção. Lucien foi ao quarto da vovó; era aí que
púnhamos a cama de Marie, até que Henri fosse embora. A menina
estava acordada; ele a ergueu nos braços.

— E você também, minha filha. Você também vai. Vocês estão
prontas? Então a caminho.
Fora um passeio lúgubre. Só Lucien falava. Como se dirigisse para a
praça, perguntei-lhe por que não dávamos um passeio ao longo do
cais.
— Não — cortara ele.
Quando completáramos a volta à praça, êle indicou-nos um banco.
A noite estava esplêndida, a grama dos canteiros rebrilhava, os
mosquitos revoluteavam em torno dos globos de iluminação. Marie
adormecera nos braços de meu irmão. Ele dissera não sei o quê,
coisas banais sobre a primavera, o inverno, dirigindo-se a nós duas,
e eu respondera distraidamente. Eu era útil; Lucien levava-me
quando não queria ficar a sós com Marie-Louise.
— Vamos para casa, mulheres — ordenara ele, levantando-se.
Não houve discussão no quarto ou então foi em voz tão baixa que
nada percebi; e, no entanto, eu tinha o ouvido bem aguçado.
No caderno verde encontrei a carta. Dobrada em quatro, marcava a
última página escrita. Quase fui apanhada em flagrante, porque a
carta era longa. Hoje a possuo de novo, pois recuperei as coisas de
Lucien. Ela assinalou o final de uma era. A partir desse momento,
tudo mudou.

Você disse esta noite: "Você é como todas as moças". Eu sou como todas as
moças não no que elas têm de bom, mas no que têm de mau. Escute o que
eu lhe digo: nunca conheci um rapaz como você. Sim, eis uma verdade que
lhe disseram, por certo, em cada aventura. Aceite-a somo tal, como uma
opinião verdadeira.
Você mostrou-me a sua porta e disse: "Vê, é ali que eu moro. É um pouco
sombrio, é velho". Você perguntou se eu vivia longe. "Depois da ponte
giratória". Depois da ponte giratória caminha-se um bom quarto de hora


em pleno campo: casinhas isoladas, botecos, jardins. . . Você conhece,
Lucien, e o ar puro da usina de gás, a terra negra e a lama dos caminhos,
pois chove sempre nesse gênero de lugares.
Ali é o meu quarto. Enfim, o quarto. Somos cinco pessoas a reparti-lo: o
meu pai, sua primeira mulher, meu irmão e eu. Meu pai tem sessenta anos.
Chegamos aqui no segundo ano da guerra da Espanha. Minha mãe morreu
serenamente, no terceiro andar de uma dessas casas do porto, na cama
colocada perto da janela de onde. debruçando-se um pouco, se poderia tocar
nos vizinhos da frente. Pouco tempo depois, tivemos outra mãe. Tratava de
nós melhor do que a verdadeira, sempre doente, e gostávamos dela como ela
gostava de nós. A que nos criou era indolente demais para zangar-se, dar o
fora. E para onde iria? Além disso, devotara-se a mim com a inquietação
das mulheres gordas por tudo o que é frágil. Andei algum tempo na escola.
Mas uma simples constipação era o suficiente para me fazer faltar longas
semanas e acabei atrasando-me tanto que perdi o ânimo. Aos quinze anos,
passava os dias sentada ao sol, quando havia, ouvindo o tagarelar das
mulheres. Não saía; meu pai tinha sua moral, reprovava os bailes e os
passeios. Os amigos de meu irmão entravam e olhavam-me de soslaio. Um
deles freqüentava o curso noturno. Tive vontade de o fazer também. Meu
pai consentiu. Voltávamos juntos. Parávamos nos recantos mais escuros e
beijávamo-nos com um desejo voraz, até à sufocação. Sonhava numa vida
com êle, preparar-lhe as refeições numa cozinha florida. . . enfim, tudo os
que as moças imaginam a esse respeito. Depois, ele passou a evitar-me, a
ignorar-me, e eu sofri. Comecei a olhar os homens, com furor, uma ânsia de
ser notada, escolhida, amada. Tal como fazem os rapazes, também parti a
caça. Queria um homem. Bem depressa aprendi que o único meio de ter um
é "entregar-se", como se costuma dizer.

Muito mais tarde, por acaso, era um domingo, um grupo de mulheres me
abordou. Pediam auxílio para os estivadores em greve. Percebi a razão de
nossas magras refeições. Eu não prestara atenção a isso. Meu pai não falava
nunca dessas coisas.


As mulheres levaram-me a um local escuso e acanhado. Ouvi, fiquei, voltei.
Enfim, uma noite, juntamo-nos aos homens. Eram simples, jovens, velhos,
sujos, asseados, corajosos, fanfarrões, dignos, um autêntico desfile do Primeiro
de Maio.
Tornei-me secretária da seção. Aprendi muito, porque me apaixonei pelo
tesoureiro, um duro, um puro. Mas a época não se prestava muito a
sentimentalismo, os homens estavam em plena luta, a maioria não
trabalhava. Por que nenhum homem me conserva para si? Por que, depois
de alguns encontros, faz uma cara comprida para me anunciar que não terá
mais tempo para me rever? Recomeçar tudo de cada vez, instalarmo-nos de
cada vez nesse amor como se fosse o definitivo e, de cada vez. fazer a mala
das recordações. A espera, o encontro, o primeiro dia, o segundo, as tardes
em quartos de hotel imersos na penumbra, calmos, com a cama plantada no
meio, de lençóis macios, colchas sedosas. Os outros lá fora e eu, ao abrigo
da vida, nos braços do homem que vai ser meu nascimento e minha morte.
Para contentá-los, eu fazia tudo o que eles queriam, tudo o que podia
agradar-lhes.
No entanto, deixam-me. Será que o meu silêncio lhes desagrada? No
começo, sentem-se felizes com que os escutem. Depois, fazem perguntas.
Que poderia dizer-lhes? Calava-me. Creio que me tornava suspeita aos
olhos deles. Choro quando partem, choro quando os reencontro. Tudo se
desfaz. Há quatro anos que vivo assim. Anteontem, passava eu pela rua
paralela à sua, quando você surgiu e me ofereceu um cigarro. Acabara de
deixar um homem e tinha de pegar o bonde antes das dez horas. Estava
escuro, a rua cheia de ruídos confusos. Parei. Você falou primeiro, cu
respondi caminhando e separamo-nos com a promessa de um encontro.
O que eu sinto, como explicá-lo? Estará certamente de acordo em não lhe
chamar amor. Chama-se amor só para simplificar as coisas. Manejo a
linguagem com dificuldade. Não tenho o hábito de "comunicar". Esquecera
esta palavra. Li-a um dia destes numa revista que encontrei na Casa do
Povo. Guardei-a comigo.
Tenho o defeito de juntar tudo o que encontro. Amo ter. Livros, sobretudo.
E os leio todos, de ponta a ponta. Então foi nessa revista que aprendi a


palavra: "comunicação". É isto e não é isto. É, durante alguns instantes,
existir e sabê-lo por uma outra pessoa. Senão, a única maneira que para
mim existe de a descobrir é pelo sofrimento, a falta. Quando estou só,
abandonada, quando não encontro trabalho, quando durmo mal por falta de
espaço na cama, quando me olho nas vitrinas das lojas, então sinto-me.
Mas com você também me senti. Dizer-lhe tudo isto não teria sido fácil
nem cômodo, teria rebuscado palavras como uma mentirosa que se perturba
e confunde. Lucien, voltaremos a ver-nos, para sermos amigos?
Ana

— Não me esperem esta noite, certamente não voltarei. Dormirei
com Henri, como da última vez.
Eu não acreditava. Marie-Louise encarou-o, os olhos inquietos.
— Volte, Lucien. Mesmo tarde, mas volte.
— E como, não me dirá? A essa hora já não há bondes.
Marie-Louise deu de ombros e voltou para o quarto. Porém, quando
a porta da rua bateu, ela saiu precipitadamente e correu escada
abaixo, atrás dele. A vovó, que seguira a cena, foi até à janela e
olhou pela fresta das cortinas entreabertas.
_ Não, ela não conseguiu. Está voltando da esquina da rua.
A vovó pôs-se a rir. Nós ficamos caladas. Marie-Loui-se entrou e,


depois de fechar a porta, esboçou uns passos de dança. Seu rosto
estava sorridente e nós ficamos perplexas, pouco seguras de que ela,
afinal, não o tivesse alcançado. Mas Lucien também não regressou
essa noite.

Henri está sentado na beira da cama. Rebusca num bolso do paletó,
pendurado no puxador da porta. Como sempre, seu rosto está
calmo. Deverá essa aparente serenidade aos traços um pouco
balofos e aos olhos descoloridos? Creio que é feliz, simplesmente.


Faz gestos de que tem plena consciência. Saboreia-os. Pendurar um
paletó à janela, estender um pé sobre a cama, apurar a orelha para
surpreender as obscenidades trocadas no pátio por dois homens
coléricos. Derruba um mundo e, num quarto de hora de exposição,
reconstrói um outro em que seu lugar quente o espera. Tem seu
lugar garantido em qualquer parte. Saboreia o jornal que lhe
proporciona, essa noite, três ou quatro horas de assuntos para
conversação. Colocou-o a seu lado, sobre a cama; decifro, de pernas
para o ar, a manchete em letras imensas: CAIU DIEN-BIEN-PHU.
Ele tem uma das mãos pousada sobre a mesa. Sente-se bem, aspira o
aroma do molho requentado que reconforta e do qual não nos
atrevíamos a oferecer-lhe um prato.

— Um movimento bastante poderoso — disse êle — para reagrupar
toda a esquerda. Mas quem, na França, está em condições de
aproveitar os acontecimentos? Encontrar jovens em número
suficiente para criar uma agitação permanente. Isso não seria a
revolução, claro. Paris é a capital do 50.° Estado americano. Nada a
fazer por esse lado, a não ser a guerrilha, como os viets.
Lucien navegava nas mesmas águas. Aquiescia febrilmente.
Henri estava de prontidão permanente para a revolução. Era a
conclusão lógica das suas discussões diurnas e noturnas. Preparava-
as em seu quarto confortável e o horror da sociedade onde tinha de
viver fortificava seus sonhos de subversão. Encontrara em Lucien a
própria imagem da vítima de um sistema: órfão, desafortunado, pobre,
magro, casado prematuramente, sem amarras. O físico de meu
irmão fascinava-o: essa bela figura esquálida, saída dos arquivos da
Revolução de Outubro ou do álbum dos anarquistas heróicos, êle a
invejava. E alimentava um ressentimento tanto maior por não ver
Lucien lançado de corpo e alma para a meta final, a luta. Lucien
estava, mas intermitentemente. Tínhamos nascido na penúria, as
dificuldades tinham crescido enlaçadas em nós como a hera
asfixiante de que não poderíamos livrar-nos sozinhos. Lucien


suportava-as com raiva, mas criara, para sobreviver, impenetráveis
refúgios: uma certa preguiça, a busca do amor extraordinário.
Eu tornara-me a espectadora insensível dos sofrimentos de Marie-
Louise. Ela não era tão boba que não o compreendesse; por isso
afetava comigo um ar satisfeito e tranqüilo. A única honestidade de
meu irmão consistia em prevenir que não voltaria essa noite. Isso
acontecia duas ou mesmo três vezes por semana. Nas demais noites,
voltava tarde e encontrava Marie-Louise de pé. Falavam em voz
baixa, mas eu tomava antecipadamente a precaução de deixar
entreaberta a porta do nosso quarto. Ouvia muito bem. Marie-
Louise cobria-o de carícias lamurientas. Êle assumia, sem dúvida,
seu ar grave e distante; então ela fazia o esforço de falar naquilo que
iria despertar o seu interesse.

— E a guerra? Acabou?
— A guerra... a guerra. Leia os jornais e ficará sabendo tanto como
eu. . .
Mas lançava-se, apesar de tudo, numa longa dissertação, de que eu
também aproveitava, pois sua voz alteava-se e eu podia adivinhar
até seus gestos. A heróica Marie-Louise escutava-o sem pestanejar,
ela, que teria de levantar-se às seis da manhã e ficar pregada o dia
inteiro à sua máquina, até ao anoitecer. Esposara um "estudante",
pagava-o caro. O mais doloroso para ela era não poder queixar-se
na sua sociedade de mulheres, que contavam tudo umas às outras.
Numa certa altura, tinham-na até invejado. Agora já gostavam
menos dela. Tinha a linguagem e as expressões de Lucien. "Virou
sabida, a pequena, é uma atrevida que eu vou te contar", diziam
dela na fábrica.

Acompanhávamos, como se acompanha uma operação de
salvamento, os esforços de um homem que se comprometera a
assinar a paz na Indochina. Também Marie-Louise, colhida nesse


ambiente febril criado por Henri e meu irmão, esquecia
generosamente suas mágoas e compartilhava da nossa impaciência.
No dia 14 de julho, Lucien pediu-me dinheiro. Isso nunca
acontecera. Dei-lhe algum, sem fazer perguntas. Soube que Marie-
Louise fizera o mesmo pedido a vovó.

— Disse-lhe que falasse com você, que é quem controla as contas da
casa — falou-me a vovó.
Ela não ousara falar-me. Eu não poderia satisfazê-la. Na
obscuridade do nosso quarto, a vovó confidenciou:
— Você sabe onde Lucien passa as noites? Onde passa os dias? Não
é com Henri. Você é uma tola, acredita em tudo o que seu irmão lhe
impinge. Você acabou por estragá-lo, sempre o defendeu. E esse
Henri também é cúmplice. Marie-Louise, se ela soubesse, meu
Deus. . .
Choramingou um pouco e continuou:
_ Isto vai dar história. Marie-Louise, o pai, os irmãos,
a mãe, que é uma fera...
Lucien encontrava-se com uma moça diariamente, ao meio-dia, na
parada dos bondes da linha do cais. Entravam juntos num hotel das
docas. Já tinham sido vistos sair de madrugada.
Muitas pessoas os encontraram; estivadores que vivem na mesma
rua e conhecem o pai da pequena.
0 hotel das docas. A moça era a da carta, Ana. O dinheiro, para
pagar o hotel. Henri estava ao corrente do caso. Teria êle lido a
carta?
Eu não conseguia conciliar o sono. Via o cais ao meio-dia, com seu
fundo de navios imobilizados, seus viveiros de ostras e camarões
cinzentos. . . duas sombras de mãos dadas, respirando esse perfume
de partida que subia do mangue. Uma tal perturbação me dominou
que decidi ficar do lado de Lucien, fizesse êle o que fizesse.
Desejava que êle voltasse naquele instante, para dizer-lho. Nada
disse, porque êle não voltou essa noite. Tanto melhor; êle apenas
teria visto nisso uma armadilha grosseira.



Dinheiro. Somos agora três ardendo de desejo por tê-lo. A Lucien,
faz-lhe falta para as suas tardes. Estamos no período das grandes
férias e êle não ganha um tostão. Trabalhar, êle já nem fala nisso,
não tem mais tempo para trabalhar. Deita-se do meio-dia ao cair da
noite, em qualquer hotel do porto, onde lhe chega, amortecido, o
ranger lento dos guindastes; depois volta para a cama à noite, em
casa ou em qualquer outro local. Mas precisa de dinheiro. Vejo em
seu rosto, em seus olhos, a necessidade de dinheiro. Marie-Louise é
quem traz mais. Entrega a maior parte para as despesas da casa. O
que guarda, reparte-o com Lucien. Sobra pouco para cada um.
Também ela foi tomada por um verdadeiro frenesi de dinheiro;

gasta muito, depois que Lucien a desertou, em jornais, pinturas,
jóias, roupas. Leu num desses imbecis correios sentimentais que era
preciso ser várias mulheres numa só. Mas as receitas para acalmar
um homem são caras. Espiei-a muitas vezes, prendendo flores nos
cabelos com um ar satisfeito, enamorada de sua própria imagem.
Marie-Louise precisa de dinheiro. O que emprestei a Lucien faz-me
agora uma falta terrível. Dez mil francos. O bastante para viver a
semana inteira. Somos pobres dignos. Dos que escondem sua
pobreza como uma vergonhosa desgraça. Tem de ficar entre nós.

Nossos rostos na sombra — era noite fechada — parecia-me que
poderíamos dizer tudo, ir até ao fim. Fazia calor mas a janela
continuara fechada, os vizinhos poderiam ouvir nossas palavras.

— Para começar, temos de gastar os três o menos possível,
renunciar provisoriamente a quaisquer outras despesas que não
sejam para a alimentação e, enfim, aumentar nossas receitas por
todos os meios possíveis.
— Em resumo, trabalhar.
— Sim, trabalhar, Lucien.

— Bem, — disse êle — para isso não era preciso um conselho de
família. Mas já que está constituído... Nesta época não encontrarei
qualquer emprego que compense. Além disso, comecei. . . enfim,
não preciso dar pormenores. Necessito atualmente do meu tempo
todo. Em outubro as coisas irão melhorar. Até lá, peço-lhe ainda um
pequeno esforço e um pouco de paciência.
— De acordo — disse prontamente Marie-Louise, que julgou
terminada a discussão e levantou-se. Devia estar furiosa comigo por
lhe ter roubado uma das raras noites em que Lucien ficava junto
dela.
— Eu não estou de acordo!
Senti a cólera invadir-me. Estava de tal modo febril que precisava
explodir.


— Vocês não compreenderam. Estou sem dinheiro.
— Mas. . . eu também não tenho!
— Peço-lhe, Lucien, que me entregue todo o que tiver, por muito
pouco que seja. E você também, Marie-Louise.
— Mas nós não temos! — exclamou Lucien. — Aonde quer afinal
chegar?
Fiquei calada. Lá fora, ouviam-se os gritos das crianças que não
queriam voltar para casa. Tateando, Marie-Louise acendeu a luz.
Agora que estávamos na claridade, eu já não tinha muita certeza de
me atrever a continuar.
Não hesitei mais.
— Marie-Louise, seu pai conhece todo o pessoal que contrata gente
para as docas. Por algumas semanas, Lucien, não poderia pedir-lhe
uma ajuda para encontrar trabalho? É uma solução provisória, sei
que é capaz e nos salvaria deste aperto. A todos. . .
— Isso não — disse Marie-Louise, esticando o lábio.
— Não, isso não — repetiu Lucien em voz sumida. Por cima da
mesa, agarrou a gola da minha blusa.
— Vejo — disse ele — que a senhora, não, a senhorita, descobriu
agora o mundo, aprendeu o que é uma greve, um desempregado,

um trabalhador. É a sua nova religião. Então, para seu conforto
moral, imaginou ter um proletário no seio da família. É mais fácil do
que o ser. Por que não vai trabalhar como as outras? Que desculpa
tem? Para me criar? Para me educar? Mente a você mesma! E se era
para me educar, então por que me manda hoje trabalhar nas docas.
É um pouco tarde, não lhe parece? Por que não o fêz quando eu
tinha dezesseis anos?
E, de um só golpe, esvaziou seus rancores, seus velhos
ressentimentos. Fora mandado ao colégio. No princípio, sim, no
princípio, fora feliz. Mas depois? A nossa vaidade, êle a pagara bem
caro!
— Deviam ter-me educado de acordo com os nossos meios! —
gritou êle.

— No entanto, — respondi com tristeza — quantos sacrifícios
fizemos por você. . . Para lhe dar mais, vivi eu quase nua. Lembra-
se, Lucien? Nas festas, nas entregas de prêmios, para que também
tivesse, como os outros, uma camisa nova, eu o acompanhava com
uma blusa puída, uma saía remendada.
— E é isso justamente o que censuro!
— Oh, cale-se, cale-se. . . A vovó abriu a porta.
— Então, que é isso? — disse ela com rispidez. — Estão ouvindo
tudo lá embaixo. Que se passa?
Ninguém respondeu.
— Não se meta nisto.
Lucien empurrou-a para dentro do quarto.
— O quê? — exclamou a vovó assombrada. Segurou a porta,
escancarada.
— Quero saber o que se passa.
A atitude da vovó enfureceu-o. Precipitou-se e fechou a porta.
Ela abriu-a de novo.
— Esta porta vai ficar aberta.
Lucien agarrou a maçaneta e fêz a porta bater com violência.
A vovó apareceu de novo e desatou a gritar.

— Isto aqui não é uma prisão! Não se fecham as pessoas!
Os dois tinham perdido a cabeça e a porta abriu-se e voltou a bater
uma porção de vezes. Lucien agüentava a porta, agarrado à
maçaneta, enquanto a vovó, do lado de dentro, desferia punhadas
na madeira e gritava. Corri para Lucien e quis tirar-lhe a mão da
maçaneta. Empurrou-me com o cotovelo esquerdo, mas o seu gesto
diminuiu a pressão no fecho e a vovó conseguiu abrir a porta.
— Sem-vergonha! — gritou ela. — Há anos que não faz outra coisa
senão polir paredes, sustentado pelos outros, bebendo o nosso suor!
Um preguiçoso, um imoral! Eu sei tudo, ouviu? Tudo!
— Cale-se!
Acenei-lhe na direção de Marie-Louise.
— E a mim que me importa! Contarei tudo. Que êle saia daqui, que
vá trabalhar, que não o veja mais!
Lucien agarrou-a, sacudiu-a e atirou-a sobre a cama. Tê-la-ia
estrangulado? Prendi-me a êle pelas costas, para que se voltasse
contra mim, quando segurava a vovó pelo pescoço. Largou-a,
empurrou-me e precipitou-se para a cozinha. Tive medo. Ele ia sair
e que faria lá fora? Corri para êle e cortei-lhe o passo. Entendeu mal
o meu intuito e empurrou-me. Bati na mesa. Então avançou e
esbofeteou-me duas vezes, rancorosamente. Depois, agarrou uma
ponta da toalha de oleado, sobre a qual ainda estavam os pratos, e
puxou. Marie-Louise, sem me olhar, a filha nos braços, saiu com êle.
Ao endireitar-me, esmaguei um pêssego que rolara sob os meus pés,
atirado da fruteira quebrada. Que iriam os vizinhos pensar de nós?
Tínhamos tanto orgulho em ser os únicos que nunca havíamos dado
espetáculo.
— Viu, Elise ? Você viu ? Era capaz de matar-me. . . É um cafajeste,
Elise...
— Deus queira que a vizinhança não tenha percebido.

Ficamos uma semana sem o ver. Uma noite, apareceu acompanhado
de Henri, o que evitou qualquer explicação. Marie-Louise entregou-
me dinheiro. "Meti um vale". Nada mais havia a dizer. Os jornais
voltaram a andar espalhados pela cozinha.

Henri anunciou-nos a sua partida. Ia passar três anos em Paris. A
notícia gerou em mim uma série de cogitações. Que revolução êle
provocara em nossa casa, em tão poucos meses! Nossas janelas
tinham-se aberto. Com êle tinham entrado nomes, países, homens, a
Indochina subitamente tão próxima quanto as colinas de Verdelais.
Todos esses jornais que êle nos deixava, cujas manchetes agora me
enchiam a boca, cujos nomes eu recitava como fórmulas mágicas!
Alguns dias antes da sua partida, Henri entrou, esbaforido, um
jornal na mão. Atirou-nos um nome a que não prestei atenção: esse
nome era Argélia.
Desamparados nos primeiros dias, acabamos por nos acostumar à
ausência de Henri. Escrevia longas cartas a Lucien, que, quando se
fechava no quarto, nos dizia: "Vou responder a Henri". Meu irmão
voltava a aproximar-se de mim. Cedo, percebi a razão. Ela tornara-
se um empecilho, tomara o lugar que eu ocupara durante toda a sua
infância. E ela, que o pressentia vagamente, sem adivinhar as
causas, aproximava-se da vovó, seu vínculo mútuo era Marie. Mas
Lucien esperava que eu pagasse com a minha cumplicidade esse
retorno da sua afeição.
No novo ano letivo, êle começou seu horário de fiscal às quatro
horas. Obtivera duas repetições todas as quintas-feiras. Por vezes,
sentia-me envergonhada pelo meu triunfo, quando êle me chamava
ao seu santuário, onde eu não entrava sem sua autorização.
Marie-Louise seguia-me. Lucien não a via. Falava para mim, lia-me
algum artigo e comentava:
—-A que excessos pode chegar o racismo na África do Norte... É
uma vergonha, mas sabem ocultá-la. . . Certas sevícias não deixam
vestígio algum.


— O que são sevícias?
— Vamos, Marie-Louise, não me interrompa...
E êle explicava para mim, sem olhar para a mulher. Lia-me trechos
da última carta de Henri. Eu ficava olhando sua mesa, onde uma
pilha de livros, emprestados por Henri antes de partir, punha uma
cor de vida que me fascinava.
— A guerra... é preciso fazer qualquer coisa.
— Isto aqui não é Paris. Conheço bem alguns isolados como nós...
Lucien dizia "nós". Ele e eu.
— A propósito, quero apresentar-lhe uma camarada; chama-se Ana.
Esteve inscrita em vários movimentos. Agora milita menos, tem
demasiadas ocupações. O que é que você tem? Por que me olha
dessa maneira? Ficou toda vermelha.
— Nada — disse eu apenas.
Não me atrevi a falar mais. Teria tremido da cabeça aos pés.
Sentei-me diante de meu irmão. O bar chama-se "0 20 100 0".
Quando se abre a porta, um névoa fria gela-nos as palavras. Vou ver
Ana. Tenho medo. Sem que a conheça, ela tornou-se um ser
desmesurado, fantástico.
Subitamente, uma figura de mulher surge diante da nossa mesa.
Lucien não se levanta; fui eu que me levantei sem olhar para a
pessoa que está parada na minha frente. Empurro a minha cadeira.
Foi uma questão de segundos. Vejo uns pés calçados num par de
mocassins cambaios. Dobro o jornal em oito, o que leva ainda
alguns segundos. É preciso levantar a cabeça, de qualquer jeito. Ela
fixa seus olhos em mim. Não houve choque. É uma imagem banal
que está à minha frente. Desenrola uma imensa écharpe branca que
envolvia sua cabeça, à maneira dos beduínos. Tem os compridos
cabelos castanhos enfiados na gola de um casaco curto ou de um
blusão, não distingo bem. Ajeita-os com os dedos. Descem pela
testa, numa franja baixa e irregularmente cortada. O rosto é delgado


e pálido. Lucien pediu três cafés. Disse a meu respeito uma frase
amável, isso percebi. 0 resto da conversa ficou para sempre confusa.
Refletia e não era capaz de acompanhar o que eles diziam. Ela tem
uma voz ciciante que me irrita. Brinca com os cabelos entre os dedos
e eu perguntava a mim própria se seria capaz de me comportar
normalmente com as mãos livres. Digo sim a tudo o que falam.
Lucien oferece-lhe um cigarro, mostra-lhe um desenho do Canard
Enchaîné, que retirou do bolso. Ela ri e olha para mim. Agora já
estou acostumada ao seu rosto magro. Descubro-lhe certos
encantos. Seus olhos castanho-claros são grandes e belos. Como
pode ela ter cílios tão longos e negros? Observando-a de perfil,
apercebo-me, pela sua rigidez, de que estão endurecidos pelo rímel
espesso.
Marie-Louise é muito mais bonita: regularidade de traços, fineza da
pele, desenho da boca. Ana tem de mover continuamente a
fisionomia para chegar a parecer bela. Ilumina-se como uma
lâmpada e aparecem as seduções. A sua magreza não lhe vai mal.
Cabelos de afogada, diria a vovó. Mas sobre o seu corpo afilado,
eles têm um encanto de erva molhada. Há certa magia, algum
mistério, nessa sedução que vai ao encontro de todas as seduções : o
corpo frágil, pulsos de criança, busto chato, rosto pálido e grave.
Daquelas de quem ninguém desconfia. Ana veste um suéter preto,
saia cinza, uma capa de pano preto com grandes bolsos.
Levantamo-nos. Ela reajusta a sua longa écharpe. Lucien desculpa-se
comigo. Tem de voltar a Saint-Nicolas; Ana segue na mesma
direção, não é verdade? Eu regresso sozinha.

"Você verá, um dia começará a vida autêntica, a nossa vida ideal",
dizia êle muitas vezes. "O principal é lá chegarmos intactos".


O que era isso, a vida ideal? Mais agitação? A galeria de retratos
humanos mais farta, à nossa volta? O que é que isso mudaria? A
quem serviria que a vida ideal começasse?

— Por que você não é como as outras? — lamentava-se Marie-
Louise.
Numa sexta-feira, duas mulheres acompanharam-na a casa. Tivera
vertigens diante da máquina. Quando Lucien regressou, encontrou
a mulher na cama. Eu estava junto dela; esperávamos o médico.
Lucien deu-lhe uma palmadinha na mão e ela pôs-se a chorar de
mansinho. Interrogou-a sobre o que sentia, sem poder dissimular,
para mim, um certo brilho no olhar, um estranho fulgor que eu
conhecia bem e me cortava a respiração. Lucien acabara de ser
empolgado pela esperança da morte da mulher.
O médico chegou muito tarde, ordenou exames e análises. Achou
Marie-Louise muito enfraquecida e aconselhou-nos a tratar de tudo
o mais depressa possível. Enquanto arrumava seu estojo, chamei
Lucien à parte.
— Tem dinheiro?
— Não, e você?
— Muito pouco. É preciso guardá-lo para aviar a receita. Não tem
ao menos quinhentos francos?
— Nem um tostão.
Tive, envergonhada, de apresentar minhas desculpas ao médico,
que já conhecia o estribilho. Pagaríamos a conta na próxima visita.
Lucien tinha mil francos. Eu sabia; retirara-os inadvertidamente do
bolso nessa manhã, junto com o lenço. Renovei o meu pedido e êle
continuou a afirmar que estava sem dinheiro.
A doença da mulher incomodava-o. Arranjou as coisas de tal
maneira que, para Marie-Louise, foi um período infernal. Mas,
assim que ela retomou o caminho da pastelaria, teve uma recaída.
— O que será que ela tem? Elise, acha que ela ficará boa?
A vovó, dividida entre a sua bondade natural e seus cálculos, perdia
pé, afobava-se, preparava para Marie-Louise quitutes substanciais,

queimava círios na igreja, atraía-me para detrás da porta, a fim de,
em voz baixa, fazermos um balanço de todos esses esforços. E, como
estes se revelassem inúteis, foi-se deixando dominar por um injusto
rancor contra a mulher de Lucien.
Marie-Louise acabou por ceder às pressões de meu irmão, às
minhas, às de vovó. Aceitou partir. Admitiram-na em Cestas, com
sua filha, por três meses. Ela teve medo, creio eu, quando viu a pele
roxo-amarelada em redor dos olhos. Repousada — portanto bela,
diziam as revistas — Lucien talvez voltasse ainda a desejá-la.

— E isso não lhe vai custar um tostão — reforçava a vovó.
Ela achava isso admirável.
Estranha impressão essa, a de nos encontrarmos os três a sós, como
nos velhos tempos.
Lucien tornou-se quase terno comigo, enfim, na medida em que
podia sê-lo com quem êle não amava. Eu servia de intérprete entre
êle e a vovó, que nunca mais se haviam falado. Ela sentia-se
profundamente infeliz. Tinha de suportar a hostilidade dos pais de
Marie-Louise, que espalhavam aos quatro ventos, para quem os
quisesse ouvir, que Lucien estava-lhes matando a filha. Tinha de
sofrer as nossas conversas, durante as refeições que Lucien fazia em
casa, e a política, a guerra, não lhe interessavam. Sentia a falta de
Marie. Eu, dizia-me muitas vezes, "passara para o campo de
Lucien". Quando descia à rua, imaginava que as pessoas se
voltavam para vê-la e ficavam falando de nós pelas costas.
O inverno começou bastante frio. O parapeito das janelas cobria-se
de neve. Ao tombar a noite, a vovó dirigia-se à banca de um
vendedor de frutas e legumes, que deixava alguns caixotes vazios
diante da porta. Recolhia uma braçada de tábuas, com as quais
acendíamos um bom fogo depois do jantar. Uma noite, ela
escorregou na fina camada de gelo que atapetara a calçada e sofreu


um tombo de tal ordem que foi preciso hospitalizá-la, com três
fraturas. As pessoas olhavam-nos curiosas. "Aí vão eles", diziam ao
passarmos. "Atraem o azar".
Nunca tínhamos ficado sós, Lucien e eu. Nem ficamos por muito
tempo: dois dias após o acidente da vovó, Ana fez sua entrada.
Examinou os três cômodos da casa, gostou muito do quarto de
Lucien que, não duvidando da minha neutralidade, fechava a porta
no meu nariz. E eu ficava só na cozinha, todas as tardes, ouvindo-os
sussurrar a dois passos de mim.
As visitas ao hospital começavam à uma hora. Eu chegava
pontualmente e ficava até às três horas, encorajando a vovó, que
chorava porque queria sair. Eu voltava para casa; Ana chegava,
partia às sete horas, muito depois de Lucien, para que os vizinhos
curiosos julgassem que ela vinha visitar-me.
Às vezes, ela passava a noite em nossa casa. Há quinze dias que eu
ia cotidianamente ao hospital. Nesse dia, passei pela Casa Puesh,
que me fornecia as cópias para datilografar, e depois fui para casa.
Ana já teria chegado? Como é que ela gastava o tempo, quando não
estava com Lucien? Havia, então, seres sem ocupação fixa, que
podiam marcar encontros, vaguear, amar-se no meio do grande
formigueiro em que os outros se esfalfavam?
Quando cheguei ao patamar do primeiro andar, ouvi suas vozes.
Discutiam, com certeza. Subi os últimos degraus correndo. Ana
estava de costas para Lucien e apoiava-se com uma das mãos na
ombreira da porta do quarto, enquanto com a outra enfiava os
sapatos. A saia pendia-lhe.
Lucien falava. Não me ouviram chegar.

— Corri os riscos que você sabe, arranjei para que viesse para cá,
esforcei-me para conseguir botar minha mulher lá na clínica, tornei-
lhe a vida insuportável. Agora, o que quer mais? Que posso eu
fazer? Isto aqui já está insuportável. Vamos para Paris. Eu partirei
primeiro e você me espera aqui, nesta casa, se quiser...

— Escute-me um instante, Lucien; partir, sempre dissemos que o
faríamos juntos. Hoje, não ousa confessá-lo, mas o que você quer é
partir sozinho ao encontro do seu amigo. Partirá e nunca mais terei
notícias suas. Como sempre. Então, estamos de acordo. Eu vou
embora, mas sozinha, e você nunca saberá para onde fui nem onde
estou. Entendido? E o mal que me faz, não se preocupe, chegará o
momento em que também terá a sua conta. Parto agora mesmo, está
bem? Mas, antes, deixe-me dar-lhe uma notícia, de pouca
importância, é certo: estou esperando nenen. Já o sei há três
semanas. . .
— O quê ? ! Não é verdade. . .
Ana aproximou-se dele, cara a cara. Chorava.
— Não é verdade? Você me conhece bem, vê-me nua todos os dias...
Olhe.
Lucien foi encostar-se na porta. Apoiada agora na mesa, Ana deixou
cair a saia no chão e levantou o suéter. Não tinha combinação e o
ventre apareceu de chofre. De longe, mal se percebia o aumento de
volume.
— Olhe bem — repetiu ela várias vezes, a voz afogada em lágrimas.
— Vê aqui? É uma criança, um filho seu. Olhe bem, pois é a
primeira vez que o olha, mas também a última. É tudo o que verá
dele.
Subiu a saia e prendeu-a, fungando. As mãos tremendo, custou-lhe
a abotoá-la na cintura. Jogou a écharpe sobre a cabeça, enfiou o
casaco, e ouvi-a gemer, entre soluços abafados. Correu para a porta
e abalou escada abaixo. Lucien voltou para o quarto e eu saí do
recanto da cozinha onde me esgueirara. Uma súbita repugnância
me invadiu. Instalavam-se em qualquer lugar. Onde faziam o amor,
aí era a casa deles. Tal como a vovó, eu sentia uma profunda
necessidade de consideração, de respeitabilidade. "Ele vai partir,
pensei eu. Ana juntar-se-á a ele ou não. Ela terá um filho ou não.
Zangaram-se de vez ou não. Dentro de três meses, quando Marie-
Louise voltar, contar-lhe-ão. Ele parte. Basta de arranhar a chaga



que nunca chega a sarar. Com coragem, sairei de apertos. Não
estive sempre sozinha? Isso será sempre melhor do que um escândalo,
que inevitavelmente irá estourar aqui. O que acontecer ao
longe não me atingirá".

Havia ainda uns restos de neve suja em redor do Portal das
Glicínias, que era o nome do lugar onde estava instalada a casa de
repouso de Cestas, quando lá chegamos. Marie-Louise acolheu-nos
com exclamações de prazer. Não recobrava as forças com a rapidez
que se julgara. Seu rosto ainda estava amarelado. Censurou a
Lucien não lhe escrever. Ele fechou os olhos por instantes, sem
responder. Trouxeram-nos Marie, que, quanto a ela, estava
aproveitando bem a mudança de ares. Lucien não sabia o que dizer.
Repetia sempre as mesmas perguntas sobre a alimentação, a
assistência, os horários. Depois, falou demoradamente sobre os
acontecimentos políticos que o Preocupavam, a mentalidade racista
que progredia furiosamente. Mas Marie-Louise não fez grande
esforço por escutar o marido.

— Ainda faltam quarenta e um dias. Quando tiver alta, você virá
buscar-me?
Lucien não respondeu. Senti-me cúmplice de uma espécie de crime
silencioso, prestes a ser cometido. Estava embaraçada e redobrava
de perguntas carinhosas, para que ela guardasse dessa visita a
impressão de ser amada. A sala onde nos encontrávamos
assemelhava-se ao parlatorio de um pensionato. Marie sentara-se no
chão de ladrilho, brincando com a boneca que o pai lhe trouxera.
— Essas falinhas mansas cansam-me — disse Marie-Louise,
impaciente. — Por que não me avisaram do acidente? Eu teria
escrito, isso daria prazer a vovó.
Lucien encolheu os ombros e respondeu em voz baixa:
— Não tive tempo.

Êle brincava com o pulso de Marie, dando voltas à pulseirinha que
ela usava. Isso me deu bruscamente uma idéia. Numa gaveta do
nosso armário, a vovó arrumara seus tesouros: a aliança e o relógio
do marido, um anel, dois alfinetes de ouro, os brincos de nossa mãe.
Aceitaria ela empenhar tudo para permitir que Lucien se instalasse
em Paris? Tinha as minhas dúvidas.

— Você me despreza, Lucien. Está-me pondo de lado — queixava-
se Marie-Louise.
Afastei-me para a janela, receando ser tomada como testemunha
por um ou outro.
— Vá levar a Elise — disse Lucien, entregando à filha o jornal que
êle tinha na mão.
Queria que eu voltasse para junto deles. Marie-Louise percebeu e
ficou calada alguns segundos. Os traços graciosos de seu rosto
contraíram-se. Ela esforçava-se por não soluçar. Depois, estendeu o
braço para Lucien, procurando apoiar-se nele. Meu irmão teve um
sobressalto e recuou vivamente. No movimento que Marie-Louise
fêz para endireitar-se, gemeu.
_ Nada de lágrimas — disse ele, duramente — ou vou embora agora
mesmo.
Ela olhou-o, mas Lucien desviou seu olhar do da mulher.


— Lucien, eu. . . — disse ela, numa voz terna — eu também sou a
sua Argélia.
Lucien encolheu os ombros, mas não disse nada.
Essa comparação, que lhe ocorrera espontaneamente aos lábios,
incomodara Lucien. E a mim também. Cada um de nós conservou
no íntimo, por muito tempo, essa breve frase — a última que Marie-
Louise diria a meu irmão.
Juntei as jóias, empenhei-as e recebi vinte e cinco mil francos, que
entreguei a Lucien na véspera de sua partida.


Agradeceu, garantindo-me que os devolveria um dia. Pedi-lhe que
me escrevesse amiúde e pus-me a chorar, apesar de minha
resolução em contrário. Pareceu-me comovido. Devagar, deu várias
vezes a volta à nossa casa. Apesar do frio, foi até à janela e abriu-a,
contemplando por momentos a árvore escura, polvilhada de flocos
de neve. Insisti para que comesse alguma coisa, mas sem êxito.
Deitou-se cedo, pois pegaria no dia seguinte o trem às sete da
manhã. Queria acompanhá-lo à estação, mas ele recusou. Fiquei por
isso sem saber se partia sozinho.
Quando se levantou, já me encontrou na cozinha. Sua mala estava
pronta. Eu ainda não acreditava. Naturalmente, não disse nenhuma
das frases que preparara ainda na cama. Aquela partida era real?
Ele brincava de partir, ia desfazer a mala. Eu não podia ficar
sozinha. Tanto pior para a vida ideal. E quem sabe se ela não era
aqui, nas longas divagações, nas expectativas e nos desejos de algo
diferente, em outro lugar? Vestiu o blusão de couro, acendeu um
cigarro e, nesse instante, meu coração bateu mais forte. Aconteceu.
Beijou-me distraidamente e partiu. Não me disse nenhuma das
palavras que cicatrizam as chagas que sangram, nem mesmo uma
fórmula de esperança. Mas ao abrir a porta, e como eu tocasse na
manga do seu blusão, piscou-me o olho e percorreu com a vista o
nosso cenário doméstico. Os derradeiros segundos prolongaram-se,
dilataram-se, encolheram, e a porta fechou-se entre os dois. Na
escada, seus passos eram cautelosos, por causa dos degraus
carcomidos. Restava ainda a janela. Corri a debruçar-me. Ele já
saíra, estava a trinta metros da curva, antes da esquina da rua.
Voltar-se-ia para olhar para cima? Como formigas, os homens saíam
de suas casas escuras. Um deles encobriu Lucien. Tudo se consumara.
Dei voltas pela cozinha, deitei-me de novo, levantei-me, sentei-
me na cama, abri as gavetas que êle deixara vazias. Só comecei a
sofrer mais tarde, na claridade do dia que alongava as esquinas e as
sombras, que dava às paredes suas verdadeiras dimensões e
iluminava sem piedade o vazio em meu redor. Não ia ao hospital.


Mantinha-me o dia todo enclausurada, refugiando-me nas lembranças
de meu irmão.

Sofri muito e por muito tempo, até à primeira carta. Escreveu no
vigésimo dia após a partida, seis linhas breves, secas, sem
pormenores, para me tranqüilizar sobre a sua saúde, seu moral e
suas ocupações.
Restavam-me duas tarefas desagradáveis a cumprir: primeiro,
avisar Marie-Louise, impedi-la de partir no seu encalço, acalmá-la,
aconselhá-la a ter paciência. Quanto à segunda, resgatar as jóias da
vovó, apenas via uma solução: economizar e privar-me de tudo. E
se não conseguisse antes de ela ter alta e voltar para casa? A
consciência pesava-me e eu preferia que ela ignorasse o assunto.
Esse temor levou-me a uma decisão que transformaria toda a minha
vida. Eu calculava que em três meses teria reunido o dinheiro
necessário. Portanto, era preciso que ela ficasse hospitalizada como
lhe tinham ordenado. Foi difícil. Chorou, suplicou; jurei-lhe que se
tratava apenas de uma curta estada de repouso, aconselhável em
sua idade, e que eu já estava fazendo os preparativos para o seu
regresso. Injuriou-me, ameaçou morrer, depois recaiu num silêncio
hostil.
Fui visitar Marie-Louise e anunciei-lhe a partida de Lucien como
uma boa notícia. Encontrara um trabalho com que sustentar
decentemente sua mulher e filha. O argumento deixou-a
indiferente. Descrevi para meu irmão perspectivas brilhantes.
Mentia, falava de algumas semanas de ausência. Ela resignou-se e
eu despedi-me aliviada.

Eu trabalhava muito, ora movida pela exaltação que me dava a
contemplação de mim própria, ora pela necessidade de atingir a
embriaguez da fadiga. À noite, jantava cedo e deitava-me cedo. Era


um momento que eu desfrutava plenamente. Enfim, o dia chegava
ao fim. Amanhã talvez houvesse correio. O sono iria libertar-me por
algumas horas. A solidão noturna não era dolorosa. Sentia-me
segura em minha casa. Segurança. Gostava desta palavra e do que
ela evocava. Gostava da sua rude sonoridade. Substituía a palavra
felicidade. O bem-estar de todo o meu corpo descontraído, a luz que
eu baixava, o livro que abria... Que me importava meu irmão nesses
instantes!
Fiquei sem notícias um mês inteiro. Julguei muitas vezes que a vida
me fugia, nas vertigens que me paralisavam diante da caixa do
correio vazia. Depois, Lucien escreveu várias páginas. Trabalhava.

Vi-me na necessidade material de aceitar um empreso penoso, mas quão
excitante! Vou misturar-me com os verdadeiros combatentes, compartilhar
da vida desumana dos operários de Paris. No meio de bretões, argelinos, poloneses
e espanhóis exilados, vou estar em contato com a única realidade
em movimento. E quando tiver terminado a jornada de trabalho na fábrica,
reencontrarei meus papéis, meus cadernos, pois, minha boa Elise,
testemunharei por aqueles que não o podem fazer.

Seguiam-se algumas frases polidas e forçadas sobre a saúde da vovó
e um curioso pós-escrito:

Há no hotel onde estou alojado um quarto livre por algum tempo. Se lhe
interessar aproveitá-lo, avise-me o mais depressa possível e direi ao gerente
para reservá-lo. Viveria em Paris algumas semanas, durante a ausência da
vovó.
Espero que me diga que sim, pois sinto a falta de minha irmã.


Foi-se o sono, o apetite, a vontade de trabalhar. Surgia a tentação, as
imagens que ela suscitava perseguiam-me por toda a parte, uma
multidão de pensamentos fervilhava: partir, viver junto de Lucien,
Paris, a vida ideal, Lucien numa fábrica. Esta última visão me
entristecia, mas fora sobretudo pelo apostolado, dizia para mim
própria, que êle fizera essa escolha.
Partir? Como? E a vovó, quem iria visitá-la? Lucien sublinhava:
"Algumas semanas". E depois? E de que iria eu viver em Paris? E as
jóias, de que eu já quase recuperara o dinheiro para as retirar do
prego? Abri a janela e debrucei-me para a rua. Algumas mulheres
riam do3 primeiros passos de um bebê, cai-não-cai. Do cutro lado
da rua, escapava de um botequim a voz de um bêbedo cantando.
Moças parecidas com Marie-Louise mexiam com um rapaz. "Todos
vivem animalmente, cada um só desperta para defender o interesse
da sua corporação, do seu clã, estivador, empregado ou calceteiro.
Nada a tirar de tudo isto. É preciso buscar alhures". Assim pensava
eu quando uma brisa suave chegou do rio. Senti bater-me no rosto e
não se desfez, por causa da minha súbita alegria. Escrevi nessa
mesma noite a Lucien. Eu iria. Precisei de uma semana para
organizar a minha partida, tanto o acontecimento ainda me parecia
fantástico. Avisei a Casa Puesh, num tom novo e seguro, de que
estaria ausente dois meses. Arrumei os nossos três cômodos,
salpiquei todas as frinchas de inseticida contra as baratas que não
deixariam de vir, lavei e engomei as poucas roupas que tinha, mas
não encontrei coragem para anunciar à vovó a minha próxima
partida. Escrever-lhe-ia de Paris, mentiria, tanto pior, inventaria
uma doença súbita de Lucien.
"Além disso, pensei eu vagamente, estarei de volta daqui a dois
meses".

Ria ao subir para o trem. O mundo devorava as novas estradas a
velocidades loucas e eu entrava num trem pela primeira vez. Mas


era o trem da desforra. Era impossível que a vida ideal não
começasse naquele instante.

SEGUNDA PARTE

Eu escutava a chuva, caindo na calha de zinco, logo por debaixo da
janela. Chovia há uma semana. Eu chegara vinte dias antes e o
gerente, ao ler a minha ficha de registro, escarnecera: "Ah! Você está
no país da chuva!". Só conseguira ver Paris afogada, reluzindo de
água, céus baixos e sombrios. Num escasso perímetro em redor da
janela, o quarto era claro. A cama, coberta com uma colcha de
veludo marrom que lhe escondia as pernas de ferro, era um vulto
escuro ocupando o ângulo à esquerda da porta. Dois andares mais
abaixo, Lucien e outros discutiam o meu futuro. Eu esperava. As
gotas desfaziam-se nas telhas. Fui até à mesinha e liguei o toca-
discos. Regulava-o de modo que a música saísse num murmúrio,
suavemente. Era uma canção portuguesa de que Lucien me traduzira
o título: "Quando sopra o vento". Gostava do princípio,
trêmulo e sincopado. Que iriam eles decidir? Sentei-me na cama. A
trégua ia ter fim. Eles queriam reaver o quarto e eu não tinha
vontade de deixá-lo. Discutiam o assunto sem mim.
A chuva parou naquele instante. Abri a janela e debrucei-me. Aqui
não havia árvores nem vegetação alguma, apenas linhas secas,
entrecruzadas, entre as quais se alongavam para o alto estrias de
fumaça branca ou preta. Essa paisagem tinha algo de desolado que
me tocava o coração. O hotel ultrapassava de muitos andares as
casas vizinhas. Ao cair da noite, na hora das brumas e dos revérberos,
o quarto me parecia suspenso, flutuando num universo
irreal e um pouco assustador.


Lucien entrou, depois de avisar sacudindo o puxador da porta.

— Venha, Elise, vamos explicar-lhe como se arranjaram as coisas.
— Tenho de sair do quarto? — perguntei, enquanto descia.
— Ah, isso, não há outro remédio. Mas encontramos uma solução.
Êle seguia à minha frente. Seu quarto era no segundo andar, na
extremidade de um corredor sombrio. Abriu e fêz-me sinal para que
entrasse. Havia dois rapazes que pareciam da idade do meu irmão
— estavam sentados ou, mais exatamente, espojados sobre a cama
— e uma mulher, da qual só vi primeiro as costas.
— Bem, — disse Lucien — Vera, esta aqui sentada, vai portanto
ocupar o quarto de Robert.
Vera disse que sim. Era muito bonita, mas não sorria. Suas roupas
pareceram-me elegantes. Era difícil imaginar que ela não tivesse um
quarto onde dormir.
— Eu irei dormir com Michel por algum tempo e você, Elise, fica
com o meu quarto.
Respondi timidamente que estava de acordo. Mas fiquei
decepcionada. O quarto, maior do que o que eu ocupava, era escuro
e a janela abria-se para a rua. Através da cortina, li o letreiro em
frente: "Padaria da Basílica".
— E outra coisa — disse Lucien. — O dinheiro anda curto. Tenho de
pagar-lhe o que me emprestou e o farei antes do seu regresso. Mas,
enquanto esperamos? Deseja trabalhar?
Por que me fazia aquela pergunta diante de estranhos? E como
poderia eu responder-lhe que não? Fizera-o de propósito,
calculando o golpe. Observei-lhe que partiria dentro de algumas
semanas. Não poderia encarregar-se de mim por tão pouco tempo?
— Claro que posso. Quanto ao trabalho, pensei que isso poderia se
ruma experiência interessante para você. E não imagina como o
dinheiro se derrete depressa por aqui. Mas. . .
Senti-me presa numa tal engrenagem que nada mais me restava,
senão deixar correr.

Desejei subitamente reencontrar a vida familiar, a vovó e nossa
existência quieta, enclausurada. Os seres estranhos me assustavam,
a vida me amedrontava.
No quarto, Vera, sem se preocupar comigo, abria gavetas. Fiz
rapidamente a mala. Tinha vontade de chorar. Olhei de relance pela
janela. A chuva caía de novo e o ruído que provocava no telhado
atingia-me profundamente. Vera apanhou um cinzeiro. Estendi-lhe
a mão. A sua era branca, com pequeninas flores vermelhas e
oblongas na extremidade de cada dedo. Ergueu-os para mim
afastados e achei esse gesto gracioso.

Há três dias não via Lucien, quando o encontrei, uma noite, diante
da porta do quarto.

— Esperava por você — disse ele. — Então, tudo bem?
Estava imundo. Trajava suas calças cinzentas, sempre as mesmas,
amarrotadas e cheias de nódoas. Seu blusão de couro estava
gorduroso e os sapatos enlameados. Mas, ainda mais do que suas
roupas, impressionou-me o desleixo de sua pessoa, quando se pôs à
vontade para sentar-se. Tinha uma barba de muitos dias e crostas de
sujidade atrás das orelhas. Suas mãos, sobretudo suas unhas
compridas, estavam imundas. Ele adivinhou meus pensamentos.
— Estou sujo, não é? Ando tão cansado que só penso em dormir.
Lavo-me amanhã, que é domingo. Vamos, diga-me o que tem feito.
Resumi. Eu sabia que êle não viera para ter notícias minhas. Traria
algum dinheiro? Seus olhos pisados pareceram-me um pouco
inchados. Não devia dormir o bastante. Estavam ternos e tristes,
como toda a sua pessoa. Até sua voz mudara. Era mais seca e mais
grave. Exprimia-se com grande economia e limitava-se, na minha
presença, a murmúrios de que eu percebia apenas o essencial: "vou
andando, traz, de acordo, tenho de me virar, adeus, está legal" e
algumas palavras obscenas recentemente aprendidas.

Essa noite, porém, eu ia custar-lhe uma verdadeira conversa. Tive
um mau pressentimento, porquanto usava precauções oratórias em
minha intenção.

— Lembra-se da Ana?
— Evidentemente.
Ia acrescentar qualquer gracejo, mas contive-me a tempo. Dissera o
"evidentemente" num tom que o pusera de sobreaviso. E
acrescentei:
— Sim, sim, claro.
E, desta vez, dei a maior naturalidade à minha voz.
— Bom, Ana vai chegar.
Não previra isso e dei-me conta de que corei.
— Seria uma longa explicação. . .
Era essa, há muitos anos, a sua frase-alibi, sua defensiva, sua
suprema e irrisória jogada. Aguardava a todo instante que um
arremedo de conversa tivesse início.
— Sim, ela chegará amanhã ou depois. . . Não vale a pena explicar-
lhe, íamos perder um tempo danado. Só que. . . entende? Trata-se
do quarto. Estou desolado — acrescentou cinicamente.
"Por que é que a fiz vir?", devia estar ruminando. Que besteira!
Sentara-se, de pernas esticadas e afastadas, os braços pendentes
entre as coxas. A barba, os olhos vertiginosamente vazios, o rosto
encovado, duas rugas de expressão malévola entre as sobrancelhas,
a camisa suja — um destroço arrojado pelo naufrágio na praia da
vida, dissera amistosamente Henri — imaginava-o, nas manhãs de
solidão, procurando à sua volta o café fumegante que êle era
incapaz de preparar. Eu ia perder, bem o sabia, mas estava
resolvida a bater-me.
— Tenho de partir outra vez? — perguntei para o encurralar.
Tinha dificuldade em responder que sim.
— Que acha que eu possa fazer? — perguntou habilmente.

Ficamos nesse jogo por alguns segundos e percebi que êle se
impacientava.

— Desta vez, — insisti eu — para onde é que tenciona mandar-me?
Não respondeu. Achei-o frouxo. Onde estavam suas explosões de
outrora?
— Vou-lhe pagar um quarto num hotel próximo daqui, para que
não se sinta muito isolada. Não é caro, paga-se ao dia...
— Uma hospedaria, é isso?
— Bem, durante as minhas horas livres procurarei alguma coisa
melhor. Verei Henri, outros chapas... Michel conhece um Lar que
não fica longe daqui. . .
— E entrementes?
— Enquanto se espera, você fica aqui. Eu ficarei com o quarto de
aluguel. . .
— Não — disse eu, mais branda. — Eu pagarei menos do que. . .
vocês dois. Conhece algum endereço?
— Em qualquer lugar, isso é o que não falta, em Paris, aqui. . .
— Não sei onde é "em qualquer lugar". Ainda possui algum
dinheiro?
— Sim, ainda tenho cinco mil. Depois, estou limpo.
— E então como se arranjará? Fez um gesto de indiferença.
— Não pensa, por acaso, — comentou êle — que o dinheiro é
realmente uma coisa importante?
— Não é isso, exatamente. Penso, sobretudo, que acabamos por
perder de vista as coisas importantes, por causa do dinheiro.
— Vem a dar no mesmo — suspirou ele.
Tentou interessar-se por alguns minutos no diálogo, mas depressa
me dei conta de que êle falava sem atenção. Seus olhos fixos
rebrilhavam. A chegada de Ana ocupava a sua imaginação.
Eu ansiava de curiosidade, mas não lhe fiz qualquer pergunta.
— Devo partir esta noite?

— Claro que não! — protestou êle. — Deixe a chave na portaria. É
tudo. Amanhã à tarde já terei encontrado alguma coisa para você.
Na manhã seguinte preparei a mala. "Teria sido mais justo que êle
me deixasse aqui. Ela já está habituada a andar por hotéis. Tenho a
impressão de que Lucien sente prazer em empurrar-me de um lado
para outro, em obrigar-me a viver fora do meu aquário. Volto para
casa".
Ana era apenas uma fachada, uma encenação habilmente montada,
uma mentira, uma ilusão. Ana, desnudada, reduzia-se a um corpo,
magra, dois seios nascentes, a pele ingrata das moças apaixonadas,
olhos grandes e muito afastados, enormes cicatrizes no pescoço,
provenientes de operação das tireóides, uma grande preguiça, um
orgulho que encontrava resposta nas humilhações espetaculares,
uma necessidade permanente de cama, de calor, de sono, uma
indiferença sincera pelo alimento, os cabelos longos que inundavam
tudo. Ana é uma imaginação desmesurada que se vê tal qual ela não
é e se constrói tal como ela se vê. Para Lucien, Ana é um frágil caniço.
Tudo é fabricado. Os cabelos que ela deliberadamente
desmancha, os cílios que pinta, o rosto que ela modula colando os
cabelos ao longo das faces, segundo uma linha de sombra bem
calculada, os olhos que desenha a lápis, a pele falsa, à custa de
cosméticos, os seios pontiagudos debaixo do suéter de malha.
Lucien, será realmente um ingênuo? Amará a imagem que ela lhe
oferece ou a verdadeira Ana, fracasso do Criador, comovente em
seus esforços? Com êle, Ana poderá usar todos os seus recursos.
Está pregada na parede do seu espírito como uma borboleta rara. E,
prisioneira da imagem, ela só se lhe mostra quando está pronta para
desempenhar seu papel. Acorda durante a noite para lavar a
maquilagem. Levanta-se de manhã cedo para refazê-la.


Depositaram suas malas, contendo cada uma as cartas do outro. Ela
escrevia-lhe "a sua tímida gazela" ou "sua mulher-criança". Êle
respondia-lhe " . . . como cipó enroscado em meus braços".
Mas, nessa manhã, quando vim buscar minhas coisas, encontrei-a
ainda deitada. Lucien levantara-se às cinco da manhã, ela não tinha
necessidade de se mexer. Deu um salto para a cadeira, apanhando o
casaco em que se envolveu. Vi o osso da omoplata saliente como
uma asa, as coxas magras e o rosto triste como uma praia de onde o
mar se houvesse retirado.
Nunca sabíamos o que dizer uma à outra. Ofereceu-me café. Aceitei,
espiei-a, observei-lhe o ventre; pareceu-me normal e chato. Mas Ana
jamais falava de si própria. Mesmo assim, adivinhei o seu embaraço
e isso deu-me prazer.

— Em sua terra, está fazendo melhor tempo do que aqui?
— Não sei...
— Ah, desculpe. Supunha que você estivesse chegando agora da
província.
— Não, não. Já estou aqui há algum tempo.
— Custou-lhe muito adaptar-se à vida de Paris?
"Ela vai dizer a Lucien que eu lhe fiz muitas perguntas". Falamos de
Paris; pediu desculpas pelo assunto do quarto.
— Lucien insiste para que você venha jantar conosco, sempre que
quiser. Vai ficar muito tempo em Paris?
Ela me cansa e intimida. Com Marie-Louise era simples. Tenho
saudades dela.
Michel conduziu-me ao Lar da Mulher. Quarto de duas camas,
separadas por uma pesada cortina. Um armário-estante, um cabide
de parede, um lavatório, uma janela para a rua. Três mil francos por
mês. Tudo me pareceu bem, quase luxuoso. No andar térreo, havia
uma grande cozinha com uma cantina anexa, aberta desde as seis da


manhã, onde se podia tomar um café com leite preparado na
véspera.

— Formidável! — disse Lucien. — Terá com que viver um mês
justo, o tempo para ficar conhecendo Paris.
— E você, Lucien?
— Oh, eu. . . Perdi uma boa porção de horas esta quinzena. Vou
procurar Henri. Talvez êle me tire de apuros. Ainda lhe resta
alguma coisa dos cinco mil? Pago-lhe na sexta-feira... Sabe o que
devíamos fazer? Mandar uma pequena lembrança para vovó. Que
acha da idéia? Uma torre Eiffel, um lenço. . .
De olhos brilhantes, eu olhava para meu irmão.


— Oh, Lucien. . .
— Compre por mim que a reembolsarei com o dinheiro do
pagamento, está bem?
Fiquei tão comovida que me propus ajudá-lo.


— Seria bom — disse êle, sem entusiasmo aparente. — Ainda lhe
devo um bocado de dinheiro, não? Daqui a um mês estarei livre de
apuros. Poderei até enviar um vale postal para... lá para casa.
— De quanto vai precisar, até que as suas coisas se resolvam?
— Bem, dois ou três mil. . . Entreguei-lhe três mil.
Recebi duas cartas da vovó, em resposta às minhas. Lamentava-se e
suplicava que fosse buscá-la.
Uma noite em que fora jantar com eles, quando me preparava para
sair, Lucien perguntou-me bruscamente:


— Elise, quer trabalhar comigo?
— Mas, Lucien, se eu parto daqui a pouco!
— Verdade? Pretende voltar para casa?
— E de que trabalho se trata?

— Estão admitindo moças para o cálculo de horas extraordinárias,
bonificações, isso a que eles chamam o controle. Pagam 185 à hora.
— Não, Lucien. Tenho de voltar. Leu a carta da vovó ? Digamos
que fico até novembro, procurando ganhar o dinheiro para o
regresso. Não se parte assim, Lucien, deixando os outros para trás.
Ficou amuado o resto do tempo. Separei-me deles às nove horas e
caminhei até ao Lar. Sob a chuvinha macia, a proposta de Lucien me
embriagava. Não voltar, vê-lo todos os dias, estar um pouco
misturada à sua vida...
"A coisa começa", disse para comigo, sem poder definir exatamente
o que começava.
Compreendi, finalmente, que êle não me reembolsaria coisa
nenhuma. Ana não trabalhava; arranjara uma porção de livros e,
juntos, aprendiam não sei bem o quê: tudo ao mesmo tempo,
estudavam inglês, jornalismo, fotografia, as civilizações orientais,
todo um mistifório desordenado que lhes dava a impressão de
serem pessoas superiores.
— Como queira. Se deseja realmente partir...
— O meu dinheiro já não chega, bem sabe. Bem, aceito. Trabalharei
aqui dois meses. . .
— Quatro quinzenas. O tempo bastante para ser reembolsada
também do que lhe devo. . .
— Nada lhe peço, Lucien. Sei muito bem que não pretende pagar-
me. Ocupe-se de você apenas. Acha que tem progredido?
— Tenho enriquecido bastante. Não financeiramente, claro.
— Há cinco anos que diz isso. E a sua saúde? Está magro. Se a vovó
o visse. . .
— Ela não me vê, o que é excelente. Nunca mais voltarei à nossa
terra, Elise. Nunca mais. Além disso, aqui pode-se fazer grandes
coisas.
— Andar colando cartazes de noite, isso o satisfaz? É isso que o
enriquece?

— Não se meta nessas coisas! — gritou ele, impaciente. — Não se
preocupe comigo.
Estendeu um prato cheio de frutas para mim.
— Tome, coma e cale-se — disse vagarosamente.
— E esse trabalho de controle, tem a certeza de que poderei dar
conta do recado?
— Experimente. Se não puder, caia fora.
— E amanhã, acompanha-me? Verdadeiramente, eu tinha medo.
O trajeto parecia não ter fim. Pegamos o ônibus na Porte de la
Chapelle e descemos na Porte de Choisy.
A manhã despontava, clara e pura. Uma alegria comunicativa
escorria de cada uma das árvores do boulevard
Masséna, onde a passarada despertava. Penteara-me com esmero e


o resultado pareceu-me satisfatório.
— Salut, salut, salut — ia dizendo meu irmão a cada um dos que lhe
estendiam a mão.
Estávamos diante de um muro imenso e de enormes portões de
ferro.
— Espere aqui...
— Mas, Lucien, não me deixe sozinha.
— Só cinco minutos.
Encolhi-me contra o ângulo da porta. Os homens e mulheres que
passavam por mim não me notavam. O sol erguia-se; não era maior
do que uma laranja quando surgiu sobre os telhados defronte da
fábrica.
Lucien voltou acompanhado de um homem grandalhão, de ombros
quadrados, empertigado e sorridente.
— Este é Gilles, o contramestre. Apertou minha mão
com firmeza.
— Muito bem, você terá de esperar até às oito horas, quando abre o
escritório.

Apontou uma porta envidraçada com o letreiro: "Admissão de
Pessoal".

— Quando chegar, diga que o Sr. Gilles a recomendou. Eu
confirmarei. Vão primeiro tratar dos seus papéis, depois irão
mandá-la a uma inspeção e, em seguida, será encaminhada à oficina
76. É na linha de montagem — insistiu êle. — Lucien já lhe
explicou?
— Sim, senhor.
— Bem, então está bem. Até logo.
— E se eles não me aceitarem?
O homem explodiu numa gargalhada.
— Você devia antes dizer: " . . . e se eu não aceitar". Eles a admitem,
esteja certa disso. Até logo.
Lucien aproximou-se de mim.
— Não se preocupe. . .
— Não, está tudo correndo muito bem.
Sentia-me verdadeiramente bem. Gilles, Lucien. . . Ocupavam-se de
mim. Tinha de esperar três quartos de hora. Meti por uma rua
transversal, ao acaso. Desembocava num grande terreno
descampado, ao fundo do qual se erguiam numerosos edifícios
novos.
Às oito menos um quarto, voltei ao escritório de admissão. Alguns

homens, estrangeiros na maioria, já estavam esperando. Olharam-
me de um modo curioso. Às oito horas em ponto, um guarda de
boné de pala abriu a porta e fechou-a vivamente atrás de si.

— O que é que você quer? — perguntou a um dos homens, apoiado
contra a parede.
— Trabalho.
— Não há vagas — disse o guarda, sacudindo a cabeça. — Nada.
Céptico, o homem não se mexeu.
— Não estamos admitindo ninguém — repetiu o guarda.
Os homens deram alguns passos, mas ficaram diante da porta.

— Mas saiu anúncio no jornal — disse um deles. O guarda
aproximou-se e gritou-lhe:
— Sabe ler, escrever e contar?
Começaram então a se afastar da porta, vagarosamente. Um deles
falava, em árabe, sem dúvida, e o nome Citroen destacava-se com
freqüência. Então dispersaram-se e atravessaram o portão.
— Que deseja? — indagou o guarda, voltando-se para mim.
Olhou-me dos cabelos aos sapatos.
— Creio que devo inscrever-me. O Sr. Gilles. . .
— É para entrar?
— Sim — respondi timidamente.
— Passe para ali. . . Abriu-me a porta envidraçada.
No escritório, havia quatro mulheres trabalhando. Fui interrogada.
Dei explicações. Uma das mulheres telefonou, mandou-me sentar e
eu comecei a preencher os papéis que ela me estendeu.


— Sabe que não é para trabalhar no escritório — disse ela, quando
leu a minha ficha.
— Sim, sim. . .
— Bem, então torne a sair, atravesse a rua e entre na porta que tem
escrito "Serviço Social". Suba ao segundo andar para a inspeção
médica.
Na sala de espera, éramos cinco, quatro homens e eu. Um grande
letreiro dizia "Proibido Fumar", tendo por baixo a tradução em
caracteres árabes. A espera durou duas horas. Por fim, um dos
homens sentados ao meu lado acendeu um cigarro. Chegou o
médico, acompanhado de uma secretária que segurava as fichas. A
inspeção era rápida. O doutor interrogava, a secretária tomava nota
das respostas. fez algumas perguntas embaraçosas, mas não insistiu
quando notou o meu rubor e me disse para mostrar-lhe as pernas,
pois eu ia trabalhar de pé. "Radiografia", anunciou a secretária. Ao
despir o meu suéter, desmanchei o penteado, mas não havia espelho

para recompor os cabelos. O argelino que me antecedia foi chamado
à ordem pelo médico. Não ficava quieto diante do aparelho.

— Como se chama? Repita! Isso é muito complicado para dizer.
Não se chama Mohamed? — E pôs-se a rir. — Todos os árabes se
chamam Mohamed. Está bom, apto para o serviço. O seguinte. Ah, é
uma seguinte. . .
Quando terminou, chamou-me à parte.
— Por que não solicitou emprego nos escritórios? Você sabe para
onde vai? Para a linha de montagem, com uma porção de
estrangeiros, quase todos argelinos. Não vai poder ficar lá. Fale com
a assistente e veja o que ela poderá fazer por você.
O guarda nos esperava. Leu nossas fichas. A minha dizia: oficina 76.
Subimos num enorme elevador até ao segundo andar. Aí, uma
mulher que separava pequenas peças, interpelou o guarda.


— Há muitos hoje?
— Cinco.
Eu a fixei e teria gostado que ela me sorrisse. Mas seu olhar passou
por mim como por uma placa de vidro.
— Você ficará aqui — disse o guarda.
Gilles caminhava em nossa direção. Trajava uma blusa branca e fez
sinal para que o seguisse. Um ronco chegava aos meus ouvidos e
comecei a tremer. Gilles abriu o batente de uma pesada porta e deu-
me passagem. Estaquei e olhei para êle. O contramestre disse
qualquer coisa, mas já não pude ouvi-lo. Estava na Oficina 76.
As máquinas, os martelos, as ferramentas, os motores e as serras
misturavam seus ruídos infernais e aquela barulheira insuportável,
feita de roncos, assobios, rangidos, sons agudos e dilacerantes,
parecia-me de tal modo desumana que julguei tratar-se de um
acidente, que esses ruídos não se combinavam entre si e alguns
deles cessariam, inevitavelmente. Gilles notou o meu espanto.
— Um barulho e tanto, hem? — gritou êle no meu ouvido.

Não parecia perturbado. A oficina 76 era imensa. Avançamos,
saltando por cima de caixas e carros de mão, e quando chegamos
diante das fileiras de máquinas onde um grande número de homens
trabalhava, ergueu-se um uivo que se prolongou, repetido, ao que
me pareceu, por todos os operários da oficina.

Gilles sorriu e inclinou-se para mim.

— Não tenha medo. Aquilo é para você. Sempre que entra aqui uma
mulher, a coisa é deste jeito.
Baixei a cabeça e reatei a marcha, acompanhada por essa espécie de
rugido que se erguia agora de todos os lados.
À minha direita, uma serpente de carros avançava lentamente,
coleante, mas não me atrevi a olhar.


— Espere! — gritou Gilles.
Entrou numa gaiola de vidro, construída no meio da oficina, e
voltou a sair rapidamente, acompanhado de um homem ainda
jovem e impecavelmente asseado.
— É o Sr. Bernier, seu chefe de turma — gritou êle. — Esta é a irmã
de Letellier!
O homem fêz-me um aceno de cabeça.


— Tem uma blusa? Disse que não.
— Bem, de qualquer modo, dirija-se ao vestiário. Bernier lhe
indicará o caminho. Deixe lá o casaco. Só que vai ficar toda suja.
Também não trouxe sandálias?
Parecia contrariado.
Enquanto falávamos, os gritos tinham cessado. Recomeçaram
quando passei na companhia de Bernier. Eu me concentrava no
caminho à minha frente.
— Vão ter com que se distrair por três dias — soprou Bernier a meu
lado.
O guarda tinha a chave do vestiário. Estava sempre fechado, por
causa dos furtos, explicou Bernier. Depositei apressadamente o
casaco e a minha bolsa. O vestiário era escuro, alumiado apenas por

duas lâmpadas mortiças, metidas numa proteção de rede de arame.
Pairava um cheiro de urina e alcachofras.
Bernier levou-me depois até ao fundo da oficina, na parte que dava
para a rua, iluminada por grandes jane-lões de vidro pintado de
branco e riscado em alguns lugares, pelos operários, sem dúvida.


— É a linha de montagem — anunciou Bernier com orgulho.
Fez subir para uma espécie de banco feito de ripas de madeira.
Automóveis passavam lentamente e os homens atarefavam-se
dentro deles. Percebi que Bernier me falava. Não entendi e pedi
desculpa.


— Não tem importância, acabará por habituar-se. Só que vai sujar-
se toda.
Chamou um homem que se aproximou de nós.
— Esta moça é a irmã do Letellier, aquele grandalhão ali ao fundo.
Leve-a para o controle durante dois ou três dias.
— Ah, bom? Agora são as mulheres que controlam? De mau humor,
fêz-me sinal para que o seguisse e
atravessamos a linha de montagem entre dois carros. Havia pouco
espaço. Desequilibrada pelo movimento, tropecei e agarrei-me a êle.
Resmungou. Já não era muito moço e usava óculos.
— Vamos subir um pouco — disse êle.
A linha de montagem descia sinuosamente, num ligeiro declive,
transportando em seu ventre os automóveis bem amarrados, nos
quais entravam e saíam homens apressados. O ruído, o movimento,
a trepidação das tábuas, o vaivém dos homens, o cheiro de gasolina,
aturdiram-me. Senti-me sufocar.
— Me chamo Daubat. E você é. . . ah, sim, Letellier.
— Conhece o meu irmão?
— Claro que conheço. É aquele mais alto, ali ao fundo. Quer ver?
Puxou-me um pouco para a esquerda e espetou o dedo na direção
das máquinas.

A linha de montagem dominava toda a oficina. Tínhamos subido
até ao seu início; ia acabar muito longe, lá na outra ponta, depois de
ter dado uma volta completa à oficina. Do outro lado da passagem
central estavam as máquinas em que trabalham muitos homens.
Daubat indicou-me uma silhueta, a cabeça coberta com uma boina,
uma máscara protegendo os olhos, macacão de mescla azul, e
segurando na mão envolta em trapos uma pistola de pintura com
que enviava um jato sobre pequenas peças. Era Lucien. Do meu
lugar, semi-oculta pelos carros que iam passando, observei
atentamente os homens que trabalhavam naquele setor. Alguns
pintavam, outros batiam em pequenas peças que seguidamente
prendiam num cabo em movimento. As peças chegavam assim ao
operário seguinte, depois a outro, e outro... Era a parte mais suja da
oficina. Os homens, com seus macacões azuis repletos de nódoas,
tinham o rosto todo enfarruscado. Lucien não me via. Daubat
chamou-me e voltei para junto dele. Estendeu-me uma placa de
metal, sobre a qual havia uma papeleta para anotações.

— Tome um lápis. Venha comigo.
Subiu de novo ao princípio da linha de montagem. Eu o seguia
como uma sombra, pois sentia muitos olhos pousados em mim e
esforçava-me por fixar apenas os objetos. Aplicava-me também a
colocar os pés enviesados sobre as tábuas do banco. Era preciso
subir e descer. Daubat agarrou-me por um braço e fêz-me entrar
num carro.
— Agora olhe isso.
Mostrava-me o painel de instrumentos feito de tecido plástico.
— Se houver defeitos, tome nota. Está vendo? Aqui, não está
bem esticado. Então escreve: "mal esticado". E ali? Veja.
Daubat olhava os limpadores do pára-brisa.
— Está bem. E a viseira para o sol? Hem? Rasgada. Você escreve:
"viseira solar rasgada". Ah, mas é preciso andar depressa! Veja só
onde já estamos.

Saltou do automóvel e fêz-me saltar com ele. Estávamos longe do


local onde tínhamos entrado no veículo.
— Não poderemos fazer o seguinte — disse êle, desanimado. —
Explicarei a Gilles, que remédio! Tentemos aquele.
Recomeçamos. Ele trabalhava depressa. Dizia: "aqui está dobrado",
"ali falta um retrovisor" ou "o retrovisor está mal montado". Eu nada
entendia.
Durante alguns minutos, refugiei-me na idéia de não voltar no dia
seguinte. Não me via galgando a linha, descendo a linha, entrando
nos automóveis, ver tudo em escassos minutos, escrever, saltar,
correr para o seguinte, subir, ver, escrever, saltar.


— Entendeu? — perguntou Daubat.
— Um pouco. . .
— Um pouco não serve, moça — disse êle, sacudindo a cabeça. —
Não entendo por que diabos entregam um trabalho destes a
mulheres. Palavra de honra. Terei de falar com Gilles. Se isto
continua assim, as minhas bonificações entram pelo cano. Já deixei
passar três carros. . .
Subimos um pouco mais na linha de montagem.
— Vamos, este serve — disse Daubat.
No automóvel onde entramos havia cinco homens. Um
aparafusava, outro pregava um friso em torno de uma porta e os
demais ajustavam as peças do painel de instrumentos.
— Então, mexam-se! — gritou Daubat. — Vocês estão atrasados!
Empurrou-os para um lado. Os homens, aliás, tinham parado e
olhavam para mim.
— O negócio agora mete mulheres? — disse um deles.
— Sim, e daí? Trate mais é de trabalhar, que você já está com um
carro de atraso e olhe que no portão há muitos à espera da sua vez.
O que falara — era um árabe — riu e dirigiu-se aos outros na sua
língua.

Éramos agora sete metidos naquela carcaça de chapa, agachados
sobre as longarinas do fundo, porque os assentos e o forro só são
instalados muito depois.

— Isso vai melhor? — perguntou Daubat.
— Sim, creio que sim.
— Na próxima, vou deixá-la sozinha. Estarei um carro atrás do seu.
Tropeçando, o que fêz rir um dos rapazes, saí do automóvel e
aguardei o seguinte. Papeleta na mão, apoiada na porta para manter
o equilíbrio, tentei ver. Meu braço tocava nas costas de um homem
que pregava. Quando me debrucei para o painel, pouco faltou para
despencar sobre o operário que fixava o retrovisor. Êle sorriu e
ajudou-me a recuperar o equilíbrio. Saí prontamente e não vi
Daubat. Era preciso marcar qualquer coisa. Não podia colocar a
minha papeleta em branco na traseira do carro — a que chamavam
a "praia", acabara de aprender — e escrevi ao acaso: "falta
retrovisor", porque vira Daubat assinalar a mesma coisa em todas as
papeletas. Mas depois, que fazer? Sem Daubat, estava perdida. Êle
descia do carro que acabava de chegar diante de mim.
— Então, a coisa vai ? Pegue o outro, o que vem atrás — disse êle.
Encaminhou-se para o veículo precedente e leu a minha papeleta.
Concentrei-me no novo carro. Vi pregas na capota e escrevi
"pregas". Um homem estava perto de mim e cutucou-me. Olhei-o
severamente e compreendi depois que me pedia passagem. Não o
ouvira.
Alguém entrou no carro. Voltei-me. Era Gilles. Dava-me explicações
rápidas, mas muitas de suas palavras me escaparam.
— Hora do almoço! — disse êle.
Oh, salvação! Não voltar depois do almoço. Os homens iam
largando o trabalho e esfregavam as mãos. Perguntei a mim mesma
onde iria a essa hora.

Quando soou a sirena, todos os operários se precipitaram correndo
para a porta. Daubat viera ao meu encontro, quando vi Lucien
aproximar-se.
Eu olhava para Daubat, que fazia suas apreciações.


— É o princípio. Vai custar a habituar-se — dizia ele, dirigindo-se a
meu irmão. — E com aqueles moleques não vai ser fácil. Se ela
assinalar o mau trabalho que fizerem, não faltarão histórias.
Tratarão de fazer-lhe a vida um inferno. — E depois, voltando-se
para mim: — Mas eu estou aí. Se algum deles a incomodar, é só me
avisar. No entanto, já preveni Gilles, francamente, que isto não é
trabalho para mulheres.
— Claro — disse Lucien, distraído. — Onde vai comer?
— Não sei. E você?
— Na cantina. Quer senhas? Posso emprestar-lhe algumas.
— Vou buscar o casaco.
— Então despache-se. Espero-a aqui.
Entrei no vestiário, onde algumas mulheres, sentadas nos bancos,
tagarelavam, enquanto comiam. Encararam-me. Cumprimentei-as e
saí.
Lucien nada dizia. Eu tampouco : "É duro, estou cansada. . .". Era
ridículo. O que isso poderia significar?
O ar livre despertou desejos mais agudos do que a fome.
— Desculpe-me — disse a Lucien. — Prefiro caminhar um pouco.
Faz um tempo tão bonito.
— Que belo sol! — exclamou êle. — Vou fazer como você. Boa
idéia, caminhemos um pouco.
Atravessamos a rua para o lado banhado pelo sol. Passavam
operários com garrafas e grandes bisnagas de pão.
— Aqueles comem na fábrica. Sobretudo os argelinos, por causa da
carne de porco que servem na cantina. Dobramos para o boulevard,
na direção da Porte d'Italie.

Encontramos um banco e sentamo-nos, lado a lado. O sol batia-nos
nas costas. Minhas pernas tremiam e apenas trabalhara duas horas.
Era preciso recomeçar por mais quatro horas e meia. Lucien
refestelara-se, pernas estendidas para diante, os braços cruzados
sobre o encosto, cabeça jogada para trás.

— E agora, a verdade — disse êle, em voz baixa. — Você acha que
vai agüentar o troço?
— Agüentarei.
Ao sol e em repouso, era simples afirmá-lo.
— Não teve medo quando os tipos gritaram, esta manhã?
— Não — menti eu. — Não tive medo. Mas por que fazem aquilo?
Endireitou-se e encolheu as pernas.
— Quando se trabalha daquele jeito, volta-se ao estado animal.
Bestas que cheiram a fêmea. Gritam e uivam. É a expressão animal
do prazer. Não são maus, não. Um pouco pegajosos com as
mulheres, porque sentem a falta delas.
— Apesar de tudo, estou assustada pelo que já vi.
— O que foi que viu? Ainda não Viu nada. Se agüentar, se decidir
ficar, descobrirá ainda muitas outras coisas.
— E você, Lucien, pensa ficar muito tempo?
— Ah, quanto a isso, não sei. Era preciso passar por esta
experiência, ver com meus próprios olhos. Mas, por vezes, receio
fraquejar. Não consigo comer direito. Perdi o apetite, estou
intoxicado pelo cheiro de tinta. E os outros à minha volta, que
decepção!
— E Henri?
— E Henri o quê? Você fala sempre dele. Que quer que êle faça?
Quando fizer os exames finais, terá uma situação brilhante e depois
acabou-se.
— Nada pôde fazer por você?
— Não é esse o problema — replicou, agastado.
Não respondi.

— Vamos, de qualquer modo, é preciso comer alguma coisa.
Dirigimo-nos para a Porte d'Italie. Alguns operários, quando
passavam perto de nós, piscavam o olho para Lucien.
— Mas isto é verão!
— Oh, sim, o tempo parece ter melhorado um pouco. Estou com
sede.
— Eu também.
Sentamo-nos a uma mesa de um café, ao ar livre. Lucien estava com
o macacão azul, que era uma nódoa só. Eu não tivera tempo de
lavar as mãos. Que importância tinha ! Era a hora de descanso, o
que interessava era recuperar as forças.
Lucien pediu um sanduíche, que repartimos. Ele tomou duas
médias. O sol nos lambia. O ar fresco lavava os nossos pulmões. A
alegria de viver parecia suspensa nesse céu de outono, puro e claro.
— A vida de operário, entende, começa no instante em que termina
o trabalho. Como é preciso dormir um pouco, não sobram muitas
horas para viver.
Levantou-se e espreguiçou-se longamente.
— E depois. . . depois entrega-se, renuncia. Não vale a pena teimar
— disse êle, num tom amargurado. — O que se ganha com isso,
afinal de contas?
Perguntei-lhe, mais uma vez, por que êle próprio não largava tudo.
— E viver como? Com quê? Há alguma outra coisa que eu possa
fazer? Se eu não fosse um completo sacana, a minha obrigação era
mandar algum dinheiro. . . para casa. E viver aqui.
Essa conversa mergulhara-me numa grande tristeza. Retomei sem
coragem o caminho da oficina.
Diante da porta da fábrica, onde alguns homens aguardavam o
toque da sirena, sentados por terra ou de pé, encostados ao muro,
fui saudada com assobios e convites. Na oficina, consegui passar
despercebida. A sirena ainda não soara e os homens, dispersos por
aqui e ali, fumavam. Eu avançava entre caixotes, colunas e
máquinas. Perdi-me e quando tentava orientar-me dei de cara com



um grupo de três homens que discutiam. Daubat reconheceu-me e
disse, chamando por mim:

— É a minha nova aluna. Venha cá. Pousou a mão no
meu ombro.
— É a irmã de Lucien, aquele grandão moreno. . . Os três tinham
pouco mais ou menos a mesma idade.
Suas jaquetas azuis estavam cuidadas, quase limpas. Daubat
apresentou os colegas:
— Este é o nosso afinador.
O homem tirou a guimba da boca e cuspiu um pedacinho de tabaco.
— Sim, sou eu.
— E este é o único profissional de toda a oficina. Era mais gordo do
que os outros e mostrava, em cima
das bochechas roliças, duas bolinhas azuis, vivas e inquietas.
— Somos — confiou êle — os três únicos franceses do setor. Que
lhe parece? O resto, estrangeirada. Há por aí de tudo. Os nossos
caros argelinos, evidentemente. E marroquinos, espanhóis,
iugoslavos.
— O seu irmão gosta muito deles — disse o afinador, com
azedume.
— Lucien gosta de toda a gente.
— Pois faz mal. Isso ainda lhe custará um dissabor. Não se pode
trabalhar com essa gentinha. Enfim, se eles a incomodarem, já sabe,
nós estamos aqui.
— E Gilles? — disse o gordo.
— Gilles. . . não é muito seguro.
Daubat manifestava-me uma cordialidade bem diferente do seu
mau humor da manhã.


— Temos de nos amparar entre nós. Não podemos contar com mais
ninguém.
E deu uma palmada nas costas do afinador.
— Está na hora. Vá tocar...

Caminhei para o meu lugar, ao longo dos automóveis imobilizados,
onde dormiam alguns operários. Outros estavam deitados no
próprio chão, sobre jornais velhos, amontoados.

— Olhe esse aí — disse Daubat.
Apontou-me um corpo enrolado, à maneira dos gatos, e deitado
sobre uma pilha de lã de vidro. Por ter roçado um braço por ela,
sabia que o seu contato provocava insuportável comichão.
— Acha que são homens? Em vez de pele têm cour o . . .
A sirena sacudiu todo o mundo. Os que dormiam es-preguiçaramse
lentamente.
Retomei a placa de metal, a papeleta e o lápis, e recomecei. Gilles
chegou e disse-me que ia controlar três carros comigo, para mostrar-
me como se devia fazer.
Escutei com atenção. Êle trabalhava depressa, descobria no primeiro
relance o defeito ou o esquecimento.
— Está vendo?
Repeti que sim. Começava a compreender, mas gostaria que êle me
explicasse o que acontecia antes de os automóveis chegarem até
mim.
— Srta. Letellier, tentarei fazer isso um dia, assim espero. Mas aqui
é difícil explicar. Se eu parar, os carros passam e toda a linha se
atrasa.
— Então, — interrogou Daubat, quando Gilles se afastou — o
"patrão" explicou tudo?
— Sim. Êle é formidável. Tem um golpe de vista que até assusta. Vê
um defeito no mesmo instante.
— É normal, hem ? Um chefe. . .
Seu rosto tinha uma expressão irônica.
— Depressa, aqui não se pode perder tempo.
Era evidente que eu o contrariara. Acabou por rir, quando o
afinador, de passagem, gritou-lhe qualquer coisa a propósito da sua
aluna. Isso dava-lhe importância.

— Que horas são? — perguntei.
— Três horas. Está cansada?
— Não, não, estou muito bem.
— Olhe aqui!
Daubat puxou-me para o automóvel e mostrou-me as viseiras
contra o sol. Por cima da charneira, o tecido, muito esticado, sofrera
um rasgão.
— Eles vão depressa demais. Para ganhar avanço, montam dez
veículos num abrir e fechar de olhos, não importa como, para
poderem sentar-se e ir fumar um cigarro nas privadas. Sobretudo
aquele.
Mostrou-me o dorso redondo de um homem agachado diante das
janelas.
— Êh, você aí! Venha ver o que você fêz! O dorso não se mexeu.
— Tome nota, tome nota — disse Daubat. — Tanto pior para êle.
Perde as bonificações. Antigamente, eram profissionais que faziam
isto: três carros por hora. Uma perfeição de trabalho. Agora fazem
sete. Dá nisto que se vê. Escreva, cor da "praia" traseira, não
conforme.
Gostaria de parar, pedir licença para respirar um pouco. As pernas
duras como paus, enferrujadas nas articulações, obrigavam-me a
descer dos carros cada vez mais devagar. E quando subia para um
veículo atrás de Daubat, tratava de me agachar por alguns
segundos.
Ele percebeu que eu não me sentia bem.
— Descanse um pouco. Depois, você me substituirá, enquanto vou
fumar um cigarro.
Na falta de algo melhor para sentar, deixei-me cair entre dois
tambores de gasolina. Aí não incomodaria ninguém. A fadiga
desligava-me dos outros e do que se passava à minha volta. Os
motores da linha de montagem roncavam em quatro tempos, como
a música. O mais agudo era o terceiro. Penetrava nas têmporas



como agulhas e subia até ao cérebro, onde explodia. E essas
explosões vinham depois em girándolas, testa abaixo, até ficar pairando
junto às sobrancelhas ou, atrás, agarradas à nuca.

— Senhorita? A linha é sua. Daubat entregou-me a
sua placa.
— Adiante. Não demoro muito. Preste atenção às viseiras.
Subir, saltar, agachar-me, olhar à direita, à esquerda, para trás, para
cima, ver de um relance tudo o que não está em ordem, examinar
atentamente os contornos, os ângulos, os cantos, os buracos, passar
a mão sobre os frisos das portas, escrever, colocar a papeleta, saltar,
descer, correr, subir, saltar, agachar-me no carro seguinte, recomeçar
sete vezes por hora.
Deixei passar muitos carros. Daubat disse que não tinha
importância, pois ele estaria comigo durante dois cu três dias.
— Depois, serei mandado para a fabricação.
Em seu pulso, vi os ponteiros do relógio. Ainda hora e meia. . .
Quando faltava só uma hora de trabalho, recobrei as forças e
controlei muito bem dois automóveis. Mas o ímpeto desfez-se no
terceiro. No último quarto de hora, não conseguia sequer articular
as palavras para assinalar a Daubat o que não me parecia em
ordem. Alguns operários começaram a lavar as mãos no tambor de
gasolina que havia ali perto.
— Aqueles — disse Daubat — param sempre antes da hora.
Invejei-os.
Controlamos até ao último instante e quando a sirena se fez ouvir,
Daubat arrumou metodicamente as nossas placas numa estante,
perto da janela.
Uma alegria intensa apoderou-se de mim. Acabara. Comecei a fazer
perguntas a Daubat, sem prestar atenção ao que ele me respondia.
Queria, sobretudo, sair da oficina com ele; tinha medo de passar
sozinha no meio de todos aqueles homens.



No vestiário, as mulheres já estavam prontas. Falavam alto e, na
minha alegria de sair, dediquei a todas elas rasgados sorrisos.
Às seis horas, ainda há um pouco de dia, mas os lampiões das ruas
já estão acesos. Caminho lentamente, respirando fundo o ar puro,
como para nele encontrar um vago odor de maresia. Quero chegar
ao meu quarto, estender-me, deslizar um travesseiro para debaixo
dos tornozelos e ficar quieta... Comprarei qualquer coisa, frutas, pão
e o jornal. Há umas trinta pessoas à minha frente esperando o
mesmo ônibus. Alguns não param, outros recebem dois passageiros
e arrancam de novo. Gostaria de poder encostar-me a uma das
colunas do abrigo contra a chuva, a espera seria menos fatigante,
mas ainda estou longe, a fila não anda.
Na plataforma do ônibus, apertada entre dois homens, só vejo
blusões, ombros, e deixo-me apoiar contra os dorsos macios. O
sacolejar do ônibus faz-me pensar na linha de montagem.
Avançamos no mesmo ritmo. Doem-me as pernas, as costas, a
cabeça. Meu corpo tornou-se imenso, a cabeça enorme, as pernas
desmesuradamente longas e o cérebro minúsculo. Mais dois
andares e tenho a cama à vista. Livro-me das roupas. É bom. Um
banho, sempre disse a Lucien, relaxa, tonifica, lava a alma. Contudo,
esta noite, sedo ao primeiro desejo: deitar-me. Lavar-me-ei daqui a
pouco. Deitada, as pernas fazem-me sofrer menos. Contemplo-as e
noto sob a pele pequenos tremores nervosos. Deixo cair o jornal e
vejo as minhas meias, os calcanhares enegrecidos que me lembram

o rolar constante da linha de montagem. Terei de lavá-los amanhã.
Esta noite estou sem forças. E com sono.
Desperto, a luz ficou acesa, estou sobre a cama; a meu lado, jazem
duas cascas de banana. Não dormirei mais. Na sonolência, sonho
que estou acocorada na linha de montagem; ouço o ruído dos
motores, sinto nas pernas o tremor da fadiga; debato-me, escorrego
e acordo em sobressalto.

O jornaleiro ainda instalava a sua banca quando comprei o jornal.
Prendia uma lanterna de querosene no toldo de lona que lhe servia
de teto. A FLN ocupava três colunas. Todos os dias prendiam
agentes do movimento. Eles ressurgiam. Exigiam-se medidas
excepcionais. No ônibus, em meu redor, havia muitos argelinos.
Seriam da FLN? Andariam matando de noite?
Gostava do longo percurso. Havia, por vezes, trechos de paisagem
agradável, nesgas do Bosque de Vincennes, janelas iluminadas
debruçadas sobre as árvores, e eu imaginava aromas de café e de
sabão perfumado por detrás de cada janela. Era durante a viagem
que eu acabava de despertar.
Fui das primeiras a chegar ao vestiário. As outras mulheres ainda
não me falavam. Contudo, uma moça que fora admitida depois de
mim já penetrara na intimidade delas.
Trouxera uma velha blusa, bastante comprida, que me tapava quase
toda e me preservava das nódoas e da poeira.
Era o quarto dia e eu começava a olhar adiante de mim e da minha
fadiga. Descobria que os braços e pernas que se agitavam em torno
de mim pertenciam a homens e que esses homens também tinham
rosto.
Cheguei ao corredor — adiantada, para evitar o "fiuuu" dos homens

— e vi um rapaz que pintava as letras em um cartaz de cartolina.
Quando terminou, colocou-o nos frisos de borracha que pendiam de
um gancho, os snapons, como lhe chamavam aqui.
Quando passei por ele, li:
NE TU SE PAS.

A sirena gritou. Faltavam muitos operários. O cheiro enjoativo dos
motores aquecendo misturava-se ao da gasolina. Era preciso
dominar a náusea e desenferrujar as pernas. O rapaz do letreiro
apanhou alguns snapons, jogou-os sobre o ombro e subiu para um
carro. Colocava-os em torno das duas portas dianteiras. Era magro,
pequeno, feições miúdas, com um par de olhos negros e redondos


de animal curioso cravados no rosto oleoso. Encarou-me com
severidade. Maquinalmente, disse-lhe bom dia. Parou de pregar.

— Hoje diz bom dia? E ontem por que não? Surpreendida, não
respondi. Nunca pensara em dizer
bom dia e adeus. Ele deu de ombros. Não era bonito. Desejei dar
uma justificação qualquer.
— Desculpe — disse eu.
Mas ele já terminara e corria para o automóvel seguinte. Entraram
outros operários, pregaram, colaram, aparafusaram, saíram.
Ninguém me saudou.
Daubat veio direto a mim.
— Então, sozinha hoje? Tudo correrá bem. Virei vê-la daqui a
pouco.
Era gentil comigo. Eu lhe agradava, era séria, não ria com os
homens, mantinha-me a certa distância.
Quando ele saltou do carro, o rapaz dos snapons cuspiu para o lado,
com ar de desprezo. Compreendi imediatamente que ele podia ter
interpretado o meu silêncio como um reflexo racista e aproximei-me
dele.
— Desculpe, sim? — disse eu. Ele voltou-se.
— O quê? O que é que a senhora disse? — perguntou com
impaciência.
— Pedi desculpa por não ter dito bom dia. Não me atrevi. . . —
repeti mais alto.
— Não conhece as normas de cortesia? — perguntou, inclinando-se
para mim. — Então por que diz sempre bom dia aos chefes?
— Desculpe — disse pela quarta vez. O rapaz deixou
de pregar.
— Perdão, senhora, — disse ele, cerimoniosamente — quer fazer o
obséquio de me deixar passar ?
Senti a sua hostilidade e fiquei descontente. Ele dirigiu-se para os
snapons pendurados, onde continuava suspenso o letreiro, e

interpelou um homem que se aproximava. Queria acompanhar a
cena, mas o carro impedia que o fizesse; tive de saltar e pegar o
seguinte.
Encontrei-o um pouco mais tarde e dirigi-lhe um sorriso.


— Por que é que você não vai amolar outro, hem? — perguntou
colérico.
Dei meia volta e prometi evitá-lo daí em diante.
Observamo-nos mutuamente durante toda a manhã e, sob o seu
olhar, eu evitava deixar transparecer o meu cansaço e afobação
quando não via o defeito.
Ele suspendeu o trabalho vinte minutos depois do meio-dia,
arrumou suas ferramentas, limpou as mãos na gasolina e ficou
esperando a sirena.
À meia hora, correu para a porta e perdi-o de vista.
Eu não almoçava na cantina.
— Não vai gostar — dissera-me Lucien — e, depois, só há homens.
Na minha mesa não há mais lugares.
Levava sempre um lanche, que comia no vestiário, e depois
caminhava, por alguns momentos, nas proximidades da fábrica. A
minha solidão era grande e sentia-a intensamente. Quando faltava
um quarto para as duas. regressava e ia para o meu lugar, cuidando
de não incomodar os que cochilavam.
Perto dos tambores de gasolina, havia uma pedra saliente, que
descobri deliciada. Era aí que descansava e me fazia esquecer.
Fui descoberta no meu recanto pelo meu inimigo da manhã.
Aproximou-se.


— Você é a irmã de Lucien?
— Sou.
— Julgava que fosse a mulher dele. Por que — indagou, o olhar
inquisitivo — usa essa blusa tão comprida? As outras mulheres não
são assim.

Estupefata, levantei os olhos para êle. Já se retirara. Todos voltavam
agora a seus postos. A linha de montagem ia entrar em marcha. Em
cada recomeço de trabalho, perguntava a mim próprio: "Irei
agüentar?". Nenhum intervalo era previsto para repouso, nenhuma
pausa para a necessidade mais natural. Os homens conseguiam
respirar um pouco, usando vários truques, mas eu ainda não chegara
a esse ponto. Havia sempre um carro diante de mim, depois
outro, e outro.
O rapaz dos snapons abordou-me outra vez. Sentara-se no rebordo
da porta e, quando o carro chegou diante de mim, deixou-se
escorregar para o chão, dizendo:

— Por que é que não pára um pouco?
Sempre no mesmo tom agastado e sem esperar que eu lhe
respondesse.
De tempos a tempos, Daubat dava um salto até onde eu estava.
Tornara-me a sua protegida, a sua aluna.
— Gostaria — disse eu — de ver como se fabrica um automóvel. Por
que não levam os novos recrutas a visitar cada uma das oficinas,
para compreender, para ter uma idéia geral?
— Atenção, deixou passar uma prega, ali. Por quê ?
— Sim, por quê? Não se entende nada do trabalho que estamos
fazendo. Se víssemos as fases por que passa cada carro, de onde ele
vem, para onde vai, podíamos interessar-nos, tomar consciência do
sentido dos nossos esforços.
Ele recuou, tirou os óculos, limpou-os e voltou a colocá-los.
— E a produção? Já avaliou bem o que aconteceria, se organizassem
visitas à fábrica de todos os novos recrutas? Confesse — disse ele,
rindo — que isso ainda são idéias do seu irmão! Atenção, o
automóvel.
Daubat saltou para o corredor.
Atenção, atenção. Todos diziam essa palavra de manhã à noite.
— Onde é que você trabalhava antes?

Era o montador de snapons. Inclinava a cabeça para o ombro em que
tinha os frisos enfiados.

— Vivia na província. Voltou-se para pregar.
— Por que é que pôs esse letreiro nos seus frisos?
— O quê? Repeti a pergunta.
— Para que ninguém lhes mexa. Preparo-os antecipadamente. Com
as pontas dos pregos já colocadas nos seus lugares. Depois é só
bater. Veja.
Mostrou-me como fazia. Então traduzi o sentido daquela tabuleta:
NE TOUCHEZ PAS (Não Mexer).
Um impulso de simpatia me aproximava dele.
— Como se chama?
— Por quê? — perguntou, surpreendido. E saltou.
Encontrei-o no carro seguinte. Pregava com força e desceu quando
cheguei. Esperou-me no terceiro e disse:


— Me chamo Mustafá. E você?
— Elise.
— Elise? Isso é francês?
Às cinco horas, quando acendiam as grandes lâmpadas, todas as
minhas forças se esvaíam. Um entorpecimento perigoso destruía
todo o esforço de pensar. Uma idéia dominante, fixa, obsessiva, me
possuía: sentar-me, estender-me. Há quatro dias que, ao chegar a
meu quarto, após nove horas de linha de montagem, uma hora de
ônibus, dez horas em pé, jogava-me sobre a cama assim que abria a
porta e fazer o esforço de me lavar era doloroso. Começara por
negligenciar os sapatos. Já não os escovava. Nos primeiros dias,
sentia desgosto com esse desleixo. Mas, insensivelmente, deslizei
para o hábito. Folheava os jornais sem os ler. Uma noite, porém,
passei hora e meia encurtando minha blusa de trabalho e fazendo
um cinto com a sobra do pano cortado. Esperava que o meu corpo
se habituasse à fadiga e que a fadiga se acumulasse em meu corpo.

Nessa tarde, Lucien viera ver-me, antes de sair: "Passe por nosso
quarto esta noite. Venha jantar com a gente".
Foi Ana quem abriu. Estava bonita. Devia ter passado a tarde toda
preparando a maquilagem. Deitado na cama, Lucien soergueu-se:


— Eis a camarada Elise, operária de choque na fábrica . . .
— Cale-se, Lucien, ou vou embora.
— Não se zangue.
Espreguiçou-se, desceu da cama e aproximou-se de mim.
— Falando sério, como vai a coisa?
Discutimos o trabalho e pela primeira vez interessou-se pelo que eu
dizia. Ana sentara-se na cama e escutava-nos. Falei a Lucien sobre
Mustafá. Conhecia-o, trabalhara com êle na linha de montagem.
Mustafá tinha dezenove anos. Era o caçula da linha e o mais terrível
deles todos, também.
— Estão batendo — disse Ana. Lucien foi abrir. Entrou Henri.
— Com você não falo — disse êle a Lucien, à guisa de boa noite. —
Dois meses sem dar sinal de vida, nem uma palavra. Elise! Você
aqui? Não sabia que também viera! Como tem passado? Olá, Ana.
Então não pode escrever, aparecer, nada?
— Não, meu velho — disse Lucien calmamente. — Trabalho, já não
me sobra tempo para nada...
— Enfim. . .
Despiu o impermeável e colocou-o sobre a cama. Estávamos todos
um pouco embaraçados, menos Henri. Começou a falar com meu
irmão sobre livros, conferências, teatro.
— E você — perguntou-me Henri — que tem feito? Lucien
descreveu minuciosamente, com um acento de
orgulho na voz lenta, suas atividades noturnas, o número de
cartazes que colocara, os slogans com que pichara paredes e muros.
Henri mantinha-se silencioso.
— Aí está — disse êle, após alguns segundos. — Está satisfeito, pelo
que entendo. Todo o seu ardor, suas idéias generosas, suas

possibilidades, nada encontrou de melhor do que empregá-los em
colar cartazes. Há momentos, apenas eu o ouvi sem comentários.
Para você, creio que se trata de um esporte, um jogo de esconde-
esconde com tiras. Acha eficaz isso de pichar muros?

— Certamente menos do que escrever livros ou montar peças
proibidas, ou organizar conferências. Mas que quer? Essas coisas
não estão ao meu alcance. Resta-me apenas pichar paredes. Mais
tarde, quando a guerra acabar, recordar-se-ão de vocês, ao passo
que os pregadores de cartazes. . .
— Então, vá dormir de noite como toda gente, em vez de andar
percorrendo as ruas, de lata de cola na mão! Já se viu num espelho?
Só tem pele e osso!
Lucien empalideceu. Henri atingira-o em cheio.
— Eu já lhe disse — concluiu Henri. — Você virou trabalhista, não
podemos discutir. — Voltou-se para mim: — E Paris, Elise, que me
diz?
Trocamos algumas banalidades. Onde estavam os nossos serões, o
cheirinho bom da sopa e do molho de alho, os gritos da rua e do
pátio? O que mudara? Ana substituía Marie-Louise, eu continuava
ao lado deles. Mas já não era o tempo dos desejos. Estávamos na
vida, "no barulho", como dizia Lucien. Tínhamos mudado da platéia
para a cena. Meu irmão ainda conseguiu mostrar boa cara. Henri e
ele saíram juntos, como outrora, mas eu adivinhava que
reiniciariam na rua a controvérsia.
— O que pensa você de Henri? — perguntei a Ana.
— Muitas coisas contraditórias.
Os cabelos ocultavam-lhe metade do rosto. Invejava-a por saber o
que se faz para ser bonita.
— Ah — suspirei. — Vou-me deitar. Já são dez horas. Não sobra
muito para dormir. Como é que Lucien pode agüentar?
Ana sorriu. Isso irritava-me, aquela obstinação em evitar conversas.
"Sonsa, dissimulada, mentirosa, falsa, falsa". Imaginava-a na linha
de montagem, com seus longos cabelos. Agradaria a Mustafá? Eu

também tinha os cabelos compridos. Gostaria que Mustafá o
soubesse, esse macaquinho magricela, atrevido, que me perguntara:
"Por que usa essa blusa tão comprida?"

Procurava enxergar o horizonte, entre as cabeças e as golas
levantadas, pelas janelas do ônibus, acompanhar a descida do
nevoeiro. Leituras escolares me acudiam à memória, a respeito do
nevoeiro. A melancolia. Associava-a a uma cabeça pendente,
apoiada na mão.
Dispunha de cinqüenta minutos de irrealidade. Encerrava-me por
cinqüenta minutos com frases, palavras, imagens. Um farrapo de
névoa, uma nesga do céu, exumavam-nas da memória. Durante
cinqüenta minutos, refugiava-me no meu mundo secreto. A vida
ideal, meu irmão, eu a conservo em mim! Cinqüenta minutos de
doçura que nada mais é senão um sonho. Despertar mortal, Porte de
Choisy. Um cheiro de fábrica, mesmo antes de entrar. Três minutos
de vestiário e horas de linha de montagem. Produção em cadeia.
Cadeia, a palavra certa. Presos em nossos lugares. Sem
compreender. Sem ver. Dependendo uns dos outros. Mas a
fraternidade será apenas por instantes. Algo que poderá ser adiado,
ficar para depois. Sonho com o outono, a caça, a agitação dos cães.
Lucien chama a esse estado — "romanesco". Só que êle tem Ana;
entre a graxa e os lublificantes, o cheiro da pintura e o suor fétido,
insinua-se a esperança feita amor, feita carne. Antes, ainda há
alguns meses, havia Deus. Aqui, procuro-o. E se o busco é porque o
perdi. A aproximação dos seres distanciou-me Dele. Um grande
incêndio invisível. Tantos, tantos seres novos entram no meu campo
e tão depressa. O incêndio eclodiu em mil línguas de fogo e pus-me,
com empenho, a amar os seres.
Mustafá assobiava. Receei que êle não notasse a minha blusa
encurtada e, sobretudo, os meus cabelos. Prendera-os simplesmente
sobre a nuca, com uma fita de quadrinhos igual ao cinto que fizera
com a fazenda da blusa. Mustafá era sonhador ou distraído.


Trabalhava muito depressa, demasiado depressa, e eu notara três

frisos mal colocados.
Estava examinando uma prega no friso traseiro, quando alguém
entrou no carro. Mustafá soltou um grito de alegria e largou o
martelo. Um homem, de quem só vi as costas, agachou-se ao lado
dele. Beijaram-se, à maneira árabe. Mustafá ria e batia as mãos. O
veículo levava-os, enquanto os dois, indiferentes a tudo,
continuavam batendo papo.
Que fazer? Teria de recordar-lhe o trabalho que o esperava? Deveria
anotar "falta snapon, falta. . . ?"
Dirigi-me a um dos operários que, mais acima, colocava os painéis
de instrumentos. Cutuquei-o no braço. Êle voltou-se e sorriu.

— Previna o seu camarada — disse eu. — Deixou passar quatro
carros. Não gostaria que êle tivesse aborrecimentos.
Êle encolheu os ombros.
— Não faça caso. Êle é um preguiçoso.
O que trabalhava ao lado dele inclinara-se para ouvir.
— Quem? — perguntou ao outro, que lhe respondeu em árabe,
indicando Mustafá.
Largou as ferramentas e correu para o automóvel.
Voltei ao meu lugar. Pouco a pouco, os músculos habituavam-se.
Mas, de noite, ainda sonhava com linhas de montagem gigantescas,
que eu escalava incessantemente.
Mustafá veio interpelar-me.
— Qual é a novidade, senhorita?
— Quis preveni-lo — respondi. — Deixou passar quatro
automóveis.
— Isso não é de sua conta.
Estava descontente e fêz o gesto de escrever.
— Tome nota. É tudo.
O outro homem viera juntar-se-lhe. Desviei-me, mas sentia que
estavam falando de mim e não me atrevia a fazer qualquer gesto.

Afastaram-se da porta. Desci e deixei-me ficar quieta por instantes.
Uma sede súbita me invadiu. As sucessivas emoções, a timidez, as
troças de Mustafá, concretizaram-se nesse desejo brutal. A garganta
queimava-me. Faltavam ainda três horas para o intervalo do
almoço. Tentei apoiar-me na parede. Mustafá passava nesse
instante. Os frisos em redor do pescoço, faziam-no parecer um
encantador de serpentes. O outro homem ainda lhe fazia
companhia. De perfil, tinha um rosto seco e, quando falava, as faces
encovavam por debaixo dos pomos. Sob as sobrancelhas espessas
havia um fogo negro e profundo que era o seu olhar. Sorria e uma
das mãos apoiava-se ao ombro de Mustafá.
Precisava sair. Não me sentia bem. O cheiro da gasolina erguia à
minha volta como que rodelas de fumaça que me enchiam a boca.
Deixara passar diversos carros. Como podia eu sair dali? Pensei em
Daubat. Ele devia estar algures, lá mais para cima. Caminhando
pelo corredor paralelo à linha de montagem, percebi que, ajudado
por dois rapazes, estava colocando o plástico. Viu-me e ficou
espantado.

— Estou doente — disse eu. — Pode substituir-me por um instante?
Encarou-me de olhos arregalados.
— Vai deixar os carros?
— Estou doente... não posso...
— Oh, lá-lá-lá! Isto vai dar uma bronca daquelas. . .
— Eu. . . eu lamento muito. . .
Parecia-me que era o alvo de todos os olhares. Tive medo. Estar
doente não era assim tão simples. Não estava previsto. Quis voltar
para o meu lugar. Ser uma rodinha da engrenagem que jamais
enguiça incute um sentimento de segurança; mas ficar atravessada,
virar estômago sensível. . .
—Pobre pequena, — disse Daubat, apertando-me carinhosamente o
braço — saia, saia daqui. Parece um cadáver. Ah, mulheres na linha
de montagem! De passagem, avise o chefe de turma. Êle mandará

alguém. Eu não posso, bem vê. Isto vai muito depressa. Said! —
gritou êle. — Leve-a ao Bernier.
Bernier estava sentado num banco alto, diante de uma escrivaninha
que quase lhe chegava ao queixo. Metido numa blusa muito
comprida, de que enrolara as mangas, parecia frágil. Seu rosto, de
nariz arrebitado, olhos pequeninos e fundos, era naturalmente
risonho. Parecia sempre contente. Por vezes, soltava um grito
esganiçado para chamar à ordem os homens que há muito lhe
tinham perdido o respeito. Eram gritos que mais pareciam latidos,
mas não intimidavam ninguém. Pelo contrário, era êle quem tremia
de alto a baixo quando Gilles o interpelava.

— Bem — disse êle, quando me expliquei. — Bem, bem.
Dava tratos à cabeça para descobrir o que convinha fazer.
— Bem, vou dar-lhe uma guia de saída para ir à enfermaria. Aqui
tem. Um quarto de hora, chegará? São oito e cinqüenta. . . vamos
pôr. . . bem, nove e um quarto. — E acrescentou tristemente: — Eu
ficarei no seu lugar.
Pousou a caneta. Estava compondo letreiros em caracteres góticos,
desenhados com esmero: FREIOS — LÃ DE VIDRO —
PUXADORES N.° 2.
— Onde é a enfermaria, por favor?
— Do outro lado da rua. Mas. . .
Desceu do tamborete e escolheu meticulosamente um lápis.
— Mas não precisa sair, passe pelo subterrâneo. Não conhecia a
passagem subterrânea.
— Dará com ela quando descer — disse ele, impaciente.
O amigo de Mustafá aproximou-se nesse instante da escrivaninha.
— Viva, Rezki! — exclamou Bernier. — Então, voltou, hem?
— Sim, vou levar agora os meus papéis ao controle médico.
— Bom, se vai para lá, acompanhe esta pequena à enfermaria —
disse Bernier. — Ela ainda não conhece o caminho.

Apanhei a guia e segui o homem chamado Rezki. Quando
chegamos perto da porta, um clamor nos acolheu.
"Hu-hu", gritavam os homens. O que me acompanhava parou e
dirigiu-se aos que estavam mais próximos. Eram uns dez, negros
africanos e argelinos, que nos vaiavam ruidosamente. Avancei
alguns passos e encontrei-me ao lado do meu cicerone. Este gritoulhes
qualquer coisa na sua língua e impeliu-me para a porta.
Quando ficamos separados do tumulto da oficina, disse-me
suavemente: "Desculpe-os". Depois acrescentou, como Lucien:

— A fábrica. . . também produz selvagens.
Não me dirigiu mais a palavra e parecia ter esquecido a minha
presença. Segui-o pelo subterrâneo que ligava os dois corpos da
fábrica.
— Há quanto tempo está aqui? — perguntou ele, quando saímos no
outro edifício.
— Há nove dias.
Indicou-me a escada que conduzia à enfermaria e continuou seu
caminho para os escritórios.
Era uma sala pequena, iluminada e bem aquecida. Diante de um
fogão a gás estava sentada uma velhota de avental branco.
— O que é?
— Sinto-me mal. . . Tenho vômitos. . .
— Está grávida? Respondi não, indignada.
— Sente-se.
Tomou delicadamente o meu pulso e, quando acabou, dirigiu-se ao
fogão. Ergueu a chaleira, escolheu um copo na prateleira e colocou-
o na mesa, diante de mim. Notei que ela calçava chinelas forradas
de pele.
— Aqui tem, pequena. Beba isso devagarinho. . .
Era uma tisana. Saboreei aquele instante. Ocupavam-se de mim,
alguém me preparara uma tisana. A enfermaria asseada, morna,
banhada de sol, onde havia objetos humanos, a chaleira, soltando

espirais de vapor, uma pia de cozinha, forrada de azulejo branco,
copos — tudo isso me fez sentir horror pelo mundo
desproporcionado da oficina, a linha de montagem, as colunas
metálicas, o cheiro de gasolina quente. "Não ficarei. Mais cinco dias,
recebo o pagamento e vou-me embora".
A velhota olhou a hora.


— Eu assino a guia, minha filha. Quando se sentir melhor voltará.
Bebi devagar, soprando a beberagem, em pequenos sorvos. Meus
dedos reaqueciam-se, ao contato com o vidro. Soou o telefone. A
enfermeira dirigiu-se ao aparelho, preso à parede. Enquanto falava,
a mão desprendeu dos cabelos um alfinete de cabeça preta, com que
coçou o interior da orelha. A vovó fazia muitas vezes aquele mesmo
gesto.
A sensação de bem-estar, a luz, os azulejos, tudo desapareceu.
Minhas cartas mentirosas e as suas, escritas Por qualquer pessoa a
quem ela as ditava, suas acusações, suas maldições e a súplica final:
"Venha buscar-me!". Eu respondia: "Paciência, vovó. Aqui estou
ganhando dinheiro. Logo que voltar, mando pintar tudo de novo e
comprarei o rádio".

Alguém bateu à porta. A enfermeira repôs o auscultador no gancho
e gritou: "Entre!".

— Você outra vez! — disse ela ao homem que entrou. Era baixote, a
pele muito curtida e cabelos ondulados.
— Qual é a história de hoje?
— A garganta — disse o homem.
— É, a garganta. Sente-se. E cuidado com os meus frascos. Não
volte a tropeçar neles.
— Não. . .
Levantei-me, agradeci e saí. Os bagunceiros estavam ocupados. Só
notaram que eu voltara quando já estava longe. Seus gritos
chegaram até mim abafados; a linha de montagem superava todos
os demais ruídos.

— Então, a coisa vai ou não vai ? — perguntou Mustafá quando me
viu.
— Vai indo.
— O quê? — disse êle, esticando o pescoço.
— Estou melhor! — gritei.
O afinador, que passava nesse instante, encarou-me com
severidade. Saltei para a linha. Bernier viu-me e veio reclamar a
minha guia.
— Melhor?
Sacudi a cabeça afirmativamente. Era verdade. Sentia-me melhor. O
meu lugar, o meu pequeno retalho de universo em que eu já tinha
certos pontos de referência, aquilo a que se chama hábito, dava-me
a sensação reconfortante do covil, da pousada, do refúgio.
Por volta das dez horas, houve uma mudança. Chegou o amigo de
Mustafá e Bernier chamou o operário que apa-rafusava os
retrovisores. Era um estrangeiro. Mustafá chamava-lhe "Magire".
Daubat dissera-me: "um húngaro" e Gilles fora mais preciso: "um
magiar". Não falava francês e trabalhava sem dizer palavra,
saltando de um carro para outro com uma espécie de raiva. Ao
imaginar a solidão daquela criatura sem contatos, nem mesmo a
comunicação, rude, mas cruel, de uma grosseria, de um palavrão
lançado entre homens, julguei-me privilegiada.
Bernier olhou de relance para o carro no qual eu estava.
— Rezki! — gritou.
Pegou-me no braço e disse, próximo o meu ouvido:
— Agora é êle quem vai colocar os retrovisores.
— Rezki — disse rindo. — Cautela, hem? Ela vê tudo. Parecia um
porquinho contente.
— Ela vê tudo em quantos minutos? — perguntou o outro,
friamente.
Bernier largou-me o braço e desceu. O argelino apa-rafusava
rapidamente. Terminou o trabalho e saltou do automóvel sem me
olhar. Observei-o durante toda a manhã. Trabalhava rápido e bem.

Nunca nos encontramos juntos. Tomara um razoável avanço e eu
procurava-o com os olhos, sem o descobrir. Mustafá demorava-se,
esquecia um carro, corria para o alto da linha de montagem
praguejando. Por vezes fazia-me sinal e alcançava de novo o carro,
onde pregava os frisos numa questão de segundos.
Confiei na sua precipitação e nada anotei. Num automóvel onde nos
reencontramos, perguntei-lhe as horas. Pousou o martelo e
mostrou-me os dez dedos afastados, depois mais dois dedos. Meio-
dia; meia hora ainda. Mustafá largara a caixa de ferramentas sob o
painel de instrumentos e fumava, deliciado. Era proibido. Êle
fechara os olhos, beatíficamente. Aproximei-me déle.

— O seu amigo trabalha depressa.
— Arezki? — perguntou, numa voz sonolenta.
— Chama-se Arezki? Eu entendera Rezki.
— É a mesma coisa.
Tirou uma fumaça e fez menção de levantar-se.
— Vamos — disse ele. — Você vai acabar perdendo a bonificação.
Corri para o veículo seguinte. Descia, quando Arezki chegou,
procurando o tambor de gasolina para lavar as mãos. Apanhou uma
bola de lã de vidro, fêz um chumaço, embebeu-o na gasolina e
depois passou-a ao seu vizinho.


— Bom apetite! — gritou-me Mustafá, de passagem. O meu
apetite é bom. Como no vestiário, onde uma
única torneira verte um fio de água, como um conta-gotas. Por
vezes, impaciente, como sem lavar as mãos. Deixo-me cair no
banco. Depois de comer, deito-me um pouco, o casaco enrolado
como travesseiro, sob a cabeça. Um prazer carnal, o do repouso.
Após o almoço, Gilles veio ver-me. Era uma alegria olhar seu belo
rosto. Resoluto, duro e claro, seu olhar reto traspassava-nos. Fêz-me
um sinal discreto e afastamo-nos furtivamente.
— Srta. Letellier, que se passou? Encontramos onze carros em que
faltavam os snapons e não estava assinalado nas papeletas. Bem, vá

— acrescentou, impelindo-me para a carro que chegava. — Controle
depressa e venha falar-me.
Subi e olhei maquinalmente. Gilles observava-me. Os defeitos
sumiram à minha chegada e, quando dei meia volta, apareceram de
novo. Em letras gordas e vacilantes escrevi qualquer coisa. Depois
saltei e aproximei-me dele.
— Esta manhã, tive guia para a enfermaria.
— Sim, eu sei, mas Bernier veio substituí-la. Estou falando do fim
da manhã, depois de você ter voltado.
Fiquei silenciosa. Não havia cólera em seu olhar. Aproximava-se o
veículo seguinte.
— Vá.
Corri, subi, controlei e, quando voltei a descer, Gilles continuou:
— Escute, Srta. Letellier. Você está aqui para controlar o trabalho
deles.
Sublinhou o deles.
— Estão aqui para o executar. Gostaria de falar com você como fiz
com seu irmão. Infelizmente, é quase impossível. Vá!
Fui, inspecionei, voltei.
— Aqui não há conversa possível. À noite estou ocupado, tenho
outros compromissos. Vá!
Enquanto controlava, pensei na pausa do almoço. Quando desci,
fiz-lhe a sugestão. Abanou a cabeça e disse não, Lucien me
explicaria por quê.
— Não tem importância — acrescentou. — Coragem. Coragem é do
que precisa. Mas faça o seu trabalho bem feito. Sei que é duro e sou
contra as atuais condições. Existem meios para mudar certas coisas.
Compreende?
Afastou-se rapidamente e chamou Mustafá. Entrei no carro donde
êle saltara, para acorrer à chamada do contramestre. Arezki estava
lá dentro. Olhou-me com a mais completa indiferença.

Era amargo, frio, desencorajador, esses contatos sem continuidade,
essas frases lançadas ao acaso, essas simpatias natimortas. Cravados
na linha de montagem, como os pregos, os rebites. Ferramentas, nós
próprios não passávamos de ferramentas.
Ia descer. Mustafá voltava e fêz-me parar. Tinha uma expressão
contrariada.


— Não devia deixar em branco a papeleta quando não faço um
trabalho. É idiota. Depois, o contramestre passa-lhe um sabão e
talvez a ponha no olho da rua. Quanto a mim, isso não tem
importância nenhuma.
Seus dedos fizeram o gesto de escrever:
— Então? Marque! Arezki voltara-se.
— Que foi?
Mustafá explicava-lhe em árabe, fazendo grandes gestos. Deixei-os
juntos.
Apesar do cansaço, apliquei-me ao trabalho. Mas o comentário de
Gilles remordia-me no íntimo. Como Mustafá, êle também
acreditava num gesto caritativo e, tanto um quanto o outro, estavam
descontentes. Mas que fazer? Ser dura, como Daubat?
"Tenho de ver Lucien, preciso ter uma conversa com êle. Contar-lheei
tudo. O cansaço, o ruído que nos isola uns dos outros, a crosta
entre os dedos, que já não me dou sequer ao trabalho de raspar, o
pudor que se desfaz em farrapos."


— Atenção! — gritou alguém perto de mim. Voltei-me rapidamente.
Era Daubat.
— Quis assustá-la — disse êle, gargalhando. — Então, está melhor?
Inspirava-me uma espécie de respeito e êle pressentia-o.
Envaidecido, sentia ter certas obrigações para comigo, arranjava
uma escapada para vir encorajar-me, fazer perguntas. Segundos
preciosos que poderia ter guardado para seu repouso, para fumar
um cigarro. O seu acento parisiense encantava-me.



— Deixo-a — disse êle. — Não nos devemos atrasar, isso é o que
importa. E não tenha medo. Marque tudo!
Seu olhar procurava Mustafá.


— Setenta e dois. Ainda faltam três.
Mustafá já desaparecera. Preparava-se para sair com cinco minutos
de antecipação. Deixei passar o último carro sem o controlar. A
linha de montagem ia parar a qualquer instante, não levaria o carro
muito longe. Tinha de ver Lucien e precipitei-me ao primeiro uivo
da sirena.
Êle descia lentamente; colhi-o pelo braço.


— Quero falar com você, Lucien. Pode receber-me esta noite em seu
quarto?
— Esta noite? Tenho uma reunião. Não vai ser possível. Mas, se
quiser, pode vir conosco. Nunca somos demais. É pela paz na
Argélia. Rue de la Grange-aux-Belles. Conhece?
— Como quer que eu a conheça?
Propôs-se acompanhar-me. Ana esperava-o na Porte de la Chapelle.
— Vai acabar muito tarde? Amanhã é preciso levantar . . .
— Bem! Assim nunca se fará coisa alguma!
— De acordo, espere um pouco.
— Sim, mas despacha-se. Encontramo-nos na parada do ônibus.
Andei depressa. Os cabelos, as mãos, iria mesmo assim. Uma
reunião, um comício. Era a multidão. Quando Lucien dizia o
meeting, a palavra excitava-me.
A fadiga enrolara-se numa bola em qualquer parte do corpo.
Sorrateira, aguardava a sua hora. Pernas flexíveis, desemperradas,
corri alegremente para o ônibus.
Meu irmão esperava.
— Não conhece nenhum camarada que pudesse ter trazido com
você? — perguntou ele.
A pergunta pareceu-me estúpida.



— É preciso fazer número, entende? Mas o pessoal desanima, não
tem tempo.
— Estão cansados — disse eu.
Lucien encolheu os ombros. No ônibus, eu esgueirava-me atrás
dele, mas um solavanco separou-nos e encontrei-me lá na frente,
perto do motorista.
O espetáculo era feérico. Rodávamos lentamente pelo boulevard
Masséna e, ao descer a pequena encosta, antes de se atingir a Ponte
Nacional, tínhamos à nossa frente dezenas de automóveis
semelhantes a cometas que deixassem, na sua esteira, caudas
fulgurantes. Toda uma rede de fios entrelaçados, vermelhos e
amarelos, iluminava a Ponte, e as fachadas dos edifícios de
apartamentos que limitavam à direita o cenário estavam
irregularmente perfuradas de luzes retangulares.
Mas, depois da Porte Doreé, reentramos no descampado raso e a
magia cessou. Lucien estava agora a meu lado. Sua mão segurava a
barra metálica de um assento e eu via, aqui e ali, sua pele gretada e
vestígios de mercúrio-cromo. As falanges inchadas e enrugadas
davam-lhe o aspecto de mão de velho.
Da mão subi até ao rosto. De soslaio, observava-lhe o olhar. Seus
olhos tinham o mesmo fulgor antigo e perguntei a mim mesma se
êle pensaria algumas vezes em Marie, na sua mulher. E, se pensava,
como suportaria êle tais recordações?
— É aqui.
Descemos. Ana estava sob o alpendre da parada. Notou meus
cabelos atados pelo laço de quadrinhos. Lucien falou de
apanharmos o metrô. Eu caminhava um passo atrás deles. Sob os
néons multicolores. Ana parecia bela, mas seu arranjo era
desleixado. O dinheiro devia estar faltando. Os mocassins
deformados faziam-lhe os pés feios. Tinham ambos aquele aspecto
flutuante de certas espécies de nature boys, cidadãos do mundo, não-
violentos, que provocam sorrisos nas pessoas. Davam vontade de os

protegermos. Mas eu sabia muito bem até que ponto podiam ser
implacáveis.
Lucien assobiava, ao descer as escadas do metrô.


— Tem bilhete?
Eu não tinha. Ana estendeu-me o seu, com um sorriso. Seus olhos
eram amarelos e doces.
Na estação de Stalingrad, houve baldeação. Num banco, uma velha
mendiga parecia feita de quatro sacos recheados, um deles com
guarnição de jornais. Observamo-la. Sua cabeça enrolada em vários
xales, acabou por apoiar-se de encontro a um automático de
bombons. Mas desviou-se bruscamente e recuou. Seria o contato
frio do metal, ou sua imagem maltrapilha, subitamente refletida?
Seria possível que ela ainda olhasse para si própria e se visse como
nós a víamos? Lucien pôs-se a rir.
— Está vendo? — disse ele para Ana. — Aquela é você daqui a
trinta anos.
Ana não riu. Observou atentamente a mulher e aprovou.
— Sim, um dia serei como essa aí.
Lucien quisera gracejar. Mas o tom grave da resposta de Ana
extinguiu os nossos sorrisos. Ela examinava a pobre velha
detalhadamente, como se estivesse vendo num espelho o seu
próprio futuro.
O trem penetrou fragorosamente na estação e entramos em silêncio.
Esqueci-me de ler o nome das estações seguintes. Imaginava Ana,
agora junto de Lucien, depois um outro, depois outros, de repente
velha, as mãos tão vazias quanto agora. A sua natureza um pouco
fetal e a sociedade a repeliriam lentamente para o limbo de onde
viera. Nenhum de nós falou até sairmos do metrô.
— É em intenção de um jovem morto na Argélia — explicou Lucien.
— Se fôssemos quinhentos, ao menos. . .

Éramos trinta. Esperando que chegasse mais gente, alguns homens
discutiam em torno de um estrado que servia de tribuna.
Ana sentara-se na ponta de um banco e eu juntei-me a ela.

— Não vai chegar mais ninguém — comentou ela.
— Já tem assistido a estas reuniões?
— Sim, claro. E você, não?
— É a primeira vez que o meu irmão me traz. Você não acha —
disse eu, aproveitando o nosso tête-à-tête — que Lucien está com
péssimo aspecto?
— Verdadeiramente, ainda não notara... Levantou-se. A minha
pergunta não lhe agradara, em
absoluto. Vira nela uma censura indireta que não estava em minha
intenção. Não conseguia fazer-me compreender pelos outros.
Também para Ana eu era uma espécie de irmã de caridade. 0 seu
surpreendente desdém pela saúde, pelo repouso, pelo alimento, era
algo que eu bem gostaria de ter.
Um dos homens presentes, que tinha na mão várias laudas, de
papel, subiu ao estrado, diante de nós. Não havia microfone nem
mesa e as lâmpadas eram fracas, iluminando mal o recinto.
— Camaradas — começou ele.
Todos se aglomeraram diante do estrado. Olhei para trás.
Formávamos três ou quatro filas esparsas.
— Camaradas, sábado passado, a família de Jean Poinsot foi
notificada de que êle morreu na Argélia. Jean era um jovem
operário na Lavalette e morava em nosso bairro. Em uma de suas
últimas cartas, exprimia a esperança de regressar à França em breve.
Nesta dolorosa ocasião, as seções sindicais da CGT, as uniões locais
do bairro, comungam na dor dessa família, inclinando-se diante
dessa vida ceifada pela guerra em plena mocidade.
Aplaudimos.
O orador tossiu e recomeçou, numa voz mais clara:

— A guerra da Argélia deve cessar o mais depressa possível! E isto
quer dizer: imediatamente!
Todos gritaram e aplaudiram com entusiasmo.
— Trabalhadores do 10.° distrito, de vossa união depende em
grande parte o estabelecimento da paz, a reconciliação entre os
nossos dois povos.
Que faria Mustafá de noite? Que pensaria êle, se me visse ali?
Houve ainda mais dois discursos. O último orador, tendo avaliado
numericamente o auditório, falou sem elevar a voz. Disse que o
reduzido número de participantes não devia desencorajar-nos; que
a morte desse jovem operário impressionaria todos os trabalhadores
e não seria inútil, se eles se unissem para exigir a paz.
Quando saímos, encontramos uma dezena de policiais plantados
até ao fim da rua. Julgando que fôssemos mais numerosos os, tiras
deram uma espiada no recinto, para ver se ainda ficara alguém.
Lucien apertou a mão de alguns camaradas e ficamos quatro
envoltos pela noite do Cais de Jemmapes. O rapaz que nos
acompanhava propôs irmos beber um trago. Conduziu-nos a um
bar tranqüilo. Conhecia bem o bairro.
— Sanduíches?
— Sim.
— Sim.
Enfim, íamos comer. Até então, parece que ninguém se preocupara
com isso. Lucien e seu companheiro discutiam animadamente.
Pedimos cerveja com pão.
A cerveja soltou-me a língua.
— Aqui a mana! — suspirou Lucien, dirigindo-se ao seu vizinho —
levou vinte e oito anos para acordar. Agora quer andar mais
depressa do que todo o mundo.
— Insisto em indignar-me por não se fazer alusão alguma às
principais vítimas: os argelinos, a população de lá e os emigrados
daqui.

— Mas, — interrompeu o rapaz — o que conta é sacudir a gente.
Você quer sacudi-la com os sofrimentos dos argelinos ? Claro que
não! É preciso falar-lhe daquilo que a sensibiliza. Um jovem que cai
na Argélia, isso sim, faz barulho. Amanhã, podem ser atingidos
também pela mesma sorte: um filho, um irmão, eles próprios. A
sensibilidade parisiense é um fenômeno de curta duração. Pode-se
sacudir a cidade inteira para socorrer os vadios, se os vadios
estiverem na moda. Também é possível sublevá-la contra uma
guerra, uma injustiça, mas a onda cairá depressa. Entre duas ondas,
é preciso dar à gente o tempo de viver.
— Há nisso um perigo — observou Lucien. — Pode provocar o
ódio, um desejo de vingança.
— Veja isto — disse o rapaz.
Apanhara um jornal abandonado numa cadeira. Na primeira
página, um croqui emoldurado por um filete grosso, representava
silhuetas de homens sentados em redor de uma mesa e, de costas,
algemado e amordaçado, escoltado por dois homens armados,
ainda um outro homem. De cada cabeça partia uma linha
pontilhada, que terminava na legenda explicativa:
"Juiz".
"Condenado".
"Assassino".
"Jurado".
E a legenda continuava, em letras negras e altas: "Condenado à
morte pelo tribunal da FLN, este homem vai ser executado diante
dos seus juízes."
O clichê era impressionante. Na página interior, podia ler-se ainda:
"Em plena Paris, mata-se nos subterrâneos".
— Eles estão indo um pouco longe, não lhe parece?
— O problema é deles — respondeu Lucien. — Dirigir um
movimento clandestino no próprio coração do inimigo obriga a
certos métodos. . .

— Sim, estou de acordo — disse o nosso companheiro. — Uma
revolução não se faz com luvas brancas. Mas a civilização é-lhes
totalmente hostil.
Com a cerveja, o cansaço despertara e espalhou-se por todo o meu
corpo, até à ponta dos dedos. Lucien falava em pagar, o outro
protestava; enfim, levantamo-nos e êle acompanhou-nos até ao
metrô. Lucien e eu tínhamos sono. Meu irmão indagou como
corriam as coisas na oficina e se eu estava agüentado bem.
— Ah, quer explicar-me — pedi eu — o que Gilles quis dizer com
isto. . .
E contei-lhe tudo.
— Por que ele não quis discutir o caso na hora do almoço, dentro ou
fora da fábrica? Muito simples. Se vissem vocês dois isolarem-se
juntos, todo o mundo diria que Gilles andava atrás de você, ou você
atrás dele. Isso prejudicá-lo-ia. . . e a você também.
— Aqui? Em Paris? Os operários pensariam isso?
— Claro que sim, o que é que você julga? Caminhamos depressa. O
nevoeiro principiava a envolver tudo à nossa volta.
— Está em casa, mana...
Tinha ainda uns cem metros a percorrer. Deitei-me rapidamente.
Era quase meia-noite. O despertador tocaria às cinco; a noite seria
bem curta.
Empurrei a porta da oficina. Alguém me interpelou. Voltei a cabeça.
O afinador jogou por terra e esmagou com o sapato o cigarro
inacabado. Estava acompanhado de um operário que eu já vira
algumas vezes passar pelo corredor da linha de montagem.

— Salut — cumprimentou o operário — Você é nova na fábrica?
— Já não é tão nova assim. Entrou há quinze dias — observou o
afinador.
— Hoje é o décimo primeiro dia — corrigi.

— Sou o delegado sindical.
— Isso me interessa. E sorri cordialmente.
— Dê-me o seu nome por escrito e amanhã tratarei de sua carteira e
do selo.
— É preciso pagar já? O homem riu.
— Não, pode pagar no dia em que receber, se isso lhe convém. De
onde veio?
— Da província.
Os operários começavam a chegar. Nós avançamos na direção da
linha de montagem. Falei-lhe de meu irmão. Respondeu que o
conhecia muito bem, que era um coriáceo.
Daubat, que entrava, deu-me um tapinha amistoso no ombro.
— Bom dia, senhorita. . . Um conselho. Você é gentil, sincera e
honesta, uma pequena às direitas. Não se meta debaixo das patas de
um sindicato. E. . . não fale demasiado com os argelinos. Bom
trabalho!
Os motores arrancaram e a grande serpente mecânica recomeçou a
devorar-nos. Entrei num carro. Arezki, o camarada de Mustafá, já
estava aparafusando. Voltou-se para mim.
— Acabo de colocar o retrovisor no automóvel da frente. Se você o
controlou ontem à tarde, terá notado a sua falta.
— É verdade. Obrigada.
Arezki trabalhava muito depressa, fazendo pausas periódicas.
Nessa manhã, ele procurava Mustafá com os olhos. Eu também me
inquietava e a ilustração do jornal acudiu-me à memória. Tê-lo-iam
liquidado num porão? Ou era ele quem matava nos subterrâneos de
Paris?
Olhei, um por um, os homens que trabalhavam à minha volta.
Arezki tinha uma fisionomia grave, falava pouco.
Por fim, apareceu Mustafá. Não trazia a roupa de trabalho. Vestia
um sobretudo vistoso, todo em quadrados pretos e brancos.
— Bom dia! — saudou ele em voz alta. Arezki parecia descontente.

O chefe de turma aproximou-se.
_ Então, o que faz aqui? Que lhe aconteceu?


— Adormeci! — gritou ele.
— Vá mudar de roupa e volte depressa. Será punido, claro. Vamos,
despache-se!
— Êh, calma! — disse Mustafá.
E, muito digno, desceu tranqüilamente na direção das máquinas.
Bernier, a contragosto, pôs-se a pregar alguns snapons. Os "blusas
brancas" passeavam de uma ponta à outra da oficina e era preciso
estar a coberto de surpresas, eles podiam aparecer por ali.
Mustafá regressou e Bernier estendeu-lhe o martelo.
— Pegue. A sua caixa está naquele carro. Mas a sua bonificação foi
por água abaixo. . .
— Oh, — disse Mustafá, desdenhoso — não estou esperando por
isso. . .
Trajava um blusão grosso, azul e branco, de malha. Nunca o vi de
macacão. Aliás, nenhum dos argelinos que trabalhavam na linha de
montagem o usava. Preferiam, na maioria dos casos, um colete de lã
sobre os blue-jeans sebentos. Arezki usava uma bata preta, com as
mangas arregaçadas.
Mustafá começou a pregar, depois parou e advertiu-me.


— Atenção, atenção ao "cronô"...
— "Cronô"? Que é isso?
Deu de ombros. Passei ao carro seguinte, sem esperar a sua
resposta. Ele veio logo atrás de mim, empurrou o marroquino
baixote, deu um par de marteladas e parou.
— E os cabelos? Então voltou a prendê-los, ah? Você não sabe o que
é o "cronô"? Pois é isso mesmo, o "cronô". É preciso trabalhar com
calma, tapeando um pouco.
Ia fazer-me uma demonstração, porém fomos interrompidos por
Bernier, que me pediu para o acompanhar. Venha ver o que deixou
passar.

O carro que ele me apontava era um dos da frente, prestes a atingir

o setor das fechaduras. Bernier subiu, agachou-se e mostrou-me um
enorme rasgão no tecido, do lado do friso esquerdo.
Desculpei-me.
— Da próxima vez, dê mais atenção. Se isso caísse sob os olhos de
Gilles ou de um chefe de oficina. . .
Seu rosto de cachorrinho que ladra mas não morde ajustava-se mal
a uma reprimenda que, pretendia ele, era muito a sério.
— Volte depressa lá para o princípio, antes que eles passem
todos por baixo do nariz. Os defeitos, claro.
Mustafá espiava de longe. Quando me aproximei, indagou logo o
que queria Bernier.
— Fiz uma porção de besteiras — disse eu.
— O trabalho... era meu?
— Sim.
Desviou o rosto e parecia refletir.
— Espere! — gritou ele.
Saltou para o lado e, o dedo espetado, olhar grave, o nariz franzido
pelo esforço de reflexão, explicou:
— Este é o quarto veículo que faço, desde que cheguei. Ele levou-a
até ao setor das fechaduras, não foi? Então, — gritou aliviado — se
você deu com os burros n'água, a culpa é dele! Foi ele quem fez os
primeiros carros!
Esfregava as mãos de contentamento. Aquilo me desgostava.
Decepcionado, Mustafá abanou a cabeça.
— Você tem medo do chefe? Sim, eu tinha medo.
Até ao meio-dia, trabalhamos sem falar. De tempos em tempos,
encostava-me à parede e fechava os olhos por alguns segundos.
Como é que Lucien podia agüentar?
Fiquei no vestiário, cabeceando de sono. Entrou uma mulher e disse
que faltavam vinte para as duas. Enfiei o casaco e desci. Um café me
estimularia. Depois que os motores paravam e os homens partiam,

eu gostava de percorrer as oficinas imensas e olhar as máquinas
adormecidas.
Diante da porta, quando passei, alguns homens assobiaram.
Começava a habituar-me. Lucien também estava no grupo e falava
com eles. À luz do dia, seu rosto era cinzento. Fiz-lhe um sinal de
cabeça. Ele veio ter comigo.


— Onde vai?
— Tomar um café.
— Pelo que sei, Bernier armou encrenca esta manhã.
— Quem lhe contou?
— O garoto que trabalha com você.
— Mustafá?
— Sim.
Houve uma pausa e Lucien retomou a palavra:
— Faz cinco meses que estou na oficina. Estive no seu posto e>em
outros. E compreendi o sistema. Que fique ou que parta, o que eu
quero dizer servir-lhe-á, de qualquer modo. Três dias, um mês,
tanto faz. Não seja humilde. Aqui, a humildade é uma confissão de
fraqueza. Um pouco de insolência porá os outros mais à vontade.
Os chefes gostam de ladrar. Não lhes tire esse prazer. Não trabalhe
em excesso. Faça o seu serviço como uma boa ferramenta, não passa
de outra coisa, afinal. Não procure compreender o que faz. Não
pergunte para que serve isto ou aquilo. Não está aqui para
compreender, mas para fazer determinados gestos. Quando tiver
apanhado a cadência, será então um mecanismo bem regulado, que
não enxergará mais longe do que o fim da linha de montagem. Será
então classificada como uma boa operária e aumentada três francos
por hora.
— Não tenho a intenção de ficar — disse eu, erguendo a cabeça.
Tínhamos chegado ao boulevard Masséna. Procurava, no segundo
andar, as janelas da oficina.


— Faltam dez minutos. Depressa.

Bebemos em silêncio e rapidamente. Lucien pagou. Na saída,
perguntou:

— Recebeu notícias?
— Na semana passada.
— Não dê nunca o meu endereço. Está na hora, apressemo-nos.
Ouvi a sirena, quando subia a escada.
A linha de montagem é uma gigantesca serpente que se arrasta ao
longo das paredes. Uma boca imensa vomita as carroçarias da
oficina de pintura, uma estufa insuportável situada no andar térreo
e que, por um monta-carga, vomita sete veículos por hora. Na
descida, cada carro está revestido de uma capa de plástico e, no
percurso de sua lenta viagem, é sucessivamente dotado, primeiro,
de faróis, depois de snapons, frisos e revestimentos internos,
retrovisores, viseiras de sol, limpadores de pára-brisa, painel de
instrumentos, vidros, assentos, portas, fechaduras.
Gilles viu-me quando eu passava diante do escritório envidraçado
dos chefes. Eu também o vi. Nossos olhares cruzaram-se. O meu
atraso devia descontentá-lo. Apanhei a minha placa, o meu lápis a
minha papeleta de controle.
Um acorde de Mozart surgiu do fundo da minha memória. Lucien
tanto o martelava, ao regressar do colégio, que eu acabei por fixá-lo
também. Trauteei e o ruído dos motores abafou minha voz. Gostaria
de conhecer a sinfonia inteira, para soprá-la, como quem sopra uma
flauta, no roncar das máquinas.
Mustafá passou a cabeça pela abertura traseira.
— Atenção, está aí o "cronô!" — advertiu num ar casual.
Realmente, lá estava êle. Era um homem de bata cinzenta, junto ao
qual se encontrava o chefe de oficina, como sempre de chapéu na
cabeça. O "cronô" tinha um caderno de notas muito grosso, dois
lápis na mão e, bem entendido, o instrumento que era a razão de ser
do nome que recebera, um enorme cronômetro que mantinha na
palma da mão aberta.

Plantou-se a meu lado e observava-me. Esforcei-me por trabalhar
lentamente, mas, contra a própria vontade, sempre havia alguns
gestos mais vivos e os meus dedos treinados já iam diretos onde
queriam. Esforçava-me por perder segundos. Consegui tapear um
pouco no painel dos instrumentos. Mas tudo isso era pura
ingenuidade. O "cronô" adivinhava e não prestava atenção a
quantos minutos eram exigidos por uma dada tarefa; era ele próprio
quem determinava um tempo para cada um dos gestos do operário.
A sua passagem era o sinal de mudanças próximas. O homem
estava arrumando o cronômetro num estojo, quando Mustafá se
acercou dele, com ar esbaforido.

— Senhor! Senhor! Não feche! — gritou ele. — Por favor, diga-me as
horas.
O outro mordeu os lábios e afastou-se sem dar resposta.
No dia seguinte, Gilles veio comunicar-nos as novas decisões.
Quanto ao meu serviço, foi-lhe adicionado o controle dos faróis
dianteiros e dos faroletes de posição traseiros. O "Magiar" ficava
encarregado de aparafusar os aros dos faróis e faroletes; Arezki teria
a seu cargo a colocação dos controles de aquecimento no painel de
instrumentos.

— É muita coisa — disse Gilles. — Fiz-lhe ver isso. Mas fui o único a
falar. Terá em breve algumas colegas. A partir do dia 15, o controle
passará a ser feito por quatro mulheres. Uma aqui, as outras mais
abaixo. O seu irmão sobe para o setor de pintura.
— Lucien? Por quê?
— Chefe, — disse Mustafá, que acabava de chegar — e eu, o que
terei de fazer a mais?
— Você. . . nada! — respondeu Gilles, rindo. — Mas o pouco que
faz, trate de o fazer bem feito!

Arezki estava contrariado. Abordou Gilles e discutiram
demoradamente. Os carros passavam. Eu ia notando: "falta
retrovisor".

— Pior para mim — disse Arezki, voltando a seu lugar. — A
bonificação está perdida.
O pagamento saiu no décimo quarto dia. Bernier trouxe-nos os
envelopes. Cada um suspendeu o trabalho por alguns segundos,
para conferir o dinheiro. Alguns foram protestar junto a Bernier,
que os mandava ir falar com o chefe de oficina.
Por que motivo não abandonei tudo naquele momento? Por que não
acertei as contas como se costuma dizer? Não me atrevia a reclamar
a Lucien o que êle me devia. Se pusesse de lado o dinheiro
necessário para a viagem de volta, sobraria apenas com o que me
alimentar alguns dias. Nas cartas que enviava à vovó, eu falara de
economias, de dinheiro ganho e amealhado, do rádio que lhe
compraria. . . Bem, ficaria mais uma quinzena. Até lá, Lucien talvez
me devolvesse alguma coisa. Eu economizaria...
Refletia, enquanto aguardava o ônibus. O pagamento, que eu
metera no fundo da bolsa, decepcionava-me. Tantos gestos, tão
pouco dinheiro. Afastei-me da multidão e caminhei pelo boulevard
na direção da Praça da Itália. Um táxi despejava uma mulher.
Aproximei-me e fiz-lhe sinal para que me esperasse.
Maravilha, das maravilhas. Refestelada no assento, desfrutava o
feérico espetáculo noturno. Tinha os olhos cheios; as girândolas
luminosas da Ponte Nacional, as chaminés das fábricas
transfiguradas pelos clarões do horizonte, os fornos acesos e as
caixas-d'água gigantescas rompendo o céu noturno, baixo,
aveludado, como que suspenso à altura dos revérberos. E eu
saboreava tudo isso, sentada, o corpo derramado no assento do
carro, desejando dez mil obstáculos no trânsito para que a festa
durasse mais.
À noite, despi-me, lavei-me inteiramente, inclusive os cabelos, enfiei
a camisa de noite, um suéter de lã, e instalei-me na cama, com uma

sensação de bem-estar total. Fiz as contas rigorosamente: tanto para
comer, tanto para o quarto, tanto para a condução, e escondi cinco
mil francos, que seriam as minhas primeiras economias.

Muitas vezes, pela manhã, esmagada pelo ruído da oficina, quando
a fadiga me invadia de novo, eu sofria de violentas dores de cabeça.
Comprei aspirina e habituei-me, por volta das nove horas, quando a
nuca começava a ficar pesada, a engolir um comprimido. Comprei
também um vidrinho de perfume de alfazema que eu aspirava de
tempos a tempos. Metera tudo numa caixinha de papelão, em cuja
tampa escrevera "E. Letellier" e que pusera de parte, guardada num
canto.

Certa manhã, Arezki pousou suas ferramentas e dirigiu-se à mesa
de Bernier. Voltou pouco depois e recomeçou a aparafusar
retrovisores, mas notei seu rosto contraído. Foi Mustafá quem veio
dizer-me:

— Êle está doente, não pode trabalhar.
— Que peça para sair, vá à enfermaria.
— O chefe disse que não.
— O que está sentindo? — perguntei a Arezki diretamente.
— Dói-me a cabeça. Nem vejo os retrovisores.
Saí do carro e procurei Bernier. Este vinha justamente na nossa
direção.
— Sr. Bernier, — disse eu — há um operário doente. Não pode
trabalhar direito.
— Quem é? — perguntou com um sorriso jovial.
— O que coloca os retrovisores. Arezki.
— E daí? — replicou ele, com ar divertido.
— Devia ir à enfermaria.

— É . . . todos eles querem ir à enfermaria por isto e por aquilo.
Antes, era a privada. Não se preocupe, senhorita. — Deu-me uma
palmadinha amistosa na mão. — Já não dou mais guias de saída.
São as ordens que recebi. Salvo em caso de acidente, claro, ou se o
camarada tiver um troço e cair duro. Os outros são os simuladores,
uns espertalhões. Conheço-os bem.
— Mas... é desumano!
— Êh, Srta. Letellier, mais devagar! — disse ele, perdendo o sorriso
afável. — Volte para o seu lugar e não se meta nisso.
Voltei à linha de montagem, furiosa, despachei dois carros a toda a
pressa e procurei Arezki. Aparafusava lentamente um fecho e
Mustafá colocava os retrovisores, no lugar do companheiro.
— Ele ainda se sente mal? Mustafá acenou que
sim.
— Quer um comprimido? — gritei eu. Arezki levantou a cabeça.
— Você tem ? Levei-lhe dois.
— Os tunisinos bebem leite — disse Mustafá. Arezki apanhou os
comprimidos e desceu do carro.
Mustafá colocou o friso com alguns pontos, apenas, correu ao carro
seguinte, aparafusou o retrovisor e os fechos e saiu para o carro
seguinte, que vinha atrás, para pregar o seu snapon.
Eu verificava um painel de instrumentos, quando Arezki se inclinou
para mim e me agradeceu.
— Está melhor?
— Ainda não, mas daqui a pouco estarei bem. Momentos depois,
veio dizer-me que se sentia aliviado.
Ao meio-dia, trouxe-me um pedaço de estopa embebido em
gasolina, para eu lavar as mãos. Agradeci-lhe emocionada.
Trocamos "bom apetite" e "boa tarde, até amanhã", no fim do dia.
Ele tinha um belo rosto severo que me intimidava. Parecia menos
jovem do que os outros.

No dia seguinte, ao chegar, encontrei na minha caixa de papelão um
pequeno embrulho de papel de seda, contendo um croissant.
Chamei Mustafá.

— É seu?
Sacudiu a cabeça e como eu não entendesse acrescentou:
— Arezki pôs aí para você.
Arezki trabalhava mais afastado. Segundo o seu hábito, ele ganhava
sempre dianteira. Quando voltamos a nos encontrar no mesmo
carro, perguntei-lhe, como já fizera a Mustafá.
— É seu?
— Não, é seu.
Mustafá, que chegava, observou:
— É pelos comprimidos de ontem.
— Pelos comprimidos? Então guarde-o.
— Pela amizade — disse Arezki, olhando-me gravemente.
Parti o croissant em três e distribuí um pedaço para cada um.
— Eu não — disse Arezki. — Não como de manhã.
— Eu como — falou Mustafá.
Sua expressão voraz fez rir. Gilles enfiou a cabeça pelo vidro
traseiro, nesse exato momento. Encarou-me espantado. Confusa,
apanhei a minha placa de controle e levantei-me precipitadamente.
Mas ele já fora embora. Arezki notou o meu embaraço. Voltou ao
trabalho. Alguns minutos depois, Mustafá veio interpelar-me:
— Êh, Srta. Lise, ainda tem algum comprimido? Ele também está
com dor de cabeça.
— Ele quem?
Era o "Magiar". Não falavam a mesma língua, porém faziam gestos
que só eram compreensíveis para eles.
No dia seguinte, encontrei na minha caixa outro croissant. Mustafá,
que me espiava, encorajou-me.
— Coma...
— Mas, isto é sempre. . . ?

— Sim — disse ele.
— Senhor. . . — comecei eu.
Mas ele abanou a cabeça, sorrindo, e não parou.
Encontrei-o um pouco mais tarde; discutia com Mustafá. Falavam
em árabe e tive a impressão de que era eu o assunto da conversa.
À tarde, quando verificava os faróis de um carro, ao levantar-me, o
meu olhar cruzou-se com o de Arezki, acocorado no interior.
Ambos embaraçados, evitamo-nos, mas o ritmo da linha de
montagem aproximava-nos com freqüência.
À noite, quando me encontrava sozinha, acontecia-me recordar seu
rosto e sentia tal prazer que o evocava amiúde.
Não nos falávamos francamente. Mustafá servia-nos de pretexto.
Nunca dizíamos eu ou você, porém ele. A nossa timidez encontrara
esse expediente. Mustafá fazia e dizia tantas loucuras, que
proporcionava sempre assunto para conversação. E depois, que
poderíamos dizer no meio daquele barulho infernal que nos
obrigava a gritar, naquelas subidas e descidas perpétuas, de um
carro para outro?
Todas as manhãs eu encontrava na minha caixa de papelão
qualquer guloseima. Aceitava-as, pensando no prazer que Arezki
sentiria em comprá-las e depositá-las na minha caixa.
Repartia com Mustafá, que aguardava com impaciência esse
momento.
Daubat veio uma manhã e acusou Mustafá de lhe rasgar os forros,
ao pregar defeituosamente os snapons. Mustafá protestou, gritou e
acabou por agarrar Daubat pela gola do casaco. Arezki saltou de um
carro e deu um safanão em Mustafá, obrigando-o a largar sua presa.
Voltaram juntos para o automóvel e Arezki não escondia seu
descontentamento. Acompanhava suas palavras com gestos de
ameaça, endereçados ao seu camarada.


— Ele me chamou de crioulo!
— E daí? — replicou Arezki. — Não pode ouvir isso? E seu pai e
sua mãe, o que é que eles ouvem lá na terra?
Intervim para dizer que era uma vergonha um operário ser racista e
tratar outro de crioulo. Arezki pôs-se a rir e abanou a cabeça.
— Se você não pode suportar isso, — disse ele a Mustafá — como
poderá suportar o resto?
— É preciso falar com o delegado sindical — propus. Mustafá fez
um gesto obsceno. Mas já perdêramos
tempo demais e cada um de nós voltou a seu trabalho.
— Vai negar — disse Mustafá. Inclinou-se para o "Magiar".
— Neve!
O outro ergueu a cabeça coberta de espessos cabelos louros, muito
ondulados. O rosto vermelho e cheio de botões falava de miséria e
solidão, e eu pensei, nesse instante, no bem que lhe deviam fazer as
chamadas de Mustafá.
Entrei no carro do qual Arezki saía. Olhando-me de soslaio, disse:
— Hoje é o meu aniversário.
Fiquei surpreendida por alguns instantes e reatei a verificação. Os
músculos, no início refratários, agora já obedeciam, mas se um
movimento imprevisto alterava a ordem necânica, rangiam como
velhas polias mal lubrificadas. O bom operário é aquele que
controla seus gestos e elimina todos os que sejam inúteis. E, como
esse ritmo não foi previsto para conversar, quando se quer trocar
algumas frases, é preciso precipitar um movimento ou saltar um
outro. Consegue-se, apesar de tudo, porém alterando a ordem
estabelecida e prejudicando os camaradas. Então, quando um
homem nos lança, ao descer do carro, "hoje é o meu aniversário", é
infalível que nos esqueçamos de controlar o painel de instrumentos
para o alcançar no carro seguinte e dizer-lhe, em meio à barulheira
dos martelos: "Feliz aniversário". E quando eu lho dizia e Arezki me
agradecia com um sorriso, estourou a bagunça, tão ruidosa que

abafou os motores. Paramos todos. O marroquino, Mustafá e o
"Magiar" saltaram para o corredor. Arezki voltou-se para mim:

— São as mulheres.
Gilles entrara acompanhado de quatro moças e da linha de
montagem saíam brados ululantes. Mustafá gesticulava e gritava, e
Arezki chamou-me a atenção para o rapaz, rindo.
Quando o grupo passou, todos retomaram o trabalho, porém
Mustafá, muito excitado, ia e vinha, subia e descia, e acabou por
deixar-se levar no carro que passava adiante.
Regressou um instante depois e precipitou-se para o "Magiar".
— Mulher bonita — disse ele.
O seu atraso parecia não inquietá-lo. Arezki avançava ; Mustafá
reteve-o por um braço.
_ Puseram uma mulher ali mesmo. No controle dos fechos.
E deu um assobio de admiração.


— Melhor — disse Arezki, indiferente.
A sua resposta deu-me prazer. O entusiasmo de Mustafá irritara-me
um pouco.
Durante a pausa do meio-dia, as recém-chegadas tomaram posse de
seus armários no vestiário. Depois voltaram a sair para o almoço; só
as habituais ficaram ali comendo.
— Estão pondo mulheres na linha de montagem.
— E que tem isso? Não é mais difícil nem mais cansativo do que
qualquer outra coisa.
— São moças. . .
— Espere para vê-las daqui a algumas semanas...
— Mas na linha, com os argelinos. . .
— Ora, eles vão acabar por estar metidos em tudo, menos na
pintura.
Era na pintura que Lucien já se encontrava há quatro dias. Não
voltara a vê-lo. Comi depressa e saí, tentando encontrá-lo. Mas não

havia ninguém lá fora. O nevoeiro frio esvaziara as ruas. Estaria em
algum café?
Dirigi-me lentamente para a oficina, com dez minutos de avanço.
As atenções, felizmente, estavam polarizadas nas novatas. Vi
Lucien. Gracejava com uma das :nôças que subia pela rampa.
Chamei-o; voltou-se vivamente.


— Queria vê-lo, saber notícias suas. Parece que o puseram lá em
cima.
— Tudo azul, não se preocupe — disse êle, em tom de indiferença,
retomando a subida.
— Lucien!
— O que há mais?
— Quando poderei vê-lo? Pareceu-me amolado.
— Quinta à noite — decidiu, suspirando. — Henri deve trazer-me
umas coisas.
Cheguei a meu lugar. O "Magiar" apertava o cinto das calças. Arezki
já estava no seu posto. As quatro mulheres passaram de braços
dados. A mais moça era muito bonita. Fazia-me lembrar Marie-
Louise. Mustafá, impecavelmente penteado, seguia-as.
Várias vezes, nessa tarde, Arezki irritou-se com Mustafá porque, no
seu vaivém, êle incomodava todo o mundo.
— Como é o meu aniversário, quer vir esta noite beber qualquer
coisa comigo?
Nada respondi. E êle ficou diante de mim, enquanto o "Magiar"
pedia desculpa por nos ter empurrado. Percebemos então que
estávamos imóveis sobre a linha de montagem e que éramos
levados para a frente.
Abriam-se em mim três bocas. Uma dizia "Enfim. . . " , a outra
objetava "E como? Onde? E se as pessoas..."; da terceira saiu um
"Não", mas um não que estava longe de significar uma recusa. Pelo
contrário, o tom denotava concordância a uma proposta longamente

aguardada. Tomada de súbita apreensão, essa boca dizia "Espere
um instante"...

— Então? — interrogou Arezki. Dirigia-se a Mustafá, que saltitava
irrequieto.
— Ela é bonita, puxa! Bonita mesmo. Mas para um pé-duro a coisa
não é fácil, não. . .
— Deixe pra lá — comentou Arezki secamente. — As francesas não
gostam de mulatos. . .
Tomei essas palavras como um desafio e, querendo animá-lo,
perguntei-lhe um pouco depois:
— Quantos anos você festeja?
— Trinta e um.
— Onde quer encontrar-se comigo?
Seu rosto iluminou-se. Indagou o percurso que eu fazia à noite, o
bairro onde eu morava. Porém, interrompeu-se para trabalhar, pois
Gilles vinha chegando. Caminhava depressa e sua bata esvoaçava.
Caiu a noite, as vidraças foscas das janelas escureceram. O pequeno
marroquino pousou o martelo e saltou um "ufa", esfregando o
punho. Arezki aproximou-se e fez sinal para que eu aproximasse o
ouvido.


— Você pega o ônibus na esquina? Então aí nos encontraremos.
Subirei atrás de você e desceremos em um ponto qualquer, no meio
do caminho.
Quando a sirena soou, fazendo parar as máquinas, permaneci como
se estivesse trabalhando. Um operário que passava, gritou:
— Êh, você! Acabou-se!
No vestiário, as mulheres acotovelavam-se, enquanto se vestiam
depressa e tagarelavam em voz alta, ansiosas por regressar ao lar.
Procurei Arezki. Ainda não chegara. Entrei na fila. A paz acabou.
Agora, a tempestade tão desejada abatia-se sobre mim. Arezki
surgiu de repente. Sua roupa me surpreendeu. Trajava um terno
sóbrio, camisa branca, mas sem sobretudo ou qualquer outro

agasalho. Colocou-se atrás de mim, sem falar, e dirigiu-me um sinal
de cumplicidade. Um argelino grandão que também trabalhava na
linha de montagem e se chamava Lakhdar passou perto de nós.
Estendeu a mão a Arezki.

— Onde vai?
— Fazer umas compras.
Subimos, por fim, e encontramo-nos esmagados um contra o outro
na plataforma do ônibus. Arezki não me olhava. Na Porte de
Vincennes pudemos avançar um pouco.
— Desceremos na Porte des Lilás, concorda? Gosta de caminhar a pé?
— Está bem — respondi.
O meu embaraço aumentava e o silêncio do meu companheiro não
era propício a um afrouxamento. Li na íntegra o regulamento da
companhia de transportes, afixado um pouco acima da minha
cabeça.
Arezki fez um sinal. Descemos. Eu não conhecia o bairro. Disse-o a
Arezki, no intuito de estabelecer conversação. Após atravessarmos a
praça, entramos num café, A La Chope des Lilás. As letras eram de
um verde brutal. No balcão, aglomeravam-se muitos homens.
Alguns olharam-nos. As mesas estavam ocupadas.
— Venha — disse Arezki.
E esgueiramo-nos para um canto; à esquerda da entrada, onde
restavam algumas cadeiras vagas. Arezki sentou-se diante de mim.
Os nossos vizinhos olharam-nos abertamente, sem discrição. Olhei-
me no espelho que revestia uma das colunas: estava roxa e
despenteada. Desci a gola do casaco e, no mesmo instante em que
fazia esse gesto, dei-me conta da minha singularidade. Estava com
um argelino. Foi preciso o olhar dos outros, a expressão do garçom
que aguardava o nosso pedido, para que eu me apercebesse da
situação. Um pânico súbito me dominou, porém Arezki olhava-me e
eu corei, temendo que ele adivinhasse a minha perturbação.
— Que quer tomar?

— O mesmo que você — respondi estupidamente.
— Um chá bem quente?
Parecia mais à vontade do que eu. Repeti duas vezes, antes de
beber: "Feliz aniversário!".
Sorriu, com ar divertido, e pôs-se a fazer perguntas. Falei-lhe da
minha vida com a vovó, de Lucien.
— Julgava que fosse mais moça do que ele. . .
— Por ser pequena? Não, tenho vinte e oito anos. Examinou-me,
espantado.
— Você gosta muito de seu irmão, não é verdade?
_ Sim — disse eu, confusa.
Perguntei-lhe se tinha família. Tinha três irmãos, uma irmã, e sua
mãe ainda era viva. Descreveu-ma amarelecida como a folha prestes
a cair, pisada como um fruto seco, a vista quase extinta. Eu pensava
na vovó.
Para afrouxar a tensão, falamos de Mustafá.


— Caminhamos um pouco? — sugeriu ele.
Saímos. Boulevard Serrurier. A noite era tranquilizadora. Ninguém
nos via. As pessoas apressadas e friorentas estugavam o passo, a
caminho de suas casas.
Eu quase monologava. Arezki escutava, aprovava com acenos de
cabeça, caminhava olhando em frente. Perguntou-me diversas vezes
se eu estava cansada. Eu procurava dizer alguma coisa que
prendesse a sua atenção. Concordava com todas as minhas
observações. Contei-lhe o episódio da reunião na Grange aux Belles.
— Se for a essas reuniões, — disse ele — passará por alguns
dissabores.
Interrompi-o, falei-lhe de Henri, de Lucien, da Indochina, misturei
sonhos, utopias e verdades. Não parava de falar. Caminhamos até à
Porte de Pantin. Arezki olhou para o relógio.
— Não tem medo de valtar sozinha para casa? São oito horas.
— Claro que não.

— Sou forçado a deixá-la aqui. Mas esperarei até à chegada do
ônibus.
— E você como regressa?
— Pelo metrô.
— Não costumam chateá-lo à noite com os controles policiais?
— Às vezes acontece — disse ele.
Esperamos sob o abrigo da parada. Arezki devia tremer de frio.
Mantinha-se direito, as mãos nos bolsos e olhava para além de mim.
Quando o ônibus se aproximou, tirou a mão do bolso e estendeu-
ma.
— Obrigado — disse êle. — Você foi muito amável. Até amanhã.
Cheguei a casa fatigada, com fome e descontente.
No dia seguinte, Arezki comportou-se comigo da maneira habitual.
Sentia um certo despeito por êle não me distinguir com maiores
sinais de amizade. Tê-lo-ia eu decepcionado? Mas eu estava
satisfeita por ninguém nos ter visto juntos na noite anterior.
No vestiário, eu observava as novatas. No primeiro dia, tinham
trabalhado de sandálias e blusões três-quartos. Mas a admiração
dos homens tornara-as mais coquetes. Uma trouxera um avental
côr-de-rosa, outra colocara um travessão brilhante nos cabelos, uma
terceira calçara chinelas floridas.
Chegavam pela manhã maquiladas e penteadas e conseguiam,
durante o dia, isolar-se para retocar o rosto. Havia nisso qualquer
coisa que ultrapassava a simples facei-rice feminina; era uma defesa
ostensiva contra um trabalho que acabava por converter-nos em
maltrapilhos. O vermelho-vivo das unhas recobria, na maioria das
vezes, a crosta de sujidade; os cabelos sujos ornavam-se de fitas de
veludo; o suor cinzento da pele era coberto de pó de arroz. Revejo a
minha vizinha no vestiário, uma mulher de trinta e cinco anos, mais
feia do que bonita, o rosto enrugado, obrigada pelo regulamento a


vestir um macacão de brim e que, para conduzir um Fenwick,
conservava seus mocassins.
Sentia-me muito isolada naquela gaiola. No entanto, sofri a
contaminação e retirei, das primeiras economias, o dinheiro para
um guarda-pó. Compraria um azul, com vivos brancos, que não
fosse além da barriga da perna.


Só na quinta-feira de manhã me lembrei do convite do meu irmão.
Era bom sinal. É como um espinho que se retira lentamente, sem
dilacerar muito a carne.
Mas um outro se cravara. Arezki parecia evitar-me. Os dias
tornaram-se mais longos e mais penosos.
Cheguei à casa de Lucien às oito horas. Henri já aí estava e apertou-
me vigorosamente a mão. Ana indagou se eu tomava um café.
Lucien resmungou um boa-noite. Na mesa estava uma pilha de
livros que Henri trouxera. Ambos discutiam a situação com
veemência. Era freqüente estarem em desacordo. Henri tentava
apontar a meu irmão as suas contradições e Lucien, casmurro,
obstinado, encerrava-se então num silêncio feroz. Ana, sentada na
beira da cama, passava a mão pelos cabelos e olhava alternadamente
para os dois homens. Eu dormitava e sentia saudades
dos meus pequenos prazeres egoístas, do torpor que me invadia
antes de adormecer.


— Você sustenta — dizia Henri, acalorado — que os operários não
estão mostrando interesse pela guerra da Argélia. Pois eu lhe digo
uma coisa: isso acontece por falta de informações. Se eles soubessem
o que...
— Então por que troça dos cartazes, das inscrições nas paredes e
daqueles que se dedicam a essa tarefa?
— Bolas! Porque você pode fazer outras coisas! Dar o seu
depoimento através da pena. Há seis meses, — martelou Henri —
há seis meses que está metido nessa fábrica, no meio deles. A classe
operária. . . está a vinte mil milhas submarinas. Um outro mundo.

Quem vai averiguar o que nela se passa? O Partido? Ora, ora... O
Partido desmobiliza as massas com os seus boletins de saúde: tudo
vai bem, os operários estão vigilantes, sua voz faz-se cada vez ouvir
mais alto e blá-blá-blá, blá-blá-blá. Você nao pode escrever? Não
pode contar aquilo que vê, que ouve? Descrever as relações entre
argelinos e franceses ao nível do proletariado? Era essa a sua
intenção e devia fazê-lo. Colar um cartaz pela calada da noite. . .

— Cale-se com os meus cartazes — resmungou Lucien.
Nada disseram durante alguns minutos. Ana enfiou as pantufas e
veio servir-nos café.
O que Henri dizia parecia-me sensato. O seu físico um pouco
pesado e sua voz calma e baixa aumentavam a força de seus
argumentos. Mas o que me embaraçava era uma parte dele sentir
prazer nos acontecimentos, dramas ou conflitos. Mantinha-se
parcialmente no papel de espectador, uma espécie de bisbilhoteiro
excitado pelas peripécias do espetáculo. A sua inteligência rápida,
sua penetração e sutileza psicológicas deleitavam-se em Lucien.
Meu irmão bebia gulosamente e Ana voltou a servi-lo duas vezes.
Quando terminou, acendeu um cigarro e inclinou-se para mim.
— Elise, diz a Henri o que pensa. . .
— Eu, mas...
— Sim, você não é nenhuma idiota. Sei que terá alguma coisa a
dizer.
Falei desajeitadamente. Lucien interrompeu-me.
— Como vê, Henri, eu e minha irmã não somos bons advogados.
Há pouco você me fez uma censura. Sim, há seis meses, quando
comecei. . . mais por necessidade do que por opção. . . neste
trabalho, não há dúvida de que me exaltei, confesso, com as
perspectivas do que poderia fazer. Testemunhar, como você diz.
Pois bem, meu velho, já renunciei a isso. Não posso. É um círculo
vicioso. Durante o dia sou como uma máquina fotográfica,
registrando imagens. Quando chega a noite, é como se eu desmoronasse
por dentro. As imagens não saem. Não entende? É que,

para sobreviver, é preciso trabalhar. Então deixo a coisa mais para
trás. E, dia após dia, vou embrutecendo mais um pouco. Sabe para
onde me enviaram ? Para a pintura. Nem tenho vontade de explicar
a você. E por que me transferiram? Para me desanimar, para que eu
dê o fora. Parece que eu mino o moral dos trabalhadores, perturbo.
Até o delegado sindical é contra mim. Diz que eu estou indo longe
demais. Mas eu não me despeço. Só que, quando regresso a casa, à
noite, bebo litros e litros de água, como e vou para a cama. Um
esforço intelectual? Hum, é impossível. Im-pos-sí-vel. Em seis
meses, afundei-me. Digo-lhe mais, Henri, se eu não trabalhasse
ombro a ombro com os mestiços e os negros, já os teria esquecido há
muito. Reclamaria três francos a mais, ou meia hora de trabalho a
menos, ou cinco minutos de pausa em cada hora. Mas eles lá estão e
por muito explorado e insatisfeito que eu me sinta, sou um
privilegiado em comparação com eles. O que é que eles são ? Um
carburante sem valor, uma reserva inesgotável. Deve haver apenas
uns três ou quatro em toda a fábrica que vêem neles figuras
humanas. Tem razão, sem dúvida... Colar um cartaz, pichar um
muro, distribuir panfletos, são soluções comodistas. Mas quem
redige esses cartazes, quem inspira esses panfletos?

— Você não é verdadeiramente um revolucionário. É, muito
simplesmente, um revoltado, já lhe disse. Está se perdendo. Já não
somos numerosos e temos necessidade de tipos como você. Afinal
de contas, é preciso fazer qualquer coisa, reagir contra esta situação.
— O negócio tomou um aspecto feio. O pessoal tem medo. Os seus
ajustes de contas, os seus métodos de justiça . . . as pessoas
vacilaram e acabaram por passar-se para o lado mais seguro.
Henri acompanhou-me no regresso a casa. Deixara seu carro no
beco, nos fundos da basílica.
— E você, Elise, — perguntou ele — adapta-se? Disse-lhe que não;
regressaria a casa em breve, ainda
não sabia quando, antes do Natal, sem dúvida.

— Explore o afeto que êle lhe dedica para persuadir Lucien a deixar
a fábrica. Acho que êle atingiu o ponto de ruptura.
— O afeto? — disse eu, cética.
— Terá de repousar por algum tempo, procurar um novo emprego.
— Não dispõe de meios para isso.
— Enfim, — protestou Henri — alguns dias, pelo menos! Isso não
será impossível. Com certeza poderá agüentar duas ou três semanas
sem trabalhar. E o seguro de doença?
Não lhe respondi. De nada serviria. Entre êle e nós havia todo um
oceano de diferenças. Não dava à expressão "falta de dinheiro" o
mesmo significado que nós. Para êle, era privar-se de uma ida ao
cinema ou, na pior das hipóteses, de gasolina para o automóvel.
Para nós, era uma questão vital, pois não tínhamos ninguém na
frente ou atrás de nós em que nos amparássemos nos momentos de
maior aperto. Se Lucien ficasse três semanas, duas semanas, sem
trabalhar, era a asfixia. Já não estávamos na casa da avó. "Dez mil
francos arranjam-se sempre", dizia Henri. Nós só podíamos
encontrá-los no total da folha de pagamentos.
— Pobre Lucien. . . Passou anos sem nada fazer. . .
— Êle envia dinheiro à filha? — perguntou bruscamente Henri.
Confundida, respondi que não sabia.
— Mas, — disse eu — Ana poderia muito bem trabalhar. Isso o
aliviaria um pouco.
Henri abanou a cabeça.
— Deixo-a aqui?
— Sim, aqui está ótimo.
— Lucien não quer que ela trabalhe. Pelo menos, por agora. Você
sabe que ela apareceu uma bela tarde foi em maio, creio eu, em
minha casa? Lucien vivia em Paris há umas seis ou sete semanas.
Ana recordou-se do meu endereço. Como e com que dinheiro
chegou ela até cá? Não sei. O certo é que me apareceu num estado
de exaltação que me impressionou. Queria que eu anunciasse a sua

morte a Lucien. Deixou-me uma carta para ele e sumiu. Procuramola
por tudo quanto era lado. Lucien estava louco. De angústia e, ao
mesmo tempo, de uma alegria mórbida provocada pelo ato de Ana.
Ela matava-se por ele! Jogava a própria vida! Enfim, graças a um
camarada, conseguimos descobri-la num hospital, pois não se
conhece o caso algum de uma pessoa ter morrido com uma dose
excessiva de aspirina. Mesmo assim, ficou hospitalizada algum tempo.
Ana adquiriu aos olhos de Lucien uma dimensão suplementar.
Eles estão muito, muito longe de nós, não acha?

— Sim — respondi eu, olhando para a porta do Lar, que a noite
tornara azul.
Era verdade. Aquelas paragens extremas eram-me estranhas.
Cheguei a sentir saudades da mediocridade repousante de Marie-
Louise. Temia Ana.
— Srta. Letellier, não viu que os faroletes traseiros estão montados
ao contrário?
Gilles empurrava-me com delicadeza para o lado e quando o carro
chegou diante de nós observou o "Magiar".
— Está vendo? Inclinou-se para ele.
— Não — disse Gilles. — Assim. Baixando-se, mostrou-lhe como
devia fazer.
— Entendido? — perguntou Gilles.
O "Magiar" fez um gesto de que não entendera patavina. Gilles
entregou-lhe a chave de parafusos.
— Vá! — gritou-me ele. — Vai deixar-se atrasar! Voltei ao
automóvel. Gilles seguiu-me, agachando-se
na traseira do carro.
— É muito rápido, não? Você não tem tempo para verificar o
exterior?
— É verdade, Sr. Gilles, o tempo é muito curto.

— Está bem, — disse ele — deixe passar todos os faroletes traseiros.
Não os controle.
O ajustador apareceu na moldura da porta.
— O que se passa, Sr. Gilles?
— O forro das capotas. Você não o deixa bem esticado. Há dois dias
que o controle vem assinalando o defeito.
— Ah?
Passou a mão pelo tecido e as pregas logo apareceram.
— É verdade. Mas também — explodiu ele — é preciso ver o
pessoal que me deram para colocar os forros! Só crioulos. Eles não
entendem bulufas desse trabalho e, ainda por cima, são preguiçosos
como eles só...
— E você, — cortou Gilles — tem a certeza de que lhes explicaram
bem o trabalho?
— Ué! Fui eu mesmo quem lhes explicou!
— Bem, vou dar uma olhada. O afinador desceu do carro.
— Ele é racista, não é? — perguntei a Gilles, que ignorou a minha
observação.
— Eu acho que você estaria melhor nos escritórios — disse ele. —
Ocupar-me-ei disso em janeiro, depois das festas.
Nada disse, mas pensei: "Depois das festas, já não estarei mais
aqui."
Arezki vinha na minha direção. Tentei evitá-lo mas ele estendeu-me
um pedaço de algodão embebido em gasolina e agradeci.
— Poderei vê-la esta tarde? No ônibus, como da última vez.
Caminharemos um pouco.
Inclinou-se para dizer-me ao ouvido:
— Preciso falar-lhe.
O afinador olhava-nos. Estava no automóvel à nossa frente,
acompanhado de Gilles, que media os forros. Nada li em seus olhos;
êle olhava-nos, simplesmente, mas corei como uma pessoa culpada.
Os motores abrandaram, a sirena libertava-nos.

— Bem, — disse Gilles, descendo — está na hora. Vamo-nos. Come
na cantina, Srta. Letellier?
— Não, no vestiário.
— Come sempre frio?
Nessa tarde, Arezki não se retir.ou rapidamente antes da hora.
Quando me viu arrumando a minha placa, veio por detrás de mim e
disse, muito depressa:
— Até já, espero por você.
Descemos na Porte des Lilás, como da última vez. O trajeto parecera-
me longo.
Mergulhamos nas sombras da rue des Glaieuls.
— Caminhamos um pouco, primeiro? — indagou Arezki.
Eu considerava isso de mau augúrio.
Era uma rua curta e mal iluminada. Arezki, de paletó e mãos nos
bolsos, o pescoço encolhido nos ombros, e eu, segurando a bolsa
contra a cintura, caminhávamos lentamente. Êle era mais alto do
que eu uns vinte centímetros. Eu esperava que Arezki falasse
primeiro. Começou por dizer banalidades: o frio, o inverno, é bom
largar o trabalho. Eu respondia com lassidão.
— Na outra noite, — disse êle — falei-lhe sobre aniversário. Mas eu
nasci em julho.
— Ah, sim?
— É verdade. Eu queria dizer-lhe, porque ao ouvi-la, depois,
arrependi-me de o ter feito.
— Mas por que disse então que fazia anos? Arezki encolheu os
ombros.
— Saiu-me desse jeito. Para que você dissesse que sim.
Tínhamos chegado à esquina da rua. Ele hesitou sobre o rumo a
tomar. Finalmente, encontramo-nos no boulevard Serrurier.
— Não foi nada de grave. Você teve um momento de depressão, de
nostalgia, e desejou a presença de alguém... Mas não precisava
desculpar-se.

— Sim, tem razão. Estou atrasando-a. Talvez tenha outros
compromissos. Passear de noite, com este frio. . .
Protestei que, pelo contrário, me era agradável. Pareceu-me que ele
se dispunha a despedir-se na esquina da rua; via a imensa artéria e
as sombras em redor, gente entrando aos pares em suas casas, os
homens levando pão, garrafas, gente que sabia para onde ia, que
poderia prolongar pelo tempo que quisesse o prazer de falar com os
seus.
— Pensei que você me julgasse tagarela ou cacete. Depois da outra
noite, pareceu-me que evitava falar comigo.
— Eu? — fez Arezki.
Olhou-me. Sorriu. Isso acontecia-lhe raramente.
— Mas como quer você que se fale durante o trabalho? Além
disso, não quero causar-lhe complicações. Se nos vissem falar, sair
juntos...
Estávamos no boulevard, onde os automóveis se espaçavam,
finalmente, naquele corredor de luz formado pela iluminação de
néon amarelo.
Ele pressentiu o meu afrouxamento e discutimos alegremente sobre
o nosso trabalho, os camaradas e a linha de montagem.
— Como é que você fala tão bem o francês?
— A sorte. . . — disse ele.
A Porte de Pantin, o abrigo da parada de ônibus, encontraram-se
subitamente à minha frente. Era preciso separarmo-nos, pois. O
ônibus chegou em seguida. Antes de eu subir, quando já tínhamos
desejado boa noite, ele abaixou a gola do meu casaco. Com o punho,
fiz um círculo no vidro embaciado e vi-o olhar para a esquerda e
para a direita, antes de atravessar a rua.
Oh, lagos adormecidos, veredas floridas, bosques repletos de
avencas e samambaias, campos de trigo, onde a bem-amada espera,
mais loura que o ouro das espigas, riachos que se acompanham a
dois, de mãos enlaçadas! Velhos sonhos calcados, soterrados, mas

não mortos. Eis aqui o que me tocou: a Porte des Lilás, a descida na
direção de Pré Saint-Gervais, tendo, no horizonte, a fumaça que se
extingue lentamente nas fábricas de contornos esbatidos, a campina
suburbana dissecada, emurchecida pelo frio e a atmosfera viciada, o
boulevard quase deserto em que os carros roçam os passeios e, perto
de mim, este homem com quem eu vogo à deriva, pela segunda vez,
como se o paraíso nos aguardasse no fim do caminho.
No fim do caminho havia o "boa noite, até amanhã", já num tom
mais afetuoso. Cada um seguia o seu caminho. As nossas conversas
tímidas continuavam difíceis. Uma só palavra podia fazer com que
ele se encolhesse, quando se mostrava confiante apenas um
momento antes.
Espiar as metamorfoses da árvore, deixar os olhos vaguearem pelos
caminhos imaginários, pontilhados de estrelas, beber de madrugada
a água fresca, à noite a neblina, entregarmo-nos a uma entrevista
amorosa pela janela aberta sobre um retângulo de céu, plantas em
vasos, tênues contornos de ramos, tudo isso nos faz, mesmo contra
a vontade, diferentes dos que não tiveram tempo para tanto.
Diferentes mas não melhores. Mas eis-nos carregados para toda a
vida de emoções e sensações incômodas, embaraçosas, e — como
através de um calidoscópio — cada acontecimento que surge é
deformado, alongado, colorido, moldado à nossa feição.

Mutilada pela minha vida estiolante, pela minha paixão fraternal e
meus horizontes limitados, a minha sensualidade bem viva, mas
que só pôde exprimir-se com essas contemplações noturnas e as
alegrias místicas da renúncia, explodiu ao calor daquela amizade
secreta.
Pela quarta vez, Arezki soprou-me ao ouvido "esta tarde a espero".
Mas acrescentou um pouco depois:

— Não na parada de ônibus. Eu lhe explicarei. Pegue o metrô, em
direção a Villette. Desça em Stalingrad e espere-me no alto da
escada. De acordo?

Foi um longo discurso. Mustafá interrompeu-o uma vez; o "Magiar"
passou entre nós e Bernier, da sua escrivaninha, surpreendeu-nos
muito juntos.
Stalingrad não era arrebalde mas a própria cidade. Arezki
encontrou-me onde me pedira que o esperasse, no meio da
multidão que subia e descia as escadas de pedra.


— Vamos por ali. . .
Muitos árabes circulavam à nossa volta. Atravessamos e seguimos
pela rue de Aqueduc, mal iluminada. Arezki me fêz entrar num
pequeno café, cuja proprietária, uma velhota, se achava instalada
atrás do balcão.
— Boa noite, vovó — disse êle, esfregando as mãos. — Como vai
essa saúde?
— Boa noite, meu rapaz. Boa noite, senhorita. Arezki escolheu a
última das quatro mesas cobertas
com toalha de oleado.
— Está muito frio lá fora.
— Sim.
Mas eu preferia a noite e a liberdade de passearmos sem nos
vermos. Aqui, estávamos imóveis, só podíamos mexer os olhos.
A velhota trouxe dois cafés. Arezki conhecia o local. Muitas vezes
comera ali, quando trabalhava naquele bairro.
_ Numa loja de eletricista — disse ele. — Já tive uma porção de
ofícios. Mas isso não conta. O que conta é aquilo que se é, não o que
se fez.
Aprovei. Não me atrevia a dizer-lhe que se era também o que se
fazia. Falamos de Paris. Arezki explicou-me a geometria da cidade.
Perguntei-lhe se gostava de Paris.
_ Já gostei muito, mas muito mesmo. Agora não gosto de nada.
Seus olhos reluziam no rosto triangular. Nunca o vira tão perto de
mim.


— E Argel. . . gosta de Argel ? — perguntei-lhe sorrindo.

— Não gosto de lugar nenhum do mundo. Quando lhe falei da
guerra, o fulgor de seu olhar
extinguiu-se. Desviou os olhos e esforçou-se por evitar os meus. A
velhota resmungava sozinha, mexendo nas garrafas. Sentíamo-nos
abrigados. Arezki tocou duas vezes nos meus dedos. Refugiei-me
num silêncio que se prolongou quando ele me encarou sorrindo.
A proprietária já mostrava sinais de impaciência. Dois cafés numa
hora, não era um negócio compensador. Arezki olhou o relógio.
— Tenho de voltar para casa.
Encontramo-nos na rua, onde o frio cortante nos paralisou os lábios.
No calor do metrô, Arezki explicou-me que me deixaria ali. Voltaria
para casa a pé, tinha de ir ver um amigo pelo caminho. Disse-lhe
que não tinha importância. Conduziu-me até à plataforma de
embarque, indicou-me onde eu tinha de baldear. A composição
surgiu em seguida. Então ele atraiu-me a si e beijou-me no rosto,
rapidamente. Não me desprendi; deu-me outro beijo e soltou-me.
Entrei no vagão e, depois, bruscamente, dominada pelo desejo
intenso de ficar com ele, empurrei os meus vizinhos e saltei de novo
para a plataforma. O trem pôs-se em marcha. Eu vira Arezki partir
pela escada da esquerda.
Corri; cheguei ao fundo da escada. Êle já desaparecera. Por onde ir?
Vários corredores se abriam diante de mim. Um deles tinha o
letreiro "Saída". Arezki dissera que regressaria para casa a pé. O
revestimento de ladrilho branco do corredor imprimia-lhe um ar de
pesadelo, como o de um asilo, e nos dava vontade de sair gritando.
Transpus a borboleta de saída. Era intenso o vaivém de gente,
entrando e saindo da estação. Nada de Arezki. Mas, à direita,
julguei vê-lo. Avancei para a rua. Entre os pilares do metrô elevado,
havia dois carros da polícia e um grupo de homens, enquadrados
por agentes com metralhadoras. Via aquele espetáculo pela
primeira vez. Outros policiais dispersavam e dirigiam os
transeuntes. Imóvel, no passeio, eu refletia. Estaria Arezki naquele
grupo? A alguns metros de mim, de braços levantados? Não era


possível distinguir, por causa da noite e da muralha de policiais.
Tive medo. Não podia dar um passo adiante. As capas enceradas, as
armas na horizontal, os carros negros, a noite negra, os cinturões
negros, as polainas negras e brilhantes. Arezki está ali, pensava eu.
E desejei que êle me visse. Mas o medo me paralisava. Entretanto,
as pessoas que passavam não pareciam incomodadas. Dois dos
policiais que vigiavam a escada olharam para mim. Voltei a subir
alguns degraus e olhei mais uma vez para trás, antes de passar a
borboleta. Agora via apenas as rodas dos carros e algumas sombras
gigantescas sob os pilares, em que as metralhadoras adquiriam as
proporções de canhões.
Tive vontade de correr para casa de Lucien e contar-lhe tudo. Mas
regressei a meu quarto e meti-me na cama sem jantar. Imaginava
Arezki de braços para o alto. Os detalhes de seu rosto, que eu
descobrira essa mesma noite, faziam-no mais querido.
Mas adormeci, apesar de tudo, e levantei-me atrasada. No entanto,
arrumei-me com tanta rapidez que acabei chegando à fábrica muito
antes da hora. No vestiário ainda vazio, o ranger das dobradiças
quando abri o meu armário feriu-me como uma bofetada. Fui
depressa para o meu lugar e sentei-me dentro de um carro, a fim de
observar os que chegavam. Arezki apareceu, acompanhado pelos
tunisinos, com quem conversou por alguns minutos. O "Magiar"
subiu para a linha de montagem, cantarolando. Viu-me e disse
"bom dia", expressão que Mustafá lhe ensinara. O pequeno
marroquino saudou-nos. Daubat e o afinador pararam junto da
escrivaninha de Bernier, que limpava a poeira do tampo. Esses
escassos minutos antes de a linha de montagem iniciar sua marcha
tinham a doçura de uma suspensão de pena. De todas as vezes eu
imaginava o esperado milagre: Gilles aparecer com uma vara e um
quadro gigante, explicando-nos, em sua bela voz severa, as
metamorfoses em que as nossas mãos e músculos participavam.
A sirena fêz correr os retardatários. Os motores arrancaram, os
carros avançaram, passando diante de nós sem jamais voltar e,


funcionando em espaços limitados, segundo gestos calculados e
medidos, minúsculas engrenagens que giravam quase sem ranger,
nós trabalhávamos para esse fim sublime: a produção.
Arezki procurou falar-me diversas vezes, sem o conseguir. A longa
manhã arrastava-se sem que trocássemos uma só palavra. Mustafá e
Arezki discutiram várias vezes. Arezki parecia irritado e o seu
companheiro tentava fazê-lo rir mas em vão.

— Vá, — gritou Arezki — vá ver a moça lá da frente e deixe-nos
trabalhar.
Mustafá retirou-se, vexado.
Ao meio-dia, segundo o rito, Arezki trouxe-me a estopa embebida
em gasolina. Pousei a minha placa e apoia-mo-nos às coiunas.


Mustafá veio juntar-se a nós. Interpelou Arezki e os dois afastaram-
se em direção ao começo da linha de montagem.
Assim que soou a sirena para o almoço, precipitei-me no corredor,
mas, para despistar, parei junto de Daubat. Arezki estava alguns
metros atrás dele.


— Então, minha aluna, vamos comer?
— Sim, mas. . .
Eu improvisava rapidamente.
— Mas gostaria de falar com o senhor sobre o meu irmão. . .
— Comigo? — disse êle, espantado.
Arezki já se perdera no meio dos operários que se precipitavam
para a saída. Renunciei a juntar-me a êle.
Daubat tirou seu avental e pendurou-o num prego, do qual
pendiam também enormes tesouras.
— Atenção, Mohammed, se eu perceber que você mexeu aí. . .
Vestia um suéter côr de vinho tricotado a mão e, por baixo, uma
camisa de flanela castanha que lhe desenhava um ventre já um
tanto saliente.
— Então, que há com o seu irmão?

— Êle não suporta a pintura. Está com a saúde bastante abalada. O
senhor não podia pedir que o mandassem para aqui, para trabalhar
com. . .
— Eu? — cortou Daubat, surpreendido. — Mas é a Gilles que você
deve dirigir-se! Como é que se lhe meteu na cabeça a idéia de que
eu... O seu irmão que procure o médico e o delegado.
— Êh! — gritou o afinador, de passagem. — O que vocês estão aí
conspirando?
Daubat riu.
— Ela está-me falando do irmão. O rapaz está doente na pintura
e gostaria de ser transferido.
O afinador deixou de rir.
_ A culpa é dele. Quando estava conosco, tudo o que tinha a fazer
era ficar tranqüilo e de bico calado. Agora, os "cartolas" vão deixá-lo
lá em cima até que ele dê o fora.
Parou para voltar a acender o cigarro, que conservava apagado a
um canto da boca e Daubat, menos brutal, tentou mostrar-me a
situação, encarecendo o seu interesse pessoal:

Eu mais de uma vez quis explicar-lhe. É um moco,
ainda inexperiente, que pouco conhece da vida. Disse-
lhe: Lucien, deixe pra lá esses mestiços, não se meta nas
histórias deles, faça o seu trabalho, não discuta com os
seus chefes, nada de política dentro da oficina. Não me
escutou, brigou com todo o mundo, até com o delegado
sindical. Houve um bate-boca danado mesmo aqui dentro,
antes de você chegar. Ele provoca, provoca. Acabou por
nos encher a todos e aos chefes também. Para eles não é
um elemento interessante. Lucien discute muito.

— Sim, agora compreendo. Desculpe, — disse eu — atrasei o
senhor para o seu almoço. . .
— Não tem importância. Você é que tem de catequizá-lo, fazer-lhe
ver as coisas. Bom apetite...

Empurrei a porta do vestiário. As mulheres tinham-se instalado e o
meu lugar habitual encontrava-se ocupado. Acerquei-me de uma
operária que colocara as pernas em repouso sobre o banco.

— Se faz favor, deixe-me um lugarzinho. . .
Ela retirou os pés e sem me dar mais atenção reatou seu bate-papo
com as colegas. Uma delas contava sua alteração com o chefe de
turma.
Onde eu estava antes — concluiu ela — era ainda mais duro.
O seu perfil era agradável, mas os cantos dos olhos estavam
marcados por excessivas rugas. Os cabelos ondulavam em redor das
orelhas e delimitavam o ocre da sua maquilagem.


— Mas, pelo menos, — acrescentou ela — tinha a vantagem de não
haver árabes.
Eu corei, porém ninguém olhava para mim.
A moça que me recordava Marie-Louise acabara de entrar. Não se
lhe assemelhava pela forma ou traços fisionômicos, mas pelo seu
olhar tranqüilo e ousado, seu modo de andar, a maneira de vestir o
guarda-pó de trabalho apertado por um largo cinto de verniz preto,
seus pequenos seios que apareciam em relevo, as argolas brilhantes
que pendiam das orelhas. Pediu um cigarro e respondeu à que a
interrogava que o grandalhão moreno da pintura lhe pagara um
café.
— Na pintura, todos são mulatos — comentou uma das mulheres.
As outras deram sonoras gargalhadas. Na seção da pintura, quase
todos os homens eram negros africanos. A moça deu de ombros.
— Então vocês julgam que eu vou dar conversa a um negro ?
— Não sei, não. Bem que você deixou um argelino doido varrido.
— Ah, esse! Ainda vou acabar por partir-lhe a cara. Fica plantado
diante de mim, olhando da cabeça aos pés, os olhos deste tamanho,
como um tarado. Esta manhã, todo ele era sorrisos.
— Eles são pegajosos com as mulheres.. .

— Mas o morenão da pintura... esse, palavra que me deixou
gamada.
— Faltam dez minutos — disse uma delas.
— Bem, — suspirou uma outra — então é hora de retocar a fachada.
Abriu uma caixinha de pó de arroz e aplicou-se à tarefa com um
esmero que desmentia o tom irônico da sua expressão.
A minha vizinha interpelou a moça — cujo nome era
pidi porque deixara escancarada a porta do vestiário.
_ Estou espiando a entrada do meu garoto. . . — respondeu ela.
No enquadramento da porta, com seu guarda-pó florido e sua
maquilagem dourada, com enormes argolas dançando nas orelhas,
ela ressuscitava as cores, mortas aqui dentro. E esse falso brilho
espalhafatoso, que em qualquer outra parte seria chocante, dava-
nos, nesta geometria tristonha, um gosto de vida. Eu imaginava os
olhares, os desejos, que os seus movimentos provocavam. 0 menor
de seus gestos tinha um prolongamento erótico, de que ela parecia
inconsciente; Didi expunha-se, qual guloseima apetitosa, aos
olhares famintos dos homens, e furtava-se à sua fome.
Alisei os cabelos com a mão e saí. A sirena dava o seu sinal. Corri
com as retardatárias.
Transposta a porta da oficina, tudo mudava: cheiros e ruídos
prendiam-nos em suas garras e podíamos debater-nos todo o tempo
que quiséssemos — eles acabariam por vencer. Sobretudo, os
ruídos; os motores, os martelos, as máquinas-ferramentas
estridentes como serras e, a intervalos regulares, a queda das
pesadas chapas.
Uma só vez Arezki me olhou, mas seus olhos não falavam, estavam
ausentes. O dia escoava-se lentamente, até não haver mais do que
um pálido reflexo nas janelas baças. "Mais uma", disse o pequeno
marroquino.
Arezki estava longe. A sua caixa de ferramentas ficara no chão, ao
lado do carro que eu controlava. Curvei-me, revistei a caixa,


imaginando de súbito que ele tivesse escondido ali algum recado
para mim. Nada encontrei e desci, decepcionada. Os carros
esvaziavam-se, os ruídos atenuavam-se. Mais alguns minutos e
morreria o ronco da linha de montagem. Reconheci as espáduas de
Arezki entre os operários que já se encaminhavam para a porta.

Não me saudara sequer. Conservei ainda a esperança de o encontrar
na escada, depois à saída e, finalmente, no ônibus. Mas voltei para
casa sem o ter visto, sozinha e infeliz.

Aprendi o que significavam todas estas expressões: desfalecer,
engolir em seco, sentir um aperto no coração, de que eu antes
zombava. Cada vez que Arezki passava diante de mim,
murmurando apenas um convencional "perdão" ou "desculpe", cada
vez que ele deixava perder uma ocasião de ficar a sós comigo, era
todo o meu corpo que doía.
Arezki chegava de manhã com Mustafá e os tunisinos que
trabalhavam na forração. Ao meio-dia, nunca deixava de me enviar
por Mustafá a estopa embebida em gasolina, que o seu irrequieto
amigo me entregava fazendo caretas que não conseguiam fazer-me
rir. Trabalhava sempre afastado de mim. E à noite, quando entrava
na fila do ônibus, eu deixava passar voluntariamente muitas
pessoas na minha frente, na esperança de vê-lo surgir. A iluminação
feérica da Ponte Nacional deixava-me indiferente e, no entanto, a
chuva fina e lenta transformava em espelho a calçada habitualmente
baça. Se alguém me magoava, as lágrimas de pronto me subiam aos
olhos. Os títulos dos jornais davam-me vontade de chorar, e o meu
reflexo desordenado nas vitrinas, e cada pequeno desacordo sobre o
qual eu gostaria de concretizar a minha tristeza e melancolia. E que
tristeza? Que melancolia, afinal de contas? Dizia para mim mesma,
quando me acontecia raciocinar. Em primeiro lugar, tenho de voltar


para casa. Reencontrarei a vovó, Marie, o quarto de Lucien. Agora
será meu e arrumá-lo-ei à minha maneira.
Porte de la Chapelle. Segui a pé até ao Lar. Um perfume de quermesse
espalhava-se por todas as ruas. A aproximação do Natal
transformava todas as vitrinas. As salsicharias, as padarias,
iluminavam as vitrinas e prateleiras com guirlandas elétricas e
enormes inscrições a tinta branca nos vidros falavam de consoadas,
de ceias e festas natalinas. Era violento, gritante, animado, quente.
Tudo isso me compungia, agitava e excitava. Uma recordação me
acudia à memória: o Sr. Scrooge e aquela atmosfera dos contos de
Dickens em que são descritos os perus enormes e doces gigantescos.
O Sr. Scrooge. . . Bons tempos esses. Eu tinha treze anos e Lucien,
seis. Comíamos mal e jamais tínhamos visto um peru. A vovó
descrevia-o para nós. Eu lia em voz alta para ela e meu irmão. Lucien
me escutava, imóvel, de olhos arregalados. Eu misturara tudo e
acreditava-me em parte responsável por essa paixão pelas
narrativas imaginárias. Levantando os olhos, no final de cada
parágrafo, eu surpreendera e conservara a expressão atenta,
abandonada, de seu rosto. Envaidecida, quando, afinal, não era a
mim que se dirigiam aqueles olhos expressivos e absortos,
perturbada e contente, cometera o erro de brincar com Lucien de
mãe e filho. O Sr. Scrooge... Lucien ainda se recordaria?

Joguei-me sobre a cama, assim que fechei a porta, e, durante um
momento, toda a fadiga veio bruscamente à superfície, pregando-
me ao leito, incapaz de esboçar um gesto. Sentia-me completamente
exausta e sem qualquer disposição. Os músculos maltratados
vingavam-se. Pronunciei o nome de Arezki em voz alta e as
lágrimas voltaram-me aos olhos.


Por diversas vezes me pareceu que Arezki olhava pa-rmm. Eu
procurava não levantar os olhos do trabalho. Magiar" me sorria
amiúde. Já dizia agora corretamente "obrigado", "perdão", "bom dia"
e "merda"; esta última palavra reservava-a êle para Bernier.
Arezki encontrou-se subitamente atrás de mim. Eu estava encostada
aos vidros, escrevendo apressadamente antes de colocar a papeleta
na traseira do carro, e nesse momento êle aproximou-se; mas, ao
mesmo tempo, Gilles atravessava a linha para me falar. Arezki
imobilizou-se.

— Srta. Elise, — disse Gilles — a coisa vai? Sim? Os seus forros,
cuidado, hem? Foram encontrados três rasgões não assinalados.
Gilles impressionava-me. Fixou-me por alguns segundos com seu
olhar puro e penetrante. Inclinando-se para mim, acrescentou:
— Em janeiro, arranjarei as coisas para que seja transferida para os
escritórios.
E voltou a subir para o tapete rolante da linha, apoiando-se ao capo
do carro que passava, saltando depois, pesadamente, para o
corredor.
Olhei para a minha esquerda. Arezki contemplava sua chave de
parafusos. Ouvi o pulsar violento de meu próprio coração. Gostaria
de me distanciar, sem parecer que o esperava, mas as minhas
pernas não avançavam. Arezki acercou-se e gritou rapidamente ao
meu ouvido:
— Quer me esperar esta noite no ponto de ônibus, como antes? Mas
hoje saia mais tarde, às seis e vinte, seis e vinte cinco. De acordo?
E logo acrescentou, num vozeirão:
— O carro que está chegando está com o forro rasgado por cima do
retrovisor!
O veículo passou e veio o seguinte. O "Magiar", que descia, olhou-
me espantado por ver-me ali imóvel, como que fulminada. Arezki
fora juntar-se aos tunisinos que colocavam os forros, sem esperar a
minha resposta.

A fim de me retardar o mais que pudesse, lavei repetidas vezes as
mãos. As mulheres saíam apressadamente, sem se preocupar com o
aspecto do rosto. Esperava-as um outro trabalho, para o qual não
era necessário embelezarem-se. As mais novas, ou as que tinham
encontro marcado, cuidavam do "reboco". Ocupei-me
esmeradamente do meu. Nove horas de fábrica destruíam o mais
harmonioso dos rostos.

— Que bom se eu me aposentasse agora. . . — suspirou a minha
vizinha, abotoando o casaco.
Eu protestei.
— O quê? — disse ela. — Será o princípio da bela vida!
— Será o fim da sua vida. . .
— E daí? E agora, o que é a vida para mim? Arrumar a casa
correndo, de olhos no relógio, correr esbaforida para chegar aqui na
hora, trabalhar todo o santo dia, voltar às pressas para casa... Ah,
depois terei tempo, deixarei a vida correr, eu não. . .
Os ponteiros do relógio da Porte de Choisy assinalavam seis e meia.
Arezki já estava na fila, porém um pouco distanciado. Caminhei
para ele. Fez-me um sinal. Compreendi e coloquei-me atrás dele
sem dizer palavra. Lucien chegou. Não me viu e eu fiz de conta que
também não o vira. Acendeu um cigarro e, como segurava o fósforo
junto do rosto, surpreendi-lhe o perfil envelhecido, escurecido pela
barba de vários dias, ossudo.
Entramos na mesma fornada. Impossível recuar. Ele ter-me-ia visto.
Abri caminho para a dianteira do ônibus, tomando a precaução de
não olhar para trás. Arezki ignorou-me. Na Porte de Vincennes, onde
descia muita gente, aproximei-me dele. Perguntou-me onde é que
eu desejava descer, para podermos caminhar um pouco.
— Na Porte de Montreuil — disse eu.
Eu percebera nas noites anteriores uma rua muito movimentada
onde me parecia que nos perderíamos facilmente no fervilhar da
multidão.

Desci e êle seguiu-me. Lucien ter-me-ia visto? Essa suposição me
incomodava. Atravessamos e, observando dois cafés, um ao lado do
outro, Arezki perguntou:

— Um chá quente?
— Como quiser. . .
Havia muita gente e muito barulho. Os bancos pareciam todos
ocupados. Arezki avançou para a segunda sala. Esperei-o junto do
balcão. Alguns clientes encararam-me; sentia seus olhos em mim e
adivinhava seus pensamentos. Arezki reapareceu. Quando o vi
caminhando para mim, tive um choque. Meu Deus, como êle tinha o
ar de árabe! Alguns, na linha de montagem, podiam prestar-se a
confusões, com sua pele clara e cabelos castanhos. Essa noite, Arezki
não trazia camisa, mas um pulôver de lã preta ou castanha, que
ainda mais o escurecia. O pânico me invadiu. Gostaria de estar na
rua, misturada na multidão.
— Não há lugares. Não tem importância, vamos beber no balcão.
Venha.
Impeliu-me para o ângulo do balcão.
— Um chá?
— Sim.
— Eu também.
Um garçom serviu-nos prontamente. Eu soprava na xícara para
beber mais depressa. No espelho, por detrás da máquina de café, vi
um homem com o boné dos empregados do metrô que me
encarava. Voltou-se para o seu vizinho, que dobrava o jornal.
— Pois eu, — disse êle, falando alto — despejava uma bomba
atômica na Argélia.
Olhou de novo para mim, o ar satisfeito. Seu vizinho não estava de
acordo. E êle preconizou:
— . . . e meter toda essa crioulada que veio para a França em
campos de concentração.
Tive medo de que Arezki reagisse. Olhei-o de soslaio; continuava
calmo, aparentemente.



_ Parece que vão nos pôr em equipes — disse ele.
Sua voz era tranqüila, segura. Fora Gilles quem o informara e
descreveu-me as vantagens e inconvenientes. Descontraí-me. Fazia-
lhe muitas perguntas e, enquanto ele respondia, eu escutava o que
diziam as pessoas à nossa volta. Tive a impressão de que,
respondendo-me, Arezki também seguia a conversa dos outros.
Quando passei diante do homem que queria lançar uma bomba
atômica na Argélia, ele deu um passo para mim. Por sorte, Arezki ia
na minha frente. Nada viu. Desviei-me sem protestar e encontrei-
me na rua com a sensação de ter escapado a um perigo.
A rué d'Avron desenrolava-se, cintilante, até ao infinito. Durante
alguns minutos, as vitrinas absorveram-nos.

— Então, — indagou ele ironicamente — como tem passado?
— Eu? Eu estou bem.
— Tinha um ar infeliz, nestes últimos dias. Não estava doente, não?
Pode gracejar à vontade, Arezki. Você está aqui a meu lado. Esta
noite não preciso evocar seu rosto. Você está bem presente. Tenho
até vontade de lhe falar, no cenário em que caminhamos, do Sr.
Scrooge, dos perus. É um momento privilegiado, irrealmente
suspenso acima de nossas vidas como as guirlandas luminosas
penduradas ao longo da rua. Só falar para dizer frases banais,
supérfluas, que nos façam sorrir.
Peço-lhe que me desculpe por estes últimos dias.
Estive muito ocupado. Chegaram alguns parentes a minha casa.
Pensei que estivesse zangado. Nem sequer me cumprimentava.
Protestou. Dirigia-me um aceno de cabeça todas as manhãs. E
depois, era assim tão importante? Era preciso, disse êle, escolher um
dia, um lugar fixo para nos encontrarmos.
Aprovei. As lojas rareiam, a rue d'Avron cintila menos e adiante,
mais ao fundo, é sombria, escassamente iluminada. Atravessamos a
rua. Arezki segura-me o braço, depois passa o dele por trás de mim,
pousando sua mão no meu ombro.



— Estarei muito ocupado nos próximos dias. Mas na segunda-feira,
por exemplo... O seu irmão entrou atrás de nós. Você viu?
— Sim, eu vi. . .
Durante o nosso primeiro passeio, observou êle, eu só falara de
Lucien.
— Cheguei a perguntar a mim próprio se você era realmente irmã
dele. Onde poderíamos encontrar-nos na segunda-feira?
— Mas. . . eu não conheço Paris!
— Este bairro não é bom — declarou êle.
Fêz-me dar meia volta. Subimos de novo na direção das luzes.
— Escolha um lugar que lhe agrade e diga-me segunda de manhã.
— Onde? Na linha de montagem? Diante dos outros?
— E por que não? Os outros falam-se. Gilles me fala, Daubat...
— Esquece que sou argelino...
— Sim, esqueço. . .
Arezki apertou-me sacudindo-me.
— Repita. É verdade? Esquece? Seus olhos devassavam-me.
— Sim, você sabe muito bem. Não posso ser racist a . . .
_ É, eu Sei. Eu pensava antes, por causa de Lucien e de gente como
ele, que se tratava, pelo contrário, de um pouco de exotismo, de
mistério. Há um ano. . .
Recomeçamos a marcha e Arezki segurou-me de novo pelo ombro.
_ . . conheci uma mulher. Eu. . . sim, amei-a. Ela lia todos os dias no
jornal um folhetim ilustrado que se chamava "A Paixão do Mouro".
E isso subira-lhe à cabeça. Misturava isso com as recordações de seu
pai, que estivera na resistência durante a guerra contra os alemães.
Calou-se. Mergulhamos de novo na multidão e o braço de Arezki
embaraçava-me. Tenho medo das pessoas. Numa banca de jornais, a
edição vespertina anunciava: "Rede da FLN desmantelada em
Paris".
Arezki leu, seu olhos semicerraram-se um pouco.



— As razões de amar — disse eu secamente — jamais são puras ?
Muitas vezes, é preciso contentar-se. . .
— Eu não — cortou ele bruscamente. Seguimos silenciosamente até
à entrada do metrô.
— Temos de nos separar. Já é tarde. Reprimi um "já?" que por
pouco me escapava.
— Sim, deve estar fatigado.
— Fatigado? Não.
Essa idéia desagradava-lhe.
— Tome nota disto, — acrescentou suavemente, e sua voz era
afetuosa — há três dias, por sua causa, não me deito.
E como visse a minha estupefação, corrigiu:


— Não, eu quero dizer, não durmo. Queria vê-la, mas nao podia.
Não quero falar com você diante dos outros. Pensei em mandar um
recado pelo seu irmão, mas preferi esperar. Sim, dormir. . . não
queria dizer deitar. É uma expressão nossa.
Você fala perfeitamente o francês — disse eu, para ocultar a minha
emoção.


— Quanto ao falar, a coisa passa. . . Mas escrever é outra história.
Cometo muitos erros.
Um carro da polícia passou buzinando ininterruptamente. Arezki
largou-me. O veículo não parou.
— Está frio. Vamos, é hora de voltar para casa. Explicou-me como
deveria fazer para voltar.
— Onde mora?
Ele não respondeu logo. Depois disse:
— Em Jaurès.
Arrependi-me da pergunta. Sabia que êle estava mentindo.
Entramos no mesmo compartimento e sentamo-nos um em frente
ao outro. Explicou-me simplesmente:
— Desça aqui e tome a direção Dauphine — aper-tando-me
vigorosamente a mão que eu lhe estendia.

Passei o domingo seguinte na cama. Dormi uma enormidade. Lera
não sei onde que o sono embeleza.
Na segunda-feira pela manhã, Mustafá e o "Magiar" chegaram
atrasados. Mustafá chegou primeiro e, aproximando-se de Bernier,
que o espiava, fêz-lhe a saudação militar. Foi sobre o "Magiar" que
recaiu a cólera de Bernier. Mas o "Magiar", que de dia para dia se
mostrava mais senhor de si, afastou-se e entrou num carro. Viu-me
e gritou "oh, lá lá", designando Bernier com a cabeça. Arezki
trabalhava muito mais longe e ainda não me cumprimentara. Que a
linha pare! O tempo de me sentar e refletir calmamente. Mas a linha
não pára e os pensamentos flutuam ao ritmo dos meus gestos. Isso
provoca uma espécie de angústia sincopada. Entrevi a silhueta de
Arezki e tranqüilizei-me. Gosto de estar embarcada nesta galera
com êle.
Mustafá juntou-se a nós, quando, pela primeira vez, que, eu e
Arezki nos encontramos, aquela manhã, no mesmo carro. Arezki
despachou-o com um pretexto qualquer.


_ Esta noite não posso — disse ele imediatamente.
_ Fica para outra ocasião, está bem?
O pequeno marroquino empurrou-me com brusquidão. Gilles
estava atrás dele. Mustafá voltou com uma caixa de pregos e
despejou-a diante de Gilles; depois, sem se preocupar em apanhálos,
foi instalar-se junto de Arezki.
O afinador entrou por sua vez no carro.
_ É ele — disse o homem apontando Mustafá a Gilles.
Estive observando-o durante algum tempo. Quando prega,
puxa o tecido, rasgando-o.
Gilles empurrou Mustafá para o lado e tirou-lhe o martelo.
Examinou atentamente o snapon e começou a martelar o friso.
Mustafá esperava, de nariz franzido e resmungando em árabe.
Gilles, com um gesto de cabeça, chamou o afinador:



— Ele é obrigado a puxar o tecido para embuti-lo debaixo do snapon
e é isso que origina os rasgões. . . Você tem de deixar três ou quatro
centímetros de folga. Está cortando muito justo.
Mustafá empertigou-se, assobiando. Gilles desceu e
o afinador seguiu-o.
— Então, o que é que eu faço? — gritou Mustafá. — Continuo ou
não?
— Continua, claro! E não estique o forro demais! Gilles afastou-se.
Fiquei sozinha no carro. Arezki já o abandonara há alguns minutos.
Saí do veículo e contornei-o. O "Magiar" colocava as lanternas
traseiras. Uma fadiga insidiosa instilava-se-me nos músculos, na
barriga das pernas. Apoiei o braço na tampa aberta do porta-malas.
A tampa vacilou e desceu com um ruído seco. Ouvi o grito do
"Magiar".
Largou as ferramentas e, mais depressa do que eu, abriu de novo a
tampa. Mas o rebordo, naquela altura da linha
e montagem, ainda não passou no acabamento; é apenas uma chapa
tosca e cortante. A mão e o braço do "Magiar" estavam cobertos de
sangue.
Fiquei olhando, sem poder falar, seu punho cortado, enquanto
Mustafá, o marroquino e um outro olhavam tão estupidamente
quanto eu.
O "Magiar" agarrava o pulso. O sangue corria livremente. Fez com
os dedos o gesto de atar fortemente um lenço que retirou do bolso.
Estremeci. Apanhei o lenço duro de crostas secas, para fazer um
garrote improvisado.
— Venha — disse eu.
O homem seguiu-me. Bernier não estava
Procuramo-lo. Os outros olhavam-nos e
por que Arezki me visse.
no seu lugar.
fiquei satisfeita
— O que há?


Gilles aproximara-se. Expliquei-lhe. Ele apanhou na mesa de
Bernier uma guia para a enfermaria. Refletiu e deu-me outra.

— Acompanhe-o. Ele não fala francês.
Atravessamos a fila de máquinas. Ninguém assobiou. O "Magiar"
estava impressionante. No primeiro andar, quando passamos diante
dos mictórios, ele parou e disse: "mijar". Mais uma palavra que ele
aprendera.
Esperei diante da porta. Nunca mais saía. Inquietei-me, imaginei
um desmaio e, como não houvesse ninguém à vista, abri a porta
para ver o que se passava. Um cheiro forte como num estábulo. Era
repugnante. O "Magiar" fazia a sua toalete. Tirara a fralda da
camisa, molhara-a na água corrente dos mictórios e limpava com ela
as mãos. Fiz-lhe sinal, "depressa, depressa". Sorriu e mostrou-me a
palma da mão, quase branca.
Na parede, toda rabiscada com inscrições, havia frases
reivindicadoras gravadas a canivete.
"Os nossos cinco francos."
"Queremos chuveiros."
"O P.C. no Poder!"
Muito poucas eram obscenas.
_ Depressa! — gritei de novo ao "Magiar" que la


vava agora o rosto com a mesma fralda molhada.
Na parede da direita estava gravado, em letras trêmulas, feitas, sem
dúvida, afobadamente : "VIVE LA LE-GERI".
Era, com certeza, "VIVE L'ALGÉRIE" e impressionava-me que o
autor não soubesse escrever sequer o nome que assim queria
glorificar. Recordei-me do letreiro de Mustafá : "Ne pas tu se".
Gostaria de falar de tudo aquilo com Arezki.
Expliquei à enfermeira como ocorrera o acidente e deixei o "Magiar"
sentado numa cadeira, de olhar fixo na chaleira cantante. Seus olhos
exprimiam satisfação total. Devia felicitar-se por ter feito sua toalete
antes de entrar numa sala tão branca e aconchegante. A enfermaria


era, para todos aqueles homens, acostumados a morar em albergues,
favelas ou hotéis sórdidos, uma imagem da doçura de
viver, um luxo a que podiam dar-se de vez em quando.
Voltei à oficina e entreguei a Bernier a guia carimbada pela
enfermeira.

— O que tem ele? — perguntou.
— Penso que vão mandá-lo para o hospital.
— Estes estrangeiros — suspirou ele — têm um fraco pelos
acidentes.
— A culpa foi minha. Fechei a mala involuntariamente.
— É preciso fazer um relatório em caso de interrupção. Coloquei
Daubat no seu lugar. Vamos lá. . .
Mustafá, Daubat e alguns outros vieram fazer-me Perguntas. Arezki
também veio. Houve entre nós um breve olhar sem significação.
Confiar-me a meu irmão? Eu não era boba. Sabia muito bem que
nada poderia dizer-lhe. As palavras não me sairiam dos lábios. E
dizer o quê? Resumido, fechado em palavras, tudo se reduzia a
quatro passeios na noite de Paris, a abordagens tímidas, medrosas e
a mirabolantes floreados por mim mesma bordados em torno disso.
Bernier colocou um argelino no lugar do "Magiar". 0 afinador
deslocava-se constantemente para vigiar Mustafá e os forros.
Eu já descobrira há algum tempo a hostilidade subterrânea existente
entre os operários. Os franceses detestavam os argelinos e os
estrangeiros em geral. Acusavam-nos de lhes roubarem o trabalho e
de não saberem executá-lo. 0 sofrimento comum, o suor comum, as
reivindicações comuns, tudo isso não passava, como dizia Lucien,
de "tapeação", de meros slogans. A verdade era, "cada um por si". A
maioria trazia para a fábrica seus rancores e desconfianças. Não se
podia ser a favor da fraternidade operária, quando se entrava na
oficina, e das rusgas contra os argelinos, quando se estava lá fora.
Isso explodia, algumas vezes, e cada um tratava de entrincheirar-se
na sua raça e nacionalidade para atacar ou defender-se. O delegado

sindical interpunha-se sem grande convicção. No dia em que ele
veio me entregar a carteira, confessei-lhe as minhas perplexidades e
desilusões.

— Houve tantas barbaridades entre eles — respondeu-me,
evasivamente.
Ele próprio falava dos "crioulos", dos "mulatos", e tinha-lhes raiva
por não terem participado da greve pelo aumento dos cinco francos.
A linha de montagem parou e a sirena uivou. Mustafá trouxe-me a
estopa com gasolina que Arezki lhe entregara. Era um sinal. Ele não
queria falar-me.
Apanhei o casaco e parti rumo à Porte d'Italie. Sentia necessidade de
caminhar e falar em voz alta. Rajadas violentas de vento
desmanchavam-me os cabelos e fustigavam-me a pele do rosto.
Passavam bonitas mulheres abrigadas em casacos vistosos, que as
tornavam ainda mais belas; argelinos que caminhavam com os pés
para fora, à maneira dos patos e marrecos, vestindo paletós leves de
que levantavam simplesmente a gola. Havia policiais nas entradas
do metrô para verificar as identidades, e as vitrinas, do Prisunic à
mercearia mais decrépita, ostentavam coloridas guirlandas, repletas
de luzes e decorações. Toda uma multidão feliz, bem nutrida, que
calçava em novembro sapatos forrados e vestia agasalhos de forro
duplo; que em agosto tirava férias na costa; que na Páscoa mudava
para as roupas de meia-estação. Uma multidão que ganhava seus
ócios com o surdo rosto, caminhava, acotovelava-se nas mesas dos
cafés e baixava os olhos, quando, em suas proximidades, passavam
inquietantes espécimes humanos mal nutridos, que conservavam
em novembro o vestuário da Páscoa e que, apesar do suor de seus
rostos, ganhavam a custo o pão de cada dia. Por sorte, esses
espécimes aglomeravam-se em bairros reservados — as bidonvüles
ou favelas, as hospedarias infectas — e por comunidades: argelinos,
espanhóis, portugueses e franceses, naturalmente. Entre os últimos
havia também diversas categorias: os alcoólatras, os vadios, os
tuberculosos e os degenerados. Os guetos eram uma boa idéia. Mas

essa gentinha conseguia imiscuir-se com os nativos, no metrô, nos
cafés e, ainda por cima, era barulhenta, enganava-se de direção ou
bebia escandalosamente. E, algumas vezes, nessas caricaturas da
humanidade, nesses corpos sofredores, mutilados pela miséria,
nesses quartos sombrios, frios, entre a roupa suja e a roupa que
seca, um desses resíduos albergava no seu íntimo, por milagre ou
por acaso, o clarão, a chama, a luz que o faria sofrer ainda mais. O
espírito soprava aí como em qualquer outra Parte, a inteligência
desenvolvia-se ou estiolava, esmagada.
Esses pensamentos, o frio, as mechas de cabelo esvoaçantes no
pescoço, a escapatória de Arezki, o sangue do

"Magiar" e o cheiro da fábrica, as quatro horas de linha de
montagem que me aguardavam, a carta da vovó que eu ainda não
lera, todo esse amálgama era a vida. Como ela era doce, a vida de
antes, a vida um pouco embaciada, longe da verdade sórdida. Ela
era simples, animal, rica nas possibilidades de imaginação. Eu dizia
"um dia..." e isso me bastava.
Vivo este dia, vivo a verdadeira vida, misturada aos outros seres
humanos, e sofro. "Você não é combativa", diria Lucien.
Uma ânsia física de falar-lhe fêz-me dar meia volta. Cheguei
defronte da cantina. Saíam homens. Gilles apareceu, reconheceu-
me, disse-lhe que estava esperando o meu irmão.

— Creio que não o vi lá dentro. Espere aqui. Volto já.
Passou um contramestre. Era um gordo, de chapéu. De longe,
parecera-me terrível. Tive tempo de lhe examinar o rosto e achei-o
muito menos assustador.
— Não — disse Gilles, que voltava. — Êle não está. Lucien come na
mesa defronte da minha e tenho a impressão de que não o vi hoje.
Perguntou-me se as coisas iam bem, respondi que sim e voltei para
a oficina.

Didi, a moça bonita, estava no meio do vestiário e, com a cabeça
virada para a luz tênue, passava o batom nos lábios. Viu-me e
chamou-me.

— Você é a irmã daquele moreno grande da pintura? Êle está
doente ou despediu-se?
A inquietação impeliu-me nessa mesma noite para o quarto de
Lucien. A visão de Ana deixava-me contrafeita, mas fiz das tripas
coração e bati à porta deles. Foi *ela quem abriu.


Lucien estava reclinado na cama, as costas apoiadas no espaldar da
cabeceira, e discutia com Henri, sentado na outra ponta.
_ O que foi que eu disse? — anunciou meu irmão, com uma voz
rouca. — Ela veio! Então, — gritou para mim ficou assustada?
Pensou que eu tinha morrido, hem?
_ Não. Mas vejo que está doente.
_ Doente, claro... Estou gripado, idiota. É só. E amanhã vou
trabalhar.
_ Esplêndido... E como tudo vai bem, eu não os importuno por
mais tempo.
— Espere. Sente-se ao menos cinco minutos — falou Lucien. —
Bem, Henri, continue.
Henri lia uns papéis que tinha nas mãos. Era um relato, inspirado
por Lucien, das condições de trabalho, dos métodos de produção
que êle era testemunha.


— Muito bem. Entregarei a Glottin, que o publicará no próximo
número sob a forma de "carta recebida".
— Acredita na virtude do verbo?
— Acredito no poder da opinião pública — respondeu Henri
secamente.
— Mas Glottin é um antigo comuna, não é?
— Sim, e daí?

— Nada — disse Lucien. Suspirou e tossiu repetidas vezes. — Essa
gente, quando eles deixam o Partido nao são de nada. O Partido é
que lhes dá a estrutura óssea. Quando saem, voltam ao seu estado
de ectoplasma.
— Falaremos disso outro dia, quer?
— Quero. Ana, dê-me um limão.
Ana levantou-se, abriu um limão em dois e levou-lho.
— É com isso que se trata?
Quando eu fazia esse gênero de perguntas, a minha voz tinha,
mesmo que eu não quisesse, uma ressonância desagradável, irônica
e impertinente.
Lucien voltou-se para onde eu estava. Sorriu radiosamente.


— E o seu crioulo? Vai bem?
Dissera a palavra por desejo de vulgaridade e para me ferir.
— Esta manhã tivemos um acidente!
Contei-lhe o ferimento do "Magiar", muito depressa, para desviar as
atenções.
Senti vergonha, por causa de Henri e, ainda mais, por causa de Ana.
— Continua em Paris, Elise? Decidiu ficar?
— Não, regresso no fim do mês. Vou passar o Natal em casa.
Lucien pousou o limão.
— Regressa no fim do mês?
— Recebi notícias de casa. É preciso que eu volte depressa.
Quis perturbar-lhe a consciência, senti a necessidade de
desassossegá-lo, de agitar a vida hermética na qual êle se
enclausurara, aberta somente para as grandes massas humanas, a
guerra, a situação proletária, e amuralhada do lado de dois seres,
sua filha e Marie-Louise. Quis vingar-me de sua frase. Êle
compreendeu.
— Arezki vai sentir a sua falta. Sabe uma coisa? Escolheu muito
bem, é o cara mais legal de toda a oficina, talvez de toda a fábrica.
Inclusive Gilles. Mas Gilles. . . Sim, é o sujeito de mais valor. Mas

também tem suas coisas. Trabalhei com êle, sei bem o que digo. É
suscetível, desconfiado, com rompantes de mau gênio. Gilles
também a aprecia muito.

— Gostaria de ter uma conversa com esse seu Gilles — interveio
Henri.
Lucien bocejou.
Henri levantou-se e espreguiçou-se.
_ Deixo-lhe os jornais e os panfletos. Se encontrar alguém para
distribuí-los... Sim, entre os coladores de cartazes. Como vê, sempre
servem para alguma coisa. . .
Ana saiu com Henri. Queria comprar medicamentos para meu
irmão. Quando fecharam a porta, Lucien recostou a cabeça para
trás.
_ Ele quer sempre conhecer alguém, ter uma conversa com alguém.
E acrescentou:
—É um fofoqueiro.
Eu temia ficar a sós com Lucien. Não sabia como iniciar uma
conversa e nada dizer era-me impossível.


— Havia alguém à sua procura na hora do almoço. Tive a sensação
da minha estupidez.
— Quem era? — perguntou, interessado.
— A moça que controla as fechaduras. Uma morena, bonitinha.
— Ah, sim. Oh, — disse ele de olhos fechados — uma pequena sem
história.
Soergueu-se e procurou os cigarros. Não os encontrando, recostou-
se de novo, num gesto de abandono.
— Sou mais exigente do que isso...
Não respondi. Henri partira, eu ficara, Lucien dormitava e a
distinção entre sono e vigília tornava-se difícil.
— E depois...
Uma longa pausa. A sua voz, quando voltou a falar, era enrolada,
como se tivesse a língua empastada de sono.

— Há seres que trazem em si a arma que mata o amor, o próprio
excesso desse amor. Abreviam a vida por causa da maneira voraz
como amam.
Eh, agora deu para filosofar? — perguntei-lhe,
rindo.
— Destravo, sim. . . Abriu os olhos.
— Que horas são?
— Oito e meia, vou-me embora. Cuide de você, Lucien. Emagreceu
muito, está pálido. . .
— Não recomece! Levantou-se. Ana entrou.
— Aqui tem — disse ela, colocando sobre a mesa uma bolsa que
continha os remédios.
— Quanto custou isso? — indagou meu irmão.
— Três mil e picos. . . Henri emprestou-me o dinheiro.
— Henri? H u m . . . No fim de contas, fez muito bem. É a grande
circulação da riqueza que começa.
Cheguei à porta e encarei-os. O círculo luminoso da lâmpada
envolvia-os como um projetor. Não se moveram quando girei a
maçaneta. Assim que eu partisse, o seu mundo mágico reconstituirse-
ia...
Com o punho esquerdo envolto em ataduras, o "Magiar" voltara.
Estava aparafusando de novo as lanternas traseiras.

— Então? — perguntava-lhe Mustafá, cada vez que se cruzavam.
— Bem — dizia o outro.
Uma vidraça quebrada deixava passar uma corrente de ar frio e
Bernier disse para colocarmos um cartão, enquanto não vinham
fazer a mudança.
— Há um ano que está quebrado — disse alguém. O "Magiar"
trabalhava com um jaquetão abotoado, cuja gola tinha carradas de
sujeira.

— Por que ele não veste um macacão? E você?
— Um quê? Que é isso?
— Um macacão — repeti eu. — Aquela vestimenta de mescla azur
como. . . como Daubat, por exemplo.
— Eu não vou usar macacão — disse ele, chocado.
Quando saltou do carro que eu verificava, Arezki apareceu.
— Esta noite? Está bem?
Respondi que não podia. Disse-o secamente, depois saí e alcancei o
carro seguinte. Não tentou aproximar-se de novo, até ao meio-dia.
Mas, desta vez, foi êle quem me trouxe a estopa com gasolina.
Fiquei muda; êle foi juntar-se a Mustafá.
Daubat entrou no corredor com uma pilha de velhos cartões de
embalagem. Colocou um perto de mim. Era para tapar a vidraça
quebrada.
_ Poupei-lhes trabalho. Agora é só cortar e colocar.
Não vamos à bóia?
— Ia descer agora mesmo.
— A coisa não está correndo bem hoje, não? É o frio? O trabalho?
Houve muitos erros?
Para lhe dar prazer, pedi-lhe conselhos. Descemos juntos. Isso
convinha-me, pois assim não teria de passar sozinha diante dos
bagunceiros da seção de fechaduras, que comiam no próprio local,
embora fosse proibido, e deitavam-se depois dentro dos carros até
soar a sirena.
Daubat queixava-se do ritmo acelerado que não permitia esmerar o
trabalho.
— E depois, há muitos estrangeiros, não sabem e não há tempo para
lhes ensinar. Você come no vestiário? Desconfie dos lanches frios.
O banco — o meu banco — estava livre. Podia desfrutar plenamente
esses instantes. As paredes apagavam-se, o banco assumia
proporções gigantescas, o meu corpo também. É preciso ter sofrido
cinco horas de pé para sentir, em toda a extensão, a voluptuosidade

de permanecer na horizontal, de ouvir apenas os murmúrios do
pequeno grupo de mulheres. O trabalho, a fadiga, a fome, o ruído
orturavam implacavelmente o corpo; o estômago, as pernas, as
têmporas, a nuca, esses quatro pontos mais vulneráveis, fundiam-se
até darem a impressão de serem um único ponto doloroso. Mastigar
sem pressa o meu lanche, enquanto as pálpebras descaem e um
torpor me envolve, tépido, dos pés à cintura, eis o gozo
incomparável que eu me proporcionava todos os dias.
Enquanto comia, sentia na boca o sabor do chá quente que Arezki e
eu bebíamos em cada um de nossos encontros. O seu perfume
misturava-se ao gosto do pão, impregnava-o fortemente, e comecei
a lamentar a minha recusa da manhã. Porque eram raros, eu tinha
uma sensibilidade muito mais apurada para esses pequenos, esses
modestos prazeres. Os que têm de tudo e consideram o bem-estar
algo que lhes é devido, os que já deixaram até de lhe prestar
atenção, visto que se converteu, para eles, numa coisa demasiado
habitual, não conhecem essa impressão semelhante à embriaguez
que nos penetra porque temos calor, depois de termos estado
enregelados de frio, porque hoje comemos bem, bebemos um café.
Todos os problemas se dissipam, uma sensação de poder nos
invade. De súbito, cremo-nos invencíveis, só porque o estômago
está reconfortado e os pés estão secos.
As mulheres tinham-se calado. Acabara de entrar uma operária,
uma ruiva não muito bonita, sardenta, bastante magra e na casa dos
vinte e muitos. Abriu o seu armário, remexeu nas suas coisas e,
depois de repor o cadeado, enfiou a chave no soutien.

— Tudo bem, Irene? — perguntou uma das mulheres.
— Tudo bem, e você?
Falava como as mulheres que já queimaram muitos e muitos
cigarros. Sua voz conservava um certo encanto nos sons graves, que
ela prolongava até torná-los sensuais. Era o seu único atrativo, pois
o seu rosto, todo em ângulos duros, não enternecia ninguém.

Irene saiu. Houve murmúrios no grupo de mulheres. Surpreendi
esta frase:

— . . . ela andava enrolada com os argelinos.
Era a expressão habitual: estar enrolada, seguida sempre do
predicado no plural. E era a injúria suprema: andar enrolada com os
argelinos, com os negros. St
Por um instante, imaginei-me tomando aquelas mulheres por
confidentes. Sentar-me-ia na roda delas e diria: é estranho, que
acham vocês disto? Tive alguns minutos de satisfação vaidosa
quando disse não a Arezki. Se pudesse, revogaria essa recusa. Vocês
tiveram influência nesse não. Tenho medo de vocês todas. Mas o
chá quente, o contato de sua mão, quando nos separamos, e essa caminhada
dentro da noite, não, não posso renunciar a isso.
Amanhã, elas diriam de mim "anda enrolada com os argelinos".
Essas palavras evocavam os prostíbulos infectos onde a mesma
mulher passa sucessivamente pelos braços de muitos homens.
Arezki trabalhava o mais longe possível de mim. Acontecia-lhe,
entretanto, atrasar-se e cruzarmo-nos de tempos em tempos, sempre
cercados de camaradas.
— Ainda faltam dois!
O pequeno marroquino estava aliviado. Eu senti-me então triste e vi
diante de mim um poço enorme e sem fundo.
Chegou o último carro. Arezki saltava dele.
— Registre: forro rasgado. Ao colocar o retrovisor, puxei com
demasiada força.
— Já arranjei as coisas. Avisei meu irmão de que não contasse hoje
comigo e posso encontrar-me com você.
— Ah?
Ficou surpreendido. Eu despejara a minha desculpa com enorme
atabalhoamento e perguntava a mim mesma se êle teria percebido.
O "Magiar", Mustafá e o pequeno marroquino juntaram-se a nós.
Arezki fez-me entrar precipitadamente no carro.

— Escute, depressa. Pegue o metrô até Stalingrad, entendido? Desça
e sente-se a um banco na plataforma. Enquanto espera, leia um
jornal, bem aberto diante de você. Se houver alguém daqui que
desça, não a notarão.
Segui as suas instruções. Juntou-se a mim na plataforma de
desembarque da estação de Stalingrad, onde eu ficara com a cabeça
enfiada nas páginas do jornal. Isso o fez rir. Deu um piparote no
jornal e disse que iríamos a Ternes.

— Fica perto da Étoile. Creio que é um bom bairr o . . .
Arezki esmerara-se no vestuário. Usava uma camisa branca, gravata
escondida sob o cachecol, e seu terno marrom, reluzente de tão
batido, estava impecavelmente limpo e engomado.
Finalmente! Eu via a Paris noturna dos postais ilustrados dos
calendários de propaganda.
— Gosta disto?
Arezki divertia-se. Propôs que caminhássemos até à Étoile, para
descermos em seguida pelo outro passeio. Devia ser fácil fundirmonos
no cenário e convertermo-nos, nós próprios, num elemento de
decoração. Ter consciência de estar no seu lugar nesta bela cidade,
de estar integrado na sua vida, fazer parte dela...
Discutimos por algum tempo o acidente do "Magiar". Ambos
tínhamos frio. Arezki olhava de soslaio para os cafés, enquanto
caminhávamos. "Teme, sem dúvida, que sejam muito caros.
Faltando três dias para o pagamento, ele deve estar como eu quase
liso".
Quando descíamos de novo na direção de Ternes, Arezki me
conduziu para um estabelecimento, cuja terjasse era aquecida. Mas
ele preferiu o interior, escolheu dois lugares e pediu chá para
ambos. Era sempre o mesmo processo. Os vizinhos examinaram-nos
em silêncio durante alguns minutos e era difícil decifrar seus
pensamentos. Eu tentava dizer para mim mesma: "Ora, estamos em

Paris, a cidade dos proscritos, dos fugitivos do mundo inteiro!
Estamos em 1957. Vou perder a compostura por causa de alguns
olhares? Somos objeto de escândalo neste bairro. Devo querer mal
às pessoas por isso?".
. . . Mas que faz a polícia? Ver um desses tipos sentar-se ao nosso
lado, num lugar decente em que marcamos encontro com uma
garota que nos acompanhará depois no nosso carro, estacionado
bem perto, ver um árabe acompanhado de uma francesa! — ela é
francesa, não há dúvida, e empregadinha doméstica, isso percebe-se
pelos gestos, pela maneira de andar. . . Estamos em guerra com essa
gente... Com franqueza, onde anda metida a polícia? Não, fazê-los
sofrer, isso não. Somos humanos. Mas existem campos de
internamento, áreas de residência fixa de onde eles não deveriam
ser autorizados a afastarem-se. Enfim, limpar Paris. Aquele, se
calhar, tem uma arma no bolso. Vai ver que tem, eles andam todos
armados! Assim não é possível sair de casa tranqüilo. . .
Era isso o que eu lia em cada um dos olhares à nossa volta. O chá
perdera o seu perfume perturbador. Parecia desenxabido. Notei a
impaciência de Arezki. Fez-me sinal para sairmos. Dei-me conta,
depois, de que ele desconfiava de todos os que o encaravam, muitas
vezes sem razão. Via policiais por toda a parte e temia os
provocadores.
Dentro das sombras espessas das ruas transversais por onde
caminhávamos, eu recuperava logo a coragem. Andávamos sem
pressa, um pouco contraídos por causa do frio. Arezki perdera a
reserva embaraçosa dos primeiros dias. Voltou a responder "sorte"
quando lhe observei como falava fluentemente a nossa língua.

Por detrás de uma janela, no andar térreo de um edifício de esquina,
vimos um gato olhando para a rua. Arezki riu.

— É mesmo de um gato ficar plantado à janela, com aquele ar
sonso. Lá na Argélia também tínhamos um gato. Eu era doido por
ele, porém o malvado passava o dia escapando de casa. Às vezes,

ainda penso nele e pergunto-me de que viveria, o que comeria. Em
nossa casa nunca sobravam restos.

— O que quer que eu conte? — redarguiu ele, quando lhe perguntei
como fora a sua infância. — Miséria, miséria e miséria.
Tinha um irmão, forte e esperto como só ele, que abandonara o
campo e fora tentar a vida em Argel. Trabalhara sucessivamente
como garçom nos hotéis balneários, estivador, vendedor ambulante.
Aos treze anos, Arezki fora juntar-se ao irmão e trabalhara também
nos balneários. À noite, dormia numa rede. Também fora bagageiro,
durante algum tempo, mas, graças ao irmão, nunca passara fome.
No emprego, conhecera um compatriota, moço burguês, que
vendera todos os seus bens e os entregara ao Partido, ainda
clandestino. A pequena chama que reluzia nos olhos de Arezki, esse
homem a entrevira e alimentara. A partir desse instante, pelo gosto
de saber e de compreender, Arezki entregara-se ao estudo solitário,
desordenado. De início, o irmão encorajara-o, mas, um dia, depois
de uma disputa entre ambos, recambiara-o para a aldeia. Mais
tarde, foi a França e a necessidade de sobreviver.
— Há seis anos que não vou à terra. . .
Eu fiquei silenciosa. Pensava na carta de Ana. Arezki olhou-me
rindo, como se troçasse de mim.
— Se começarmos a contar as nossas misérias. . .
— As nossas — respondi — nada têm de comparável com as
vossas. . .
— Sim, é o que penso.
Após um breve silêncio, ele continuou:
— Se o segredo ficar bem guardado, poderemos nos ver quase todas
as noites.
Nada respondi, invadida de alegria. Tínhamos andado muito e
encontramo-nos numa pequena praça, diante de uma enorme
estátua. Parei e examinei-a.

— É Balzac — disse eu, alegremente. — Reconheci-o logo. Olhe! O
robe de chambre e o cordão atado à cintura. Conhece Balzac? Gosta?
— E você, conhece Amrul'Quais? Gosta? — perguntou
ironicamente.
A pequena praça estava isolada pelo nevoeiro. Eu vivia um
momento de felicidade perfeita. Tinha a impressão de que, se
abandonasse aquele lugar, a felicidade se diluiria.
—Vamos — disse Arezki. — Vai sentir frio. Não fiquemos aqui
parados.
Não avancei. Olhava-o sorridente. Puxou-me contra ele e beijou-me
depressa demais para que eu sentisse qualquer outro prazer, além
de um súbito calor sobre o meu rosto frio.
Alguém perfurou a cortina de nevoeiro e passou diante de nós, num
passo rápido e sonoro.
— Como gosto de Paris...
— Preferia que dissesse: como gosto de Arezki.
Sua voz era trocista. Segurava ainda meus braços, acima dos
cotovelos e, juntos, começamos a rir. Eu olhava furtivamente para a
estátua, uma e outra vez, tremia de no e retardava o momento de
reiniciar a marcha.
— Vamos...
— Para que lado?
—-Não estou muito bem orientado. Deixe-me ver. Ah,
Ternes é daquele lado. Vamos descobrir uma entrada do "letrô.
Eu suspirei:
— Já...
Arezki atraiu-me de novo a si e beijou-me, mais ardentemente do
que a primeira vez. Crispei-me e fingi resistir, por mera hipocrisia.
Ele soltou-me, tomou-me pela mão e, com pena, eu disse adeus à
pequena praça.
O contato de nossas mãos reconfortava-me. Arezki falava com
desprendimento e num tom neutro, comparando o clima das

diversas cidades onde vivera. Compreendi que o meu recato o
decepcionara.

— Quando estará livre? — perguntou ele. A sua pergunta
desagradou-me.
— Qual de nós não está livre?
Falei num tom seco. Ele notou-o, fixou-me com seu olhar penetrante
e respondeu rudemente:
— Pensava que fosse uma mulher inteligente. Arezki reencetou a
marcha, as mãos nos bolsos, enquanto eu não sabia o que dizer.
— Que frio. . . que frio. . .
Esperava que ele me segurasse de novo a mão. Sorriu ironicamente.
— Sim, está frio. Devíamos ter ficado no aconchego de um café.
Mas num café, com um árabe. . . é embaraçoso. As pessoas ficam
olhando. . . As pequenas ruas são mais discretas.
— Você perde o seu tempo, Arezki. — E, desta vez, gostei do tom
da minha voz. — Não é de mim que você está falando, com certeza.
Não fiquei impressionada pelo que acaba de dizer e você sabe-o
muito bem.
A minha cólera agradou-lhe. Estávamos diante da vitrina de uma
sapataria e o néon projetava em nossos rostos um clarão furta-côres.
Arezki relaxou e encontrei-me
de novo colada a ele.
Durante os escassos segundos em que durou esse contato doce e
tépido, o meu pensamento soltou-se e imaginei com pavor que ele
poderia abraçar-me assim, qualquer dia destes, em público.


— Não fale a ninguém das nossas saídas. Amanhã à noite espere
por mim como hoje, em Stalingrad, com um jornal.
íamos atravessar para a entrada do metrô, quando Arezki me puxou
para trás.
— Espere.
Ele recuou para a sombra de um portal e olhou atentamente os três
homens que patrulhavam diante da escada do metrô.

— Separemo-nos aqui — disse Arezki. — Até amanhã. Volte para
casa depressa.
— Mas por quê? E você?
Arezki pareceu-me impaciente e assegurou-me que não era nada,
mas convinha que nos separássemos. Não insisti. O seu olhar fugia
de mim para os três homens. Deixei-o e atravessei a rua. Ao chegar
diante dos três sujeitos abrandei o passo e examinei-os. Nada me
pareceu anormal em seu comportamento. Pareciam esperar alguém.
Mas quando cheguei à metade da escada, parei e subi novamente
alguns degraus, para observar Arezki. Sua silhueta esguia estava
prestes a desaparecer na avenida à esquerda. Um dos homens que
estava na entrada do metrô estudou-me rapidamente e recomeçou o
seu vaivém, em torno do gradeado, sem voltar a interessar-se Por
mim.
Eram quase onze horas, quando cheguei a meu quarto. Jantei frutas
e demorei-me longamente diante do espelho, Pendurado sobre o
lavatório. Procurava uma mudança que não era visível.

Arezki, assim que se juntou a mim em Stalingrad, irou que não
iríamos mais a Ternes. Não era um bom

— Vamos. . . ao Trocadéro.
Estivemos no Trocadéro. Aí voltamos dois dias depois. Passeamos
nos jardins em que a neblina erguia à nossa volta gélidas paredes
protetoras.
Estivemos na ópera e demos várias voltas ao edifício.
Atravessamos as pontes.
Perdemo-nos nas ruas do bairro de Saint-Paul. Subimos os
boulevarãs em torno do eixo Saint-Augustin.
Partindo de Vaugirard, encontramo-nos na Porte oVAuteuil.
Percorremos a rue de Rivoli nos dois sentidos.
Eo boulevarã Voltaire, e o boulevard du Temple, e as ruelas atrás do
Palais-Royal. E a Trinité, e a rue Lafayette.

Nunca voltávamos ao mesmo bairro. Qualquer fato banal, um
ajuntamento, a sombra de um carro-patrulha, um boa-vida que nos
seguia à toa, e o nosso passeio era suspenso. Era preciso separarmonos,
regressar cada um por caminho diferente. Essas noites
inacabadas, as nossas conversas interrompidas e a inquietação —
nada saber, deixá-lo para trás, esperar até ao dia seguinte para ter a
certeza de que nada acontecera de grave — ligaram-me
profundamente a êle, segundo o fenômeno banal que nos torna
mais caro aquilo que é fugidio.
Arezki via a polícia por toda a parte. Eu pensava que êle exagerava.
Protestava um pouco quando êle me dizia:

— Repare, aquele tipo ali, diante da vitrina, é um tira. Não acredita?
Pois eu conheço bem...
— E daí? O que é que isso interessa? Continuávamos caminhando.
Havia muitas batidas policiais. Arezki temia-as.
— Mas se você está em regra!
— Você crê que isso lhes basta?
E na noite seguinte mudávamos de bairro. Não fazia perguntas,
nada lhe pedia. Os dias passavam, os nossos encontros eram quase
cotidianos. Gostava de ouvi-lo falar. Sua língua fazia um rolamento
muito doce quando pronunciava os rrr. Passávamos do grave ao
alegre, troçávamos dos camaradas da linha de montagem. Contei-
lhe a mocidade de Lucien, falei-lhe muito da vovó. Ela tornara-selhe
familiar; conhecia agora seus defeitos, suas expressões e manias.
Mustafá, a vovó, Lucien, estes personagens que tornávamos em
nossos acompanhantes, ajudavam a descobrir-nos mutuamente. Por
pudor, servíamo-nos deles para falar de nós.
Impregnada das idéias recebidas, eu pensei, numa noite em que

passeávamos pelos jardins do Trocadéro e em que, aproveitando
uma sombra, Arezki me beijara violentamente: aí está, agora ele me
vai levar para o seu quarto. Mas nada disso aconteceu. O nosso
acordo >3ra um milagre. Qualquer outro ter-se-ia mostrado mais


impaciente ou mais audacioso. Se ele não o foi, isso devia-se a que,
às circunstâncias difíceis que o impediam, somava-se o prazer
calculado de progredir, lenta e suavemente, comigo.
Observamo-nos demoradamente, com uma crescente ternura.
Jogamos, diante dos outros, o jogo da indiferença, esse jogo em que

o mínimo gesto, um simples pestanejar, uma inflexão de voz,
assumem um valor intenso.
Cada vez que nos separávamos, Arezki recomendava-me sempre o
sigilo — e isso amolava-me um pouco. Na verdade, também me
convinha sob todos os aspectos.
Chovia, gelava, caminhávamos. Paris era um imenso boulevard cheio
de armadilhas, no qual avançávamos com mil precauções irrisórias.
A ternura ampliava o cenário de nossas excursões errantes, da nossa
vagabundagem sem destino. Nada era feio. A chuva lavava as ruas
onde a luz única de um beco se fracionava em pedras coruscantes.
As praças ajardinadas tinham a graça das pequenas praças
provincianas e os galpões arruinados lembravam silhuetas de
velhos moinhos abandonados. O nosso prazer transformava Paris.
Nas noites em que êle não podia encontrar-se comigo, eu
repousava, aproveitava essas horas para ficar deitada, acontecendo
amiúde adormecer toda vestida.
Uma reserva tenaz, de que não conseguia desembaraçar-me,
irritava-o por vezes. E eu, temendo que êle a confundisse com
alguma repulsa racial, obrigava-me a gestos que acreditava
audaciosos, quando eram apenas naturais.
Autodidatas eu e êle, achávamos instrutiva e proveitosa a
companhia um do outro. Arezki tinha paixão pela geografia e eu me
perguntava qual seria a sua origem.
Quando eu falava muito de Lucien, êle fingia não me ouvir. Uma
noite em que aludi ao "Magiar", êle disse-me suavemente: "Não faça
caso do "Magiar" e não lhe sorria tanto".

Duas ou três vezes, fiz-lhe perguntas indiscretas que, sem se zangar,
Arezki contornara habilmente. Resignei-me, portanto, a só saber
dele o que quisesse contar-me. Raramente falávamos da guerra,
porque ela nos era recordada a todo o instante, no olhar dos
transeuntes, nas bancas dos jornais, nos acessos do metrô, e porque
nunca estávamos certos de nos reencontrarmos no dia seguinte. Falávamos
da oficina, da linha de montagem. Arezki confessou-me
que os seus ruídos furiosos e estridentes provocavam nele uma
excitação sexual, a mesma que êle sentia na rua, no burburinho dos
boulevards. O silêncio e a calma despertavam suas angústias.
Desculpava Mustafá e explicava-me, por sua própria experiência, o
comportamento do seu camarada em relação às moças da fábrica.

—Quando comecei a trabalhar em Paris, — disse êle
Vivia em permanente alvoroço, a cabeça me andava à roda. As
moças daqui têm uns corpos que despertam o instinto sexual. São
mais desejáveis do que as mulheres do nosso país, por motivos. . .
que nada têm a ver com a beleza. Só de as sentir perto de mim eu
ficava meio doido. Baixava a cabeça para não as ver andar ou
dobrarem-se. Na Argélia, temos muito pouco contato com as
mulheres e aqui, estão quase ao alcance da mão. Imagine o que isso
significa para Mustafá, que veio lá dos confins das montanhas. . .

— E você amou muitas dessas mulheres? Por vezes dizia-me,
troçando:
— Qual de nós dois é o subdesenvolvido?
Os dias passavam. Chegávamos às festas natalinas. Não me dava
conta disso. O Natal convertia-se num mau dia — um dia sem
Arezki; nos domingos e feriados êle nunca estava livre. A semana
decompunha-se em quatro dias luminosos e três sombrios.
Eu adiava a data de meu regresso e arquitetava para a vovó
mentiras grandiosas.


Lucien e Mustafá vieram perturbar esse perigoso equilíbrio.
Arezki dissera na véspera:

— Amanhã iremos a Saint-Michel. Primeiro, para que você conheça
o lugar e, depois, todos estes cantos estão irrespiráveis. Garanto-lhe
uma coisa, está tudo cheio de polícia. Não viu agora mesmo aquele
tipo que se levantou quando nos pusemos ao lado dele? Bem, então
não esqueça. Espere por mim no Châtelet. Châ-te-let. Como de costume,
no cais de embarque.
Na manhã do dia seguinte, cheguei às sete e trinta e quatro, quatro
minutos atrasada, e o guarda me disse:
"Muito tarde, já levaram os cartões. Volte às oito horas para picar o
cartão no escritório".
Isso divertiu-me no princípio, pois adivinhava o espanto de Arezki,
a sua inquietação. Apareceria às oito horas e observaria a sua
reação. Entreguei-me a essa malícia pueril e comecei a passear em
torno da fábrica. Fui olhar depois, do boulevard Masséna, as janelas
da nossa oficina. Imaginei Bernier praguejando porque tivera de
substituir-me. Pela minha ausência eu tornava-me uma pessoa importante,
cada um indagando: "Que lhe aconteceu?".
Mas esse prazer durou pouco. Enquanto olhava, de cabeça
levantada para as janelas esbranquiçadas do segundo andar, uma
angústia brutal, uma inexplicável impaciência fizeram com que eu
desejasse já estar lá em cima. Reencetei a minha lenta passeata ao
redor da fábrica. "É o medo de atravessar sozinha toda a oficina; é o
frescor da manhã; é o estômago vazio". Era o medo, que enche o
estômago de golpes surdos e não deixa engolir direito a saliva. Em
mim nasciam, à vista dos elevados muros enegrecidos, das grades
que me separavam de Arezki, imagens sinistras — e não conseguia
sorrir da minha farsa involuntária.
Entrei na oficina e consegui esgueirar-me até à linha de montagem.
Habituados à minha presença, os homens já não se manifestavam.
Ao avançar, dei uma olhada geral na oficina e distingui primeiro


Mustafá, que levantava os braços, enquanto falava com o pequeno
marroquino.
Arezki viu-me. Descia de um carro e segurava as ferramentas contra

o peito. Pouso-as no veículo, esboçou um movimento na minha
direção, mas contentou-se com um aceno de cabeça.
Bernier colocara Daubat no meu lugar. Este fêz "ah" quando me viu,
mas sem calor.
— Não me deixaram bater o cartão do ponto! — gritei-lhe eu. — Por
três minutos!
— Pois é — respondeu, sorrindo. — É preciso dormir cedo para
acordar na hora.
Depois saltou e dirigiu-se à escrivaninha de Bernier.
— Dormiu demais? — perguntou-me Mustafá.
Sorri e tratei de me integrar no serviço. Tive a impressão de que
todos me encaravam. Contrariamente aos seus princípios, Arezki
me esperava no carro onde eu devia entrar.
— Alguma novidade ?
Fez a pergunta sem olhar para mim, continuando a aparafusar o
retrovisor.
— Nada. Atrasei-me alguns minutos. . .
— Esta noite, apresse-se na saída. Não se esqueceu? Châtelet. Eu
não terei muito tempo e preciso falar com você. Não escute
ninguém antes que eu lhe fale.
Aparentemente, foi uma manhã como as outras. Arezki trabalhava o
mais longe possível de mim. A mecânica dos gestos funcionava
convenientemente. Mas havia os olhares de Mustafá, que me
encarava de maneira diferente, os do pequeno marroquino e,
distante e insistente, o olhar de Bernier. Alguma coisa mudara.
Na pausa do meio-dia, encontrei-me, por acaso e sem que o
quisesse, atrás de Arezki, na escada. Daubat, que descia
rapidamente, fixou-me no instante em que, projetada para a frente

pelos que se precipitavam escada abaixo a toda a velocidade, apoiei-
me nas costas de Arezki.
Parei diante do vestiário das mulheres e, ao levantar
maquinalmente a cabeça, vi Lucien. Descia lentamente, pálido e
empertigado como um ébrio que não quer perder o equilíbrio. A
testa e os cabelos estavam brancos e colados à pele com a tinta. A
expressão de seu rosto animalizara-se, por causa da dureza dos
traços fisionômicos e da fixidez do olhar. Esse rosto tão amado, tão
admirado, que se desfazia aos poucos, perturbou-me de maneira
profunda. Esperei por ele para lhe dizer algumas palavras.

— Olá, você aqui? — disse Lucien. — Que lhe aconteceu ?
Também ele! Perguntei-lhe como soubera do meu atraso.
— Desci esta manhã para ver uma carroçaria. Ao que parece,
deixara-a passar um tanto mal retocada. Bernier parou-me para
perguntar se sabia qual era a causa da sua ausência. Eu não sabia.
Disse que não. Fomos ver juntos a carroçaria defeituosa. Arezki
trabalhava dentro dela. Perguntei-lhe se estava bem ontem à noite,
quando a deixara.
Olhei-o incrédula.
— Você? Você perguntou-lhe isso? Diante de Bernier?
— Sim, diante de Bernier. Por que não?
— E ele respondeu?
— Gaguejou.
— E Bernier?
— E Bernier o quê? Que queria que ele dissesse? Ou os outros?
— Quais outros, Lucien?
— Oh, como você é chata! Os outros. . . Mustafá, Daubat, creio eu, e
ainda um outro qualquer.
Fiquei prostrada. Lucien espantou-se. Por que esconder-me?
Indagou ele. Tinha vergonha? Medo?
— Está com um ar de catástrofe. Bolas, estou farto de ver os dois
juntos no ônibus, à noite. É verdade ou não?

— Você fez uma besteira monumental, Lucien, sobretudo em
relação a Arezki.
— Vamos, vamos. . . Arezki não está em causa. Pense em você,
sobretudo. Conheço-a bem. O que você quer, é um acidente.
Quando se namora um árabe. . .
Falava muito alto, com um ar satisfeito. Teria agido sem refletir,
espontaneamente? Quisera perfidamente encurralar-me, forçar-me,
como fazia a si mesmo, a desafiar a sua opinião? Quando me via
descendo do ônibus, atrás de Arezki, quando nos surpreendia
dirigindo-nos cautelosamente para as ruas calmas, protegidos pelo
tempo que afogava Paris no nevoeiro e na obscuridade das sete
horas, não pensaria Lucien que me faltava audácia, dignidade, e que
era preciso forçar-me a uma atitude inequívoca? E não sentiria um
prazer secreto em ter criado embaraços àquela de quem ele
suportara, durante anos, os olhares e juízos de reprovação? Que
vingança! Apanhei-a . . . deveria Lucien dizer para si próprio. Ele
adivinhava a minha afobação e encarava-me, calmo e trocista. Ele
cortara todas as pontes e conseguira fazer-se rejeitar por todos, onde
quer que estivesse.
Inútil explicar. Fosse o que fosse que eu dissesse, o mal estava
irremediavelmente feito. Por sorte, eu veria Arezki nessa mesma
noite e discutiríamos o assunto.
Observei intensamente as mulheres que almoçavam no vestiário.
Não me prestaram mais atenção do que nos outros dias. Isso
tranqüilizou-me um pouco. Voltar à oficina, passar diante de
Daubat, Bernier, olhar Gilles de frente... Forçosamente ele sabia.
Todos sabiam. "Ela anda enrolada com...". Mustafá, o "Magiar", isso
tinha pouca importância. Era dos outros que eu tinha medo.
Quando o afinador-chefe me veio falar, nessa tarde, senti-me mal.
Perguntou-me como iam os forros. Disse-lhe que iam bem, que iam
muito bem mesmo. Satisfeito, dedicou-me um gracejo inocente e
fiquei mais reanimada. Ele não sabia. Escutei as suas explicações
profissionais com um interesse que o lisonjeou. Queria forçar

antecipadamente a sua simpatia. Era incompreensível, eu sentia
uma mentalidade culposa que só me dava vontade de uma coisa:
ganhar tempo.
Sentei-me num banco da estação do Châtelet e esperei, de espírito
vazio. Arezki estava atrasado. A cada trem que passava, a minha
irritação crescia. Quando apareceu, por fim, não pude dominar a
minha tensão. Arezki sentiu-se afetado pela minha frieza. Saímos e
encontramo-nos numa ponte. O cenário em relevo era áspero e a
água, aqui e ali, tinha estremecimentos luminosos. Arezki
mantinha-se silencioso e eu não me atrevia a dizer-lhe: "Paremos
um instante". O horizonte vazio sobre o rio dava-me uma sensação
de liberdade, de espaço infinito.

— Conhece este edifício? Enfim, ele falava.
— É a Prefeitura de Polícia. Vamos contornar o cais. Com uma
displicência voluntária, eu disse:
— Lucien cometeu uma indiscrição esta manhã. Arezki encarou-
me. Parecia surpreendido.
— Quem lhe disse?
— Ele próprio.
— Por que ele fez isso?
— É Lucien. O próprio, da cabeça aos pés. Falou sem refletir. . .
— Sim, foi o que pensei...
Mas continuou preocupado e eu insisti:
— É grave?
— Grave! Uma coisinha dessas, insignificante! Só por sua causa. Um
pouco por mim, mas sobretudo por você. Já sabe o que vão dizer.
— Por mim? Não estou ligando!
Gritei aquilo. Naquele instante, sim. Um torpor me envolveu e isso
bastou-me. Ana explicou-o muito bem quando escreveu a meu
irmão: "Com você sinto-me". E eu, nessa noite, sentia-me. E sentia a
existência da cidade, para além de Arezki, mas através dele, polida

pelas sombras que se abriam diante de nós e lhe atenuavam as
arestas, os contornos angulosos.
Nesse instante, a chuva veio multiplicar as miragens.


— É melhor colocar o lenço. Vai ficar toda molhada. . .
Gostei desse gesto. Arezki segurou a minha bolsa e eu atei as duas
pontas de algodão sob o queixo.

— Que quer fazer? O segredo estava muito melhor entre dois.
Agora vai começar a embromação. Com você, sobretudo. Bah, não
tem importância. Não mudará por tão pouco, não é verdade?
Esbocei uma risadinha tranquilizadora.
— Se eu não fosse egoísta, diria que saíssemos daqui e fôssemos
procurar trabalho em qualquer outro lugar. Mas gosto de ver você
perto de mim, sobretudo de manhã. Quando chego, procuro-o logo
e vejo-o. Enfim... esperemos. Já se verá o que vem por aí.
— Você gosta deste bairro. Eu desconfiava. A verdade é que
também gosto, mas é um bairro perigoso. . .
— No entanto, está cheio de compatriotas seus...
— Você nunca me compreende — disse êle, suspirando, num tom
de resignação. — É justamente por isso! É um bairro em que as
batidas policiais são constantes. E, além disso, não é o meu. Eu vivo
em Crimée.
Antes, dissera Jaurès.
— Bom, esta noite não quero saber de nada disso. Vamos beber
qualquer coisa.
Passamos por ruas de aspecto medieval. O meu prazer foi
perturbado, por instantes, pelas imagens que me acudiram à
memória — a travessa dos Trois-Chandeliers, a nossa porta, o clube,
a vovó recolhendo de noite as tábuas de caixotes vazios para
acender o fogo na lareira. Arezki leva-me pelo braço, apertada
contra êle, e caminhamos no mesmo passo.
Desapareceram a vovó, a porta e a travessa.

— Temos de abrigar-nos. Está chovendo a cântaros. Do lado
esquerdo da ruela havia um café árabe. A
Porta está entreaberta. Está cheio, ruidoso e há música, ^aiu um
homem, olhou para fora e fechou a porta.
— Vamos a esse café?
— Está vendo? Não é possível. Não sou do bairro. Tomar-me-iam
por um alcagüete, um informante.
O meu lenço escorregou. Recuamos para o vão de uma porta.
"Arezki, deixe seus cabelos gotejarem. Não enxugue o rosto
molhado". Beijou-me. O seu blusão em que meu rosto se apoiou está
frio, frio. O seu odor de couro molhado inebria-me. A chuva
continua. A porta do café abriu-se de novo. A música chega até nós.
Uma frase, um estribilho se repete. Arezki traduziu:
—Ana unti. . . Eu e você. É uma canção egípcia.
A música atenuou-se. A porta fechara outra vez. Arezki suspirou.
— Tem frio?
— Não — disse ele. — É a idéia de nos separarmos.
— Já?
— Sim, tenho de voltar cedo para casa.
A chuva abrandou. Prosseguimos a marcha. Esse momento,
demasiado breve, tomba como uma imagem no fundo de uma
caixa.
O boulevard Saint-Michel era para mim todo um mundo simbólico.
Henri, Lucien, dedicavam-lhe sempre alguns adjetivos fascinantes.
Eu observava os transeuntes. Essa noite, o boulevard não me parecia
de acordo com a sua lenda. Havia sobretudo moças bonitas que se
retardavam contemplando as vitrinas das inúmeras lojas de modas.
Não me pareciam moças pobres, de jeito nenhum. Aqui e ali
surgiam personagens como que fantasiados com roupas
desleixadas, sujas, e que, por feliz acaso, topavam com as moças no
lugar certo e lisonjeavam o que convinha ser lisonjeado.
Arezki puxou-me pela manga.

— Vê aquela camisa?
Mostrava-me, numa vitrina, uma camisa branca, com discretas
riscas verticais, sedosa, cara.
— Essa camisa.. . preciso dela.
— Mas, Arezki, custa quase uma semana de trabalho.
— Tanto pior. Comprá-la-ei no próximo pagamento.
— Tenho visto bonitas camisas noutras lojas e muito mais baratas.
— Não é a mesma coisa. Olhe bem para ela. Uma camisa como
aquela, diga-me se alguém pode imaginá-la no corpo de um
argelino.
Arezki obstinava-se.
— De qualquer modo, — comentei eu — não é a camisa de um
revolucionário.
— Claro que não.
Olhou-a, sonhadoramente, durante alguns segundos ainda, e disse:
— Vamos. Se eu pudesse explicar-lhe o que sinto com palavras que
compreendesse...
Atravessamos a rua entre os automóveis em marcha e nada
respondi. Quando atingimos o passeio, Arezki imobilizou-se e
olhou para o relógio.
— Não teremos tempo de beber nada.
— Ficará para amanhã — respondi resignada.
— Depois de amanhã. Ai, ai — murmurou ele, em voz baixa. —
Afaste-se depressa... vá, depressa... siga adiante.
Tive um momento de hesitação. Ele parou e repetiu: "Desapareça",
entre dentes. Chegávamos à esquina de uma rua onde estacionavam
vários carros da polícia. Não podíamos fazer meia volta. Obedeci.
Arezki deu um passo para a esquerda, distanciando-se de mim, e
nesse momento foi interpelado.
Atravessei a rua mecanicamente. Quando me voltei já não o vi. Não
queria ir-me embora sem saber. Os tiras, dispostos em fila na rua,
apanhavam facilmente em suas malhas todos os que passavam,

numa manobra de arrastão, quer fossem árabes ou tivessem apenas
cara de árabe. A vida noturna continuava no boulevard, e os
estudantes, verdadeiros ou falsos, passeavam e discutiam.
Era preciso partir. Não tinha probabilidade alguma de localizar
Arezki. Devia ter sido levado para dentro de um dos tintureiros e eu
só conseguiria despertar a atenção se continuasse colada contra uma
vitrina, imóvel.
Arezki não foi trabalhar na manhã seguinte. Eu controlava
corajosamente os automóveis. Olhos me observavam e seguiam os
meus gestos. Espiei a saída de Lucien ao meio-dia e tomei a decisão
de contar-lhe tudo. Mas ele não se mostrou e eu não queria ir até à
cantina para o chamar.
Às duas horas, quando recomeçou o trabalho, Arezki estava no seu
posto. Seu olhar dizia-me: "Sim, sou eu. Paciência". Estava tão feliz
que me contentei com essa mensagem.
Arezki e Mustafá discutiam. Arezki falava em voz baixa e, sem
compreender sua língua, adivinhava que seus sentimentos eram de
violenta cólera. Bernier apareceu na moldura do vidro traseiro.

— Rezki! — chamou ele. Arezki voltou-se.
— Por que não trabalhou esta manhã?
— Estava doente.
— Outra vez?
Entrou no carro, agachou-se e disse, examinando o forro da capota:
— Se não tivesse vindo esta tarde, tencionava encarregar ali a
senhorita de ir saber notícias suas.
Arezki pousou a ferramenta.
— Por que a senhorita? — perguntou a Bernier. Fixou-o com seus
olhos chispando cólera; o outro recuou e saltou. Arezki desceu atrás
dele.
Mustafá abandonou o carro e foi colocar-se atrás de Arezki. Durante
alguns segundos, os três homens observaram-se; depois, dois
operários passaram entre eles para alcançar o automóvel que

chegava e Bernier deu meia volta, encaminhando-se rapidamente
para a sua escrivaninha.
Arezki chamou-me com um aceno. Entramos ambos no veículo
vazio.


— Como se sente? — perguntei precipitadamente.
— Estou bem. Mas fecharam-me no xadrez até esta manhã.
— Para uma simples verificação?
— É como viu. Quando nos pescam, deixam-nos mofando a noite
inteira. Ficam mais tranqüilos. Mas vá explicar isso a um chefe.
Bom, escute. Esta noite não poderei ver você. Amanhã é feriado. . .
Depois é domingo. . . Fica para segunda à noite. Não posso
telefonar? Se posso, escreva o número e deixe-o na caixa de
ferramentas. Virei apanhá-lo em seguida.
A linha de montagem prosseguia em sua marcha, a vida prosseguia
em sua marcha, a guerra prosseguia. . . E, presos a essas algemas,
tentávamos arrancar alguns instantes calmos e doces de prazer.
— Feliz Natal! — veio dizer-me Gilles.
— Obrigado, Sr. Gilles.
Estendeu-me o envelope que continha o salário.
Procuro, sem encontrar, como descrever o que acontecia quando
Gilles estava presente, diante de nós. Dava-nos vontade de
trabalhar. Restituía-nos a dignidade que o embrutecimento da linha
de montagem e o desprezo dos chefes nos roubavam. Reanimava-
nos. Exigente e severo, era de uma justiça notável. Escutava Said
com o mesmo interesse que dedicava às palavras do chefe de
fabricação. Não era afetado com os operários e tratava com estima
igual cada um deles. Enfim, a natureza dotara-o ainda com aquele
rosto de traços enérgicos e finos, de expressão direta, franca e
generosa.
Às cinco horas, a alegria percorreu toda a linha de montagem. "Uma
hora mais, camaradas, e é o repouso! Três dias. Esta noite, a ceia.
Descansar. Amanhã recomeça. E domingo descansar outra vez.



Recuperar. Depois, segunda-feira . . . Bom, mas até segunda-feira
são três dias. . . O pagamento vai acabar depressa. . . "

— Vai festejar o Natal? — perguntou Mustafá.
— Eu não. E você?
— Eu não posso — disse ele. — Guerra é guerra. . .
— Por mim, nem tenho vontade. . .
— Nos veremos depois! — gritou ele, ao descer. Voltou-se para
mim e inclinou-se um pouco:
— . . . se não estivermos mortos. . .
No vestiário, a alegria das mulheres era esfuziante. Não me causava
qualquer azedume. Nem mesmo as invejava. Elas pagavam caro
pelos prazeres que as esperavam. Esses escassos minutos de júbilo,
de riso fácil, o guarda-pó sujo atirado para um canto, numa bola,
recordavam a excitação das férias escolares.
Natal parisiense, quase doce, chuvoso; serpentinas profanadoras,
foguetes perturbando a madrugada mágica. Desperto em
sobressalto. São os retardatários das ceias ruidosas, regressando a
casa, alegres e tocados. Voluptuosamente, alongo-me na cama. Um
baque no coração e o rosto de Arezki matou essa alegria. Descubro
quanto há de efêmero nos prazeres não compartilhados. Mas resta a
esperança, a incurável esperança, e a alegria renasce. Reconstituo
Arezki mentalmente, com os detalhes que a memória me propicia,
as imagens cristalizadas em meus olhos. Não poderia falar de sua
beleza, a palavra seria imprópria.
Seco, sem musculatura aparente, as veias grossas nos braços
magros, os dedos finos, os gestos calmos, mete ligeiramente o
pescoço entre os ombros, com aquele jeito friorento que têm os
árabes, que caminham arqueados quando não exageradamente
empertigados, os braços balançando. Seus cabelos, ao qual dedica
especiais cuidados, reluzem, mais frisados nas têmporas, subindo


em filas cerradas, alongando-lhe o perfil. Procuro adivinhar seu rosto
no futuro, ainda mais sarraceno: encovado, pouca carne e, por
cima da boca ainda vermelha, o traço branco do bigode. Do rosto e
de sua expressão, ia dizer que me fazem pensar em algum animal.
Posso optar por várias comparações: os olhos de lobo, o perfil de
águia. Mas não, o rosto de Arezki é humano, móvel; mesmo a cólera
não destrói sua construção harmoniosa: as pálpebras longas sob o
arco das sobrancelhas, as têmporas ligeiramente afundadas, o
queixo fino. Os olhos são negros, negros, negros. Veludo, brasas,
azeviche, tudo o que se quiser. Seus rancores são tenazes. Arezki
dificilmente perdoa. "Juro" e "Palavra de homem" cortam dez vezes
uma frase. Adora a palavra "irmão" e diz "o nosso povo". Aliás,
escolhe as palavras com prudência, como se conferisse o poder de
cada uma. Só se refere a doença num tom de repugnância. Não diz
"estou doente" mas "estou fatigado". A palavra pode atrair a coisa.
Não se veste para resguardar-se, mas para adornar-se. Gosta do que

o engrandece a seus próprios olhos, as cores brilhantes que fazem
dilatar as pupilas. Solitário, isolado quando não está com seus
irmãos de raça, acabou por considerar-se superior aos que o desprezam.
Obstina-se no seu isolamento e a sua resignação —
passageira — nada tem de humildade. Imaginativo até ao delírio, o
seu ar pensativo e o seu mutismo ocultam as vagas febris, doidas, os
fluxos coloridos, que correm e se entrechocam sob suas longas
pálpebras.
No segundo dia das festas, a solidão já me pesa. Interrogo-me,
hesito e decido. Irei visitar Lucien.
Tomei o ônibus que me deixa diante da basílica. Comprei doces dos
que eu sei que êle gosta. É estranho, já não lhe quero mal, tenho
necessidade de me sentir perto dele. Por causa de Arezki. Faço
tempo até às duas horas em torno da basílica, com aquele incômodo
embrulho em forma de cone. Bato à porta e espero, tranqüilamente.
A porta abriu-se, Ana lança-se gemendo nos meus braços, depois
recua, decepcionada. Não esperava ver-me.


— Desculpe, julguei que fosse Lucien.
Desviou o rosto, mas eu tenho bom golpe de vista e percebi as
pálpebras inchadas, o nariz avermelhado de quem se assoou
repetidas vezes. Para escapar a meus olhares inquisitivos, ela faz de
conta que se veste e volta-me as costas. Mas sua voz traiu as
lágrimas derramadas. Pergunto se Lucien vai chegar. Espio com
satisfação o momento em que ela terá de me defrontar. A mesma
satisfação antiga, ao ver Marie-Louise desintegrar-se. Vou prolongar
o seu suplício? Dizer-lhe que ficarei esperando? Ana voltou-se
ligeiramente e enfia uma saia. O ângulo vivo do cotovelo quando
puxou a saia na cintura, os ossos salientes da bacia, o ventre magro,
despertam o meu vício incurável, a necessidade de me debruçar, de
cuidar, de ser útil e necessária.
— A coisa não vai muito bem, não é isso?
Não me respondeu logo e senti-me ridícula; depois cedeu.
— Não, não vai nada bem.
Sorriu, para atenuar a confissão, e suas pupilas desapareceram na
inchação causada pelas lágrimas. Agora está vestida e refaz a cama.
Ela calcula, interroga-se. Relatarei eu a Lucien suas palavras?
Ajudo-a e falo-lhe de meu irmão, de seu trabalho, da fábrica, da
estufa infernal onde êle sua durante horas e horas, da transformação
impressionante de sua fisionomia, da necessidade de cuidar do seu
repouso e alimentação. Ana escutou-me atenlamente, no princípio;
depois, senti o seu desinteresse. Ela fixa um ponto da cama e busca
nas recordações eróticas a garantia de que Lucien voltará. Todo o
seu corpo fala do desejo que, nesse instante, sente dele. Que Lucien
regresse, seus corpos se enredarão e perder-se-ão um no outro. Só
então Ana sente-se verdadeiramente mulher. Os meus argumentos
parecem-lhe irrisórios. Acha que nada entendi. Eles discutiram.
Lucien saiu a meio da noite. Ela espera. Ela chora. Tem pressa de
ficar sozinha e voltar a chorar. Deixei os doces sobre a mesa e saí.

As máquinas e os motores ficaram parados durante três dias, mas
despertaram ao primeiro impulso. Os nossos corpos levaram mais
tempo para arrancar. O primeiro carro passou inacabado. No
segundo faltavam os snapons. No terceiro, o ritmo foi reencontrado.
Arezki surpreendeu-me quando eu entrava no veículo abandonado
pelos montadores.

— Como vai? — disse ele rapidamente. — Esta noite?
Ergui os olhos para ele.
— Sim, esta noite. Tudo vai bem.
A breve troca de olhares, algumas palavras simples, tudo isso
durara apenas alguns segundos. Convertidos em estátuas, levados
pela linha de montagem tal como o mar leva uma jangada, iríamos
encalhar demasiado longe de nossos lugares habituais para que isso
passasse despercebido. Mas Arezki parecia de excelente humor.
Deixou Mustafá zumbir à sua volta, riu quando o "Magiar" lhe
mostrou a nuca desembaraçada de certas manchas duvidosas,
trocou algumas palavras com Gilles, que viera inspecionar os forros.
Por duas vezes pousou sua mão sobre a minha, como por
inadvertência, e desculpou-se com um sorriso cúmplice.
Tranqüilizei-me. Nada parecia ter mudado no comportamento dos
homens que nos cercavam. Continuavam afobados, como sempre, a
fim de conservar a cadência. A bonificação dançava diante deles
como a cenoura diante de um burro. Bernier passava e voltava a
passar, parava, afastava-se e retornava. Mas isso era habitual. Notei
apenas que Mustafá me falava mais reticentemente. Faltava a prova
do vestiário. Não fui alvo de qualquer olhar especial das mulheres.
Num murmúrio, Arezki confirmava:
— Crimée, segunda estação depois de Stalingrad.
Ele já lá se encontrava quando desci do último vagão.

— É o seu bairro?

Surpreendeu o meu sorriso zombeteiro, riu também e disse.

— Não. Eu vivo em Goutte d'Or. Desta vez é verdade. Não me
pergunta aonde vamos?
Respondi que pouco me importava saber.
Caminhávamos numa rua calma, quase deserta, mal iluminada. Um
muro imenso, que parecia não mais acabar, muito alto, que cercava
qualquer fábrica, erguia-se ao longo do passeio da esquerda.
— Mustafá também falou demais, como seu irmão. Interroguei-o.
Que dissera Mustafá? E a quem?
— Mustafá vive na minha rua. Falou no bairro. E na fábrica
também, pois Said, aquele que trabalha nos forros, repetiu-me a
história. Tanto melhor. Sinto-me quase aliviado. Eu tomara as
minhas precauções; agora acabou-se. Não temos de que nos
arrepender. Não mais nos esconderemos. Só que. . . terá de
compreender. . . eu tenho. . . ocupações. Não estou sempre livre.
Refleti muito.
Precisamos é de um lugar onde possamos estar sós, finalmente. Que
pensa você?
Dei-lhe a impressão de ter compreendido mal.


— Não, não estou falando de um café. Eu queria dizer um
quarto.
E acrescentou prontamente:
— No seu quarto não se pode pensar. Eu também não vivo só. É
preciso encontrar outra coisa. Vamos agora a casa de um tio que
mora na esquina desta rua. Vou tentar embrulhá-lo. Veremos.
— Também vou, eu?
— Claro! Agora, minha querida Elise, fará a sua entrada no círculo
dos irmãos.
A casa parecia abandonada. Nem um só ruído transpirava das suas
paredes.
— Evidentemente — disse Arezki. — É o zelador da fábrica em
frente. Tem só três locatários. Êle mora no último andar

Bateu na única porta do sétimo. Ninguém respondeu; bateu outra
vez, chamando e dizendo quem era. A porta abriu-se. Apareceu um
homenzinho atarracado, peludo, de aspecto hirsuto. Cobriu Arezki
de gemidos alegres e fêz-nos entrar. Como interrogasse Arezki,
apontando para mim, este interrompeu-o.

— Ela não compreende, fale em francês. Apresento-lhe Elise.
Dirigiu-me um frio boa-noite e voltou-se imediatamente para o
sobrinho.
— Sentem-se.
Apontou-nos a cama, que ocupava a maior parte do quarto. Tinha
os espaldares de ferro pintados de branco e um colchão tão delgado
que, ao sentar-me, senti as molas. O minúsculo quarto abria para o
telhado por meio de um postigo-basculante, cuja barra de ferro
pendia sobre a cabeça do velho.
No chão, entre panelas e caçarolas, um fogareiro elétrico aquecia
uma grande cafeteira. Estava ligado por um comprido fio à tomada
que servia de suporte à lâmpada que iluminava a mansarda.
A conversa entre os dois eternizava-se. Involuntariamente, o tio
voltava amiúde à sua língua nativa, o mesmo acontecendo a Arezki,
de tempos em tempos. Depois dava-se conta e voltava-se para mim.


— Desculpe-nos. É a força do hábito.
Olhei à minha volta, imaginando a mansarda limpa e transformada.
Eles passavam em revista cada membro da família. Eu escutava
pacientemente.
— A minha mãe é sua prima — explicou Arezki. Lançaram-se em
novas histórias de família, de que
eu não entendia uma palavra sequer.
— Vocês vão comer comigo — disse o tio, de súbito. E sem fazer
caso da recusa de Arezki, acocorou-se e
retirou de sob a cama uma marmita redonda, cheia de feijão.
— Está tudo pronto, é só aquecer. Vocês vão comer comigo.
Havia qualquer coisa vermelha sobrenadando.

— É o pimentão — explicou ele. Voltou-se para Arezki e disse-lhe
algumas palavras incompreensíveis. Arezki riu com gosto.
— Ele pede-me que lhe explique que a carne está por baixo. Não,
não, temos de partir.
— Vocês não partem sem comer — obstinou-se o velho.
— E o vinho? — indagou Arezki, com ar cúmplice. — Onde o
escondeu?
O velho baixara os braços. Segurava agora a marmita pelas duas
asas.
— Ah, têm feito miséria comigo! No outro domingo vieram dois. Eu
disse-lhes, pior para mim, surrem-me. matem-me, posso agüentar
tudo isso. Há trinta anos que trabalho na França. Vinte anos de
fundição. Há dez anos que sou vigia noturno. Tenho de beber o
meu trago. Pagarei a multa, todas as semanas, se quiserem. Mas na
minha idade já não se mudam os hábitos. Pagarei. Repeti três vezes:
pagarei.
— E depois? — perguntou Arezki.
— Então multaram-me. E disseram: "Continuaremos a multá-lo até
que pare de beber. Assim não poderá comprar vinho".
Balouçava dolorosamente a cabeça sobre os feijões.
— Você pode fazer alguma coisa. Vá procurá-los e explique-lhes.
Um velho como eu. Não sou... não podem achar-me perigoso.
— Onde é que escondeu o vinho?
O velho pousou a marmita, reergueu-se e caminhou até ao fogareiro
elétrico.
— Na cafeteira. Quer?
— Não. E se eles lhe pedissem uma xícara de café?
— Então eu digo: vou preparar-lhes um novo. E saio para ir lavar a
cafeteira na torneira do sexto andar. Mas a você, eles ouvirão. Digalhes
que pagarei a multa. Todas as quinzenas, em cada pagamento.
Mas que me deixem. Eu não faço mal a ninguém. Vivo sozinho. Não
sou eu quem prejudicará a revolução.

— A revolução — disse Arezki gravemente — é um bulldozer.
Fez um gesto largo:
— Ela passa...
O velho servira-se de um copo de vinho e bebia, suspirando.
Quando o esvaziou, Arezki pediu-lhe:


— Faça-nos café. Do autêntico, hem?
Cuidadoso, o velho despejou o vinho numa caçarola, cobriu-a com
um prato e saiu.


— Não está muito decepcionada com esta noitada, não?
Tranqüilizei Arezki. Acariciou-me o rosto.
Bebi sem prazer o café, mas disse que estava muito bom.
— Puxa, está de vomitar — cortou Arezki. — Cuidado, tio. O vinho
deixou um gosto danado. Agora vou pedir-lhe um favor.
— Tudo o que quiser. . .
Quando Arezki terminou, o velho assobiou. Trocaram algumas
frases, mas como tinham voltado a falar em árabe, não pude seguilos.
Arezki insistia. O outro respondia com um grunhido
desaprovador.
— A que horas começa?
— Às dez.
— Vamos deixá-lo agora. Reflita no caso. Eu voltarei.
— Venham comer!
— Qualquer dia.
Beijaram-se quatro vezes. O tipo abriu a porta, estendeu-me os
dedos e descemos. Preocupado, Arezki ficou silencioso por um
longo momento, respondendo às minhas perguntas evasivamente.
Em seguida, explodiu. O tio não queria ceder o quarto, nem
emprestar, nem trocar.
— Se eu lhe tivesse prometido o que me pedia, estou certo de que
aceitaria na mesma hora.
— E por que recusou ? É um velho. . .

— Acha que sou um duro? Existem regras. Um homem que bebe
torna-se perigoso. Fala. Se nada tem a dizer, fala qualquer coisa.
Faz-se notado. E depois é a regra, está tudo dito. Ali, em frente, vê
aquele sinal vermelho. Proibido atravessar. Entre os nossos,
colocamos sinais vermelhos. Temos muito que aprender e
trabalhamos no escuro, como toupeiras... Mas vamos mudar de assunto.
E que tal, se fôssemos comer? Entrementes, encontraremos
outra solução. Os feijões do tio abriram-me o apetite, mas tive medo
de que você não gostasse. Há aqui perto um café que serve
refeições. O dono é de minha terra. Não tem medo de andar no
meio da crioulada brava?
Descontente, parei. Arezki fez um ar espantado.
— Vamos, pequena sensível. Tenho fome e você está com frio.
Na esquina da rua, íamos atravessar quando ele me deteve.
É preciso encontrar um quarto. E depressa. Peça a seu irmão,
procure por seu lado. Não é possível continuarmos assim,
vagueando pelas ruas.
Nada pedi a meu irmão. Contentei-me em desejar ardentemente
que Arezki conseguisse descobrir alguma coisa.
Ficamos três dias sem nos encontrarmos. Deslizava a meu lado,
assim que me via sozinha e dizia muito depressa:


— Esta noite estou comprometido. Pensou no que lhe disse?
Bernier vigiava-me. Eu escrevia pequenos recados para Arezki e
tentava em vão fazê-los chegar a ele. Bernier estava por toda a parte.
Rondando ao longo da linha de montagem ou passando
subitamente a cabeça sorridente pela janela traseira de um veículo,
parecia dedicar-se unicamente a surpreender-me em falta.
Reservava-me seus latidos e eu não podia permitir-me qualquer
falta, por mínima que fosse. Ele próprio era o escoadouro, o bode

expiatório predileto de seus superiores, desde o chefe de oficina até

Gilles, do chefe de fabricação ao fiel de armazém;
todos o massacravam com observações, críticas, recriminações e
exigências. Gilles era o único que, por vezes, se dignava sugerir em
vez de criticar. Mas o espírito tacanho e mesquinho de Bernier só
encontrava rancor em relação ao seu contramestre. Voltava-se então
contra nós, esbravejando em todas as direções. Indiferentes,
gelatinosos ou eriçados, passávamo-lo para trás. Mas êle nos tinha
seguros pela bonificação, pois possuía o direito de no-la retirar. Para
que servia chegar a adulto, às vezes um homem próximo da velhice,
para afinal recairmos no mundo infantil da recompensa incerta?
Eu não tinha o vocabulário nem a segurança necessária para
enfrentá-lo. Por meu intermédio, êle desafogava o rancor secreto
acumulado contra Arezki. Não era este apenas o visado, mas, além
dele, todos esses malditos estrangeiros, esses mestiços que não lhe
tinham medo, que o obrigavam a correr de uma ponta à outra da
linha de montagem, responsáveis pelas reprimendas que êle tinha
de ouvir. E esse Arezki, pouco falador, cujos olhos o gelavam, que
se fazia obedecer por Mustafá, Said e companhia, como desejava
podê-lo humilhar, feri-lo, através de mim.
Menti quando Arezki me perguntou se já falara com Lucien a
respeito do quarto.

— Não sabe de nenhum — respondi eu. — Vai pensar no assunto e
avisar-me-á logo que souber de alguma coisa.
Já não via Lucien há muitos dias. Não fugia de mim, era eu quem o
evitava.
Estávamos de novo na rua, passeando nossos desejos e nossas
esperanças.
— Um quarto onde você me esperasse abrigada. . . Gostaria? Se não
quiser, vá dizendo logo, para que eu não continue alimentando
sonhos. . .
— E você, pode? Não tem impedimento?

— Já lhe disse, preferia o segredo. Agora, tentaremos safar a onça
sem causar danos.
— Por causa dessas... obrigações, não é? Que...
E eu gaguejava, deixando as frases a meio. Arezki sorria, sem olhar
para mim e sem responder.
Uma padaria, uma porta entreaberta, duas janelas com grades, uma
longa fachada arruinada pelo tempo, uma calha de zinco que
gotejava, semeando a parede de manchas de umidade, um boteco
com vidros opacos, diante do qual as lajes do passeio se afundavam,
desfilaram à minha direita todo o tempo que durou esse silêncio.
Adensavam-no, materializavam-no, eram coisas, objetos, que se
convertiam em testemunhas. Essas pedras, essas grades, essas
manchas, esse asfalto desgastado, ficariam para sempre
impregnados de uma sensação amarga de que eu não sabia a
origem: sua fealdade miserável, sufocante, ou a impossibilidade de
eu ser verdadeira, autêntica, para com Arezki. Os desejos
contraditórios que me sacudiam, levavam-me à dissimulação. Ele
segurava calorosamente a minha mão e, por vezes, levava-a aos
lábios, inclinando ligeiramente a cabeça para o meu lado. Falava
com gravidade e escutava-me atentamente. Então eu sacudia todas
as minhas hesitações parausantes. Os obstáculos tomavam um
aspecto excitante e eu mobilizava as minhas virtudes; a vida
encontrara, para mim, um sentido, uma significação. Mas por todas
as falhas da minha natureza reapareciam o receio, a hesitação, e não
faltavam os pretextos para retardar a opção heróica. As obrigações
de Arezki eram um desses pretextos. Para ele também, embora
nunca o dissesse.
Na fábrica, mantínhamos a mesma atitude reservada. Arezki
sempre me informava o que faria à noite, numa frase breve a que eu
respondia em duas palavras. Acontecia mais freqüentemente
olharmo-nos ou, se trabalhávamos no mesmo veículo, tocarmo-nos
de leve, carinhosamente. Duas vezes Arezki repetiu, ao separarmonos,
no final do trabalho:

— Precisamos de um quarto.
Febril, eu dizia que sim, que iria procurar, convencer Lucien, ver o
seu amigo Henri.
Assim que êle partia, eu imaginava as montanhas a transpor e
ficava descoroçoada, sem ânimo. Recordava Lucien e Marie-Louise,
a carta de Ana, os quartos de hotéis. Nada nos era dado, nunca. Era
preciso arrancar tudo à força.
— Quer sair comigo no próximo sábado? Não tem medo da lama,
da miséria?
— Arezki, o meu desejo é acompanhá-lo por toda a parte.
— Comeremos no bairro e iremos juntos a Nanterre. Tenho de ir
ver uns amigos. Eles esperam por mim e não posso faltar ao
encontro.
Apresentou-me: "É Elise". Arezki era esperado. Beijaram-no. E
começaram conversações intermináveis, cortadas pela chegada de
algum amigo ou vizinho. Todos se beijavam. "Esta é Elise". Eu
apertava a mão estendida, o recém-chegado sentava-se e a conversa
recomeçava. Não me sentia aborrecida nem impaciente. Observava,
refletia. Sentia a quietude que é proporcionada pela presença, pelo
som da voz amada.
Muitos jornais, depoimentos, narrativas, descreveram depois esses
lugares onde, apinhados, aglutinados, centenas de seres
sobreviviam; fazê-lo seria repetir essas mesmas palavras, acumular
os mesmos adjetivos, gravitar em torno dos mesmos verbos:
amontoado miserável, sofrimento físico, doença, pobreza, frio,
chuva, vento que sacode as tábuas desconjuntadas, poças de água
que escorrem sob as portas, medo da polícia, escuridão, dor, dor por
toda a parte. Somente uma palavra era ali desconhecida: desespero.
Todos diziam: "um dia. . . " e ninguém duvidava. 0 presente era a
luta pela sobrevivência. Alguns safavam-se menos mal. Mas a
grande maioria, fugindo aos sofrimentos multiplicados pela guerra,

procurando alimentar através de vales postais uma tribo inteira que
morria de fome, tinha chegado dos Altiplanos, dos aduares nos
confins da Cabília. E começava a corrida para o engajamento nas
fábricas dessas torrentes de imigrados que não sabiam ler os
letreiros e as tabuletas, enlouquecidos pelos ruídos da grande
cidade, solicitados à direita, à esquerda, diante deles, nas paredes e
nos muros, por toda a parte, pelas imagens, pela evocação erótica
dos cartazes publicitários, dos cinemas, das luzes, interpelados,
verificados, revistados, inevitavelmente suspeitos, incapazes de se
explicarem num idioma que mal conheciam.
O documento mais precioso, o livre-trânsito, o salvo-conduto, era a
carteira de salário. Sem ela, restava-lhes a porta negra do tintureiro,
fechando-se atrás deles. Sem ela, começava o longo suplício do
interrogatório, do espancamento e a devolução ao aduar de origem,
na realidade, a um centro de triagem onde esta era tão bem feita que
numerosos suspeitos dele nunca mais saíram.

— Quando vejo Mustafá brincando com o fogo, fico furioso. Se eles
o puserem na rua, talvez nunca mais encontre outra colocação e será
reembarcado num abrir e fechar de olhos.
— Mas Daubat chama-lhe negro. Eu mesma ouvi. Como quer que
ele se domine?
— Ah sim? Se isso o ofende, então é porque ele ainda não
compreendeu coisa alguma. Que nos chamem negros, crioulos,
mulatos, pouco importa. Temos de tornar-nos insensíveis a isso,
calejados. A mim, quando me chamam de crioulo, isso faz-me
sorrir. Peça a seu irmão que lhe explique; ele o fará muito melhor do
que eu. Faltam-me as palavras certas.
— Você, — disse eu, querendo gracejar — você não tem defeitos.
E porque assim pensava, acrescentei:
— É um exemplo para os outros.
— O que é isso? — cortou Arezki. — Olhe que posso ficar furioso,
pois desconfio que você está troçando de mim e não gosto disso. Eu

sou como os outros. O que pensa você? Eu também tenho vontade
de partir a cara de alguns figurões. Também tenho vontade de
tomar um pileque quando estou com as idéias negras ou para
esquecer. Eu também já bebi às escondidas. Eu também tenho às
vezes vontade de enganar o tesoureiro e não vou às reuniões sem
medo. Gostaria de passar o domingo na cama, em vez de me
levantar às seis horas para correr o bairro. Não prestar mais contas.
Não receber mais ordens. Há irmãos que, com franqueza, eu não
suporto. Mas é como o amor de uma mulher; fazem-se esforços para
lhe agradar, faz-se a barba com todo o cuidado, bota-se perfume,
perdem-se horas de sono para a ver, fala-se-lhe docemente,
carregam-se-lhe os embrulhos, leva-se-lhe presentes. Mas só que, no
meu caso, no de todos os meus irmãos, é preciso um amor ainda
maior, porque, às vezes, a meta parece distanciar-se ou pensa-se que
não vale a pena, que ninguém merece o nosso sofrimento. Estamos
bem longe de ser santos, embora não faltem os mártires. Temos os
nossos próprios defeitos e, além desses, os que são provocados pela
luta clandestina e a vida em comum. Brigamos uns com os outros,
antipatizamos com este ou aquele, mas ajudamo-nos todos como
homens que nadam na mesma correnteza, sem podermo-nos isolar
uns dos outros, dormindo lado a lado, lavando-nos em frente uns
dos outros. Há os alegres, os vaidosos, os velhacos, os ingênuos, os
duros, os cafajestes, os tímidos. Homens. E o milagre foi ter-se
conseguido impedir a explosão de cem ou de mil sujeitos
condenados a suportarem-se mutuamente.
Quando Arezki se calou, um homem levantou-se, espevitou o fogo e
acendeu o candeeiro de petróleo, pois a noite, que em janeiro cai às
cinco horas, mergulhava a cidade lacustre na obscuridade.

— Fiquem para comer — propôs alguém em francês. Era preciso
dizer que sim.
Arezki olhou para mim. Ia recusar, viu o meu breve sinal de
anuência e seus olhos me aprovaram.
Um homem dispôs os pratos. Tive direito ao mais novo.

Arezki parou de comer para dizer:

— Elise está conosco.
Um dos homens encarou-o, céptico.
— Ela está com você.
— Não, ela estava conosco antes de me conhecer. Embaraçada,
mantinha os olhos postos no meu prato.
— Conhece muitos franceses que estejam do nosso lado?
Arezki protestou que havia alguns, apesar de tudo.
— Operários?
— Não, operários não há muitos — reconheceu Arezki.
— E você sabe por que eles são contra a guerra? Porque ela custa
caro. Não é por nossa causa, nem por nossos filhos, nem por nossas
mulheres. São contra a guerra porque isso lhes encarece o bife.
— Estão mal informados — disse Arezki.
A noite avançava. Sobre nossas faces descia o tênue clarão do
candeeiro de petróleo. Quando a chama vacilava, os nossos rostos
enchiam-se de reflexos irrequietos. Numa prateleira, onde se
alinhavam diversas fotos, um despertador de tique-taque ofegante
parecia dizer-nos: "Despachem-se".
Foi preciso prometer que voltaríamos. Quando saímos dos
caminhos lodacentos, pudemos abraçar-nos, beijar-nos, e encontrei
nisso um deleite até então desconhecido. Arezki percebeu-o,
redobrando o seu prazer. Não podíamos baixar os nossos braços,
que fundiam num só os nossos corpos.
— Precisamos de um quarto. Mas fui eu quem o disse.
Faltavam ainda dez minutos. Eu subira cedo demais e a maioria dos
operários ainda não se apresentara. Daubat dirigiu-me um meio
sorriso, em resposta à minha saudação. O afinador-chefe, que media
a distância entre dois carros, voltou-me acintosamente as costas.
Portanto, ele sabia. Já o esperava, mas senti uma pontada


desagradável. Encostei-me a uma janela e retirei do bolso as palavras
cruzadas que recortara de um jornal velho. Lucien troçara
muitas vezes do interesse que eu dedicava à decifração de charadas.
De que não troçaria ele, desde que partisse de mim?
A sirena. Dobrei o recorte. "Ondula sob o efeito da brisa". Cinco
letras. Seara, naturalmente. Não era preciso escrever, eu recordarme-
ia. Nada de atrasos. Mas a imagem ficou, com suas cores, sua
graciosa sinuosidade, evocadora de frescura e de espaço. São os
sonhos que minam a energia.
Mustafá fez-me um ligeiro sinal e vi Arezki atrás dele. Fiquei no
carro.

— Não se mexa — gritou ele no meu ouvido. — Nem se volte,
Bernier segue-me.
Bernier passou, viu-me escrever, olhou para Mustafá que, ajudado
por Arezki, esticava um forro que ficara enrugado, por cima das
portas, e não parou.
— Será capaz de encontrar sozinha o café de ontem? Estarei lá às
oito horas. Iremos para minha casa, não há ninguém lá hoje.
Entendido?
Espreitava a minha chegada atrás da vitrina do café e saiu assim
que me reconheceu. O café fazia esquina com a rue de Crimée.

— Sim, vamos para minha casa, na rue de la Goutte d'Or. Goutte d'Or
(Gôta de Ouro). O nome refulgia. Mas era noite e nada vi que
pudesse distinguir essa rua.
— Estamos doidos. Eu estou doido — exclamou êle várias vezes.
Segui-o por um corredor em que êle entrou primeiro. Duas vezes
Arezki voltou-se para trás, advertindo-me contra uma tábua
rachada ou solta. Ao chegarmos aos primeiros degraus da escada,
deu-me a mão. Deixei-me conduzir. Desejava que a escada fosse
infinita, que fosse eterna essa ascensão silenciosa. Temia a chegada,

o momento em que, a porta fechada, nos reencontrássemos em
plena luz. O melhor do amor não seria essa ascensão tranqüila? Impaciente,
Arezki puxava por mim, levando-me a reboque,
arrastando-me quase, cada vez mais apressado, levando aos lábios
os meus dedos, que êle mordiscava.
Abriu uma porta e entrei. Escoaram-se alguns segundos, antes que
êle acendesse a luz e eu permaneci imóvel na escuridão. O quarto
iluminou-se. Havia duas camas, uma bastante ampla e a outra
conversível, estilo cama de campanha, encostada a um canto.
Quantos dormiriam ali? Na cama grande, uma colcha estampada
com grandes flores redondas, roxas, formando ramalhetes
separados, impregnava o ambiente com seu aroma de cretone novo.
Realmente, o pano ainda conservava a goma e os vincos da fábrica.
Acabado de comprar, sem dúvida. Comprado Para mim. Numa
mesa, colocada no canto direito, uma porcão de latas e alguns
copos. Olhei pela janela, as mãos pendentes sobre o casaco.
Arezki aproximou-se de mim e tomou-me as mãos. Notei as
sobrancelhas que se uniam quase numa linha espessa e contínua.
Aquele olhar sem alegria — denotando apatia — com o reflexo da
lâmpada, não era mais um olhar de desejo. Dir-se-ia que, de súbito,
a minha presença o deprimia. Mostrou-me a janela sem cortinas.
— Espere, — disse ele — vou apagar a luz.
As luzes das casas em frente bastavam para dar alguma claridade
ao quarto. Na penumbra, senti-me mais à vontade. Distinguia a pele
mais reluzente, mais escura, em redor da boca de Arezki. Quis falar,
mas senti-me rolar, arrebatada num turbilhão violento.
Arezki sorria. Relaxei um pouco. Ajudou-me a tirar o casaco,
dobrou-o lentamente e colocou-o na única cadeira, com mil
cuidados. Só poderíamos sentar-nos na cama, sobre as enormes
flores. Atraiu-me para si.
As flores fundiam-se, as paredes ruíam, as luzes empalideciam. Ele
falava depressa, dizia palavras em sua língua rude. Por minha
parte, sentia-me tolhida na rede de sua ternura. Desejei que ele me

mordesse outra vez os dedos. Pensava, ao mesmo tempo, em Lucien
e Ana, no que me acontecia, e era como um torvelinho no interior de
um círculo, em que a minha vida encolhia, contraía-se, anos, meses,
dias, os vindouros e os passados, tudo subitamente petrificado; e
esse instante mantinha-se no centro do círculo, um ponto luminoso,
brilhante, que me ofuscava e sacudia. Deixei-me deslizar em seus
braços, o rosto esmagado contra a fazenda áspera do seu paletó. Um
concerto fragoroso invadiu a rua. "Os bombeiros", pensei eu. Arezki
ficou imóvel. Os carros deviam desfilar uns atrás dos outros, pois
seus uivos aumentavam, prolongavam-se sinistramente.
Bruscamente, cessaram debaixo da janela. Arezki soltou-se.
Compreendi no mesmo instante.

A polícia. Comecei a tremer. Não tinha medo, mas tremia, de
qualquer modo. Não parei de tremer: as sirenas, os freios, o ruído
seco das portas dos veículos e o frio — sentia-o agora — o frio do
quarto. Em frente, as luzes se haviam apagado. Eu não sabia o que
fazer, tão bruscamente separada de seus braços. Arezki pôs um
cigarro entre os lábios e estendeu-me o casaco.

— Tome — disse êle, evitando olhar para mim. — Vista o casaco e
volte para casa, desde que o caminho esteja livre.
Joguei o casaco para cima da cama. No hotel, o silêncio total.
Quando subíamos, um toca-discos fazia ouvir uma canção árabe:
"L'Aid... L'Aid...". Todo o tempo em que Arezki me teve apertada
contra si, a música me envolvera também. Agora emudecera. Só nos
chegavam os apitos e as vozes dos policiais, transmitindo ordens.
Subiam a escada correndo. Seus passos pesados esmagavam as
tábuas carcomidas, fazendo-as ranger. Atingiram o patamar. Aqui
paravam; ali entravam; acolá saíam. Por que Arezki não queria
olhar para mim? Fumava. Acendera o cigarro e colocara o fósforo
enegrecido na beira da mesa. Fumava, calmo na aparência, como se
não compreendesse, não entendesse nada. Os policiais batiam com
os punhos nas portas dos quartos. Com os pés também, adivinhava-
se pela violência das pancadas.

— Polícia!
— Polícia!
Eu não conseguia falar, crispada. No escuro, imóvel, apenas
escutava e, pelos ruídos, acompanhava o desenrolar da batida,
como uma cega. Os guardas apitavam agora dentro do hotel.
Alguém gritou uma ordem e o ruído dos Passos precipitou-se.
Tinham alcançado o nosso andar e corriam para as saídas. As vozes
adquiriam um som estranho, o silêncio do hotel amplificava-as.
Tinham potentes lanternas, cujos feixes de luz penetravam até nós,
como relâmpagos, pelas frinchas das portas desconjuntadas.


— Vamos, crioulada! — ironizou um policial. Os outros riram.
O mais angustiante era o silêncio. Nada de gritos, queixas,
protestos, nenhuma voz exaltada, nenhum sinal de luta; policiais
numa casa vazia. Depois, subitamente, houve um ruído de alguém
que rola, depois outro, um ruído surdo de queda precipitada, de
gente empurrada de roldão, escada abaixo. E o silêncio de novo. Na
rua, alguém chorava.
— Vamos, vamos, vamos!
Fiz um esforço, pus-me de pé e fui até à janela. Homens eram
empurrados para os tintureiros. Em alguns tinham sido postas
algemas. Outros sacudiam o pó das mangas, reajustavam as calças.
A noite estava clara, fria, pura. O lampião, perto do carro, iluminava
a cena, os homens estavam em fila e, da janela, eu só lhes podia ver
os crânios alongados, a lã preta dos cabelos, "ó raça com cabeça de
carneiros e, como estes, conduzida ao matadour o . . . " . O poema
que Henri nos lera há tempos, quando aguardávamos o momento
de começar a viver a vida ideal. Um dos homens, o último da fila,
pequenino, cujos cabelos brilharam quando atravessou o círculo
luminoso, abrandou o passo e rebuscou num bolso. O nariz devia
sangrar-lhe. Voltou a cabeça de lado e limpou-se na manga. Um dos
policiais avistou-o, precipitou-se para ele, agarrou-o pelos ombros e,
moendo-lhe as costas de pancada, empurrou-o na direção do

tintureiro. O outro tropeçou e caiu de cara na calçada. Desviei o
rosto. Não consegui mover-me logo. Cada gesto me parecia
indecente, mas eu não podia continuar naquela escuridão, naquele
silêncio, naquela fumaça picante que saía dos lábios de Arezki,
subia, revoluteava e perdia-se nos cantos. Por que Arezki não me
falava? Ainda não fizera um movimento. Agora, batiam na porta do
quarto vizinho. Os caprichos da construção tinham relegado o nosso
quarto para um embrião de corredor à direita das privadas. Tinham
de passar por todos os outros quartos antes de chegar à nossa porta.
Mas que faziam eles ali? E os outros, por que não se debatiam? Não
gritavam? Eu tinha de mover-me. Voltaria a sentar-me junto de
Arezki, tomaria seu braço e ficaria agarrada a êle. Ouviu-se um
grito, breve, abafado. Um galope até à nossa porta. Aquele que
tentara fugir, teria visto as saídas guardadas? Parecia marcar passo,
respirando forte, entrecortado, mas os guardas já o tinham
alcançado. Ouvi o choque, as exclamações, os insultos, as pancadas,

o corpo arrastado, lançado pela escada abaixo, rolando pelos
degraus. Uma música explodiu. "L'Aid... L'Aid...". Batiam palmas,
acompanhando o ritmo dolente. A voz de uma mulher em frenesi.
O ruído de um objeto quebrado, o toca-discos, sem dúvida.
Agora nós. Foi rápido. Arezki acendeu a luz e deu a volta à chave,
abrindo a porta. Eles entraram. Eram três. Quando me viram,
assobiaram.
— Levante os braços. Argelino, marroquino ou tu-nisino?
— Argelino.
Apalparam-lhe os bolsos, as mangas.
— Os seus papéis, a folha de salário. A última.
— Estão aqui — disse Arezki, mostrando a carteira.
— Dispa-se.
Arezki hesitou. Os tiras olharam para mim.
— Mais tarde ou mais cedo a coisa tem de ser feita. Vamos,
depressa.

Não desviei a cabeça. Concentrei-me em colocar os olhos acima de
Arezki, como um cego que fixa sem ver. Não fiz qualquer
movimento. Arezki baixara os braços e começara a despir o paletó.
Eu não queria encontrar o olhar dele, era preciso que meus olhos
não abandonassem a parede, sobre a sua cabeça.

— Papéis, senhorita? Senhora?
Se eu pudesse não tremer. Para entregar-lhes os meus papéis, tinha
de apanhar o casaco, abaixar-me, levantar-me, outros tantos gestos
dolorosos.
— Vocês não têm o direito — disse Arezki. — Estou legal, não
tenho armas.
— Deixe-se de histórias, irmãozinho, e tire a roupa. É com o salário
de operário que compra camisas como esta?
Era a branca, listrada, a do boulevard Saint-Michel, eu a reconheci.
Diante da porta que eles tinham deixado aberta passaram dois
outros policiais. Enquadravam um homem, de algemas nos pulsos,
que um terceiro empurrava com o joelho.
— Então, e aí dentro?
O que acabara de falar veio encostar-se no umbral da porta.
— Há uma mulher — disse o policial que se encontrava diante de
Arezki.
O outro encarou-me duramente.
—Chama a isso mulheres. . . !
Saíram para o corredor. Arezki continuava ladeado pelos dois tiras,
que mantinham suas armas na horizontal.
— Tire a camisa! Arezki obedeceu.
— Vamos, continue! As calças, para que eu as reviste.
— Já as revistou.
— Cale a boca e levante os braços.
Ao mesmo tempo, o policial da esquerda aproximou de Arezki o
cano da sua arma. O outro desapertou a fivela do cinto e as calças
deslizaram para o chão. Arezki só tinha agora sobre o corpo as
cuecas brancas. Riram da figura de Arezki.

— Tire isso, vá! Alguns caras conseguem esconder coisas debaixo
da cueca.
Enquanto falava, apoiou a boca da arma no ventre de Arezki. O
outro, com a ponta dos dedos, puxou o elástico e as cuecas
desceram.
— Quando chegou à França, como é que você se vestia, hem? Usava
o turbante, não? Com piolhos por baixo? Aqui está bem, come,
compra boas camisas, agrada às mulheres. Tome as suas calças e
boa noite pra vocês, certo?
Saíram juntos. Eu olhava para a rua, onde as luzes voltavam a
pouco e pouco. A casbah de Paris recomeçava a viver. Demorei-me
observando no céu as nuvens que se distanciavam. O mais difícil
estava para chegar ainda: olhar novamente para Arezki.
— Você vai voltar já para casa — disse ele, numa voz neutra.
— Sim, vou voltar. . .
Sentado na beira da cama, Arezki acabava de beber um copo de
água.
— Gostaria de um copo também.
— Sirva-se. Está fresca.
Encaminhei-me para ele. Que palavras dizer? Desejaria conhecera a
sua língua. Ajoelhei-me .A cabeça girava-me. Ele tinha as duas
mãos espalmadas sobre as flores roxas do leito. Duas flores também.
De bronze reluzente as folhas fechadas, de rosamate as folhas
afastadas. Tomei-as nas minhas. Os gestos de amor eram-me pouco
familiares. Desajeitadamente, segurava-as sem saber o que fazer
delas. Inclinei-me e beijei-as uma vez, nas palmas quentes e
carnudas como seios. Arezki não as retirara. Beijei-as de novo, sem
constrangimento, inebriada pelo odor da pele quente e úmida e de
cigarro, mordia-as, beijei-as, mordia-as, acariciei-as com a língua.
Arezki disse uma palavra. que não entendi. Coloquei a cabeça entre
as duas palmas abertas.
— Volte para casa — repetiu ele. — É precise que volte.

— Luxem, que se passa? Disseram-me no Lar que você veio
procurar-me duas vezes.
— E não estava. Não sabiam quando voltaria. Henri queria vê-la.
Para a sua "reportagem", compreende. Está fazendo um grande
inquérito e esperava poder interrogá-la. Você e . . . Arezki.
— Sim, voltei bastante tarde. Estou contente por vê-lo, sabe? A
vovó escreveu. Agradece-me o presente de Natal que lhe enviei.
Marie-Louise visitou-a. Vive agora em casa da irmã, mas entre as
duas a coisa não está muito católica. Vai fazer um ano que você
partiu, já pode calcular o resto.
Disse que sim, acenando a cabeça.
— Calculo, sim. Mas, de momento, tenho problemas muito mais
urgentes. Devo um monte de dinheiro. Muito mesmo.
— Dê uma facada no Henri!
Ele encolheu os ombros e olhou-me desdenhosamente.
— Henri não é um filantropo, Lise. Será, no futuro, um grande
sociólogo. Observa o meu gradual afogamento, transcrevendo
meticulosamente todos os detalhes da agonia. E, depois, você bem
sabe que Henri é a favor da devastação total, não da salvação
individual. No que eu o aprovo. . . Ah, Henri. . . Henri. . . — repetiu
Lucien várias vezes, afastando-se.
Por um breve instante, fui tentada a alcançá-lo de novo. Mas
receava alguma ironia no seu olhar ou nas suas exclamações. Lucien
quebrava todos os impulsos; mesmo o seu aspecto físico, a
decomposição do seu rosto de adolescente, o embrutecimento da
sua expressão, a avidez dos olhos, o nervosismo da boca demasiado
móvel, desencorajavam qualquer olhar amigo que sobre ele
pousasse. Subindo a escada, perguntava a mim mesma se o desejo,
quando o dominava, transfiguraria aquele rosto, se ele encontraria
junto de Ana "o escasso quarto de hora de ternura", como ela
escrevera, um outro estado, enfim, e não o resfolegar inquieto que,
para ele, simbolizava o amor.

Mas eu estava ainda tão profundamente marcada pelas emoções da
noite anterior que só era capaz de me preocupar a sério comigo
mesma. E, além disso, o amor significa algo para uns, enquanto para
outros quer dizer coisa bem diferente. . . como saber e como
distinguir ? O de Ana e Lucien, eu concebia-o como um grito
prolongado, um coice violento em que eles se exterminavam e logo
renasciam, um jogo doido que os isolava, os condenava à solidão,
navio errante que não acostava em porto algum. Eu nunca fixara em
palavras absolutas o que me atraía para Arezki. Nunca me dissera
"amo-a" e eu nunca dissera a mim mesma: "amo-o". Arezki é. Arezki
há. Como houvera Lucien.
Os acontecimentos desempenhavam o papel de divindades hostis e
um incidente desfazia as malhas que tínhamos levado dias e dias a
tecer laboriosamente.
Durante três dias, Arezki evitou-me. Mas eu não me sentia infeliz.
Compreendia ser necessário deixar o tempo correr, esse tempo
voluntariamente perdido. Depois, poderíamos fazer de conta que
tínhamos muitas coisas a dizer um ao outro, para nos recordarmos
de um incidente passado.

Eu trabalhava sob os olhares curiosos de Mustafá, que me
observava de soslaio. Já não discutia comigo e, como estava
zangado com o "Magiar", soltava por vezes longos e tristes suspiros.
Daubat vinha inspecionar freqüentemente os forros, em companhia
do afinador. Por duas vezes me interrogaram, num tom de gracejo
amistoso e cordial que me reconfortou. Respondi-lhes com entusiasmo.
Era bom sentir que não estava inteiramente votada ao
ostracismo.

Crimée. Ele disse Crimée, às sete horas.


Caminhamos pelas ruas que nos parecem mais pacatas, nos limites
do quadrilátero maldito de que a Goutte d'Or é o coração. Falamos
prudentemente, com certa reserva, e foi Arezki quem arriscou
primeiro uma alusão.

— Você teve medo?
— Medo por você, sim.
Mas não é verdade. Minto. Minto. Tive medo mesmo e quando me
lembro ainda tenho medo. Lucien, você dizia: "A polícia... bah!".
Mas eu digo, sim, tive medo. Nunca em minha mente se
concretizara a palavra força. E agora ela está vestida de escuro,
uniformizada, de polainas brancas, capacete, cinturão. Tem ombros
largos, mãos possantes, armas brutais. Rebrilha do capacete à
metralhadora. Eles são os mais fortes.
Entramos num café, depois em outro. Caminhamos, falamos,
retrocedemos, atravessamos.
— Vamos jantar juntos. Num restaurante, uma tasca, melhor dito,
mas o irmão do proprietário é casado com a minha irmã.
Apresentação: é a Elise. O homem tem grandes braços nodosos,
uma cara comprida, cuja pele é recoberta de rugas. Prepara a mesa
do fundo e serve-nos copiosamente. Não podemos tocar-nos nem
sorrir um para o outro, mas o fato de estarmos juntos nos apazigua.
Cabeças curiosas nos olham. Quando a porta se abre volto-me, pois
Arezki está de frente para ela. Falo de Lucien, que me inquieta.
Mas os tormentos de Lucien nada lhe interessam. Faço o resumo da
carta da minha avó, a frase final em que a pobre mulher grita o seu
terror de morrer no hospicio. Arezki escuta-me.


— E se fôssemos viver na sua terra? Moraríamos juntos, você iria
buscar a velhota. Eu trabalharia. Eu gostaria dela e ela gostaria de
mim.
Não respondi que punha as minhas dúvidas. Um árabe. . . O
espantalho da vovó.

— Mas, e você? Poderia sair daqui? Tem liberdade para partir?
Talvez tenha coisas importantes a fazer em Paris,
responsabilidades?
Arezki inclinou-se ternamente para mim:
— Correndo o risco de decepcioná-la, não passo de um simples
militante. Isso poderia se arranjar. Em qualquer parte serei útil. O
que diz você?
Não digo nada. Estou esfrangalhada.
Encontramo-nos, meu irmão e eu, na mesma fila de ônibus, às seis
horas e quarenta. Sem procurar juntar-se a mim, dirigiu-me um
ligeiro aceno de cabeça. Por intermédio da vovó, Marie-Louise
escreveu-me. Mas, a essa hora matutina, bela e agradável, nada lhe
direi.
O ônibus abranda a marcha, dificultado pelos veículos que
desembocam do Bois de Vincennes. Limpo o vidro embaciado em que
vou encostada. O dia clareia sobre o estádio de Charenton. Na
neblina que se dilacera aos poucos, alguns rapazes correm sobre o
gramado úmido, envergando uniformes azuis de treino.
Nasce o dia, suas bocas sorvem o ar puro e por todos °s poros lhes
penetra a alegria da nova manhã. Os músculos retesados, a passada
larga, eles correm, correm, enquanto o ônibus avança na direção da
Ponte Nacional. O sol emerge sobre os vagões imóveis nos desvios.
O dia nasce sobre a Porte de Choisy e outros rapazes correm para os
vestiários, onde vestem seus macacões azuis, manchados de graxa.
Didi contava que estivera em Paris no domingo anterior.

— Em Wagram, para dançar.
Algumas já tinham ouvido falar de Wagram. A grande maioria
delas nunca saíra de seu bairro. Não conheciam a sua cidade, nada
sabiam de Paris. A gorda que ajudava o fiel de armazém dizia :
— Eu, faz quinze anos que não passo da Place d'Italie.

Eu bem sabia como decorre uma vida que se vê passar. Mas aqui,
em Paris, com todas as suas lendas dos faubourgs e das barricadas,
eu perguntava a mim mesma como isso poderia acontecer. O
trabalho, o desgaste, a falta de tempo, mas também uma
passividade revoltante, quase atávica, um instinto gregário,
dissecavam uma vida em que o cinema do bairro, o botequim da
esquina, representavam a desalienação suprema. Elevar-se
significava ter, possuir. Triunfar queria dizer adquirir. Móveis, um
automóvel, uma casinha em vinte anos. A partir daí começa-se a
viver, a gente sente-se admitida, aceita.
Ao passar diante de mim, Didi endereçou-me um sorriso. Entramos
juntas na oficina e ela desejou-me "coragem" quando cheguei ao
meu posto. Os homens fitavam-na gulosamente. Os olhos dela não
pestanejavam, enquanto atravessava as filas de operários reunidos
diante das máquinas. Ela gostava da solicitação masculina, embora
insensível, na aparência, aos gracejos e assobios.

— Adormeceu? — veio dizer-me Arezki. Surpreendera-me de
pálpebras descaídas, mãos lânguidas.
Estava deveras cansada. Ajudou-me, assinalando os defeitos que
notara antes de mim. Intrigado por essa colaboração, Bernier veio
espiar quatro vezes. Mas nada podia dizer, pois o que Arezki fizera
não era proibido.


— Esta noite, vá dormir cedo. Já pensou no assunto? Vai escrever à
sua avó?
— Sim, vou ocupar-me disso! — gritei eu.
Não era coisa que se pudesse desejar, nesse começo do ano de 1958,
ser um argelino em Paris. Vivia em suspenso.
Prisão, desemprego, repressão, internamento, nada disso indignava
Arezki.
— É normal — dizia êle. — É a guerra.
Ria das minhas revoltas. Aceitava ser um pária. Contava-me, por
vezes, os sofrimentos de que tinha sido testemunha ou que lhe eram
relatados. Censurei-o um dia por não se comover.

— Um povo que já teve quinhentos mil mortos. E ainda não acabou!
Quer que eu chore sobre quinhentos mil cadáveres?
Voltamos a Nanterre num outro sábado. Havia um recém-chegado,
um homem de meia-idade, sentado numa cadeira diante do fogo,
cujo terno antiquado, um jaquetão de cruzar na frente e grandes
lapelas pontudas, preto com listras brancas muito finas, flutuava
num corpo seco, de costas abauladas. Arezki precipitou-se.
Beijaram-se profusamente, no meio de exclamações jubilosas, e
abracándose de novo cada vez que concluíam uma lengalenga. Por
fim, Arezki recordou-se de mim e, solenemente apresentou:

— Esta é a Elise. . .
O homem, que chegara nessa mesma manhã, viera de sua aldeia
nativa, explicou-me Arezki.
— Si Hassan, — dizia-lhe ele — Elise está do nosso lado.
Quando tudo isto acabar, levá-la-ei a visitar o nosso país.
Si Hassan não se moveu. Encarou-me com um olhar indiferente e
voltou a falar com Arezki. A conversa prolongava-se. Era sempre
com uma certa dose de terror que eu via iniciar-se uma discussão
entre Arezki e um dos seus. Assemelhava-se a um longo fio que se
vai estirando durante horas e horas, e de que nunca se vê a ponta.
Desta vez, Arezki não pediu a Si Hassan que falasse em francês.
Num dado momento, levantou-se e retirou-se da sala por alguns
minutos. Ao retomar o seu lugar, disse num tom quase alegre:
— Não se deve confundir. Os franceses não nos detestam. Mesmo
na Argélia há alguns que gostam de nós.
Os olhos de Si Hassan, pequenos, quase imóveis, orlados de negro,
passaram por mim. Pigarreou duas vezes, procurando as palavras.
— Acredita? — perguntou em francês. — Eles gostam da Argélia,
não dos argelinos. O francês gosta do argelino como cavaleiro
gosta. . .

— Da sua montada — terminou Arezki. — É um provérbio da
nossa terra.
Si Hassan levantara-se e apanhara na mesa um embrulho, atado
com um cordel. Estendeu-o a Arezki e este, cuidadosamente,
desatou-o e abriu-o. De um pano branco retirou vários bolinhos de
farinha.
— De minha mãe. Teve de passar privações para mandar-me
estas coisas.
Distribuiu os bolos aos presentes e comemos, enquanto um dos
homens preparava café.
— Ela sofreu muito e por culpa dos nossos. O seu pai, o meu pai, o
meu irmão... e eu também.
— Vão evacuar a aldeia — disse Si Hassan — e alojar todo o mundo
num centro.
— Para limpar a região. E isto, o que é isto?
Arezki segurava uma pequena caixa de ferro, também atada. Si
Hassan sorriu. Arezki abriu-a. Continha terra.
— Foi idéia da sua mãe. Ela disse: Arezki guardará um pouco da
nossa terra, onde ele semeou hortelã.
Arezki inclinou a cabeça, fungou e depois, despejando a terra em
suas mãos, levou-a aos lábios e beijou-a. Mas logo se empertigou e
acercou-se da lareira.
— Não quero guardar isto. Esta porcaria só serviria para me fazer
chorar.
Lançou a terra para o fogo mortiço; ouviu-se uma crepitação e
saltaram algumas chispas.
Partimos já de noite. Vimos caminhar ao nosso encontro um homem
que ziguezagueava de um passeio ao outro. Quando chegou diante
de nós, examinou Arezki por alguns segundos e, dirigindo-se a ele,
disse:
— Balak. . . a estação. . .
Arezki estacou, agarrou-me pelo braço e fizemos meia volta.

— Ele disse para termos cuidado. Com certeza estão fazendo uma
batida na estação. Vem, tentaremos encontrar um táxi, do lado da
parada dos ônibus. Tenho de voltar cedo para casa.
No táxi, interrogou-me a respeito da vovó. Respondi-lhe que
escrevera, para preveni-la. Era preciso avançar aos poucos, habituála
à idéia, não a forçar.
— Já lhe contei como vivi. Ela está habituada a saber-me sempre
disponível.
— Faça como quiser, mas faça. Aqui nunca poderemos viver juntos,
a menos que aconteça algum milagre. É o que deseja, não é
verdade?
Como desejo! Cada vez que tínhamos de nos separar, eu tomava a
resolução de escrever. Depois, subordinava-a a esta condição
irrealizável: possuir economias. Ou então imaginava abrir-me com
Lucien. Mas seus próprios problemas bastavam para o absorver.
Marie-Louise escrevera:

"Minha querida Elise: peço-lhe que me dê o endereço do meu
marido. Separei-me da minha irmã e voltei para casa dos meus pais.
A menina está muito crescida, é muito bonita, parece-se com o pai.
Trabalho como antes. Mas isto não é vida. Quero ver Lucien. A
vovó está muito preocupada, conta com vocês, e eu também, para o
endereço.''

Encontrei diversas vezes Lucien, mas não lhe disse nada sobre a
carta. Andava muito excitado e, voluvelmente, explicou-me que "a
coisa estava mexida". Advogados apelavam para a Cruz Vermelha
Internacional, a polícia apreendera os flãs de um livro denunciando
torturas e logo formaram-se comitês. Quando transmiti essas
novidades a Arezki, ele disse apenas: "Sim, eu sei". Propus-lhe


timidamente, um dia, que dispusesse de mim se eu pudesse ser útil
aos seus.
Sorriu e abanou a cabeça.


— Agora não. Eu pensaria e eles também que era apenas por mim. E
isso não basta. Mesmo Lucien não seria capaz. Esse seu amigo
Henri, sim, confiaria nele. Mas o seu irmão... para mim é outro
Mustafá.
Achei injusta e precipitada a sua opinião sobre Lucien. No dia
seguinte, Lucien provocou tumulto. Pelos jornais da manhã,
tínhamos sabido do bombardeio de Sakiet.
Na pausa do meio-dia, Lucien precipitara-se para saber as últimas
notícias e, aproveitando a hora de descanso, preparou uma espécie
de moção que leu aos operários reunidos diante do portão da
fábrica. Evocava as bombas, a morte de crianças, a violação de um
país, a extensão da guerra, os sofrimentos de um povo.
Trepado num marco de pedra, junto da entrada, Lucien arengava
aos que iam chegando, solicitava as assinaturas de todos os
operários, apontou a vergonha de sua passividade, acusou-os de
cumplicidade, sacudiu-os, implorou-lhes, apelou para a honra, a
solidariedade de classe, para os seus sentimentos, falou dos
camaradas argelinos presos, torturados, da miséria e do terror das
crianças, testemunhas inocentes da guerra.
Um pequeno grupo o escutava. A maioria, quando percebeu que
não se tratava de reivindicações para eles próprios, voltava as costas
e ia embora. Outros ficavam. Entre os que o escutavam, atentos, um
homem interpelou Lucien quando este concluía sua pregação, a voz
rouca.

— Escute aqui, rapaz! — gritou êle. — Então é você que vem falar à
gente desse jeito, hem? Não terá sido você, por acaso, que largou de
mão a sua mulher e um filho, segundo consta no serviço de
assistência social? E vem agora pregar moral à gente?

— É melhor que desça daí — interveio o delegado sindical, que
escutara de longe. — Não lhe compete tratar desses assuntos. Com
que direito? O que é que você representa?
Julguei que Lucien ia saltar sobre eles, agredi-los.
— Vocês são todos uns frouxos! — bradou com desprezo, saltando
do marco de pedra para o chão. — O que tem a minha vida pessoal
a ver com isso?
— Tem muito, meu velho!
Por sorte, a sirena dispersou o ajudante. Lucien ficou para trás,
acendeu um cigarro e dirigiu-se para a escada. Alcancei-o. Senti
uma enorme pena dele, desejaria beijá-lo, gostaria que Ana estivesse
presente para acalmá-lo.
Voltou-se quando lhe puxei pela manga.
— Entrei pelo cano — resmungou êle.
— Era preciso que alguém falasse. Agiu bem.
— Só se faz bem quando se consegue ter êxito. Se não somos
eficazes, nunca temos razão.
No questionário preenchido no dia de seu engajamento, Lucien não
omitira a declaração de sua filha, Marie. Sem dúvida ele obtivera
uma certidão de nascimento e outros documentos, porquanto Ana
recebia, todos os meses, os abonos devidos a Marie-Louise.
Mas uma fiscalização descobrira a fraude.
Intimado a comparecer, Lucien jurou que enviava o dinheiro à sua
mulher.
Veio procurar-me.


— Você dirá que a encarreguei de fazer as remessas, mas que você
perdeu os talões dos recibos ou que os guardou num envelope, que
não sabe onde está. Qualquer coisa assim. . .
— E acha que Marie-Louise também vai declarar isso?

— Sim, se eu lhe escrever de uma certa maneira. E já pensou?
Marie-Louise tomando providências, apresentando queixa, quem
podia esperar isso dela?
Realmente, eu não o imaginava. O comissariado, a queixa, o
advogado, o processo de divórcio, eram coisas que nunca
passariam, julgava eu, das ameaças verbais.
— Como pensa em sair desta?
Lucien ignorou a minha pergunta. Fui uma noite a sua casa. Estava
repleta de livros. Notei, sobre uma cadeira, uma vitrola novinha em
folha e alguns discos, cuidadosamente arrumados. No quarto mal
iluminado, os seus ângulos tristes desapareciam na sombra. Os
livros novos misturavam o cheiro de tinta fresca ao do café, e o
disco que tocava em surdina evocava o marulhar de fontes cristalinas,
cujas águas corressem sobre pedras polidas. Preta e branca
na penumbra, o rosto apoiado na palma da mão,
Ana acompanhava com os olhos os jogos de água, e a música
salpicava-a de gotas brilhantes.


Arezki e eu continuamos a encontrar-nos regularmente.
Caminhávamos, jantávamos em qualquer lugar. Era eu quem o
acompanhava até ao seu hotel. Suplicara-lhe que me proporcionasse
essa satisfação depois daquela noite em que após me conduzir até
ao metrô, fora interpelado e preso:

— A que horas deixa o trabalho?
— Às seis.
— E que fez depois das seis? São quase onze horas.
— Estive passeando...
— Então venha passear agora com a gente. Mantiveram-no no
xadrez durante toda a noite e a manhã do dia seguinte.
Eu ficava mais tranqüila quando o deixava diante da sua porta.
Apertava-me a mão e saudava o que fazia plantão à entrada do

corredor. Assim, eu partia mais segura. E compunha mentalmente,
enquanto caminhava, a carta que enviaria à vovó.
Said, que trabalhava no setor dos forros, foi despedido. Vivia no
13.° Distrito. Apanhado em inúmeras batidas, detido, encarcerado,
faltava com freqüência ou chegava tarde.


— Que será dele agora? — perguntei.
— Os outros o sustentarão. Mas se não arranjar trabalho, não sei,
acabará roubando.
Arezki dizia-me isto com tanta simplicidade que a coisa pareceu-me
natural.
Impaciente por fazer sua aparição, a primavera deu °s primeiros
safanões em fevereiro e pudemos passear várias noites na pequena
praça ajardinada de Chapelle. Saboreávamos até à última gota esses
pequenos prazeres que nos eram permitidos. Ao aproximar-se a
noite, o céu explodia; figuras móveis perseguiam-se, sobrepunham-
se, fundiam-se e entredevoravam-se atrás de um muro, para voltar a
surgir, mais alto e mais longe, em espirais transparentes.

— Olhe a lua...
Arezki puxava-me pelo braço. Eu dizia "Oh...", maravilhada. Então
ele sacudia-me, divertido.
— Então, minha boba! Não vê que é o lampião? Olhe melhor, o
poste está escondido pelas árvores. As miragens da civilização. . .
E ficávamos rindo à toa, apoiados às costas do banco onde
descansávamos. A cada cinco minutos, uma composição do metrô
elevado irrompia ruidosamente na noite suave. As sirenas da
polícia passavam e repassavam e as nossas respirações
acompanhavam-lhes o ritmo. Fazíamos apostas sobre o
aparecimento próximo de botões nas árvores em redor. As palmas
de nossas mãos, esfregando-se uma contra a outra, produziam um

contato quente e agradável. Pele contra pele, os nossos dedos
vibravam.
Mas, de súbito, voltou a neblina: manhãs frias, horizontes fechados
e opacos; março foi assim até ao dia 18, o primeiro dia claro, depois
dos nevoeiros.
Surpreendeu-nos como um sorriso inesperado numa fisionomia
inexpressiva. As nuvens lentamente rasgadas, o sol apareceu por
fim. Os olhares seguiam cada abertura no céu com esperança. O 18
de março... Ao meio-dia abrimos todas as janelas. À uma hora
encontramos todos os carros quentes. A atmosfera estava tépida,
suave. Dava vontade de respirar de boca escancarada. Os homens
arregaçavam as mangas. Na porta de cada veículo, um rosto
moreno destacava-se na claridade. Tudo aconteceu assim, sem
gestos bruscos, brandamente. Primeiro, alguém, no princípio da
linha de montagem, batendo na chapa com a sua ferramenta; depois
um outro, batendo com as mãos, as palmas sobre o metal quente, o
sol nos cromados, mil sóis brilhando nas carroçarias, os olhos
pestanejando quando a luz os atingia. Os gestos tornavam-se mais
lânguidos. Aparafusava-se e tapeava-se, aparafusava-se um pouco e
tapeava-se muito mais. Bernier levantou-se, cão inofensivo,
demasiado mole para ladrar por muito tempo, feliz por reencontrar,
depois desse esforço gutural, o seu banco, sua mesa, seus papéis, a
tinta e as letras góticas.
De repente, foi um deus-nos-acuda. Alguns que tinham se atrasado,
corriam para a dianteira da linha, a fim de terminar seu trabalho,
dando à pressa uma martelada ou duas voltas na chave de
parafusos e, voltando atrás, novamente atrasados, disparavam para

o carro já distanciado. Outros, para reencontrar a cadência,
deixavam passar um carro em branco e, quando êle chegava diante
de nós, faltavam-lhe peças demais para continuar o trabalho. Era
um atropelo monumental. Chamavam-se uns aos outros, gritavam,
faziam cara de desanimados, procurava-se, sobretudo, um pretexto
para uma parada. Mustafá ria, de boca fechada, seu grande nariz

franzido de prazer. Êle adorava a desordem na linha de montagem,
as pragas dos profissionais, seu zelo inútil. Como um enorme cão
inebriado de relva, espoj ando-se ao ar livre, êle demorava-se nos
retângulos de sol, os frisos de borracha pendentes do ombro, a
cabeça agitada, aspirando o ar e resfolegando, as mãos impacientes.
Alguém gritou: "Cortem a corrente!". Uma carroçaria bloqueava a
entrada do monta-cargas. O veículo, mal colocado, deslizara para
um lado, o capo sobre a esquerda. Seria preciso meia hora, pelo
menos, para desprendê-la. Daubat encaminhou-se para mim, limpando
as mãos.

— Vou ver o troço. Quer vir?
Respondi-lhe que não e sentei-me na borda da linha de montagem.
Ninguém me via. Pus-me a ajeitar os cabelos. Mais acima, os
tunisinos fumavam. Arezki estava com eles.
O canto partiu de mais longe, da extremidade da linha. Um apelo

surdo, prolongado, nostálgico. Em frente, os martelos responderam.
Batiam, cristalinos, o mesmo apelo monocórdico. Breve, os
operários começaram a bater palmas, sublinhando o ritmo. Mustafá
precipitou-se pelo corredor abaixo. Ouvira.


— Oh! — exclamou.
Aspirava o ar, conservava-o no peito
— Oh! Oh!
Trepando na capota de um carro, começou a batucar na chapa,
acompanhando o ritmo com a cabeça.
— Mus-ta-fá!
Por duas vezes alguém gritou seu nome. Pôs-se a bater ainda mais
forte. Os tunisinos aproximaram-se. Arezki também. Todas as mãos
batiam palmas, sincopando as palavras que Mustafá, do alto da
capota, lançava para baixo. Havia na oficina 76 um círculo de
homens batendo palmas e cantando, os olhos quase brancos,
balançando as cabeças. Não era uma brincadeira, um divertimento
ocasional. Na acepção pura da palavra, era uma evasão, uma fuga e

uma vingança contra os gestos limitados da linha de montagem,
contra o seu ritmo implacável e mesquinho. Os franceses
consideravam um ponto de honra não se aproximarem. Alguns,
porém, a quem esse delírio espantava, olhavam de longe e riam. Vi
Lucien. Também descera. Não fumava; escutava e compreendia.
Saboreava essa música nascida, como um rio, de uma tênue e
melancólica nota, arrastada, trêmula, hesitante, ritmada; a corda que
se solta de uma viola, sempre a mesma nota, prolongada, dolorosa,
um espinho na carne que amplia cada vez mais, a cada movimento,

o pequeno orifício inicial, quando a nota se dilata e a corda parte.
Sem dúvida, se ele tivesse ousado, teria entrado no ritmo
precipitado das mãos. Elas batiam na chapa dianteira e traseira do
carro, enorme tambor metálico onde os longos dedos de bronze
deslizavam, cobriam a voz de Mustafá, paravam quando o rapaz,
qual um mue-zin, soltava o "elbi el...bi" arrastado de todos os
lamentos árabes. Ele cantava, batia, resfolegava, os olhos alagados,
ébrio de sua própria voz. Tornava a ser o pastor sentado sob a
oliveira, guardando suas cabras esquálidas; descia da rocha
amarela, descalço, pequeno pastor esfarrapado, que, com uma nota,
rasgava a carne dos outros à sua volta, o povo de vagabundos
extasiados, sufocados, a cabeça balanceando sobre o tronco que se
vergava ao vento da música. Quando se julgava ter captado o ritmo
das batidas — duas vezes a mão esquerda, uma vez a direita, uma
vez a esquerda, duas vezes, uma vez — quando se pensava poder
aderir, o ritmo quebrava-se, o rio serpenteava; o canto ora corria
numa cascata de gritos, de batidas, ora num fio murmurante, como
a nota de sua origem e, sem ordem, estacava bruscamente, para
recomeçar calmo, numa longa torrente de imprevisíveis
redemoinhos. Se não se estivesse no segredo, na magia dessa
música, era impossível participar, sem que se corresse o risco de nos
encontrarmos em contratempo, incessantemente em contratempo.

Sentada, um aperto na garganta, tremendo, eu beliscava as pernas
para não chorar. Mustafá soltou um apelo nasalado, ergueu os
braços curtos e o seu gemido a todos nos dilacerou.
Daubat contornava o círculo. Essa noite, diria à mulher: "Hoje
tivemos de suportar um concerto daquela macacada". O outro, o
afinador, com os seus óculos, devia pensar: "O meu filho está na
Argélia e estes aqui cantam e divertem-se". Aqueles que deveriam
tê-los acolhido, reconhecido, tinham-nos rechaçado, os mesmos que
clamavam nos seus congressos: "Proletários de todos os países, uni-
vos!". Selvagens e a sua música de selvagens. "No-rafs", ( * ) como
eles diziam. Uma marca pior do que a estrela amarela sobre o
coração dos judeus. Homens de faca no bolso, indolentes, gatunos,
mentirosos, bárbaros, cruéis, sujos, os "norafs". À noite, os jornais
informariam: "Norte-africanos atacam uma mercearia". E, mais
adiante, sob uma foto edificante: "Franceses muçulmanos saúdam o
ministro-residente". Nos dois casos, uns cães. Ou cães mansos e
fiéis, afetuosos, acarinhados; ou cães raivosos. Mas nada mais do
que isso. Nenhuma força do mundo obrigaria Daubat, o afinadorchefe,
e muitos outros a admitirem que os "norafs"* eram seus
iguais. Era uma geração perdida. Seria necessário esperar por outra,
a de Marie, e, como Lucien desejara, recomeçar tudo a partir dela.
Minúsculos parafusos atingiram-me o braço. Voltei-me para Arezki.
Estava longe de mim, no círculo e na cantoria. Outros parafusos me
atingiram ainda. Desta vez, surpreendi quem os atirava habilmente
e de tal maneira que ninguém podia vê-lo. Êle voltou a cabeça e
seus olhos encontraram os meus. Mas, claro que sim! Sairíamos
adiante, galgaríamos todos os obstáculos, demoliríamos tudo o que
nos tolhesse a marcha! Um dia não precisaríamos mais de quarto
para nos escondermos. Apanhei um parafuso, visei direito e atingi-o
nas costas. Todos os outros tinham visto o meu gesto.

(*) Contração de "Nord Africain". (N. do T.)


Um pequeno toque de sirena para advertir que a linha de
montagem ia reiniciar a marcha. O círculo desfazia-se. Mustafá
desceu. Daubat, que chegava, agarrou-o.

— Já viu o que você fêz?
Um risco grosso enegrecia a pintura amarela. Mustafá, ainda
enebriado, apanhou-o pela gola do macacão azul.
— Se você contar ao contramestre, — replicou Mustafá — espero
por você lá fora, abro-lhe a barriga e como-lhe a carne!
O outro empalideceu. Acreditava naquilo. Arezki aproximou-se,
apanhou Mustafá por um braço e, empurrando-o contra o carro,
falou-lhe violentamente. O rapaz afastou-se e foi buscar seus frisos
de borracha, assobiando.
Lentamente, o trabalho recomeçava. Tínhamos alguns minutos para
deixamos levar, sentados na borda de um carro, para uma viagem,
sempre a mesma, até ao fim da linha de montagem.


Insensivelmente, o cerco estreitava-se. Os olhares tornavam-se
hostis. O afinador deixou de me cumprimentar. Daubat estendia-me
a mão sem calor. No vestiário, onde eu já me familiarizara com as
minhas camaradas, sensibilizada em extremo, traduzia agora os
silêncios, os olhares curiosos de soslaio.
Restavam apenas algumas ilhotas, raras, onde podia mover-me
tranqüilamente. Fazia a conta daqueles que não sabiam: Gilles, o
delegado sindical, a minha vizinha de armário, que almoçava fora e
conduzia um Fenwick, alguns outros na seção de máquinas-
ferramentas. Com esses eu me sentia à vontade, tinha acessos de
afeição por eles, falava-lhes com gratidão. E quando, numa ilhota
onde me sentia em segurança, surpreendia um olhar insistente,



mistura de ironia, incredulidade, curiosidade e desprezo, eu sentia
perder o pé, ficava perturbada, prestes a soçobrar.
Didi foi cruel. Quando me interpelava, chamava-me Aicha e, mal eu
entrava no vestiário, batia palmas, tolamente, cantando: "Alá! Alá!".
E eu tinha de rir.
Arisque disse-me certa noite, quando falávamos a esse respeito:


— Que quer você? Para os franceses somos tarados sexuais e, para
os nossos, as francesas são as campeãs d o . . . refinamento. Alguns
juntam-se apenas por essas razões. Prefiro dizer-lhe que tem havido
muitas decepções de uma parte e de outra. As lendas. . .
Arezki passou a chamar-me de Hawa sempre que se encontrava
comigo. Também o fazia sempre que me falava ternamente, ou
quando me beijava.
Nunca lhe perguntei o significado dessa palavra. Preferia não o
conhecer e inventava para ela traduções diferentes.
Uma tarde, eram cinco horas, Gilles fez-me sinal para que o
seguisse. Quando tínhamos transposto a porta da oficina, dizendo-
me que não ficasse afobada, avisou-me que Lucien sofrera uma
hemoptise; fora conduzido ao hospital de Bicêtre, onde eu poderia
visitá-lo essa mesma tarde.
Propôs-se acompanhar-me. Eu tinha encontro marcado com Arezki.
Pedi para voltar à linha de montagem e concluir o meu trabalho.
Surpreendido, Gilles anuiu. Encaminhei-me para Arezki. Anunciei-
lhe o ocorrido com Lucien, apesar da presença de Bernier, que se
sentara no fundo do carro em companhia do afinador. Arezki compreendeu
e disse, em voz bem alta:
— Espero que amanhã você nos traga boas notícias.
Bebíamos em silêncio. Eu sabia que Gilles faria perguntas. Era um
daqueles momentos raros e perigosos em que se decide ou então se
perde uma oportunidade de fazer um amigo. O cheiro da cerveja


desagradava-me. Devia, contudo, bebê-la corajosamente. Gilles
tinha uma pequena tonsura, visível quando ele se inclinava para
acender um cigarro. O jaquetão assentava-lhe menos bem do que o
seu grande guarda-pó, que camuflava a sua cintura grossa.

— Sente-se mais tranqüila?
Fazia-me essa pergunta pela terceira vez.
— Sim, Sr. Gilles — respondi.
E olhei-o com gratidão. Tocou na minha mão, apoiada na borda da
pequena mesa redonda.
— Você estava muito pálida em Bicêtre.
— No entanto, estou habituada aos hospitais. Sou calma.
— Não é assim tão grave...
Bebia depressa e parecia muito transtornado.
— Gosto muito de seu irmão.
— É um dos raros. . .
— Oh, por que um dos raros? Riu-se.
— Um acidente pulmonar, hoje em dia já se escapa. Eu, quando
regressei da Alemanha, tinha um pulmão furado. E veja como estou
hoje.
— Sim, eu sei, Sr. Gilles...
— Não diga o tempo todo Sr. Gilles, Sr. Gilles!
Fui eu quem riu desta vez e senti-me melhor. Era preciso beber.
Tomei um bom trago, mas não consegui esvaziar o copo.
— Existe um lado cômico e burlesco na nossa vida. Podiam cantar
para nós "Os Dois órfãos". No final de cada copla, volta-se sempre
ao hospital. Por vezes, tenho a impressão de que a Terra gira num
sentido, mas Lucien e eu giramos no sentido oposto, como
equilibristas no circo.
Gilles terminara de beber o seu copo. Olhava pela janela, da qual
pendia uma cortina transparente. Percebi que ele não gostara do
que eu acabara de dizer.

— Afinal de contas, já não se pode considerar um mal irremediável
— disse ele. — Tomarão conta dele, será tratado e curado. Coisa
para alguns meses. Daqui até l á . . .
O garçom aproximava-se da mesa. Gilles chamou-o. Achei que
devia terminar o meu copo e levantar-me. Bebi o resto de um só
trago.


— Outra cervejinha — pediu Gilles. — E você, Elise? Para que
aquele momento de pausa durasse mais,
aceitei. Tinha vontade de falar como na primeira noite com Arezki.
Uma vontade de despejar tudo, falar do passado, do presente, do
mau e do menos mau. E agora que sabe tudo, desembuche e fale-me
de você também!
Descrevi Ana, Henri, Marie-Louise; falei do que sabia: o trabalho
noturno de colar cartazes, as reuniões, a pintura, a estufa; e do que
adivinhava: as conversas extenuantes com Ana, as vigílias, a falta de
dinheiro. Cheguei à cena diante da fábrica.
— Ouvi falar disso — respondeu Gilles. — No dia seguinte, na
cantina, quando o saudei, quase não me respondeu. Tínhamos
simpatizado um com o outro, no princípio. Lucien interessava-me.
Também já tínhamos tido nossas escaramuças, claro. Ele, você, os
outros, encaram o trabalho na fábrica com horror. Não estou de
acordo. É preciso fazer bem a tarefa de cada um. Vocês despacham
o negócio como podem, tapeiam, e a coisa sai como você sabe, uma
droga. Compreendo a causa. Vocês vendem os braços, sim, e por tão
pouco! Mas respeitem a obra de vocês que também é dos outros.
Vista sob certo ângulo, não é uma beleza a linha de montagem?
Protestei:
— E a cadência?
— Sim, eu sei. Nesse ponto estamos de acordo e bato-me por vocês,
mas vocês cortam-me os braços porque trabalham mal.
— Trabalhamos mal porque não nos dão tempo para trabalhar
melhor.

Eu arquejava. As cervejas estavam diante de nós. Uma vitrola
repetia "Julie, Julie la rousse"...

— Enfim, — disse ele — como é que vocês dois foram ali parar?
Então nunca foram aconselhados, ajudados por ninguém? Seguiram
ambos na direção errada.
Eu sabia que estava corada até à raiz dos cabelos. Sentia o suor
escorrer-me pelos sovacos. Era preciso acalmar-me e deixar Gilles
falar. Contou-me os primeiros tempos de Lucien na fábrica, suas
ingenuidades, seus exageros. Eu conhecia tudo isso. Apontou-me
seus erros e explicou-me as razões. Não negava o racismo dos
operários, acusava a grande engrenagem social que defraudava os
homens, o sistema e seus mecanismos.
— Se não existisse o africano, inventariam um outro qualquer.
Compreende? Em face do árabe, eles afirmam-se. Junte a isso a
ignorância, a incultura, o medo de serem confundidos com eles, a
guerra por cima de tudo. . . Só por um longo e paciente trabalho
será possível extirpar habilmente tudo isso e não pela ação brutal,
direta e anárquica.
Gilles não me convencera. Eu identificava-me com meu irmão, seus
exageros tornavam-se meus. Com a ajuda da cerveja, perguntei-lhe
se estivera de acordo quando o Partido censurara a ajuda direta aos
militantes argelinos.
— Estou de acordo com as decisões que foram pesadas, analisadas
e discutidas. É preciso sempre conservar uma certa dose de
prudência. Alguns fazem a revolução para eles ou para interesses
pouco confessáveis. Você está em condições de julgar quem
representa validamente essa revolução?
— Todos os que têm a audácia de a fazer. Esses é que a
representam. São a própria revolução.
Cravou seus olhos nos meus, com tanta insistência que desviei a
cabeça.
— Elise. . . — disse ele.

— Sim.
Vi bem que havia afeto em seu olhar.
— Você tem de vir ver-nos, fazer-nos uma visita, acredite. Sozinho,
ninguém chega a parte alguma. Vocês serão durante dez anos uns
revoltados, depois, um belo dia, acabam resignados. Quem sabe?
Talvez se passem para o outro campo... Você sabe uma coisa?
Censurei-a pela sua atitude com o rapaz dos snapons, lembra-se?
— Mustafá? Sim, lembro-me. Não assinalei as suas faltas.
— Eu chamo a isto. . . maternalismo.
— Creio que tem sido a minha atitude na vida.
— Precisa revê-la. Procure discutir algumas vezes com Arezki,
aquele que coloca os retrovisores.
Ele não sabia, portanto.
— Já discuti com ele. Muitas vezes.
— Ele entendia-se muito bem com o seu irmão, no princípio. Mas
não durou muito.
A mistura de ruídos, a cerveja, a liberdade da nossa conversa,
impeliam-me a desabafar com Gilles. Mas retive-me no último
segundo. Quando disse: "Escute uma coisa. ..", pressenti que, se ele
ficasse sabendo, a sua ótica mudaria. Inevitavelmente, ele pensaria:
"Aí está, ela também, é uma história de cama". Quem tentaria
compreender? Quem quereria? Ele, eu, todos julgamos depressa. É
assim, agarramos a primeira explicação para simplificar, porque é o
bastante para satisfazer a nossa parcela de conformismo.
— Escute uma coisa...
— Sim?
— É que. . . o senhor atrasou-se muito para me acompanhar a
Bicêtre. Eu não gostaria que...
— É verdade. Tenho de voltar para casa. A minha mulher não se
inquietará, mas. . . É preciso que você a conheça. É uma militante,
sabe? — Pôs-se a abotoar com dificuldade o jaquetão. — E já lhe
disse, se precisar de mim por causa do seu irmão...

Caverna, palavrinha bonita, evocadora de sortilégios. Caverna,
febre, vermelho de febre, vermelho de sangue, radiografias,
escarros, bacilos, hospital, fichas, filas, internamento, exames,
visitas, injeções, labirinto turtuoso e uma saída no fim: o sanatório.
Lucien permaneceu pouco tempo em Bicêtre. Voltou para casa e fui
visitá-lo duas vezes. Se acolheu mal a minha primeira visita,
pareceu-me satisfeito a segunda vez, embora Henri se encontrasse
junto dele, ultrajantemente otimista, como se fosse sua obrigação sêlo
na presença de um enfermo. Lucien tinha de partir, mas não se
decidia.

— Três meses — disse Henri. — O que são três meses?
— Eles dizem três meses e são seis. . .
— E daí ? Terá tempo para ler, repousar. . .
Ana mantinha-se calada. Esperava que Lucien não partisse. Eu
olhava-a com rancor, pensando: "Suja, rapariga suja, foi você que o
contaminou. Magra como é, traz em si a doença, macilenta, o peito
encovado, esse seu ar malsão. Eu sei, a sua mãe morreu tísica".
— Aincourt não é assim tão longe. Iremos vê-lo todos os meses.
— Ah, isso não! — protestou Lucien. — Ao menos, poupem-me
isso!
Os seus olhos não pousavam em parte alguma, dando a volta ao
quarto, objeto por objeto, e recomeçando. Descalabro físico, fuga,
desejo de alheamento, cedeu muito depressa e disse-nos:
— Está certo. Partirei.
Fechou os olhos, fêz o gesto de buscar os cigarros, que lhe tinham
sido proibidos, e deu uma grande palmada na coxa.
— Bem, a vocês toca fazer o jogo. A mim, olhar...
Entrou no sanatório de Aincourt a 15 de abril. Essa partida
resignada esteve na origem do milagre desejado por Arezki. Lucien
entregou-me o seu quarto. Ana consentiu na mudança. Ela passou a
ocupar o meu apartamento no Lar e eu instalei-me — ó desforra! —
no lugar de onde ela me expulsara.



— Quinze mil francos para ela, que não trabalha, é impossível.
Fique você com este buraco e devolva-me quando eu tiver alta.
Ela levou os discos, os livros e o toca-discos. Assim era a vida,
semelhante a uma selva: os prazeres e alegrias de uns nasciam das
dores e infortúnios de outros. Enquanto combinavam entre eles os
detalhes práticos, eu acariciava com o olhar a mesa, a cama, o
enquadramento da janela, de onde veríamos as colinas passar do
azul ao púrpura.
Gilles veio à linha de montagem informar-se do estado de Lucien.
Tentei mostrar-me sóbria, seca, breve, mas êle apercebeu-se da
minha emoção. Despachou-me para o carro que chegava e, quando
desci de novo, o contramestre ainda ali estava, porém Mustafá lhe
falava com muitos gestos e eu conservei-me então a certa distância.
Um pouco mais tarde, ao atravessar o corredor, Gilles olhou para o
meu lado.
O dia 20 de abril foi um domingo. Eu apressei, com brusquidão, a
mudança de Ana, que não conseguia fechar a mala, pretextando um
par de sapatos, cujos saltos pareciam querer furar a frágil tampa.

— Bem, então leve-os na mão!
— É verdade. Tem razão. . .
Arrependi-me da minha secura, à qual Ana respondia com sua
fingida humildade. Revia seu rosto inchado de pranto, tal como a
surpreendera no dia 1.° de janeiro.
Esta noite vai ser a mesma coisa, pensei eu. Imaginava-a no
pequeno quarto do Lar, ébria de soluços abafados pelo édredon.
Lucien, antes de partir, puxara-me de lado.
— Se puder, ajude-a nos primeiros dias. Henri vai procurar
arranjar-lhe qualquer coisa. Não a deixe sozinha. Espero poder
retribuir-lhe quando sair. Parece que lá no sanatório nos ensinam
um ofício durante a convalescença.

Mas não pude resolver-me a sacrificar esse primeiro domingo. Há
dois dias que eu vivia na expectativa da chegada de Arezki, da
liberdade total que nos davam aquelas quatro paredes...
Ele dissera-me:
— Eu telefonarei. Bacana, hem? Poder agora telefonar-lhe.
Confirmarei se posso ir ou não. Tem havido muita confusão lá no
bairro. Quinze detenções. Todos responsáveis.
Depois do almoço deitei-me como vira Ana fazer, e desfiz o
penteado, para me parecer com ela, de cabelos soltos. Li um pouco,
fui à janela, deitei-me de novo, para reencontrar o apaziguamento
interior dos sonhos. Arezki chamara ao meio-dia.
— Não, não poderei ir. Já lhe expliquei. Hoje vai ser impossível sair
daqui. Tenho de ficar. Amanhã, amanhã à noite, com toda a certeza.
Mas foi preciso esperar até quarta-feira para nos reencontrarmos.
Arezki entrava de manhã na oficina, caminhava direto para a linha
de montagem, apertava com força a minha mão e ficava junto de
mim até a sirena pôr em marcha os motores.
— Não se inquiete. . .
Ele lia o mau humor no meu rosto franzido. Enfim, na quarta-feira
segredou-me:
— Crimée, às sete horas.
Tomei a minha placa e o lápis com alegria. Mustafá trabalhava em
silêncio. Perguntei-lhe se havia novidade. ..— Oh, nada. . .
Daubat, passando no corredor, perguntou por Lucien.
— Ainda não sei nada — respondi. — Telefonarei amanhã, mas está
gravemente afetado.
— A pintura! Que pena, ainda tão moço. . .
Tinha os olhos profundamente pisados, com semicírculos
arroxeados sob as órbitas, e sua voz de gaiato era pastosa.
— Eu também estou entregue às baratas. De manhã, mal posso me
levantar. Ah, quando me aposentar! . . .

E todos diziam o mesmo. Todos suspiravam por esse dia de
redenção. Ah, a aposentadoria!

— Hawa, sei que está zangada. Mas quem tinha direito a zangar-se,
hem? Pedi, supliquei, para sairmos daqui. Iria com você para a sua
terra. Viveríamos com a sua avó. Ontem eu podia, era livre. . . ou
quase. Na luta clandestina, a gente é alguém, depois não é ninguém,
volta-se a ser alguém. . . Imagine só, quinze irmãos detidos, todo o
setor desorganizado, mas não tem importância. A guerra não vai
durar sempre. Você é a minha Hawa, esta noite estou livre. Será um
pouco mais duro do que antes, sabe? Mas sempre se arranjará.
Aceita, não é verdade?
Que significaria Hawa?
— Então, quer dizer que nos veremos menos, não é?
— Um pouco menos, sim. Mas muito mais tempo de cada vez, pois
temos o quarto.
Quando chegamos a Saint-Denis e fizemos o giro das lojas da praça,
a fim de comprar as coisas para a nossa refeição, Arezki perdeu a
animação. Diante da porta do hotel, recomendei-lhe:
— Entremos discretamente, eles ainda não me conhecem aqui.
Mas o gerente, que descia a escada, cruzou conosco e voltou-se para
trás ao mesmo tempo que eu. Dentro do quarto, Arezki
desembaraçou-se do pão e das frutas. Olhando para a cama, soltou
um suspiro e sentou-se para acender um cigarro.
Depois atraiu-me contra si.
— Hawa, peço-lhe. Desça e vá buscar vinho. Tenho necessidade de
beber esta noite. Quer?
O jantar prolongou-se. Arezki reencontrara sua alegria. Projetava
vir duas ou três noites por semana.
— Terá também de sair da fábrica. Mas esperemos ainda um pouco
mais. . .

Eu falava muito. Arezki instalou-se na cama, levando o copo que
ainda não esvaziara.

— Deixe tudo isso... a louça. Venha para junto de mim.
Conheci o prazer de dar prazer. Tínhamos deixado a janela
entreaberta e o ar da noite despertou-nos.
— Acenda, a luz — pediu Arezki.
Pôs-se a fumar pensativamente. Por causa do quarto, eu não sabia
muito bem se éramos nós próprios ou Lucien e Ana — de quem eu
adotava as poses. Conversamos até de madrugada, quando o sono
nos apanhou de novo.
— Eu queria recusar...
Arezki falava numa voz sonolenta.
— Mas se eu tivesse resistido, eles me espancariam diante de você,
ou levavam-na também. . .
— De que está falando? Ele já adormecera.
A campainha do despertador sacudiu-me. Caminhei llas Pontas dos
pés, sem acender a luz. Arezki continuava dormindo. Fui olhá-lo
mas, para se resguardar da tênue luz da aurora, enrolara-se todo no
lençol, do qual saíam algumas mechas negras. O quarto iluminava-
se, os objetos ganhavam forma, seus contornos conservavam ainda
uma graciosa imprecisão. Arezki moveu-se. Corri até à cama.
Ficamos nos olhando em silêncio.
O gerente, que punha as latas do lixo diante da porta, viu-nos sair
juntos.
Arezki comprou um jornal, mas guardou-o sem ler, dobrado sob o
braço. Apanhei-o e mostrei-lhe as notícias que se relacionavam com
a guerra. Deu de ombros. Antes de o ônibus parar na Porte de
Choisy, Arezki apertou meus dedos com muita força e eu retribuí a
pressão.
A sirena tocou no momento em que êle alcançava o seu posto na
linha de montagem. Eu já aí me encontrava há alguns minutos,
trocando banalidades com Mustafá. Uma verdadeira embriaguez

me empolgou e todos os impulsos que eu não tivera durante a noite
afluíram em mim. Pensava em agarrar-lhe um braço quando os
acasos do trabalho nos isolassem num carro, e beijá-lo na dobra do
braço, nesse lugar frágil onde se cruzavam as suas veias
exageradamente dilatadas, para que esse gesto insólito, deslocado,
lhe desse a medida de minha dedicação.
Depois da partida de Lucien, e apesar da presença de Arezki, eu
sentia-me só. Jamais o meu irmão me servira de amparo, em
momento algum, mas sabê-lo perto, presente, tranqüilizava-me.
Bernier tentava em vão surpreender-nos em falta, seguindo Arezki
com os olhos quando êle se aproximava de mim. Se eu cometesse
nesse instante qualquer erro profissional, ter-me-ia punido implacavelmente.
Cometi inúmeras faltas essa manhã. . . Gilles não
escondeu a sua irritação. Eu ouvi suas recriminações em silêncio,
enquanto Bernier regozijava. Na hora da pausa, Gilles veio
procurar-me. Levou-me diante de uma carcaça e mostrou-me o
painel de instrumentos. Deixara-o passar sem assinalar o defeito
que, no entanto, era bem visível.

— Está vendo?
— Sim, não é da mesma cor.
— Aí está! Agora viu. E poderia mostrar-lhe muitos outros. O que é
que você tem? Esta doente? É Lucien que a preocupa? Os
acontecimentos? Você sabe, Elise, a participação até ao desespero
para nada serve.
Vendo que eu não queria responder, não insistiu. Eu saía da oficina
quando o delegado me fez parar.
— Você não deve deixar que lhe ponham os pés em cima. Um
chefe, mesmo Gilles, não tem o direito de a reter depois da hora.
— Queria saber notícias do meu irmão. . .
— Diante de um carro que você controlara? Afastei-me e desci para
telefonar. Chamei primeiro
Ana, no Lar, mas ela não estava. Pedi depois Aincourt. Não pude
obter qualquer informação sobre o estado do meu irmão.

Arrastei-me toda a tarde de um veículo para outro e, à noite,
reencontrei o quarto e a cama, onde adormeci sem me despir.
Na manhã seguinte, o gerente entregou-me uma carta deixada por
Ana.

— Aproveito a ocasião para recordar-lhe — rosnou o gerente — que
é proibido receber para dormir pessoas que não estejam registradas
no livro. Sobretudo,... estrangeiros.
"Elise, fui ontem a Aincourt, mas era a hora do tratamento e não pude ver
Lucien. Tranqüilizaram-me. Temos autorização para visitá-lo no dia U de
maio. J á avisei Henri, que nos levará de carro."

— Quer vir, Arezki?
— Não, o que iria fazer lá?
— Conhecerá Henri, Ana. . . E Lucien, tenho a certeza, ficará
contente por falar com você.
— Não, nem Henri, nem Ana. Não tenho vontade de conhecer mais
gente.
Veio no domingo, como prometera. Na véspera, telefonara-me. Mas
a presença do gerente impedia-me de responder à vontade.

— Elise, está zangada comigo? Tem de me suportar, se realmente
me ama. É verdade que me ama?
— Sim, claro.
— Irei amanhã. Estarei livre à noite e ficarei até segunda-feira. De
acordo?
— Sim, claro.

Fumávamos o mesmo cigarro. Arezki não tragava, apenas puxava
duas ou três fumaças e depois me passava o cigarro, que eu me
limitava a chupar para que não se apagasse. Ainda não tínhamos
acendido a luz, embora a noite já invadisse o quarto, e nos escassos
segundos em que o cigarro se inflamava observávamo-nos à socapa.
Eu não sabia a hora; calculava que já fosse tarde. Não me atrevia a
romper aquela sesta noturna em que Arezki parecia comprazer-se.
Escapou-lhe um suspiro e interroguei-o.

— Arezki, o que tem? Parece infeliz. Não desejamos ter um quarto
só para os dois? Já o temos. Aqui estamos juntos. O que o entristece?
O que lhe falta?
— Sim, você acertou. Tem bom golpe de vista. Falta-me alguma
coisa. Teria muita dificuldade em explicar. Falta-me a imaginação.
Já não sou capaz de imaginar o futuro. Os sonhos já não me
procuram.
— E o presente não o interessa?
— Sinto-o como se já tivesse passado. Compreende?
Acariciei-lhe os cabelos. Vibrei ao seu contato. Durante anos, tivera
vontade de acariciar os cabelos de Lucien. Quando ele era pequeno,
eu própria os penteava e gostava de mergulhar neles os meus
dedos, orgulhosa de sua espessura, de sua cor castanha e brilhante.
Mas um dia ele repelira brutalmente a minha mão e depois disso
nunca mais os acariciei.
— Seremos iguais aos mortos de há sete mil anos.
— O quê?
Endireitei-me e olhei para ele, sombra escura de que as luzes da rua
permitiam distinguir apenas os contornos.
— Não, não tenha medo. É um verso de um poeta árabe. Já
esqueci o começo. Diz ele que é preciso viver o instante presente.
Todos eles dizem isso nas épocas tranqüilas ou quando o perigo já
passou. Nós também vivemos o instante. Acende a luz, Hawa. Não
há por aí alguma coisa forte que se beba?

Levantei-me e fui procurar no armário, por baixo do lavatório.
Descobri apenas uma pequena amostra de rum, como as que se
compram para perfumar os crêpes. O vidro já estava aberto e
despejei o resto num copo. Tentei, por brincadeira, soerguer-lhe a
cabeça e fazê-lo beber. Suportava a custo a sua tristeza; ela
incomodava-me.

— Gosta da cor azul?
— Sim, muito. Mas existe uma porção de azuis — respondi.
— O azul do mar, uma mistura de verde e azul. Mas você nunca
viu o mar, não?
— Não, nunca.
— Qualquer dia, você verá e no mês que vem trarei para você um
grande peignoir azul, como eu gosto.
— Um peignoir, Arezki? Estou vendo que afinal imagina! Desejar,
isso é imaginar.
— E falar alto é convencermo-nos!
— Você está fatigado, sobretudo. Pela maneira como se jogou sobre
a cama ao chegar adivinhei logo. Como vive? Quando repousa?
— Passo a vida correndo de um lado para outro. — Pediu-me que
lhe passasse os cigarros, que deixara no bolso do paletó. — Os tiras
não são sopa, não, você sabe. . . Estão cada vez mais fortes.
Cheirou o copo, provou e afastou-o sem beber.
— Não gosto de rum. Dê-me qualquer outra coisa, o que houver,
não importa.
O pequeno abajur instalado por Lucien filtrava uma débil luz
vermelha, apenas o bastante para tirar aos nossos rostos suas
angulosidades. Quando Arezki fumava, tornava-se falador. Mas eu
quase não o escutava. Queria defender-me contra ele, resistir ao
desespero, e fechava a porta às sombras. Ele falava. Queixava-se
numa voz surda, grave, de olhos postos no abajur. Tal como Lucien,
dizia também que o corpo não interessava, que era preciso gastá-lo
e servirmo-nos dele, e que a fadiga, a insónia, as longas vigílias,

nada disso tinha importância. Dizia que a luta era, além de tudo o
mais, ensinar aos irmãos a lavarem-se, a não escarrar no metrô, a
cotizarem-se, a desconfiar, a simular, a dobrarem-se, a obedecer.

— Os homens, — suspirou Arezki — você não pode imaginar o que
é isso. Eu, eu em primeiro lugar. Aqui, bebo; ali, castigo aquele que
eu apanhar bebendo. A guerra não corrige nem melhora os homens.
Eu encorajava-o, reanimava-o. Aliás, a guerra não atingia o seu
ponto culminante? Esboçava-se na opinião pública uma hesitação,
uma tomada de consciência.
— Em quem? — interrompeu ele. — Em Elise? Em Lucien? Em
Henri? Quantos são vocês?
Como eu protestasse, ele quis agradar-me e deu-me razão.
— Venha cá. Aqui perto de mim. Mas fecha a janela, não sente frio ?
Vá, conte-me tudo. . .
Recorríamos a esse artifício, contar tudo. Falar da vovó, do porto,
das paisagens da Cabília, objetos e seres petrificados, inofensivos,
calmantes. E o ardil sempre tinha êxito. Depois, uma palavra, um
suspiro, uma saudade, devolvia-nos ao núcleo, ao ponto fixo.
— Não poderei vê-la toda esta semana. Baixei a cabeça
e perguntei:
— Sábado?
— Oh, não, sábado não! Você bem sabe.
— Acha que o governo vai cair?
— Qual governo?
— Ora, o francês, claro. Lucien dizia, antes de partir, que isso
poderia mudar tudo.
— Quando vai visitar Lucien?
— No próximo domingo, com Henri e Ana. Venha conosco. . .
Fêz uma careta e disse:
— Que pena... Poderíamos passar juntos o domingo todo. Eu viria
logo de manhã cedo.

Não respondi. Um prolongado silêncio nos separara um do outro.
Percebi então que êle adormecera e cobri-o.

Ao fim da tarde, eu abria as janelas do quarto onde, solitária,
aguardava a chegada da noite. E a claridade crepuscular me
bastava. Não acendia a luz senão depois da penumbra se adensar
tanto que não pudesse distinguir contorno algum. Até sexta-feira
mantive-me firme no meu propósito, não imaginando que pudesse
deixar Lucien sob a impressão de que Ana era o seu único amparo.
Até que, nessa manhã, deslizei até perto de Arezki e perguntei-lhe.

— Viria no domingo, se eu o esperasse?
Garantiu-me que sim e decidi renunciar à visita a Lucien.
Durante a pausa do meio-dia, os delegados sindicais distribuíam
folhetos diante da porta da fábrica. Eles tinham sido mal recebidos
alguns dias antes pela direção da empresa e convocavam-nos para
uma assembléia, essa mesma tarde. "As promessas nunca são
respeitadas. São feitas, simplesmente, para desencorajar as nossas
reivindicações."
Éramos apenas um punhado de operários quando os delegados

expuseram a situação. Um operário da minha fábrica, que estava de
pé atrás de mim, sussurrou:


— E os seus amigos árabes, onde se meteram?
Nenhum dos operários estrangeiros comparecera à reunião.
Menti desembaraçadamente quando Ana me chamou. O pretexto
que lhe dei cheirava a desculpa mal forjada. E, enquanto falava,
compreendi até que ponto amava o meu irmão e que a desistência
dessa visita exasperava ainda o afeto que lhe dedicava. Ana aceitou
a desculpa com um evidente prazer, descobri-o pelas entonações da
voz. Prometeu passar no regresso para me trazer as notícias.


Esperei por Arezki todo o domingo. Não veio. Às seis e meia,
bateram à porta. Ana entrou e, sem sentar-se, fez-me o relato da sua
visita a Lucien, detalhando os cuidados que ele devia receber. Seus
olhos brilhavam, a voz tremia de emoção, com um longínquo fundo
de júbilo, quando me contou as intenções de meu irmão. Ele queria
sair. Declarara que não agüentaria um trimestre longe dela.
"Mais um mês e dou o fora". Ela pensava chocar-me com isso e que
eu protestaria, em nome do bom-senso, da razão e da saúde.
Contentei-me em perguntar:

— Ele não ficou muito decepcionado com a minha ausência?
Estúpida pergunta, à qual ela respondeu com um ligeiro sorriso de
troça.
— A próxima visita está marcada para o dia 2 de junho.
— Eu irei, garanto.
Às oito horas, Arezki telefonou e disse:
— Estou chegando.
Estava furiosa com ele, tinha a certeza de que mentira.
Não tentou dissimular.
— Sim, fiz de propósito.
— Quer dizer, então, que sentiu prazer em deixar-me sozinha o dia
inteiro?
— Sim.
Estava bem disposto essa noite. Projetamos numerosas saídas num
futuro infinito.
— Também é preciso que deixe a fábrica, mas espere pelas férias,
daqui a dois meses.
Eu pensava: "E a vovó?". Nada disse. Tampouco lhe falei de meu
irmão. Também para mim os sonhos já não vinham.
Uma carta para Lucien, que não respondeu, algumas noites com
Arezki, fora ou no quarto, ocuparam-me até 13 de março. Nessa


manhã, Bernier veio ao meu encontro e, sem perder o seu sorriso
alegre, anunciou que a minha bonificação tinha saído.

— O seu trabalho está mau, mas mau mesmo. É preciso voltar a
verificar tudo, depois do seu controle. Esquece defeitos. Para
controlar bem não se pode virar a cabeça a todo o instante. Tem de
se olhar para o carro e não para quem está dentro dele.
Perguntei-lhe o que queria dizer com isso.

— O que eu quero dizer? Arezki estava perto e escutava.
— Julgue o meu trabalho e não outra coisa, Sr. Bernier, estamos
entendidos?
— Julga que eu tenho medo, — gritou ele — só porque o seu
crioulo está nos ouvindo?
Era preciso que Arezki não interviesse. Era preciso, a todo o custo.
E, para o evitar, eu devia ter prudentemente batido em retirada
mas, perdendo a cabeça, lancei a placa e o lápis ao chão, gritando
que iria ver o delegado. Já não tinha medo, os olhares dos outros já
não me embaraçavam. Bernier voltou-se para Arezki.
— O que é que está fazendo aí? Você virou-lhe a cabeça, hem? É
você que a empurra?
Não ouvi a resposta de Arezki. Ele garantiu depois que dissera
apenas "deixe-me em paz". Mas eu vi que ele empurrou Bernier, que
lhe barrava a passagem. Bernier agarrou-o pela gola da camisa e
Arezki, para soltar-se, empurrou-o contra o carro que chegava.
Bernier nada sofreu mas vacilou, perdeu o equilíbrio e encontrou-se
sentado no tapete da linha de montagem.
— Será posto na rua!
Levantou-se, ajudado por Daubat que, misteriosamente prevenido,
estava a seu lado. E ambos partiram para o escritório envidraçado
do chefe de oficina.
Ao meio-dia, chamado ao escritório, Arezki foi informado de sua
demissão. Saiu da oficina sem dizer palavra, depois de se despedir
dos tunisinos e de Mustafá. No regresso ao trabalho, Mustafá

entregou-me um papel. Arezki esperaria por mim na estação de
Crimée.

Ele colocara-se de frente para a luz que lhe batia até à altura da
vista, desenhando uma máscara sem olhos, impressionante e
sinistra.

— Agora sou um desempregado!
Bem podia rir, tentando reduzir a gravidade do incidente, mas eu
avaliava todas as conseqüências. Às minhas perguntas respondia:
— Sim, amanhã começarei a procurar trabalho.
— E eu também. Vou despedir-me, sem você não agüento aquilo.
Quando saíamos, alguém disse em voz alta:
— Parece que em Argel a cobra está fumando. O rádio acaba de
dizer que. . .
A conversa passou sem distrair-nos das nossas preocupações. Voltei
sozinha para casa, perto das nove horas; e, pela primeira vez há
muito tempo, chorei. Teria de voltar amanhã ao trabalho com o
aspecto de quem passara a noite toda chorando. Eu prometera a
Arezki agüentar, de qualquer jeito, até ao fim do mês.
— Assim que eu arranjar trabalho você sai. Seria uma estupidez
ficarmos desempregados ao mesmo tempo.
Na Porte de Vincennes encontrei um lugar para sentar-me e abri o
jornal. Mas, fadiga ou preocupação, não me apercebi da importância
dos acontecimentos que se desenrolavam. Sem Arezki, sem o seu
rosto surgido entre chapas e ferragens, eu sentia uma impressão
semelhante à da nudez no frio. Os dias mortos deparavam-se como

o auge da felicidade. À tarde, Gilles passou em companhia dos
"blusas brancas". Eu pressentia algo no ar; era preciso partir e
expliquei minhas preocupações a Arezki, quando nos encontramos
na Place d'Italie. Caminhamos um pouco, o tempo estava bom. A

situação era grave, anunciou ele, e compreendi-o muito bem pelo
tamanho das manchetes nos jornais da tarde. Ele ainda não
encontrara trabalho. Iria no dia seguinte apresentar-se em tal e tal
fábrica e acabaria, forçosamente, por conseguir encaixar-se em algum
lado, concluiu Arezki, para me tranqüilizar.
Os acontecimentos, de súbito, puseram-me febril. Falava deles com
uma excitação que fazia Arezki sorrir. Nesse momento, a sua
situação causava-me menos inquietação, preocupada como estava
com a leitura dos jornais, as discussões na fábrica, as conversas
telefônicas freqüentes com Henri e Ana. Vivemos intensamente
esses dias, persuadidos de que chegara a hora, enfim, de que iria
ocorrer alguma reviravolta fantástica; satisfeitos de estarmos "por
dentro", não sabíamos exatamente de quê, mas sentíamo-nos
integrados, indispensáveis, mobilizados, enfim, utilizáveis. Escrevia
a Lucien de dois em dois dias. Êle respondia. As notícias,
conhecidas no sanatório, punham-no louco. Falava de "mandar-se
dali para fora". Então êle ia ficar fora do golpe! Na fábrica, a
atmosfera mudara. Voltei a ver Gilles no parque onde se alinham,
em filas intermináveis, os carros, entre a Porte oVIvry e a Porte de
Choisy. À sua volta estava reunido um pequeno grupo. Chamou-me,
dizia aos outros "ela tem uma boa posição". Fazia a conta: "Em tal
oficina, há cinco camaradas do Partido, na 76 são oito". Gilles dizia:
"O que conta não é ontem, é quantos somos hoje". O próprio Daubat
sacrificava a hora de descanso e vinha juntar-se a nós. Vieram
muitos de outras seções. Mulheres também. Gilles mostrava-se
radiante. "Na França existe uma velha tradição republicana. Ela
desperta quando se aproxima o perigo." Só alguns irredutíveis
recusavam-se a assinar manifestos, resoluções, apelos, juramentos.
Algo fluía ao longo de toda a linha de montagem, algo denso,
quente, reconfortante, que nos entreligava — e que Gilles batizara
de fraternidade operária. Esse entusiasmo e esses ímpetos
conheceram seu canto de cisne a 28 de maio.
Arezki troçara.


— Tudo isso não vai servir para nada. É tarde demais.
Tive raiva do seu ceticismo e de sua incredulidade. A 27 de maio
telefonou-me. Eu acabara de jantar. Não pudemos ver-nos essa
tarde, ele ficara retido.
— Estamos indo bem. Prometeram-me qualquer coisa para 15 de
junho. Ainda não é certo, mas tenho boas esperanças. Vou tentar ir
para aí agora.
— Esta noite?
— Sim, dentro de meia hora, uma hora no máximo. Pensei no
gerente e suas advertências.
— Venha depois das onze. Ninguém o verá passar.
— É muito tarde, Elise. É a hora das batidas. Paciência, ver-nosemos
amanhã.
— Amanhã há a manifestação. Não sei quando acabará.
— Ah, a manifestação! Deixei passar a ironia.
— Bom, farei o possível e estarei aí depois das onze horas. Se
alguma coisa me impedir...
— Telefonará amanhã. Venha esta noite, Arezki. Mas tenha cuidado
com o gerente. E se eu saísse para esperar por você em qualquer
lugar? Entraríamos juntos, seria mais prudente.
— Não, espere por mim no quarto.
Mas esperei em vão. No dia 28 levantei-me num estado próximo ao
da embriaguez. Abri a janela, olhei para a rua, o horizonte sem
fumaça, a linha alaranjada rasando os telhados e anunciando que
teríamos um dia quente. Trabalhamos até ao meio-dia. Sentia a falta
de Lucien. Imaginava-o na moldura verdejante de Aincourt,
enjoativa como uma guloseima para os seus olhos famintos de asfalto
e de calçadas. Depois, em grupo, apanhamos o metrô.

Para nos engolfarmos num vagão, era preciso pisar, acotovelar, ficar
esmagado entre as espáduas de metalúrgicos, pedreiros, carteiros,


eletricistas. Em cada estação, novos grupos tentavam subir para os
carros superlotados. Os mesmos que discutiam à tarde por que um
empurrara outro, ou o pisara, riam agora e chamavam-se de
camaradas. O metrô corria, qual rio onde confluíssem numerosos
riachos de homens transportando bandeirolas, cartazes, faixas
enroladas, bandeiras. Cercavam-me operários que eu classificara
entre os sujos, os racistas da fábrica, e a minha excitação era
tamanha que tive ânsias de lhes pedir perdão por tê-los julgado mal.
Eu ainda não compreendia que eles ali estivessem eternos
seguidores da vaga, qualquer que fosse o vento que a encrespasse.
Alguns dos operários mais velhos arvoravam gravatas vermelhas.
Pequenina, naquele mar de homens, fechava os olhos de alegria.
Preparava a descrição que faria a Arezki. Riria ainda, se visse o
oceano que submergia a Place de La Nationl Gilles aproximou-se de
mim.

— Então, Elise? A coisa vai!
— Sim, creio que desta vez a coisa marcha...
— É como em 36 — comentou Daubat, atrás de mim.
— Os estudantes!
Eles desfraldavam suas insígnias. Letras, Medicina, Antony...
— E aí está a Renalt!
A ponta-de-lança da classe operária avançava sob aplausos
estrepitosos.
Marchamos até à Place de la Republique, dando-nos os braços e
gritando os slogans. Teríamos marchado até mais longe ainda. Na
Republique, um jovem trepou até ao alto da estátua e coroou-a de
flores. Paris inteira ali estava de corpo e alma, sendo impossível a
alguém dar mais um passo. Helicópteros sobrevoavam a multidão.
Alguém, atrás de mim, disse:
E se os pára-quedistas desembarcassem? Pois que venham!
Nos salvávamos a República, éramos o número, invencível e unido.
O moço que acabava de falar parecia-se vagamente com Lucien.



Distinguia-se pela expressão mais resoluta e tranqüila de seu rosto,
sua silhueta mais cheia. Em seus olhos eu via o entusiasmo, a
alegria, e pensei: "Eis Lucien, num modelo bem sucedido".
Fiquei até ao fim, até ao instante em que o espetáculo da praça
deserta abalou a minha confiança. Voltando a casa, com pesar, eu
repetia para mim própria, estupidamente: "Res publica, coisa
pública". Arezki não telefonou, mas pouco me inquietei; estava
extenuada. Quando despertei, o sol já inundava o quarto. Olhei o
relógio. Era tarde demais para chegar a tempo à Porte de Choisy.
Tanto pior, a manhã estava perdida. Passei e repassei na réstea de
sol. Sentia uma intensa felicidade física. Parecia-me que uma nova
era se abria e que nós tínhamos feito na véspera uma espécie de
revolução. Saí, comprei vários jornais e pão fresco para o desjejum.
Recortei as fotos de UHumanité e enviei-as para Lucien. O café
fumegava sob os raios de sol que chegavam agora até à mesa. O pão
quente esmigalhava-se entre os dedos, estalando. E esse minuto de
vida à toa prolongava a satisfação da véspera, da qual ainda estava
impregnada.
Percorrendo os jornais soube da morte de Lucien. Levantei-me, corri
para o espelho, onde me olhei segurando o rosto entre as mãos.
Voltei até à mesa, procurei a chave às cegas e desci para telefonar.
Chamei Ana. Não estava. Depois Henri; "ele saiu", respondeu a sua
hospedeira. Subi, abri a porta, empurrei o ferrolho e olhei a tijela, as
migalhas de pão. O jornal ali estava, viscoso como uma serpente, e
eu não me atrevia a tocar-lhe. Caí de joelhos e murmurava: "Lucien,
Lucien, Lucien". Tomada de náuseas, corri para o lavatório e só
consegui cuspir; corri as cortinas, fixei o jornal e só consegui pe gálo
muito tempo depois. Estava na última página, na crônica da
cidade, com o título: "Trágico Acidente Na Saída de Mantes". Tive
de esperar ainda. Meus olhos recusavam-se a ler as escassas linhas
que noticiavam:


"Na quarta-feira de manhã, cerca das quatro horas, um jovem numa
motocicleta encontrou a morte na saída de Mantes. O motorista do
caminhão da Société Laitière que o atropelou fêz seu depoimento na
delegacia policial. A vítima, Lucien Letellier, de 22 anos de idade,
estava em tratamento no sanatório de Aincourt. A motocicleta usada
pela vítima fora roubada de um dos empregados daquele
estabelecimento. Segundo o depoimento de um motorista que vinha
atrás, o jovem seguia em alta velocidade e sem luzes. Aos pedidos
de passagem do veículo, êle aumentou a velocidade. Mantendo com
dificuldade a linha reta, foi esmagar-se contra o caminhão que vinha
em sentido contrário. A morte foi instantânea. Ignoram-se os motivos
que levaram o jovem a evadir-se de madrugada e qual era o seu
destino."

Eu ainda não começara a sofrer. Arranjei forças para sair, ir até à
agência postal e redigir um pneumático para Arezki. "Venha
depressa. É urgente. Elise." Henri e Ana não se encontravam em
seus domicílios. Chamei Aincourt. Informaram-me que Lucien
estava em Mantes.

Voltei ao hotel pelo lado do sol, como se isso ainda me pudesse dar
algum prazer. A ferida abriu-se então e o que se escoava de mim
esvaziava-me de toda a substância, deixando apenas a dor
triturando-me as entranhas. Subi a escada, ofegante, e, no quarto,
esmaguei o rosto contra os lençóis para abafar os gritos. O tempo
passava. Arezki não aparecia. Só consegui localizar Henri à noite.
Êle sabia. Ana também sabia. Estava em casa dele. Ela, contou

Henri, estava com uma crise de verdadeira loucura, trágica e
obscena.

— É pavoroso, Élise. Ainda não posso acreditar. Lucien! Êle vinha a
Paris, não é verdade? Era uma loucura. Para uma manifestação
inútil. Você já leu os jornais da tarde? Não seria preciso dizer, claro,
conte comigo, Élise. Iremos amanhã juntos a Mantes. Seja forte, você

sempre o foi. Até amanhã de manhã, não saia de casa, espere por
mim.
Arezki esquecera-se de mim? Não poderia vir?
Esperava que êle abrisse de repente a porta para me precipitar em
seus braços e chorar, chorar. De manhã, encontrei-me estirada sobre
a cama. Dormira e sonhara com Lucien. Um belo sonho colorido em
que brigávamos por coisas de nada. Quando Henri bateu à porta, eu
já estava pronta. Deixei um recado com o gerente, que o aceitou
contrafeito. Arezki podia vir na minha ausência, êle devia saber.

— Peço-lhe, Henri, que me faça um favor. Tenho de passar primeiro
pela Goutte d'Or.
E expliquei-lhe a razão.
Entrei sozinha no hotel e subi até ao quarto onde a polícia nos
surpreendera. Bati. Esperei. O homem que veio abrir indagou
rudemente.
— O quê? O que quer?
— Arezki. Queria vê-lo.
— Não está.
Pus-me então a chorar e disse-lhe, como se ele pudesse
compreender:
— Lucien morreu. . .
Desconfiado, começou a fechar a porta mas eu insisti.
— Tenho de vê-lo. Chamo-me Élise. Tenho coisas a dizer-lhe. Muito
graves.
O homem era muito feio e estrábico.
— Onde é que ele está? Poderia fazer chegar-lhe um recado meu?
Não me compreendeu.
— O quê? — perguntou ele. Insisti ainda. Então ele decidiu-se.
— Eles o pegaram na terça à tarde, à entrada do metrô.
— Ah, então foi isso?
— Foi. Só isso.

Claro, só isso. Nada mais. Um é apanhado, chega outro para o
substituir. "A revolução é um bulldozer. Ela passa..." E eu revia o
gesto arrasador.
Um velhote de grandes bigodes subia a escada.


— Desculpe, o senhor conhece Arezki?
— Eu não conheço ninguém.
A saia de lã fazia-me calor, colava-se-me às pernas. Henri esperava
na esquina da rua, farejando os odores da casbah, em conversa com
um argelino que, desconfiado, se fazia desentendido.
— Foi preso. Na terça-feira à noite. Quer esperar mais um pouco,
Henri? Vou num instante à casa de Fe-raht.
Era o restaurante onde tínhamos jantado algumas vezes. "O irmão
dele está casado com a minha irmã..."
— Eu acompanho-a, Elise. . . Feraht nada sabia.
— Eles têm encanado tantos. . .
— Para onde foi levado? Como poderei saber?
— Ah. . . isso. . . La Villette ou então. . .
— Eu não posso ir, Henri. Não posso. Tenho de saber.
— Mas você não vai saber nada, Elise! Quem a informará? A
polícia? Não pense nisso. Espere, tenha paciência. Eles talvez o
soltem.
Pensei subitamente em Mustafá. Paramos na Porte de Choisy e eu
esperei a saída. Corri quando a sirena uivou e cheguei diante do
portão quando o guarda o abria. As pessoas encaravam-me porque
eu suava e resfolegava. Passou Mustafá. Peguei-o pelo braço.


— Apanharam-no na terça, com Slimane, que já saiu ontem.
Supliquei-lhe que me levasse até Slimane.
— Não posso. Vou fazer com que me ponham na rua. Arezki não
tinha folha de pagamento.
Explicou-me onde vivia Slimane e desculpou-se, porque:
— É preciso comer.

Tive a tentação de o alcançar de novo para o informar da morte de
meu irmão. Mas que adiantava? O que é que isso mudaria? Mustafá
também endurecera, como Arezki. Iria arregalar seus olhinhos
pequenos, seria preciso contar como e quando fora, ali parados no
passeio, em pleno sol, em plena vida.
Henri, complacentemente, conduziu-me à rue de Chartres, o
endereço que me fora dado por Mustafá.

— Não foi só a questão da folha de pagamento. Sim, se êle a
apresentasse, talvez os tiras não o tivessem guardado, mas... não
posso dizer mais nada. Não sei nada.
— Na têrça-feira; por volta das nove horas, êle telefonou e disse-me:
"Vou para aí agora"...
— Eu sei, estava com êle. Discutimos num café e caminhamos até
ao metrô. Foi aí que nos prenderam.
— E depois?
— Depois... não sei nada. Eu estava legal. Êle, não vi para onde o
levaram. Fizeram a triagem e ficamos separados.
— Vamos, — disse Henri — seja razoável, Elise. Temos de partir
para Mantes. Você não vai conseguir agora qualquer informação
que preste. Na volta, se quiser, eu a ajudarei. Um pouco de
paciência.
Chegamos a Mantes na sexta-feira à tarde e regressamos a Paris na
segunda de manhã. Henri foi para mim uma grande ajuda. Eu fazia
exatamente o que êle me ditava. A minha dor era sincera, mas
tranqüila. Sentia apenas uma espécie de mutilação que as diversas
gestões, as idas e vindas, de Aincourt a Mantes, de Mantes a Paris,
anestesiavam ligeiramente. Henri disse-me que eu não devia ver o
meu irmão, que isso para nada serviria, que somente o seu belo
rosto de jovem louco devia, doravante, merecer os nossos
pensamentos. Aceitei docilmente. Parecia-me estar preparando para
Lucien uma cerimônia de que êle estava ausente, mas nada que se
assemelhasse ao vazio, à morte.

Saímos de Mantes na segunda-feira às sete horas. Eu imaginava
Lucien fugindo, afobado pela buzina do automóvel, julgando-se
perseguido, desajeitado, tremendo, enervado. "Que loucura, dissera
Henri. Para uma manifestação inútil..." Seria apenas isso? O desejo
de rever Ana não teria precipitado a sua decisão? A esta última
hipótese, em que não acreditava, Henri retorquira num tom impaciente
:

— Mas Ana fazia parte de um todo!
Ali, naquela paisagem plana, terminara a aventura de sua vida.
Vida frustrada, morte ridícula. Os jovens heróis do século morriam
ao volante, entre os roncos possantes de seus bólides, e êle matava-
se de motocicleta. Do seu fim não restaria, pois, senão uma imagem
caricatural, sem romantismo algum. Êle também quisera estar por
dentro do golpe. Acreditara que Paris rugiria, Paris apenas espirrara.
Lucien só existia agora em nós próprios, que o tínhamos
amado.

— E daí? — teria ele dito em sua voz cáustica. — E depois?
Passávamos por um povoado quando vi à beira de um passeio um
garotinho com duas bisnagas de pão debaixo dos braços e que se
preparava para atravessar. Ocorreu-me então uma canção
aprendida por Lucien na segunda classe e que ele repetia
incansavelmente no seu quarto, na escada, que assobiava na minha
cara, em tom desafiador:
Hanz de Tcheloquenoque tem tudo o que quer E aquilo que tem é o
que ele não quer E aquilo que quer é o que ele não tem.

Hanz de Tcheloquenoque diz tudo o que quer E aquilo que diz é o
que ele não crê E aquilo em que crê, isso ele não diz.


Hanz de Tcheloquenoque vai sempre aonde quer E aonde ele vai e
onde não fica E onde fica não está contente.

— Hanz de Tcheloquenoque, — dizia-lhe eu — é você! E durante
muito tempo, para seu grande furor, eu
assim o apelidara.
— Paris. Eis-nos chegados. Levo-a diretamente a casa, não é
verdade? Vamos pela avenida perimetral, será mais rápido.
Henri compreendera que eu não desejava conversar e ele viera
calado desde a nossa partida de Mantes. "Eis Paris." Palavras que
me despertaram.
Desde Mantes, pequena cidade graciosa, até à ponte de Saint-Cloud,
logo após o túnel que abre e encerra a auto-estrada, o verde das
árvores e dos campos, a indecisão do céu aqui pardo, além rosado, e
todas essas horas que eu acabara de viver nos murmúrios dos
corredores de hospitais, repartições administrativas, essa viagem a
Aincourt em que me tinham sido entregue os objetos deixados por
Lucien, o despertar três vezes no hotel quando, abrindo os olhos aos
latidos de um cão ou aos cacarejos de um galinheiro próximo, a
idéia terrível apunhalava essa alegria nascente e me deixava
estupidamente inerte, as orelhas latejando e zumbindo, o hálito
amargo, a contextura misturada dessas imagens e dessas emoções
envolvia-me toda, separada dos vivos: "Eis Paris." A tela rasga-se. O
campo e a brisa suave nas folhagens do verão próximo
prolongavam ainda o cerimonial fúnebre no que ele oferece de
apaziguador. Mas aqui começa a cidade, em seu transbordamento.
Um pêndulo marca a hora. As ruas são retilíneas e sem mistério. O
horizonte é agora um fragmento de céu entre dois edifícios
vizinhos. É profundamente azul. Vai fazer calor e as mulheres
puseram vestidos sem mangas e amplo decote. Árabes estão

abrindo um buraco num passeio. Contornado o viaduto de Auteuil,
as dificuldades multiplicam-se. É Paris. Caminhões carregados,
ônibus, é o começo de mais um dia. Depois da Porte de Versaüles,
rodamos em marcha lenta e observo as pessoas no passeio à minha
direita, como se elas pudessem responder à minha interrogação. É
que, no fragor da cidade, nas suas cores e amálgamas, acabo de
reencontrar Arezki.
Surgem os edifícios da Cidade Universitária. O ladrilho vermelho
de suas paredes evocam os colégios ingleses, tal como os vi nos
livros de estudo de meu irmão. Entre dois pavilhões, um roseiral e
jardins emprestam ao conjunto uma imagem de plenitude. Salas de
leitura, quartos de onde se pode enxergar a mancha das rosas contra

o verde. . . por causa de tudo isso, das velhas pedras e de alguns
estudantes que se dirigem para o boulevard, digo a mim própria que
Arezki não corre perigo. Mais adiante, saindo do pavilhão do
Marrocos, uma rapaz boceja, de camisa aberta. Estende o braço
livre. E mesmo que Arezki não voltasse, eu revolveria Paris de uma
ponta a outra. Há advogados, jornais. A vida de um homem tem
peso aqui. Alguns se levantariam para gritar, protestar, exigir. O 28
de maio não era um sonho.
Na Porte de Gentilly, a estrada inicia uma suave descida. O cimento
das arquibancadas do estádio da P.U.C, ofusca, batido pelo sol.
Num cartaz, leio "Poterna dos Álamos". A palavra lembra potência.
Artigos 76 e 78: " . . . atentado à segurança interna ou externa...".
Não o soltarão assim tão depressa.
Passamos diante de um monumento em pedra branca : "Às Mães
Francesas". As homenagens, a veneração, tudo isso vem depois,
quando já é demasiado tarde. A descida termina e subimos agora na
direção da Place d'Italie. Conheço-a bem demais, mal olho à
esquerda para a inscrição sobre aquela velha marafona de fábrica:
"Automóveis— Máquinas Industriais". Parece-me que chega até
mim o ruído enlouquecedor da linha de montagem. Sinto a tepi-dez
da chapa.

Quando entramos na descida de Charenton, as oscilações do carro
—o boulevard estava em obras de conserto da pavimentação —
agitam-me da esperança ao desespero e à angústia. E as recordações
misturam-se quando passamos diante da pequena praça ajardinada
de Limagne. Arezki dizia "de Limace". E eu gostava mais desta
palavra.
Na Ponte Nacional, à vista da água, penso nos cadáveres que ela
arrasta. Corpos que são jogados na corrente em certas noites de
batida e prisões em massa, na embriaguez do ódio; corpos da gente
fraca que falou demais e que a morte puniu. Insólito nesse lugar, o
Auberge du Régal vê passar os donos da estrada, os automobilistas e
os motoristas de caminhões, a quem nenhum sinal vermelho faz
parar.
Boulevard Poniatowski, onde se erguem aqueles edifícios da cintura
de Paris que cercam a cidade com sua fealdade do anteguerra.
Casas antipáticas, de fachadas rebarbativas, pedras baças, aberturas
indecisas, grandes pátios interiores privados de sol, aí vive toda
uma aristocracia operária com aspirações à burguesia. Pisada,
rechaçada, triturada pela indiferença e as idéias recebidas, qual é o
preço aqui da vida de um árabe? O gosto da ordem escorre dessas
casas. Recambiaram-no, expediram-no para a Argélia, para a
guerra. Por mais que eu gritasse, quem me escutaria? Se êle vive,
onde está? Se está morto, para onde levaram seu corpo? Quem me
dirá? Roubaram-lhe a vida, sim, mas de seu corpo que fizeram dele?
Na Porte de Vincennes o boulevard fraciona-se e, numa vasta
encruzilhada de artérias, elevam-se os novos edifícios de
apartamentos, claros, arejados, cujas varandas guarnecidas de
toldos azuis ou laranja evocam as tardes quentes em que se bebe um
copo exsudante, ouvindo um disco. Quem se preocupará com
Arezki?
Henri abrandou ainda mais a marcha. Vamos atrás de um caminhão
que vomita fumaça negra. Montreuil à minha direita e a rue d'Avron,
do lado oposto. Os imensos pátios do mercado des Halles


transbordariam da paleta de um pintor. A visão das pilhas de
frutas, das pirâmides de legumes, arranca mais um pedaço às
minhas esperanças. Para os montículos de primores hortícolas
convergem milhares de formigas que fazem como que uma muralha
protetora diante das bancas.
Na subida de Bagnolet para Les Lilás, o automóvel arrasta-se
vagarosamente entre dois ônibus. Num estaleiro de construção,
junto à Porte de Ménilmontant, grupos de operários descansam e
bebem. Amanhã, um deles não voltará e cinqüenta surgirão para
receber a sua pá. A obra não pára. Eles são tantos, são demais,
reserva inesgotável e sempre renovada.
Depois de Les Lilás, na curva que desce para o Pré-Saint-Gervais,
aparece o cenário de Aubervilliers, empalidecido pelas névoas secas
do calor. Na esplanada, vasto terreno baldio, uma estranha igreja
solitária faz nascer em mim o desejo de nela entrar, mas Henri
dirige agora velozmente e só depois da Porte de Pantin surgirão as
favelas daquela outra Paris que só vai a Paris para o 28 de maio.
Não é perigosa, é fácil de ludibriar, satisfaz-se com pouco. Entramos
no túnel sob a Porte de la Villette. Pressinto que nunca mais verei
Arezki.

— Obrigada, Henri.
— Se precisar de alguma ajuda, seja o que for, telefone para mim.
Promete? Eu chamarei uma noite destas, a respeito do seu amigo.
Não me parece que Ana deseje encontrar-se com você durante
alguns tempos, mas conviria evitar-lhe a completa solidão. O que
acha você, Elise?
Eu não pensava coisa alguma. O pesar de Ana era-me totalmente
indiferente. Henri não insistiu.
Nos dias subseqüentes, dormi muito. O sono chegava e eu o
absorvia como um calmante. Entre duas sonolências fui à fábrica e
solicitei a regularização e liquidação de minhas contas. Rever a
linha de montagem, a oficina, teria provocado emoções indesejáveis.
Não saí, portanto, do escritório do pessoal. Advertido da minha

presença, Gilles desceu. A sua compaixão, comedida porque
sincera, tocou-me fundo, mas eu não me atrevi a falar-lhe de Arezki.
Gilles extraía ensinamentos desses últimos dias com uma lucidez
impressionante e marchava para o futuro sem desânimos.

— Está decidida a voltar para a terra?
Que outra coisa poderia eu fazer? Concedi a mim mesma duas
semanas, antes de apanhar o trem. Iria a toda a parte, bateria em
todas as portas. O tempo do pudor já passara. Já não me custaria
entrar num café freqüentado por homens, indagar, ser vista e
julgada. Censurava-me terrivelmente, recordando-me das
hesitações, dos subterfúgios, das segundas intenções, que tinham
estrangulado a realização dos nossos projetos. Mas, ao mesmo
tempo que acusava a minha natureza, sabia ser incapaz de a dominar.
Arezki amara-me sem nada ignorar dos meus sentimentos,
jamais embaído, sem dúvida, pela veemência das minhas
promessas. Nunca me apressara, calculando que o tempo e a afeição
física me comprometeriam cada vez mais.
Uma noite fui a casa do tio de Arezki. Recebeu-me bastante mal.
Não queria histórias, dizia nada saber, nem mesmo que o sobrinho
fora preso. Sua face direita, da orelha ao nariz, apresentava uma
série de nódoas violáceas. A cafeteira estava invisível; fiquei
imaginando onde esconderia êle agora o vinho.
Voltei a Feraht, mas êle nada soubera de novo. Fêz-me sentar,
trouxe-me uma laranjada e falamos de Arezki, da guerra. Sua voz
traduzia uma secura aterradora e as palavras tortura, morte,
sofrimento ficavam vazias de significado ao sair de sua boca. Êle
sabia que também o prenderiam, mais dia menos dia, e que tudo
dependia de saber ficar calado. O desaparecimento de Arezki era
natural, inscrevia-se numa lógica fatal que só a mim comovia.
— A minha idéia é que eles o "recambiaram" para a nossa terra.
Mau negócio. Não são muitos os que lá chegam.
— Não poderá estar numa prisão daqui?

— E como poderemos saber? O remédio é esperar. Talvez tivesse
alguns documentos comprometedores com êle. Mas isso me
espantaria muito. Arezki era tão prudente.
— Não teria sido denunciado?
— Denunciado? Há alguns que afrouxam. Não é fácil agüentar
firme, quando se fica sozinho com eles, de mãos algemadas, com
sono e com fome. . . Não, não é fácil bancar o herói. Eles fazem o
que querem. . . não há testemunhas.
Quis deixar-lhe o meu endereço, o da casa da vovó, pois eu ia voltar
para a terra.
— Nada de papéis. Nada de endereços. É muito perigoso !
Por fim, reencontrei Mustafá. Diante dele não tive vergonha de
chorar. A minha dor comoveu-o. Consentiu em ficar com o meu
endereço e se um dia Arezki reaparecesse . . .

— Se eu não f ôr morto antes. . . — acrescentou êle. Faltava apenas
uma pergunta.
— O que significa Hawa?
— O quê?
Repeti, aplicando-me na pronúncia.
— Hawa? É Eva.
— Obrigada.
Quando lhe anunciei a minha partida, Ana perguntou muito
depressa:

— E o quarto?
— Pode ficar com êle, se quiser.
Sua voz ao telefone era ainda mais sibilante.
— Oh, eu não gosto do Lar. Estarei trabalhando daqui a pouco e. . .

— Venha no dia 22. A minha bagagem estará pronta e entrego-lhe a
chave.
— Bem, até breve. Ela desligou primeiro.
Recuso-me a imaginar o que me espera. A presença de Marie-Louise
é-me antecipadamente insuportável; a sua dor causa-me,
injustamente, horror. Ela é vítima e detesto-a. Também adivinho
que serei dura com a vovó e que, passados os primeiros
enternecimentos, fugirei a toda espécie de conversação. Precisarei
trabalhar e escolherei, sem dúvida, um daqueles ganha-pães em que
as relações humanas são inexistentes. A vida ideal terá durado nove
meses.

Ana acaba de sair. Do quarto e da minha vida. Revê-la-ei alguma
vez ? Ela desculpou-se.

— Vim muito cedo, mas não podia fazer outra coisa. Sim, fico com a
chave. Bata simplesmente a porta quando sair. Não a esquecerei,
Elise. Sim, já estou trabalhando. Na triagem postal eles admitem
auxiliares todos os verões. Tenho de partir, os ônibus são raros aos
domingos. Deixo a minha mala aqui.
Sua mão gelada tocou-me.
Ela acaba de fechar a porta e, para vê-la uma derradeira vez,
debruço-me da janela e sigo-a com os olhos. Cruzou a rua e dirigiu-
se para a travessa, na direção oposta à parada do ônibus. Um
automóvel sai lentamente em marcha à ré. O de Henri. Ele abre a
porta e Ana entra rapidamente.
O negro abismo da solidão não a sorverá ainda desta vez. Mas a que
ramo ela se pendurara? Lastimo-a. Ela sofrerá. Henri podá-la-á um
dia. Lucien continuará sendo a ferida sangrenta do seu sexo e do
seu coração.
"Aquela é você daqui a trinta anos", troçara ele, diante de uma velha
vagabunda. Com Henri, ela salva algumas semanas, alguns meses.

Virá vê-la naquele quarto. O gerente não se irritará. Na mesma
cama, cada um de nós terá conhecido "o breve quarto de hora de
ternura". Ana coloca Henri como um bálsamo sobre uma chaga.
Seus sucessivos amantes não serão mais do que isso, pensos colocados
sobre uma ferida, a de sua vida, mal construída,
congenitamente mutilada, capenga. Mas, depois de cada homem, a
chaga abrir-se-á ainda mais.
Que força nos faltou? Ou foi o fracasso que nos permitiu dominar
aquilo a que é fácil chamar o destino? Até que ponto somos
culpados? Essas belas flores que se misturam em nós às ervas
daninhas e venenosas, não terão servido, então, para outra coisa
senão enfeitarem coroas funerárias? O que deveríamos defender, o
que deveríamos conquistar, deixamo-lo para trás de nós. Henri e
outros como êle são os que lutam no nosso lugar. Que fariam eles
da vitória, se porventura a arrebatassem? Que se retire de mim,
quais vagas encapeladas da ressaca, tudo o que é pensamento. A
dor me espreita, oculta-se no meu futuro, camuflada em minhas
recordações; espera para me ferir, mas eu contorná-la-ei e defenderme-
ei obstinadamente. Expulsarei de mim até a mais longínqua e
insignificante imagem. Mas, sob as cinzas, a inevitável esperança
resistirá. Não sei para onde nem para que ela me impelirá. Sinto-a.
Cheiro-a em minha própria inumação. Indistinta, informe,
impalpável, mas presente. Retiro-me para mim mesma, sim, mas
não morrerei aí.


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Lançamento Livros Loureiro

 O Lado Gelado Da Vida - Claire Etcherelli
 
(links no final da pág.)



   Digitalização:  M. Loureiro
Livro de M. Loureiro (pai)

Sinopse:

Claire Etcherelli obteve com este romance a consagração do público e da crítica — Prix Femina, 1967. Nascida na região dos Países Baixos, aí estudou com uma bolsa, conseguida após a morte de seu pai pelos alemães, na última guerra. Foi para Paris nos tempos críticos da guerra da Argélia e, sem recursos, trabalhou numa grande fábrica durante 2 anos. Este recorte biográfico da escritora e o clima de tensão em que se encontrava a sociedade francesa surgem no romance através dos sonhos de "vraie vie", nutridos pela personagem principal — Elise —, e do conjunto fantástico, inteligente, revoltado, instável com que é iniciada nos ideais revolucionários. Elise apaixona-se por um ativista argelino, cujo comportamento e destino passam a constituir como que "o sal" da sua vida. Mas a vida autentica, livre, verdadeira que Elise ambiciona, e pela qual luta desde a adolescência, é uma imagem impossível. O racismo é sentido na sua ligação com Arezki, o argelino parisiense. Seu irmão morre. Também este não consegue resolver certas contradições da vida. E Elise regressa ao lar, esperando mesmo assim, que um dia se levante um vento quente que amenize "O Lado Gelado da Vida".




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